31 de dezembro de 2011

Discurso de Agradecimento



Passei um bom tempo sem ar.

Meus pensamentos flutuavam para algum lugar fora do meu alcance.

Eu não ouvia mais nem podia abrir a boca para falar mas o pior de tudo era a falta de ar impossibilitado de respirar meus pulmões começaram a arder pela falta de oxigênio o que tornava tudo ainda mais difícil e como consequência eu não conseguia mais pensar direito ou com clareza e as ideias rodavam dentro da minha cabeça e passei um bom tempo assim totalmente sem ar mais do que eu gostaria certamente bem mais do que eu imaginei que aguentaria e com meus pulmões queimando mesmo sabendo estar no fundo de tudo venci a ideia de que seria mais cômodo apenas deitar e esperar tudo passar e tomei impulso com os pés voltando à tona para finalmente respirar.

E, ao abrir os olhos, percebi que não estava mais em casa, mas sim no meio do mar. Em Florianópolis.


Ao meu lado, crianças brincando, casais namorando, pessoas nadando. Gritos, música, risadas. E o mar docemente salgado em volta de mim, com a água escorrendo pelo meu rosto. Paz. Acenei para a namorada e deixei meu corpo cair na água, boiando, sem rumo, sem pressa, sem hora marcada, sem prazos, sem culpa, sem dúvidas.

Mas com a certeza de jamais ter imaginado que o ano de 2011 terminaria deste modo.

Porque foi um ano difícil.

Não vou dizer aqui que foi o pior da minha vida, pois coisas boas também aconteceram durante 2011. Mas, como dizem por aí, a vida não é feita de anos, mas sim de momentos. E eu tive momentos bem difíceis ao longo de todo o ano de 2011 – desde o começo ao seu final. Todo o terceiro parágrafo deste texto serve para descrever eu, embaixo d’água até não aguentar mais, como alguns meses da minha vida ao longo deste ano.

Foi um ano de muitas mudanças. Algumas são extremamente óbvias, como as minhas tatuagens. Mas as mudanças foram muito além – e, em alguns casos, imperceptíveis para quem não convive comigo. Em 2011, “muita coisa mudou muito”.

Porque este foi o ano em que descobri meus limites. E não estou falando de limites físicos, mas sim emocionais. Infelizmente, paguei um preço alto demais para isso. Mas, na maioria dos casos, não adianta reclamar da conta quando ela chega, porque ela normalmente está correta.

É mais importante descobrir um modo de pagá-la. Ou, ao menos, de pagar a sua parte.

Enfim, o final de 2011 foi muito melhor e mais doce que seu início. E esta não é a grande vitória do ano. Minha grande conquista não envolve enxergar os últimos dias de 2011 como coloridos – isso seria fácil, já que todas as férias em uma cidade linda são ótimas. Minha vitória é enxergar tudo isso como o início de uma estrada que leva para um 2012 muito melhor.

E isso não seria possível sem algumas pessoas, que lutaram o ano inteiro por mim, mesmo sem eu pedir.

São pessoas que, ao longo do tempo, fizeram com que eu percebesse – de uma forma que passa longe do racional e que namora com o meu lado emocional – algo que pode ser resumido nos versos de uma música do The Who.

I don’t have to fight
To prove I’m right
I don’t need to be forgiven


Não preciso lutar. E não preciso ser perdoado.

E, sabe... No momento em que você percebe isso, você não precisa mais lutar porque a luta está ganha. No momento em que você percebe isso, você não precisa ser perdoado, pois simplesmente não há pelo que ser perdoado.

Remédios e terapia? Sim. Mas o elemento básico aqui é amor.

Amor de uma família que se importa, que se preocupa, que quer saber. Amor de uma família que convida, que visita, que telefona. Amor de uma família que pergunta se estou bem, se estou precisando de algo. Amor de uma família que deixa claro que está ali, ao meu lado.

Amor de amigos que, do meu lado ou em outras cidades, cuidaram de mim como eu cuidaria deles. Amor de amigos que deram broncas, foram sinceros, aconselharam. Amor de amigos que gastaram horas em dezenas de conversas. Amor de amigos que mostraram verdades que eu demoraria a enxergar sem eles.

Amor de leitores que estiveram aqui durante o anor inteiro. Amor de leitores que apoiaram, comentaram, torceram. Amor de leitores que mostraram que tudo o que eu escrevo – minha grande paixão – ainda faz diferença na vida das pessoas - e isso não tem preço.

Amor da Namorada que me guiou pela mão quando eu não conseguia mais enxergar. Amor da Namorada que me apoiou no ombro quando eu não conseguia mais andar. Amor da Namorada que surgiu no meio de uma tempestade, mostrando caminhos e fazendo com que eu jamais esquecesse a pessoa que sou.

Amor da Namorada que não apenas explica e multiplica todos os outros amores que carrego, mas dá sentido a todos eles. Pela coragem e sinceridade, pela doçura e carinho, pela transparência e alegria, ele se torna o amor a ser seguido e o amor a ser amado. O Amor de Todos os Amores.
Sem o amor dela, eu não conseguiria compreender novamente o amor. E, sem isso, eu seria incapaz de enxergar os meus outros amores.

Assim, é graças ao amor dela que eu estou de pé aqui, hoje, agradecendo ao amor de vocês. 

Obrigado.

 
Foi graças a vocês que eu, totalmente submerso, voltei à tona e respirei. Foi graças a vocês que uma enorme névoa se dissipou e uma pedra enorme – que não era e nunca foi minha – caiu dos meus ombros. As costas ainda doem um pouco, mas já é possível andar com as duas pernas. Foi graças a vocês que voltei a enxergar com clareza o maior mandamento da minha vida:

O segredo não está no passado, está no futuro.

E é graças a vocês todos que eu me sinto amando também o meu futuro.

Assim, eu começo 2012 andando de mãos dadas com a Namorada pelas ruas de Florianópolis e fazendo planos. Planos de vida, planos de futuro. Um sonho aqui, uma vontade ali. E sempre tomando cuidado para não dar o passo maior que a perna, mas se permitindo ousar um pouquinho – e olhando para o céu e sorrindo aquele sorriso de “eu mereço”.

Obrigado a todos vocês que me mostraram justamente isso: o “eu mereço”. Um "eu mereço" sincero e transparente.

Obrigado a todos que permitiram que eu olhasse para o abismo e aguentasse o abismo olhando de volta para mim.

Dizem que o amor, quando é verdadeiro, resiste a tudo – até mesmo ao tempo. Eu tenho a sorte de ter o amor de muitas pessoas que, mais que resistir ao tempo, tem o poder de alterá-lo.

Sim, alterar o tempo. Vocês tem este poder, e talvez nem saibam disso.

Foram vocês que fizeram com que meu ano de 2011, um dos mais difíceis da minha vida, tivesse apenas 360 dias. Pois ele acabou no momento em que eu coloquei os pés em Florianópolis. De lá para cá, já é 2012 na minha vida – a queima de fogos será uma mera formalidade.

E isso graças a vocês. Porque a luz mais importante e mais bonita de todas, foram vocês que me mostraram, há bastante tempo.


Muito obrigado por isso. Eu jamais me esquecerei.

Feliz ano novo.

Feliz ano novo para todos nós.


(As fotos são da Namorada,
que fotografa muito melhor que escrevo.)

30 de dezembro de 2011

O 2012 Ideal



Todo final de ano, nós trocamos votos com os amigos e familiares.Normalmente, desejamos para as pessoas que amamos um ano repleto de saúde, paz, prosperidade e felicidade. Fazemos isso de forma sincera, seja em abraços apertados ou em e-mail rápidos e curtos, decorrentes da correria de final de ano.

Mas desejamos de forma sincera, e eu, especialmente, procuro sempre ouvir o mesmo dos outros com o coração aberto. E desejo a todos de volta da mesma forma: com a maior sinceridade e amor que consigo. Mas e se tivéssemos que desejar algo para a humanidade? Qual seria o voto ideal para todos nós em 2012? Ou, indo ainda mais adiante, os votos que desejaríamos para o planeta?

Acho que tudo o que mencionei ainda seria óbvio. Imagine um ano com todo o planeta esbanjando saúde, paz e prosperidade? A felicidade seria tão óbvia que não precisaria nem ser desejada.Mas, mesmo assim, eu gostaria de fazer um voto especial para o ano de 2012 do Planeta Terra

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24 de dezembro de 2011

Carta (Aberta) ao Papai Noel


Caro Papai Noel:

Como você deve ter percebido em alguns momentos, o ano de 2011 não foi fácil para mim, por muitos motivos. Assim, caso eu fosse uma pessoa egoísta, me sentiria no direito de pedir um monte de presentes, somente para compensar tudo o que atravessei nos últimos meses.

Mas eu não vou fazer isso, e o senhor sabe disso.

Na verdade, eu queria pedir um único presente. E, assim como na maior parte das cartas que o senhor deve receber, o meu pedido é: um brinquedo.

Não se trata de um carrinho ou de uma bola. Também não é um bonequinho, nem um jogo. É um brinquedo diferente dos que o senhor fabrica no Polo Norte, mas é o meu brinquedo preferido. É o brinquedo que eu peço todo Natal, já há alguns anos.

Eu quero escrever para sempre. Eu quero escrever cada vez mais e cada vez melhor.

E não estou falando de escrever para ganhar dinheiro – eu jamais pediria isso para o senhor – mas sim para escrever me sentindo como uma criança com um brinquedo novo, feliz da vida a cada frase, e sorrindo sem parar a cada parágrafo.

Quero criar mundos maravilhosos e personagens cada vez mais humanos; quero construir diálogos engraçados e devaneios amorosos. Quero me apaixonar por trechos, quero rir alto escrevendo, quero me orgulhar, cada vez mais, do que escrevo e da pessoa que sou enquanto escrevo.

Isso é tudo o que eu quero nesta natal: que o senhor faça com que eu nunca perca paixão por escrever. Porque, desde que o senhor me deu de natal um “saber escrever”, isto se tornou meu brinquedo preferido. E eu, como menino que escreve, quero brincar cada vez mais e mais com isso.

E eu prometo que se o senhor me der isso de presente, eu serei um menino bom ao longo de todo o ano. Porque eu prometo que vou usar este presente para dar presentes a todos os meus leitores.

Prometo que sempre vou usar este presente para o bem. Prometo que vou fazer de tudo para provocar – e nunca arrancar – risadas sinceras dos leitores. E, se eles chorarem, eu cuidarei para que meus textos façam com que as lágrimas sejam doces e felizes.

