30 de agosto de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Muito tem se falado sobre o fim da blogosfera. Os blogs darão lugar a algo novo e, aos poucos, sumirão do mapa da internet. Sobrarão apenas uns poucos, assinados por corajosos que ficaram presos ao passado.

Na verdade, essa teoria existe desde que os blogs entraram em moda, alguns anos atrás. Espera-se que os blogs tenham seu auge e declínio, como aconteceu com o Orkut. O portal de relacionamentos cresceu mais do que deveria e hoje é relegado a segundo plano. Aliás, sua decadência ganhou até nome: orkutização. A grosso (e educado) modo, retrata a invasão do site por pessoas que não têm o que dizer – e tampouco sabem como dizer.

Antes de continuarmos, vale falar sobre isso. A inclusão digital, que permite o acesso a internet às pessoas menos favorecidas, foi eleita a grande culpada disso. Discordo. A internet, por definição, é democrática. Não pode ser transformada num Rotary Club, com sócios que sabem a diferença entre sujeito e predicado. A inclusão digital é necessária para o desenvolvimento do povo.

O buraco é mais embaixo. A inclusão digital é conseqüência de um problema maior. A falta de instrução do brasileiro é histórica. Estamos falando de um povo cuja grande maioria não consegue se expressar usando seu idioma natal. Assim, o problema é cultural, não tecnológico. Ou você acha que a nossa inclusão digital é igual à inclusão digital da Suécia?

Não podemos impedir que uma pessoa sem instrução compre um PC e acesse a internet. Ela tem esse direito. Aliás, devemos incentivá-la a usar a internet para adquirir conhecimento. O problema é que nós não ensinamos isso a ela, como também não nos preocupamos muito. Na verdade, tapamos o Sol com a peneira. Corremos para outra ferramenta, mais fechada, mais restrita e mais “culta”, e mantemos a divisão de castas. Quando esse novo site se populariza, repetimos o processo.

Enfim, voltando aos blogs. Acho curioso como se anuncia o final dos blogs faz tempo, mas ela nunca acontece. Num jargão futebolístico, os blogs viraram “a equipe a ser batida”. Toda vez que uma novidade surge na internet, os gurus da mídia a elegem como “a substituta dos blogs”. O assunto ganha capas de revistas especializadas e depois escapa para a grande mídia. Tem seu auge e seu declínio.

E os blogs permanecem ali.

A novidade da vez é o Twitter. O microblog virou mania na internet, ganhou a capa da Época semanas atrás. A cada dia, mais pessoas começam a usá-lo. Mas basta olhar para o próprio Twitter e ver como sua fórmula já não funciona mais. Ao menos, não da forma que deveria.

Isso porque o Twitter é o caminho mais rápido para você se tornar uma celebridade virtual. Ali, você fala algo e é reconhecido instantaneamente. Essa velocidade de resposta do Twitter é a sua grande qualidade. Mas isso, claro, pensando em curto prazo.

Em médio prazo, este é justamente seu grande defeito. E isso já está ficando óbvio.

Celebridades decadentes enxergaram no Twitter a ferramenta ideal para fazer sua popularidade crescer. Assim, criam perfis e são seguidos por milhares de pessoas. E, convenhamos, algumas das nossas celebridades tem tanto a dizer quanto os beneficiados pela suposta inclusão digital. E algumas delas escrevem tão mal quanto a turma da “inclusão digital”.

A diferença é que agora os erros vêm da parte “superior” da sociedade, e não da inferior. E é aí que a fama entra em campo mesmo. O erro das celebridades é visto por milhares de pessoas. Vira piada. E o sujeito reage de uma forma que deixa claro que queria estar perto do público, mas não queria o público muito perto dele.

Mas isso é apenas a ponta do iceberg. O problema real é que o Twitter estimula as pessoas comuns a se tornarem a celebridade virtual da vez. O conteúdo foi colocado de lado, em nome da corrida pela fama.

Para os blogs, isso é ótimo. O blogueiro que queria apenas fama, sem agregar conteúdo, migrou para o Twitter. Amém.

Mas surgem pessoas como a @twittess. Ganhou dezenas de milhares de seguidores usando scripts. Virou celebridade e passou a cobrar pelas mensagens. Deixou de ser uma pessoa e se (auto) intitulou um veículo de comunicação.

Foi acusada de mercenária. Foi xingada de todos os nomes possíveis. Tornou-se a piada do Twitter. E apenas porque ela teve a coragem de fazer o que muita gente gostaria de ter feito. Ela teve a coragem de assumir que estava lá para ficar famosa. E foi crucificada.

Em tempo: o problema, a meu ver, não é ela cobrar pelas mensagens. O problema é ela cobrar pelas mensagens quando não tem o que dizer. Ela é famosa porque se tornou famosa. Existem milhares de Twittess no Twitter. A diferença é que ela “deu certo”.

Eu? Eu teria mal notado a existência da Twittess. Mas alguns dos seus comentários sobre os ataques que sofre me chamaram a atenção.

De acordo com ela, os ataques são por inveja, e não porque sua fama é vazia, conseguida com scripts. E vai além, dando nome aos bois. A inveja é dos blogueiros. Segundo ela, o futuro é o Twitter. Os blogs estão morrendo, são dinossauros (esta entrevista é antiga, mas tem trechos que ilustram bem isso).

Graças ao script, criou-se a ilusão de que a Twittess é uma formadora de opinião. E parece que ela mesma acredita nisso. Twittess é a nova guru digital.

Twittess, desculpe derrubar seu castelinho de cartas, mas os blogs não vão acabar. Eles e o Twitter são formas diferentes de comunicação e convivem muito bem. Sim, eu tenho menos comentários no blog desde que o Twitter explodiu. Por outro lado, eu tenho leitores novos no meu blog justamente por causa do Twitter.

E, se um dos dois entrar em decadência, aposto que será o Twitter. Porque ele está na moda. E, assim como o Orkut, quanto mais o Twitter enche, mais ele se esvazia. E isso não é algo acontece na blogosfera. Um blog ruim não dura um mês.

E aí, quando o Twitter acabar, sofrer a tal da orkutização (que está começando), todos migraremos para outra ferramenta. E os blogs continuarão ali. O “time a ser batido” vai continuar sendo o “time a ser batido”. Na verdade, os blogs sempre vão continuar existindo, pois sua matéria-prima é conteúdo. E conteúdo é algo que se adapta às novas tendências.

Quer a prova? Todas as frases desse texto foram formatadas para o Twitter. Possuem, no máximo, 140 caracteres. Qualquer blogueiro consegue fazer isso.

Agora, e se a próxima tendência exigir um pouco mais de conteúdo que 140 caracteres? Celebridades exclusivas do Twitter dificilmente vão conseguir se adaptar. Talvez consigam, mas acho difícil. Afinal, colocar uma idéia em 140 toques não é difícil. Já escrever, sim. Porque, para se adaptar, é preciso conteúdo. E você não consegue conteúdo em número de seguidores. Você tem conteúdo ou não.

Então, Twittess, em nome de todos os blogueiros, um conselho: adapte-se. Ou aproveite seus quinze minutos de fama. Porque eles não serão muito maiores que isso.

Sim, você tem o direito de expor sua opinião. E da mesma forma que o pessoal das classes C e D faz, hoje, no Orkut. A diferença é que eles, assim, se sentem parte da sociedade digital. Você, por outro lado, parece estar interessada apenas em ser celebridade. E nada mais.

O Twitter não é o futuro. Ele é uma ferramenta interessante, divertida. Mas jamais ocupará o lugar dos blogs. Porque seja qual for este futuro, os blogs sempre estarão aqui. Isso é algo que está mais que provado.

E, se você não consegue enxergar isso, sinto muito. Não tente provar que os outros estão cegos, quando quem se recusa a ver é você.


Update: Como a leitora Marina alertou nos comentários, a Twittess criou um blog. Isto não seria uma involução, já que blogueiros são dinossauros e o futuro está no Twitter? Enfim, lhe desejo toda a sorte do mundo, e um conteúdo que privilegie mais idéias que emoticons e RTs.

28 de agosto de 2009

Coisas da Vida - X

(leia o post anterior dessa série aqui)

Quem já foi ao McDonald’s ali da Henrique Schaumann com a Rebouças sabe que ele tem uma densidade demográfica superior a de alguns bairros. Especialmente de madrugada. Mesmo assim, vira e mexe eu me enfio lá dentro depois da meia-noite, muito provavelmente porque ele é perto de casa.

