28 de janeiro de 2011

Antenor e Mirtes e o Maníaco Sexual

– Mirtes! Mirtes! Venha ver!

– Antenor, eu estou ocupada! O que foi?

– Aqui na janela! Venha ver!

– O que foi?

– Você se lembra quando falei sobre aquele carequinha do prédio da frente? Que ele estava fazendo imundícies com a garrafa de Coca-Cola? Lembra? Faz uns dois dias?

– Sim.

– Olhe ele lá, na sala. Ele está fazendo de novo.

– É ele em pé, ali?

– Sim.

– Mas o que é aquilo no meio das pernas dele?

– Então, Mirtes, é a garrafa de Coca. Fique olhando.

– Mas o que ele está fazendo? Ele está curvado, mexendo na garrafa?

– É alguma bizarrice. Não sei, ele parece estar acariciando a garrafa.

– Mas porque ele fica com a garrafa no meio das pernas?

– Ah, Mirtes... Sabe-se lá como um cara desses se excita. Olhe! Tem algo acontecendo! Ele parece estar fazendo força, não parece?

– O que é aquilo branco na mão dele, Antenor? Um gesso?

– Gesso, Mirtes? Deve ser uma luva. Aposto que ele se sente sensual assim, deve ser alguma fantasia.

– Cruz credo.

– Tipo a Gilda, lembra? A Rita Hayworth? Ele deve achar que é a Gilda.

– A Gilda?

– Isso. E a garrafa de Coca é o Glenn Ford.

– Ai, Antenor, feche essa cortina! Estou ficando assustada!

– Você ouviu isso?

– Ele gritou?

– Sim, sim! Foi quase um urro! Um berro de prazer, com certeza.

– Não é melhor chamar a polícia?

– Polícia, Mirtes? Tínhamos que chamar o hospício, isso sim! Ele é demente!

– Credo, Antenor... Ainda bem que nossos filhos não são assim.

– Olhe! Agora ele está enchendo um copo com a Coca Cola. Vai saber o que isso significa para ele.

– Coitado daquele cachorrinho que mora com ele.

– Nem fale... O bichinho não tem culpa de nada.

– Antenor, ele veio para a varanda! E ainda está com aquela luva indecente e com o copo de Coca! Feche essa cortina!

– Já fechei, já fechei.

– Será que ele viu a gente?

– Duvido, Mirtes. Você viu o urro que ele deu? Ainda deve estar fora de si. Deve estar até zonzo.

– Esquece esse rapaz, Antenor. Eu tenho medo dele.


27 de janeiro de 2011

Ceimvêizsetchi

Sete pecados capitais.

Sete continentes.

Sete notas musicais.

Sete mares.

Sete dias da semana.

Sete cores do arco-íris.

Sete anões.

Sete maravilhas do mundo.

Setecentos posts no Championship Vinyl.

26 de janeiro de 2011

O Código de Gordon

Quando eu estava na faculdade – ou no colegial, não me lembro bem – criei, junto com um amigo, a biografia de um grande nome da literatura luso-brasileira. Acho que foi na faculdade mesmo, onde eu me divertia criando textos fictícios nos moldes da seção Fórum, da revista Ele & Ela (que renderam este post aqui). Um dia, criei também a lista – com títulos e sinopses sem sentido algum – dos dez filmes mais cabeça de todos os tempos. Qualquer dia eu falo sobre isso e tento fazer algo parecido aqui.

De volta ao escritor que criamos. Fizemos isso durante a aula, para tirar sarro de todos aqueles escritores dos séculos 18 e 19, cujas vidas sempre eram marcadas pela tragédia, por casamentos incestuosos e pela morte prematura. Porque, sim, se você analisar as vidas dos escritores abordados nas aulas de literatura, verá que suas histórias são tão semelhantes entre si que parecem até mesmo seguir um manual.

Enfim, para ilustrar melhor, vou tentar criar aqui uma biografia nestes mesmos moldes. As incongruências de idade não apenas são propositais, como a grande graça da coisa.

1821 – Nasce no Rio de Janeiro.

1823 – É alfabetizado em sua própria casa, aprendendo a ler praticamente sozinho. Tem seus primeiros contos publicados em periódicos da época.

1824 – Perde dois irmãos devido à varíola. Como ficava o dia todo no quarto escrevendo, fica sabendo das mortes apenas quatro meses depois, num dia em que resolve ir até a cozinha pegar algo para comer.

1825 – Publica seu primeiro romance, que tem repercussão morna da crítica.

1826 – Afasta-se da vida pública, dedicando-se cada vez mais à literatura. Logo após seu quinto aniversário, passa a trabalhar como escriturário na capital carioca.

1827 – Casa-se com Ludmilla, sua prima, dois anos mais nova. Publica seu segundo romance. Apesar de bastante elogiada pelos escritores contemporâneos, não vende nada.

1828 – Nasce seu primeiro filho.

1829 – Publica uma antologia de contos. Começa a trabalhar em seu terceiro romance.

1830 – Internado às pressas com cólica renal, é desenganado pelos médicos. Contudo, recupera-se milagrosamente. Aos amigos mais próximos, confidencia que, por ser um escritor do século 19, recusa-se a morrer de qualquer doença que não seja tuberculose.

1831 – Publica seu terceiro romance. Ao mesmo tempo, começa a escrever críticas literárias em jornais da época. Nasce seu segundo filho.

1832 – Sofre uma crise nervosa, e, ao socar uma geladeira, fratura a mão direita, precisando ficar quase um mês engessado, sem poder escrever. Ao final do terceiro dia, já está enlouquecendo.

