14 de janeiro de 2010

Clone Wars

Chegou o momento de falar a vocês sobre minha disfunção cerebral.

Na verdade, quem acompanha este blog há algum tempo já deve ter percebido que eu tenho mais de um problema mental – e quem me conhece pessoalmente costuma dizer que eu deveria fazer terapia em grupo (na verdade, em grupo porque seria eu e um grupo de terapeutas) –, mas hoje eu quero falar de uma específica, que permeia meu dia a dia:

Minha obsessão em encontrar pessoas parecidas.

Normalmente, ela acontece quando estou em restaurantes. Na verdade, acontece o tempo inteiro, em qualquer local: andando pela rua, vendo TV, mas, em restaurantes, eu mal faço outra coisa. Às vezes, eu não consigo nem comer direito. Sento-me à mesa e começo a me comportar como um imbecil: sim, converso com quem está comigo, mas fico olhando para os lados, o tempo inteiro, procurando pessoas parecidas com qualquer coisa.

E meu cérebro, claro, fica trabalhando a todo vapor. Vou tentar descrever mais ou menos o que acontece aqui: “Esse velho da mesa ao lado... Quem é ele? O segredo está nos olhos... Acho que é alguém do Ben-Hur. Ou do Spartacus, não sei. Merda, velho, me ajude um pouco, olhe para cá! Esses olhos... Já sei! É o Peter Ustinov, no Spartacus! Perfeito! Os mesmos olhos, as mesmas bochechas de buldogue, perfeito. Pronto. Agora, a mulher dele...”

Acredito que o meu cérebro funciona como aqueles computadores do CSI: os neurônios jogam a foto da pessoa ali e começam a buscar elementos correspondentes: olhos, boca, orelhas etc. De repente, eles voltam com uma informação que normalmente é o universo do sósia, algo como “Simpsons”, “Futebol”, “Poderoso Chefão” etc. Mas claro que, às vezes, a pessoa é tão idêntica a alguém em questão que eles já voltam com a resposta pronta, algo como “é o Alain Prost”, “é o capitão Haddock, do Tintin”, “é o Aureliano Chaves”.

E eu passo o jantar inteiro assim. Chega a picanha, chega a fraldinha, chega o cupim (ah sim, se você é novo aqui, vale dizer que jantar, para mim, é carne) e eu ali, trabalhando em cima das pessoas. Às vezes, eu chego a ficar analisando três pessoas diferentes ao mesmo tempo. “Bom, aquele moleque de boné é alguém da novela, depois eu volto nele; o pai dele é da família do Tony Iommi (daqui a pouco eu falo sobre as famílias); deixa eu me concentrar naquela tia ali do canto, porque ela já está na sobremesa e eu nem comecei ainda”.

E não estou exagerando, é quase uma obsessão. Não fica apenas em jantar, eu ando pela rua, em shoppings, fazendo isso. Até mesmo trabalhando eu não consigo parar. E é aí que entra o motivo da patologia: por mais que eu adore fazer isso, eu não faço porque eu adoro, mas sim porque não consigo parar. É instintivo.

É doentio.

Mas, felizmente, isso não atrapalha meu convívio com as outras pessoas – no máximo, corro o risco de apanhar no restaurante, porque não paro de encarar os outros. Mas como eu janto normalmente em locais onde conheço todos os garçons, o risco é pequeno.

E as pessoas que estão comigo na mesa, acabam se acostumando e até mesmo se divertindo com isso.

Aliás, não é difícil, quando algum amigo fala para a namorada, por exemplo, sobre essa minha mania, a menina virar e soltar um:

– Com quem eu pareço?

– Não, não é assim que funciona, não sob pressão.

– Pode falar.

– Juro que não sei. Daqui a pouco surge algo.

E desconverso. Mas, de repente, no meio de uma conversa, eu solto um:

– Maria Padilha! Você é totalmente Maria Padilha!

Mas, o grande agravante da coisa é que um dos meus melhores amigos sofre do mesmo mal. E nós jantamos juntos pelo menos duas vezes por mês, para colocar o papo em dia. Agora, o problema não é que ele também gosta de fazer isso, mas ele faz – modéstia à parte – tão bem quanto eu. Então, nossos jantares costumam ser assim:

– Cara, eu estou com o saco cheio daquele trabalho. Meu chefe, outro dia, pediu um relatório para o dia seguinte, e eu não tinha material nenhum. Dá uma olhada na Lúcia Veríssimo ali, na mesa do canto. E eu expliquei isso a ele, mas não adiantou. Quase varei a noite ali.