Sábado passado fui ali com um amigo e, obviamente, estava lotado. Fomos para a última fila – a mais vazia, ou melhor, a menos cheia – e esperamos nossa vez. Eis que surge uma daquelas funcionárias que andam pelas filas anotando o pedido das pessoas e pergunta o que iríamos comer. Respondemos, ela anotou e entregou o papelzinho, tudo como manda o figurino.

Minutos depois, chegamos ao caixa. Entrego o papel com os pedidos para a menina do caixa e me preparo para tirar a carteira do bolso, quando ela me devolve o papel:

– Você pode ler o que está escrito aí?

– É o meu pedido.

– Sim, é que eu sou nova aqui, ainda não sei ler isso.

– Então, mas eu também não sei.

– É que eu sou nova aqui.

– Mas eu não trabalho aqui. Mesmo sendo nova, você ainda tem mais experiência que eu.

– É, mas eu não sei ler isso. Não fui treinada nessa parte, ainda.

– Ok, ok.

– Então, por favor, leia o que está no papel e eu vou registrando aqui.

– Não é mais fácil ao invés de ler esse negócio, eu simplesmente falar meu pedido?

– Não, porque o seu pedido está nesse papel aqui.

– Mas não é a mesma coisa?

– Não, não. O seu pedido está aqui.

Suspiro.

Como diria Humphrey Bogart em Casablanca: "em todos os McDonald's, em todas as cidades do mundo, essa menina tinha que estar no meu".

Ô fase.

26 de agosto de 2009

Rob Gordon X Falta de Concentração

Tem dias que é assim.

Mas, tem dias que eu simplesmente não funciono direito.

– Rob?

– Sim?

– Você já falou com aquele colaborador novo da revista?

– Liguei para ele e ele ficou de me ligar de volta.

– Quando ele ligar, pergunte a ele o que ele acharia de fazer mais três páginas de texto.

– Ok.

– Porque eu estava pensando o seguinte. A pauta da revista...

Bom, amanhã eu devo tomar um café com esse colaborador, ele só vai me ligar para confirmar isso. Putz, mas amanhã é dia de feijoada, e eu sempre almoço mais tarde. Será que consigo jogar esse café para o final da tarde? Seria ideal. Mas se bem que todo dia tem chovido no final da tarde. Será que vai chover hoje também? Só faltava essa. Queria sair cedo daqui e ir jantar fora, mas se chover, vou ter que ir para casa mesmo. Se eu for para casa, devo chegar lá umas 9 da noite, e o que vou fazer até a hora de dormir? Ver filme? Não sei, não consigo me lembrar de nada que eu esteja com vontade de assistir. Espera, ele ainda está falando. Melhor prestar atenção.

– ... aí fechamos com essas três páginas. O que você acha?

– Acho ótimo.

– Porque aí o outro colaborador...

Ah, já sei, vou assistir Uma Família da Pesada. Dá para assistir pelo menos uns três episódios antes de dormir. Não, depois eu penso nisso. Preciso prestar atenção, parece ser importante.

– ... e ele pode entregar o texto até sexta que vem.

– Perfeito.

Pronto, essa parte do texto na sexta que vem eu consegui pegar. Já é um começo. Agora, só preciso descobrir de qual colaborador estamos falando. Espera, eu tinha algo para fazer na sexta-feira. O que era mesmo? Jantar com alguém? Não consigo me lembrar... Aliás, o que eu vou comer hoje? Lasanha? Aí eu teria que passar no mercado. Eu precisava comprar algo no mercado, o que era? Será que era Pinho Sol? Acho que sim. Mas, se for Pinho Sol, tenho que comprar alguma outra bebida, porque as pessoas sempre me olham como se eu fosse um demente quando estou carregando lasanha e Pinho Sol no mercado. Será que eles acham realmente que eu vou jantar isso? Aliás, eu sempre achei graça nisso. Eu já escrevi isso no blog? Aliás, não chequei os comentários do blog hoje, será que tem coisa...

– E o texto sobre os lançamentos em DVD?

Espere, isso é importante. Esse texto sou eu quem vai fazer. Quer dizer, acho. Se for o texto que eu estou pensando.

– Devo entregar tudo no começo da semana que vem.

– Então, estamos dentro do prazo.

Ah, era o meu texto mesmo. Acertei.

– Sim.

– Mas a grande sacada com esse colaborador é conseguir...

Ou seja, vou ter que trabalhar no final de semana para terminar isso. Bom, paciência. Aí, aproveito e escrevo no Chronicles, estou com vontade de escrever ali. O problema é o assunto. Será que aquele casal brigando na rua vira post? Ah, lembrei! Sexta-feira eu preciso pagar o condomínio. Preciso anotar isso em algum lugar. Ou será que era outra coisa? Merda, eu pensei nisso vindo para cá de manhã, e agora não consigo lembrar o que era. Pense. Você estava em frente aquela loja de CDs vagabunda quando pensou nisso. Cumprimentou o vendedor, que te conhece de vista. O que você estava pensando? Hum... Será que aquela loja tem umas coletâneas de blues baratas? Nunca procurei blues ali, preciso dar uma passada...

– Beleza?

– Beleza, fique tranquilo que eu cuido disso.

Ah, já sei, vou ver algo do Clint hoje, com certeza! Já vou ter que trabalhar no fim-de-semana mesmo, então vou dormir um pouco mais tarde hoje.

– Ok. Qualquer coisa me avise aqui.

Três Homens em Conflito? Dirty Harry?

– Ok.

25 de agosto de 2009

Sugestão Obrigatória #3 - Pequeno Inventário de Impropriedades



O nome do blog dele é difícil. Não é tão difícil quanto Championship Vinyl, mas é difícil - ao menos, para mim. Eu demorei uns meses para decorar que o correto é Pequeno Inventário de Impropriedades – porque meu cérebro cismava que era Pequeno Dicionário de Impropriedades. Não que o erro faça diferença, pois, independente do nome, estamos falando de um dos melhores blogs em língua portuguesa.

Criado pelo catarinense Max Reinert em 2007, o Pequeno Inventário de Impropriedades é um blog de fazer inveja. Não apenas pela qualidade impressionante dos textos, mas porque ele é o único blog realmente multimídia que eu conheço. Além de ser um dos primeiros a colocar uma sugestão musical para cada post (algo extremamente difícil de fazer) ele ainda brinca com o visual dos posts, inserindo imagens em lugares fora do comum, inovando no alinhamento do texto. E nada ali é gratuito: tudo funciona para fazer com que cada post seja mais que um texto, mas sim uma verdadeira experiência aos leitores.

Assim, o Pequeno Inventário de Impropriedades realmente justifica o título de sugestão obrigatória. E, de quebra, está participando do concurso Blog Books, correndo o risco de virar livro, na categoria Mundo Masculino (não votou ainda?). Mas, se ele ganhar, azar de quem for publicar o livro. Porque, transformar um blog em livro é fácil. Agora, transformar uma obra de arte em livro, deve ser bem mais difícil.

Por fim, deixo vocês com o Top 5 Melhores Textos do Pequeno Inventário de Impropriedades, escolhidos (e comentados) pelo próprio autor:

1. Incompleto – "Metalinguagem? Hipérbole? Profecia? Certas ocasiões me fazem sentir dessa forma descrita no texto. Nesse caso, uma separação temporária que já se anunciava e me obrigava a tornar-me um pouco insensível para suportar dois meses de distância. Gosto deste texto porque descrevi exatamente o que estava sentindo no momento da escrita e acho que deixei o texto aberto para que cada leitor faça sua leitura particular."

2. Sorrateiramente – "Gosto dele porque traduz como eu vejo o mundo em alguns momentos. Me ajudou também a entender algumas das relações que já tive na minha vida.... Em alguns momentos como presa, noutros como predador. E é o texto preferido do meu amor... E só por isso, já garante seu espaço nesta lista!"

3. A Primeira Vez... – "Gosto dele porque ele brinca com o leitor no sentido de que parece que vai tentar enganá-lo e no fim acaba oferecendo exatamente aquilo que o leitor não deseja. Ou deseja? Nada como um pouco de sexo e violência para criar um pouco de suspense. Sem contar que a tentativa de ser atraente, ao mesmo tempo em que se é grotesco é algo que me acompanha diariamente!"

