Discurso de Agradecimento
To prove I’m right
I don’t need to be forgiven

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Gêneros: Agora Falando Sério, Amor
Foi ontem, voltando para casa.
Eu estava no ônibus, lendo, e ela sentou ao meu lado. Gordinha, cabelos curtos. Por volta de seus 25 anos. Assim que se sentou, sacou o celular do bolso e ligou. Eu não consegui mais ler e fiquei apenas olhando o livro e prestando atenção no que ela dizia.
- Amor? Eu fiquei muito brava com você hoje! Muito brava mesmo! Com aquela mensagem que você deixou no Messenger para mim. A que você deixou antes de sair. Eu respondi! Você viu? Ah, que bom que você não viu, porque eu fiquei furiosa na frente do PC com o que você disse! Fiquei muito puta com você, de verdade! Você tem que entender que eu não respondo você porque estou ocupada, e você não tem o direito de achar que depois que você vai embora eu coloco o Messenger no disponível! O meu Messenger está sempre no ocupado, porque eu estou sempre ocupada! Tanto é que eu uso o Messenger apenas para falar com você! Não, o meu Messenger está sempre no ocupado! Eu faço questão de colocar ele no ocupado, todos os dias, porque meus dias estão muito corridos e eu não posso ficar conversando com todo mundo! Por isso que ele está sempre no ocupado, e não somente quando eu estou conversando com você! Eu tive que mandar as coisas para gráfica, e ainda nem defini com o Luiz sobre os anúncios. E já estão me cobrando que eu tenho que entregar tudo esta semana! Isso, aqueles anúncios que te falei. Então, me responde, você acha que minha semana vai ser fácil? Não, certo? É por isso que eu demoro a responder, e não porque estou falando com os outros! É por isso que eu sempre coloco o meu Messenger no ocupado! Não, não me importa se as outras pessoas da empresa deixam o Messenger no disponível, eu sempre coloco no ocupado porque não posso ficar conversando. Não, quando eu fico offline é porque o PC deu pau e eu tenho que reiniciar. Aquilo dá pau toda hora! Só hoje foram duas vezes! E ainda tem o telefone que toca o tempo inteiro, todo mundo me procurando para alguma coisa. Fiquei muito puta com o que você falou! Você realmente acha que eu não quero falar com você, que eu não quero saber da sua vida! Ah, certo! Eu nunca quis saber nada da sua vida, né? Não, eu já disse, o PC dá pau e eu tenho que reiniciar! E aí quando eu reinicio, nem olho o Messenger, não olho nem se ele conectou ou não, porque eu estou sempre ocupada fazendo outras coisas! Porque eu tenho mais o que fazer naquela mesa do que ficar olhando para ver se o Messenger conectou! Eu só uso o Messenger para falar com você! E você ficar falando que eu só não converso com você é muito egoísmo! Fiquei muito puta com você! Fiquei furiosa, de verdade! Não, mais tarde a gente conversa! Não, não quero falar mais! Não, deixa! De noite a gente conversa, mas nunca mais fale isso para mim, porque eu uso o Messenger somente para conversar com você! Então não diga que eu não estou nem aí para você! Você é muito egoísta! Tchau!
Não ouvi nada do que o namorado dela disse, mas estou certo de que ele se arrependeu e pediu desculpas. Ou, ao menos, tentou.
E, claro, ela não somente não o desculpou como ainda vai demorar a perdoá-lo. Ou seja, o cara ainda vai pastar na mão dela, fazendo de tudo para mostrar que está arrependido pelo que disse e pela discussão até ela se convencer disso, o que deve acontecer dias depois de ele se sentir a pior pessoa do planeta.
E injustamente.
Porque, no momento em que ela desligou o telefone, minha vontade era dizer:
- Talvez o seu namorado seja tão apaixonado por você que não consegue perceber o quanto você é mentirosa. Mas você é mentirosa. Você é mentirosa e sabe disso.
Porque ela está mentindo para ele. Aliás, pela forma que ela manipulou o sujeito, invertendo a situação com segurança e crueldade, não deve ser a primeira vez – e provavelmente não será a última.
Mas isto, claro, é apenas um palpite meu.
A única certeza que tenho é que ela estava mentindo nesta conversa.
Algum dos leitores quer brincar de detetive e se arriscar a dizer, aqui nos comentários, em qual momento da conversa ela se entregou na própria mentira?
Divirtam-se.
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Quando eu era criança, me lembro de ter lido uma história do Fantasma. Na verdade, era uma aventura de um dos antepassados do herói (tenho quase certeza de que era o 13º da linhagem, mas posso estar enganado), na qual ele era aprisionado por um grupo de vilões. Escravizado, era obrigado a passar todos os dias dando voltas ao redor de um poço – no qual ele havia sido acorrentado – empurrando um pedaço de madeira.
Nas últimas semanas, minha vida se tornou uma montanha russa, com alguns altos e baixos no que diz respeito à depressão e à “quase síndrome do pânico”.
Vamos falar dos altos, primeiro. Recentemente, conquistei duas vitórias que, mesmo parecendo pequenas, foram bastante importantes para mim. E as duas estão relacionadas ao meu problema com multidões.
A primeira delas foi ter conseguido subir a Teodoro Sampaio da Faria Lima até a minha casa (o que dá cerca de dez quadras) por volta das 17h00min. Já fazia alguns meses que eu não conseguia fazer isso, andando por esta rua somente depois das 21h00min – sempre que eu saio de casa, preciso andar por uma rua mais tranquila. Foi fácil? Não. Mas não foi tão difícil quanto imaginei.
Já a outra conquista foi bem mais difícil. Dia desses, por um erro de cálculo, me vi dentro do metrô Consolação, sozinho, fazendo baldeação com a Linha Amarela bem no meio do horário de pico. Eram pouco mais de 18h00min, e quem já andou por lá neste horário sabe o tormento que é aquilo. Pessoas andando devagar ao seu redor e se espremendo – justamente os dois elementos que eu não consigo lidar, já que começo a me sentir acuado.
