31 de janeiro de 2010

Nothing Else Matters

Meu relacionamento com o Metallica sempre foi meio complicado.

Quando eu comecei a gostar de metal, no começo dos anos 90, a banda era uma das minhas favoritas. E, apesar do enorme sucesso do Álbum Preto (que, diferente de muito fã radical, eu adoro) meu ponto fraco ali era o ...And Justice for All, que considero uma obra-prima, o disco que o Dream Theater e todas as bandas de metal progressivo tentaram fazer a vida inteira e não conseguiram.

Assim, no início dos anos 90, o dia 1 de maio de 1993 entrou para a história da minha vida como o dia do grande show do Metallica, no Parque Antárctica, na turnê do álbum preto. Foi meu segundo grande show (o primeiro havia sido Iron Maiden, no mesmo Parque Antárctica, na turnê do Fear of the Dark).

Mas, ao poucos, nosso relacionamento foi esfriando. Do meu lado, isso ocorreu porque comecei a desenvolver outras paixões que, não me fizeram deixar de gostar de heavy metal, mas passaram a disputar minha atenção. Do lado deles, as bobagens Load e Reload (somando os dois discos, não tem meia dúzia de músicas memoráveis) e St. Anger que eu, ao contrário de alguns fãs, ainda vejo algum valor, mas considero um dos piores discos da minha coleção.

Ok, as coisas melhoraram um pouco com Death Magnetic, mas nada que colocasse a banda no patamar “enlouquecedor” que ela já havia ocupado na minha vida. Assim, quando foram anunciados os shows no Brasil, eu confesso que pensei duas vezes. Primeiro, claro, pelo dinheiro; e, segundo e mais importante, receava que esta banda de hoje pudesse estragar as memórias que eu tinha do show de 93.

Felizmente, eu não poderia estar mais enganado.

Sra. Gordon quis ir, nós fomos. Curiosamente, o dia do show começou de forma atípica. Em noite antes de show, eu já não consigo dormir direito, de ansiedade. Desta vez, nos encontramos no Shopping Morumbi e ficamos enrolando ali, indo para o Morumbi somente no final da tarde. Ou seja, eu entrei no “clima de show” poucas horas antes do concerto, e não dias antes.

Assim, ficamos ali batendo papo, esperando o tempo passar, e nos dedicando ao nosso hobby preferido: achar pessoas parecidas, claro. Mas até nisso o show estava fraco – apesar de ela ter achando um Padre Cícero lá no meio. E fomos atrapalhados pelo pessoal à nossa esquerda, um punhado de babacas liderados por uma gordinha virgem (de show, de beijo, de tudo) que ficava tentando fazer gracinha – aos berros, claro – com tudo o que via, sendo logo seguida por dois ou três manés que a acompanhavam.

Oito e pouco da noite, apagam-se as luzes e o Sepultura entra no palco. Respirei aliviado, pois, até o último momento, eu tinha certeza de que a banda cancelaria o show de abertura, e este seria feito pelo mala do André Mattos, que tem o péssimo hábito de abrir todos os shows que eu vou.

Nunca tinha visto um show do Sepultura, mas minhas suspeitas se confirmaram. Existem dois tipos de música num show (pensando, claro, numa banda que você não sabe todos os discos de cor): as que você conhece, e as que você não conhece – e o problema é que no caso do Sepultura, as que você não conhece são todas iguais. Assim, eu curti mais o material da fase Max Cavalera: Inner Self, Dead Embryonic Cells, Arise, Roots Bloody Roots – diferente da platéia, que pulava o show inteiro, mostrando um enorme respeito pela banda.

E, claro, fiquei esperando eles tocarem Orgasmatron, que, convenhamos, é um hino. E estou esperando até agora. Paciência, não se pode ter tudo.

Assim, por volta das 21:30, as luzes se apagam e o trecho que Eli Wallach chega ao cemitério em Três Homens em Conflito surge no telão, ao som de The Ecstasy of Gold, de Morricone – a clássica abertura dos shows da banda. A platéia, claro, vai à loucura. Logo, os primeiros riffs de Creeping Death ecoam no Morumbi, e o estádio vem abaixo.

Na verdade, foi covardia do Metallica. Qualquer show de rock que comece com cenas de um western do Sergio Leone e música do Ennio Morricone já não tem como dar errado – se a banda tocasse um cover de Rosana logo depois disso, não teria problema. Mas, ao invés disso, eles escolheram, para abrir o show, Creeping Death, que sempre foi, disparado, minha música preferida deles.


Quem já leu minhas outras resenhas de show sabe que, em determinados momentos, eu esqueço que estou com dezenas de milhares de pessoas e começo a acreditar que a banda está tocando determinadas músicas para mim. Coisa de fã: se você é, você sabe; se você não é, nem tente entender.

Mas ontem foi um pouco diferente. O Metallica não simplesmente tocou Creeping Death para mim. Abrir o show com esta música foi a maneira que eles encontrarem de dizer, diretamente para mim, uma única palavra:

– Voltamos.

E eu voltei junto. Em segundos, eu tinha dezesseis anos novamente. Eu pulava e, ao invés de cantar a letra junto, eu urrava. E ignorei o fato de que hoje minha franja fica na altura da nuca (na época do primeiro show, ela era quase no meu peito) e o resultado é que, hoje, depois de décadas sem sentir isso no dia seguinte após um show, eu não tenho mais pescoço.

E o clima de “nostalgia” continuou nos primeiros minutos de show, com For Whom the Bell Tolls, The Four Horseman, Harverster of Sorrow e Fade to Black. Ou seja, em meia hora de show, a música mais recente que eles havia tocado era de 1988. Foi golpe baixo. Em vinte minutos de show, a platéia estava entregue. Eu, ao menos, estava – e minha garganta começando a pedir arrego.

Felizmente, foi esta a hora que eles escolheram para mostrar o material do novo disco, assim eu pude “apenas” assistir ao show, sem ficar me esgoelando no Morumbi. Assim, emendaram That Was Just Your Life, The Day That Never Comes e Broken, Beat & Scarred. Ah não, minto. Entre as duas últimas, eles colocaram uma pequena canção no meio: Sad But True, que, obviamente, quase fez o Morumbi desabar.

Vale ressaltar o comportamento de James Hetfield no palco. Os fãs mais antigos, acostumados com o Hetfield bêbado, se surpreendem com um vocalista que, literalmente, conversa com a platéia, coisa que ele não fazia antigamente. Qualquer pessoa que já assistiu a shows antigos do Metallica sabe que ele xingava, sacaneava e até mesmo brincava com a platéia, mas não conversava.


Hoje, o Hetfield sóbrio tem uma postura mais humilde, mais sincera, agradecendo a platéia de uma forma que chega a ser tocante, especialmente para quem sabe o inferno que esse cara passou na mão da bebida, ver o quanto o sujeito está em paz hoje em dia. Ponto negativo para os adolescentes que acham que, para tocar heavy metal, é preciso ser sujo, bêbado e raivoso.

E, a partir da segunda metade, o clima de clássicos dominou. E, lembre-se que quando você está falando de Metallica, “clássicos” não significa “clássicos da banda”, mas sim “clássicos do heavy metal”, numa sucessão de músicas que, sejamos sinceros, ajudou a construir a história do estilo.

De cara, One – com direito a efeitos especiais que incluíram fogos de artifício (que, convenhamos, tem mais a cara do Kiss que do Metallica). Aí começa a nova sucessão de golpes baixos: Master of Puppets e Blackened, finalizando com duas do Álbum Preto: Nothing Else Matters – e qualquer coisa que eu pudesse comentar sobre este momento do show interessa somente a mim e a Sra. Gordon – e Enter Sandman, que fez o Morumbi (literalmente) balançar.

Pausa para o bis. Aliás, uma dúvida: porque algumas pessoas deixam o estádio antes do bis? É evidente que a banda irá retornar ao palco, já que o resto do público não arreda pé do estádio, e as luzes não se acendem. Será que essas pessoas realmente acreditam que o show acabou? Ou – pior, ainda – sabem que o show está no final, e decidem ir embora antes, para “fugir do trânsito”?

Bem, estas pessoas perderam um final apoteótico. Primeiro, com a banda retornando ao palco “ameaçando” tocar The Frayed Ends of Sanity. Mas ficou apenas na ameaça, já que pararam na introdução. Afinal, era a vez do famoso momento em que eles tocam um cover de alguma banda que os inspirou, e ontem a escolhida foi Stone Cold Crazy, do Queen – cuja versão dos californianos já é extremamente famosa.

E, para encerrar o show, dois petardos do primeiro disco da banda: Motorbreath e Seek & Destroy, verdadeiro hino do Metallica. Mas, mais importantes que as duas músicas, foi a autenticidade dos músicos – especialmente James Hetfield – ao final do show. Visivelmente emocionados, se recusavam a deixar o palco.

Os motivos são óbvios: nos últimos anos, a banda quase acabou, tanto internamente (com as brigas reveladas no documentário Some Kind of Monster) quanto externamente (com críticas e mais críticas por parte dos fãs). Assim, após mais de uma década sem tocar na cidade, provavelmente eles esperavam uma recepção, no máximo, morna, e não um estádio praticamente lotado e fãs entoando músicas de mais de vinte anos.

Por isso que ficou claro que o concerto de ontem foi especial também para a banda. O momento onde Hetfield mostrou estar arrepiado ficará para sempre na memória dos fãs: Metallica arrepiou o público, e o público arrepiou o Metallica. E esta troca é difícil de acontecer em bandas com anos e anos de estrada.

Eu? Bem, eu e o Metallica fizemos as pazes ontem. Hoje, estou com dores no corpo, dores de dia-seguinte-após-show como eu não sentia há anos. E, mais importante que isso, da mesma forma que Hetfield se arrepiou no final do show, eu me arrepiei diversas vezes enquanto escrevia este texto.

Porque, mais que “simplesmente” apresentar um excelente show, o Metallica me deu um presente ontem: a banda fez com que por duas horas, eu tivesse 16 anos de idade.Eu não estou falando “me sentir com 16 anos” e sim “ter 16 anos”.

E isso é algo que jamais vou esquecer. So let it be written, so let it be done.

E, para dizer que o show não foi perfeito, segue o Top 5 Músicas que Eu Adoraria Ter Ouvido Ontem:

1. ...And Justice For All - é a Rime of the Ancient Mariner da banda. E todo mundo sabe que tenho queda por músicas grandes.
2. Battery - Talvez seja a maior ausência entre os clássicos.
3. Ride The Lightning - Um dos grandes motivos pelo qual o segundo disco deles melhora a cada visita.
4. The Unforgiven - cá entre nós, eu e o Morumbi sentimos falta dela.
5. The Thing that Should Not Be - outro ponto fraco meu são músicas lentas e pesadas, e esta é um primor neste sentido.

Fotos: G1

28 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Assim, decidi comprar a bolsa.

Mas logo percebi que minha praticidade masculina não funcionaria nesse assunto. Afinal, bolsas são diferentes de roupas: elas precisam ser bonitas e úteis, diferente das roupas. Na escala evolutiva dos presentes femininos, elas estão num degrau mais avançado. E, como qualquer outro homem, eu possuo um cérebro que analisa, divide e cataloga as bolsas em apenas duas categorias: tamanho (pequena ou grande) e cor (clara e escura).

Ou seja, todo cuidado era pouco. Se eu comprasse uma bolsa linda que não coubesse nada, teria perdido tempo e dinheiro; se eu comprasse uma bolsa que coubesse uma casa inteira, mas que fosse horrível, também teria perdido tempo e dinheiro. Sim, porque eu já cansei de ver mulheres reclamando que “esta bolsa é maravilhosa, mas não combina com minhas roupas”, ou dizendo que “esta bolsa é pequena, mas tem muitas divisórias”.

Divisórias? Cores? Combinar com as roupas? Eu não sabia nem por onde começar. Assim, liguei para uma amiga em busca de instruções. Eu mal havia terminado a primeira frase e ela já soltou:

– O que está muito na moda é nude.

– Nude?

– Nude.

– O que é nude?

– É uma cor.

Fechei os olhos e tentei me lembrar das caixas de lápis de cor HB que eu tinha quando era criança. Aqueles estojos possuíam lápis de algumas cores que nem mesmo existiam (o famigerado “ocre”, por exemplo, é uma cor que existe apenas nos lápis HB, e não no mundo real). Se eu conseguisse me lembrar do lápis nude, saberia do que ela estava falando.

Fui do branco ao preto, passando por todas as cores das quais me lembrava, e nada de nude. Será que é uma cor nova, criada recentemente num laboratório? Uma cor transgênica?

– Olhe, eu sei que a pergunta é meio difícil, mas você pode descrever essa cor?

– É tipo cor da pele.

– Ah, eu disse, ainda sem entender direito. Afinal, como leitor de ficção científica, eu já “encontrei” alienígenas de todas as cores possíveis.