4. A Verdade – "Escolhi esse texto como um exemplo dos "exercícios de abstração" que eu me proponho às vezes e me divirto! E sabe com o que eu me divirto mais? Com os comentários das pessoas tentando "entender" ou "desvendar" a história... Que na verdade, nada mais é do que um pretexto!"

5. Piece of Shit! – "Porque todas as formas de esquizofrenia e psicopatia me atraem como tema para a escrita. Freud explica!"

23 de agosto de 2009

Coisas da Vida - IX

(leia a parte anterior desta série aqui)

Sábado, perto da hora do almoço, Avenida Paulista. Estou saindo de uma banca de jornal quando sou abordado por um senhor de aproximadamente 50 anos, razoavelmente bem vestido. Usava calça social cinza, malha de lã combinando e (apesar do cabelo grisalho ser bastante ralo) um rabo de cavalo minúsculo, que desafiava insistentemente sua calvície.

Ele sorriu, mostrando que sua arcada dentária inferior deveria ser treinada pelo Parreira, já que não tinha ninguém jogando na frente.

– Você mora por aqui?

– Não, mas conheço a região, respondi, certo de que ele estava perdido e queria alguma informação.

– Você conhece algum restaurante ou bar aqui perto que esteja precisando de algum ajudante?

Ok, não é o tipo de questão que se ouve ao ser abordado na rua, especialmente quando você está esperando algo como “onde fica o metrô mais próximo?” ou “para que lado é a Brigadeiro?”.

Parei e pensei sobre a pergunta, procurando alguma pegadinha. Não encontrei nada. Olhei ao redor, esperando encontrar uma câmera escondida. Nada. Olhei para cima e resmunguei “porque é sempre comigo?”.

Mas pensei no blog e resolvi continuar com o papo.

– Olhe, realmente não conheço. Sinto muito.

– Tem certeza?

Evidente que tenho. Toda vez que eu entro num boteco, eu pergunto se o cara tem Coca, e não se o staff dele está adequado ou se ele tem planos de expansão. Mas achei melhor não entrar nestes detalhes.

– Tenho.

– Ah, mas você tem cara de quem costuma ir a barzinhos! Ao menos, isso eu acertei?

– Sim.

– Que ótimo! Eu detestaria abordar a pessoa errada na rua!

Pensei em explicar a ele que “fique tranqüilo, você abordou a pessoa certa na rua, já que você é louco e eu sou eu”, mas mudei de idéia. Complexo demais, e eu estava com pressa.

– Porque sabe o que acontece?

Ah, meu Deus. Lá vem. Antes que eu pudesse pedir para ele adiantar a conversa até a parte em que ele me pede algo, ele continuou:

– Eu sou de Santa Catarina. Sou arquiteto e professor. E vim para São Paulo trabalhar com uma moça, mas ela viajou e só volta na quinta-feira.

Comecei a sentir o cheiro de golpe no ar.

– Ah, mas logo a quinta-feira chega. Você vai ver, passa rápido, respondi.

– Então, mas meu dinheiro acabou e eu e minha esposa fomos expulsos do hotel em que estávamos. Aquele Fórmula 1, sabe? Porque eles não têm mais chave, eles têm um cartão magnético para abrir a porta do quarto, e o nosso não funciona mais.

Os meus neurônios responsáveis pelo sarcasmo começaram a sugerir que eu dissesse a ele para entrar no metrô e tentar recarregar o cartão do hotel como se fosse um Bilhete Único. Joguei um pano preto em cima deles, fechei a porta da sala em que eles trabalham e passei a chave, tentando me controlar.

– Que coisa.

Cá entre nós, não havia muito mais o que dizer.

– E agora eu estou na rua, com minha esposa. Ela pesa 140 kg. Estamos passando fome.

Espere. 140 kg e passando fome? Se existisse um sindicato de pessoas-que-passam-fome, eu denunciaria esse sujeito na mesma hora.

– E agora eu preciso sobreviver até quinta-feira.

– Você já tentou em bancas de jornal?

Foi uma tacada de mestre. Afinal, estávamos ao lado de uma banca. Se ele comprasse a idéia, isso faria com que ele entrasse ali atrás de emprego, me dando os segundos preciosos que eu precisava para fugir. Mas não deu certo:

– Não! Donos de bancas de jornal fazem parte de uma máfia!

Faz sentido. Eu sempre fui vítima da extorsão dos donos de bancas de jornal. Metade do dinheiro que ganhei na vida está na mão deles, devido ao meu maldito vício por quadrinhos. Ponto para ele.

Antes que eu pudesse pensar em outra alternativa (“olha, tem um açougue ali na Brigadeiro, e nunca vi mais de dois funcionários, talvez eles precisem de um ajudante”) ele foi direto ao ponto:

– Você não está precisando de algum trabalho? Eu posso fazer algo para você, entregar algum documento, em troca de um almoço.

A idéia foi tentadora. Imediatamente pensei nas dez revistas que eu faço, e considerei a hipótese de contratar esse sujeito como frila. A cada três textos, um almoço. Mas seria difícil explicar isso para o meu chefe, especialmente pelo fato de que esse cara provavelmente não emitiria nota fiscal.

Foi aí que meu cérebro começou a preparar uma daquelas armadilhas. Pensei na enorme e eterna zona que é o meu apartamento, e tive o impulso de contratar o sujeito como mordomo. Ele já era meio grisalho mesmo, bastava um banho de loja para se tornar um Anthony Hopkins. E, quanto à sua deficiência dentária, bastava ele não abrir a boca quando eu tivesse convidados em casa.

Sacudi a cabeça e voltei à realidade.

– Olhe, eu realmente não preciso de nada. Obrigado.

– Você não quer ir almoçar comigo em alguma padaria?

Certo. Esse foi “me paga um almoço?” mais estranho que eu recebi. Por alguns instantes, cheguei a considerar a hipótese de que eu estava sendo cantado, mas o olhar do velho deixou claro que ele não tinha segundas intenções. Ele queria mesmo era um almoço.

Tive o impulso de perguntar algo como “bom, você está convidando, então você paga, certo?”, mas isso provavelmente iria fazer o papo se arrastar por horas. Ele insistiu.

– Quer ir?

– Infelizmente eu já tenho compromisso. Mas agradeço o convite.

– É que eu queria almoçar.

E, assim, após cinco minutos de papo, chegamos aonde ele queria. Num almoço. Abri a carteira e puxei uma moeda de R$ 1,00. Mas, antes que eu a entregasse, pensei no fato de que essa foi o pedido de esmola mais elaborado que eu vi na vida (sejamos sinceros, o sujeito me deu todo o background, e, assim como o George Lucas, praticamente criou uma trilogia só para explicar porque ele queria um almoço) e peguei todas as minhas moedas. Deu quase R$ 2,00.

Entreguei para ele e disse:

– Olhe, vai comer algo, e quem sabe você dá sorte a tarde. Eu adoraria acompanhar você, mas, infelizmente, eu tenho outro compromisso.

Ele olhou as moedas e viu que não dava para comer muita coisa. Mas, convenhamos: por mais que sua história tenha sido bem trabalhada, ainda assim era uma esmola. E esmolas, para mim, obedecem a limites de uma nota de R$ 1,00, ou moedas. Mais que isso, já é empréstimo.

Ele olhou para mim. Eu me esforcei para assumir a expressão “você não vai conseguir mais que isso”. Mesmo porque, só faltava ele ficar insatisfeito e colocar a esposa na conversa de novo. Eu me recuso a dar esmola para uma pessoa cuja massa é duas vezes maior que a minha.

Aparentemente, ele entendeu o recado e foi embora com as moedas.

Mas bastou eu andar uns dois metros para alguns dos meus neurônios do sarcasmo – que, a esta altura, já haviam conseguido arrombar a fechadura da porta – correrem para o meu ouvido e colocarem as cabeças para fora da minha orelha, e gritaram:

– Tenta ir até o metrô carregar o bilhete da porta do hotel!

Dei três tapas no meu ouvido e mandei eles calarem a boca. Eles se assustaram e correram de volta para dentro do cérebro. Olhei para trás e o velho estava olhando para mim.

Sorri, sem graça, e fui embora, acelerando o passo. Afinal, tudo o que eu não precisava era que o velho voltasse para pedir meus contatos, com a promessa de me enviar por e-mail um currículo – e pior, fotos dele e da esposa. Ô fase, malditos neurônios.

