Ensaio sobre a Cegueira
Muito tem se falado sobre o fim da blogosfera. Os blogs darão lugar a algo novo e, aos poucos, sumirão do mapa da internet. Sobrarão apenas uns poucos, assinados por corajosos que ficaram presos ao passado.
Na verdade, essa teoria existe desde que os blogs entraram em moda, alguns anos atrás. Espera-se que os blogs tenham seu auge e declínio, como aconteceu com o Orkut. O portal de relacionamentos cresceu mais do que deveria e hoje é relegado a segundo plano. Aliás, sua decadência ganhou até nome: orkutização. A grosso (e educado) modo, retrata a invasão do site por pessoas que não têm o que dizer – e tampouco sabem como dizer.
Antes de continuarmos, vale falar sobre isso. A inclusão digital, que permite o acesso a internet às pessoas menos favorecidas, foi eleita a grande culpada disso. Discordo. A internet, por definição, é democrática. Não pode ser transformada num Rotary Club, com sócios que sabem a diferença entre sujeito e predicado. A inclusão digital é necessária para o desenvolvimento do povo.
O buraco é mais embaixo. A inclusão digital é conseqüência de um problema maior. A falta de instrução do brasileiro é histórica. Estamos falando de um povo cuja grande maioria não consegue se expressar usando seu idioma natal. Assim, o problema é cultural, não tecnológico. Ou você acha que a nossa inclusão digital é igual à inclusão digital da Suécia?
Não podemos impedir que uma pessoa sem instrução compre um PC e acesse a internet. Ela tem esse direito. Aliás, devemos incentivá-la a usar a internet para adquirir conhecimento. O problema é que nós não ensinamos isso a ela, como também não nos preocupamos muito. Na verdade, tapamos o Sol com a peneira. Corremos para outra ferramenta, mais fechada, mais restrita e mais “culta”, e mantemos a divisão de castas. Quando esse novo site se populariza, repetimos o processo.
Enfim, voltando aos blogs. Acho curioso como se anuncia o final dos blogs faz tempo, mas ela nunca acontece. Num jargão futebolístico, os blogs viraram “a equipe a ser batida”. Toda vez que uma novidade surge na internet, os gurus da mídia a elegem como “a substituta dos blogs”. O assunto ganha capas de revistas especializadas e depois escapa para a grande mídia. Tem seu auge e seu declínio.
E os blogs permanecem ali.
A novidade da vez é o Twitter. O microblog virou mania na internet, ganhou a capa da Época semanas atrás. A cada dia, mais pessoas começam a usá-lo. Mas basta olhar para o próprio Twitter e ver como sua fórmula já não funciona mais. Ao menos, não da forma que deveria.
Isso porque o Twitter é o caminho mais rápido para você se tornar uma celebridade virtual. Ali, você fala algo e é reconhecido instantaneamente. Essa velocidade de resposta do Twitter é a sua grande qualidade. Mas isso, claro, pensando em curto prazo.
Em médio prazo, este é justamente seu grande defeito. E isso já está ficando óbvio.
Celebridades decadentes enxergaram no Twitter a ferramenta ideal para fazer sua popularidade crescer. Assim, criam perfis e são seguidos por milhares de pessoas. E, convenhamos, algumas das nossas celebridades tem tanto a dizer quanto os beneficiados pela suposta inclusão digital. E algumas delas escrevem tão mal quanto a turma da “inclusão digital”.
A diferença é que agora os erros vêm da parte “superior” da sociedade, e não da inferior. E é aí que a fama entra em campo mesmo. O erro das celebridades é visto por milhares de pessoas. Vira piada. E o sujeito reage de uma forma que deixa claro que queria estar perto do público, mas não queria o público muito perto dele.
Mas isso é apenas a ponta do iceberg. O problema real é que o Twitter estimula as pessoas comuns a se tornarem a celebridade virtual da vez. O conteúdo foi colocado de lado, em nome da corrida pela fama.
Para os blogs, isso é ótimo. O blogueiro que queria apenas fama, sem agregar conteúdo, migrou para o Twitter. Amém.