– Na redação a coisa está feia também. Este garçom é igualzinho ao Buzz Lightyear, dá uma olhada no queixo dele, quando ele vier. Os prazos estão cada vez mais apertados.

E o cérebro dele funciona da mesma forma que o meu, porque às vezes ele me pede:

– Rob, me ajuda com aquele maitre. É alguém de futebol.

Não conseguimos parar. É doentio. E, sinceramente, às vezes perde a graça, pois, quando estamos inspirados, gabaritamos o restaurante inteiro. Chegamos ao cúmulo, uma vez, de combinarmos uma coisa. Iríamos decidir um universo qualquer e nos concentrarmos em encontrar alguém deste universo. Assim, sentamos na mesa, ele se sentou e disse:

– Simpsons.

Ele olhou para um lado, eu olhei para o outro. Menos de cinco segundo depois:

– O apresentador do telejornal de Springfield está no Buffet, eu disse.

– A professora do Bart Simpson está entrando com o marido, ele respondeu.

Desistimos disso e passamos a continuar fazendo do modo tradicional. Sinceramente, somos tão experientes nisso que já definimos até algumas categorias que são tão fáceis que chegam a ser obrigatórias: todas as noites, temos que encontrar alguém parecido com a Castafiore, do Tintin; a Rosa Klebb, vilã do Moscou contra 007; e o Henrique, que jogou no Corinthians.

Na verdade, nós trocamos impressões até mesmo quando não estamos juntos. Ficamos trocando sms o tempo todo sobre isso. Estou jantando e recebo um “o Cid Moreira está comendo no Degas”; meu amigo está trabalhando e recebe um “A rainha Elizabeth está na Fnac”.

E, no meio dos jantares, nasceram as famílias (eu disse que iria falar delas, lembram?). São aqueles grupos de celebridades que se parecem entre si – não adianta uma celebridade se parecer com outra, como a Marília Gabriela e o Espantalho do Fandangos (como já citado anos atrás no blog), o Bruce Dickinson e o Leopoldo Pacheco, ou o Caetano Veloso e o Coringa.

Precisam ser grupos de celebridades: por exemplo, há a família do Zenon (Zenon, Belchior, Tony Iommi, Yanni, Toquinho etc), a família do Paulo Baier (Paulo Baier, Brian Eno, Seinfeld, Steven Soderbergh) e a família do imperador Palpatine (imperador Palpatine, Glenn Close, Peninha, Galeão Cumbica e o KK Downing, guitarrista do Judas Priest).

A coisa é tão doentia que eu cheguei ao cúmulo de achar pessoas parecidas comigo na rua. E. não, não vou abrir com o que pareço – mas admito que tem muita coisa – e meu amigo tem olhos tão afiados que consegue ser bem sucedido até mesmo nas situações mais improváveis: foi no meio do show do Iron, por exemplo, que ele descobriu que o Janick Gers é igualzinho ao Nick Nolte em Hulk.

E, assim, vamos vivendo. E enquanto não apanharmos em algum lugar, vamos continuar. E, quer saber? Se um dia levarmos uma surra num restaurante qualquer, mesmo assim não vamos parar de fazer isso. Não conseguimos. Quando muito, vamos ficar um tempo sem ir ao restaurante, e só.

E, quando decidirmos voltar ao restaurante, não falaremos algo como “vamos naquele lugar onde apanhamos?”, mas sim, “vamos no Galeano”, porque o maitre é igualzinho ao antigo volante do Palmeiras.

Mas, enquanto não apanhamos, deixo vocês aqui com o Top 5 Categorias de Pessoas Parecidos que Mais Encontramos nos Jantares:

1. As puras: quando a pessoa é idêntica a alguém, sem tirar nem por. Por exemplo, “aquele cara não se parece com o Tim Maia, ele é o Tim Maia”.

2. As adaptações: quando a pessoa se parece com alguém, mas é necessário dar uma mexida (de leve): por exemplo, um dos funcionários do Degas é um mini-mim do Russell Crowe em Uma Mente Brilhante – ele é idêntico, mas tem mais ou menos 1.20m de altura.