– Como se fosse um bege.

Pronto, agora sim estamos chegando a algum lugar.

Nude é um tom de bege. Por isso que eu não achei o lápis na minha memória. Na caixa HB, ele não estaria como “nude”, mas sim como “bege-nude”. Mas a grande informação que consegui com ela não foi ter uma idéia do que é nude, mas o nome de uma loja de bolsas na Vila Madalena, que, pelo que ela disse, é meio cultuada pelas mulheres.

Agora sim, eu sabia por onde começar: eu tinha uma cor e uma loja. Isso reduziu bastante o meu universo de procura. À noite, em casa, entrei no site da loja e peguei o endereço.

Fui deitar e tentei ler um pouco na cama, mas não consegui. Meu cérebro ficava incessantemente tentando se lembrar dos lápis de cor, atrás da merda do bege-nude. Desisti de ler e fui dormir.

No dia seguinte, fui até a loja. É uma lojinha pequena, bem no meio da Vila Madalena, com as paredes cobertas de bolsas de todos os tamanhos e cores. Assim que entrei, a vendedora se levantou e veio me atender.

– Oi, posso ajudá-lo?

Atrás dela, havia uma bolsa cor bege pendurada num gancho. Eu ignorei o que ela havia dito e atravessei a loja, em passos decididos, sem tirar os olhos da bolsa. Segurei-a com as duas mãos e me virei para ela:

– Isso aqui é nude?

– Sim.

Olhei a bolsa com atenção. Não me lembrava de nenhum lápis HB dessa cor. Mas, em todos os casos, o problema estava resolvido. Meus neurônios, que haviam passado a noite trabalhando nisso, deram o caso por encerrado e foram dormir. Finalmente sabendo o que é nude, larguei a bolsa e me aproximei da vendedora:

– Pronto. Agora podemos começar. Eu preciso de uma bolsa. Quer dizer, não preciso, não é para mim. É presente.

– Ok, seja bem vindo. Qual seu nome?

– Rob.

– O meu é Renata, prazer. Você está procurando uma grande ou uma pequena?

– Grande.

Afinal, eu podia errar na cor e no modelo, mas jamais aceitaria uma falha tão amadora como “tamanho”. Até eu sei o que é grande ou pequeno. Ela pegou três bolsas e colocou no balcão.

– Tenho estas. Marli, Joana e Vânia.

Olhei para ela assustado, procurando sinais de loucura nos seus olhos. Eu também brinco de dar vida aos meus objetos, mas nunca cheguei ao cúmulo de dar nomes a eles. Minha TV, por exemplo. Eu converso com ela sim, mas o nome dela é TV.

– Oi?

– Aqui, nossos modelos de bolsas têm nomes de mulheres.

– Ah.

– E estas três estão em promoção.

Me senti como um viajante que havia sido convidado a conhecer o harém do sultão, escolhendo uma odalisca para passar a noite comigo. Olhei para as três mulheres na minha frente.

A Marli era meio feiosa, mas parecia simpática. Ou seja, ocuparia o posto de amiga. A Joana era meio fresca, com enfeites pendurados, descartei logo de cara. A Vânia era elegante, classuda. Ponto pra Vânia.

– Hum... Têm outras?

Ela foi até a parede e me apontou outras três.

– Estas são a Roberta, a Gabriela e a Cláudia.

A Roberta era bonita, ao menos por fora. Mas parecia ser meio antipática, daquelas que empurram as outras no banheiro para pegar o melhor lugar no espelho. Peguei a Gabriela nas mãos e vi que ela era uma falsa-gorda, ou melhor, uma falsa-grande. Por fora, parecia capaz de abrigar um carro, mas, por dentro, mostrava ter espaço suficiente para algumas lantejoulas. Gabriela está fora. A Cláudia era simples, sem nada de especial, mas parecia ser bastante eficiente, com dezenove mil divisórias dentro dela. Deu Cláudia.

Esta cena se repetiu diversas vezes. Comecei a perder, já que tinha mais mulheres ali que numa loja de roupas em dia de liquidação.

Assim, como bom homem-em-ano-de-Copa, comecei a encarar as bolsas como times em campeonatos. Dividi as bolsas em grupos de quatro e escolhia uma, que era a campeã do grupo. Assim, eu colocava em espera e a deixava treinando, já que ela iria enfrentar a campeã de outro grupo, nas oitavas de final.

Quase meia hora depois, consegui chegar a um quadrangular final, que seria disputado por Vânia, Cláudia, Ana Maria e Maristela. E agora não eram mais jogos eliminatórios: todos jogavam contra todos e o vencedor deste grupo da morte seria o campeão.

Mas, antes de começarem as partidas, um nome começou a pipocar na minha mente. Uma das primeiras bolsas que eu havia visto não havia disputado jogo nenhum, sabe-se lá por qual motivo. Na dúvida, perguntei para a vendedora.

– Você não tinha me mostrado uma chamada Renata?

– Não. Renata sou eu.

– Ah. Desculpe.

Felizmente, a vendedora foi simpática e ignorou o fato de que meu rosto não era mais bege-nude, e sim, roxo-vergonha.

Assim, ela deu o apito inicial e começaram os jogos. A Maristela, uma das grandes favoritas, se mostrou uma mentira: colocada frente às adversárias, mostrou-se logo ser uma bolsa média, e não grande. A Cláudia, mesmo tendo grandes variações táticas – ela poderia ser usada na frente do corpo, atrás, como uma mochila, ou ao lado, como uma bolsa normal – acabou sendo prejudicada no tamanho da alça, que não era regulável.

Sobraram Vânia e Ana Maria. As duas disputando a liderança do grupo, frente a frente. Ana Maria saiu na frente, por causa da cor. Mas a Vânia empatou logo em seguida, quando mostrou ter bolsinhos na parte traseira, algo que a Ana Maria nem sonhava em ter.

E tudo mudou no segundo tempo, quando a Vânia fez uma substituição. A vendedora tirou outra bolsa de trás do balcão. Era uma Vânia em outra cor. Assim, a Vânia de cor comum foi para o banco e entrou a Vânia escura, e com um negócio meio mágico, que a fazia brilhar, mas sem ser brilhante. A vendedora disse que o nome disse é “cobreado”, ou algo assim.

Os minutos que se seguiram, na história do futebol, são comparáveis aos primeiros minutos de Brasil X URSS na Copa de 58. Daqui a décadas, jornalistas incluirão estes momentos entre os mais sublimes da história do futebol. A Vânia engoliu a partida, não deixando espaço em campo para a Ana Maria. No final do jogo, a Ana Maria ainda colocou um novo atacante (que era uma Ana Maria com detalhes em vermelho), mas já era tarde.

Saldo final: Vânia 3 x 1 Ana Maria.

Mandei embrulhar a Vânia. O preço era meio salgado, mas não importa. “Copa do Mundo é Copa do Mundo”, como diria o Galvão.

Além disso, eu pretendo me tornar cliente da loja. Não porque eu gosto de bolsas, mas sim para me tornar amigo da vendedora e tentar convencê-la a começar a batizar bolsas, especialmente as mais delicadas, com os nomes dos meus amigos.

Sim, vai ser caro. Mas sempre fui assim: perco o dinheiro (e os amigos), mas não perco a piada.

26 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte II

(leia o post anterior aqui)


Cerca de quinze anos atrás. São Paulo, Brasil.

Um dia eu decidi comprar uma carteira nova. Os motivos são mais ridículos do que vocês imaginam. Digamos que eu e minha antiga carteira, que ainda estava boa, simplesmente brigamos. Qualquer dia eu conto a história inteira aqui (e fecho o blog e mudo de nome e de país no mesmo dia).

Enfim, peguei uma nota de R$ 10,00 (quinze anos atrás, se comprava muita coisa com R$ 10,00), um amigo (acredito que o Rbns) e fui até o Shopping Ibirapuera. Entrei numa loja daquelas que as vendedoras usam roupas de academia e passam o tempo (ou seja, entre um cliente e outro) dançando.

Escolhi uma carteira e chamei uma vendedora. A menina parou de dançar e veio até mim.

– Posso ajudá-lo?

– Sim. Quanto custa esta carteira?

– Dez reais.

– Dez?

– Dez.

– Hum... Temos um problema.

– Como assim?

– Eu tenho apenas dez reais comigo.

– E qual o problema? Você tem dinheiro suficiente.

– Para que você acha que eu vou usar a carteira?

– Não sei.

– Pense.

– Para guardar dinheiro?

– Exatamente. E eu possuo apenas dez reais. Se eu gastar todos os meus dez reais na carteira, ficarei sem dinheiro nenhum. Logo, não precisarei mais da carteira.

Ela me olhou fixamente. Talvez na hora eu tenha pensado "ela está fazendo contas para acompanhar meu raciocínio brilhante". Hoje, mais experiente, eu sei que ela devia estar pensando algo como “porque é sempre no meu turno?”

(Aliás, hoje eu sei também que ela deve ter olhado meu amigo e pensado: “e esse babaca não poderia ao menos disfarçar quando olha para o meu decote?”)

– Você está brincando?

– Evidente que não. Se eu gastar tudo o que tenho para comprar a carteira, não terei o que guardar dentro dela. Logo, a carteira perderá seu propósito de existir na minha vida.

Era um lance arriscado. Se ela falasse "e você não vai guardar seus documentos?", eu ficaria totalmente sem resposta. Felizmente, ela não era um gênio dedutivo, e sim uma garota cuja maior realização, provavelmente, tinha sido dançar entre as prateleiras.

– Mas o que eu posso fazer?

– Me dar um desconto.

Lembro de ver meu amigo se escondendo atrás de uma prateleira, não sei se de vergonha ou se para rir. Provavelmente, ambos.

– Eu preciso falar com a minha gerente.

– Ok. Eu espero aqui. E eu não estou apenas pechinchando. Avise a ela que nós temos um paradoxo em andamento.

Minutos depois, ela voltou e, sem disfarçar a cara de saco cheio, me deu um desconto de uns 5%, o que me permitiu sair dali com a carteira e algumas moedas enfiadas nela.

Este foi um dos primeiros (e maiores) momentos Sheldon Cooper da minha vida.

E foi neste momento que os deuses do comércio marcaram meu rosto e juraram vingança. Um deles, das profundezas de seu reino, que se assemelha a um estoque, com caixas e mais caixas empilhadas, marcadores de preços e catálogos do Shoptime, disse:

– Rob Gordon, em um dia, daqui a anos, decidirás comprar uma bolsa. Neste dia, eu estarei por perto, para atar um nó em sua mente.

Claro que na hora eu não ouvi isso. E claro que no último sábado, como disse no post anterior, eu decidi comprar uma bolsa de presente.

(continua...)

24 de janeiro de 2010

Um Estranho numa Terra Estranha - Parte I

Quando você é homem e entra na adolescência, não é apenas o seu corpo que passa por transformações, mas sua mente também. Assim, enquanto você é criança, suas maiores ambições são terminar determinado jogo de videogame ou fazer um gol de calcanhar; mas, conforme você cresce, todas suas aspirações se resumem a uma só: fazer sexo.

Um dos grandes motivos para isso – descontando o fato de que, nesta idade, você está produzindo hormônios em escala industrial, o que resulta num apetite sexual semelhante ao de alguém que passou vinte anos numa cadeia – é que esse é um dos maiores rituais de passagem para a vida adulta. Afinal, adultos fazem sexo, e crianças não – ao menos na teoria.

Ou seja, o sexo sempre foi vendido como o grande rito de passagem da infância para a maturidade. Mas sejamos sinceros, isso se deve muito ao fato de que o sexo envolve peitos de fora (e qualquer coisa com peitos de fora tem apelo da mídia e vende mais). Mas, no auge dos meus 34 anos, posso dizer com certeza aqui que um homem não vira adulto quando começa a transar, mas sim quando ele começa a comprar sozinho presentes femininos.

E isso acontece normalmente muito tempo depois da adolescência. Eu, por exemplo, até os 30 anos de idade, não me arriscava a comprar este tipo de coisa. Dava sempre livros, CDs e DVDs de presente (mas claro que com certo bom senso; jamais dei coisas como o DVD de Predador ou um livro com a história dos campeonatos brasileiros). Mas, de uns anos para cá, eu comecei a me arriscar nisso. Já estava na casa dos 30, era hora de virar homem de verdade.

Evidente que eu faço isso do meu jeito, que é o mais masculino possível. Mesmo porque eu não consigo entender como as mulheres fazem isso. Às vezes, observo como uma mulher se comporta dentro de uma loja de roupa. Ela pega um vestido e olha a estampa. Aí, procura uma peça do tamanho correto e começa a alisá-lo. Passam a mão por ele, apertam a barra, deslizam os dedos pelas alças. Se você olhar de longe, é capaz de achar que ela está ficando com o vestido.