Consegui? Consegui, mas foi difícil, passando o trajeto inteiro com o coração disparado, sem conseguir pensar direito, e o suor escorrendo pelo meu rosto. Aliás, talvez eu não estivesse suando, já que quando começo a ter crises de ansiedade, um dos primeiros sintomas que tenho é começar a passar a mão no rosto, repetidamente, como se eu estivesse enxugando o suor, mas sem suar uma gota. Então, não sei ao certo se eu estava suando ou não.
E, apesar de ter conseguido, confesso aqui que o mérito não foi totalmente meu: em duas ou três ocasiões, eu desisti e quis voltar para a rua, mas já estava tão enfiado no meio da multidão que isso era impossível, e tudo o que eu podia fazer era continuar andando, sempre pelos cantos e evitando as outras pessoas. E, em determinados momentos, tudo o que eu podia fazer era olhar para o chão e tentar ignorar o que acontecia ao meu redor, para não correr o risco de ter uma crise de ansiedade a ponto de desmaiar – em alguns momentos, realmente achei que isso fosse acontecer.
Não pretendo repetir isso tão cedo, já que demorei horas para me recuperar da experiência, mas consegui.
E agora acabei de ficar um pouco surpreso ao perceber que uma simples baldeação no metrô se tornou assunto para três parágrafos da minha vida. Imediatamente, minha vontade é parar de escrever e ir para um canto pensar sobre isso, mas vou continuar escrevendo.
E esta vontade tem a ver com os baixos da montanha russa. E eu até digo aqui algumas das coisas que eu questionaria, como o fato de que alguns meses atrás esta pequena “aventura” certamente renderia um enorme (e engraçado) post no blog, que eu teria escrito em menos de meia hora, enquanto hoje ela vira três parágrafos sérios, escritos com certa dificuldade. Questionaria se em algum momento do passado eu poderia ter visto que isso aconteceria comigo e encontrado uma forma de impedir; se isso está acontecendo comigo por algum motivo que possa ser além da minha compreensão ou não; e se eu fiz por merecer isso ou se o destino (ou algum deus) apenas me viu na rua, apontou o dedo para mim ao acaso e disse “aquele ali”.
São perguntas sem respostas. Mas os baixos da minha montanha russa são formados por questionamentos dos mais diversos tipos. E o “baixo” foi oficializado dias atrás, em uma simples frase da psiquiatra:
- Você perdeu muito do que havia recuperado.
Porque, sim, eu estava melhor. Ainda precisava lidar com muita coisa, mas estava melhor. Ou, ao menos, me sentia melhor. E, de um tempo para cá, este “muita coisa” voltou a parecer maior que eu em todos os sentidos. E sabe o que é horrível? No momento em que o “muita coisa” se torna maior que você, fica claro que isso acontece somente por culpa sua, e isso faz o “muita coisa” ficar maior ainda. É um ciclo. E você não consegue romper, pois nunca fica claro onde ele começa nem onde termina.
A única coisa certa, nestes momentos, é que você fica preso e girando ao redor dele, dia após dia, feito o Fantasma ao redor do poço. E se questionando se você foi incompetente demais para ser aprisionado – o que faz você colocar muito do que sabe sobre você mesmo em xeque –, ou se simplesmente seus vilões são mais poderosos que você, o que mostra limitações que você nunca sequer pensou em ter.
E tudo o que você pode fazer, nestas horas, é empurrar o pedaço de madeira ao redor do poço, pois qualquer tentativa de escapar vai fazer a corrente estrangular você.
Mas ao menos eu sei quais foram os motivos da queda. Os principais são químicos. Em primeiro lugar, fiquei alguns dias sem o Donaren, meu remédio para dormir. Ele acabou e, quando fui ver, estava sem mais receitas. Ou seja, minhas noites bem dormidas voltaram a ser palco de sono agitado e pesadelos.
Novamente, se tornou comum a Ana acordar durante a noite e me ver sentado na cama, nem dormindo nem acordado, sabe-se lá há quantos minutos. Com isso, comecei novamente a acordar mais cansado do que quando fui dormir – em alguns dias, acordava completamente exausto e fragilizado por causa dos pesadelos – o que simplesmente destruía minha resistência emocional.
Junte a isso o fato de que substituí o Lexapro (que faz o papel de antidepressivo, apesar do Donaren também ter este efeito) pelo seu correspondente genérico. Afinal, estamos falando de um remédio cujo preço pode chegar a três dígitos. Não deu certo. Descobri depois que os remédios genéricos podem, por lei, ter uma dosagem 25% maior ou menor que o original. Como jamais ela será maior (por questão de economia do fabricante), ao invés de tomar um comprimido de 10mg, eu tomava um de 7,5g, sem saber disso.
Além dos remédios, existiram outros fatores que seriam pequenos em qualquer outra fase da minha vida, mas que, neste momento, funcionam como gatilhos. Coisas aparentemente comuns, como uma bobagem que a minha gerente do banco fez sem me consultar e diversas outras pequenas frustações comuns ao cotidiano de qualquer pessoa, mas, que no meu caso, se tornam um estresse com o qual não consigo lidar.
Ou seja, em poucos dias, toda a minha resistência foi por água abaixo. E aí os sintomas começaram a aparecer novamente, como ausência de apetite e de ânimo; e o frio, que é quase uma constante, com exceção das noites em que acordo encharcado de suor por causa dos pesadelos.
E os questionamentos começam a se tornar tão grandes que, em determinados momentos, você se questiona até mesmo o fato de estar se questionando. E tudo contribui para que você se torne pior.
