28 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Assim, decidi comprar a bolsa.

Mas logo percebi que minha praticidade masculina não funcionaria nesse assunto. Afinal, bolsas são diferentes de roupas: elas precisam ser bonitas e úteis, diferente das roupas. Na escala evolutiva dos presentes femininos, elas estão num degrau mais avançado. E, como qualquer outro homem, eu possuo um cérebro que analisa, divide e cataloga as bolsas em apenas duas categorias: tamanho (pequena ou grande) e cor (clara e escura).

Ou seja, todo cuidado era pouco. Se eu comprasse uma bolsa linda que não coubesse nada, teria perdido tempo e dinheiro; se eu comprasse uma bolsa que coubesse uma casa inteira, mas que fosse horrível, também teria perdido tempo e dinheiro. Sim, porque eu já cansei de ver mulheres reclamando que “esta bolsa é maravilhosa, mas não combina com minhas roupas”, ou dizendo que “esta bolsa é pequena, mas tem muitas divisórias”.

Divisórias? Cores? Combinar com as roupas? Eu não sabia nem por onde começar. Assim, liguei para uma amiga em busca de instruções. Eu mal havia terminado a primeira frase e ela já soltou:

– O que está muito na moda é nude.

– Nude?

– Nude.

– O que é nude?

– É uma cor.

Fechei os olhos e tentei me lembrar das caixas de lápis de cor HB que eu tinha quando era criança. Aqueles estojos possuíam lápis de algumas cores que nem mesmo existiam (o famigerado “ocre”, por exemplo, é uma cor que existe apenas nos lápis HB, e não no mundo real). Se eu conseguisse me lembrar do lápis nude, saberia do que ela estava falando.

Fui do branco ao preto, passando por todas as cores das quais me lembrava, e nada de nude. Será que é uma cor nova, criada recentemente num laboratório? Uma cor transgênica?

– Olhe, eu sei que a pergunta é meio difícil, mas você pode descrever essa cor?

– É tipo cor da pele.

– Ah, eu disse, ainda sem entender direito. Afinal, como leitor de ficção científica, eu já “encontrei” alienígenas de todas as cores possíveis.

– Como se fosse um bege.

Pronto, agora sim estamos chegando a algum lugar.

Nude é um tom de bege. Por isso que eu não achei o lápis na minha memória. Na caixa HB, ele não estaria como “nude”, mas sim como “bege-nude”. Mas a grande informação que consegui com ela não foi ter uma idéia do que é nude, mas o nome de uma loja de bolsas na Vila Madalena, que, pelo que ela disse, é meio cultuada pelas mulheres.

Agora sim, eu sabia por onde começar: eu tinha uma cor e uma loja. Isso reduziu bastante o meu universo de procura. À noite, em casa, entrei no site da loja e peguei o endereço.

Fui deitar e tentei ler um pouco na cama, mas não consegui. Meu cérebro ficava incessantemente tentando se lembrar dos lápis de cor, atrás da merda do bege-nude. Desisti de ler e fui dormir.

No dia seguinte, fui até a loja. É uma lojinha pequena, bem no meio da Vila Madalena, com as paredes cobertas de bolsas de todos os tamanhos e cores. Assim que entrei, a vendedora se levantou e veio me atender.

– Oi, posso ajudá-lo?

Atrás dela, havia uma bolsa cor bege pendurada num gancho. Eu ignorei o que ela havia dito e atravessei a loja, em passos decididos, sem tirar os olhos da bolsa. Segurei-a com as duas mãos e me virei para ela:

– Isso aqui é nude?

– Sim.

Olhei a bolsa com atenção. Não me lembrava de nenhum lápis HB dessa cor. Mas, em todos os casos, o problema estava resolvido. Meus neurônios, que haviam passado a noite trabalhando nisso, deram o caso por encerrado e foram dormir. Finalmente sabendo o que é nude, larguei a bolsa e me aproximei da vendedora:

– Pronto. Agora podemos começar. Eu preciso de uma bolsa. Quer dizer, não preciso, não é para mim. É presente.

– Ok, seja bem vindo. Qual seu nome?

– Rob.