Após quase um minuto fazendo isso, ela pega o vestido e o coloca junto ao corpo. Repare no olhar dela, neste momento: ela está em transe. Ela está se imaginando naquele vestido, mas usando como cenário todos os ambientes nos quais ela já esteve um dia (casa, praia, campo, trabalho, clube) ou que ela possa vir a estar (festa do Oscar, Saturno). Ou seja, elas perdem quase 10 minutos em cada vestido. Multiplique isso por 500 peças de roupas, e o resultado tende ao infinito.

Sério, as mulheres devem ter o mesmo tato do Demolidor. Elas passam o dedo pelo tecido e conseguem saber coisas como o país onde foi feito, se os funcionários ganhavam bem ou eram crianças escravas, se o tecido não vai desbotar na primeira vez que lavar.

Eu? Eu passo a mão no vestido e consigo, quando muito, ver que ele é feito de pano. Aliás, para mim, existem quatro tipos de tecido: cetim (que engloba seda), veludo, jeans e pano.

Assim, eu coloco minha praticidade masculina em campo, toda vez que preciso comprar um presente feminino. Normalmente, eu passo a noite anterior assistindo a filmes como Três Homens em Conflito e Os Doze Condenados para entrar nas lojas suando testosterona e praticidade. Aliás, nas lojas, não. Na loja.

Isso porque eu entro em apenas uma. Eu ando pelo shopping olhando as vitrines – e se a vitrine não tiver preços, eu passo reto.

Faço isso até achar algo que parece ser bonito. Quando encontro, entro na loja, e chamo a vendedora.

– Oi. Eu quero aquele negócio verde da vitrine.

– O vestido ou a saia?

(Cabe dizer aqui que até pouco tempo eu não sabia a diferença entre vestido e saia. Para mim, os dois eram exatamente a mesma coisa, e podiam ser definidos da seguinte forma: vestido ou saia são não têm pernas; e calças têm.)

– O verde.

– Temos duas peças verdes nesta coleção.

– É o verde-claro.

– Tanto o vestido quanto a saia são verde-claro.

– Vamos até a vitrine e eu mostro.

Pronto. Vou até a vitrine, aponto (“eu quero isso, no tamanho P”), pago e saio com a sacola. Mas claro que às vezes a vendedora tenta me complicar. Ela separa o que você pede, aí vira e solta um:

– Olhe, eu tenho este outro modelo aqui, que custa somente R$ 15,00 a mais.

– Por quê? O que ele tem de diferente?

– Ah, o tecido deste é .................................. (insira aqui um termo técnico qualquer, como “panamenho” ou “algodão bordado”).

– Ok. Em termos práticos, qual a diferença dele?

– Ah, este aqui ................................... (insira aqui algo inútil como “possui as alças não esgarçam nunca” ou “tem as cores mais vivas por causa do jeito que foi costurado”).

– Não, obrigado. Eu vou levar aquele mesmo.

– O modelo clássico?

– Não sei. O modelo clássico é o verde?

– Isso.

– Então, sim. O verde.

Mas confesso que este estágio em que estou é um grau mais avançado. Afinal, implica em você ver algo numa vitrine e gostar. Agora, quando comecei a comprar presentes femininos, eu tratava isso da mesma forma que encarava Biologia, no colegial: como eu não entendo, eu decoro.

Assim, andando com o alvo do presente – seja mãe, seja sra. Gordon – pelo shopping, reparava quando ela gostava de algo. Decorava o modelo e o nome da loja (no caso do Shopping Paulista, era obrigado a decorar também o local da loja e a jogar feijões pelos corredores, senão nunca mais encontraria o lugar).

Dias depois, eu voltava ao lugar, entrava na loja e chamava a vendedora.

– Oi, tudo bem?

– Posso ajudá-lo?

– Sim, eu quero um sapato azul marinho, fechado, com um lacinho em cima.

Sempre que há outras clientes na loja, elas olham para mim assim que acabo de pronunciar esta frase. E me olham com inveja, com olhar de “queria ser decidida como essa bichinha careca, eu estou aqui há vinte minutos e não sei qual eu levo”. Um dia, eu ainda vou pegar o sapato, olhar com cuidado e perguntar para qualquer velhinha que estiver ao meu lado se “será que vai ficar bem em mim?”, só para ver a reação dela. Confesso que já quase fiz isso uma duas vezes.

Mas, voltando à vendedora. Apesar de contar uma descrição precisa (não devem existir muito modelos de sapato com lacinhos e na cor azul marinho na loja) ela começa com as perguntas técnicas.

– Você sabe se é da nova coleção?

– Não, é da coleção de sempre. Ela coleciona sapatos há anos.

– Não, as coleções da loja.

– Ah. Não sei.

– Por que acabamos de receber a coleção outono. Você não quer dar uma olhada?

– Olhe, eu vou ser sincero. Eu mal sei em qual estação nós estamos. Eu quero aquele azul marinho com lacinho.

– Ele tem salto?

– Sei lá. Tudo o que eu sei é isso. É azul marinho, fechado e tem um laço em cima. Estava na vitrine aí, outro dia. E, se ajudar, tenho quase certeza que eram dois, um para o pé esquerdo, outro para o direito.

– Ah, isso está parecendo ser da coleção nova. Você sabe o material dele?

– Não, ele estava na vitrine e eu estava fora da loja. Ou seja, do meu ponto de vista, ele era feito de vidro. Mas era um material azul. E tinha um lacinho.

– Ah, senhor, se ao menos eu soubesse a coleção. Assim fica difícil.

Assim, eu faço a mulher justificar o salário dela e descer com todos os sapatos de lacinho que ela possui na loja e ir me mostrando um por um, até minha mente encontrar um “perfect match”. E, acreditem: eu não saio dali até a mulher achar.

Quando ela encontra, eu pago, mando embrulhar e vou embora.

E, quer saber? Até que tenho me dado bem – sempre levando em conta que não é apenas o cartão que é mais importante que o presente, mas sim a forma que você entrega o presente.

Mas eu ainda tenho muito a aprender. No auge da minha arrogância, depois de treinar menos de um mês com um sabre de luz, achei que seria capaz de dar uma surra no Darth Vader. Depois de comprar meia dúzia de vestidos e pares de sapato, eu achei que seria fácil comprar uma bolsa.

Como eu descobri ontem, eu não poderia estar mais enganado.

(continua)

21 de janeiro de 2010

O Deus da Guerra e a Teodoro Sampaio

Imagine um daqueles comerciais de margarina. Pai, mãe e os filhos pequenos, tomando café da manhã, com uma mesa cheia de pãezinhos e sucos. As crianças são lindas e estão prontas para ir à escola – e felizes com isso. A mãe, sem conseguir parar de sorrir, passa margarina nas torradas quentes e entrega aos filhos e ao marido. O Sol brilha do lado de fora e, pela janela, é possível ver que o quintal da casa deles possui um enorme gramado.

A maioria das pessoas diz que isso é falso demais, que famílias assim não existem de verdade. Eu discordo. Aposto que o mundo está cheio de pessoas assim, que acordam bem dispostas, felizes e, desde que saem da cama, não conseguem parar de sorrir.

Sim, elas existem.

Tratam-se das pessoas que não precisam andar pela Teodoro Sampaio pela manhã.

Enquanto algumas crianças começam o dia tomando o café da manhã dos campeões, eu começo meu dia chutando barracas de camelô para abrir espaço e me espremendo em portas de lojas para desviar de velhas que andam com sacolas – e dentro da sacola nunca tem uma laranja ou uma revista, é sempre um armário ou um fogão a lenha.

Quando chove, então, a coisa é pior ainda. Mas nada supera quando a polícia está andando por ali. Os camelôs começam a fugir desesperadamente, carregando seus óculos de Sol e bonecos falsificados do Homem-Aranha, criando um arrastão que me carrega sempre uns 50 metros para trás.

E isso acontece desde que me mudei para Pinheiros.

Curiosamente, nos últimos dias, eu encontrei uma solução para isso. Quando ando com meu MP3, eu começo a reparar que me deixo influenciar – ao menos, emocionalmente falando – pelas músicas que estou ouvindo. Somando A com B, concluí que a Teodoro Sampaio precisaria de uma trilha sonora específica e escolhida a dedo, algo que me fizesse andar por ali tendo a certeza de que as pessoas é que precisam desviar de mim, e não o contrário.

Assim, parei outro dia em frente à minha coleção de CDs e comecei a estudá-la. De cara, eliminei todos os Beatles e Eric Clapton. A Teodoro Sampaio não demanda nada sobre amor. Na verdade, precisaria ser algo sujo. Sujo e poderoso. Ou seja, estamos falando de Metallica para cima – ou para baixo, dependendo de como você encara este estilo de música.

E não poderia ser uma música rápida. Minha intenção não era andar correndo pelas calçadas. Não. Eu queria andar na velocidade que quisesse, com as pessoas fugindo de mim. Eu não queria ser um caça, mas sim um tanque de guerra (caros leitores: isso é uma metáfora. Eu sei que tenho 1.60m, então guardem as piadinhas envolvendo os tanques dos Comandos em Ação para vocês). Precisava ser uma música lenta, suja, amedrontadora. Afinal, era justamente nisso que eu precisava me transformar.

Correndo os dedos pelas prateleiras mais sombrias da minha coleção, fui atravessando CDs de Megadeth, Metallica, Slayer, mas nada parecia ser o ideal. Foi quando eu me lembrei que estas bandas possuem algo em comum: todas elas veneram o Motorhead. Assim, a resposta certamente estaria ali. Ace of Spades? Rápida demais. 1916? Lenta demais, triste demais. The Chase is Better than the Catch? Safada demais. Eu precisava de algo diferente. Foi quando uma palavra se acendeu na minha mente.

Orgasmatron.

Perfeito. Até o nome dá medo. Orgasmatron. Pensei até em usar a versão do Sepultura, mas mudei de idéia: a do Motorhead é mais suja, parece gravada num porão. Caso você não conheça, veja o vídeo abaixo.





Assim, coloquei o arquivo no MP3 e fui dormir, esperando pelo dia seguinte.

E ontem foi o grande dia. Saí de casa, coloquei os pés na Teodoro e parei. Liguei o MP3, coloquei a música no volume máximo. Meu cérebro começou a derreter nos primeiros acordes. Meu corpo, por outro lado, começou a crescer. Eu me sentia como o Popeye após comer latas e latas de espinafre. Meus músculos cresceram rapidamente, quase rasgando minha blusa; o poder corria pelas minhas veias. Faltou só ganhar cabelo, mas isso é um detalhe que não faria diferença.

E, assim que Lemmy deu aquele urro que praticamente abre a música, eu comecei a andar pelas calçadas.


I am the one, Orgasmatron, the outstretched grasping hand
My image is of agony, my servants rape the land
Obsequious and arrogant, clandestine and vain
Two thousand years of misery, of torture in my name
Hypocrisy made paramount, paranoia the law
My name is called religion, sadistic, sacred whore.


Quando Lemmy estava cantando “two thousand years of misery”, eu já tinha quase três metros de altura. Funcionava. Provavelmente, meu rosto era uma máscara de ódio e meus olhos eram vermelho-sangue. As pessoas olhavam para mim e desviavam o caminho, evitando claramente entrarem no meu campo de visão. Cada passo meu fazia a terra tremer, a cada vez que eu olhava para os lados, as pessoas se escondiam atrás dos carros.


I twist the truth, I rule the world, my crown is called deceit

I am the emperor of lies, you grovel at my feet
I rob you and I slaughter you, your downfall is my gain
And still you play the sycophant and revel in my pain
And all my promises are lies, all my love is hate
I am the politician, and I decide your fate


Sim, camelôs, é isso mesmo que vocês ouviram. Eu decido o vosso destino e vossa queda é a minha vitória. Eu podia fulminar as pessoas apenas com um olhar. Meu coração batia acelerado, quase incapaz de conter tanto poder dentro do meu corpo. A Teodoro Sampaio deixou de ser asfaltada; agora, ela era um campo devastado pela fome e pela miséria. E eu era a destruição encarnada. As velhas largavam as sacolas e procuravam abrigo, e eu esmigalhava o conteúdo de cada uma delas com meus passos.


I march before a martyred world, an army for the fight

I speak of great heroic days, of victory and might
I hold a banner drenched in blood, I urge you to be brave
I lead you to your destiny, I lead you to your grave


Assim, fui me aproximando da Pedroso de Moraes, deixando um rastro de sangue e destruição em meu caminho. Minha alma corroída pelo ódio emanava odor de enxofre. E, com o caminho livre, fui avançando lentamente. As flores e plantas morriam pelas calçadas nas quais eu caminhava. Meus dentes rangiam de crueldade em estado puro.

Mas, aparentemente, os habitantes da Teodoro Sampaio haviam escolhido um herói para me enfrentar. A poucos metros da Pedroso de Moraes, uma menina de aparentemente uns 20 anos de idade permanecia de pé, na minha frente, de forma desafiadora. Me aproximei, pronto para devorar a cabeça dela e assim puni-la pela sua ousadia, mas ela foi mais rápida.