E, um dia desses, eu me vi sentado no chão da cozinha, sabe-se lá por quanto tempo, sem saber ao certo o que fazer, sem conseguir pensar, sem conseguir entender nada, com aquele vazio no peito que não é exatamente uma vontade de chorar – e às vezes o cérebro manda você chorar um pouco para ver se as coisas melhoram. É mais uma vontade de dormir, de parar de pensar, de tentar manter sua mente em paz por algumas horas. Mas sempre com aquela maldita certeza de que, no momento em que você acordar, tudo irá começar novamente.
Aí você fica com medo de ser assim para sempre e você começa a se questionar novamente se você fez algo para merecer isso; se você é vítima ou vilão, uma pessoa boa ou ruim – como se fosse impossível você ser apenas uma “pessoa”, com erros e acertos; e se você precisa se perdoar ou se precisa ser punido – ambos por coisas que nem sabe ao certo.
E nunca há uma resposta. Há sempre mais dúvidas.
Colocando o que eu disse acima de outra forma, é basicamente o seguinte: você se questiona o tempo inteiro, e nos momentos em que você desiste de conseguir uma resposta para os seus questionamentos, você começa a se questionar porque precisa se questionar tanto. Então, você acha que se encontrar uma resposta para suas primeiras questões tudo vai se resolver, até o momento em que você desiste novamente, e passa a questionar seu comportamento de novo.
Logo, tudo vira uma bola de neve tão grande que pode te engolir a qualquer minuto.
Sinceramente? Eu não desejo isso para ninguém. De verdade. Nunca tive o hábito – e a isso eu agradeço meus pais, todos os dias – de desejar o mal para os outros, mas isso, especificamente, é algo que eu realmente gostaria pelo qual ninguém passasse. Porque é horrível, cara. É destruidor.
Mas agora é hora de voltar a passos pequenos, com os novos remédios. Já faz dois dias que estou tomando o Donaren novamente, o que tem me feito dormir muito melhor. Mas ainda me sinto muito cansado, emocionalmente falando, já que eu mal dormi nos últimos dias.
E, a partir de agora, ficarei três semanas tomando novamente o Lexapro 10mg, antes de subir para o 15mg – como teoricamente eu estava tomando um comprimido de 7,5g, não posso dobrar a dosagem sem um período de adaptação. Sinto um pouco de medo em aumentar a dosagem – ou um estranhamento, digamos; o mesmo que senti ao saber que fazer uma baldeação no metrô se tornou uma conquista na minha vida – mas é assim que as coisas são agora.
A única coisa que preciso ter em mente é que a depressão existe por minha causa, e não o contrário. Ou seja, eu sou maior que ela. E, nas vezes em que isso parece não ser verdade, preciso me impor a acreditar nisso, por mais difícil que seja, e mesmo sabendo que eu não vou conseguir isso todos os dias, especialmente nos próximos.
Em tempo: com o passar dos meses, o antepassado do Fantasma percebeu que, conforme ele empurrava a madeira, era sempre o mesmo elo da corrente que raspava na borda do poço, sendo desgastado cada vez mais. Assim, depois de muito tempo, ele tinha um motivo para empurrar a madeira: enfraquecer a corrente a ponto de conseguir arrebentá-la para escapar.
E, com o tempo, ele escapou de seu cativeiro. Foi uma das histórias em quadrinhos mais bonitas que eu li.
É exatamente o que eu preciso fazer agora.
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Gêneros: Agora Falando Sério
Dias atrás, recebi um e-mail de um jornalista que trabalha na redação do jornal A Gazeta, de Vitória, a respeito de uma matéria sobre publicação de livros independentes. O resultado foi uma entrevista, publicada esta semana no jornal. Infelizmente, o 24 Horas, 48 Crônicas ficou de fora da matéria, mas, mesmo assim, a iniciativa (e o resultado) foram ótimos.
Gostaria de compartilhar com vocês, com agradecimentos especiais ao Inagaki que, ao ser procurado pelo jornalista, me indicou como autor independente para a matéria; e ao Mario Cau, autor da “foto oficial”.
E, claro, obrigado a todos os leitores.
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Gêneros: Anônimos e Urbanos, Livro, Livros
Quando as luzes do estádio londrino se apagaram, a expectativa em toda a plateia era enorme. O que se poderia esperar de um John Lennon afastado do palco – e, a bem da verdade, da carreira musical como um todo – há anos? O antigo Beatle, após se envolver de corpo em alma em outras atividades, como o combate a fome e protestos em nome dos direitos humanos, simplesmente colocou a música de lado, passando mais de duas décadas sem gravar material novo ou se apresentar em público.
Diferente do caminho trilhado pelo antigo companheiro Paul McCartney, Lennon deixou o rock para trás. Seu palco, agora, é a política. Suas plateias são formadas por governantes de países do planeta inteiro. Suas composições não são músicas sobre amores adolescentes ou a busca pela mulher amada, mas sim discursos de paz, tolerância e igualdade – temas que já haviam motivado boa parte dos seus primeiros álbuns solo, na década de 70.
Não é á toa que o mundo se surpreendeu quando o britânico anunciou que retornaria aos palcos em 2011, para promover seu novo disco – uma coletânea que contém os pontos altos de sua carreira solo e gravações caseiras de alguns sucessos dos Beatles. A imprensa logo passou a questionar se Lennon teria fôlego para duas horas de show, e se os espetáculos não seriam discursos políticos entrecortados por algumas canções esparsas.
Tudo começou a ser respondido ainda com as luzes apagadas, quando os primeiros acordes de guitarra ecoaram pelo estádio ainda escuro. Não era preciso ser um grande fã dos Beatles para reconhecer a introdução de Revolution. Ainda sob os gritos da plateia, as luzes se acenderam e mostraram que John Lennon – sobre o palco e gritando que “You say you wanna a revolution” – poderia ter abandonado o rock, mas o rock nunca o abandonou.