1833 – Aos dez anos de idade, Ludmilla falece de causas naturais. Publica seu quarto romance, massacrado pelos críticos pelo tom sombrio, com uma trama que gira em torno de morte, luto e braços engessados.

1834 – Volta a escrever contos e crônicas, mas garante seu sustento traduzindo obras estrangeiras para sua publicação no Brasil.

1835 – Passa a freqüentar a boêmia carioca. Seu quinto romance, publicado ao final do ano, e redigido em tempo recorde (três dias) dentro de um bar.

1836 – Começa a demonstrar os primeiros sintomas de tuberculose. O fato de tentar amenizar a doença com cachaça – e de varar noites escrevendo – apenas piora suas condições.

1837 – Recupera-se parcialmente, mas deixa de escrever para os jornais. Em contrapartida, escreve quatro romances em poucos meses.

1838 – Sofrendo novamente graves crises de tuberculose, passa a maior parte do tempo em casa, ao lado de Cândida, enfermeira contratada pelos seus filhos.

1839 – Casa-se com Cândida. Publica seus últimos contos.

1840 – Morre no Rio de Janeiro, aos dezenove anos, em decorrência da tuberculose, deixando seu décimo romance incompleto.


O Código de Gordon

19 de janeiro de 2011

Enquanto isso, em Kashyyyk...

Ele: E como foi de festas? Tudo bem?

Eu: TURRRRFGH!

Ele: Que bom. Eu fiquei por aqui mesmo, e você viajou?

Eu: GHAAAAAFFHHHH!

Ele: É bom, né? Para descansar um pouco... Relaxar a cabeça.

Eu: GHIIIIMF!

Ele: E agora você já está de volta ao trabalho?

Eu: EEEEEEEHHHHTT!

Ele: É, as férias sempre passam rápido. Você pegou essa chuva vindo para cá?

Eu: AGGGGGHHHHHH!

Ele: E ela já está passando. Pelo menos para esses lados, acho que não vai chover.

Eu: GHAAAAAAAAAAGHA!

Ele: Olha como o céu está abrindo. Dá para ver daí?

Eu: AGHSSSSSSTTTTTTT!

Ele: Bom, terminamos. Semana que vem no mesmo horário?

Disse que sim e me despedi.

E estou até agora pensando: será que meu dentista nasceu no mesmo planeta do Chewbacca, ou ele apenas finge que entende o que eu falo?

16 de janeiro de 2011

Deus e o Gnomo na Terra das Carolinas

Os leitores mais antigos do blog sabem que é praticamente impossível – ao menos para mim – conseguir comprar carolinas na padaria aqui ao lado de casa. Bom, ao menos era, na época do post sobre o assunto. Hoje em dia, a equipe de funcionários da padaria já mudou e, com sorte, os confeiteiros que se recusavam a me vender carolinas saíram de lá escoltados por soldados a serviço da Onu, e foram direto para uma prisão internacional.

Assim, hoje é possível comprar carolinas ali. Não há mais cortes nos suprimentos visando inflacionar o valor dos doces no mercado negro, como acontecia antes. Agora, quem estiver em Pinheiros e quiser comer as carolinas daquela padaria precisa apenas se encostar ao balcão e pedir, como em qualquer outra padaria do mundo.

Quer dizer, “como em qualquer outra padaria do mundo” para as demais pessoas, não para mim. Porque comigo a coisa tem que ser no mínimo estranha, senão tem algo de errado. E foi o que aconteceu uma noite desses. Terminei de jantar na padaria e, ao me dirigir ao caixa, olhei a vitrine de doces.

Lá estava ela: uma montanha de carolinas, redondas, apetitosas, com sua cobertura de chocolate brilhando sob a luz de forma quase erótica. Antes mesmo que eu percebesse, já estava com o nariz encostado no vidro, encarando os docinhos como um mendigo na janela de um restaurante.

Como percebi que as outras pessoas estavam começando a olhar para mim, me levantei e fiquei esperando por um funcionário vir me atender, mas não havia ninguém no balcão. Olhei ao redor, procurando por alguém. Nada. Decidi esperar alguns minutos.

– O QUE VOCÊ VAI QUERER?

O grito fez com que eu desse um pulo para trás. Olhei para o outro lado do balcão. Não havia ninguém. Olhei ao meu redor, não havia ninguém por perto. E nenhuma pessoa da padaria estava olhando para mim, esperando por uma resposta. Certo de que eu estava imaginando coisas, decidi ficar quieto e não passar vergonha.

– VOCÊ É O PRÓXIMO A SER ATENDIDO?

Novamente, a voz vinha de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. Só havia uma explicação possível.

Deus estava falando comigo.

Porém, antes de ajoelhar e responder a Ele com humildade, considerei algumas coisas.

Ok, muita gente fala que Deus irá retornar um dia, mas será que Ele retornaria para trabalhar como confeiteiro em uma padaria? Bem aventurados os que pagam com dinheiro trocado porque é deles o Reino dos Céus? Não faz sentido. Ok, Ele escreve certo por linhas tortas, mas trabalhar numa padaria já seria demais.

Além disso, eu não sei se gostaria de ser atendido por Deus. Afinal, Ele sabe absolutamente tudo o que fiz na vida. Imagine a cena.

– Oi, sim, eu queria carolinas.

– Você não acha que devemos conversar primeiro? Sobre algumas coisas que você fez na escola?

– Tem que ser agora? Porque eu estou com um pouco de pressa e...

