21 de janeiro de 2010

O Deus da Guerra e a Teodoro Sampaio

Imagine um daqueles comerciais de margarina. Pai, mãe e os filhos pequenos, tomando café da manhã, com uma mesa cheia de pãezinhos e sucos. As crianças são lindas e estão prontas para ir à escola – e felizes com isso. A mãe, sem conseguir parar de sorrir, passa margarina nas torradas quentes e entrega aos filhos e ao marido. O Sol brilha do lado de fora e, pela janela, é possível ver que o quintal da casa deles possui um enorme gramado.

A maioria das pessoas diz que isso é falso demais, que famílias assim não existem de verdade. Eu discordo. Aposto que o mundo está cheio de pessoas assim, que acordam bem dispostas, felizes e, desde que saem da cama, não conseguem parar de sorrir.

Sim, elas existem.

Tratam-se das pessoas que não precisam andar pela Teodoro Sampaio pela manhã.

Enquanto algumas crianças começam o dia tomando o café da manhã dos campeões, eu começo meu dia chutando barracas de camelô para abrir espaço e me espremendo em portas de lojas para desviar de velhas que andam com sacolas – e dentro da sacola nunca tem uma laranja ou uma revista, é sempre um armário ou um fogão a lenha.

Quando chove, então, a coisa é pior ainda. Mas nada supera quando a polícia está andando por ali. Os camelôs começam a fugir desesperadamente, carregando seus óculos de Sol e bonecos falsificados do Homem-Aranha, criando um arrastão que me carrega sempre uns 50 metros para trás.

E isso acontece desde que me mudei para Pinheiros.

Curiosamente, nos últimos dias, eu encontrei uma solução para isso. Quando ando com meu MP3, eu começo a reparar que me deixo influenciar – ao menos, emocionalmente falando – pelas músicas que estou ouvindo. Somando A com B, concluí que a Teodoro Sampaio precisaria de uma trilha sonora específica e escolhida a dedo, algo que me fizesse andar por ali tendo a certeza de que as pessoas é que precisam desviar de mim, e não o contrário.

Assim, parei outro dia em frente à minha coleção de CDs e comecei a estudá-la. De cara, eliminei todos os Beatles e Eric Clapton. A Teodoro Sampaio não demanda nada sobre amor. Na verdade, precisaria ser algo sujo. Sujo e poderoso. Ou seja, estamos falando de Metallica para cima – ou para baixo, dependendo de como você encara este estilo de música.

E não poderia ser uma música rápida. Minha intenção não era andar correndo pelas calçadas. Não. Eu queria andar na velocidade que quisesse, com as pessoas fugindo de mim. Eu não queria ser um caça, mas sim um tanque de guerra (caros leitores: isso é uma metáfora. Eu sei que tenho 1.60m, então guardem as piadinhas envolvendo os tanques dos Comandos em Ação para vocês). Precisava ser uma música lenta, suja, amedrontadora. Afinal, era justamente nisso que eu precisava me transformar.

Correndo os dedos pelas prateleiras mais sombrias da minha coleção, fui atravessando CDs de Megadeth, Metallica, Slayer, mas nada parecia ser o ideal. Foi quando eu me lembrei que estas bandas possuem algo em comum: todas elas veneram o Motorhead. Assim, a resposta certamente estaria ali. Ace of Spades? Rápida demais. 1916? Lenta demais, triste demais. The Chase is Better than the Catch? Safada demais. Eu precisava de algo diferente. Foi quando uma palavra se acendeu na minha mente.

Orgasmatron.

Perfeito. Até o nome dá medo. Orgasmatron. Pensei até em usar a versão do Sepultura, mas mudei de idéia: a do Motorhead é mais suja, parece gravada num porão. Caso você não conheça, veja o vídeo abaixo.





Assim, coloquei o arquivo no MP3 e fui dormir, esperando pelo dia seguinte.

E ontem foi o grande dia. Saí de casa, coloquei os pés na Teodoro e parei. Liguei o MP3, coloquei a música no volume máximo. Meu cérebro começou a derreter nos primeiros acordes. Meu corpo, por outro lado, começou a crescer. Eu me sentia como o Popeye após comer latas e latas de espinafre. Meus músculos cresceram rapidamente, quase rasgando minha blusa; o poder corria pelas minhas veias. Faltou só ganhar cabelo, mas isso é um detalhe que não faria diferença.

E, assim que Lemmy deu aquele urro que praticamente abre a música, eu comecei a andar pelas calçadas.


I am the one, Orgasmatron, the outstretched grasping hand
My image is of agony, my servants rape the land
Obsequious and arrogant, clandestine and vain
Two thousand years of misery, of torture in my name
Hypocrisy made paramount, paranoia the law
My name is called religion, sadistic, sacred whore.


Quando Lemmy estava cantando “two thousand years of misery”, eu já tinha quase três metros de altura. Funcionava. Provavelmente, meu rosto era uma máscara de ódio e meus olhos eram vermelho-sangue. As pessoas olhavam para mim e desviavam o caminho, evitando claramente entrarem no meu campo de visão. Cada passo meu fazia a terra tremer, a cada vez que eu olhava para os lados, as pessoas se escondiam atrás dos carros.