Trajando calça jeans, bota e jaqueta de couro, o músico empunhava sua guitarra com segurança e destreza, como se tivesse passado décadas somente ensaiando para seu retorno. Com cabelos despenteados e a barba cuidadosamente aparada para esconder os pelos brancos, a impressão do público era que Lennon – o Lennon roqueiro, ao menos – não havia envelhecido um dia. Os únicos indícios de sua idade avançada (ele completou 71 anos em outubro) eram as rugas ao redor dos olhos, visíveis sob seus óculos quando seu rosto aparecia em close nos telões.
Mas a plateia não parecia se importar, e continuou eufórica até o final da segunda música, o hit Instant Karma!, que foi cantado de ponta a ponta pela mais de cinquenta mil pessoas que lotavam o estádio. E foi após conquistar a plateia com somente duas músicas, que Lennon resolveu dar boa noite à plateia. Com seu tradicional sarcasmo, confessou não se lembrar de como os palcos de Londres eram maiores que os de Liverpool, mas disse que já havia enfrentado plateias mais assustadoras em pronunciamentos na ONU. “Mas vocês são mais sinceros que eles”, emendou.
“Gostaria de tocar uma música que compus quando eu ainda era menino, e um pouco mais inocente”, proferiu, antes de começar a executar She Loves You, um dos primeiros sucessos dos Beatles, entoada feito um hino pelos presentes. E, ainda falando sobre amor, emendou a canção com a balada Jealous Guy, executada com uma perfeição assustadora.
A partir daí, o tema “amor” continuou dando as cartas no setlist do músico britânico. Ao anunciar que as próximas músicas seriam dedicadas às pessoas apaixonadas de todo o mundo, fez a plateia se emocionar com uma performance arrebatadora de Woman, emendando com a bela (Just Like) Starting Over.
“É assim que me sinto, tocando hoje para vocês. Me sinto como se minha vida inteira estivesse recomeçando”, afirmou o Beatle, antes de anunciar que “realmente iria voltar para o começo de tudo”, puxando uma gaita do bolso de sua jaqueta e entoando os primeiros acordes de Love Me Do, um dos primeiros e maiores sucessos do quarteto de Liverpool. E, descontando-se as pequenas rugas ao redor dos olhos, era possível ver um Lennon pouco mais de vinte anos no palco, suando como um jovem que dá tudo de si para a plateia.
“Agora é hora de nos acalmarmos um pouco”, explicou, antes de começar a sessão acústica do show. Contudo, para delírio da plateia, recusou o banco que lhe foi oferecido por um roadie e preferiu tocar em pé, enquanto os demais músicos se sentavam ao seu redor.
Vale lembrar que, até então, a plateia mal havia percebido a presença de outros músicos no palco. Sua banda de apoio executa cada canção com precisão e garra, mas o público tem olhos apenas para Lennon. Seja tocando guitarra e cantando no meio do palco, seja de costas conversando algo com o baterista, seja andando para as laterais, o público não desvia os olhos dele, como se o fato de estar vendo John Lennon à sua frente fosse algo impossível de ser assimilado direito.
E foi no meio do palco, em pé, que ele dedicou uma canção “aos três melhores amigos que um homem poderia ter”, preenchendo o telão com imagens dos Beatles ao som de In My Life, levando boa parte da plateia às lágrimas. “Sinto falta deles”, disse, em tom triste, ao final da música.
E, ainda em pé, executou a sombria Norwegian Wood (This Bird Has Flown) e a melancólica You’ve Got to Hide Your Love Away e uma versão acústica de Mind Games, que talvez até mais emocionante que a original. E, antes de encerrar a sessão acústica, deu um caráter político ao show entoando Working Class Hero, antes de retornar definitivamente aos Beatles com Across the Universe, acompanhada no telão por imagens de anônimos feitas por Lennon em suas viagens e de antigos cadernos de poemas do músico.
Poucas vezes um set acústico deixou uma plateia sem fôlego como neste caso. Ao voltar a pegar sua guitarra, Lennon era mais que ovacionado, e sim reverenciado pela plateia com um ardor quase religioso. Tímido e aparentemente um pouco desconfortável com isso, agradeceu aos presentes pela chance de tocar novamente para eles, mas logo “quebrou” a plateia ao executar o início do riff de (I Can’t Get No) Satisfaction, dos lendários Rolling Stones. “Se vocês vieram ouvir esta música, acho que vieram ao show errado”, disparou.
Ainda sob as gargalhadas da plateia, deu início a HELP!, de forma tão empolgante que quase não se ouvia a voz das três backing vocals postadas à esquerda do cantor. E, ao final da música, perguntou se o público gostaria de ouvir um pouco mais de Beatles, ensaiando a introdução de Ticket to Ride, cantada em uníssono pela plateia.
A partir de então, o músico entoou uma série de seus maiores sucessos dos Beatles, sendo que muitas das canções nunca haviam sido executadas ao vivo durante os anos 60. É o caso da enigmática Lucy in the Sky With Diamonds (“já me disseram que esta música é sobre drogas. Sinceramente, faz tanto que eu a escrevi que nem lembro mais sobre o que era”) que, seguida por Strawberry Fields Forever, criou quase um efeito hipnotizante no público, que sequer conseguia aplaudir direito.
Mas, para despertar a plateia, Lennon encerrou a primeira parte do show com justamente aquilo que ele faz melhor: rock, fazendo a multidão berrar, literalmente, todos os versos da famosa versão dos Beatles de Twist and Shout, presente no primeiro álbum da banda. Ofegante e com suas roupas encharcadas de suor, Lennon deu boa noite e agradeceu à plateia, que entoava seu nome incessantemente.