– Eu ainda me lembro dos seus boletins do primeiro colegial. Seu anjo da guarda quase foi procurar emprego no inferno, na época.

– Olhe, deixa. Eu não quero mais carolinas, mudei de ideia. Boa noite.

– Você não vai escapar fácil assim!

E pronto. Minutos depois, eu seria massacrado por dois anjos com espadas de fogo incumbidos de me punir por não conseguir tirar uma nota maior que quatro em matemática.

– VOCÊ JÁ ESCOLHEU?

O novo grito fez com que eu voltasse à realidade. A voz não vinha de todos os lugares, ela certamente vinha de trás do balcão. E da parte de baixo. E, no momento em que me debrucei sobre o balcão, encontrei, do outro lado, algo que desafiava totalmente a lógica, além de contrariar tudo aquilo no qual a humanidade – eu, em especial – conhecia.

Uma pessoa menor que eu.

Na verdade, uma pessoa muito menor que eu. Era uma mulher na casa dos cinquenta anos, com mais ou menos uns 70 centímetros de altura. Como ela não era anã, a única saída possível é que se tratava de um gnomo. Contudo, até onde eu sei, os gnomos tem cara de quem nasceu na Irlanda, e o rosto da atendente da padaria indicava que ela havia nascido em Minas Gerais. Talvez Goiás.

Por uma fração de segundos, temi que ela fosse um dos duendes que trabalham no supermercado Dia, no mesmo quarteirão, mas logo vi que não era o caso. Afinal, ela olhava para mim com vaga curiosidade, e os goblins daquele supermercado me odeiam com todas as forças desde que eu fui até lá comprar um saco de sal.

– Você não vai pedir?

Olhei para trás. Duas pessoas haviam chegado à padaria e estavam atrás de mim, esperando para ser atendidas. A primeira delas, um sujeito de gravata com cerca de 40 anos, parecia irritado com minha demora. Decidi pensar sobre a estagiária do banco do Harry Potter em casa, com calma.

– Eu queria 150g de carolinas.

– QUAIS CAROLINAS?

Aparentemente, ela não sabe falar sem gritar. Talvez ela seja tão pequena que tenha medo de não ser ouvida pelas outras pessoas. Eu já passei por situação parecida.

– Como assim, quais?

– QUAIS CAROLINAS?

Fiquei sem saber o que fazer. Não fazia ideia de que existiam outros tipos de carolina. Quem sabe carolinas com chocolate branco? Olhei para a vitrine abaixo de mim, mas não vi nada de diferente. Assim, apenas apontei a única pilha de carolinas que existia ali.

– Aquelas ali.

– SÃO 150 GRAMAS?

Aquilo começou a me irritar. Meu pedido não havia sito tão difícil de ser compreendido. E começou a irritar também as pessoas na fila – agora eram três – que, ao que tudo indica, estavam culpando a mim, e não a duende goiana pela demora.

– Sim. São 150g. De carolinas. Daquelas carolinas, respondi, apontando a pilha mais uma vez, para não deixar dúvidas.

– VOCÊ VAI LEVÁ-LAS NUM SACO?

Onde mais eu poderia levá-las? Antes que eu respondesse, porém, os tambores começaram a soar na minha cabeça.

Se você é novo aqui, eu explico: quando encontro alguém estranho, meus neurônios entram em uma espécie de transe – que envolve tambores e danças tribais ressoando cada vez mais alto na minha cabeça. Este ritual é a forma que eles encontram para pedir que eu solte uma resposta a) azeda; b) sarcástica; c) azeda e sarcástica; d) todas as anteriores.

Provavelmente, eles desejavam que eu respondesse algo como “não, não, eu vou levá-las dentro do meu tênis”, “imagine, eu vou sentar aqui no chão e comer”, “não, eu quero que elas sejam entregues em casa daqui a quatro anos, três meses e dois dias” ou “tenho uma ideia, eu fico ali atrás da geladeira de sorvete, você jogas as carolinas para mim e eu tento pegá-las com a boca, que tal?”. Isso faria com que eles explodissem de felicidade e passassem horas dançando e celebrando, pois os deuses haviam dado sinais de que a safra de azedume este ano seria excelente.

Mas resolvi me controlar e respondi apenas:

– Bom... Sim. Acho que sim. É o padrão, certo?

Ela ignorou minha pergunta e começou a colocá-las num saco branco. Colocou o saco na balança: 150g exatas. Pura mágica. Esse pessoal de Gringotes sabe mesmo como fazer contas. Me entregou o saco e perguntou:

– SOLAMENTE?

– Oi?

– SOLAMENTE?

Falar em espanhol foi demais. O barulho dos tambores se tornou ensurdecedor. Os neurônios dançavam, seminus, e gritavam palavras incompreensíveis. O mundo começou a rodar na minha frente. Se eu estivesse sozinho em casa, colocaria a mão nos ouvidos e gritaria “parem! por favor!”. De repente, a resposta começou a se formar dentro da minha mente. Surgiu do nada e começou a ganhar formas, letras, palavras. E, quando ela estava pronta, vermelha e brilhando feito metal quente no céu do mundo dos neurônios, o silêncio se fez.

Os neurônios pararam, feito estátuas e ficaram esperando para ver o que iria acontecer. Eu, sem controle algum sobre minha boca, apenas abri os lábios e a resposta, com vida própria, escapou por ali, ganhando vida dentro da padaria, em alto e bom som.

– Só lamento.