Your bones will build my palaces, your eyes will stud my crown

For I am Mars, the god of war, and I will cut you down.


Esticou o braço e me entregou um pedaço de papel. Ele chamuscou levemente onde encostei meus dedos. Li sua inscrição.

Era um maldito panfleto dando 5% de desconto nos artigos de perfumaria em uma farmácia. Perfumaria? Farmácia? Desconto? Como assim? Eu sou o deus da guerra! O imperador das mentiras! Ninguém respeita mais nada? Eu preciso de morte e sangue, não de um xampu com ervas para cabelos secos.

Olhei para ela. Pensei em perguntar qual parte de “seus ossos vão construir o meu palácio” ela não havia entendido, mas era tarde demais. A música havia parado. Dentro do meu MP3, Lemmy havia largado o baixo no meio do palco, e se escondido atrás da bateria, para chorar de vergonha.

O encanto havia terminado. Eu não usava mais uma armadura de metal e andava pela Teodoro brandindo um machado decorado com caveiras humanas. Eu estava novamente com 1.60m, e usava jeans e uma camisa um pouco apertada. E meus tênis estavam molhados, porque estava pisando numa poça e não tinha percebido.

Guardei o panfleto no bolso, tirei os fones de ouvido e suspirei.

Resignado, aceitei minha derrota e segui meu caminho até o trabalho, desviando dos camelôs e quase levando um banho de uma moto que passou por cima de uma poça. E demorei para chegar no trabalho, porque tive que andar 15 metros atrás de uma velha que ocupava a calçada inteira e se movia a 0,003km/h.

Ou seja, eu sou o deus da guerra e seguro uma bandeira encharcada em sangue. Mas, meus servos, ao invés de estuprarem a terra, simplesmente olham para mim com desprezo e gritam: “chupa, Orgasmatron!”.

Ô fase.

19 de janeiro de 2010

Diga-me o que Procuras... E Eu te Direi Quem És - Parte IX

(leia o post anterior desta série aqui)

Após meses de ausência, hora de voltar com mais um post da saga que, durante muito tempo, foi quase um símbolo do Champ. Se você é novo aqui, tratam-se das coisas mais bizarras que as pessoas procuram Google e, sabe-se lá por qual motivo, caem no meu blog – devidamente comentadas por mim, é claro, que tento ajudar a estas pessoas da melhor maneira possível.

Vale dizer que eu mantenho todos os erros de digitação e de português, para deixar claro que a humanidade não deu certo mesmo. E, se você é leitor antigo, saiba que as buscas por Kléber Bam Bam Pelado, vídeos de hienas e leões se devorando (literalmente ou sexualmente falando) e de autópsias continuam entre os mais buscados aqui.

Isto posto, sem mais delongas, vamos às últimas pérolas.


Viu elas por aí no sexo
Olhe, não estou no sexo, estou em Pinheiros. E aqui elas não estão. Isso ajuda?

Vim vi e venci cristovao colombo
Quase. Cristóvão Colombo, quando chegou à América, disse algo parecido com isso, mas o correto foi: “Vim, vi e agora vou voltar”. Quem disse “vim, vi e venci” foi Júlio César, quando, numa noite de bebedeira, perdeu uma aposta e teve que ir até uma granja colocar um ovo em pé.

Velozes e furiosos ele usa all star
Olhe, eu não dei muita atenção aos filmes. Mas, pelo que me lembro dos trailers, eles usam carros mesmo.

Siquinificado dos sonhos
Independente de como foi seu sonho, significa que você precisa comprar um dicionário.

Como cantar a cunhada sem que ela se ofenda
Basta encontrar um jeito de ficar sozinho em casa com ela durante a tarde, e chamá-la de “minha filha”, como Nélson Rodrigues, o maior especialista em cunhadas que já andou sobre a Terra, ensinou. Aí, é só dar tempo ao tempo. Mesmo que você seja o Antonio Calloni e a sua cunhada seja a Alessandra Negrini, a coisa vai rolar. É tiro e queda. Para maiores informações, assista ao DVD de A Vida como Ela É.

Shaspion
Não gosto. Nem de Shaspion, nem de Shangeman ou Shiraya.

Comendo a Carol?
Não, na verdade, eu estou escrevendo no blog. Mas obrigado pelo interesse.

Como encontrar Al Pacino para escrever para ele
Nem perca tempo escrevendo para don@corleone.com, ele nem abre este e-mail – eu já tentei. O segredo é mandar para t.hagen@corleone.com, e rezar para ser atendido.

Se eu pedir pra cancelar TVA eu consigo desconto
Claro. Eles podem conceder um desconto de até 100% em casos de cancelamento. Claro que você ficará sem canal nenhum, mas, por esse preço, ainda é um bom negócio. Veja bem, você não vai pagar nada!

Qual melhor maneira de transar no banheiro
Depende bastante do tamanho do banheiro, claro. No da minha casa, por exemplo, a melhor maneira é transar sozinho mesmo.

Prédio japonês com bola no topo
Você pode ser um pouco mais específico? Só um pouco? Tente descrever a bola, ou adivinhar qual cidade do Japão está o prédio.

Oke significa scream to for me
Grite para por mim. Não faz sentido, eu sei. Até aí, aposto que isso não deve fazer muita diferença para alguém que escreve "oke".

Oitavo amazo do apocalypse
Se por amazo você está se referindo à amazona, errou feio. Os cavaleiros do Apocalipse são homens – apesar do modo que minha mãe reagiu quando tomei bomba no colegial aparentemente desmentir isso. Agora, se você estava tentando digitar algo como “amaziado”, saiba que o Apocalipse nunca se casou – tanto que ele é considerado um dos partidos mais cobiçados de toda a Bíblia (aquele negócio de mortos caminhando sobre a Terra leva as mulheres à loucura). Já se você estava pensando no Mazzaropi, é Amácio, e não Amazo. E, não não existe um filme chamado Jeca e o Fim do Mundo, nem perca seu tempo procurando.

O que quer dizer nariz vermelho?
Calma, não se assuste. Você apenas chegou bêbado em casa e seu nariz está se parecendo com um pimentão. Isso não oferece perigo de vida, mas, se não for tratado, pode fazer com que seu nariz caia. A única solução é prender a respiração por cinco minutos. Isso fará o nariz descansar um pouco e voltar à coloração normal. Mas seja rápido, não espere o porre passar: quanto mais você demorar, maiores as chances do seu nariz cair. Cinco minutos, hein? Um, dois, três... Pronto.

Sexo irma com irmão tio com sobrinha cadê
Você é o cara da cunhada, certo? Resolveu expandir seus horizontes? Sinceramente, eu nem quero imaginar como deve ser o natal na sua casa.

Nome com palavras
Então, desculpe desapontar você, mas todos os nomes têm palavras. A única exceção é o Prince – não coloco o nome dele aqui porque não sei qual nome ele está usando esta semana.

Musica para ouvir vamos agora escolher o nosso candidato que sabe vai melhor olhe pra este plantela vida de gente
Sério, eu não sei o que fazer com você. O problema é que o Google também não soube e resolveu repassar o problema para mim.

Mãe me dá um real
Não quero bala, não tenho troco e não sou sua mãe.

Não tenho irmãos ou irmãs mas o pai daquele demônio é filho do meu pai
Olhe, eu fico bastante feliz com o fato de você não ter irmãos ou irmãs. Já basta um de você no mundo.

Macumba com alpiste
Então, não é bem assim que funciona. Sei que você deve ter visto macumbas na esquina, e todas elas têm uma galinha. É que a macumba, na verdade, já é feita com a galinha, os macumbeiros não colocam uma garrafa de pinga, duas ou três velas e um prato de alpiste para atrair a galinha e matá-la ali. Se bem que... Sim, talvez dê certo. Faça o seguinte: coloque uma garrafa de pinga e duas ou três velas numa esquina – de preferência, em uma avenida bastante movimentada. Aí, coloque um prato de alpiste e uma placa com a inscrição “alpiste grátis”. Quando terminar de montar tudo, vista uma roupa de coiote e fique escondido atrás de uma árvore, com uma marreta ou explosivos ACME. Favor enviar fotos depois.

Karatedirceu escorpion sitiocercado
O sítio do Dirceu foi cercado por escorpiões e ele espantou os bichos com golpes de karatê? Porque isso foi o melhor que consegui deduzir aqui. Dica: a próxima vez que entrar no Google, procure por +“barra de espaço” + “manual do usuário”. O mundo agradece.

O que pode ser falta de fôlego?
Calma, ainda não se passaram cinco minutos. Aguente firme aí ou você perderá o nariz.

Estou grávida e caiu desenfetante na minha barriga qual o perigo
O perigo é que a criança pode desenvolver superpoderes. O Blade, por exemplo, tem as habilidades de um vampiro porque a mãe dele foi mordida por um durante a gravidez. Assim, seu filho pode se tornar um super-herói (algo como Capitão Eucalipto), com habilidades de deixar o chão da cozinha brilhando com um cuspe ou limpar o vaso sanitário enquanto urina. Agora, por favor: se forem gêmeos, seria covardia você não batizá-los de Pinho e Sol.

Comi a Carol
Que bom. A Carol sabe disso? Ou tudo aconteceu dentro da sua cabecinha fértil?

100 nomes para o meu namorado
100 nomes? Difícil, hein? Acho que quem mais chegou perto disso foi a Marquesa de Santos, já que o namorado dela se chamava Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Ou seja, tem só 18 nomes aí (e isso é discutível, já que tem até nome de mulher no meio). É um começo, mas tem chão ainda.

18 de janeiro de 2010

Meeting Eric Franco & Gabi Bianco

Com certeza existem pessoas que lêem o Champ e acham que é tudo invenção da minha parte, que nada do que escrevo aconteceu comigo de verdade. E, sendo sincero, este era um dos meus maiores problemas quando o blog começou a ficar conhecido – cheguei a fazer um ou outro texto sobre isso –, até que tomei a decisão de não me importar mais. Quem quiser acreditar que é verdade, acredite; quem não quiser, não acredite.

Mas, mesmo depois de ter parado de me importar com isso, ainda é extremamente recompensador ver algumas coisas que falo no blog ganharem vida na frente de outras pessoas. Ver aquela pessoa ou aquele acontecimento se tornando real na frente de alguém que lê o blog dá uma sensação boa, como a se aquilo tivesse sido criado por mim. Não sei explicar ao certo, parece que as pessoas estão vendo uma peça de teatro que eu escrevi.

Sábado, por exemplo, fui almoçar com o Eric Franco e a Gabi Bianco, casal que conheci no Twitter, meses atrás. Faço aqui um mea culpa: os dois – principalmente a Gabi – já haviam me chamado para almoçar inúmeras vezes, e eu nunca podia, por causa do trabalho. Vale um adendo aqui: não é que eu não podia almoçar com eles; nestes dias, eu não podia almoçar, ponto.

As coisas começaram a parecer mais fáceis quando descobrimos que eu e o Eric trabalhamos no mesmo quarteirão. Assim, ensaiamos vários almoços para o começo de janeiro, mas todos em vão. E, finalmente, ontem, pleno sábado, nos encontramos no restaurante onde sempre almoço durante a semana.

Fui o primeiro a chegar e fiquei esperando na porta. Logo, eles chegaram de carro: a Gabi dirigindo e o Eric ao lado.

Assim que eles foram estacionar, o carro que estava atrás deles, com dois velhinhos, diminuiu a velocidade. E o carro atrás dos velhinhos, com dois armários afro-brasileiros (politicamente correto mode: on) ouvindo algo que deveria ser Racionais, sem conseguir parar a tempo, bateu na traseira do veículo dos velhinhos.

Ou seja, a Gabi ainda não havia estacionado o carro e eu já havia provocado um acidente de trânsito.

A rua inteira ouviu o barulho da batida, mas ninguém mais ouviu a frase “estamos de olho em você e seus amigos”, porque ela foi dita pelos deuses do azar, e somente para mim. Resmunguei discretamente (e bem discretamente, afinal não queria que o Eric ou a Gabi achassem que eu estava falando sozinho) um “por favor, eles são legais, eu quero só almoçar com eles” e fui encontrá-los.

Felizmente, o resto do almoço transcorreu sem (maiores) problemas.

O Eric, em alguns pontos, é bastante parecido comigo. Se uma gota dos comentários que ele faz – sobre qualquer assunto – respingar na mesa, é capaz de abrir um buraco na toalha, de tanta acidez. Já a Gabi é daquelas que é divertida por natureza: o jeito que ela conta as histórias é engraçado, por alguma característica indefinível. As histórias que ela conta seriam engraçadas de qualquer jeito, mas, na mão da Gabi, se tornam inesquecíveis.

