Nothing Else Matters
Meu relacionamento com o Metallica sempre foi meio complicado.
Quando eu comecei a gostar de metal, no começo dos anos 90, a banda era uma das minhas favoritas. E, apesar do enorme sucesso do Álbum Preto (que, diferente de muito fã radical, eu adoro) meu ponto fraco ali era o ...And Justice for All, que considero uma obra-prima, o disco que o Dream Theater e todas as bandas de metal progressivo tentaram fazer a vida inteira e não conseguiram.
Assim, no início dos anos 90, o dia 1 de maio de 1993 entrou para a história da minha vida como o dia do grande show do Metallica, no Parque Antárctica, na turnê do álbum preto. Foi meu segundo grande show (o primeiro havia sido Iron Maiden, no mesmo Parque Antárctica, na turnê do Fear of the Dark).
Mas, ao poucos, nosso relacionamento foi esfriando. Do meu lado, isso ocorreu porque comecei a desenvolver outras paixões que, não me fizeram deixar de gostar de heavy metal, mas passaram a disputar minha atenção. Do lado deles, as bobagens Load e Reload (somando os dois discos, não tem meia dúzia de músicas memoráveis) e St. Anger que eu, ao contrário de alguns fãs, ainda vejo algum valor, mas considero um dos piores discos da minha coleção.
Ok, as coisas melhoraram um pouco com Death Magnetic, mas nada que colocasse a banda no patamar “enlouquecedor” que ela já havia ocupado na minha vida. Assim, quando foram anunciados os shows no Brasil, eu confesso que pensei duas vezes. Primeiro, claro, pelo dinheiro; e, segundo e mais importante, receava que esta banda de hoje pudesse estragar as memórias que eu tinha do show de 93.
Felizmente, eu não poderia estar mais enganado.
Sra. Gordon quis ir, nós fomos. Curiosamente, o dia do show começou de forma atípica. Em noite antes de show, eu já não consigo dormir direito, de ansiedade. Desta vez, nos encontramos no Shopping Morumbi e ficamos enrolando ali, indo para o Morumbi somente no final da tarde. Ou seja, eu entrei no “clima de show” poucas horas antes do concerto, e não dias antes.
Assim, ficamos ali batendo papo, esperando o tempo passar, e nos dedicando ao nosso hobby preferido: achar pessoas parecidas, claro. Mas até nisso o show estava fraco – apesar de ela ter achando um Padre Cícero lá no meio. E fomos atrapalhados pelo pessoal à nossa esquerda, um punhado de babacas liderados por uma gordinha virgem (de show, de beijo, de tudo) que ficava tentando fazer gracinha – aos berros, claro – com tudo o que via, sendo logo seguida por dois ou três manés que a acompanhavam.
Oito e pouco da noite, apagam-se as luzes e o Sepultura entra no palco. Respirei aliviado, pois, até o último momento, eu tinha certeza de que a banda cancelaria o show de abertura, e este seria feito pelo mala do André Mattos, que tem o péssimo hábito de abrir todos os shows que eu vou.
Nunca tinha visto um show do Sepultura, mas minhas suspeitas se confirmaram. Existem dois tipos de música num show (pensando, claro, numa banda que você não sabe todos os discos de cor): as que você conhece, e as que você não conhece – e o problema é que no caso do Sepultura, as que você não conhece são todas iguais. Assim, eu curti mais o material da fase Max Cavalera: Inner Self, Dead Embryonic Cells, Arise, Roots Bloody Roots – diferente da platéia, que pulava o show inteiro, mostrando um enorme respeito pela banda.
E, claro, fiquei esperando eles tocarem Orgasmatron, que, convenhamos, é um hino. E estou esperando até agora. Paciência, não se pode ter tudo.
Assim, por volta das 21:30, as luzes se apagam e o trecho que Eli Wallach chega ao cemitério em Três Homens em Conflito surge no telão, ao som de The Ecstasy of Gold, de Morricone – a clássica abertura dos shows da banda. A platéia, claro, vai à loucura. Logo, os primeiros riffs de Creeping Death ecoam no Morumbi, e o estádio vem abaixo.
Na verdade, foi covardia do Metallica. Qualquer show de rock que comece com cenas de um western do Sergio Leone e música do Ennio Morricone já não tem como dar errado – se a banda tocasse um cover de Rosana logo depois disso, não teria problema. Mas, ao invés disso, eles escolheram, para abrir o show, Creeping Death, que sempre foi, disparado, minha música preferida deles.
Quem já leu minhas outras resenhas de show sabe que, em determinados momentos, eu esqueço que estou com dezenas de milhares de pessoas e começo a acreditar que a banda está tocando determinadas músicas para mim. Coisa de fã: se você é, você sabe; se você não é, nem tente entender.
Mas ontem foi um pouco diferente. O Metallica não simplesmente tocou Creeping Death para mim. Abrir o show com esta música foi a maneira que eles encontrarem de dizer, diretamente para mim, uma única palavra:
– Voltamos.
E eu voltei junto. Em segundos, eu tinha dezesseis anos novamente. Eu pulava e, ao invés de cantar a letra junto, eu urrava. E ignorei o fato de que hoje minha franja fica na altura da nuca (na época do primeiro show, ela era quase no meu peito) e o resultado é que, hoje, depois de décadas sem sentir isso no dia seguinte após um show, eu não tenho mais pescoço.