Que não sejam apenas risadas, mas sim gargalhadas, daquelas que soltamos somente ao lado de quem nós amamos. E que o choro seja feito de lágrimas bonitas, como aquelas que deixamos escapar no Natal.

Aliás, acho o senhor já me atendeu, porque acabei de encontrar uma frase que resume exatamente o que eu quero dizer:

Prometo que vou usar este brinquedo para inventar textos que transformem alguns minutos nas vidas das pessoas em um pequeno Natal.

Porque, de todos os brinquedos que o senhor me deu até hoje, escrever é o meu preferido, como eu disse acima. Assim, nada mais justo que eu o compartilhe, cada vez mais, com as outras pessoas. E sempre da melhor forma possível. É a única maneira que eu conheço de agradecer por este presente.

Espero que o senhor receba esta cartinha antes da meia-noite.

Um feliz natal para o senhor e para todos os duendes.

Com amor,

Rob

**********

Nota do autor – Este não foi o primeiro natalino que fiz este ano. Na verdade, é o terceiro: o primeiro, feito para a Lipton, relata o primeiro Natal do qual me lembro, e está aqui; o segundo é um pequeno conto de Natal publicado aqui, no Malvadezas.

E, agora, eu gostaria de desejar um Natal maravilhoso para todos vocês que estão aí, do outro lado desta tela, lendo o que eu escrevo. Quero desejar um natal repleto de paz, felicidade e muito, muito amor.

E, a todos os leitores que já comentaram a respeito deste blog com seus pais, namorados(as) e irmãos(ãs), um pedido especial: transmita meus votos mais sinceros do mundo de "Feliz Natal" a eles. Digam a eles que “o cara daquele blog que eu falei uma vez deseja um feliz natal espcificamente para você".

Porque, se o Natal tem um significado, ele é justamente este: família.

Feliz Natal!

22 de dezembro de 2011

O Nome das Coisas


Desde que eu redescobri a Brunella, perto da casa da Namorada, tomei para mim uma missão sagrada. Convencer as vendedoras de lá que o meu doce preferido não se chama bolo triângulo. Este pode ser até o nome científico dele, mas serve somente para catálogos.

Assim, nas primeiras vezes que fui até lá, me recusava a pedir o doce de uma forma diferente da que eu o chamava quando criança. Sempre dava confusão, e eu sempre precisava explicar direito o que queria.

E, claro, elas sempre me olhavam como se eu fosse um débil-mental.

Isso, claro, até outro dia. Entrei na Brunella e fui até o balcão de doces.

Minto, entrei na Brunella e olhei para o balcão de doces. Assim que vi meu doce preferido, fiz minha dancinha da vitória no meio da loja. Eu sempre faço esta dancinha lá dentro, o que certamente deve reforçar ainda mais a minha imagem de "cliente preferencial e débil-mental".

Neste dia, me aproximei do balcão de doces e a vendedora falou antes de mim.

- Deixe eu adivinhar. Você vai querer duas cabaninhas, certo?

Missão cumprida.

Eu sorri. Ela sorriu. Ficou sendo uma brincadeira só nossa.

Naquele dia, para comemorar, eu comi três cabaninhas.

Nenhum bolo triângulo, mas sim três cabaninhas.

21 de dezembro de 2011

O Ajudante do Papai Noel




Eu devia ter uns três ou quatro anos.

E, como toda criança dessa idade, o Natal, para mim, começava muito antes de 24 de dezembro.

Semanas antes, a casa começava a ganhar cores e perfumes natalinos: eu escrevia a cartinha para o Papai Noel (e ficava surpreso ao acordar no dia seguinte e ver que ela não estava mais sob o travesseiro); montava a árvore junto com minha mãe, encantado com as bolas de diferentes cores e formatos; e, claro, passava horas procurando os presentes pela casa ao lado do meu irmão.

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20 de dezembro de 2011

Frasco a Frasco com o Inimigo

Esta aconteceu quando eu tinha uns 15 anos de idade.

Antes de continuarmos, vale a pena explicar que você pode ser uma pessoa que estava com 15 anos de idade alguns anos atrás. Aliás, talvez você tenha 15 anos hoje. Eu não. Meus quinze anos se passaram há muito tempo. O século 20 estava longe de dar seus últimos suspiros. Era uma época mais tranquila. Vivíamos num mundo sem internet, sem DVDs, sem telefones celulares.

Vivíamos num mundo sem xampu de Jaborandi.

Ou quase isso. Na verdade, o xampu de Jaborandi já existia, mas nada era fácil como hoje, com ele sendo vendido em qualquer farmácia. Naqueles tempos, ele só era encontrado em algumas poucas farmácias de manipulação (creio que em somente meia dúzia sendo que uma delas ficava em Saturno).

E, para mim, era um mundo mais tranquilo.

Agora que eu expliquei a época em que vivíamos, é hora de contar a vocês sobre a minha avó. Poucos anos após a morte do meu avô, minha avó, mãe da minha mãe, tornou-se uma nômade. Como aquelas pessoas pré-históricas que ainda não haviam dominado as artes da caça e da agricultura, ela se mudava constantemente de endereço, ficando hospedada uma semana, aproximadamente, na casa de cada filha. Assim, ela podia sempre ver as filhas e os netos, sem ficar muito tempo no mesmo lugar.

Uma de suas filhas – a mais velha, também já falecida – morava no Ipiranga. Coincidentemente, próximo a uma farmácia que vendia o xampu de Jaborandi, o único que a minha avó usava (por algum motivo qualquer que eu, moleque de 15 anos, nunca prestei atenção o suficiente para decorar).

Ou seja, a cada três semanas minha avó passava uns dias na casa desta tia minha, e aproveitava este tempo para renovar o seu pequeno estoque de xampu. Afinal, ela tinha três endereços. E três endereços demandam três frascos de xampu de Jaborandi.

Agora podemos começar a história de verdade.

Chovia torrencialmente em São Paulo.

Sim, eu sempre quis começar uma história com “chovia torrencialmente em São Paulo”, mas juro que não coloquei esta frase por causa disso, mas sim porque chovia torrencialmente mesmo. Sabe aquelas chuvas que, em segundos, encharca não apenas suas roupas, mas sim tudo o que você carrega nos bolsos, suas cuecas, meias e ossos? Era uma chuva destas.

E, como acontece sempre que chove deste jeito em São Paulo, eu estava fora de casa.

Aliá, sempre que você estiver em dúvida se vai chover ou não, basta me ligar e perguntar onde eu estou; quanto mais longe de casa eu estiver, maior a probabilidade de chover. Se eu estiver longe de casa e num bairro sem metrô, coloque suas galochas porque Noé já está construindo uma nova arca e fazendo um checklist de animais que devem ser salvos.

Enfim, eu estava na rua, encharcado e correndo desesperadamente para casa. Era o meio da tarde e, ao entrar em casa, percebi que estava sozinho. Ainda na sala, comecei a tirar as roupas: os tênis e as meias, ambos encharcados; a camiseta se desfazendo em minhas mãos. Larguei tudo num canto e fui para o andar superior, em busca de uma toalha. Meus planos eram me secar o suficiente para levar a roupa para a lavandeira, tomar um banho e jogar um pouco de videogame ou ler uma história em quadrinho. Mais nada. Juro.

Eu não tinha intenção de fazer nada do que aconteceu depois. Juro.

Ao subir a escada, vi que um frasco do xampu de Jaborandi estava logo depois da curva – na casa da minha mãe, a escada tem 15 degraus, e uma curva logo depois do quinto ou sexto degrau. Minha avó havia passado por ali antes de mim, vindo do Ipiranga. Eu conhecia minha avó: ela havia passado em casa e saído; mas antes deixara um xampu num cantinho da escada, para levar ao banheiro do andar superior mais tarde, quando subisse para dormir. Ela sempre fazia isso.

Eu subi, deixando um rastro de água pela escada, e peguei uma toalha. Comecei a me enxugar, ainda vestindo calças jeans que pesavam 35 kg por causa da água.

E imediatamente me lembrei das minhas roupas num canto da sala, molhando o chão. Eu não tinha muitas responsabilidades na vida – e as poucas que tinha, ignorava totalmente – mas até eu sabia que deveria descer e recolher aquelas merdas antes de ensopar ainda mais a sala.

E, ainda me enxugando, desci.

Em minha defesa, eu poderia falar que escorreguei. Vocês devem ter calculado que o chão da escada estava molhado, qualquer um poderia ter escorregado. O álibi era perfeito. Eu escorreguei. E quase caí! Verdade! Eu quase morri! Eu poderia ter quebrado o pescoço!

Eu poderia dizer tudo isso aqui, mas não seria verdade. Eu não escorreguei, eu não tropecei. Nada disso. Eu não caí, nem quebrei o pescoço.

Quem caiu foi a porra do frasco do xampu.

O que aconteceu na verdade foi que, eu fiz a curva na escada, enxugando as costas ou a barriga. A toalha bateu no maldito frasco de xampu, fazendo o maldito xampu de Jaborandi rolar escada abaixo, e rindo de mim durante a queda.

Sem quebrar.

Rolando.

Caindo.

Intacto.

Até o último degrau, quando ele tomou um impulso e saltou no ar, dando três piruetas e aterrissando no chão da sala, ao lado da porta. Aliás, ele não aterrissou; ele explodiu no chão, jogando xampu para todos os lados e fazendo a sala inteira imediatamente cheirar igual à cabeça da minha avó.

Eu fiquei parado, segurando a toalha e pingando, observando a cena. Uma poça de xampu, com quase um metro de diâmetro, jazia aos pés da escada, com os cacos verde-escuros boiando sobre o líquido grosso.

O xampu da minha avó. A sala da minha mãe.

Tentei encarar a situação de diversas maneiras possíveis, mas todas elas levavam ao mesmo fim: o meu. Estávamos falando da minha morte. E ela não seria rápida, nem indolor.

Mas, talvez, se eu conseguisse reparar um dos erros, minha sentença poderia ser comutada. Com sorte, eu seria condenado apenas à prisão perpétua no lavabo da sala. Passaria o resto da vida trancado ali, sendo alimentado com restos de comida e bebendo água da torneira. E, caso eu fizesse algum barulho, minha mãe sempre poderia dizer para as visitas que “não reparem, é só o gato”.

Mas mesmo isso era melhor que a morte. Assim, decidi reparar o único erro que eu poderia consertar naquele momento: a sala da minha mãe.