20 de agosto de 2009

O Velho e o Bar

Aqui na frente do trabalho tem o famigerado boteco do qual já falei algumas vezes. Sim, aquele boteco (leia aqui e aqui). Por sinal, outro dia eu procurei no Google e descobri que ele é relativamente conhecido aqui na Zona Oeste. Aqui no blog, ele é razoavelmente famoso pela incompetência dos funcionários, que chega às raias do absurdo.

Entretanto, me ocorreu outro dia que eu nunca havia falado do Velho do Boteco. Assim mesmo, em maiúscula. Velho do Boteco. É o nome dele. Trata-se de uma entidade que, talvez por algum tipo de maldição, ou por simplesmente não ter o que fazer (o que é mais provável), escolheu o bar aqui da frente como habitat natural.

Ele não vai ao bar, ele mora no bar.

Ou, em outras palavras, ele nunca está no bar. Ele É no bar.

Não importa a hora do dia que você for ao boteco, este lá, sentado no balcão, ou numa cadeira ao lado do caixa – sim, ele move as cadeiras do boteco ao bel-prazer - fazendo o que ele faz de melhor: nada. Ele fica sentado ali, observando o mundo passar (se você é novo aqui e não clicou nos links acima, vale dizer que ele não fica observando as pessoas serem atendidas porque ninguém consegue ser atendido naquele boteco).

E não, ele não é daqueles alcoólatras solitários que afoga as mágoas da vida num bar. Ele apenas fica ali o tempo todo, sem fazer nada.

Quando eu comecei a trabalhar aqui, reparei no velho logo de cara. Primeiramente, achei que ele tivesse algum tipo de problema mental, já que o layout dele não ajuda muito. Seus braços e pernas não são exatamente proporcionais, e ele anda encurvado, como se estivesse eternamente brincando de Corcunda de Notre Dame, mas sem a corcunda.

Além disso, ele mesmo não se ajuda muito. Está sempre com uma calça jeans que se esforça, mas não consegue de jeito nenhum chegar até o final da perna (imagine o Mazzaropi, ou um daqueles adolescentes que cresceu 25 cm em apenas dois dias e as calças não servem mais).

Até aí, ok. Eu estou longe de ser uma das pessoas mais lindas do mundo, mas a feiúra do velho tem o agravante de que ele é chato. Ele é muito chato. Além do fato de você não conseguir entrar ali nem para pegar um chocolate sem ter que olhar para a cara dele, ele consegue ser inconveniente em todos os minutos.

Se agir de forma inconveniente é uma arte, o Velho do Bar é uma espécie de Van Gogh. Um gênio, décadas à frente de seu tempo, e cujo trabalho criou uma nova escola no mundo da inconveniência.

Em primeiro lugar, é o volume. Ele não consegue se comunicar usando um número de decibéis menores que o de Boeing. Outro dia, para variar eu não consegui almoçar, e, no meio da tarde, desci para comer uma coxinha no boteco. Óbvio que ele estava sentado no balcão, lendo o cardápio – apenas por curiosidade, já que eu nunca vi o Velho pedir nada.

Sentei uns dois bancos ao lado dele, pedi a coxinha (que, como de costume, chegou dez minutos depois) e comecei a comer lendo o jornal de esportes – sim, porque, nesse bar, o atendimento é tão lerdo que eles até colocam jornais no balcão, como se fosse uma sala de espera.

De repente, um estrondo ao meu lado. (A propósito, um dos donos do bar é conhecido por uma palavra que é o mesmo nome de um peixe. Para preservar a identidade dos envolvidos, vou trocar por outro peixe).

– TUCUNARÉ! POSSO USAR O TELEFONE?

Dei um pulo do banquinho, quase caindo no chão. Óbvio que era o Velho. O dono do bar fez que sim com a cabeça e ele começou a discar.

– EU VOU LIGAR PARA A MINHA FILHA, TUCUNARÉ!

Eu olhei para ele e suspirei, ao menos para ver se ele se tocava. Nada.

Enquanto a maldita da filha dele não atendia, ele achou que seria de bom tom explicar ao dono do bar, a mim, e a todas as pessoas num raio de 2 km os motivos de sua ligação.

– PORQUE HOJE MINHA FILHA VAI AO MÉDICO, TUCUNARÉ! E EU VOU TER QUE CUIDAR DO FILHO DELA!

Pobre criança.

A filha, obviamente, não atendeu ao telefone – deve ter Bina em casa, e reconheceu que a ligação era do bar do Tucunaré.

– ELA NÃO ATENDEU!

E é assim todos os dias, todas as horas.

As pessoas que estão no bar não são apenas obrigadas apenas a conviver com o Velho do Bar, mas também a saberem quais seus pratos preferidos, os seus compromissos diários (todos fictícios, já que ele não sai do bar) e seus palpites sobre a previsão do tempo.

O único intervalo é quando ele almoça no bar (o único momento no qual ele consome algo), ao lado de duas pessoas: um velho com o layout mais estranho ainda (metade do tamanho do Velho do Bar, o mesmo penteado do Einstein e sempre de suspensórios) e um moleque de cerca de vinte anos, que deve ter sofrido alguma maldição e foi condenado a almoçar com essas duas figuras pelo resto da vida.

Mas provavelmente ele almoça em silêncio, para recuperar o fôlego e voltar a gritar a tarde inteira no boteco. E sempre coisas desinteressantes, que servem apenas para elevar a poluição sonora da cidade. Não importa quanto tempo você fique no boteco, você será brindado com umas das perolas de sabedoria do Velho do Bar, como:

– O DIA HOJE ESTÁ FEIO, NÉ, TUCUNARÉ? (quando está chovendo torrencialmente)

– TUCUNARÉ! HOJE TEM RODADA DO BRASILEIRÃO! (E só isso. Ele não tem mais nada a dizer sobre o assunto, apenas essa frase.)

– TUCUNARÉ! VOU TER QUE IR ATÉ A PREFEITURA HOJE! (Mas não vai. Ele fala isso e senta na cadeira ao lado do caixa).

Mas o cúmulo foi ontem. Eu estava tentando pagar por um chocolate, e o Velho ali, ao meu lado, sentado na cadeira, olhando o mundo. De repente, ele olhou para dentro do bar e viu que o chapeiro estava guardando algumas centenas de salsichas no congelador. Obviamente, ele não perdeu tempo:

– ISSO AÍ É SALCHICHA?

Sal-SI-cha. Velho tapado.

O chapeiro ergueu os olhos para mim, pedindo ajuda com os olhos. Eu dei de ombros, deixando claro que aquilo não era problema meu. Ele voltou a olhar para o velho e fez que sim, com a cabeça.

– ENTÃO ME DÁ DUAS!

Deixe os almoços de lado. Tudo o que eu vi o Velho consumir até agora, no bar, foi isso: duas salsichas congeladas. Não tem como ser mais tosco. Mas, ao menos, ele foi educado. Porque, quando eu estava voltando para a redação, já no meio da rua, ainda ouvi:

– TUCUNARÉ! PEGUEI DUAS SALCHICHAS CONGELADAS AQUI!

Suspirei e continuei andando. O problema não é que a humanidade não deu certo. O problema é que ela aparentemente se orgulha disso.

18 de agosto de 2009

Sexo, viu?

(ou: "Tudo o que Você Queria Saber sobre Sexo,
mas Tinha Vergonha de Conversar")


Uma das revistas que faço aqui no trabalho é para uma empresa que comercializa DVDs. E, no meio da revista, há uma tabela de preços, que eu recebo, deles, em Excel, com mais ou menos uns 300 títulos, com preços, datas de entrega etc. O problema é que o arquivo original é feito em Access, e eu tenho que ir, linha por linha, acentuando tudo, colocando cedilha e revisando.

E completando os títulos, pois às vezes estão abreviados ou incompletos. Até aí, ok. Saber que, por exemplo, O Senhor dos Anéis – O Retor certamente será O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei é meio óbvio. A coisa complica um pouco, mesmo, nos filmes desconhecidos: aí eu tenho que ligar para a empresa e descobrir qual o nome completo do filme.

E é aí que o problema de verdade começa, pois, de cada 10 títulos que eu preciso completar o nome, oito são pornográficos – e com aqueles títulos feitos justamente para deixar isso claro, como Rainhas do Anal VIII e Linguiças Reais no Convento.