Nem foi uma resposta tão boa, mas era o que os neurônios queriam. Eles explodiram de felicidade, urrando em êxtase. Fogos de artifício explodiram nos céus. Os deuses haviam indicado que este ano seria o ano dos trocadilhos e eles dançariam por dias, como agradecimento por esta dádiva.

Paguei e fui para casa. Quando eu terminei de comer as carolinas, ainda era possível ouvir aquela turba dançando dentro do meu cérebro. Às vezes, meu crânio chacoalhava um pouco.

Tomei um Cefalium e fui para a cama.

Agora eu sei de onde vêm minhas crises de enxaqueca.




13 de janeiro de 2011

Pequena Jornada Musical

Quando eu era adolescente, criei o hábito de dormir ouvindo música. Começou quando meus pais me deram, de aniversário, um dos modelos da linha Moving Sound, da Philips. Os mais velhos devem se lembrar: eram três aparelhos, com uma pintura invocada sobre um fundo cinza, claramente feito para jovens.

Assim, eu passava as tardes fazendo coletâneas dos meus vinis para fitas, e, antes de dormir, colocava a fita para tocar. Assim, eu deitava e ficava apostando comigo quantas músicas eu conseguiria ouvir antes de apagar – o normal eram duas ou três. E eu ainda tinha a vantagem de que o aparelho de som desligava sozinho após a fita acabar, o que não deixava aquele negócio consumindo energia a noite inteira.

Às vezes não eram coletâneas que eu fazia, mas fitas compradas (especialmente das coisas que eu ouvia antes de descobrir o hard rock e o heavy metal): Ultraje a Rigor, Raul Seixas e o best of dos Beatles que eu citei neste texto aqui.

Aliás, talvez eu nunca tenha falado disso aqui antes, mas minha primeira grande paixão musical foi Raul Seixas – o primeiro K7 que comprei dele foi Uah-Bap-Lu-Bap-La-Béin-Bum, na extinta Sunbird, do Shopping Ibirapuera (hoje, existe uma Riachuelo naquele lugar). Em pouco tempo, tinha K7s e mais K7s dele, e sou um dos poucos fãs que encontra muito valor também na fase anos 80 dele, quando ele já mal conseguia fazer algo por causa da bebida.

Enfim, logo o heavy metal surgiu na minha vida, e dá-lhe coletâneas. Passava os dias gravando músicas dos vinis para K7. Ia até uma banca perto de casa e comprava fitas de 90 minutos, para conseguir encaixar mais músicas. E as coletâneas eram sempre ordenadas, com fitas separadas por bandas, e em ordem cronológica, seguindo os discos originais.

Mas admito que às vezes eu mandava a conta de luz à merda e dormia com o rádio ligado. E aí tem um fato curioso: toda vez que o rádio tocava, no meio da madrugada, Patience, do Guns, eu acordava. Toda vez. Eu sempre adorei a música – ela é extremamente importante para a minha formação musical – mas nunca imaginei que isso pudesse acontecer. E aconteceu três ou quatro vezes. Eu acordava, do nada, e o Axl Rose estava cantando que “all we need is Just a little patience” no rádio.

Aí surgiu o CD. E, com eles, as trilhas de filmes.

Eu simplesmente parei de escutar rock durante anos (sim, parei, totalmente) e me dediquei somente às trilhas de filmes. Eu já era apaixonado por cinema, mas era muito difícil achar trilhas boas para comprar (a exceção era a Breno Rossi) – cheguei até mesmo a, com doze ou treze anos, ficar com o gravador colado na TV gravando, pelo alto falante do aparelho, as músicas dos créditos de Os Caçadores da Arca Perdida, para ter a música. E se alguém falasse alguma coisa na sala, ou se o telefone tocasse – e ele sempre tocava – eu tinha que começar tudo de novo.

Enlouqueci com trilhas sonoras. Acho que comecei a comprar por causa do meu irmão. Um dia ele chegou em casa com um disco (vinil ainda) e não me mostrou o que era, apenas pediu para eu sentar e escutar. Ele colocou o bolachão e assim que os primeiros acordes do tema de Star Trek ressoaram (Tá-tá-táááá... Tá-tá-tá-tá-tá... Tá-tá!) eu dei um pulo e gritei um “caralho!” (seguido por um “olha a boca!” gritado da cozinha pela minha mãe).

Assim, com os CDs, minha paixão por trilhas explodiu. Não podia entrar numa loja de CDs sem ir vasculhar. Comecei pelo básico: John Williams. Quando eu percebi que já tinha tudo dele que realmente valia à pena (Star Wars, Indiana Jones, Tubarão, Superman, ET, Contatos Imediatos), parti para outros nomes, em especial Ennio Morricone – que, em minha opinião, é o maior compositor do século 20 e consequentemente da história do cinema.

E a maioria dos CDs eram importada e caríssima, Lembro de que quase dei uma festa quando consegui comprar um CD alemão do Era uma Vez na América e o mesmo quando consegui o CD de Os Intocáveis (se você um dia estiver na Teodoro Sampaio e ouvir alguém assoviando o tema de Al Capone (música 2 do CD), olhe ao redor porque eu estou por perto). Comprei os 2 numa Planet Music – um dos funcionários havia se tornado amigo meu por ter trabalhado em uma loja de quadrinhos de Moema, mas esta loja é outra história.

Tem um caso interessante com Apocalypse Now. Uma vez descobri o CD da trilha original do filme na Saraiva do Shopping Ibirapuera. Era duplo e importado – ou seja, dava praticamente para bancar uma refilmagem do longa com o dinheiro do CD. E eu jurei a mim mesmo que iria comprar aquilo, juntando dinheiro, moedas espalhadas em casa, perguntando se alguém na minha casa não queria comprar meu corpo.