O que me levou a outro enigma: como limpar uma poça de xampu? Eu não fazia ideia disso. Na verdade, eu ainda não faço. Eu não sou bom com serviços domésticos. Sei que vassouras servem para varrer, espanadores para tirar pó e aspiradores para assustarem o cachorro, mas só. E sim, eu sabia que panos servem para secar, mas eu não tinha certeza se isso valia para xampus ou somente para água, então decidi não arriscar.

Tudo o que me sobrou foi o rodo. De repente, tudo fez sentido. Eu passaria o rodo pela sala, tirando o excesso do xampu. E, com a sala mais seca, o pano poderia resolver.

Larguei a toalha num canto (já que molhar a sala era o menor dos meus problemas) e fui em direção à lavanderia. Atravessei a cozinha e dei de cara com o freezer. A cozinha da casa da minha mãe tem duas portas; uma leva para a sala e a outra para uma espécie de despensa. De frente a esta porta, ficava o freezer.

E, acima do freezer, estava o terceiro frasco de xampu de Jaborandi.

Agora a conta fechava. O primeiro havia ficado na casa da minha avó, no Ipiranga; o segundo, que ficaria na minha casa, estava escorrendo pela sala; e o terceiro era este, sobre o freezer, esperando para ser guardado em uma bolsa e ser levado para a casa da minha terceira tia. Minha avó havia deixado esse terceiro frasco ali, pois seu quarto era ali perto (a despensa era à direita; o quarto dela, à esquerda).

Minha situação havia melhorado. Com a sala limpa e um frasco inteiro de xampu, eu poderia tentar reverter minha pena para vinte anos de trabalhos forçados. Provavelmente eu ainda passaria esse tempo no lavabo, descascando batatas, mas um dia seria solto.

Passei pelo freezer e virei à esquerda – as vassouras ficavam cerca de um metro depois dele. Apanhei o rodo, dei meia-volta e fui para a sala.

Ou não.

Assim que terminei de fazer a curva da lavandeira (com o rodo apoiado no ombro) e entrei na cozinha, ouvi o som de um trovão, logo depois de eu sentir o cabo do rodo batendo em algo. Por outro lado, o barulho não havia vindo dos céus, mas sim de algum lugar atrás de mim. Algum lugar atrás de mim e perto. Bem perto.

Temendo pelo pior, respirei fundo e girei lentamente.

Aos pés do freezer, uma poça de xampu de aproximadamente um metro de diâmetro emporcalhava o chão. Cacos verde-escuros boiavam sobre o líquido, e em alguns deles era possível ver pedaços do rótulo. Até mesmo a palavra Jaborandi estava estilhaçada.

Dois frascos. Dois frascos em menos de dois minutos.

Se eu pegasse um helicóptero, chegasse rapidamente ao Ipiranga e quebrasse o terceiro frasco, poderia até entrar no Guinness como o maior destruidor de xampus do planeta. Isso, claro, se minha mãe e minha avó não abatessem a aeronave disparando uma bazuca, do alto de um prédio, na minha direção.

Cerca de meia hora depois, a porta da sala se abriu. Do tapete da sala – onde eu estava deitado em posição fetal, ainda com as calças molhadas e tendo uma síncope nervosa – eu vi um cogumelo se aproximar. Sim, um cogumelo, parecido com aqueles que dançam no começo do Fantasia, da Disney. Tinha pouco mais de um metro de altura. Achei que estava delirando, mas quando agucei os olhos, vi que se tratava da minha mãe com seu guarda-chuva.

- RRRRRRRRROB! O QUE É ISSO NO CHÃO DA SALA?

Eu continuava deitado em posição fetal, perdendo cada vez mais o contato com a realidade.

- Porfavornãoperguntexampuxampurguntepxampuxampuorfavornãopergunte

- ISSO É O XAMPU DA SUA AVÓ?!

- Porfavornãoperguntenãofoiculpaminhaporfavornãofoiculpaminhanãoperguntexampu

- VOCÊ QUEBROU O XAMPU DA SUA AVÓ?

- Porfavornãofoiculpaminhaxampuxampuxampuxampunãoperguntepergunte

- EU VOU PEGAR UM PANO E LIMPAR ISSO! E VOCÊ QUE SE ENTENDA COM A SUA AVÓ QUANDO ELA CHEGAR!

- Porfavornãoperguntexampuxampuporxampuxampuorfavornãopergunte

- LEVANTA DESSE TAPETE E VAI COLOCAR UMA RRRRROUPA! EU VOU ATÉ A LAVANDERIA!

- nãovánãovánãováxampuxampuxampuporfavorxampunãomematenãomemate

- O QUE É ISSO AQUI NO CHÃO? VOCÊ QUEBROU O OUTRO XAMPU? VOCÊ QUEBROU OS DOIS XAMPUS?

- nãomemateporfavoreuvouemboradecasaeninguémmaisprecisamevernãomate

Horas depois, minha avó chegou em casa e começou o julgamento. Acusado de homicídio culposo de dois xampus, minha pena foi atravessar a cidade e ir ao Ipiranga, no dia seguinte, comprar dois frascos novos.

E, como o Ipiranga é longe de casa, é evidente que choveu. Muito. Na ida e na volta.

E se você acha que a pena foi leve, é porque além de ser condenado, eu sofri uma maldição. Minha mãe e minha avó imploraram aos deuses dos xampus que eu fosse punido pelo meu crime hediondo. Minha vida seria poupada somente para que eu fosse atormentado por ofender aos deuses dos xampus.

Esta é a história da minha calvície.

19 de dezembro de 2011

Férias de Todos os Dias




Minhas férias perfeitas podem ser no campo ou na praia. Aliás, podem ser até mesmo na cidade. Não faço questão de um hotel de luxo, com serviço de quarto e frigobar lotado. Pode ser uma casa com um quarto modesto, uma cama macia, um teto. Uma casa pequena, mas aconchegante.

Minhas férias perfeitas têm uma varanda, com algumas plantas e uma rede para eu ler um livro enquanto a noite cai, com meu cachorro aos pés. Na sala, nada de especial. Alguns minutos de internet para não perder o contato com os amigos, um aparelho de som com uma música que eu goste. Um punhado de revistas largado no sofá.

Minhas férias perfeitas têm um passeio por dia. Não precisa ser nada inesquecível. Não quero um cartão-postal todos os dias, quero apenas conhecer um lugar novo. Um prédio, uma cachoeira, um restaurante com algum prato que eu nunca tenha comido ou uma bebida nova para experimentar. Quero pessoas novas, histórias inéditas, piadas que não imagino o final.

(Leia mais aqui)

15 de dezembro de 2011

Isopor

As coisas que eu deixei para trás, achando que não voltariam mais, continuam aqui, sempre comigo.
Mesmo que a gente tente disfarçar, tudo está fora de lugar, sozinho não posso seguir. Eu não consigo sem você aqui.
Mesmo que a gente tente descobrir um novo motivo para sorrir, sei que jamais será igual. Eu já sei como será no final.
Não posso mais viver te procurando em pessoas que não são, nem de longe, tudo o que você já foi para mim.
Vai, volta, um olhar, te encontrar, aceita.
No final.
LunaBlu, sempre comigo.


Eu não consigo achar nada com palavras jogado na rua que vou olhar de perto, para do que se trata. Este texto eu encontrei algumas horas atrás, próximo ao Parque da Aclimação. Escrito à caneta e com alguns erros de português.

Achei forte. Forte e, certamente, dolorido. E, apesar do nome LunaBlu estar no final, ele certamente pertence à destinatária desta carta-desabafo.

Pensei algumas horas em como usar isso no blog. Queria compartilhar com vocês, achei interessante. Até pensei em deixar vocês criarem algo e transformar em crônica, mas, agora... Não sei. Não sei mesmo. Deixo na mão de vocês. Se vocês quiserem tentar, podemos ir em frente. Vocês mandam.

Mas fico pensando... Quem escreveria algo tão forte em uma embalagem de isopor?

Sim, isso estava escrito em isopor.

Foi o que me chamou a atenção logo de cara, quando passei por perto dela.

Que tipo de amor faz isso? Porque é uma carta repleta de solidão, de saudade, escrita com o coração partido, mas conformada. Quase desesperançada. Amarga, com certeza. Mas conformada. É uma carta que entrega os pontos, que admite com os ombros caídos que não dá mais, que é impossível seguir, mesmo porque não há mais propósito em seguir.

O mundo está cheio de crônicas andando por aí, então certamente existe uma história por trás destas frases. Talvez ela seja fantástica, talvez ela seja ridiculamente banal.

Eu gosto de pensar que ela é fantástica. Mesmo porque toda história de amor é fantástica, ao menos para quem a vive.

Agora, enquanto escrevo isso, está começando a chover. Provavelmente, esta “carta” iria ser levada pelas águas e se perder dentro de um bueiro. E, o que é bastante provável, nunca seria lida. Morreria esquecida.




Mas, aqui, ela vai viver eternamente.

Ao menos aqui,

No final.

LunaBlu. Sempre com ele.


******************
Atualização:

A leitora Karina afirmou, nos comentários, que o bilhete na caixa de isopor poderia ser uma música, com indicações para acordes e solo. Talvez ela tenha razão. Fui olhar a letra novamente e vi que, sim, alguns pedaços rimam de propósito, e poderia ser divididos em estrofes. Assim, reestruturei o texto da seguinte forma:

As coisas que eu deixei para trás,
achando que não voltariam mais,
continuam aqui, sempre comigo.

Mesmo que a gente tente disfarçar,
tudo está fora de lugar,
sozinho não posso seguir.
Eu não consigo sem você aqui.

Mesmo que a gente tente descobrir
um novo motivo para sorrir,
sei que jamais será igual.
Eu já sei como será no final.

Não posso mais viver te procurando
em pessoas que não são, nem de longe,
tudo o que você já foi para mim.

Vai, volta,
um olhar, te encontrar,
aceita.
LunaBlu, sempre comigo.


Vale lembrar que a primeira e quarta estrofes estão incompletas, com a ausência de um quarto verso que rime com o primeiro. E a quinta estrofe é toda incompleta, com uma rima somente no segundo verso (um olhar, te encontrar).

Assim, tomei a liberdade de completar a música com os trechos em negrito - mantendo a ausência de rimas no último verso, que explica a letra inteira.


As coisas que eu deixei para trás,
achando que não voltariam mais,
continuam aqui, sempre comigo.
Vivendo em uma espécie de castigo.

Mesmo que a gente tente disfarçar,
tudo está fora de lugar,
sozinho não posso seguir.
Eu não consigo sem você aqui.