Ou seja, se o garçom passasse pela mesa e oferece um pouco de sarcasmo para acompanhar o almoço, nós teríamos respondido:

– Não, obrigado, isso temos de sobra.

Assim, o prato principal do almoço foram gargalhadas, daquelas de desopilar o fígado.

Passamos cerca de uma hora conversando sobre muitas coisas: de telemarketing ao passado da Gabi no Pão de Açúcar (se você a conhecer um dia, peça a ela fazer o sorriso demoníaco), de livros (especialmente a fórmula por trás das biografias de astros de rock, decifrada pelo Eric) à minha síndica.

E entre os assuntos, aquele boteco (que já falei algumas vezes aqui) onde você precisa entrar armado e tomar um dos clientes como refém para conseguir ser atendido, e do qual o Eric também é freqüentador.

E, claro, como estávamos no “meu” restaurante, evidente que um post ganharia vida. Assim que terminei de comer, o garçom (aquele mesmo do bolo prestígio) se aproximou de mim.

– Hoje tem torta de maracujá.

Pensei em perguntar a ele a) “quantas vezes você me viu pedir uma sobremesa que não envolvesse chocolate?”; b) “quantas fatias de torta você ainda precisa vender para cumprir sua meta?”; ou c) “porque você não vai brincar com as outras crianças e deixa os adultos comerem em paz?”, mas mudei de idéia e soltei apenas um “ok, depois eu vejo o que peço”, usando o melhor tom “aham, garçom, senta lá” que consegui.

Mas o ponto alto do almoço – além da companhia, claro – foi quando o assunto caiu no coelho da Faria Lima.

Esta semana eu estava indo à terapia quando, andando pela Faria Lima, vi duas pessoas, próximas a um ponto de ônibus, tentando capturar alguma coisa no meio de umas árvores que tem por ali. Imaginei que estivessem atrás de um trombadinha-das-selvas, mas, quando olhei com atenção, vi que eles estavam correndo atrás de um coelho.

Um coelho. No meio da Faria Lima, a poucos metros do Largo da Batata.

Meu lado escritor automaticamente ordenou que eu corresse até ali para olhar de perto e colocar no blog. Por outro, meu instinto de sobrevivência imediatamente deu um soco na cara do instinto de escritor, se aproximou de mim e disse:

– Rob, pare para pensar um pouco. Estamos falando de um coelho na Faria Lima. Um coelho! No meio da Faria Lima! É evidente que você está vendo coisas. Se você se aproximar dali e descobrir do que isso se trata, você vai querer comentar isso com as pessoas, certo?

– Certo, respondi.

– E você se lembra para onde estamos indo?

– Para a terapia.

– Isso. Você consegue imaginar o que pode acontecer se você entrar na terapia e falar “acabei de ver um coelho na Faria Lima”?

– Não sei. Eu vou ser internado?

– No mínimo. Vai por mim, vamos embora. É melhor.

– Mas você está vendo o coelho, também, não está?

– Rob?

– Oi.

– Esqueça o coelho e vamos embora.

Assim, deixei o coelho para trás, e, até ontem achei que eu realmente tinha sofrido uma alucinação.

Qual não foi minha surpresa quando o Eric começou a contar uma história parecida?

Juntamos os pauzinhos e descobrimos que ele passou por ali pouco antes (ou pouco depois) de mim, e também viu o coelho. Quase pulei da mesa e dei um abraço nele, chorando e gritando que “eu sabia que não estava louco!”, mas me comportei. Afinal, como era somente a primeira vez que eu me encontrava com eles, e já tinha causado um acidente de trânsito, achei melhor ficar quieto.

Mas, no final do almoço, as coisas ficaram um pouco pesadas.

Aparentemente – e eu não sabia disso – o Eric e Gabi usam substâncias ilegais. São totalmente viciados. Eu comecei a perceber que eles começaram a falar baixinho entre eles, usando frases como “vamos até lá comprar, estou na maior fissura”, “a gente leva ele também, ele tem pinta de quem usa” e “não estou agüentando mais, vamos”.

Pagamos a conta e fomos. Quer dizer, eu não sabia onde estávamos indo, mas fomos.

Andamos um pouco pelo bairro, entramos numa viela escondida e em uma casa mais escondida ainda.

Era um lugar chamado Casa do Brigadeiro. É uma casinha estilo casa da avó, com todos os doces que você puder imaginar. E a Gabi, orgulhosa de apresentar aquele tesouro a mais uma pessoa – sabe-se lá quantas almas este casal não destruiu com aquela doceria até hoje – soltou um:

– Aqui tem bolo mousse.

Era tudo o que eu precisava ouvir. Encerramos o almoço ali, naquela espécie de filial da Fantástica Fábrica de Chocolate, com um dos melhores bolos mousse da história contemporânea.

E eu me conheço, tenho certeza de que daqui a alguns anos, estarei buscando ajuda em grupos de apoio (depois de ter vendido tudo o que tenho para comprar mais bolo mousse), pesando mais de 100 kg e dizendo coisas como:

– Oi, meu nome é Rob Gordon e faz três dias que não vou à Casa do Brigadeiro.

Obrigado, Eric. Obrigado, Gabi. Vocês destruíram mais uma vida.

P.S. – O prazer foi meu!

17 de janeiro de 2010

500 contra Um

Agradeço aos atendentes de telemarketing, aos clientes do Pão de Açucar, aos frequentadores da Teodoro Sampaio e aos demais malucos que encontro na rua por tornarem minha vida bizarra a ponto de fazer com que este blog atinja a marca de 500 posts.

E, claro, um agradecimento especial a todos os leitores e amigos, que me ajudam (e muito) a tornar tudo isso extremamente mais divertido.

E que venham os próximos 500!

14 de janeiro de 2010

Clone Wars

Chegou o momento de falar a vocês sobre minha disfunção cerebral.

Na verdade, quem acompanha este blog há algum tempo já deve ter percebido que eu tenho mais de um problema mental – e quem me conhece pessoalmente costuma dizer que eu deveria fazer terapia em grupo (na verdade, em grupo porque seria eu e um grupo de terapeutas) –, mas hoje eu quero falar de uma específica, que permeia meu dia a dia:

Minha obsessão em encontrar pessoas parecidas.

Normalmente, ela acontece quando estou em restaurantes. Na verdade, acontece o tempo inteiro, em qualquer local: andando pela rua, vendo TV, mas, em restaurantes, eu mal faço outra coisa. Às vezes, eu não consigo nem comer direito. Sento-me à mesa e começo a me comportar como um imbecil: sim, converso com quem está comigo, mas fico olhando para os lados, o tempo inteiro, procurando pessoas parecidas com qualquer coisa.

E meu cérebro, claro, fica trabalhando a todo vapor. Vou tentar descrever mais ou menos o que acontece aqui: “Esse velho da mesa ao lado... Quem é ele? O segredo está nos olhos... Acho que é alguém do Ben-Hur. Ou do Spartacus, não sei. Merda, velho, me ajude um pouco, olhe para cá! Esses olhos... Já sei! É o Peter Ustinov, no Spartacus! Perfeito! Os mesmos olhos, as mesmas bochechas de buldogue, perfeito. Pronto. Agora, a mulher dele...”

Acredito que o meu cérebro funciona como aqueles computadores do CSI: os neurônios jogam a foto da pessoa ali e começam a buscar elementos correspondentes: olhos, boca, orelhas etc. De repente, eles voltam com uma informação que normalmente é o universo do sósia, algo como “Simpsons”, “Futebol”, “Poderoso Chefão” etc. Mas claro que, às vezes, a pessoa é tão idêntica a alguém em questão que eles já voltam com a resposta pronta, algo como “é o Alain Prost”, “é o capitão Haddock, do Tintin”, “é o Aureliano Chaves”.

E eu passo o jantar inteiro assim. Chega a picanha, chega a fraldinha, chega o cupim (ah sim, se você é novo aqui, vale dizer que jantar, para mim, é carne) e eu ali, trabalhando em cima das pessoas. Às vezes, eu chego a ficar analisando três pessoas diferentes ao mesmo tempo. “Bom, aquele moleque de boné é alguém da novela, depois eu volto nele; o pai dele é da família do Tony Iommi (daqui a pouco eu falo sobre as famílias); deixa eu me concentrar naquela tia ali do canto, porque ela já está na sobremesa e eu nem comecei ainda”.

E não estou exagerando, é quase uma obsessão. Não fica apenas em jantar, eu ando pela rua, em shoppings, fazendo isso. Até mesmo trabalhando eu não consigo parar. E é aí que entra o motivo da patologia: por mais que eu adore fazer isso, eu não faço porque eu adoro, mas sim porque não consigo parar. É instintivo.

É doentio.

Mas, felizmente, isso não atrapalha meu convívio com as outras pessoas – no máximo, corro o risco de apanhar no restaurante, porque não paro de encarar os outros. Mas como eu janto normalmente em locais onde conheço todos os garçons, o risco é pequeno.

E as pessoas que estão comigo na mesa, acabam se acostumando e até mesmo se divertindo com isso.

Aliás, não é difícil, quando algum amigo fala para a namorada, por exemplo, sobre essa minha mania, a menina virar e soltar um:

– Com quem eu pareço?

– Não, não é assim que funciona, não sob pressão.

– Pode falar.

– Juro que não sei. Daqui a pouco surge algo.

E desconverso. Mas, de repente, no meio de uma conversa, eu solto um:

– Maria Padilha! Você é totalmente Maria Padilha!

Mas, o grande agravante da coisa é que um dos meus melhores amigos sofre do mesmo mal. E nós jantamos juntos pelo menos duas vezes por mês, para colocar o papo em dia. Agora, o problema não é que ele também gosta de fazer isso, mas ele faz – modéstia à parte – tão bem quanto eu. Então, nossos jantares costumam ser assim:

– Cara, eu estou com o saco cheio daquele trabalho. Meu chefe, outro dia, pediu um relatório para o dia seguinte, e eu não tinha material nenhum. Dá uma olhada na Lúcia Veríssimo ali, na mesa do canto. E eu expliquei isso a ele, mas não adiantou. Quase varei a noite ali.

– Na redação a coisa está feia também. Este garçom é igualzinho ao Buzz Lightyear, dá uma olhada no queixo dele, quando ele vier. Os prazos estão cada vez mais apertados.

E o cérebro dele funciona da mesma forma que o meu, porque às vezes ele me pede:

– Rob, me ajuda com aquele maitre. É alguém de futebol.

Não conseguimos parar. É doentio. E, sinceramente, às vezes perde a graça, pois, quando estamos inspirados, gabaritamos o restaurante inteiro. Chegamos ao cúmulo, uma vez, de combinarmos uma coisa. Iríamos decidir um universo qualquer e nos concentrarmos em encontrar alguém deste universo. Assim, sentamos na mesa, ele se sentou e disse:

– Simpsons.

Ele olhou para um lado, eu olhei para o outro. Menos de cinco segundo depois:

– O apresentador do telejornal de Springfield está no Buffet, eu disse.

– A professora do Bart Simpson está entrando com o marido, ele respondeu.

Desistimos disso e passamos a continuar fazendo do modo tradicional. Sinceramente, somos tão experientes nisso que já definimos até algumas categorias que são tão fáceis que chegam a ser obrigatórias: todas as noites, temos que encontrar alguém parecido com a Castafiore, do Tintin; a Rosa Klebb, vilã do Moscou contra 007; e o Henrique, que jogou no Corinthians.

Na verdade, nós trocamos impressões até mesmo quando não estamos juntos. Ficamos trocando sms o tempo todo sobre isso. Estou jantando e recebo um “o Cid Moreira está comendo no Degas”; meu amigo está trabalhando e recebe um “A rainha Elizabeth está na Fnac”.

E, no meio dos jantares, nasceram as famílias (eu disse que iria falar delas, lembram?). São aqueles grupos de celebridades que se parecem entre si – não adianta uma celebridade se parecer com outra, como a Marília Gabriela e o Espantalho do Fandangos (como já citado anos atrás no blog), o Bruce Dickinson e o Leopoldo Pacheco, ou o Caetano Veloso e o Coringa.

Precisam ser grupos de celebridades: por exemplo, há a família do Zenon (Zenon, Belchior, Tony Iommi, Yanni, Toquinho etc), a família do Paulo Baier (Paulo Baier, Brian Eno, Seinfeld, Steven Soderbergh) e a família do imperador Palpatine (imperador Palpatine, Glenn Close, Peninha, Galeão Cumbica e o KK Downing, guitarrista do Judas Priest).

A coisa é tão doentia que eu cheguei ao cúmulo de achar pessoas parecidas comigo na rua. E. não, não vou abrir com o que pareço – mas admito que tem muita coisa – e meu amigo tem olhos tão afiados que consegue ser bem sucedido até mesmo nas situações mais improváveis: foi no meio do show do Iron, por exemplo, que ele descobriu que o Janick Gers é igualzinho ao Nick Nolte em Hulk.