Isso não seria nada demais, mesmo porque eu aprendi a falar palavrões antes mesmo de decorar o nome dos meus quatro avôs. Mas acontece que o meu principal contato na empresa é uma senhora de cerca de cinqüenta anos, provavelmente mãe de família e católica, e que provavelmente passa as noites fazendo crochê. E super simpática.

– Oi, é o Rob. Tudo bom?

– Oi Rob. Está precisando de ajuda na tabela?

– Isso, tem uns títulos aqui que eu não identifiquei.

Aí começamos a passar pelos filmes de Disney, Warner, Fox etc. E, conforme vamos avançando, os pornôs, que ficam no final da tabela, vão se aproximando. E minha vergonha começa a crescer na mesma proporção. Afinal, por mais que eu goste de falar bobagens, não me sinto extremamente à vontade falando bobagens com uma mulher que poderia ser minha mãe (a única diferença audível entre as duas– afinal, eu não a conheço pessoalmente – é que ela coloca um “viu?” no final da maioria das frases, coisa que minha mãe não faz. O resto é igual).

E vale dizer que ela trata aquilo com um profissionalismo admirável, sem mudar o tom de voz, nem mesmo nos títulos mais grotescos, enquanto eu me sinto como se estivesse fazendo sexo por telefone no meio da empresa, em alto e bom som.

– Bem, sobraram alguns títulos pornôs aqui, que eu preciso de ajuda.

– Pode falar, Rob.

– Aqui na Brasileirinhas, por exemplo.

– Sim?

– Tem um... É... Está como... Hã... Chupa Tud.

– Como?

Chupa Tud... Acho que está faltando algo.

– Ah sim. O Chupa Tudo. É Chupa Tudo 4, viu?

– É... 4. Ok.

– Ainda na Brasileirinhas, tem um que está apenas Com Vergonha de. Deve ter algo no final.

– Com Vergonha de Dar o Rabo, viu?

Meu Deus. Que vergonha. Como ela consegue falar isso com essa displicência toda, como se estivesse falando de As Crônicas de Nárnia?

– Ainda nas Brasileirinhas, tem um aqui que o nome da atriz está incompleto. É no Louca para... É... Louca para... Aquele que começa com Louca para. Achou? Está só Suzana Ga. Esse é o nome dela?

– É no Louca para Dar o Cu?

MeuDeusdocéusim.

– Suzana Gaúcha, viu?

– Ok.

– Mais algum?

– Na Explícita, tem um que... Aquele ali, sabe? Da ninfeta.

– Qual?

– O da ninfeta. Olha lá.

– Eu Comi a Ninfeta mais Gostosa da Minha Classe?

– É, isso, Eu... É, esse aí. Estava sem o Minha Classe.

– Mas é isso: Eu Comi a Ninfeta mais Gostosa da Minha Classe, viu?

– Vi. Não, quer dizer, não vi. Mas tem mais um, na Brasileirinhas.

– Qual?

– Está apenas... É... Bem... Come meu. Deve ter algo depois.

– O título é Come Meu Rabo, viu?

– ...

Eu vou desligar. A empresa inteira deve estar rindo de mim.

– Rob?

– O nome é Come Meu Rabo.

– Sim, eu já arrumei. Acho que são só esses. Obrigado.

– De nada. Beijo.

E aí eu mando a tabela diagramar e, quando recebo o arquivo pronto, mando para ela revisar. E às vezes ainda tem alguma outra alteração de última hora. Não é difícil tocar meu telefone, depois:

– Rob?

– Eu.

– Oi, tem um filme que ficou com o título errado. É na Explícita.

Merda, porque não é na Disney?

– Pode falar.

– O Caralho 4 – Os Maiores Cacetes do Mundo tem uma exclamação no final, viu?

– Depois de O Mundo? Ok.

– Isso. Fica Caralho 4 – Os Maiores Cacetes do Mundo – Ponto de Exclamação.

Eu agradeço (pensando em qual o tamanho mínimo que um cacete deve ter para ganhar um ponto de exclamação, mas guardo minhas conclusões para mim), nos despedimos, e ficamos mais um mês sem nos falarmos. Até que eu começo fazer a maldita tabela novamente, e sei que a hora de ligar para ela está se aproximando.

Seria tão mais fácil se eu pudesse fazer a conferência dessa tabela com o porteiro ou um dos motoristas da empresa. Seria tão mais fácil.

Mas, enquanto isso não acontece, deixo vocês com o Top 5 Melhores Títulos de Filmes Pornôs que Satirizam Filmes “De Verdade”:

1. Lousiana Jones no Templo do Tesão – Fico imaginando só onde o chicote entra nessa história.

2. De Costas para o Futuro – O futuro ao Deus dará? Duvido.

3. Pornóquio – A coisa deve pegar fogo mesmo quando o Pornóquio começa a mentir. Aí, só dá nariz.

4. O Senhor dos Anais – A Irmandade do Anal – Ainda bem que não fizeram (ao menos, que eu saiba), a sequência: As Duas Torres.

5. Sex Trek – The Next Penetration – Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais foi? Sei, sei...

14 de agosto de 2009

Repercussão

Rob Gordon: Desde quando você tem autorização para mexer no blog?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Aliás, nos blogs! Você mexeu nos dois!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Você é bem esperto! Agora, todo mundo acha você fofo, e ninguém desconfia que você é um monstro. Bem esperto!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Não vai falar nada? Vai ficar aí, só olhando? Porque no blog você fala!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Bom, eu ainda não acabei. Venha aqui para o quarto que eu vou trocar de roupa, mas ainda tenho o que falar.

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Então, quem te deu autorização para mexer no blog?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Não adianta me olhar com essa cara. Eu li os textos! Que merda você tem na cabeça?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Bom, se no blog você consegue dar sua opinião, eu espero que você tenha coragem dar aqui também. Porque quando eu comprei você, me falaram que você era macho. Espero que... Volta aqui com essa meia!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Dá a minha meia! Eu tenho uma reunião, estou atrasado! Seu veado, larga!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Ficou toda babada! Que nojo! Você acharia legal se eu pegasse suas coisas quando você está usando e fugisse com elas para baixo da mesa?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Não vai falar nada, mesmo? Porque, no blog, ou melhor, nos blogs, todo mundo achou seu texto lindo! Agora, aqui, que é bom, você não fala!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Ok. Vai ter volta! E outra coisa, se você mexer no meu blog de novo, você vai morrer! Eu to falando sério!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Veadinho.

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: O que é isso no chão?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Isso é espuma do sofá? Você destruiu o sofá de novo?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: O que esse cobertor está fazendo no sofá?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Você acabou com o sofá! De novo! Você tem merda na cabeça?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: E não fique me olhando com essa cara de paisagem, porque foi você! O cobertor não estava no sofá, você tentou esconder o rombo com ele!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Você achou que eu não iria perceber? Onde estão os pedaços de espuma que você arrancou?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Onde está a espuma? Porque você não consegue comer isso! Onde está?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: O que é isso?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Você escondeu a espuma embaixo do tapete?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Olhe aqui, está cheio de espuma! Você passou a madrugada inteira escondendo a espuma embaixo do tapete? Você não tem o que fazer?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: O que é essa coisa branca?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Tem outra meia minha escondida aqui! Meu Deus do céu, qual seu problema?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Ok. Quer saber? Eu não vou arrumar esse sofá! É o seu canto do sofá mesmo, você que fique dormindo em cima desse rombo, igual a um mendigo.

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Não adianta me olhar assim. Você que se vire com esse rombo agora!

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: Estou indo embora, já estou atrasado. Se quando eu chegar em casa, alguma coisa estiver fora do lugar, o tempo vai fechar.

Besta-Fera: ...

Rob Gordon: O tempo vai fechar! Entendeu?

Besta-Fera: ...

Rob Gordon sai do apartamento batendo a porta. Ainda na sala, Besta-Fera escuta Rob Gordon amaldiçoando a vida do outro lado da porta. Sua audição superior detecta a porta do elevador se abrindo, se fechando. Enfim, silêncio.

Pega sua nova edição em francês de Humano, Demasiado Humano, de Nietzsche (comprada na Amazon com o número do cartão de Rob Gordon), seus óculos e, deita-se na parte inteira do sofá. Dá uma última olhada em direção à porta e suspira, tentando espantar o profundo cansaço mental que sente.