Mesmo que a gente tente descobrir
um novo motivo para sorrir,
sei que jamais será igual.
Eu já sei como será no final.

Não posso mais viver te procurando
em pessoas que não são, nem de longe,
tudo o que você já foi para mim.
Pois você é a única que é o “sim”.

Vai, volta, não me solta
um olhar, te encontrar,
aceita, torna a vida perfeita
LunaBlu, sempre comigo.


Não deu para brincar muito em cima do original, porque é difícil encontrar rimas (com sentido) em algo já escrito, mas isso poderia funcionar – sugestões melhores, claro, são bem vindas.

Mas um adendo: não sei se a música seria sertaneja, já que não há indicação do ritmo. Mas, ao que tudo indica, seria sim. Evidentemente, não vou começar a gostar de sertanejo por causa disso, mas já posso dizer que esta é minha música sertaneja preferida.

Ah, e eu manteria o “no final” na letra (apesar da Karina ter apontado que isto indica o solo, pois gosto. Acho forte.

Espero que nunca gravem, porque gosto dela assim, no meu imaginário.

13 de dezembro de 2011

O Caso da Gordinha Mentirosa

Foi ontem, voltando para casa.

Eu estava no ônibus, lendo, e ela sentou ao meu lado. Gordinha, cabelos curtos. Por volta de seus 25 anos. Assim que se sentou, sacou o celular do bolso e ligou. Eu não consegui mais ler e fiquei apenas olhando o livro e prestando atenção no que ela dizia.

- Amor? Eu fiquei muito brava com você hoje! Muito brava mesmo! Com aquela mensagem que você deixou no Messenger para mim. A que você deixou antes de sair. Eu respondi! Você viu? Ah, que bom que você não viu, porque eu fiquei furiosa na frente do PC com o que você disse! Fiquei muito puta com você, de verdade! Você tem que entender que eu não respondo você porque estou ocupada, e você não tem o direito de achar que depois que você vai embora eu coloco o Messenger no disponível! O meu Messenger está sempre no ocupado, porque eu estou sempre ocupada! Tanto é que eu uso o Messenger apenas para falar com você! Não, o meu Messenger está sempre no ocupado! Eu faço questão de colocar ele no ocupado, todos os dias, porque meus dias estão muito corridos e eu não posso ficar conversando com todo mundo! Por isso que ele está sempre no ocupado, e não somente quando eu estou conversando com você! Eu tive que mandar as coisas para gráfica, e ainda nem defini com o Luiz sobre os anúncios. E já estão me cobrando que eu tenho que entregar tudo esta semana! Isso, aqueles anúncios que te falei. Então, me responde, você acha que minha semana vai ser fácil? Não, certo? É por isso que eu demoro a responder, e não porque estou falando com os outros! É por isso que eu sempre coloco o meu Messenger no ocupado! Não, não me importa se as outras pessoas da empresa deixam o Messenger no disponível, eu sempre coloco no ocupado porque não posso ficar conversando. Não, quando eu fico offline é porque o PC deu pau e eu tenho que reiniciar. Aquilo dá pau toda hora! Só hoje foram duas vezes! E ainda tem o telefone que toca o tempo inteiro, todo mundo me procurando para alguma coisa. Fiquei muito puta com o que você falou! Você realmente acha que eu não quero falar com você, que eu não quero saber da sua vida! Ah, certo! Eu nunca quis saber nada da sua vida, né? Não, eu já disse, o PC dá pau e eu tenho que reiniciar! E aí quando eu reinicio, nem olho o Messenger, não olho nem se ele conectou ou não, porque eu estou sempre ocupada fazendo outras coisas! Porque eu tenho mais o que fazer naquela mesa do que ficar olhando para ver se o Messenger conectou! Eu só uso o Messenger para falar com você! E você ficar falando que eu só não converso com você é muito egoísmo! Fiquei muito puta com você! Fiquei furiosa, de verdade! Não, mais tarde a gente conversa! Não, não quero falar mais! Não, deixa! De noite a gente conversa, mas nunca mais fale isso para mim, porque eu uso o Messenger somente para conversar com você! Então não diga que eu não estou nem aí para você! Você é muito egoísta! Tchau!

Não ouvi nada do que o namorado dela disse, mas estou certo de que ele se arrependeu e pediu desculpas. Ou, ao menos, tentou.

E, claro, ela não somente não o desculpou como ainda vai demorar a perdoá-lo. Ou seja, o cara ainda vai pastar na mão dela, fazendo de tudo para mostrar que está arrependido pelo que disse e pela discussão até ela se convencer disso, o que deve acontecer dias depois de ele se sentir a pior pessoa do planeta.

E injustamente.

Porque, no momento em que ela desligou o telefone, minha vontade era dizer:

- Talvez o seu namorado seja tão apaixonado por você que não consegue perceber o quanto você é mentirosa. Mas você é mentirosa. Você é mentirosa e sabe disso.

Porque ela está mentindo para ele. Aliás, pela forma que ela manipulou o sujeito, invertendo a situação com segurança e crueldade, não deve ser a primeira vez – e provavelmente não será a última.

Mas isto, claro, é apenas um palpite meu.

A única certeza que tenho é que ela estava mentindo nesta conversa.

Algum dos leitores quer brincar de detetive e se arriscar a dizer, aqui nos comentários, em qual momento da conversa ela se entregou na própria mentira?

Divirtam-se.

11 de dezembro de 2011

Altos e Baixos. E Correntes.

Quando eu era criança, me lembro de ter lido uma história do Fantasma. Na verdade, era uma aventura de um dos antepassados do herói (tenho quase certeza de que era o 13º da linhagem, mas posso estar enganado), na qual ele era aprisionado por um grupo de vilões. Escravizado, era obrigado a passar todos os dias dando voltas ao redor de um poço – no qual ele havia sido acorrentado – empurrando um pedaço de madeira.

Nas últimas semanas, minha vida se tornou uma montanha russa, com alguns altos e baixos no que diz respeito à depressão e à “quase síndrome do pânico”.

Vamos falar dos altos, primeiro. Recentemente, conquistei duas vitórias que, mesmo parecendo pequenas, foram bastante importantes para mim. E as duas estão relacionadas ao meu problema com multidões.

A primeira delas foi ter conseguido subir a Teodoro Sampaio da Faria Lima até a minha casa (o que dá cerca de dez quadras) por volta das 17h00min. Já fazia alguns meses que eu não conseguia fazer isso, andando por esta rua somente depois das 21h00min – sempre que eu saio de casa, preciso andar por uma rua mais tranquila. Foi fácil? Não. Mas não foi tão difícil quanto imaginei.

Já a outra conquista foi bem mais difícil. Dia desses, por um erro de cálculo, me vi dentro do metrô Consolação, sozinho, fazendo baldeação com a Linha Amarela bem no meio do horário de pico. Eram pouco mais de 18h00min, e quem já andou por lá neste horário sabe o tormento que é aquilo. Pessoas andando devagar ao seu redor e se espremendo – justamente os dois elementos que eu não consigo lidar, já que começo a me sentir acuado.

Consegui? Consegui, mas foi difícil, passando o trajeto inteiro com o coração disparado, sem conseguir pensar direito, e o suor escorrendo pelo meu rosto. Aliás, talvez eu não estivesse suando, já que quando começo a ter crises de ansiedade, um dos primeiros sintomas que tenho é começar a passar a mão no rosto, repetidamente, como se eu estivesse enxugando o suor, mas sem suar uma gota. Então, não sei ao certo se eu estava suando ou não.

E, apesar de ter conseguido, confesso aqui que o mérito não foi totalmente meu: em duas ou três ocasiões, eu desisti e quis voltar para a rua, mas já estava tão enfiado no meio da multidão que isso era impossível, e tudo o que eu podia fazer era continuar andando, sempre pelos cantos e evitando as outras pessoas. E, em determinados momentos, tudo o que eu podia fazer era olhar para o chão e tentar ignorar o que acontecia ao meu redor, para não correr o risco de ter uma crise de ansiedade a ponto de desmaiar – em alguns momentos, realmente achei que isso fosse acontecer.

Não pretendo repetir isso tão cedo, já que demorei horas para me recuperar da experiência, mas consegui.

E agora acabei de ficar um pouco surpreso ao perceber que uma simples baldeação no metrô se tornou assunto para três parágrafos da minha vida. Imediatamente, minha vontade é parar de escrever e ir para um canto pensar sobre isso, mas vou continuar escrevendo.

E esta vontade tem a ver com os baixos da montanha russa. E eu até digo aqui algumas das coisas que eu questionaria, como o fato de que alguns meses atrás esta pequena “aventura” certamente renderia um enorme (e engraçado) post no blog, que eu teria escrito em menos de meia hora, enquanto hoje ela vira três parágrafos sérios, escritos com certa dificuldade. Questionaria se em algum momento do passado eu poderia ter visto que isso aconteceria comigo e encontrado uma forma de impedir; se isso está acontecendo comigo por algum motivo que possa ser além da minha compreensão ou não; e se eu fiz por merecer isso ou se o destino (ou algum deus) apenas me viu na rua, apontou o dedo para mim ao acaso e disse “aquele ali”.

São perguntas sem respostas. Mas os baixos da minha montanha russa são formados por questionamentos dos mais diversos tipos. E o “baixo” foi oficializado dias atrás, em uma simples frase da psiquiatra:

- Você perdeu muito do que havia recuperado.

Porque, sim, eu estava melhor. Ainda precisava lidar com muita coisa, mas estava melhor. Ou, ao menos, me sentia melhor. E, de um tempo para cá, este “muita coisa” voltou a parecer maior que eu em todos os sentidos. E sabe o que é horrível? No momento em que o “muita coisa” se torna maior que você, fica claro que isso acontece somente por culpa sua, e isso faz o “muita coisa” ficar maior ainda. É um ciclo. E você não consegue romper, pois nunca fica claro onde ele começa nem onde termina.

A única coisa certa, nestes momentos, é que você fica preso e girando ao redor dele, dia após dia, feito o Fantasma ao redor do poço. E se questionando se você foi incompetente demais para ser aprisionado – o que faz você colocar muito do que sabe sobre você mesmo em xeque –, ou se simplesmente seus vilões são mais poderosos que você, o que mostra limitações que você nunca sequer pensou em ter.

E tudo o que você pode fazer, nestas horas, é empurrar o pedaço de madeira ao redor do poço, pois qualquer tentativa de escapar vai fazer a corrente estrangular você.