Mas surgem pessoas como a @twittess. Ganhou dezenas de milhares de seguidores usando scripts. Virou celebridade e passou a cobrar pelas mensagens. Deixou de ser uma pessoa e se (auto) intitulou um veículo de comunicação.
Foi acusada de mercenária. Foi xingada de todos os nomes possíveis. Tornou-se a piada do Twitter. E apenas porque ela teve a coragem de fazer o que muita gente gostaria de ter feito. Ela teve a coragem de assumir que estava lá para ficar famosa. E foi crucificada.
Em tempo: o problema, a meu ver, não é ela cobrar pelas mensagens. O problema é ela cobrar pelas mensagens quando não tem o que dizer. Ela é famosa porque se tornou famosa. Existem milhares de Twittess no Twitter. A diferença é que ela “deu certo”.
Eu? Eu teria mal notado a existência da Twittess. Mas alguns dos seus comentários sobre os ataques que sofre me chamaram a atenção.
De acordo com ela, os ataques são por inveja, e não porque sua fama é vazia, conseguida com scripts. E vai além, dando nome aos bois. A inveja é dos blogueiros. Segundo ela, o futuro é o Twitter. Os blogs estão morrendo, são dinossauros (esta entrevista é antiga, mas tem trechos que ilustram bem isso).
Graças ao script, criou-se a ilusão de que a Twittess é uma formadora de opinião. E parece que ela mesma acredita nisso. Twittess é a nova guru digital.
Twittess, desculpe derrubar seu castelinho de cartas, mas os blogs não vão acabar. Eles e o Twitter são formas diferentes de comunicação e convivem muito bem. Sim, eu tenho menos comentários no blog desde que o Twitter explodiu. Por outro lado, eu tenho leitores novos no meu blog justamente por causa do Twitter.
E, se um dos dois entrar em decadência, aposto que será o Twitter. Porque ele está na moda. E, assim como o Orkut, quanto mais o Twitter enche, mais ele se esvazia. E isso não é algo acontece na blogosfera. Um blog ruim não dura um mês.
E aí, quando o Twitter acabar, sofrer a tal da orkutização (que está começando), todos migraremos para outra ferramenta. E os blogs continuarão ali. O “time a ser batido” vai continuar sendo o “time a ser batido”. Na verdade, os blogs sempre vão continuar existindo, pois sua matéria-prima é conteúdo. E conteúdo é algo que se adapta às novas tendências.
Quer a prova? Todas as frases desse texto foram formatadas para o Twitter. Possuem, no máximo, 140 caracteres. Qualquer blogueiro consegue fazer isso.
Agora, e se a próxima tendência exigir um pouco mais de conteúdo que 140 caracteres? Celebridades exclusivas do Twitter dificilmente vão conseguir se adaptar. Talvez consigam, mas acho difícil. Afinal, colocar uma idéia em 140 toques não é difícil. Já escrever, sim. Porque, para se adaptar, é preciso conteúdo. E você não consegue conteúdo em número de seguidores. Você tem conteúdo ou não.
Então, Twittess, em nome de todos os blogueiros, um conselho: adapte-se. Ou aproveite seus quinze minutos de fama. Porque eles não serão muito maiores que isso.
Sim, você tem o direito de expor sua opinião. E da mesma forma que o pessoal das classes C e D faz, hoje, no Orkut. A diferença é que eles, assim, se sentem parte da sociedade digital. Você, por outro lado, parece estar interessada apenas em ser celebridade. E nada mais.
O Twitter não é o futuro. Ele é uma ferramenta interessante, divertida. Mas jamais ocupará o lugar dos blogs. Porque seja qual for este futuro, os blogs sempre estarão aqui. Isso é algo que está mais que provado.
E, se você não consegue enxergar isso, sinto muito. Não tente provar que os outros estão cegos, quando quem se recusa a ver é você.
Update: Como a leitora Marina alertou nos comentários, a Twittess criou um blog. Isto não seria uma involução, já que blogueiros são dinossauros e o futuro está no Twitter? Enfim, lhe desejo toda a sorte do mundo, e um conteúdo que privilegie mais idéias que emoticons e RTs.