3. As (já citadas) categorias obrigatórias: normalmente, são as primeiras que encontramos. Antes de sentar, um vira para o outro e diz: “já matei a Rosa Klebb, olha ali naquela mesa grande, bem no meio”

4. As famílias: normalmente são as segundas mais fáceis: “olha um cara da família do Paulo Baier ali”. Isso implica automaticamente que ele se parece com todos os membros da família.

5. Os coringas – São aquelas pessoas que se parecem com muita coisa. “Aquele velho ali parece o Coronel Mostarda, mas só de frente. De lado, ele é meio Goldfinger”.

PS – Fiquei tentado a caçar fotos de todas as celebridades citadas aqui, mas desisti, por três motivos: 1) o mais óbvio, claro: preguiça; 2) fotos são inimigas da arte de se encontrar pessoas semelhantes: o movimento é essencial; 3) faça como eu e confie no seu instinto: antes de puxar a foto da pessoa no Google, puxe pela sua memória – é extremamente mais eficiente e divertido, confie em mim.

31 comentários:

Otavio Oliveira disse...

hahah sabia que vinha algo desse tipo.

e ainda quero saber mais sobre a familia ronald golias :D

otaviocohen

Tyler Bazz disse...

O Marvin, por exemplo, é super parecido com aquela cafeteira que - se nao me engano - a Nescafé lançou faz um tempo...

Sou júnior ainda.

Tyler Bazz disse...

E SIM!!!!

O garçom do Degas É a miniatura do Russell Crowe em Uma Mente Brilhante... EU VI, PESSOALMENTE!!!

E no mesmo dia o Capitão Haddock, e Carolina Villenflusser, estavam por lá.......

disse...

Sim, eu também fiquei curiosa para saber com quem me pareço ;-))))

Contando os dias... disse...

Uma vez , eu e o Fábio tiramos foto de um cara parecido com vc na padaria rss

Contando os dias... disse...

... e não... não era o Colin Farrell rs

Bia disse...

Legal ter essa capacidade em identificar fisionomias... Eu não consigo. Tenho medo de, se um dia acontecer de passar uma semana sem ver o meu melhor amigo, passar na rua e nem reconhece-lo...

Marina disse...

Pior mesmo é meu pai, que apelidou quase todos os garçons de um restaurante que frequentamos e só os chama pelos apelidos, como:

- Ei, Topo Gigio, traz uma porção de agulha frita pra gente!

An@Lu disse...

quer saber da pior? uma vez eu vi uma garota tão parecida cmg que o meu cérebro divagou e me perguntei se era eu.

R. disse...

sei bem como é conviver com isso... seu amigo daqui tb tem esse hábito :)

Bruno disse...

Cara, você é um figura! hahaha

E que ninguém me ouça aqui, mas minha sogra é a madame Castafiore. Com o cabelo uns dois tons abaixo, mas eu sei que é.

Varotto disse...

Melhor de todas:

"...a família do imperador Palpatine (imperador Palpatine, Glenn Close, Peninha, Galeão Cumbica e o KK Downing, guitarrista do Judas Priest)."

P.S.1: Pô, você não me mostrou o mini-me do Russel no Degas!

P.S.2: "Dá uma olhada na Lúcia Veríssimo ali, na MESMA do canto"

P.S.3: Quando esse negócio de revisão de texto estiver enchendo o saco, você avisa...

May. disse...

Eu evito reparar muito nas pessoas desde o dia que eu encontrei um amigo meu no meio de grupinho de pessoas e um dos componentes do grupo era o Wally, do "Onde está o Wally?". Não consegui cumprimentar ninguém porque eu passei mal de rir e não foi simpático rir da pessoa na cara dela. Mas ele tava até VESTIDO parecido, eu não tive culpa.

Bel Lucyk disse...

O povo da minha cabeça tem mania disso, numa maneira menos patológica =)
E sim, é divertido.

Kika® disse...

Ok, eu sou de uma categoria comum, ordinária mesmo. Porque TODO MUNDO que conheço me diz: "Nossa, tenho uma amiga/prima/conhecida/colega igualzinha a você..."

¬¬

Nathália disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nathália disse...