Mas ao menos eu sei quais foram os motivos da queda. Os principais são químicos. Em primeiro lugar, fiquei alguns dias sem o Donaren, meu remédio para dormir. Ele acabou e, quando fui ver, estava sem mais receitas. Ou seja, minhas noites bem dormidas voltaram a ser palco de sono agitado e pesadelos.

Novamente, se tornou comum a Ana acordar durante a noite e me ver sentado na cama, nem dormindo nem acordado, sabe-se lá há quantos minutos. Com isso, comecei novamente a acordar mais cansado do que quando fui dormir – em alguns dias, acordava completamente exausto e fragilizado por causa dos pesadelos – o que simplesmente destruía minha resistência emocional.

Junte a isso o fato de que substituí o Lexapro (que faz o papel de antidepressivo, apesar do Donaren também ter este efeito) pelo seu correspondente genérico. Afinal, estamos falando de um remédio cujo preço pode chegar a três dígitos. Não deu certo. Descobri depois que os remédios genéricos podem, por lei, ter uma dosagem 25% maior ou menor que o original. Como jamais ela será maior (por questão de economia do fabricante), ao invés de tomar um comprimido de 10mg, eu tomava um de 7,5g, sem saber disso.

Além dos remédios, existiram outros fatores que seriam pequenos em qualquer outra fase da minha vida, mas que, neste momento, funcionam como gatilhos. Coisas aparentemente comuns, como uma bobagem que a minha gerente do banco fez sem me consultar e diversas outras pequenas frustações comuns ao cotidiano de qualquer pessoa, mas, que no meu caso, se tornam um estresse com o qual não consigo lidar.

Ou seja, em poucos dias, toda a minha resistência foi por água abaixo. E aí os sintomas começaram a aparecer novamente, como ausência de apetite e de ânimo; e o frio, que é quase uma constante, com exceção das noites em que acordo encharcado de suor por causa dos pesadelos.

E os questionamentos começam a se tornar tão grandes que, em determinados momentos, você se questiona até mesmo o fato de estar se questionando. E tudo contribui para que você se torne pior.

E, um dia desses, eu me vi sentado no chão da cozinha, sabe-se lá por quanto tempo, sem saber ao certo o que fazer, sem conseguir pensar, sem conseguir entender nada, com aquele vazio no peito que não é exatamente uma vontade de chorar – e às vezes o cérebro manda você chorar um pouco para ver se as coisas melhoram. É mais uma vontade de dormir, de parar de pensar, de tentar manter sua mente em paz por algumas horas. Mas sempre com aquela maldita certeza de que, no momento em que você acordar, tudo irá começar novamente.

Aí você fica com medo de ser assim para sempre e você começa a se questionar novamente se você fez algo para merecer isso; se você é vítima ou vilão, uma pessoa boa ou ruim – como se fosse impossível você ser apenas uma “pessoa”, com erros e acertos; e se você precisa se perdoar ou se precisa ser punido – ambos por coisas que nem sabe ao certo.

E nunca há uma resposta. Há sempre mais dúvidas.

Colocando o que eu disse acima de outra forma, é basicamente o seguinte: você se questiona o tempo inteiro, e nos momentos em que você desiste de conseguir uma resposta para os seus questionamentos, você começa a se questionar porque precisa se questionar tanto. Então, você acha que se encontrar uma resposta para suas primeiras questões tudo vai se resolver, até o momento em que você desiste novamente, e passa a questionar seu comportamento de novo.

Logo, tudo vira uma bola de neve tão grande que pode te engolir a qualquer minuto.

Sinceramente? Eu não desejo isso para ninguém. De verdade. Nunca tive o hábito – e a isso eu agradeço meus pais, todos os dias – de desejar o mal para os outros, mas isso, especificamente, é algo que eu realmente gostaria pelo qual ninguém passasse. Porque é horrível, cara. É destruidor.

Mas agora é hora de voltar a passos pequenos, com os novos remédios. Já faz dois dias que estou tomando o Donaren novamente, o que tem me feito dormir muito melhor. Mas ainda me sinto muito cansado, emocionalmente falando, já que eu mal dormi nos últimos dias.

E, a partir de agora, ficarei três semanas tomando novamente o Lexapro 10mg, antes de subir para o 15mg – como teoricamente eu estava tomando um comprimido de 7,5g, não posso dobrar a dosagem sem um período de adaptação. Sinto um pouco de medo em aumentar a dosagem – ou um estranhamento, digamos; o mesmo que senti ao saber que fazer uma baldeação no metrô se tornou uma conquista na minha vida – mas é assim que as coisas são agora.

A única coisa que preciso ter em mente é que a depressão existe por minha causa, e não o contrário. Ou seja, eu sou maior que ela. E, nas vezes em que isso parece não ser verdade, preciso me impor a acreditar nisso, por mais difícil que seja, e mesmo sabendo que eu não vou conseguir isso todos os dias, especialmente nos próximos.

Em tempo: com o passar dos meses, o antepassado do Fantasma percebeu que, conforme ele empurrava a madeira, era sempre o mesmo elo da corrente que raspava na borda do poço, sendo desgastado cada vez mais. Assim, depois de muito tempo, ele tinha um motivo para empurrar a madeira: enfraquecer a corrente a ponto de conseguir arrebentá-la para escapar.

E, com o tempo, ele escapou de seu cativeiro. Foi uma das histórias em quadrinhos mais bonitas que eu li.

É exatamente o que eu preciso fazer agora.

10 de dezembro de 2011

Press!

Dias atrás, recebi um e-mail de um jornalista que trabalha na redação do jornal A Gazeta, de Vitória, a respeito de uma matéria sobre publicação de livros independentes. O resultado foi uma entrevista, publicada esta semana no jornal. Infelizmente, o 24 Horas, 48 Crônicas ficou de fora da matéria, mas, mesmo assim, a iniciativa (e o resultado) foram ótimos.

Gostaria de compartilhar com vocês, com agradecimentos especiais ao Inagaki que, ao ser procurado pelo jornalista, me indicou como autor independente para a matéria; e ao Mario Cau, autor da “foto oficial”.

E, claro, obrigado a todos os leitores.


Abaixo, a imagem da página. Para ler, clique aqui.

8 de dezembro de 2011

O Maior Espetáculo da Terra

Quando as luzes do estádio londrino se apagaram, a expectativa em toda a plateia era enorme. O que se poderia esperar de um John Lennon afastado do palco – e, a bem da verdade, da carreira musical como um todo – há anos? O antigo Beatle, após se envolver de corpo em alma em outras atividades, como o combate a fome e protestos em nome dos direitos humanos, simplesmente colocou a música de lado, passando mais de duas décadas sem gravar material novo ou se apresentar em público.

Diferente do caminho trilhado pelo antigo companheiro Paul McCartney, Lennon deixou o rock para trás. Seu palco, agora, é a política. Suas plateias são formadas por governantes de países do planeta inteiro. Suas composições não são músicas sobre amores adolescentes ou a busca pela mulher amada, mas sim discursos de paz, tolerância e igualdade – temas que já haviam motivado boa parte dos seus primeiros álbuns solo, na década de 70.

Não é á toa que o mundo se surpreendeu quando o britânico anunciou que retornaria aos palcos em 2011, para promover seu novo disco – uma coletânea que contém os pontos altos de sua carreira solo e gravações caseiras de alguns sucessos dos Beatles. A imprensa logo passou a questionar se Lennon teria fôlego para duas horas de show, e se os espetáculos não seriam discursos políticos entrecortados por algumas canções esparsas.

Tudo começou a ser respondido ainda com as luzes apagadas, quando os primeiros acordes de guitarra ecoaram pelo estádio ainda escuro. Não era preciso ser um grande fã dos Beatles para reconhecer a introdução de Revolution. Ainda sob os gritos da plateia, as luzes se acenderam e mostraram que John Lennon – sobre o palco e gritando que “You say you wanna a revolution” – poderia ter abandonado o rock, mas o rock nunca o abandonou.

Trajando calça jeans, bota e jaqueta de couro, o músico empunhava sua guitarra com segurança e destreza, como se tivesse passado décadas somente ensaiando para seu retorno. Com cabelos despenteados e a barba cuidadosamente aparada para esconder os pelos brancos, a impressão do público era que Lennon – o Lennon roqueiro, ao menos – não havia envelhecido um dia. Os únicos indícios de sua idade avançada (ele completou 71 anos em outubro) eram as rugas ao redor dos olhos, visíveis sob seus óculos quando seu rosto aparecia em close nos telões.

Mas a plateia não parecia se importar, e continuou eufórica até o final da segunda música, o hit Instant Karma!, que foi cantado de ponta a ponta pela mais de cinquenta mil pessoas que lotavam o estádio. E foi após conquistar a plateia com somente duas músicas, que Lennon resolveu dar boa noite à plateia. Com seu tradicional sarcasmo, confessou não se lembrar de como os palcos de Londres eram maiores que os de Liverpool, mas disse que já havia enfrentado plateias mais assustadoras em pronunciamentos na ONU. “Mas vocês são mais sinceros que eles”, emendou.

“Gostaria de tocar uma música que compus quando eu ainda era menino, e um pouco mais inocente”, proferiu, antes de começar a executar She Loves You, um dos primeiros sucessos dos Beatles, entoada feito um hino pelos presentes. E, ainda falando sobre amor, emendou a canção com a balada Jealous Guy, executada com uma perfeição assustadora.

A partir daí, o tema “amor” continuou dando as cartas no setlist do músico britânico. Ao anunciar que as próximas músicas seriam dedicadas às pessoas apaixonadas de todo o mundo, fez a plateia se emocionar com uma performance arrebatadora de Woman, emendando com a bela (Just Like) Starting Over.

“É assim que me sinto, tocando hoje para vocês. Me sinto como se minha vida inteira estivesse recomeçando”, afirmou o Beatle, antes de anunciar que “realmente iria voltar para o começo de tudo”, puxando uma gaita do bolso de sua jaqueta e entoando os primeiros acordes de Love Me Do, um dos primeiros e maiores sucessos do quarteto de Liverpool. E, descontando-se as pequenas rugas ao redor dos olhos, era possível ver um Lennon pouco mais de vinte anos no palco, suando como um jovem que dá tudo de si para a plateia.

“Agora é hora de nos acalmarmos um pouco”, explicou, antes de começar a sessão acústica do show. Contudo, para delírio da plateia, recusou o banco que lhe foi oferecido por um roadie e preferiu tocar em pé, enquanto os demais músicos se sentavam ao seu redor.