Mas e o medo do CD ser vendido? Assim, todo dia eu ia à Saraiva, pegava o CD, atravessava a loja e o escondia na prateleira de sertanejos, onde eles estariam seguros. Todos os dias. Terminou que um grande amigo meu me deu o CD de aniversário – da forma mais legal do mundo: ele abriu o CD e tirou o encarte, colocando dentro de um envelope. Nunca esqueci disso.

Tem outras histórias também, como eu ter entrado em casa de joelhos jurando para minha mãe que eu seria o escravo particular dela pelo resto da vida se ela me arrumasse dinheiro para comprar a trilha do M. A. S. H., do Altman (importada, claro), que havia surgido na Saraiva – era um CD curioso, praticamente o filme gravado em áudio. E também quando comprei os caríssimos CDs da série Television Greatest Hits, com temas de seriados de TV (eram 65 músicas por CD), e eu e meus amigos fazíamos jogos de adivinhações com as músicas em casa.

Com isso, criei uma coleção razoável de trilhas sonoras – me orgulho de nunca ter visto alguns daqueles CDs em outro lugar que não seja na minha casa (caso do próprio M. A. S. H. e do Primavera para Hitler – o original do Mel Brooks).

A esta altura, eu já tinha um aparelho de CD no quarto e dormia ouvindo um deles.

Era quase um ritual. Passava, às vezes, dez minutos escolhendo qual CD iria ouvir antes de dormir. Curiosamente, a situação que teoricamente seria perfeita – comprar um CD e escutá-lo a primeira vez ao deitar para dormir – era horrível: como o CD era novo, eu não dormia antes de escutá-lo inteiro.

E, com o tempo, o bom filho a casa (do demônio) volta e o heavy metal retornou com força total na minha vida. Assim, minhas canções de ninar se tornaram Iron Maiden, Metallica, Faith No More.

– Entrei no seu quarto ontem e estava tocando Master of Puppets. Como você consegue dormir ouvindo isso?, perguntava meu irmão.

Não faço ideia. Mas dormia. Colocava o CD, pesadíssimo, e dormia feito bebê. Dormir com música era um dos melhores momentos do meu dia. Às vezes, eu estava em casa vendo TV à noite e só de imaginar que “daqui a pouco eu vou colocar um CD para ouvir e dormir” já me deixava feliz.

Mas às vezes eu brigava com o CD. Como eu durmo sempre na 2ª ou 3ª música, eu ouvia sempre as mesmas. Então, descobri o shuffle. Mas, como eu queria deitar ouvindo minha música preferida, ficava desligando o CD e ligando de novo até o shuffle escolher, como “música de abertura da noite”, a que eu queria. Aí, apagava a luz e dormia, brincando de adivinhar “qual será a próxima música?” até fechar os olhos e sonhar.

Fiz muito isso morando sozinho em Pinheiros (menos com os Cds de trilhas, que ainda estão na sala da casa dos meus pais) até que comprei uma estante para guardar meus livros e, pela configuração do móvel, meu aparelho teve que se mudar para a sala.

Aí eu já era uma pessoa com novos gostos, sendo o blues e muita coisa de rock clássico os mais importantes.

Mas eu não ouvia mais música antes de dormir – cheguei até mesmo a pensar em ligar o aparelho de som na sala e ir dormir no quarto, mas isso certamente renderia uma multa de condomínio. Assim, dormia em silêncio.

Isso até ontem. Ontem eu estava me sentindo híbrido (meio homem, meio merda) e decidi resolver isso. Coloquei um banco na frente da estante e o aparelho de som em cima dele. Peguei uma coletânea de música clássica, liguei e apaguei a luz.

Deitei ouvindo os primeiros acordes da 5ª Sinfonia de Beethoven, e acredito que dormi de verdade no meio do Concerto de Brandeburgo Nº 3, de Bach.

E acordei outra pessoa hoje. Sonhei a noite toda (eu PRECISO sonhar para descarregar o cérebro e encontrar respostas para algumas coisas) e quase perdi a hora de manhã. A sensação é que dormi por uma vinte horas.

Não vejo a hora de ir para casa dormir hoje.


10 de janeiro de 2011

A Origem de Cobra

Na escola, eu sempre tive problemas com as matérias ligadas às ciências. Bastava eu ouvir qualquer uma das palavras física, química e biologia e eu ficava totalmente arrepiado, precisando passar a tarde inteira no meu quarto, ouvindo heavy metal ou lendo quadrinhos, para me recuperar. Estas matérias, junto com Matemática (em especial seu desdobramento mais assustador, a temível Geometria), eram os quatro cavaleiros do meu apocalipse estudantil.

Chega a ser até mesmo engraçado, já que meu pai é engenheiro químico, minha mãe é bióloga e meu irmão é físico – todos formados pelas melhores universidades do país. Ou seja, a probabilidade de um prêmio Nobel parar na minha família é enorme – por outro lado, as chances percentuais de ele ser entregue em meu nome são praticamente negativas. Em termos de histórico escolar, eu sou praticamente um bastardo dentro de casa. Bastava eu receber meu boletim para desconfiar de ter sido adotado pelos meus pais – ou pior ainda, ser a cobaia de algum experimento realizado por aquela família de cientistas.