Besta-Fera: Babaca.

Localiza o trecho em que interrompeu a leitura e prepara-se para passar o dia lendo.

11 de agosto de 2009

As Duas Faces de um Cão - O Mal

(leia O Bem aqui)

Caros leitores,

Creio que já passou do tempo de eu ter o direito de escrever aqui, ao menos uma vez na vida. Afinal, às vezes, quando fico sozinho, dou uma fuçada nos arquivos deste blog e vejo que existem diversos textos a meu respeito, e nem tudo que está aqui é verdade. Ao menos, não de acordo com meu ponto de vista.

Sim, existem muitas verdades aqui. Ele trabalha demais, ele atrai todos os loucos que cruzam seu caminho na rua, especialmente naquele mercado. Agora, uma coisa que ele não conta é que, se a humanidade não deu certo, ele é o maior exemplo disso. Porque, eu confesso, é difícil morar aqui com ele.

Antes de tudo, eu nunca vi alguém com tanto talento para fazer bobagem.

Acho que vocês conhecem uma das histórias mais famosas. Eu estava dormindo, quieto, no meio da madrugada e o babaca cozinhando – sim ele come nos horários mais estranhos do mundo. De repente, acordei com um barulho enorme e, olho para o lado, vejo o babaca deitado no chão da cozinha, todo queimado com uma lasanha, gritando de dor.

Não tinha como ser mais tosco. Fora que sujou a sala inteira. Não tive dúvidas: fingi que nem percebi e fui discretamente para a varanda, dormir em paz. Ele que limpasse aquilo. É muita falta de respeito com quem está tentando dormir.

E isso é apenas uma amostra do que eu encaro por aqui. Sério, não sei como ele não se mata nessa casa. Às vezes, ele cisma de assistir a um determinado filme, mas não sabe onde está o DVD. Vai para o quarto e começa a fuçar. De repente, ouço aqueles barulhos de tragédia. Eu coloco a cabeça no quarto e lá está o infeliz deitado no chão, soterrado por pilhas e pilhas de DVDs. E ainda fica xingando os discos, como se a culpa fosse deles.

Ô fase.

Mas isso não é o pior, acreditem. Nada supera os dias em que ele está carente e quer conversar comigo. Aí ele se senta no chão, e conta da vida dele, pergunta da minha vida. Eu? Eu fico sentado, olhando para ele e pensando “será que o imbecil sabe que eu não falo?”. Sério, não dá para respeitar uma pessoa assim. Ele é totalmente desequilibrado. E isso porque nem comecei a falar de quando ele começa a discutir com o computador, com o DVD, com a televisão. O problema não é ele achar que eu os objetos iremos responder, mas sim ele estar convencido de que é o dono da casa. Às vezes, chega a dar pena.

E quando ele se mete a brincar de luta comigo? Porra, não dá. O cara tem 30 anos a mais que eu, mas, às vezes, eu me sinto como se fosse o único adulto aqui. Eu estou quieto, tentando ver o jornal, e o infeliz senta no chão e me chama para brincar. Eu tento ignorar, mas ele é teimoso demais. Vou começar a andar com pedaços de chocolate pela casa. Sempre que ele fizer isso, eu vou jogar um chocolate para ele. Quem sabe assim ele me esquece.

Mas morar com ele tem seus pontos positivos, claro. Primeiro, ele é tonto demais. Nunca vi alguém tão fácil de ser enganado. A hora de dormir é o exemplo perfeito. Ele se deita na minha cama – ele acha que a cama é dele, mas paciência; ele também acha isso do meu aquecedor – e eu me deito ao seu lado. Não dá dez minutos, eu começo a me acomodar melhor e pronto. Ele já está espremido no canto, na parede, e a cama voltou ao seu verdadeiro dono: eu, a entidade dominante da casa.

E ele sabe que nem é bom reclamar: a última vez que ele ameaçou me colocar para fora do quarto, eu aproveitei a hora que ele foi beber água e mijei bem no meio do colchão. Ele ficou puto, mas a mensagem ficou clara: se eu não durmo na cama, ninguém dorme. Até hoje começo a rir quando me lembro dele trocando os lençóis no meio da madrugada. Ridículo.

O problema é que tem coisas que não dá para contornar, mesmo com minha inteligência superior. Especialmente quando ele cisma de fazer coisas novas. Quando ele se mete a cozinhar dá até medo. Eu sempre tento avisar, fico olhando com aquela expressão de “vai dar merda”, mas o babaca não consegue entender.

E, invariavelmente, o resultado é sempre o mesmo: a comida sai uma merda e ele tem que pedir pizza. Nessas horas, eu fico olhando com aquele ar de superioridade natural que só os líderes têm, tentando dizer “eu avisei”, e ele fica mais puto ainda. Como se a culpa de ele não saber fazer arroz fosse minha. Ah, me poupe.

Sério, vocês não conhecem a peça, mas não estou exagerando. Ele é medíocre demais. Quando minha veterinária vem aqui, chega a ser risível. Semana passada ela veio, eu precisava tomar vacinas. Aí, eu me escondo embaixo da mesa, só de sacanagem, para o babaca ficar tentando me chamar com brinquedinhos e petiscos. Eu sei que a vacina é importante e é óbvio que eu vou tomar, mas me escondo só para fazer o babaca pagar mico na frente dela. E ele sempre cai.

Fora que ele é previsível. Quantas vezes ele não sai de manhã, para trabalhar, e volta cinco minutos depois, com aquela cara de imbecil, dizendo “esqueci a carteira”? Aliás, não sei como permitem que uma pessoa dessas more sozinho.

Mas aí, felizmente, ele sai para trabalhar e eu consigo ficar um pouco sossegado. Quer dizer, ele diz que vai trabalhar, mas eu duvido. Porque ele está sempre reclamando que está tudo atrasado. Ou seja, ou ele falta ao emprego ou é desorganizado mesmo.

Mas o que importa é que ele sai de casa. E eu fico aqui, lendo meus livros, assistindo aos meus documentários, colocando minhas coisas em ordem. Isso, claro, até que cai a noite, e, mais cedo ou mais tarde, a porta se abre e a criança da casa entra correndo, abrindo a calça e indo desesperadamente para o banheiro.

Aí eu suspiro, enfio a cabeça no sofá e tento dormir, certo de que meu inferno particular começou. Sério, eu tinha muito mais o que dizer aqui, mas não vale a pena. Mesmo porque eu nem gosto desse negócio de internet. Prefiro livros. Inclusive, vou voltar para o sofá, para continuar a ler Nietzsche.

E, para me despedir, deixo você com uma citação dele que sempre gostei demais: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

É, Nietzsche, você tem razão. O problema é que você não imagina o monstro que mora comigo. E, pior, eu tenho que olhar para ele todo dia.

Ô fase.

Cordialmente,

Besta-Fera.

6 de agosto de 2009

Bolo Lasanha de Casamento

A vida é mesmo imprevisível às vezes.

Todas as vezes que entro no Pão de Açúcar, me preparo psicologicamente para encontrar algum dos alienígenas que migraram dos seus respectivos planeta para Pinheiros e usam o supermercado como uma espécie de Zona Neutra, convivendo pacificamente entre si no meio de corredores apinhados de enlatados e materiais de limpeza.

Sim, se encontra de tudo ali dentro. Aposto que se Darwin entrasse lá uma noite, em poucos minutos ele suspiraria desolado e resmungaria algo como “meu Deus, vou ter que começar tudo de novo”. De punks apanhando à recente Bruxa do Mar, passando pelo lutador de jiu-jitsu esotérico, qualquer coisa que você imaginar, existe dentro do Pão de Açúcar de Pinheiros.

E quem lê este blog sabe que todas estas espécies teimam em fazer contato comigo. Aparentemente, eu sou uma espécie de embaixador da Terra. Justamente por isso que nada poderia ter me preparado para o que aconteceu ontem. Foi lá que eu participei de um dos diálogos mais deliciosos dos últimos tempos.

Eram cerca de 9 da noite e eu estava ali atrás da lasanha de calabresa. Aos poucos, venho me recuperando do trauma da queimadura, o que faz com que eu e a lasanha da Sadia estejamos ensaiando uma reaproximação. No corredor dos congelados – exatamente em frente à geladeira das lasanhas – uma velhinha observava as mercadorias ao lado de um garoto (seu neto, provavelmente).