"A verdade, nós trocamos impressões até mesmo quando não estamos juntos. Ficamos trocando sms o tempo todo sobre isso."
achei que você ia se declarar ali. haha sem ofensas, foram feitos um pro outro.
p.s: minha mãe costuma dizer que sempre que eu falar que alguém na rua parece com alguém que conheço com certeza NÃO é a pessoa. não sou boa em fisionomias.

Nelson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nelson disse...

Pequena correção: "Dá uma olhada na Lúcia Veríssimo ali, na MESA do canto."

Marília Gabriela como espantalho do Fandangos é genial, hahaha.

abração Danny DeVito

Richard disse...

Pensei que fosse o único. Muita gente fica até me perguntando com quem parece fulano ou ciclano.


Inclusive, já avisei ao @castrezana que os carinhas da novela das 7 são idênticos a ele.

Abs, Rob!

Amanda Ullmann disse...

Muito bom Rob.
Eu também tenho uma mania, talvez um pouco mais estranha que a sua, mas toda vez que uma pessoa passa por mim, eu consigo identificar que perfume ela está usando, e quando eu não sei, ou não tenho certeza, eu pergunto. Meio freak, mas de boa, haha.
Sempre me perguntei com quem me pareço, mas nunca consegui identificar ninguém. Sou louca pra saber. Rola de mandar uma foto pra você me dizer? haha Sei que a curiosidade mata, mas, what the hell. Não morri até hoje.

Nadia disse...

A primeira coisa que passou na minha cabeça foi: "olha o tyler aí."
depois eu mudei pra um: "não, ele nunca acerta.. o rob parece bom nisso."
ai eu pensei: "hê hê... eu faço isso na facul"

ahuahuahuahuahauhahua

Layla Barlavento disse...

Também adoro fazer isso! Não profissionalmente como vocês dois, mas acho que sou boa. Consegui encontrar um homem que era a cara do Marlin o pai do Nemo. Do desenho animado sabe? Esse foi o meu melhor.

Ah! Falei de você lá no blog!

R. disse...

Ahh legal, agora quando eu sair vou ficar olhando para as pessoas e provavelmente irei apanhar..rs

Eu tenho um amigo que ele não se parece com o Rob Willians, ele é o Rob Willians.

bjo

Larissa Bohnenberger disse...

Eu fico imaginando o quão insanos vocês não parecem (parecem?) jantando e encarando as pessoas. Tá aí um talento que eu não tenho. Para achar duas pessoas parecidas tem que ser MUITO parecidas, tipo, na cara!

Bjs!

Beda disse...

Hehehe, eu faço algo parecido mas só com as "famílias".
Fernanda Vasconcellos e Zooey Deschanel mesma família, bela família.

Abraços

Jullia A. disse...

A mar'ilia Gabriela e o espantalho do Fandangos DHOAISUDHAISUDHAIUSDHAOISUDHAOIUDHAOISDHAOISUDHAOISUDHAOISUDHAIUSHD

GE-NI-AL! GENIAL!
n~ao sei como chegei os meus atuais anos de vida sem pensar nisso.

Pri disse...

Eu sempre sou alvo desse tipo de comparação... dos mais diversos!
Já me falaram q eu parecia desenho! Desenho???

panaggio disse...

Também faço isso. Mas não tão doentiamente assim =P

Mas normal, nosso cérebro é uma máquina de reconhecimento de padrões.

Leandro "trecker" Gabriel disse...

O James Cromwell de uns 35 anos trabalha como caixa no Bradesco da Pedroso.

Mary disse...

Sei que faz bem mais de um mês deste post, Rob, mas queria te dizer e desde já, peço desculpas pela forma como vou fazê-lo, mas.. PQP! Agora não consigo mais olhar para as pessoas da mesma maneira!!! *risos*
É como se você tivesse me mostrado uma maneira diferente de ver o mundo e o tempo inteiro agora eu me pego fazendo isso que você mencionou... "Nossa, aquele é fulano..."
E aí, ainda por cima, lembro de vc. É mole?
Ou como diria o Macaco Simão, é mole mas, sobe!
PÔ Rob, vc devia por uma advertência nesse post, avisando que ele pode viciar as pessoas a fazerem o mesmo!
abraços, adoro suas histórias!