E o clima de “nostalgia” continuou nos primeiros minutos de show, com For Whom the Bell Tolls, The Four Horseman, Harverster of Sorrow e Fade to Black. Ou seja, em meia hora de show, a música mais recente que eles havia tocado era de 1988. Foi golpe baixo. Em vinte minutos de show, a platéia estava entregue. Eu, ao menos, estava – e minha garganta começando a pedir arrego.
Felizmente, foi esta a hora que eles escolheram para mostrar o material do novo disco, assim eu pude “apenas” assistir ao show, sem ficar me esgoelando no Morumbi. Assim, emendaram That Was Just Your Life, The Day That Never Comes e Broken, Beat & Scarred. Ah não, minto. Entre as duas últimas, eles colocaram uma pequena canção no meio: Sad But True, que, obviamente, quase fez o Morumbi desabar.
Vale ressaltar o comportamento de James Hetfield no palco. Os fãs mais antigos, acostumados com o Hetfield bêbado, se surpreendem com um vocalista que, literalmente, conversa com a platéia, coisa que ele não fazia antigamente. Qualquer pessoa que já assistiu a shows antigos do Metallica sabe que ele xingava, sacaneava e até mesmo brincava com a platéia, mas não conversava.
Hoje, o Hetfield sóbrio tem uma postura mais humilde, mais sincera, agradecendo a platéia de uma forma que chega a ser tocante, especialmente para quem sabe o inferno que esse cara passou na mão da bebida, ver o quanto o sujeito está em paz hoje em dia. Ponto negativo para os adolescentes que acham que, para tocar heavy metal, é preciso ser sujo, bêbado e raivoso.
E, a partir da segunda metade, o clima de clássicos dominou. E, lembre-se que quando você está falando de Metallica, “clássicos” não significa “clássicos da banda”, mas sim “clássicos do heavy metal”, numa sucessão de músicas que, sejamos sinceros, ajudou a construir a história do estilo.
De cara, One – com direito a efeitos especiais que incluíram fogos de artifício (que, convenhamos, tem mais a cara do Kiss que do Metallica). Aí começa a nova sucessão de golpes baixos: Master of Puppets e Blackened, finalizando com duas do Álbum Preto: Nothing Else Matters – e qualquer coisa que eu pudesse comentar sobre este momento do show interessa somente a mim e a Sra. Gordon – e Enter Sandman, que fez o Morumbi (literalmente) balançar.
Pausa para o bis. Aliás, uma dúvida: porque algumas pessoas deixam o estádio antes do bis? É evidente que a banda irá retornar ao palco, já que o resto do público não arreda pé do estádio, e as luzes não se acendem. Será que essas pessoas realmente acreditam que o show acabou? Ou – pior, ainda – sabem que o show está no final, e decidem ir embora antes, para “fugir do trânsito”?
Bem, estas pessoas perderam um final apoteótico. Primeiro, com a banda retornando ao palco “ameaçando” tocar The Frayed Ends of Sanity. Mas ficou apenas na ameaça, já que pararam na introdução. Afinal, era a vez do famoso momento em que eles tocam um cover de alguma banda que os inspirou, e ontem a escolhida foi Stone Cold Crazy, do Queen – cuja versão dos californianos já é extremamente famosa.
E, para encerrar o show, dois petardos do primeiro disco da banda: Motorbreath e Seek & Destroy, verdadeiro hino do Metallica. Mas, mais importantes que as duas músicas, foi a autenticidade dos músicos – especialmente James Hetfield – ao final do show. Visivelmente emocionados, se recusavam a deixar o palco.
Os motivos são óbvios: nos últimos anos, a banda quase acabou, tanto internamente (com as brigas reveladas no documentário Some Kind of Monster) quanto externamente (com críticas e mais críticas por parte dos fãs). Assim, após mais de uma década sem tocar na cidade, provavelmente eles esperavam uma recepção, no máximo, morna, e não um estádio praticamente lotado e fãs entoando músicas de mais de vinte anos.
Por isso que ficou claro que o concerto de ontem foi especial também para a banda. O momento onde Hetfield mostrou estar arrepiado ficará para sempre na memória dos fãs: Metallica arrepiou o público, e o público arrepiou o Metallica. E esta troca é difícil de acontecer em bandas com anos e anos de estrada.
Eu? Bem, eu e o Metallica fizemos as pazes ontem. Hoje, estou com dores no corpo, dores de dia-seguinte-após-show como eu não sentia há anos. E, mais importante que isso, da mesma forma que Hetfield se arrepiou no final do show, eu me arrepiei diversas vezes enquanto escrevia este texto.
Porque, mais que “simplesmente” apresentar um excelente show, o Metallica me deu um presente ontem: a banda fez com que por duas horas, eu tivesse 16 anos de idade.Eu não estou falando “me sentir com 16 anos” e sim “ter 16 anos”.
E isso é algo que jamais vou esquecer. So let it be written, so let it be done.
E, para dizer que o show não foi perfeito, segue o Top 5 Músicas que Eu Adoraria Ter Ouvido Ontem:
1. ...And Justice For All - é a Rime of the Ancient Mariner da banda. E todo mundo sabe que tenho queda por músicas grandes.
2. Battery - Talvez seja a maior ausência entre os clássicos.
3. Ride The Lightning - Um dos grandes motivos pelo qual o segundo disco deles melhora a cada visita.
4. The Unforgiven - cá entre nós, eu e o Morumbi sentimos falta dela.
5. The Thing that Should Not Be - outro ponto fraco meu são músicas lentas e pesadas, e esta é um primor neste sentido.
Fotos: G1