Vale lembrar que, até então, a plateia mal havia percebido a presença de outros músicos no palco. Sua banda de apoio executa cada canção com precisão e garra, mas o público tem olhos apenas para Lennon. Seja tocando guitarra e cantando no meio do palco, seja de costas conversando algo com o baterista, seja andando para as laterais, o público não desvia os olhos dele, como se o fato de estar vendo John Lennon à sua frente fosse algo impossível de ser assimilado direito.

E foi no meio do palco, em pé, que ele dedicou uma canção “aos três melhores amigos que um homem poderia ter”, preenchendo o telão com imagens dos Beatles ao som de In My Life, levando boa parte da plateia às lágrimas. “Sinto falta deles”, disse, em tom triste, ao final da música.

E, ainda em pé, executou a sombria Norwegian Wood (This Bird Has Flown) e a melancólica You’ve Got to Hide Your Love Away e uma versão acústica de Mind Games, que talvez até mais emocionante que a original. E, antes de encerrar a sessão acústica, deu um caráter político ao show entoando Working Class Hero, antes de retornar definitivamente aos Beatles com Across the Universe, acompanhada no telão por imagens de anônimos feitas por Lennon em suas viagens e de antigos cadernos de poemas do músico.

Poucas vezes um set acústico deixou uma plateia sem fôlego como neste caso. Ao voltar a pegar sua guitarra, Lennon era mais que ovacionado, e sim reverenciado pela plateia com um ardor quase religioso. Tímido e aparentemente um pouco desconfortável com isso, agradeceu aos presentes pela chance de tocar novamente para eles, mas logo “quebrou” a plateia ao executar o início do riff de (I Can’t Get No) Satisfaction, dos lendários Rolling Stones. “Se vocês vieram ouvir esta música, acho que vieram ao show errado”, disparou.

Ainda sob as gargalhadas da plateia, deu início a HELP!, de forma tão empolgante que quase não se ouvia a voz das três backing vocals postadas à esquerda do cantor. E, ao final da música, perguntou se o público gostaria de ouvir um pouco mais de Beatles, ensaiando a introdução de Ticket to Ride, cantada em uníssono pela plateia.

A partir de então, o músico entoou uma série de seus maiores sucessos dos Beatles, sendo que muitas das canções nunca haviam sido executadas ao vivo durante os anos 60. É o caso da enigmática Lucy in the Sky With Diamonds (“já me disseram que esta música é sobre drogas. Sinceramente, faz tanto que eu a escrevi que nem lembro mais sobre o que era”) que, seguida por Strawberry Fields Forever, criou quase um efeito hipnotizante no público, que sequer conseguia aplaudir direito.

Mas, para despertar a plateia, Lennon encerrou a primeira parte do show com justamente aquilo que ele faz melhor: rock, fazendo a multidão berrar, literalmente, todos os versos da famosa versão dos Beatles de Twist and Shout, presente no primeiro álbum da banda. Ofegante e com suas roupas encharcadas de suor, Lennon deu boa noite e agradeceu à plateia, que entoava seu nome incessantemente.

Minutos depois, retornou ao palco – desta vez sem jaqueta e com uma camiseta escrita “paz” em diversos idiomas – para o primeiro bis. Ainda saudado pela plateia, Lennon e sua banda começaram a executar Come Together, que, com seu ritmo cadenciado, levou o público à loucura. Mas o que se viu nos pouco mais de dez minutos seguintes foi uma verdadeira aula de rock, em todos os sentidos, com as interpretações das intricadas I Am the Walrus e A Day in the Life, consideradas duas das maiores composições do século 20.

Pausa para um novo intervalo e, a despeito do que se imaginava, Lennon retorna para o palco sem demonstrar sinais de cansaço para a sua idade ou para o tempo em que ficou afastado de turnês. E conversa com a plateia, explicando que o show está chegando ao final, mas que gostaria de cantar mais algumas canções de ir embora. E, surpreendentemente, dedica o último trecho do show ao homem que disparou contra ele – no famoso atentado de 8 de dezembro de 1980, que fez Lennon passar semanas no hospital antes de se recuperar totalmente.

“Eu já o perdoei há muito tempo”, explica o cantor, em frente a uma multidão silenciosa. “Mesmo porque toda violência deve ser perdoada antes de ser esquecida para que não se repita”, conclui, antes de pedir para que todas as pessoas da plateia fiquem de mãos dadas, sendo prontamente obedecido. “Além disso, esta história ficou no passado. E é minha obrigação, e de cada um de vocês, olhar somente para o futuro”, conclui.

Ao sentar-se no piano branco colocado em um canto do palco, uma última brincadeira. “Paul tocava piano melhor que eu, mas prometo que vou me esforçar”. E, se em quase duas horas de show Lennon havia mostrado porque é um dos maiores ícones do rock, nos dez minutos seguintes exibe o fato de ser uma das maiores personalidades da história recente da humanidade. Assistido por uma plateia de mãos dadas, entoa o maior sucesso de sua carreira solo, Imagine, pedindo por um mundo sem países, fronteiras ou desigualdades.

Contudo, jamais completa a canção, puxando o coro da plateia para a emblemática “Power to The People”, por alguns minutos. E, com a multidão ao seu comando, canta que “all we are saying is give peace a chance”, sendo acompanhado pelas milhares de pessoas que assistem a tudo de mãos dadas. Levanta-se do piano e despede-se, anunciando uma última música.

E é com sua banda executando All You Need is Love, com flores e balões de gás brancos caindo sobre o palco e a multidão, que John Lennon, ainda cantando, despede-se da plateia após tantos anos ausente.

No telão, apenas uma frase: “O sonho começa agora”.

Enquanto a plateia aplaude emocionada, o ídolo caminha para os bastidores, com sua guitarra ainda presa ao corpo, e some na escuridão. As luzes do estádio se acendem e ele não é mais visto. Mas, desta vez, o mundo está tranquilo. Pois ele tocará novamente amanhã.

O sonho começa agora.


Dedicado a John Winston Lennon,
tragicamente morto há exatos 31 anos.

7 de dezembro de 2011

Filmes & Sonhos


Eu e o cinema temos uma relação muito especial. Graças ao meu pai, me apaixonei pela Sétima Arte antes mesmo de aprender a ler, vendo filmes clássicos ao lado dele. A paixão virou amor, e passei mais de dez anos da minha vida trabalhando com isso, escrevendo sobre filmes.

Ao longo desse tempo, descobri os filmes que se tornariam os meus preferidos e que procuro rever ao menos uma vez por ano. São longas de épocas, gêneros e países variados que me ensinaram muito sobre a vida.

Mas, o mais importante, entendi, a cada filme assistido, que o cinema é uma das artes que mais se aproxima da magia. Assim, nada mais delicioso do que declarar meu amor pelo cinema organizando esta lista especial, com “cinco filmes para animar o dia”. São longas ideais para fechar (com chave de ouro) um dia especial ou, ao menos, para se sentir leve e feliz após um dia de muito trabalho e pouca diversão.

(leia mais aqui)

6 de dezembro de 2011

Em Entrevista, Besta-Fera Elucida a Conspiração na Morte do Mouse

Esta manhã, num hotel de São Paulo, o cão Besta-Fera concedeu uma pequena entrevista, colocando definitivamente um fim ao mistério que cercava a morte do mouse assassinado em Pinheiros. Desaparecido desde a prisão do escritor Rob Gordon, o animal confessou que estava no exterior, aproveitando o dinheiro do seguro de vida do falecido objeto.



Contudo, ele está longe de ser o mandante ou o executor do crime – pelo contrário, as “acusações” são direcionadas a grande parte dos leitores do blog. As declarações de sua entrevista foram, de acordo com ele, combinadas com o escritor Rob Gordon que, novamente em liberdade, voltou ao seu apartamento, no bairro de Pinheiros, na capital paulista.

Confira a entrevista completa abaixo.

Onde o senhor esteve durante este tempo, desde a prisão de Gordon?
Na Europa. O dinheiro do seguro de vida do mouse caiu na minha conta e fui viajar. Conheci o Leste Europeu e aproveitei para comprar novas edições de alguns livros. Nada muito especial. Tolstói, Dostoievski. Não concordo com alguns trechos nas traduções lançadas no Brasil, então prefiro ler os originais em russo.

Mas então o senhor esteve envolvido com a morte do mouse?
Não, aquilo foi um acidente. Nem mesmo o Rob teve algo a ver com aquilo. Foi um acidente, e a imprensa acabou exagerando na cobertura do caso. Mas estou falando apenas da morte. O que aconteceu depois foi, sim, resultado de uma conspiração.

Como assim?
A morte do mouse foi um acidente, como eu disse. Ele caiu no balde e pronto. Mas, tudo o que aconteceu depois... As cartas para os jornais, tudo... Foi uma enorme conspiração.

Besta-Fera, no início da entrevista.


Mas quem está por trás disso?
[Seu telefone toca. Ele atende e conversa por alguns minutos com alguém do outro lado da linha, provavelmente Rob Gordon.]
Desculpe, era o Rob.

Tudo bem.
Aliás, ele pediu para aproveitar e fazer uma propaganda da fanpage do blog no Facebook. Posso?

Claro.
Você conhece a página do Champ no Facebook? É aqui! Entre e curta. Obrigado. Agora, podemos voltar a falar do caso.

Certo. O senhor mencionou uma conspiração...
Isso.

Mas o senhor pode citar nomes?
Claro. Os responsáveis por tudo isso são os... Fim da Parte I.

Como?
Então, não entendi direito esta parte. O Rob que disse que seria legal falar Fim da Parte I quando eu fosse anunciar os culpados. Ele disse que criaria certo suspense.

Acho que ele queria dividir o post em dois.
Talvez. Bem, ele não disse nada e eu fiz o que ele pediu. O Fim da Parte I está aí. Agora, vamos encerrar o caso. A morte do mouse foi acidental. Mas a conspiração não. E quem está por trás de tudo isso são os leitores do blog.

Os leitores?
Sim, eu vou explicar. Quando o mouse morreu, o Rob fez um post em forma de notícia. Até aí, tudo bem, ele já havia feito textos parecidos antes. A ideia era postar apenas aquele post. Mas os leitores começaram a tentar elucidar o crime nos comentários, então o que ele fez? Foi em frente. Sem avisar ninguém. Ele deixou os leitores escreverem a história.