Assim que me aproximei, ela se virou para mim e perguntou:

– Você conhece essas lasanhas?

– Razoavelmente, respondi, enquanto escondia a mão com a marca da queimadura atrás do corpo.

– Qual delas você prefere?

– Sabor? Ou marca?

– Sabor?

– Eu gosto bastante da de calabresa. Mas a sabor bolonhesa é muito boa também.

– Ah, minha neta gosta de peito de peru.

– Olhe, a de peito de peru eu nunca comi, mas é porque não sou muito fã mesmo. Então não posso dizer nada.

– A de calabresa é gostosa?

– Sim, muito. Se a senhora levar, minha sugestão é a da Sadia, porque ela vem com pedaços de calabresa. A da Perdigão vem com calabresa moída. Não é ruim, também, mas a da Sadia é melhor.

– Eu não sei se eles vão gostar da de calabresa.

– Se a senhora nunca comprou antes, sugiro levar a tradicional, que é à bolonhesa. É mais seguro.

– Ela vem só com carne?

– E molho branco.

– Mas é difícil de fazer?

– Nada. A senhora pega a embalagem, tira toda a tampa e coloca no forno microondas. Deixa uns 15 minutos na potência máxima, e está pronta.

– Só isso?

– Só isso.

– Nossa! Como é bom falar com alguém que entende!

A queimadura da minha mão começou a gargalhar atrás de mim, e eu dei uma sacudida no braço para ela calar a boca.

– Imagine, foi um prazer ajudar a senhora.

– Você trabalha com isso, moço?

Foi minha vez de gargalhar.

– Não, senhora. É que eu sou solteiro, moro sozinho. Então às vezes eu compro essas lasanhas para jantar.

– E não acha que está na hora de casar?

Apenas sorri, pois é o tipo de pergunta que não se responde. Ou você sorri, ou você se ofende. Eu sorri. Ela não se intimidou e, respondeu, rebatendo meu sorriso de primeira, num sem-pulo que estaria nas manchetes de todos os jornais esportivos do dia seguinte:

– Afinal, você já sabe tudo sobre essas lasanhas. Não há mais nada o que você possa aprender sobre isso. Então, é hora de você casar.

Não agüentei. Tive que me apoiar na geladeira das pizzas, de tanto que eu gargalhava. Fazia muito tempo que eu não encontrava alguém com uma lógica tão sensacional. A velhinha pegou uma lasanha (bolonhesa), agradeceu e, segurando a mão do neto, foi embora, me deixando rindo alto ali.

E eu peguei minha lasanha de calabresa, com uma certeza: se essa velhinha tivesse um blog, eu assinaria o feed.

Mas, antes que a velhinha entre no blogger, deixo vocês com o Top 5 Refeições mais Homem-Morando-Sozinho que Eu Faço em Casa:

1. Lasanha congelada – a de calabresa já foi citada tantas vezes aqui no blog que nem vale mais a pena ser comentada.

2. Espetinhos – Apesar de existirem umas marcas conhecidas no Pão de Açúcar (Jundiaí, por exemplo), os melhores são os da marca Pão de Açúcar mesmo.

3. Pizza – Seja pedida em pizzaria, ou congelada e feita em casa, sempre quebra um galho. E, assim como a lasanha, precisa ter calabresa no meio.

4. Comida chinesa – Fico sempre entre a carne com cebola e o frango xadrez. Às vezes, peço a carne com batata imperial, mas só porque acho o nome pomposo.

5. Picanha do Degas – o delivery da melhor picanha de São Paulo, acompanhada de toneladas de batata frita. Fica especialmente mais saborosa na quarta-feira, quando tem jogo na TV.

5 de agosto de 2009

Sugestão Obrigatória #2 - Casa da Gabi


Eu não sei quanto a vocês, mas eu, quando entro na casa dos outros, não me sinto à vontade logo de cara. Nunca sei onde me sentar, minhas pernas começam a atrair magneticamente todos os móveis possíveis e. Caso a pessoa tenho um cachorro, fico esperando ser mordido a qualquer minuto, pensando em como eu vou conseguir sorrir e dizer “que gracinha” com a mão sangrando. É um terror.

Felizmente, isso não acontece na Casa da Gabi, um dos blogs mais divertidos que encontrei nos últimos tempos. A Gabi, que chegou até mim me oferecendo emprego (longa história) acabou virando amiga, mas o blog dela mereceria entrar aqui de qualquer maneira. Isso porque os seus textos conseguem ir do mais engraçado para o mais emocionante (leiam o post sobre seu casamento, no Top 5, por exemplo) de uma forma invejável e mantém sempre o mesmo estilo.

Mas o ponto alto do blog é que, seja qual for o assunto, você tem a sensação de que não está lendo, mas sim ouvindo a própria Gabi contar as histórias. Eu não conheço a Gabi, nunca a encontrei na minha vida, mas tenho certeza de que ela contaria as histórias exatamente do jeito que estão escritas, palavra por palavra. O que leva a crer que uma história narrada pela Gabi é melhor que muito blog “famoso” que existe por aí. Já uma história escrita pela Gabi, então, nem se fala.

Para mostrar o que estou falando, deixo vocês com o Top 5 Textos Preferidos na Casa da Gabi (escolhidos e justificados pela própria autora):

1. Eu e o Vestido da Zara - "Uma história sobre uma mulher, um vestido P e muito pouco dinheiro na conta"

2. #prontocasei - "Pois é. Casei, né?"

3. Manual para Moças de Fino Trato, Capítulo 8: O Ex - "Eu fiz exatamente o que está escrito no texto. E-xa-ta-men-te."

4. A Cliente Vidente, o Chow-Chow Gigante e a Atendente do Pet Shop - "Um chow-chow gigante e um sobrinho médio. Está pronto o angu."

5. O Estranho Caso do Tarólogo de um Braço Só - "E ele conseguia embaralhar. Com um braço só."


P.S. - Quem ainda não viu, tem post novo no Champ Chronicles: Sem Roteiro.

4 de agosto de 2009

O Lendário Oliveira

Já faz algum tempo que alguns amigos meus têm insistido para que eu conte, aqui no blog, algumas histórias de anos atrás. No começo, achei que isso não valeria a pena – especialmente porque muitas histórias da minha adolescência não são dignas de serem reproduzidas –, mas, como diria Chico Buarque, “foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sofridos, que eu dominei meu asco”.

Então, vamos começar a abordar alguns assuntos do século passado (ou, melhor dizendo, a. C. – antes do Champ) aqui.

Aliás, cabe falar um pouco sobre o Rob Gordon adolescente. Por um lado, eu era o filho que qualquer pai ou mãe sonhava: saudável; apaixonado por livros e filmes; razoavelmente inteligente; e um meia-direita razoável. Por outro, eu era um lixo. Entre os meus 15 e 20 anos, consumi mais álcool que algumas cidades do interior. Junte isso ao fato de que eu tinha o cabelo no meio das costas e andava com algumas pessoas não exatamente recomendáveis e pronto: estava eleita a ovelha-negra da família.

Mas eu tinha um ponto positivo. Eu tinha um emprego. Era um dos poucos da minha turma que já trabalhava. Mas meu emprego era um tanto quanto... Inóspito. Eu trabalhava como faz-tudo numa loja que vendia material de limpeza por atacado (vamos chamá-la de Loja Tal) e pertencia à minha tia (que chamaremos de Júlia) e a um sócio (vamos chamá-lo de Flávio).

Não sei a intimidade que vocês têm com material de limpeza, mas, desde aquela época, eu encaro aquilo como coisa do demônio. Sério, em alguns momentos, aquilo era o inferno na Terra. Ao longo de dois anos, quase perdi um dedo com ácido, desmaiei por causa do cheiro de Ajax concentrado que vazou enquanto estava no depósito e perdi dezenove calças por conta do maldito cloro. Uma das minhas calças de moletom, inclusive, tinha tantas manchas de cloro e cândida que me deixava parecido com um palhaço, já que tinha uma perna azul e outra rosa.

Assim, não era difícil você me ver andando pelas ruas de Moema (era onde eu morava) carregando fardos de papel higiênico, galões de desinfetante. Mas os piores eram os clientes. Se alguém já está desenvolvendo fantasias com donas de casa mal-casadas e carentes, esqueçam. Eu lidava somente com zeladores e faxineiros de grandes edifícios, que apareciam na loja com listas de compras que precisavam ser decifradas (coisas como “papeu inxinhênico” eram comuns no meu dia).