E cada aula destas matérias, no meu longo (muito longo, acreditem) e tenebroso inferno do colegial era um suplício. A prova disso é que minha memória bloqueou muita coisa, provavelmente temendo que o resto do meu cérebro não soubesse lidar com o trauma. Eu tenho blecautes profundos, que devem ser parecidos com aqueles experimentados pelos alcoólatras.

O maior exemplo disso diz respeito à química. Eu me lembro das duas ou três primeiras aulas do primeiro colegial, nas quais aprendi a ler a tabela periódica e depois aquele negócio de isótopos, isóbaros e isótonos. Aí veio o diagrama de Pauling, que é algo que nunca entendi. Depois disso, não me recordo de absolutamente nada.

Não estou falando que eu não entendi o que foi ensinado, estou falando que não sei o que foi ensinado. Há um espaço em branco no meu cérebro. Eu não faço ideia alguma do que foi discutido nas aulas de química. E isso durante todo o colegial. Alguns anos atrás, com um pouco de esforço, lembrei vagamente de alguns desenhos com as letras “O” e “H” e um monte de tracinhos (já me falaram que isso é química orgânica). Mas é só isso.

Já biologia e física eu me saí um pouco melhor. Em física, eu decorava as fórmulas. Quer dizer, eu escrevia todas elas a lápis na carteira antes da prova começar. Ou seja, eu colava. Assim que eu recebia a prova, anotava todas elas num canto da folha e apagava as da carteira. Se o professor perguntasse, eu diria apenas que “é um lembrete, porque é assim que eu estudo”, o que deveria ser considerado um ato legal.

Por outro lado, eu tinha boas notas em biologia, especialmente quando o assunto era o estudo dos reinos animal, vegetal e mineral. Mas aquilo não é difícil. Se você colocar na minha frente um cachorro, um jacarandá e uma pedra, eu consigo imediatamente identificar quem é quem. Agora, aquele negócio de estudar a célula, com todos os retículos endoplasmáticos, o complexo de Golgi (que para mim sempre teve nome de distúrbio psiquiátrico) e mais aquele batalhão de organelas era um inferno.

Cheguei a discutir uma vez com o professor sobre isso. Ele perguntou qual era a função de organela e eu não fazia ideia. Aí, começou aquele sermão sobre eu não prestar atenção na aula, atrapalhar os outros alunos... O discurso de praxe. Não agüentei.

– Mas eu não preciso saber o que um ribossomo faz.

– Evidente que você precisa.

– Não. Seja o que for que eles fazem, eles fizeram durante minha vida inteira, sem eu precisar mandar. Eles são grandinhos e responsáveis, não precisam da minha ajuda. Eles sabem exatamente o que precisam fazer.

– Rob, fora da minha aula.

– Ok. Mas vou levar meus ribossomos comigo.

A classe inteira riu. E eu tomei bomba no final do ano. E os ribossomos não devem nem ter ficado sabendo disso, o que me deu mais razão ainda.

Enfim, toda esta longa introdução foi apenas para dizer que se existe algo que eu definitivamente me recordo destas aulas no colegial é que o ser humano é um mamífero – eu poderia até falar que ele é um organismo baseado em carbono, mas isso eu aprendi vendo Jornada nas Estrelas, e não na escola. Mas o ponto é: o homem é um mamífero. Tenho certeza de que isso foi discutido em algum momento do colegial. Ou seja, o homem não voa. O homem não coloca ovos. O homem não respira embaixo d’água.

E, principalmente, o homem não troca de pele.

Ou, pelo menos, é o que eu achava. Isso, até me olhar semana passada no espelho. A princípio, me assustei. Será que minha calvície é tão poderosa que, além dos cabelos, eu também vou perder a pele da cabeça? Ou eu peguei um desvio errado na cadeia evolutiva?

Logo, vi que o fenômeno estava acontecendo com meu corpo inteiro. Eu estava trocando de pele. Camadas e mais camadas de pele caíam dos meus ombros e costas. E eu, claro, ficava puxando tudo – menos no peito, porque sempre puxava um pelo junto, gritando de dor.

Percorri minha memória, tentando me lembrar se eu havia sido mordido por uma lagartixa radioativa, mas foi em vão. Mas o processo continuava. Ou sou um mutante? Mas, se eu sou um mutante, eu devo ter um poder para compensar a perda de pele na cabeça. Tomara que seja telepatia, ou teletransporte. Ou a capacidade de fazer cinco textos ao mesmo tempo. Será que se eu cortar um pedaço do meu corpo, ele crescerá novamente? Melhor testar com um dedo, é mais seguro.

Mas, enquanto fico aqui, puxando camadas de pele do ombro, minha vontade é ligar para todos os professores de biologia que passaram pela minha vida, e dizer a eles:

– Você mentiu. E assim que eu tiver minha pele nova, você irá sentir minha fúria.

Talvez, para já deixar claro minha natureza reptiliana, seria legal esticar todos os “s”. “Assssssssim”, “ssssssssssentir”.

Ou, melhor ainda. Queria voltar no tempo, e quando algum professor explicar que nós somos mamíferos, levantar o braço e perguntar:

– O ssssssssenhor nunca foi à praia? Porque asssssss pessssssssoassssss desssssscasssssscam quando sssssse queimam no SSSSSSSSSol.

Eu poderia até mesmo aumentar o efeito dramático disso comendo uma mosca assim que terminasse de falar a frase, mas isso seria nojento demais – e deve ser bastante difícil pegar uma delas com a língua.


"Oi! Passssssssei o ano novo em Paraty. E você?"