E, assim, vamos vivendo. E enquanto não apanharmos em algum lugar, vamos continuar. E, quer saber? Se um dia levarmos uma surra num restaurante qualquer, mesmo assim não vamos parar de fazer isso. Não conseguimos. Quando muito, vamos ficar um tempo sem ir ao restaurante, e só.

E, quando decidirmos voltar ao restaurante, não falaremos algo como “vamos naquele lugar onde apanhamos?”, mas sim, “vamos no Galeano”, porque o maitre é igualzinho ao antigo volante do Palmeiras.

Mas, enquanto não apanhamos, deixo vocês aqui com o Top 5 Categorias de Pessoas Parecidos que Mais Encontramos nos Jantares:

1. As puras: quando a pessoa é idêntica a alguém, sem tirar nem por. Por exemplo, “aquele cara não se parece com o Tim Maia, ele é o Tim Maia”.

2. As adaptações: quando a pessoa se parece com alguém, mas é necessário dar uma mexida (de leve): por exemplo, um dos funcionários do Degas é um mini-mim do Russell Crowe em Uma Mente Brilhante – ele é idêntico, mas tem mais ou menos 1.20m de altura.

3. As (já citadas) categorias obrigatórias: normalmente, são as primeiras que encontramos. Antes de sentar, um vira para o outro e diz: “já matei a Rosa Klebb, olha ali naquela mesa grande, bem no meio”

4. As famílias: normalmente são as segundas mais fáceis: “olha um cara da família do Paulo Baier ali”. Isso implica automaticamente que ele se parece com todos os membros da família.

5. Os coringas – São aquelas pessoas que se parecem com muita coisa. “Aquele velho ali parece o Coronel Mostarda, mas só de frente. De lado, ele é meio Goldfinger”.

PS – Fiquei tentado a caçar fotos de todas as celebridades citadas aqui, mas desisti, por três motivos: 1) o mais óbvio, claro: preguiça; 2) fotos são inimigas da arte de se encontrar pessoas semelhantes: o movimento é essencial; 3) faça como eu e confie no seu instinto: antes de puxar a foto da pessoa no Google, puxe pela sua memória – é extremamente mais eficiente e divertido, confie em mim.

12 de janeiro de 2010

O Mundo Encantado dos Bolos Prestígio

Acredito que o restaurante aqui ao lado do trabalho está revolucionando o método de pagar os empregados, sobretudo os garçons. Eles não devem mais viver de salários e gorjetas, como os outros garçons da cidade, mas sim de comissão.

Ou seja, se o sujeito bater a meta de vendas, ganha mais dinheiro. Não são mais garçons, mas sim representantes comerciais que, apenas por coincidência, também servem bebidas.

Ao menos, essa é a única explicação que eu tenho para o que aconteceu hoje. Tinha acabado de comer, e chamei o sujeito para pedir uma sobremesa. Ele se aproximou e eu comecei:

– O bolo mousse, evidentemente, não tem, certo?

Cabe uma explicação aqui: uma vez eu comi um bolo mousse maravilhoso nesse lugar. Enlouqueci. Era a melhor sobremesa do planeta. Isso faz semanas, e, de lá para cá, eles nunca mais tiveram o bolo. Às vezes acho que é tudo um plano: me viciaram no bolo, vão me deixar em abstinência por meses e, um dia, vão dizer que sim, tem o tal do bolo mousse, mas um pratinho custa R$ 350,00. E não, não pode parcelar.

Enfim, na dúvida, toda vez que eu vou pedir sobremesa, apenas confirmo logo de cara que não tem o bolo mousse, para me conformar que vou ter que me contentar com outra coisa.

Desta vez, porém, a resposta foi diferente do habitual “não, não tem”.

– Não. Mas tem bolo prestígio.

– Ok. O que mais você tem de sobremesa?

– Bolo prestígio.

– Sim, isso você já disse. O que mais?

– Ah... Torta holandesa, quindim, merengue.

– Mais nada?

– E bolo prestígio.

– Certo. Bolos prestígio à parte, mais nada?

– Talvez tenha pudim de leite.

– Você pode checar?

Ele se debruçou na beirada – eu como no mezanino, que era a área de fumantes antes da lei do Serra; não se pode mais fumar lá dentro, mas continuo me sentando ali, por hábito – e olhou para o carrinho de sobremesas, no andar de baixo.

– Olhe... Pudim de leite não dá para ver, mas...

– Sim?

– Tem bolo prestígio.

[suspiro]

– Vai querer?

[longo suspiro]

– Não. Tem bicolor?

Bicolor é uma torta que eles têm às vezes. É uma espécie de mousse de chocolate escuro com mousse de chocolate branco por cima.

Ele se debruçou na beirada, novamente.

– Não. Acabou.

– Vocês têm mousse?

– Mousse? Tem.

– Então eu quero.

– Tem bolo prestígio também.

– Ok.

– Vai ser a mousse? Ou o bolo?

– Que bolo?

– Bolo prestígio.

– Não! Cara, esqueça o bolo prestígio! Eu quero uma mousse.

– Algo mais?

Abri a boca para pedir uma garrafa de água, mas mudei de idéia. Capaz de ele me trazer uma garrafa de água e um copo com uma fatia de bolo prestígio enfiada lá dentro.

– Não, só isso.

– Ok.

Ele deu meia volta e foi buscar a sobremesa. Quando ele deu dois passos, meu sentido de aranha disparou, e achei melhor esclarecer ainda mais as coisas.

– Amigão?

Ele parou e se virou para mim.

– Pois não?

– É a mousse, viu?

– Sim, senhor.

Concordou, mas fez cara de quem não gostou muito. Trouxe minha sobremesa e eu comi a mousse bem devagar, certo de que iria encontrar pelo menos um pedaço da merda do bolo prestígio lá dentro. Mas não achei nada.

Se depender de mim, esse cara não vai ter bônus nenhum no final do mês, já que, no meu top 5 sobremesas preferidas, bolo prestígio não entraria nem se comprasse o gabarito da prova.

O meu medo, claro, é eles voltarem com o tal bolo mousse. Aí, esse garçom vai passar as férias no Caribe, com o babaca aqui pagando, enquanto eu vou estar num spa, pesando uns 50kg a mais.

10 de janeiro de 2010

Love, Love, Love

Existe algo que não tenha sido dito ainda sobre o amor? Duvido.

Afinal, ao longo dos séculos, a humanidade teve incontáveis poetas que transformaram suas paixões – normalmente impossíveis – em verso e prosa; músicos que transformaram seus sentimentos em sons, sons esses que embalam outros milhões de apaixonados mundo afora; e até mesmo cientistas que dedicaram suas vidas a decifrar as reações químicas que o amor causa em nossos cérebros.

E, claro, existem os amantes. Pessoas comuns, como eu e você, mas que, em determinados momentos da vida, entendem mais sobre o amor que qualquer artista ou estudioso. Porque, em determinados momentos, o amor é tudo o que temos. Ou melhor, é tudo que somos. Respiramos, comemos e bebemos amor; saímos da cama pela manhã e voltamos para ela, à noite, sem parar de pensar por um minuto sequer na pessoa amada.

E não estou falando de paixão. Paixão é algo que beira o obsessivo. Na paixão, você não consegue trabalhar nem estudar direito, pois consegue se concentrar apenas naquela pessoa. Com o amor é diferente: você faz todas suas tarefas, paga todas as suas contas, almoça, sem pensar ininterruptamente sobre a pessoa, porque a pessoa está ali, ao seu lado, em absolutamente tudo o que você faz. Paixão é posse; amor, paz.

Claro que todo amor tem seus momentos de batalha. Afinal, para conseguir a paz, é preciso estar preparado para a guerra. E a guerra virá, tenha certeza disso. E elas têm até nome: as batalhas dos ajustes. São arestas que precisam ser aparadas, diferenças que precisam ser contornadas; sonhos que não têm nada em comum.

Talvez os únicos casais que não briguem jamais sejam aqueles das antigas animações da Disney. Mas o custo disso é muito alto. Não consigo imaginar a Branca de Neve e seu Príncipe tomando um porre juntos, muito menos a Cinderela ou o Príncipe dela brigando por causa do dinheiro do aluguel. Eles são perfeitos demais para viverem de verdade, ou amarem de verdade. E aposto que na primeira briga os casais da Disney iriam se desfazer, com advogados entrando na jogada e discussões como “metade do castelo é meu, e não abro mão disso. Mas você pode ficar com aqueles cavalos imundos”. Sim, na primeira briga. Eles são perfeitos demais para entender que amar é, antes de tudo, ceder.

Mas, depois das guerras, vem a paz. Isso, claro, se os amores forem verdadeiros. Sim, amores, pois é preciso que ele seja verdadeiro dos dois lados. Se paga o aluguel de um jeito, arruma-se isso ou aquilo e as coisas voltam a se acomodar. E, entre momentos de guerra e momentos de paz, quando se vê, passaram-se anos e ainda estão juntos, matando um leão por dia. Mas o que importa é que matam o leão junto, independente de um preferir espingarda e o outro gostar de arco e flecha.

E já vi guerras feias. Alguns anos atrás, o casamento de um amigo meu esfacelou. Fui até a casa dele – não lembro se era natal ou réveillon – e o apartamento estava todo destruído. Armários virados, coleções espalhadas pelo chão. Senti-me andando em Kosovo. Claro que isso não é padrão – nem no âmbito dos meus amigos, nem na vida deste casal em questão – e sim uma situação extrema.

A mulher dele estava na praia – o que era bom sinal, já que tenho ingerência sobre meus amigos e não sobre as esposas deles. Catei meu amigo pelo braço e fomos até um Frans Café, onde dei-lhe um esporro do tamanho do mundo. Estão juntos até hoje. Não pela bronca que dei, mas porque o que sentiam era verdadeiro. Cederam.

Amar é ceder.

Amar é perdoar. Amar é tentar entender. E, sim, em alguns momentos, amar é fazer merda, é errar. Não estou falando de sacanear, estou falando de errar. Quem sacaneia é filho da puta, pessoas normais erram.

O amor é muita coisa. Como John Lennon disse certa vez, “o amor é mais que apenas ficar de mãos dadas”. E saber isso é um dos segredos de tantos casais que, à primeira vista são improváveis, mas que resistem a tudo, durante anos e anos.

E por que estou falando tudo isso?

Porque já faz tempo que, andando para lá e para cá na internet, vejo blogs dando dicas de como as pessoas podem melhorar seus relacionamentos. Admito que algumas são interessantes, mas a maioria é sempre “converse mais”, “respeite a opinião do outro”, “saiba dividir o espaço” e aquelas pílulas de almanaque.

Isso, claro, sem falar nas clássicas “saiba que nenhum relacionamento será eterno” ou “o amor não dura para sempre”. Sim, a maioria dos relacionamentos não dura para sempre, mas você pensar dessa forma é assumir a postura Jamaica-em-Copa-do-Mundo (algo como “se a gente chegar até as oitavas de final já está de bom tamanho”). Olhe, me desculpe, mas eu preciso acreditar e querer que meu relacionamento seja eterno desde o primeiro dia. E se eu não acredito nisso, é sinal de que não quero muito aquele relacionamento.

Entretanto, não vou discutir o conteúdo destas supostas dicas de como melhorar seu relacionamento, mas sim a proposta em si.

Sempre que leio algo assim em um blog, tenho o impulso de mandar um comentário perguntando “vem cá, e o que gabarita você a dizer essas coisas e a dar dicas sobre esse assunto?”. Afinal, se eu estiver lendo o blog de um psicólogo especialista em relacionamentos, é uma coisa. Agora, encontrar esse tipo de coisa em blogs de pessoas comuns, que, teoricamente, entendem o mesmo– ou, se bobear, menos – que eu sobre relacionamentos...

Não, comigo não cola.

Tudo bem, um blogueiro, como qualquer outra pessoa, já deve ter amado, sofrido e ter sua carga de experiência a respeito disso. Mas isso, sinceramente, não quer dizer nada. É o mesmo que eu esperar que o porteiro do meu prédio saiba como o mecanismo interno da fechadura eletrônica funciona, baseado no fato de que ele abre o portão o dia inteiro. Não, não. Quem sabe é um engenheiro que estudou para isso.

Não sei, acredito que da mesma forma tem gente que acha ser técnico de futebol em época de Copa, ou se comporta em diretor de cinema no dia do Oscar, existem pessoas que acreditam entender mais de relacionamentos que as outras, talvez porque tenham passado por muitos relacionamentos. São os equivalente ao Professor Ludovico, da Disney – aquele personagem que é perito em tudo, se intitulando “perito em ser perito”.