Mas o pior de tudo era um dos vendedores externos, o Oliveira (e eu vou manter o nome real dele aqui, porque eu já contei essa história tantas vezes que não tenho coragem de mudar o nome do personagem principal). Assim como os outros vendedores, ele era incumbido de percorrer os edifícios atrás de grandes pedidos.

O Oliveira era um prodígio. Ele foi um dos meus primeiros contatos com a idéia de que a “humanidade não deu certo”. Certa vez, chegou a fechar uma venda de 80 litros de detergente neutro-maçã e eu fui obrigado a ficar meia hora explicando para ele que isso não existia, era como “Guaraná-Cola”.

Mas nada superava as suas ligações telefônicas. Ele ligava em média três vezes por semana, e sempre calhava de isso acontecer quando eu estava sozinho na loja e eu que tinha que atendê-lo. E o diálogo era suficiente para estragar meu dia totalmente. Podemos dizer que minhas conversas telefônicas com o Oliveira eram um trailer de todos os atendentes de telemarketing que eu encontraria na vida. E eram SEMPRE desse jeito:

– Loja Tal, boa tarde, eu atendia.

– Alôuu?

Neste momento, eu já sabia que era o Oliveira. O seu “alôuu?” (que soava como se ele tentasse chamar a atenção de alguém dentro de uma caverna), era inconfundível. Eu respirava fundo e ia em frente.

– Loja Tal, pois não?

– Alôuu? É da Loja Tal?

– Sim. É da Loja Tal.

– Eu queria falar com a Dona Júlia.

– A Dona Júlia não se encontra. Ela não vem hoje.

– Ah. O Flávio está por aí?

– Não, ele deu uma saída. Foi ao banco.

– Ah.

Ele era bom nisso. Ele falava “ah” e ficava em silêncio, jogando a bola de volta para mim. Assim, eu ficava sem muitas opções para continuar o diálogo. Restava apenas voltar ao começo:

– Posso ajudá-lo?

– É da loja Tal, certo?

– Certo.

– Quem está falando?

Ok, vamos analisar um pouco o enigma que se apresentou diante dele: três pessoas trabalham num local, e ele sabe disso. Duas delas não estão presentes, e ele sabe disso. Ou seja, sobra apenas uma pessoa. Posto isso, alguém atende o telefone e ele não sabe quem é? Ô fase.

– Rob.

– Oi, é o Oliveira.

Ah. Que surpresa.

– Oi, Oliveira, tudo bom?

– Tudo e você?

– Tudo. Posso ajudá-lo?

– Eu queria falar com a Dona Júlia.

Suspiro.

– A Dona Júlia não está.

– É que eu precisava falar com ela.

– Isso não muda o fato de que ela não está.

– Ah.

– Só pode ser com ela?

– Pode ser com o Flávio também. Ele está?

Deus do céu.

– Não. Ele foi ao banco.

– Ah.

– ...

– Aqui é o Oliveira.

– Sim, eu sei. Você já disse isso.

– A Dona Júlia...

– A Dona Júlia não está! O Flávio também não!

– Ah.

E eu ficava pendurado no telefone, imaginando se ele continuava ali do outro lado ou não. Logo, cabia a mim tomar a iniciativa.

– Alô?

– Alôuu?

– Oi!

– É o Oliveira.

– Eu sei disso!

– Eu ligo depois.

E às vezes, ele ligava quinze minutos, e tudo isso se repetia. Assim, fica mais do que claro que a humanidade não deu certo desde sempre.

E, enquanto penso em outras histórias do meu passado para trazer ao blog, deixo vocês com outras pérolas: o Top 5 Itens mais Estranhos que Eu Vi em Listas de Compras na Loja:

1. (O já citado) Papeu Inxinhênico

2. Çaco Dlixo

3. Água-cândida (para os leigos, uma explicação: não existe água-cândida. Ou é Cândida ou é Água Sanitária)

4. Di Tergenti

5. Desinfetante Calito.

3 de agosto de 2009

Feliz Champ Novo!

Terminada a parte de homenagens, é hora da festa. Ou, melhor, dos presentes. Afinal, nada melhor que entrar no Ano 4 do Champ com o pé direito. Assim, como muito leitores adivinharam:

Layout novo.

Cá entre nós, já era hora de dar uma repaginada no blog.

E muita coisa foi mudada. Algumas tranqueiras das barras laterais foram para o lixo e outras, que haviam sido descartadas, voltaram (como os rankings de textos e sagas mais comentados – esta últimas, agora, escolhidas por média de comentários em cada texto), ao lado de uma seção com textos indicados por mim (que, claro, vão mudar constantemente).

Por fim, alguns outros elementos, simplesmente mudaram de lugar, e foram para cima do header – talvez a área mais nobre do novo layout –, como os links para o Twitter, comunidade do Orkut etc.

Aliás, quanto ao header: a descrição “O ponto de encontro de fãs de música, cinema e quadrinhos; vítimas de romances frustrados e praticantes de filosofia de boteco. E é claro, de lista dos 5 melhores” foi criada junto com o blog, e, sinceramente, não servia mais para definir o Champ.

Sendo assim, o header inteiro foi mudado. Inteiro? Não, o Marvin, que se tornou a cara do blog, continua ali. Aliás, se vocês não repararam, tem outros Marvins dando sopa por aí.

Outra mudança importante foram os prêmios e selos recebidos, que também ganharam espaço na parte superior do blog. Eu sempre dei muito valor a todos os selos recebidos, mas não estava contabilizando os dos últimos meses, simplesmente porque não tinha mais espaço na barra lateral para isso. Agora, o problema foi resolvido – e, aos poucos, eu começarei a colocar no blog estes que ficaram de fora, com os devidos agradecimentos.

Na verdade, as mudanças começaram a ocorrer há bastante tempo. Os leitores mais atentos talvez tenham percebido que dezenas de tags – que hoje “enfeitam” o header – foram criadas para os posts. Por outro lado, aposto que ninguém percebeu que o texto “sobre o blog” – cujo link também está lá em cima – estava postado neste mesmo blog já há meses.

Mas talvez a mudança mais importante seja a criação de um mail específico do blog, algo que eu queria já há bastante tempo e cujo link também está acima do header. Assim, vocês têm outra forma de contato com o blog, além dos comentários. Mas claro que nunca é demais dizer que me reservo o direito de transformar e-mails estúpidos e anônimos em matéria-prima para posts, como sempre fiz com os comentários recebidos.

Aliás, se perguntarem minha opinião, continuo preferindo os comentários, pois umas das grandes qualidades do blog são os debates que acontecem naquela pequena janela de comentários. Mas sintam-se livres para escrever.

Quero aproveitar esses posts para deixar dois agradecimentos especiais: ao Rodrigo Mammano (a.k.a. meu primo), sem o qual este layout jamais sairia da minha cabeça; e ao Nash, leitor que se ofereceu para criar um template exclusivo para o Champ, meses atrás.

Sim, o layout deveria ter entrado no ar no dia do aniversário do blog, na sexta-feira. Mas não foi possível. Isso porque o novo template não foi criado a partir de um template já existente, mas sim do zero.

E, com isso, problemas técnicos aconteceram.

Os piores foram no final do processo. Ao longo do final de semana, por exemplo, tive que ficar observando o Rodrigo, vestindo apenas sunga, lutando na lama com o código dos widgets, que se recusava a funcionar. Não foi uma visão muito bonita, acreditem. Felizmente, deu Rodrigo. E, entre mortos e feridos, finalmente o Champ ganhou sua roupa nova.

Enfim, ainda faltam alguns ajustes (determinadas cores e um ou outro elemento do blog que ainda não funcionou, logo ficou de fora, mas são coisas bem pequenas) que serão resolvidos ao longo dos próximos dias. Aos leitores mais atentos, um pedido: qualquer erro que vocês encontrarem, avisem. E, para os leitores mais recentes, um pequeno mimo arqueológico: o layout original do blog, que foi usado durante quase todo o primeiro ano do Champ.



Já os leitores mais antigos, acredito, sabem de uma coisa: o layout pode mudar quantas vezes quiser... Mas o blog continua e continuará sendo o mesmo.

Sejam bem vindos ao ano 4 do Champ!