– O meu é Renata, prazer. Você está procurando uma grande ou uma pequena?

– Grande.

Afinal, eu podia errar na cor e no modelo, mas jamais aceitaria uma falha tão amadora como “tamanho”. Até eu sei o que é grande ou pequeno. Ela pegou três bolsas e colocou no balcão.

– Tenho estas. Marli, Joana e Vânia.

Olhei para ela assustado, procurando sinais de loucura nos seus olhos. Eu também brinco de dar vida aos meus objetos, mas nunca cheguei ao cúmulo de dar nomes a eles. Minha TV, por exemplo. Eu converso com ela sim, mas o nome dela é TV.

– Oi?

– Aqui, nossos modelos de bolsas têm nomes de mulheres.

– Ah.

– E estas três estão em promoção.

Me senti como um viajante que havia sido convidado a conhecer o harém do sultão, escolhendo uma odalisca para passar a noite comigo. Olhei para as três mulheres na minha frente.

A Marli era meio feiosa, mas parecia simpática. Ou seja, ocuparia o posto de amiga. A Joana era meio fresca, com enfeites pendurados, descartei logo de cara. A Vânia era elegante, classuda. Ponto pra Vânia.

– Hum... Têm outras?

Ela foi até a parede e me apontou outras três.

– Estas são a Roberta, a Gabriela e a Cláudia.

A Roberta era bonita, ao menos por fora. Mas parecia ser meio antipática, daquelas que empurram as outras no banheiro para pegar o melhor lugar no espelho. Peguei a Gabriela nas mãos e vi que ela era uma falsa-gorda, ou melhor, uma falsa-grande. Por fora, parecia capaz de abrigar um carro, mas, por dentro, mostrava ter espaço suficiente para algumas lantejoulas. Gabriela está fora. A Cláudia era simples, sem nada de especial, mas parecia ser bastante eficiente, com dezenove mil divisórias dentro dela. Deu Cláudia.

Esta cena se repetiu diversas vezes. Comecei a perder, já que tinha mais mulheres ali que numa loja de roupas em dia de liquidação.

Assim, como bom homem-em-ano-de-Copa, comecei a encarar as bolsas como times em campeonatos. Dividi as bolsas em grupos de quatro e escolhia uma, que era a campeã do grupo. Assim, eu colocava em espera e a deixava treinando, já que ela iria enfrentar a campeã de outro grupo, nas oitavas de final.

Quase meia hora depois, consegui chegar a um quadrangular final, que seria disputado por Vânia, Cláudia, Ana Maria e Maristela. E agora não eram mais jogos eliminatórios: todos jogavam contra todos e o vencedor deste grupo da morte seria o campeão.

Mas, antes de começarem as partidas, um nome começou a pipocar na minha mente. Uma das primeiras bolsas que eu havia visto não havia disputado jogo nenhum, sabe-se lá por qual motivo. Na dúvida, perguntei para a vendedora.

– Você não tinha me mostrado uma chamada Renata?

– Não. Renata sou eu.

– Ah. Desculpe.

Felizmente, a vendedora foi simpática e ignorou o fato de que meu rosto não era mais bege-nude, e sim, roxo-vergonha.

Assim, ela deu o apito inicial e começaram os jogos. A Maristela, uma das grandes favoritas, se mostrou uma mentira: colocada frente às adversárias, mostrou-se logo ser uma bolsa média, e não grande. A Cláudia, mesmo tendo grandes variações táticas – ela poderia ser usada na frente do corpo, atrás, como uma mochila, ou ao lado, como uma bolsa normal – acabou sendo prejudicada no tamanho da alça, que não era regulável.

Sobraram Vânia e Ana Maria. As duas disputando a liderança do grupo, frente a frente. Ana Maria saiu na frente, por causa da cor. Mas a Vânia empatou logo em seguida, quando mostrou ter bolsinhos na parte traseira, algo que a Ana Maria nem sonhava em ter.