Então, deixo um raciocínio às pessoas que colocam este tipo de coisa no blog: se você tem experiência, é porque passou por muitos relacionamentos, certo? E, se foram muitos, é sinal de que, teoricamente, eles não foram particularmente bem-sucedidos, confere? Então, como o único elemento em comum a todos eles é você, não é provável que os problemas de todos eles estejam em você?

E, vou além: se o problema dos seus relacionamentos está em você, você deveria estar lendo dicas, e não as dando por aí, na internet? Aí caímos no ditado do “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Ou você quer apenas parecer uma pessoa madura e bem resolvida aos olhos dos seus leitores? Se sim, sinto informar, mas seus problemas não são a respeito de relacionamentos, mas sim psicológicos.

Enfim, se eles podem, eu posso também. Afinal, a cada vez que blogueiros colocam dicas sobre relacionamento em seus blogs, deixam claro que não existe necessidade de estudo para isso, basta apenas um pouco de vivência e escrever de forma razoável. E isso eu acredito que tenha. Então, eu posso dar dicas também.

Mas não vou ficar aqui cagando regras como “converse com o parceiro”, “discuta os problemas”, “saiba ouvir o outro”. Sempre me orgulhei do meu blog não ser clichê e isso não vai mudar agora.

Assim, eu dou apenas um conselho a respeito de relacionamentos:

Mude a forma como você ouve suas músicas.

Não entendeu? Eu explico. Temos o hábito de ouvir músicas românticas nos imaginando no lugar de quem canta. Assumimos o papel de personagem principal daquela música, e sofremos e amamos com cada verso. Agora, você já experimentou ouvir a estas músicas colocando a pessoa que você ama no papel central, e você como “objeto de desejo”?

Quando você está num relacionamento, qualquer coisa que você faz tem conseqüência na vida da outra pessoa. E é sempre bom se lembrar disso, especialmente porque às vezes nos preocupamos mais com as conseqüências que as coisas que o outro faz terão nas nossas vidas.

E, sinceramente, não existe modo melhor de se lembrar disso do que se colocar no lugar da pessoa que você ama, tentando entender como ela pensa ou se sente.

E músicas podem ajudar nisso.

Um exemplo: ouça esta música aqui e imagine a pessoa que você ama falando tudo isso para você. Duvido que você, ao menos, não pense um pouco sobre as coisas que você faz e, principalmente, sobre a forma que as faz; e, claro sobre as responsabilidades que você tem na vida daquela pessoa, e a respeito de tudo o que vocês construíram juntos.



Ou seja, a única dica que eu tenho para dar a vocês é: importe-se com a outra pessoa. E algo me diz que vocês nunca teriam precisado entrar neste blog, muito menos ler este texto, para saber isso.

Porque quem ama, sabe.

7 de janeiro de 2010

O Segredo (de Rob Gordon)

Quem lê este blog com frequência sabe que uma das dúvidas que mais me perturba na vida é: “porque é sempre comigo?”

E é verdade, não é exagero meu. Se você colocar 100 pessoas dentro de uma sala, e algo bizarro acontecer ali, acontecerá comigo, acontecerá ao meu lado, ou acontecerá por minha causa. Duvida? Leia o blog. É sempre assim.

Algumas pessoas insinuam que isso é tudo culpa minha. Normalmente, elas usam aquelas frases típicas de livrinhos de auto-ajuda, como “você atrai aquilo que você é”, ou “é por causa do seu mau humor que essas coisas acontecem com você”.

Ah, então tá. É culpa minha.

Faz de conta então que eu fico andando para cima e para baixo na Teodoro Sampaio procurando desesperadamente por bizarrices. Aliás, vou além: quando eu não tenho nada para fazer, saio de casa e fico parado numa esquina movimentada vestindo uma camiseta com a inscrição: “Loucos: estou à disposição!”.

Sinto muito, mas não engulo isso. Especialmente porque quando eu desço a Teodoro Sampaio de manhã, para vir trabalhar, estou com sono demais para desejar qualquer coisa – seja ela boa ou bizarrice – que não seja deitar num canto qualquer e dormir até o meio da tarde.

Enfim, hoje desisti de entender o porquê. Decidi que vou apenas aceitar os fatos: é sempre comigo e pronto.

Estava descendo para o trabalho e, no meio do caminho, havia uma mendiga.

Na verdade, eu não tenho certeza se ela era uma mendiga. Acredito que seja, pois estava sentada na calçada, suja e mal vestida. Por outro lado, ela tinha tantas sacolas ao seu redor que, aparentemente, possuía mais objetos que eu. Além disso, ela possuía um cavanhaque formado por migalhas de pão, o que indicava que o café da manhã dela havia sido mais nutritivo que o meu.

Centenas de pessoas andavam pela Teodoro, e a mendiga ali, sentada no meio da sua pequena fortaleza de sacolas, alheia a tudo.

No momento em que a vi, meu sentido de aranha disparou, e as palavras “vai dar merda” começaram a piscar no meu cérebro.

Respirei fundo e continuei andando. Quando me aproximei, ela levantou os olhos na minha direção e disse:

–Vaitománooiodocu, feladaputa.

Ela tinha dezenas de pessoas ao redor, prontas para serem xingadas. Mas ela escolheu a mim.

Eu apenas olhei.

– Oi?

– Vaitománooiodocu!

Olhei para cima. Respirei fundo mais uma vez. Acho que já estou me acostumando, deve ser a idade.

– Ah, ok, respondi.

– Feladaputa!

Continuei andando, como se nada estivesse acontecido. E, querem saber? Quando você desiste de tentar entender o porquê de sempre ser com você, e apenas aceita o fato de que sempre foi e sempre será somente com você, um peso sai dos seus ombros. Chega a ser libertador.

Dei de ombros e continuei andando.

Para desespero dos escritores de auto-ajuda de plantão, talvez não exista um motivo claro, mas é evidente que sempre terá que ser comigo. Sempre.

6 de janeiro de 2010

Coisas da Vida XII

Semana passada, como eu disse neste post aqui, minha mãe passou dois dias no meu apartamento. E, em um determinado momento do primeiro dia, ela soltou uma de suas frases clássicas:

– Rob, você precisa ir até o mercado comprar algumas coisas.

Eu, claro, respondi da mesma forma que faço desde os 12 anos de idade:

– Sim, preciso. Coca e chocolate. E você, vai querer algo?

– Mas tem Coca aqui. Tem uma garrafa cheia.

– Sim, mas Coca nunca é demais, mãe. A gente nunca sabe o dia de amanhã. Coca, chocolate e o que mais?

– Saco de lixo, fósforo e um maço de Free para mim.

– Ok.

– Não é melhor marcar numa listinha?

– Não. A última vez que eu fiz uma lista de compras para não esquecer nada eu esqueci a lista em casa. Ou seja, eu precisaria fazer uma lista para me lembrar das coisas, e outra lista, para me lembrar da lista. Mas não se preocupe, eu vou me lembrar.

Assim, saí de casa repetindo: “Saco de lixo, fósforo e um maço de Free. Saco de lixo, fósforo e um maço de Free”. O chocolate e a Coca, evidentemente, eu não precisava repetir, porque eu não consigo sair do Pão de Açúcar sem aquilo.

Entrei no mercado, peguei um carrinho – sim, eu uso carrinho até nos dias em que vou comprar somente a Coca e o chocolate, porque detesto carregar aquelas cestinhas – e comecei a andar pelos corredores, recitando baixinho:

– Saco de lixo, fósforo e um maço de Free. Saco de lixo, fósforo e um maço de Free.

A priori, tudo ia bem. O mercado não estava cheio. Calculei que, em uns 10 minutos, sairia dali.

Porém, logo no primeiro corredor me encontrei com ela. Ou melhor: com elas, já que ela tinha o tamanho de umas quatro pessoas.

O Sherman que me desculpe, mas não há maneira melhor de descrevê-la. Na verdade, ela não era gorda, eu sou gordo. Ela era enorme. Sem exagero. Sabe aquelas pessoas que não usam cinto, usam bambolê? Era ela. Na verdade, cheguei a ficar em dúvida se não era a mesma pessoa deste post aqui, porque ela era igualzinha ao planetóide da Paulista.

Ela estava tapando quase todo o corredor. Eu olhei com cuidado, procurando por uma passagem, e avistei um pedaço livre perto da prateleira das vassouras, à esquerda dela. Se eu me espremesse ali, talvez conseguisse passar.

Recitei “saco de lixo, fósforo e um maço de Free” baixinho, e me preparei para começar a me apertar no meio das vassouras.

Mas claro que não seria tão fácil assim. Afinal, eu sou eu.

Ela não queria apenas impedir minha passagem, ela queria conversar. Quando eu estava no meio das vassouras, afastando um rodo com a mão, ela levantou o braço (com uma velocidade espantosa para alguém do seu tamanho) e colocou um objeto na frente do meu rosto. Aliás, na frente, não. No meu rosto. Coisa de cinco centímetros de distância.

Na verdade, ela quase me agrediu com o negócio. E foi assim, quase esfregando o negócio na minha cara, que ela disse:

– O rapaz me disse que isso aqui é para usar na churrasqueira.

Foi seco assim mesmo. Não teve um “oi, dá licença?”, ou um “oi, você pode me ajudar?”. Aliás, a própria frase dela era estranha, já que não era uma pergunta. Ela não queria uma opinião ou um conselho, ela apenas atestou um fato. Foi quase um desabafo.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free.)

Ainda espremido na prateleira, olhei discretamente para cima e perguntei baixinho: “Vocês não emendaram o final do ano, certo?”. Como as únicas respostas que tive foram gargalhadas, deduzi que estavam trabalhando a todo vapor e com a equipe inteira.

Tentei colocar o que quer que fosse que ela tinha colocado a três centímetros do meu rosto em foco, mas consegui apenas ficar vesgo. Assim, dei um passo para o lado e olhei calmamente.

Era um objeto feito com uma espécie de esponja com fios de metal, e uma lâmina, obviamente feita para raspar a gordura, em uma das pontas. Era evidente que aquilo deveria ser usado para limpar a churrasqueira. Eu, ao menos, não via outra utilidade para aquilo. E definitivamente não parecia algo de comer.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

O problema é que eu ainda não sabia como responder a ela, já que a frase dela não abria espaço para resposta nenhuma. Claro que eu poderia apenas sorri, concordar e sair andando no meio das vassouras, mas ela, assim como a frase, não abria espaço para nada, ocupando o corredor inteiro.

Assim, não tive alternativas e precisei estabelecer contato.

– Sei.

Confesso que não foi nada muito brilhante. Mas convenhamos: eu não tinha muito que dizer ali. Contudo, ela não estava disposta a me deixar ir embora assim tão fácil. Assim, ela apenas ignorou o que eu havia dito, ignorou o fato de que eu estava prensado no meio das vassouras, e começou a examinar o objeto com mais cuidado, rodando-o nas mãos.

(Saco de lixo e um maço de Free. Tinha algo mais...)

Com o olhar vidrado de um especialista que se depara com o maior enigma de sua carreira – e sem olhar para mim –, continuou:

– Será que é mesmo para usar na churrasqueira?

Com isso, havíamos dado um passo atrás. Todo o nosso relacionamento, até então, estava sendo construído sobre o fato de que aquele objeto era usado em churrasqueiras, e agora ela simplesmente não tinha mais certeza disto. Por outro lado, desta vez ela havia feito uma pergunta, o que tornava as coisas (um pouco) mais fáceis.

– Olhe... Se o rapaz disse que é para usar na churrasqueira...

– Ele disse. E eu peguei isso ali na parte de churrasco.

– Olhe... Se o rapaz disse que é para usar na churrasqueira, e se você pegou na parte de churrasco...

A conclusão do meu pensamento pode ser óbvia para mim e para você, mas não para ela. Se a conclusão estivesse pulado para fora da minha boca vestindo uma camiseta verde limão e começado a pular no corredor gritando “Olhe para mim! Olhe para mim!” não teria adiantado nada.

Ela olhou para mim, esperando eu terminar a frase.

–O que você acha?, ela perguntou.

(Saco de lixo, um maço de Free... Eram três coisas, tenho certeza.)

– Se o rapaz disse que é para usar na churrasqueira, e se você pegou na parte de churrasco, acredito que é para usar na churrasqueira, sim.

– Será?

– As chances disso parecem ser boas.

Pronto. Agora ela sabia onde usar o artefato. O próximo passo era descobrir como usá-lo.

Esfregou os fios de metal nas costas da mão e, fazendo uma careta de dor, concluiu em voz alta:

– Deve ser para limpar a churrasqueira.

(Saco de lixo e um maço de Free. Saco de lixo e um maço de Free. Saco de lixo e um maço de Free. Eram três coisas, tenho certeza.)

– Sim. Provavelmente.