Minutos depois, retornou ao palco – desta vez sem jaqueta e com uma camiseta escrita “paz” em diversos idiomas – para o primeiro bis. Ainda saudado pela plateia, Lennon e sua banda começaram a executar Come Together, que, com seu ritmo cadenciado, levou o público à loucura. Mas o que se viu nos pouco mais de dez minutos seguintes foi uma verdadeira aula de rock, em todos os sentidos, com as interpretações das intricadas I Am the Walrus e A Day in the Life, consideradas duas das maiores composições do século 20.
Pausa para um novo intervalo e, a despeito do que se imaginava, Lennon retorna para o palco sem demonstrar sinais de cansaço para a sua idade ou para o tempo em que ficou afastado de turnês. E conversa com a plateia, explicando que o show está chegando ao final, mas que gostaria de cantar mais algumas canções de ir embora. E, surpreendentemente, dedica o último trecho do show ao homem que disparou contra ele – no famoso atentado de 8 de dezembro de 1980, que fez Lennon passar semanas no hospital antes de se recuperar totalmente.
“Eu já o perdoei há muito tempo”, explica o cantor, em frente a uma multidão silenciosa. “Mesmo porque toda violência deve ser perdoada antes de ser esquecida para que não se repita”, conclui, antes de pedir para que todas as pessoas da plateia fiquem de mãos dadas, sendo prontamente obedecido. “Além disso, esta história ficou no passado. E é minha obrigação, e de cada um de vocês, olhar somente para o futuro”, conclui.
Ao sentar-se no piano branco colocado em um canto do palco, uma última brincadeira. “Paul tocava piano melhor que eu, mas prometo que vou me esforçar”. E, se em quase duas horas de show Lennon havia mostrado porque é um dos maiores ícones do rock, nos dez minutos seguintes exibe o fato de ser uma das maiores personalidades da história recente da humanidade. Assistido por uma plateia de mãos dadas, entoa o maior sucesso de sua carreira solo, Imagine, pedindo por um mundo sem países, fronteiras ou desigualdades.
Contudo, jamais completa a canção, puxando o coro da plateia para a emblemática “Power to The People”, por alguns minutos. E, com a multidão ao seu comando, canta que “all we are saying is give peace a chance”, sendo acompanhado pelas milhares de pessoas que assistem a tudo de mãos dadas. Levanta-se do piano e despede-se, anunciando uma última música.
E é com sua banda executando All You Need is Love, com flores e balões de gás brancos caindo sobre o palco e a multidão, que John Lennon, ainda cantando, despede-se da plateia após tantos anos ausente.
No telão, apenas uma frase: “O sonho começa agora”.
Enquanto a plateia aplaude emocionada, o ídolo caminha para os bastidores, com sua guitarra ainda presa ao corpo, e some na escuridão. As luzes do estádio se acendem e ele não é mais visto. Mas, desta vez, o mundo está tranquilo. Pois ele tocará novamente amanhã.
O sonho começa agora.
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Gêneros: Beatles, Culpa do meu Eu-Lírico, Rock

Eu e o cinema temos uma relação muito especial. Graças ao meu pai, me apaixonei pela Sétima Arte antes mesmo de aprender a ler, vendo filmes clássicos ao lado dele. A paixão virou amor, e passei mais de dez anos da minha vida trabalhando com isso, escrevendo sobre filmes.
Ao longo desse tempo, descobri os filmes que se tornariam os meus preferidos e que procuro rever ao menos uma vez por ano. São longas de épocas, gêneros e países variados que me ensinaram muito sobre a vida.
Mas, o mais importante, entendi, a cada filme assistido, que o cinema é uma das artes que mais se aproxima da magia. Assim, nada mais delicioso do que declarar meu amor pelo cinema organizando esta lista especial, com “cinco filmes para animar o dia”. São longas ideais para fechar (com chave de ouro) um dia especial ou, ao menos, para se sentir leve e feliz após um dia de muito trabalho e pouca diversão.
(leia mais aqui)
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Rob Gordon
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Gêneros: Cinema, Publieditorial
Esta manhã, num hotel de São Paulo, o cão Besta-Fera concedeu uma pequena entrevista, colocando definitivamente um fim ao mistério que cercava a morte do mouse assassinado em Pinheiros. Desaparecido desde a prisão do escritor Rob Gordon, o animal confessou que estava no exterior, aproveitando o dinheiro do seguro de vida do falecido objeto.
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Gêneros: Besta-Fera, Blog, Leitores, Sagas
(Para entender melhor, leia a Parte I aqui)
Bem, em menos de vinte minutos, eu descobri que a Tim não possui uma ouvidoria. Ou eles não têm uma ouvidoria em estoque. Tanto faz. Mas a coisa funciona assim. Você liga para o SAC da TIM. Se eles não resolvem seu problema, com quem você pode reclamar? Com o SAC da TIM. É quase como seu time sofrer um pênalti e você poder reclamar sobre isso somente com o capitão da equipe adversária. Não é genial?
Neste meio tempo, tive mais uns três quebra-paus com a empresa. Em um determinado momento, eu cheguei a perder o foco totalmente. Meu objetivo não era mais conseguir meu aparelho, era inaugurar uma ouvidoria dentro da empresa. Mas falhei em todos os objetivos.
E, num belo dia, a Tim imprimiu toda a gravação destas conversas e usou as folhas e o meu cadastro para acender a churrasqueira na festa do final de ano da empresa. Mas, nesta mesma ocasião, algum atendente recebeu, como presente de amigo secreto, um vale-ligação para o Rob Gordon, com o direito de bater papo comigo sobre o telefone. Pobre coitado.
- Senhor Gordon?
- Sim.
- Estou ligando a respeito do aparelho que o senhor comprou alguns dias atrás.
- Comprei?
- Sim, aqui diz que o senhor adquiriu um iPhone.
- Não, deve ter algo errado. Eu estou com o meu telefone agora... Espera, você me dá um minuto?