E tudo mudou no segundo tempo, quando a Vânia fez uma substituição. A vendedora tirou outra bolsa de trás do balcão. Era uma Vânia em outra cor. Assim, a Vânia de cor comum foi para o banco e entrou a Vânia escura, e com um negócio meio mágico, que a fazia brilhar, mas sem ser brilhante. A vendedora disse que o nome disse é “cobreado”, ou algo assim.

Os minutos que se seguiram, na história do futebol, são comparáveis aos primeiros minutos de Brasil X URSS na Copa de 58. Daqui a décadas, jornalistas incluirão estes momentos entre os mais sublimes da história do futebol. A Vânia engoliu a partida, não deixando espaço em campo para a Ana Maria. No final do jogo, a Ana Maria ainda colocou um novo atacante (que era uma Ana Maria com detalhes em vermelho), mas já era tarde.

Saldo final: Vânia 3 x 1 Ana Maria.

Mandei embrulhar a Vânia. O preço era meio salgado, mas não importa. “Copa do Mundo é Copa do Mundo”, como diria o Galvão.

Além disso, eu pretendo me tornar cliente da loja. Não porque eu gosto de bolsas, mas sim para me tornar amigo da vendedora e tentar convencê-la a começar a batizar bolsas, especialmente as mais delicadas, com os nomes dos meus amigos.

Sim, vai ser caro. Mas sempre fui assim: perco o dinheiro (e os amigos), mas não perco a piada.

22 comentários:

Lilian disse...

Isso tinha que ser coisa de mente masculina: comparar compra de bolsa com campeonato de futebol.
Queria ser uma cliente da loja nesse momento só pra espiar como vc estava fazendo esse 'campeonato'.
Eu nem falo mais que rolo de rir com seus posts, pq isso já virou redundância.

Mari Hauer disse...

Bom, eu passo mais ou menos por isso quando saio para comprar bolsas! Na verdade, quando vejo bolsas eu entro em estado de êxtase! Não ficaria assim nem numa loja com réplicas de Georges Clooneys com diferentes tons de bronzeado! Além das bolsas combinarem com as minhas roupas e sapatos, tem que combinar comigo! Tamanho, cor e tals...

Bem vindo ao mundo das mulheres! hahaha... Mas eu tenho uma dica infalível que sempre dou pros meus amigos homens quando querem comprar algo especial pra suas respectivas namoridas: entre numa loja e só compre se simpatizar com a vendedora. Se você for com a cara da vendedora e ela for simpática (sem querer te empurrar nada!), confie no bom gosto dela! Desde que ela ela seja bonitinha e não seja brega. Se vc perder a namorida com o presente, pelo menos pode ir atrás da vendedora depois! :P

Ah sim, minhas bolsas, minhas blusas e meus sapatos têm nomes. E vira e mexe me desculpo com eles quando escolho outro modelito pra usar. Sempre acho que eles podem ficar chateados. Por exemplo, o vestido azul pode ficar chateado se eu escolher o lilás para uma ocasião especial! hahaha...

Adorei a saga! Da próxima vez vc poderia tirar fotos, né? :D

Tyler Bazz disse...

Alguém desconfia qual vai ser a bolsa que NINGUÉM vai comprar - ou, no máximo, comprar e devolver???

T _ _ _ r.


Ô fase.


(foda a saga das 3 linhas! ahuahuahuhuahua)

Natalia Máximo disse...

Hahahaha, genial!
VocÊ poderia convencer a dona da loja a vender artigos masculinos, com nomes de jogadores das Copas!

R. disse...

se meu marido me desse uma bolsa de presente, que ele mesmo escolheu, sozinho, e ainda revelasse isso publicamente num blog, eu começaria a desconfiar brutalmente da sexualidade dele. brutalmente.


(nada pessoal)

Rob Gordon disse...

Se minha namorada usasse a palavra "brutalmente" duas vezes seguidas, eu começaria a desconfiar brutalmente da sexualidade dela.
brutalmente.

(nada pessoal)

Daniela disse...

kkkkk
Mto boa essa saga...
+ poxa vida Gordon, você "me fez sofrer"... só ontem e hoje acessei o blog umas 20 vezes para ver se tinha postado algo!
Mas sou honesta em dizer que valeu a pena!

Fiquei imaginando a cena de você atravessando a loja, magnetizado por uma bolsa!