Como assim?
Os leitores acreditavam que estavam investigando o caso, acusando a mim ou ao Rob. Mas, na verdade, eles estavam escrevendo a história. A cada post, o Rob pegava as partes mais interessantes dos comentários e usava como base para o post seguinte. Claro que ele não seguia tudo ao pé da letra, mas... Por exemplo, minha viagem ao exterior. Diversos leitores sugeriram isso. O Rob apenas escreveu o que os leitores falavam. Foi quase um conto policial ao contrário – ao invés de investigarem, os leitores estavam escrevendo os posts do Champ.

E eles nem desconfiavam disso?
Não. Leia os comentários, você verá muitas coisas inspiradas nas “deduções” dos leitores, mas eles não sabiam de nada. E o Rob respondia somente “será que é isso?” ou “você pode estar no caminho certo”, para que os leitores não desconfiassem disso e continuassem a “investigar” o caso, dando ainda mais ideias. Foi quase um conto interativo.

Mas por que ele não abriu o jogo sobre isso?
Porque, e eu concordo com ele, não seria natural. Já fazia tempo que ele queria escrever uma série de posts “ditados” pelos leitores, mas se ele avisasse isso, o rumo da história iria perder a naturalidade. Então, ele não avisou a ninguém. As pessoas comentavam sem saber que o que elas haviam dito poderia ser o assunto do próximo post, fazendo a história se desenrolar. Ou se enrolar mais ainda. Aí ele inventou fotos e cartas para aguçar ainda mais a curiosidade dos leitores. Tudo o que ele fez foi deixar os leitores imaginarem, sem saber que eles estavam fazendo isso.

E o mouse?
O mouse morreu mesmo. Caiu no balde. Mas isso não tem a ver com os leitores. Como eu disse, foi um acidente. Já o resto dos posts, sim, tem a ver com os leitores. A prisão do Rob, minha viagem... Tudo inventado pelos leitores. O Rob apenas escrevia.

Então foi tudo um show?
Sim. Mas eu e o Rob apenas encenamos tudo. O show foi dos leitores do blog, que construíram a história. Foi a primeira saga no blog escrita por eles, e o fato de eles mesmos não saberem que isso estava acontecendo tornou tudo mais divertido ainda. Por isso, muito obrigado aos leitores que comentaram nos posts. Vocês são escritores policiais e talvez nem soubessem disso.

E com o sucesso, vocês planejam fazer algo parecido no futuro?
Por enquanto não. E, se fizermos, não vamos falar. Para que estragar a surpresa?

5 de dezembro de 2011

Rob Gordon X Tim - 2011 Edition - Parte Final

(Para entender melhor, leia a Parte I aqui)


Bem, em menos de vinte minutos, eu descobri que a Tim não possui uma ouvidoria. Ou eles não têm uma ouvidoria em estoque. Tanto faz. Mas a coisa funciona assim. Você liga para o SAC da TIM. Se eles não resolvem seu problema, com quem você pode reclamar? Com o SAC da TIM. É quase como seu time sofrer um pênalti e você poder reclamar sobre isso somente com o capitão da equipe adversária. Não é genial?

Neste meio tempo, tive mais uns três quebra-paus com a empresa. Em um determinado momento, eu cheguei a perder o foco totalmente. Meu objetivo não era mais conseguir meu aparelho, era inaugurar uma ouvidoria dentro da empresa. Mas falhei em todos os objetivos.

E, num belo dia, a Tim imprimiu toda a gravação destas conversas e usou as folhas e o meu cadastro para acender a churrasqueira na festa do final de ano da empresa. Mas, nesta mesma ocasião, algum atendente recebeu, como presente de amigo secreto, um vale-ligação para o Rob Gordon, com o direito de bater papo comigo sobre o telefone. Pobre coitado.

- Senhor Gordon?

- Sim.

- Estou ligando a respeito do aparelho que o senhor comprou alguns dias atrás.

- Comprei?

- Sim, aqui diz que o senhor adquiriu um iPhone.

- Não, deve ter algo errado. Eu estou com o meu telefone agora... Espera, você me dá um minuto?

- Claro.

- Pronto. Voltei. Então, deve estar havendo algum engano. Eu precisei tirar o telefone do ouvido para checar, porque este é o único celular que eu não tenho. E eu tinha razão, não é um iPhone. Está escrito Motorola nele.

- Sim, senhor, estou ligando a respeito do aparelho que não foi entregue.

- Ah! Você é daquela empresa que vende os produtos que não têm! Entendi. Diga, em que posso ajudá-lo?

- Estou ligando para informar que o aparelho ainda não consta no estoque.

- Oi?

- Nós ainda não recebemos o aparelho que o senhor solicitou.

- Em primeiro lugar, eu não solicitei; eu comprei. Em segundo lugar, eu ainda não entendi o propósito desta ligação. Fala a verdade, você ligou só para dar um oi, né?

- Não, senhor. Como o aparelho do senhor ainda não foi entregue, liguei para informar que ainda não temos.

- Sei. Esta foi a informação mais útil que eu poderia ter recebido. Vamos tentar transformar nossa conversa em algo mais produtivo?

- Senhor, o estoque...

- Não, eu fiz uma pergunta e tudo o que você precisa falar é “sim, senhor”. Vamos tentar mais uma vez. Vamos tentar transformar nossa conversa em algo mais produtivo?

- Sim, senhor.

- Boa! Então, vamos lá: quando você vai ter este aparelho em estoque?

- Não sei precisar ao certo, pois já estamos aguardando a chegada do iPhone 5.

- Oi? A chegada do iPhone o quê?

- Sim, os primeiros modelos de iPhone 5 chegarão para nós nas próximas semanas.

- Então, eu sei que não tenho nada a ver com a sua vida, mas queria dar um toque para você. Esse aparelho não existe.

- Existe sim, senhor. Ele já está disponível na Europa e nos Estados Unidos, e deverá chegar ao Brasil em breve.

- Cara, se você receber um iPhone 5 aí, meu conselho é que você embrulhe esta merda num casaco sem ninguém ver, saia correndo daí e vá patentear este negócio no seu nome.

- Senhor?

- Sim, você vai ficar milionário. Capaz até de quebrar a Apple. E você vai passar o resto da vida comendo quem quiser, jantando em restaurantes caríssimos e nunca mais vai precisar falar com gente pobre como eu.

- Senhor, esta é a informação que eu tenho aqui.

- Olha, você estão se aprimorando. Antes, vocês vendiam coisas que não tinham, agora estão começando a vender coisas que não existem. O nome do aparelho é iPhone 4s, e não iPhone 5

- Sim, iPhone 4s é a terminologia técnica que usamos aqui no callcenter, a respeito do IPhone 5.

- Não, iPhone 4s é a terminologia que o planeta inteiro usa! Ou seja, das duas umas: ou alguém te sacaneou aí dentro, ou eu acordei em uma realidade alternativa na qual o os sete bilhões de habitantes do mundo se tornaram atendentes da Tim. Caso isso tenha acontecido, pode esquecer meu aparelho. Eu vou construir um foguete e passar o resto da vida no espaço. Sozinho. E sem telefone, que é para vocês não me ligarem.

- Senhor...

- Aliás, eu vou desligar agora porque preciso comprar os materiais para o foguete. Vocês não vendem urânio aí, né?

- Como, senhor?

- Nada. Até logo.

- A Tim agradece...

- Então, enfia no cu.

A situação durou alguns dias atrás. Era tarde da noite – já passavam das 22h00min – quando o telefone tocou. Era uma menina da Tim, falando baixo. Provavelmente, estava ligando escondida dos outros.

- Senhor Gordon?

- Sim.

- Aqui é da Tim, estou ligando para falar sobre o seu aparelho.

Pensei em desligar na cara dela, mas o tom de voz dela me deixou intrigado. Mesmo porque ele falava tão baixo que eu não entendi metade do que ela disse.

- Você é quem de onde?

- Sou da Tim.

Sem dúvida, ela estava cochichando. E ficou em silêncio depois disso. Será que ela esperava que eu falasse alguma espécie de senha para provar que eu não era um agente inimigo? Bem, na dúvida, usei a mesma senha que uso sempre.

- Diga.

- Realmente, o aparelho que o senhor pediu não existe no estoque.

- Eu sei disso. É a oitava vez em apenas alguns dias que eu ouço as palavras “não”, “estoque” e “Tim” na mesma frase. Eu meio que já entendi o significado.

- Estou ligando para oferecer outro aparelho por custo zero para o senhor. Um Samsung Galaxy S II.

Realmente, a menina estava cochichando.

Com certeza era trote. Aposto que ela estava na mesa dela, seminua e sussurrando, cercada por meia dúzia de atendentes da TIM, todos bêbados, aguardando ansiosamente eu aceitar tudo aquilo e descobrirem meu endereço. E, vou além: dois dias depois, passariam de madrugada aqui em frente jogando ovos no meu prédio.

Mas, sabem... Todo mundo tem um preço. Todo mundo. Imperadores, presidentes, senadores. Todos têm seu preço. Eu tenho o meu. E o nome dele é custo zero.

Assim, dentro da minha imaginação, ela deixou de ser uma bêbada delinquente e sem ética profissional nenhuma e se tornou um valioso membro da resistência, arriscando a vida constantemente dentro da TIM. Um exemplo de coragem! E eu jamais poderia impedir aquela garota de cumprir sua missão!

Além disso, era custo zero.

Saí correndo pela casa, peguei meu chapéu e levantei a gola do casaco. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro para evitar que a ligação fosse monitorada e me abaixei num canto escuro.

- Pode falar.

- Como?

- Pode falar. Estou ouvindo. Câmbio.

- Eu não estou ouvindo o senhor direito.

- Sim, é porque eu estou cochichando também. Diga.

- Se for do interesse do senhor, eu posso fazer um Samsung Galaxy S II ser entregue na sua casa em sete dias úteis, a custo zero.

- Gostei do custo zero. Você pode falar mais uma vez?

- Custo zero.

- Ah, que delícia. Sete dias?

- Isso.

- Só uma última pergunta.

- Pois não?

- Você jura pela sua vida e pela sua pátria que vocês tem este telefone no estoque?

- Sim, senhor.

- É para jurar!

- Juro.

- Ótimo. Eu vou querer.

Ela confirmou o endereço e deixou tudo encaminhado. Desliguei o chuveiro e fui para a sala. Esta noite eu dormi tranquilo. Mas hoje já acordei preocupado. E se ela for uma agente dupla? E se ela trabalha para outra operadora de celular, e se infiltrou na TIM como sabotadora?

Eu estou sendo sacaneado, tenho certeza. Eu ainda não sei direito como, mas estou sendo sacaneado.