- Claro.
- Pronto. Voltei. Então, deve estar havendo algum engano. Eu precisei tirar o telefone do ouvido para checar, porque este é o único celular que eu não tenho. E eu tinha razão, não é um iPhone. Está escrito Motorola nele.
- Sim, senhor, estou ligando a respeito do aparelho que não foi entregue.
- Ah! Você é daquela empresa que vende os produtos que não têm! Entendi. Diga, em que posso ajudá-lo?
- Estou ligando para informar que o aparelho ainda não consta no estoque.
- Oi?
- Nós ainda não recebemos o aparelho que o senhor solicitou.
- Em primeiro lugar, eu não solicitei; eu comprei. Em segundo lugar, eu ainda não entendi o propósito desta ligação. Fala a verdade, você ligou só para dar um oi, né?
- Não, senhor. Como o aparelho do senhor ainda não foi entregue, liguei para informar que ainda não temos.
- Sei. Esta foi a informação mais útil que eu poderia ter recebido. Vamos tentar transformar nossa conversa em algo mais produtivo?
- Senhor, o estoque...
- Não, eu fiz uma pergunta e tudo o que você precisa falar é “sim, senhor”. Vamos tentar mais uma vez. Vamos tentar transformar nossa conversa em algo mais produtivo?
- Sim, senhor.
- Boa! Então, vamos lá: quando você vai ter este aparelho em estoque?
- Não sei precisar ao certo, pois já estamos aguardando a chegada do iPhone 5.
- Oi? A chegada do iPhone o quê?
- Sim, os primeiros modelos de iPhone 5 chegarão para nós nas próximas semanas.
- Então, eu sei que não tenho nada a ver com a sua vida, mas queria dar um toque para você. Esse aparelho não existe.
- Existe sim, senhor. Ele já está disponível na Europa e nos Estados Unidos, e deverá chegar ao Brasil em breve.
- Cara, se você receber um iPhone 5 aí, meu conselho é que você embrulhe esta merda num casaco sem ninguém ver, saia correndo daí e vá patentear este negócio no seu nome.
- Senhor?
- Sim, você vai ficar milionário. Capaz até de quebrar a Apple. E você vai passar o resto da vida comendo quem quiser, jantando em restaurantes caríssimos e nunca mais vai precisar falar com gente pobre como eu.
- Senhor, esta é a informação que eu tenho aqui.
- Olha, você estão se aprimorando. Antes, vocês vendiam coisas que não tinham, agora estão começando a vender coisas que não existem. O nome do aparelho é iPhone 4s, e não iPhone 5
- Sim, iPhone 4s é a terminologia técnica que usamos aqui no callcenter, a respeito do IPhone 5.
- Não, iPhone 4s é a terminologia que o planeta inteiro usa! Ou seja, das duas umas: ou alguém te sacaneou aí dentro, ou eu acordei em uma realidade alternativa na qual o os sete bilhões de habitantes do mundo se tornaram atendentes da Tim. Caso isso tenha acontecido, pode esquecer meu aparelho. Eu vou construir um foguete e passar o resto da vida no espaço. Sozinho. E sem telefone, que é para vocês não me ligarem.
- Senhor...
- Aliás, eu vou desligar agora porque preciso comprar os materiais para o foguete. Vocês não vendem urânio aí, né?
- Como, senhor?
- Nada. Até logo.
- A Tim agradece...
- Então, enfia no cu.
A situação durou alguns dias atrás. Era tarde da noite – já passavam das 22h00min – quando o telefone tocou. Era uma menina da Tim, falando baixo. Provavelmente, estava ligando escondida dos outros.
- Senhor Gordon?
- Sim.
- Aqui é da Tim, estou ligando para falar sobre o seu aparelho.
Pensei em desligar na cara dela, mas o tom de voz dela me deixou intrigado. Mesmo porque ele falava tão baixo que eu não entendi metade do que ela disse.
- Você é quem de onde?
- Sou da Tim.
Sem dúvida, ela estava cochichando. E ficou em silêncio depois disso. Será que ela esperava que eu falasse alguma espécie de senha para provar que eu não era um agente inimigo? Bem, na dúvida, usei a mesma senha que uso sempre.
- Diga.
- Realmente, o aparelho que o senhor pediu não existe no estoque.
- Eu sei disso. É a oitava vez em apenas alguns dias que eu ouço as palavras “não”, “estoque” e “Tim” na mesma frase. Eu meio que já entendi o significado.
- Estou ligando para oferecer outro aparelho por custo zero para o senhor. Um Samsung Galaxy S II.
Realmente, a menina estava cochichando.
Com certeza era trote. Aposto que ela estava na mesa dela, seminua e sussurrando, cercada por meia dúzia de atendentes da TIM, todos bêbados, aguardando ansiosamente eu aceitar tudo aquilo e descobrirem meu endereço. E, vou além: dois dias depois, passariam de madrugada aqui em frente jogando ovos no meu prédio.
Mas, sabem... Todo mundo tem um preço. Todo mundo. Imperadores, presidentes, senadores. Todos têm seu preço. Eu tenho o meu. E o nome dele é custo zero.
Assim, dentro da minha imaginação, ela deixou de ser uma bêbada delinquente e sem ética profissional nenhuma e se tornou um valioso membro da resistência, arriscando a vida constantemente dentro da TIM. Um exemplo de coragem! E eu jamais poderia impedir aquela garota de cumprir sua missão!
Além disso, era custo zero.
Saí correndo pela casa, peguei meu chapéu e levantei a gola do casaco. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro para evitar que a ligação fosse monitorada e me abaixei num canto escuro.
- Pode falar.
- Como?
- Pode falar. Estou ouvindo. Câmbio.
- Eu não estou ouvindo o senhor direito.
- Sim, é porque eu estou cochichando também. Diga.