Bia disse...

Nunca imaginei que pudesse ser tão difícil pra vcs, homens, escolherem uma bolsa. Certa vez eu ganhei uma do namorado. Perguntei se ele mesmo tinha escolhido e a resposta foi: "Sim, cheguei e pedi uma bolsa grande e preta. Apareceu essa! Bingo!"
Ok. Ok... eu nem gostei tanto assim da bolsa...

Varotto disse...

Eu tenho amigos que dão nomes de mulher às guitarras.

Nunca passou pela minha cabeça fazer isso...

Uma tática boa para comprar roupas, pelo menos em relação ao tamanho, é entrar em uma loja que tenha uma vendedora que tenha mais ou menos o tipo físico do seu público-alvo.

E para finalizar, só precisamos ainda de umas linhas sobre a receptividade que a bolsa teve ao encontrar seu destino.

Rafiki disse...

No fim da jornada então encontrou o que buscava, foi proveitoso.

claudiaiarossi disse...

E qual foi a reação da pessoa presenteada com a bolsa...o campeonato valeu à pena???

R. disse...

não ligo. eu sou muito mais homem que muito homem por aí. (no que diz respeito às boas qualidades da personalidade masculina. ou seja, uma ou duas coisinhas.)

rbns disse...

Então Rob, eu sei que vc.desenha como uma criança de 4 anos, mas tenho que te ajudar.

O Lápis não é HB é, apesar do preconceito, lápis "de cor" ou "labra" ou "Faber Castell".

HB, B e H são denominações exclusivas de lápis de grafite. Elas fazem referência a dureza e ao tom do grafite. (H)ard e (B)lack, sacou?

Daí entram aqueles numerozinhos para dar uma escala: B2, H1, etc.

Muda lá pq. assim o texto fica meio estranho.

E se meu nome aparecer numa bolsa na Vila Madalena... bom... sou criativo pacas hein?

Arthurius Maximus disse...

É brincadeira como as vezes nos deparamos com situações assim. Agora; como seria uma bolsa "Rob Gordon", já pensou nisso?

Ana disse...

inveja mode: on
meu marido nunca tentaria comprar uma bolsa para mim... e eu nem desconfiaria brutalmente da sexualidade dele. :P

Gilgomex™ disse...

a R. é muito macha mesmo.. Já conversei com ela e sei que ela dá um pau em muito marmanjo (sem trocadilho)...

Rob... Ter dinheiro é uma bosta... Até com as carteiras de 10 reais eu passo apurado, imagine com uma bolsa de presente... Sorte que minha senhora não é muito luxenta e dei uma bolsa pra ela de 25 reais e ela ficou toda contentona pq pelo menos poderia jogar a outra no lixo como já pretendia fazer há muito tempo...

Bia Nascimento disse...

E ai... ela gostou da bolsa??

May. disse...

taí uma coisa que nao me apetece: ter mil bolsas. no geral, uso uma só, de cor diferente pq eu esqueço ela nos lugares se for uma cor muito comum e do tamanho certo pra levar o que eu precisar.

Li disse...

"se meu marido me desse uma bolsa de presente, que ele mesmo escolheu, sozinho, e ainda revelasse isso publicamente num blog, eu começaria a desconfiar brutalmente da sexualidade dele. brutalmente."

Eu já acharia que ele tem outra.

Kel Sodré disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

Adorei a chegada na loja e o esquema de escolher a bolsa armando o esquema olha-a-copa-do-mundo-aí-gente! Adorei muito! E pude soltar minhas gargalhadas livres, leves e soltas, e sonoras, porque esse post eu li em casa! hehehe

Pri disse...

Nossa, até eu que sou mulher penso trilhões de vezes antes de comprar uma bolsa (principalmente quando o dinheiro é curto) imagino seu sofrimento... pelo menos a dona da bolsa qdo ler o texto vai dar muito mais valor ao pequeno (ou grande) objeto diante de tanto sacrificio!

Kika® disse...

Definitivamente eu preciso parar de tirar férias. Só atualizando a leitura por aqui estou sem fôlego de rir, Rob...