Na dúvida, quando (ou melhor, se) este pacote chegar, eu vou avisar o porteiro que ele mesmo pode abrir a caixa. E, se a portaria do meu prédio explodir... Chupa TIM!

Vocês vão ter que se esforçar mais.

2 de dezembro de 2011

Rob Gordon X Tim - 2011 Edition - Parte I

Algumas semanas atrás, liguei para a Tim para renegociar a compra de um novo aparelho. O meu já estava dando uma série de problemas, e queria alguma coisa nova, sem gastar muito. Conversando com a atendente, ela me colocou “na mesa” um iPhone 4.

Gostei da ideia. Não sou daquelas pessoas que precisa ter um iPhone porque todo mundo tem, mas sim porque nunca tive um telefone da Apple. E, como estou feliz da vida com o iPod de 160gb que comprei este ano, achei que era uma boa ideia. E o preço sairia bem em conta.

Assim, escolhi um modelo específico que havia em estoque, deixando claro para a atendente que minha prioridade era receber logo o aparelho.

O prazo de entrega? De cinco a dez dias úteis.

Passaram-se quinze dias úteis e nada. Foi quando liguei para a Tim, certo de que eles teriam ignorado minhas instruções claras de “preciso que entregue na portaria” (eles já fizeram isso, alegando que eu não estava em casa, e eu precisei de duas semanas para explicar a eles que quando eu não estou em casa, o porteiro se transforma magicamente em mim e pode receber as encomendas no meu nome). Mas, para minha surpresa, desta vez eles se superaram.

- Infelizmente, nós não temos este aparelho em estoque.

Pedi um minuto para a atendente e fui até a cozinha, ter um ataque de gargalhadas histéricas. Recomposto, voltei ao telefone.

- Certo. E como isso é resolvido?

- Assim que o estoque for reposto...

- Não, eu não disse como isso será resolvido. Eu usei o presente do indicativo. A solução vai ser dada agora. Porque vocês me venderam algo que vocês não possuem.

- O que eu posso fazer é dar um desconto maior para o senhor no aparelho.

- Certo. Deixe-me entender melhor. Vocês me venderam algo que não possuem. Aí, para remediar isso, vocês me dão um desconto ainda maior na compra do produto que vocês não possuem.

- Senhor...

- Será que se a gente negociar durante mais um tempo, você vai me dando descontos progressivos até a conta inverter e eu começar a receber por algo que vocês não possuem?

- Senhor...

- Se você quiser a gente pode ganhar tempo e eu já passo o número da minha conta agora? Eu até mando o meu aparelho para vocês de presente, se vocês quiserem. Que dia vocês vão depositar?

- Senhor, eu posso ver com o meu supervisor qual desconto pode ser oferecido.

- Hum... E você consegue ver isso agora?

- Sim, senhor.

- Assim, agora mesmo? Neste minuto?

- Sim. Basta o senhor aguardar alguns momentos.

- Isso quer dizer que o seu supervisor está aí?

- Sim, senhor.

- Que ótimo! Eu quero falar com ele.

- Senhor...

- Oi? Já é o supervisor? Ah não, ainda é você. Posso falar com o supervisor? Ou você vai me dizer que você vai transferir a ligação, eu vou ficar semanas esperando no telefone e só depois eu vou descobrir que vocês não tinham nenhum supervisor em estoque?

- Senhor...

- Eu não vou mais falar com você. Esta conversa está encerrada. Pode pular a parte que você pergunta se pode me ajudar em algo e que a Tim agradece pelo meu contato. Me passe para o seu supervisor.

- Só um minuto.

Passaram-se uns trinta segundos e o supervisor – ou alguém que estivesse se passando por ele – atendeu ao telefone.

Expliquei a situação pacientemente, e (juro!) sem usar um palavrão. Ele ouviu tudo pacientemente – ou apenas colocou o fone de ouvido sobre a mesa e ficou colhendo os morangos no Farmville até eu parar de falar.

- O que deve ter acontecido é que quando a venda do aparelho foi feita, o produto estava em estoque. Mas, quando caiu no sistema, os aparelhos já haviam sido vendidos.

- Entendi. É difícil mesmo.

- E o nosso departamento de logística tem apresentado muitos problemas. Eles são terceirizados, sabe?

- Sei.

- E agora, com a chegada do final do ano, tudo fica mais difícil.

Eu entendo o lado dele. A posição de supervisor é muito solitária. Caso eu fosse supervisor, iria querer alguém para conversar também. Deve ser muito duro passar o dia inteiro cercado por pessoas que usam fones de ouvido, respondem por nomes fictícios e não conseguem falar três frases seguidas sem usar gerúndio. Imagine, com quem ele iria poder desabafar a respeito do departamento de logística que não faz nada direito?

Comigo, claro.

Mas, assim que a sessão de terapia acabou, e ele parecia mais calmo por ter desabafado, eu respondi:

- Eu imagino. Mas, sabe, agora que você falou sobre os problemas do seu departamento de logística, eu fiquei com uma dúvida.

- Pois não?

- Você pode acessar o meu contrato com a Tim e ler em voz alta, de forma clara e pausada, a cláusula que implica que isso é problema meu?

- Senhor...

- Porque, com todo o respeito, além de açúcar cristalizado e chocolate granulado por cima da minha próxima frase, eu estou cagando para o departamento de logística de vocês.

- Entendo. Mas é que como eles são terceirizados...

- Quero fazer uma pergunta. Posso?

- Claro.

- Você compra nas Lojas Americanas um DVD de Star Wars. Você chega em casa e o estojo está vazio. Não tem disco algum. A pergunta é: com quem você irá reclamar? Com as Lojas Americanas, com a Fox, com o George Lucas ou com o Luke Skywalker?

- Senhor...

- Eu vou dar uma dica. Você comprou nas AMERICANAS. Onde você vai reclamar? Você tem que ter uma resposta para me dar. E, por favor, não me diga que o departamento de logística sumiu com as respostas do estoque.

- Senhor, o que aconteceu é que durante a compra do seu aparelho...

- Errado! Errado! A resposta é Americanas! Eu tentei te ajudar de todas as formas! Então, se eu comprei um aparelho de vocês e o aparelho não existe, eu não vou reclamar com o departamento de logística, nem com o fabricante, nem com o Graham Bell. Eu vou reclamar com vocês.

- Sim, senhor. E, em nome da Tim, estou assumindo o erro aqui.

- Que ótimo. Espero que você esteja se sentindo uma pessoa melhor agora. Parabéns. E meu telefone, chega quando?

- Como estamos na época de final de ano...

- Chega. Eu vou jantar. E vou jantar calma e tranquilamente, certo de que vocês estarão fazendo de tudo para resolver este problema e entrarão em contato comigo em breve. Certo?

- Sim, senhor.

- Ótimo. Passar bem.

No dia seguinte, resolvi correr atrás disso. Minha missão?

Falar com a ouvidoria da Tim. Ou explodir o prédio da empresa. Ou sequestrar um dos atendentes e ficar torturando o coitado em casa, filmando tudo e mandando os vídeos para o SAC da TIM com a frase “este é só o primeiro”.

Ou tudo isso.

(Continua aqui)

1 de dezembro de 2011

Carta

Sabe,

Eu não tenho muitas memórias deste ano. Existem dias ou situações que, na minha cabeça, se tornaram um enorme espaço em branco, como se nunca tivessem existido. Ou como se eu estivesse dormindo, não sei. Em algumas delas eu até sei onde eu estava e o que estava fazendo, mas sei apenas porque me contaram. Lembrar mesmo, eu não lembro.

Mas claro que eu tenho o meu quinhão de memórias. Tanto boas como ruins. E muitas delas – se não todas – envolvem você direta ou indiretamente.

Algumas delas podem parecer pequenas. Passear de mãos dadas pela rua, almoçar conversando sobre a vida, dividir a Coca-Cola no cinema. Vasculhar livrarias, comer um doce numa praça de alimentação, entrar num shopping quase fechando para comprar o sapato que você precisava.

E brigas, claro. Todo mundo têm brigas, conosco não foi diferente. Brigas que enquanto acontecem parecem ser gigantescas, mas tornam-se pequenas quando ficam no passado. Brigas que, enquanto acontecem, parecem ser parágrafos e mais parágrafos, mas, que se tornam somente uma pequena vírgula quando se lê o texto inteiro. E acho que esta é a maior qualidade do amor: transformar as brigas em pequenas vírgulas.

Estas são as memórias, ou ao menos algumas delas, que envolvem você diretamente. Sei que elas parecem poucas, como se nós tivéssemos vivido juntos durante pouco tempo neste ano. Mas isso é culpa da minha ausência de memórias. Ou talvez porque tudo realmente tenha passado rápido demais.

E, como eu disse acima, existem as memórias que envolvem você indiretamente. São aqueles momentos nos quais você estava dentro da minha cabeça, mas eu não conseguia pensar direito. E chega a ser contraditório, já que os poucos fiapos de raciocínio que eu tinha nestes momentos eram por sua causa.

Pois era você que – talvez até mesmo sem saber que estava ali dentro – mantinha tudo unido. Aliás, não era apenas você, mas (principalmente) a ideia de você, que dava um mínimo de ordem ao caos, me mostrando que tudo o que podemos fazer com o passado é aprender, para podermos sonhar com um futuro melhor e mais adocicado.

Em todos estes momentos, pensar em você e em algumas de suas palavras e atitudes foi o que me mostrou isso, em momentos nos quais o presente, o passado e o futuro se misturavam de forma totalmente bagunçada dentro da minha cabeça.

Eram momentos nos quais me acusei de forma errada, nos quais me julguei por não estar ao seu lado, e me condenei por não ser mais a pessoa que eu era. Ou que sempre achei que fosse. Não sei ao certo. Mas se hoje estou aqui, devo isso a você. E a você, somente.

Como eu disse no início deste texto, tenho poucas memórias deste ano – e algumas ocasiões, como eu afirmei, eu sei que aconteceram somente porque me contaram. Mas em todas elas você estava ao meu lado. E disso eu tenho certeza absoluta.

Pois quem me conta isso, todos os dias, é o meu coração.

Muito obrigado pela lembrança de ontem, pelo sorriso de hoje e pelo sonho do amanhã. Muito obrigado por permitir que eu seja eu mesmo, numa época em que eu não sabia ao certo quem eu era. Muito obrigado por me incentivar profissionalmente, por me apoiar pessoalmente, por somar e dividir totalmente. Muito obrigado por acreditar em mim e muito obrigado por me mostrar que é possível.

Muito obrigado por tudo.

Amo você, Ana Claudia.

Beijos

Rob