- Se for do interesse do senhor, eu posso fazer um Samsung Galaxy S II ser entregue na sua casa em sete dias úteis, a custo zero.
- Gostei do custo zero. Você pode falar mais uma vez?
- Custo zero.
- Ah, que delícia. Sete dias?
- Isso.
- Só uma última pergunta.
- Pois não?
- Você jura pela sua vida e pela sua pátria que vocês tem este telefone no estoque?
- Sim, senhor.
- É para jurar!
- Juro.
- Ótimo. Eu vou querer.
Ela confirmou o endereço e deixou tudo encaminhado. Desliguei o chuveiro e fui para a sala. Esta noite eu dormi tranquilo. Mas hoje já acordei preocupado. E se ela for uma agente dupla? E se ela trabalha para outra operadora de celular, e se infiltrou na TIM como sabotadora?
Eu estou sendo sacaneado, tenho certeza. Eu ainda não sei direito como, mas estou sendo sacaneado.
Na dúvida, quando (ou melhor, se) este pacote chegar, eu vou avisar o porteiro que ele mesmo pode abrir a caixa. E, se a portaria do meu prédio explodir... Chupa TIM!
Vocês vão ter que se esforçar mais.
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Rob Gordon
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Algumas semanas atrás, liguei para a Tim para renegociar a compra de um novo aparelho. O meu já estava dando uma série de problemas, e queria alguma coisa nova, sem gastar muito. Conversando com a atendente, ela me colocou “na mesa” um iPhone 4.
Gostei da ideia. Não sou daquelas pessoas que precisa ter um iPhone porque todo mundo tem, mas sim porque nunca tive um telefone da Apple. E, como estou feliz da vida com o iPod de 160gb que comprei este ano, achei que era uma boa ideia. E o preço sairia bem em conta.
Assim, escolhi um modelo específico que havia em estoque, deixando claro para a atendente que minha prioridade era receber logo o aparelho.
O prazo de entrega? De cinco a dez dias úteis.
Passaram-se quinze dias úteis e nada. Foi quando liguei para a Tim, certo de que eles teriam ignorado minhas instruções claras de “preciso que entregue na portaria” (eles já fizeram isso, alegando que eu não estava em casa, e eu precisei de duas semanas para explicar a eles que quando eu não estou em casa, o porteiro se transforma magicamente em mim e pode receber as encomendas no meu nome). Mas, para minha surpresa, desta vez eles se superaram.
- Infelizmente, nós não temos este aparelho em estoque.
Pedi um minuto para a atendente e fui até a cozinha, ter um ataque de gargalhadas histéricas. Recomposto, voltei ao telefone.
- Certo. E como isso é resolvido?
- Assim que o estoque for reposto...
- Não, eu não disse como isso será resolvido. Eu usei o presente do indicativo. A solução vai ser dada agora. Porque vocês me venderam algo que vocês não possuem.
- O que eu posso fazer é dar um desconto maior para o senhor no aparelho.
- Certo. Deixe-me entender melhor. Vocês me venderam algo que não possuem. Aí, para remediar isso, vocês me dão um desconto ainda maior na compra do produto que vocês não possuem.
- Senhor...
- Será que se a gente negociar durante mais um tempo, você vai me dando descontos progressivos até a conta inverter e eu começar a receber por algo que vocês não possuem?
- Senhor...
- Se você quiser a gente pode ganhar tempo e eu já passo o número da minha conta agora? Eu até mando o meu aparelho para vocês de presente, se vocês quiserem. Que dia vocês vão depositar?
- Senhor, eu posso ver com o meu supervisor qual desconto pode ser oferecido.
- Hum... E você consegue ver isso agora?
- Sim, senhor.
- Assim, agora mesmo? Neste minuto?
- Sim. Basta o senhor aguardar alguns momentos.
- Isso quer dizer que o seu supervisor está aí?
- Sim, senhor.
- Que ótimo! Eu quero falar com ele.
- Senhor...
- Oi? Já é o supervisor? Ah não, ainda é você. Posso falar com o supervisor? Ou você vai me dizer que você vai transferir a ligação, eu vou ficar semanas esperando no telefone e só depois eu vou descobrir que vocês não tinham nenhum supervisor em estoque?
- Senhor...
- Eu não vou mais falar com você. Esta conversa está encerrada. Pode pular a parte que você pergunta se pode me ajudar em algo e que a Tim agradece pelo meu contato. Me passe para o seu supervisor.
- Só um minuto.
Passaram-se uns trinta segundos e o supervisor – ou alguém que estivesse se passando por ele – atendeu ao telefone.
Expliquei a situação pacientemente, e (juro!) sem usar um palavrão. Ele ouviu tudo pacientemente – ou apenas colocou o fone de ouvido sobre a mesa e ficou colhendo os morangos no Farmville até eu parar de falar.
- O que deve ter acontecido é que quando a venda do aparelho foi feita, o produto estava em estoque. Mas, quando caiu no sistema, os aparelhos já haviam sido vendidos.
- Entendi. É difícil mesmo.
- E o nosso departamento de logística tem apresentado muitos problemas. Eles são terceirizados, sabe?
- Sei.
- E agora, com a chegada do final do ano, tudo fica mais difícil.
Eu entendo o lado dele. A posição de supervisor é muito solitária. Caso eu fosse supervisor, iria querer alguém para conversar também. Deve ser muito duro passar o dia inteiro cercado por pessoas que usam fones de ouvido, respondem por nomes fictícios e não conseguem falar três frases seguidas sem usar gerúndio. Imagine, com quem ele iria poder desabafar a respeito do departamento de logística que não faz nada direito?
Comigo, claro.
Mas, assim que a sessão de terapia acabou, e ele parecia mais calmo por ter desabafado, eu respondi:
- Eu imagino. Mas, sabe, agora que você falou sobre os problemas do seu departamento de logística, eu fiquei com uma dúvida.