I twist the truth, I rule the world, my crown is called deceit

I am the emperor of lies, you grovel at my feet
I rob you and I slaughter you, your downfall is my gain
And still you play the sycophant and revel in my pain
And all my promises are lies, all my love is hate
I am the politician, and I decide your fate


Sim, camelôs, é isso mesmo que vocês ouviram. Eu decido o vosso destino e vossa queda é a minha vitória. Eu podia fulminar as pessoas apenas com um olhar. Meu coração batia acelerado, quase incapaz de conter tanto poder dentro do meu corpo. A Teodoro Sampaio deixou de ser asfaltada; agora, ela era um campo devastado pela fome e pela miséria. E eu era a destruição encarnada. As velhas largavam as sacolas e procuravam abrigo, e eu esmigalhava o conteúdo de cada uma delas com meus passos.


I march before a martyred world, an army for the fight

I speak of great heroic days, of victory and might
I hold a banner drenched in blood, I urge you to be brave
I lead you to your destiny, I lead you to your grave


Assim, fui me aproximando da Pedroso de Moraes, deixando um rastro de sangue e destruição em meu caminho. Minha alma corroída pelo ódio emanava odor de enxofre. E, com o caminho livre, fui avançando lentamente. As flores e plantas morriam pelas calçadas nas quais eu caminhava. Meus dentes rangiam de crueldade em estado puro.

Mas, aparentemente, os habitantes da Teodoro Sampaio haviam escolhido um herói para me enfrentar. A poucos metros da Pedroso de Moraes, uma menina de aparentemente uns 20 anos de idade permanecia de pé, na minha frente, de forma desafiadora. Me aproximei, pronto para devorar a cabeça dela e assim puni-la pela sua ousadia, mas ela foi mais rápida.


Your bones will build my palaces, your eyes will stud my crown

For I am Mars, the god of war, and I will cut you down.


Esticou o braço e me entregou um pedaço de papel. Ele chamuscou levemente onde encostei meus dedos. Li sua inscrição.

Era um maldito panfleto dando 5% de desconto nos artigos de perfumaria em uma farmácia. Perfumaria? Farmácia? Desconto? Como assim? Eu sou o deus da guerra! O imperador das mentiras! Ninguém respeita mais nada? Eu preciso de morte e sangue, não de um xampu com ervas para cabelos secos.

Olhei para ela. Pensei em perguntar qual parte de “seus ossos vão construir o meu palácio” ela não havia entendido, mas era tarde demais. A música havia parado. Dentro do meu MP3, Lemmy havia largado o baixo no meio do palco, e se escondido atrás da bateria, para chorar de vergonha.

O encanto havia terminado. Eu não usava mais uma armadura de metal e andava pela Teodoro brandindo um machado decorado com caveiras humanas. Eu estava novamente com 1.60m, e usava jeans e uma camisa um pouco apertada. E meus tênis estavam molhados, porque estava pisando numa poça e não tinha percebido.

Guardei o panfleto no bolso, tirei os fones de ouvido e suspirei.

Resignado, aceitei minha derrota e segui meu caminho até o trabalho, desviando dos camelôs e quase levando um banho de uma moto que passou por cima de uma poça. E demorei para chegar no trabalho, porque tive que andar 15 metros atrás de uma velha que ocupava a calçada inteira e se movia a 0,003km/h.

Ou seja, eu sou o deus da guerra e seguro uma bandeira encharcada em sangue. Mas, meus servos, ao invés de estuprarem a terra, simplesmente olham para mim com desprezo e gritam: “chupa, Orgasmatron!”.

Ô fase.

21 comentários:

Dani. disse...

Meu, primeira vez que eu sou a primeira a comentar, mas isso não vem ao caso.

Rob, mesmo encarnando o Orgasmatron vai ser sempre com você. Não adianta!

Na próxima vez tenta usar a Besta Fera pra abrir caminho, quem sabe funciona...

Mari Hauer disse...

Nossa, dessa vez eu cheguei a apostar que você chegaria bem no trabalho!

Tyler Bazz disse...

Morri aqui! aHUAhuaHUAhuaHUAhuaHUAhua

Tà top demais esse!!!!



Tenta Aces High amanhã... imagino vc cortando entre as pessoas, feito um motoboy, no melhor estilo "saltitante"...
E ainda dá pra gritar "scream for me Sampaio!", se achando o Bruce.

chaverinho disse...

hj quando li as notícias sobre as chuvas em SP eu já sabia que iria vir um texto seu!!! eu já esperava por isto.

E devo dizer que estou com medo... amanha viajo pra sampa para um casamento e não consigo parar de pensar na sua saga por Vitória!! #medo #muitomedo

Leandro disse...

Fazia tempo que não ria tanto com um texto aqui!! (o Diga-me o que Procuras... não conta).

A descrição da metamorfose após o início da música ficou ótima... e gargalhei na parte do "fogão a lenha".

Sugestão de música para tentar novamente amanhã: Electric Funeral.

Jullia A. disse...