Não, melhor esquecer os professores e lidar com a pele caindo. Espero que os ribossomos e lisossomos saibam o que está acontecendo comigo e resolvam isso urgentemente, porque estou me sentindo nojento. Besta-Fera inclusive já deixou claro que eu não posso dormir na cama enquanto não terminar esta transformação no meu corpo.

Assim, para evitar uma nova confusão biológica, a próxima vez que eu for à praia, vou entrar numa farmácia e pedir:

– Eu quero um SSSSSSSSSSSSundown. Fator Trêsssssssssssss Mil ou o maissssssssss indicado para um ataque nuclear. Quero todosssssssss ossssssssss frasssssssssssscossssssss.

Meu medo é se eu encontrar uma mosca enquanto estiver pagando.

Não vou aguentar.


5 de janeiro de 2011

Top 5 2010 - Posts

5 - Fórum – Experiências Sexuais Verídicas de Nossos Leitores
Uma das coisas mais difíceis que eu tento fazer no blog é apresentar as situações do cotidiano de forma criativa. Às vezes, não fico satisfeito em recheá-las de piadas, eu preciso criar algo em cima do formato do próprio texto (um exemplo é o post do Toddynho, que muita gente ainda se lembra). E poucas vezes eu me diverti tanto quanto ao fazer isso neste texto, que, além de brincar com o Besta-Fera (que é um personagem extremamente divertido de trabalhar), resgatou alguns dos meus primeiros textos. Sim, eu criava textos fictícios da Fórum (da antiga revista Ele & Ela) durante as aulas na faculdade para me divertir. E diversão aqui é a palavra-chave: afinal, você não conseguirá fazer alguém se divertir com seu texto se você não se diverte enquanto o escreve.


4 - Cicilho
Impressionante como uma palavra pode mudar um texto inteiro. Escrever o texto foi fácil, difícil foi segurar a risada durante a ligação. Não, minto. Escrever o texto não foi tão fácil assim. Assim que a ligação terminou, eu reproduzi todo o diálogo e o transformei em crônica em alguns minutos, mas não estava satisfeito com ele. Estava apenas uma transcrição, faltava alguma coisa. Foi quando eu tive a ideia de transformar o nome do meu alterego, de Cecílio para Cicilho. Eu estava sozinho na redação – era tarde da noite – e a primeira vez que li o “Cicilho” escrito na minha frente, gargalhei a ponto de passar mal na minha mesa. E era um dia que eu precisava demais de uma gargalhada dessas.


3 - Fome de Viver
Ninguém reparou, mas o post sobre os meus exames médicos é quase uma saga condensada em um único texto. Basta ler com atenção para ver que cada um dos exames é um trecho independente, com situações totalmente diversas e estilos diferentes. Coloquei tudo num único texto por dois motivos: o primeiro é que não tinha certeza (até hoje não tenho) se cada exame poderia ser desenvolvido como um post único. Acho que não. E segundo porque tive receio da médica “alemã” que comandou meu teste ergométrico ficasse muito parecida com o Herr Direktor de Saúde deste post aqui. Assim, os exames acabaram virando um post só, mas isso é positivo já que eu percebi que os leitores não apenas suportam como gostam de um texto com piadas tão distintas. Pessoalmente, tenho muito orgulho do trecho das lambidas na televisão, e dou risada dele até hoje.


2 - Star Trek - Primeiro (e último) Contato
Como fã de Jornada nas Estrelas, escrever este texto foi umas das coisas mais divertidas que fiz nestes anos de blog. E, por mais que eu sempre tive vontade de fazer algo neste estilo, eu não ficava caçando ideias para criar este post – um dia, fui até o boteco comprar Coca e a ideia pipocou na minha cabeça, quando eu estava pagando. Voltei correndo para a minha mesa (no elevador, já tinha metade do texto rabiscado na minha cabeça), sentei e escrevi de uma tacada só. Acho que nem todos os personagens centrais têm graça no texto, mas meu lado “fã” fez questão de usar todos os principais, de acordo com a personalidade de cada um. E me lembro de ter aprendido o valor de um bordão ao escrever este texto – toda vez que acho que a história está derrapando ou se perdendo, eu faço o Spock soltar um “fascinante”, e o texto entra no rumo novamente. Até hoje releio este texto de tempos em tempos e morro de rir com as legendas das fotos, especialmente a que mostra o Kirk conversando com Spock.


1 - Série Uma Vida em Copas
Pode parecer exagero, mas escrever alguns dos textos foi semelhante a meses de terapia, fazendo com que eu percebesse o motivo de muitas das minhas características, além de fazer as pazes com diversos elementos do meu passado – apesar do post sobre a Copa de 78 ser quase um exercício de imaginação. Cada texto da série tem uma história de bastidores, mas dois deles têm significado especial: o primeiro é o da Copa de 1982, que eu tive que parar de escrever duas ou três vezes, de tanto que eu chorava; e o outro foi a da Copa de 1994. Desde o primeiro texto, os leitores se mostraram ansiosos por este e, quando chegou a vez de escrevê-lo, eu senti um pouco de receio, achava que não sairia algo à altura do que as pessoas estavam esperando. O alívio (como escritor e como pessoa) quando eu publiquei foi tão grande que até hoje eu acho que o texto seguinte, da Copa de 1998, é meio perdido, quase como se eu tivesse terminado tudo o que queria dizer em 1994, e estivesse começando uma nova série. Mas, no conjunto, nenhum texto que escrevi em toda a minha vida foi tão importante quanto esta série, especialmente em termos pessoais.