- Pois não?
- Você pode acessar o meu contrato com a Tim e ler em voz alta, de forma clara e pausada, a cláusula que implica que isso é problema meu?
- Senhor...
- Porque, com todo o respeito, além de açúcar cristalizado e chocolate granulado por cima da minha próxima frase, eu estou cagando para o departamento de logística de vocês.
- Entendo. Mas é que como eles são terceirizados...
- Quero fazer uma pergunta. Posso?
- Claro.
- Você compra nas Lojas Americanas um DVD de Star Wars. Você chega em casa e o estojo está vazio. Não tem disco algum. A pergunta é: com quem você irá reclamar? Com as Lojas Americanas, com a Fox, com o George Lucas ou com o Luke Skywalker?
- Senhor...
- Eu vou dar uma dica. Você comprou nas AMERICANAS. Onde você vai reclamar? Você tem que ter uma resposta para me dar. E, por favor, não me diga que o departamento de logística sumiu com as respostas do estoque.
- Senhor, o que aconteceu é que durante a compra do seu aparelho...
- Errado! Errado! A resposta é Americanas! Eu tentei te ajudar de todas as formas! Então, se eu comprei um aparelho de vocês e o aparelho não existe, eu não vou reclamar com o departamento de logística, nem com o fabricante, nem com o Graham Bell. Eu vou reclamar com vocês.
- Sim, senhor. E, em nome da Tim, estou assumindo o erro aqui.
- Que ótimo. Espero que você esteja se sentindo uma pessoa melhor agora. Parabéns. E meu telefone, chega quando?
- Como estamos na época de final de ano...
- Chega. Eu vou jantar. E vou jantar calma e tranquilamente, certo de que vocês estarão fazendo de tudo para resolver este problema e entrarão em contato comigo em breve. Certo?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Passar bem.
No dia seguinte, resolvi correr atrás disso. Minha missão?
Falar com a ouvidoria da Tim. Ou explodir o prédio da empresa. Ou sequestrar um dos atendentes e ficar torturando o coitado em casa, filmando tudo e mandando os vídeos para o SAC da TIM com a frase “este é só o primeiro”.
Ou tudo isso.
(Continua aqui)
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Rob Gordon
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Sabe,
Eu não tenho muitas memórias deste ano. Existem dias ou situações que, na minha cabeça, se tornaram um enorme espaço em branco, como se nunca tivessem existido. Ou como se eu estivesse dormindo, não sei. Em algumas delas eu até sei onde eu estava e o que estava fazendo, mas sei apenas porque me contaram. Lembrar mesmo, eu não lembro.
Mas claro que eu tenho o meu quinhão de memórias. Tanto boas como ruins. E muitas delas – se não todas – envolvem você direta ou indiretamente.
Algumas delas podem parecer pequenas. Passear de mãos dadas pela rua, almoçar conversando sobre a vida, dividir a Coca-Cola no cinema. Vasculhar livrarias, comer um doce numa praça de alimentação, entrar num shopping quase fechando para comprar o sapato que você precisava.
E brigas, claro. Todo mundo têm brigas, conosco não foi diferente. Brigas que enquanto acontecem parecem ser gigantescas, mas tornam-se pequenas quando ficam no passado. Brigas que, enquanto acontecem, parecem ser parágrafos e mais parágrafos, mas, que se tornam somente uma pequena vírgula quando se lê o texto inteiro. E acho que esta é a maior qualidade do amor: transformar as brigas em pequenas vírgulas.
Estas são as memórias, ou ao menos algumas delas, que envolvem você diretamente. Sei que elas parecem poucas, como se nós tivéssemos vivido juntos durante pouco tempo neste ano. Mas isso é culpa da minha ausência de memórias. Ou talvez porque tudo realmente tenha passado rápido demais.
E, como eu disse acima, existem as memórias que envolvem você indiretamente. São aqueles momentos nos quais você estava dentro da minha cabeça, mas eu não conseguia pensar direito. E chega a ser contraditório, já que os poucos fiapos de raciocínio que eu tinha nestes momentos eram por sua causa.
Pois era você que – talvez até mesmo sem saber que estava ali dentro – mantinha tudo unido. Aliás, não era apenas você, mas (principalmente) a ideia de você, que dava um mínimo de ordem ao caos, me mostrando que tudo o que podemos fazer com o passado é aprender, para podermos sonhar com um futuro melhor e mais adocicado.
Em todos estes momentos, pensar em você e em algumas de suas palavras e atitudes foi o que me mostrou isso, em momentos nos quais o presente, o passado e o futuro se misturavam de forma totalmente bagunçada dentro da minha cabeça.
Eram momentos nos quais me acusei de forma errada, nos quais me julguei por não estar ao seu lado, e me condenei por não ser mais a pessoa que eu era. Ou que sempre achei que fosse. Não sei ao certo. Mas se hoje estou aqui, devo isso a você. E a você, somente.
Como eu disse no início deste texto, tenho poucas memórias deste ano – e algumas ocasiões, como eu afirmei, eu sei que aconteceram somente porque me contaram. Mas em todas elas você estava ao meu lado. E disso eu tenho certeza absoluta.
Pois quem me conta isso, todos os dias, é o meu coração.
Muito obrigado pela lembrança de ontem, pelo sorriso de hoje e pelo sonho do amanhã. Muito obrigado por permitir que eu seja eu mesmo, numa época em que eu não sabia ao certo quem eu era. Muito obrigado por me incentivar profissionalmente, por me apoiar pessoalmente, por somar e dividir totalmente. Muito obrigado por acreditar em mim e muito obrigado por me mostrar que é possível.
Muito obrigado por tudo.
Amo você, Ana Claudia.
Beijos
Rob
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Rob Gordon
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