Rob Rob, nem o Motorhead 'e maior que a magnanima Teodoro Sampaio. Infelizmente o orgasmatron nao pode encarar o destino. Voce 'e e sempre vai ser um alvo. Aceite. ( soou profetico nao?)

Sra. Turista disse...

Vc devia tentar com a trilha do Darth Vader. Ninguém pode com o lado negro da força.

Bia Nascimento disse...

Adorei o post e confesso que já fiz o mesmo.
Metallica é ótimo pra esse tipo de situação e te digo que faço demais isso pois moro em um bairro onde Banda Calipso e outros absurdos são tão amados mais que tudo nessa vida.
Mais um post que me fez rir demais! descobri seu blog há pouco tempo e confesso que passo boa parte do meu tempo lendo os posts mais antigos.
=)

Varotto disse...

Cara! Maravilhoso isso!!

Texto duca prá c¨%*&¨%*&!

E você não podia ter escolhido música mais perfeita para isso.

É engraçado, mas agora que você citou, sempre que eu abro meu armário de CDs, tenho a impressão que os outros discos estão encolhidos para os cantos para não ficarem perto do Orgasmatron.

Rafiki disse...

Muito boa essa sensação, pelo menos enquanto houve encanto.

Dama do Lago disse...

Agora a sexta está completa. Chorei no Chronicles e morri de rir aqui, perfeito ^_^

Alguém já sugeriu minha idéia : Marcha Imperial. Aposto como você conseguiria chegar ao trabalho ;)

Beijo

Sil

Nadia disse...

Tah... coloquei a música no repet.
Você acabou de me convencer que eu posso gostar de músicas assim desde que elas envolvam um propósito.
Tô muito me imaginando voltando às aulas na facul e a cada passo que eu dou uma pessoa pega fogo.
>)

hehehe...

ps: pessoas velhas e sacolas grandes deviam ganhar algo parecido com uma ciclovia, algo só pra elas, para que elas saíssem do nosso caminho.

Renata Izandra disse...

Você mede 1.60m? Eu tenho 16 anos e meço 1.74! uahuahuauhuha...
Mas éééé, essas músicas pesadas são du carai mesmo, quando eu pego o trem, daqueles beeem lotados e fedidos e parece que o ar não circula, eu coloco tipo Ozzy ou Judas, coloco minha camisa do Iron e ninguém chega perto de mim. Nice *-*
Mas nos dias que eu vou sem fone, eu me sinto mais uma sardinha no meio da lata.

Bel Lucyk disse...

Rob, quando eu morava em Fortaleza e resolvia caminhar ou correr na beira mar, tinha mais sucesso quando era com música. Não sei como é realmente a Teodoro Sampaio, mas o calçadão de Fortaleza me tirava do sério. Eu colocava minha música e não olhava para lado nenhum a nao ser para frente. E mesmo sabendo que a colisão era iminente, nao mudava meu trajeto. Dava certo!

PS - ouvia motorhead na época do primeiro grau, quando resolvi ser metaleira. Nao durou mto tempo, mas ainda curto muito esse tipo de música e Metallica é um dos prediletos. Sempre!

Leonor disse...

Hahahahahahaha, SENSACIONAL...
Texto perfeito, música perfeita...
Mais sorte da próxima vez...

Varotto disse...

Momento "você sabia?"

O intervalo de três notas, na verdade duas (lá, ré sustenido e outro lá, uma oitava acima), que aparece primeiro aos 2:36, e se repete outras vezes, chegou a ser proibido pela igreja católica na idade média, pois era considerado demoníaco.

O clima de tensão proporcionado por este intervalo é que causava essa impressão e a coisa era tao feia que se referiam a ele pela expressao latina "Diabolus in musica".

Este mesmo expediente é usado na abertura de “Black Sabbath” faixa título do primeiro álbum da banda. São as mesmas três (duas) notas, embora em ordem diferente de Orgasmatron” usadas para criar aquele clima de tensão.

Você sabia???

P.S.: Devia ter comentado isso antes, mas me deu preguiça...

rbns disse...

Então... a versão do Sepultura é bem melhor.

7Seven7 disse...

"Orgamastron"?

[Pulga] Anderson Ferreira disse...

Pois é deus da guerra... Se deu mal. Mas não fique com vergonha porque você é o Orgasmatron e apanhou para os camelôs e o maldito cotidiano... Se o (spoiler? lol) Batimá matou o Darkseid que é um Novo Deus, então não se preocupe.

Rob, eu tenho uma ótima idéia para isso não acontecer mais com você. Use a equação anti-vida e faça com que as pessoas façam o que você quiser, rs.

Abcs

PS: Mas que música ruim pacas,auehauhe

Pri disse...

Sinto em informar que não é apenas pra quem passa pela Teodoro que não existe o gramado e tals... quem pega ônibus e mêtro as 6hrs tb passa por isso... e eu como uma boa sofredora ouço meu mp4 pra tentar me sentir a deusa da guerra! uauhauhaua

Ana disse...

Hahahahahhaha!!!
Esse texto só entende quem ouve metal (heavy, trash, death, etc). Sai das entranhas.....