Ao ouvir minha voz, ela levantou os olhos para mim, um pouco surpresa por eu estar ali. Percebi que o cérebro dela era incapaz de efetuar duas tarefas ao mesmo tempo. A cada vez que ela olhava o objeto, se esquecia completamente de que era responsável por manter aquele baixinho careca aprisionado no meio das vassouras. Por outro lado, a cada vez que ela percebia que eu estava ali, o cérebro dela devia cochichar para ela que “esse carequinha aí talvez possa nos ajudar, vamos falar com ele”.

– Você acha que deve ser para limpar a churrasqueira?

– Sim, acho.

(Fósforo! Era fósforo! Saco de lixo, fósforo e um maço de Free!)

Ela esfregou o negócio na mão, novamente.

– Deve ser para limpar a chapa.

Chapa? Que chapa? Churrasqueira não tem chapa. Tive o impulso de perguntar a ela se ela tinha uma churrasqueira ou uma padaria, mas me segurei e tentei ser mais objetivo.

– A grelha, você diz.

– Não. A chapa! Onde assa as carne.

Assim mesmo. “As carne”.

Desisti. Como diria Chico Buarque, “corre e diz a ela que eu entrego os pontos”. Afastei uma vassoura de pelos do meu ombro e concordei.

– Sim, sim. A chapa. Onde faz as carne. É para limpar a chapa. Isso mesmo.

– Ah, então eu vou levar.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

Falou isso e ficou olhando para mim, esperando por alguma coisa. Eu fiquei olhando para ela. Ela ficou olhando para mim. Eu fiquei olhando para ela. Ela ficou olhando para mim.

Pensei em ativar o Hal 9000 mode: on e soltar um “Dave, this conversation can serve no purpose anymore. Goodbye” (e com a voz do Hal, que, modéstia à parte, eu imito bem), mas achei que seria complexo demais para a ocasião.

E claro que eu poderia apenas soltar um “olhe, eu não trabalho aqui, eu não posso cobrar por esse produto, você tem que ir direto ao caixa”, mas achei que soaria grosso demais. Afinal, como eu ainda estava prensado no meio das vassouras, sem espaço para fugir, não parecia uma boa idéia. Assim, segui um caminho mais diplomático:

– Hã... Ok. Boa sorte.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

Como num passe de mágica, ela pareceu satisfeita. Atirou a coisa no carrinho dentro do carrinho e saiu andando pelo mercado. Eu fiquei em pé no corredor, colocando minhas costas no lugar enquanto ela ia embora.

Ainda estalando a coluna e voltando a repetir “saco de lixo, fósforo e um maço de Free”, notei que ela parou a uns cinco metros de mim, e começou a analisar atentamente um frasco de desinfetante. Alguma dúvida pipocou na sua mente (“será que isso é usado para limpeza ou para beber?”, ou algo assim).

Assim, ela olhou para os lados, procurando por alguém que pudesse ajudá-la. Mas não deu sorte, o corredor estava vazio. Pois o baixinho careca, ao ver isso, saiu em disparada para o corredor de frutas e verduras, procurando um lugar seguro para poder colocar suas costas no lugar.

(Saco de lixo, fósforo e um maço de Free)

3 de janeiro de 2010

Esqueletos no Armário

Semana passada, uns dias antes do Ano Novo, o telefone tocou aqui em casa.

– Rob?

– Oi, mãe.

– Tudo bom?

– Sim, e você?

– Sim. Amanhã eu vou dormir na sua casa.

– Hã... Nós estamos namorando?

– Não. Nós vamos arrumar os armários do seu apartamento.

Gelei.

De todas as memórias da minha infância, essa é uma das mais doloridas.

Todo final de ano, minha mãe era possuída pelo espírito arrumador dos armários. Ficava com compulsão de tirar todos os papéis de todos os cantos dos guarda roupas e das escrivaninhas. O termo era esse mesmo: compulsão. Ela não falava em outra coisa, e se a arrumação demorasse a começar, ela entrava numa espécie de transe, tremendo e ameaçando as pessoas de morte.

Assim, a família inteira se unia em torno desse acontecimento e, como boa família, fazia o que era preciso: fugia. Meu pai ia jogar na loteria e voltava oito horas depois; meu irmão dizia que precisava resolver algo na faculdade e se enfiava no cinema a tarde inteira; e eu ia para a rua “jogar bola” e desaparecia.

Com o tempo, ela ficou cada vez mais esperta com a gente, tentando impedir nossas fugas.

Havia dias em que eu acordava cedo, justamente para ir para a rua antes que ela se lembrasse de mim ou dos armários, mas, assim que eu abria os olhos, via a inscrição “nós vamos arrumar os armários HOJE!!!!” rabiscada na parede do meu quarto com o sangue de algum animal. Era um sinal claro de que, se eu fugisse naquele dia, pagaria com minha vida, no momento em que colocasse os pés dentro de casa.

Assim, eu apenas aceitava meu destino. Colocava uma roupa e descia até a cozinha, onde ela já estava preparando o almoço e batia continência.

– Oi. Vamos começar com essa merda logo.

– Vai ser bom, você vai ver. Tem muita coisa naqueles armários.

– É óbvio que tem muita coisa nos armários. Eles estão ali para isso.

– Mas não cabe mais nada ali.

– Sim, mas eu estou de férias. Eu não preciso colocar nada ali hoje. Logo, o problema não é um problema.

A grande vantagem de você ser enrolador é que, em determinados momentos, você tem a capacidade de transformar um diálogo numa operação matemática que tende ao infinito. Meu plano – um ato desesperado, admito – era estender essa conversa por cerca de seis ou oito horas, até que começasse a escurecer, e a arrumação ficasse para o dia seguinte.

O problema é que toda mãe tem uma espécie de campo de força que a protege disso. Assim, quando ela percebia o que estava acontecendo, parava de mexer no arroz, olhava para mim e dizia apenas:

– Nós vamos arrumar os armários hoje.

E, claro, usando aquele tom de voz que não abre margem à discussão. Minutos depois, estávamos no meu quarto: ela tirando coisas alucinadamente do armário, e eu sentado na cama, pensando (mas sem demonstrar, claro) em como poderia caber tanta coisa ali dentro.

E assim o processo começava: ela colocava montanhas de papéis na minha frente, e dava o comando:

– Separe o que é lixo.

– Nada daí é lixo, eu mentia, olhando para provas e trabalhos de escola de anos atrás que, sabe-se lá como, haviam escapado impunes das arrumações anteriores (provavelmente, escondidos no maleiro, no melhor estilo Anne Frank).

– Aí tem provas suas do colegial. E você está no terceiro ano de faculdade.

– Sim, mas não é lixo. Esta prova, por exemplo. Foi a única vez no colegial inteiro que eu tirei sete em matemática. Eu gosto dela, é um dos maiores momentos da minha vida.

– Bom, e esta aqui, de química, que você tirou um?

– É, esse é um dos meus maiores fracassos. Eu guardo esta prova para me lembrar todo dia de que não sou perfeito. Eu uso isso como ferramenta de formação do meu caráter.

– As duas vão para o lixo.

– Vem cá, você quer tirar provas da casa? Eu tenho uma idéia. Meu irmão é professor. No quarto dele tem toneladas de provas e trabalhos, de centenas de alunos. Ou seja, o grande foco do problema é lá e não aqui. O que você acha de atrairmos o meu irmão para o quarto dele, e o obrigarmos a limpar aquilo? Eu ajudo você.

Meu plano, na verdade, era jogar as minhas provas dentro do quarto do meu irmão, enquanto ela estivesse distraída, e deixar que ele se virasse com aquilo.

Na melhor das hipóteses, daria certo e ele teria que lidar com meus papéis por conta própria. Na pior das hipóteses, ele encontraria minhas provas ali, falaria que coloquei aquilo escondido no quarto dele de sacanagem. Eu, por outro lado, o acusaria de mexer nas minhas coisas sem autorização. Isso levaria ao início de uma CPI em casa, o que me salvaria de arrumar os armários por mais uns dias.

– Depois eu vejo o quarto do seu irmão. Agora, estamos cuidando do seu.

– Como você consegue usar sempre esse tom de voz? Não tem um limite de vezes que você pode fazer isso por dia?

– Do que você está falando?

– Nada. Passe essas merdas de papéis para cá.

Resignado, eu sentava na cama e começava a separar os papéis. Na verdade, eu nem ia olhando direito, queria só acabar logo com aquilo. O problema é que eu sou muito apegado às minhas coisas. Então, se eu olhasse com calma, não tinha coragem de jogar papel nenhum fora.

Assim, quando eu terminava, tinha duas pilhas na minha frente: uma com 986 papéis, outra com dois: um panfleto de uma imobiliária e a capa rasgada de uma revista da TV a cabo.

– A menor é o lixo.

– Você está louco? Dois papéis? E os outros?

– Os outros voltam para o armário.

– Você tem cinco minutos para transformar a pilha que vai para o lixo na maior das duas.

Aí eu esperava ela virar as costas, pegava o panfleto da imobiliária e a capa rasgada da revista e colocava na pilha maior.

– Pronto. É tudo lixo.

– Ótimo. Agora, vamos ver sua escrivaninha.

– Não, a escrivaninha, não. Por favor.

– Ela está parecendo um ninho de rato.

– Ela é um ninho de rato. Eu crio três ratazanas no meio dos papéis, e elas não gostam de ser incomodadas. E atacam as pessoas. Uma vez chegaram a me morder quando eu tentei limpar um pouco aquele canto. Vamos deixar a escrivaninha para o ano que vem, é melhor.

– Rob?

– Oi, mãe.

– Escrivaninha. Agora.

E começava tudo de novo. Tira papéis, esvazia gavetas.

O problema era quando eu tinha uns quinze anos e, ao esvaziar as gavetas, caía uma camisinha nos meus pés. Eu, obviamente, nunca tinha usado uma – não sou tão precoce assim – mas o fato de ter uma camisinha no quarto fazia eu me sentir mais homem, algo como “eu sou homem e posso transar a qualquer minuto, com qualquer mulher, a despeito de eu passar o dia inteiro jogando bola com trombadinhas na rua e a noite inteira jogando videogame”.

Rapidamente, eu pisava em cima da camisinha e não tirava mais o pé dali, até ter uma chance de pegar aquilo e colocar no bolso.

E as horas iam passando. Confesso que, conforme as pilhas de papéis iam diminuindo, eu começava a descobrir coisas que nem lembrava mais, a respeito do meu quarto.

– Mãe, a gente sempre teve uma parede aqui?

– Sempre.

– Ah.

Mas era no final do dia que chegava a pior parte.

– Agora nós vamos mexer nas suas revistinhas.

– Jamais!

– Aquilo está um inferno.

– Não vamos chegar ali perto! Ninguém pode mexer, a não ser eu! E outra coisa, o nome não é “Revistinhas”, é “Histórias em Quadrinhos”! Mostre um pouco de respeito!

– Rob...

Aí eu pegava o saco de lixo com as toneladas de papéis e o levantava.

– Mãe, se você chegar perto dos meus Homem-Aranha, eu vou espalhar o conteúdo desse saco pela casa inteira. Eu não estou blefando. Então, saia de perto do armário e venha calmamente na minha direção. E mantenha suas mãos onde eu possa vê-las.

– Rob...

– Eu já fiz o que você queria. O quarto está limpo. Não vamos mexer nos quadrinhos. É sério.

– Você faz idéia do pó que está lá dentro?

– Não tem importância, minhas revistas são embaladas em plástico justamente como prevenção a isso. Ninguém mexe lá.

Aí ela olhava o saco de lixo com toneladas de papéis e a dor da derrota diminuía. Saía do quarto arrastando o saco de lixo , enquanto meu irmão e meu pai tentavam fugir do radar dela.

Eu? Eu esperava ela sumir da minha vista e abria a porta do meu armário onde estavam meus quadrinhos e ficava fazendo cafuné neles, falando baixinho “calma, calma, já passou, ela foi embora”.

E, para meu consolo, minutos depois eu via meu irmão entrando no quarto dele, com os braços para o alto, e minha mãe atrás, apertando um fuzil nas costas dele. Logo, ele estava no quarto soterrado em pilhas de papéis e brigando com ela que nada daquilo era lixo, e ela respondendo que “não importa, dá um jeito”.

Eu, como bom irmão, tentava dar um pouco de apoio moral. Mas ao meu modo, claro.

Passava na porta do quarto dele, soltava um “chupa” baixinho e ia para a rua jogar bola. Às vezes, no caminho, encontrava meu pai, escondido num canto do quintal. Ela sabia que, por exclusão, era o próximo.

Todo ano era a mesma coisa. Todo ano.

Ah, este ano agora? Bem... Se ela conseguia transformar minha vida num inferno apenas usando uma escrivaninha e um guarda-roupas, imagine o que ela não fez tendo um apartamento inteiro à disposição?

Mas desta vez fui mais esperto e coloquei todas as camisinhas junto com os quadrinhos, onde ela ainda sabe que é local proibido.

Afinal, posso ter 34 anos de idade, mas ela continua sendo minha mãe.

Meus armários que o digam.