Top 5 2010 - Séries


5 – Walking Dead
Fanático pelos quadrinhos Walking Dead já há anos – bem antes do hype causado pelo seriado – confesso que já me sentei um pouco “vendido” para assistir à série. Não é segredo para ninguém que sou fã de filmes de zumbis e a trama consegue resgatar o clima dos longas apocalípticos de George Romero, com o mundo entregue ao caos e personagens altamente humanos – não espere por heróis, as pessoas fazem (muitas) besteiras numa situação dessas. E, como toda boa história de mortos vivos, os zumbis não são os vilões, mas sim o cenário.





4 – Mad Men
É uma pena que somente a 1ª temporada desta série tenha sido lançada em DVD no Brasil – nos Estados Unidos, ela está presente em todas as premiações desde sua criação. E com justiça, já que o mundo dos publicitários da Nova York do início dos anos 60 esbanja roteiros de qualidade (com muito sexo e bebidas) e personagens inesquecíveis, em especial o enigmático e talentoso Don Draper (a forma com que o episódio piloto constrói a personalidade dele deveria ser usada como exemplo em todos os cursos de roteiro).





3 – The Office
Steve Carrell é um gênio. Se em seus trabalhos no cinema ele é “apenas” talentoso, em The Office ele mostra porque é o maior comediante de sua geração, em cenas de fazer o espectador perder o ar de tanto rir, muito bem assessorado por um elenco absurdamente afiado. Mas é preciso se acostumar com o seriado, já que seu grande charme da produção continua sendo o fato de ser um reality show fake – preste atenção aos personagens olhando discretamente para as câmeras nos (muitos) momentos constrangedores que acontecem no escritório da Dunder & Mifflin.




2 – Deadwood
Esqueça os westerns estrelados por Johyn Wayne e Gary Cooper. A pequena cidade de Deadwood é um lugar imundo, tanto física quanto moralmente, sem heróis. E um dos grandes trunfos dos roteiros é justamente não ter um personagem central – apesar de, evidentemente, alguns serem mais freqüentes que outros – mas sim a cidade como um todo, que, assim como a maioria dos personagens, é real. Com a qualidade típica das produções da HBO, a série praticamente reinventa o gênero, com episódios repletos de diálogos que fariam muitos roteiristas de cinema babarem de inveja e um personagem inesquecível: o britânico Al Swearengen, dono de um saloon e talvez o melhor vilão já criado em uma série de TV.




1 - Sopranos
É um seriado que beira a perfeição. Diálogos, roteiros, personagens: tudo parece ser lapidado a dedo nesta obra que apresenta o mundo do crime organizado nos Estados Unidos de forma inesquecível, com uma inteligência que faz com que alguns episódios sejam assistidos de joelhos. Os roteiros acompanham o cotidiano do chefão Tony Soprano, comandante de uma pequena família de New Jersey, às voltas com inimigos (muitas vezes mais próximos do que gostaria), transações escusas, amantes desequilibradas e problemas dentro de casa, com a esposa e os filhos. Isso, claro, sem falar na sua própria crise de meia-idade, que o leva, já no episódio piloto, para sessões de terapia. A última cena do seriado, criticada por muitas pessoas pelo final dúbio, é a coisa mais genial que vi em uma série de TV.

Top 5 2010 - Livros & Quadrinhos


5 – Escaping the Delta
Escrito por Elijah Wald, este livro narra os primórdios do blues nos Estados Unidos, quando o gênero vivia somente nos campos e estradas lamacentas do sul dos Estados Unidos. Assim, o autor explora os principais artistas do blues e o início da indústria de “discos raciais”. Além disso, como o nome indica, ele destrincha o mito de Robert Johnson, cuja vida e morte sempre foram cercadas de mistério (possui nada menos que três sepulturas diferentes e teria vendido a alma ao diabo) e que se tornou um dos guitarristas mais influente de todos os tempos com somente 29 músicas gravadas.




4 – Nevasca
Após os livros de William Gibson definirem a ficção científica cyberpunk, este romance leva o gênero adiante, transportando o leitor para dentro de um universo que se divide em dois mundos, o real e o virtual (que se assemelha a um 2nd Life de forma quase predecessora – o livro foi escrito em 1992 e deu origem ao termo “metaverso”). A trama, que mostra o hacker Hiro Protagonist (ou “Protagonista Herói”, como queiram) ao lado da jovem punk T. A. lidando com um vírus novo potente faz alusões à mitologia, religião, internet com cenas de ação que certamente serviram de manual para os irmãos Wachowski criarem Matrix.




3 - Y: The Last Man
Em 17 de julho de 2002, todos os homens e animais machos do planeta morreram misteriosamente ao mesmo momento. A única e misteriosa exceção é o jovem Yorick Brown, que sobreviveu ao lado de seu macaquinho Ampersand. Assim, esta série de quadrinhos com 60 edições narra as desventuras do rapaz (ao lado de uma agente secreta incumbido de protegê-lo) perseguido e caçado num mundo apocalíptico, com governo e economia esfacelados e habitado por amazonas que encaram a morte dos homens como uma dádiva entre outros tipos estranhos e perigosos.






2 – Duna
Em termos de grandiosidade, a saga criada por Frank Herbert equipara-se, na literatura fantástica, somente a O Senhor dos Anéis. Com quase vinte livros publicados (sendo que somente seis foram escritos por ele), o universo de Duna é riquíssimo, mesclando religião e política (leia-se guerras, traições e intrigas palacianas). O livro que dá origem a tudo narra como os membros da família Atreides (em especial o jovem Paul Atreides) recebem o direito de explorar o planeta Arrakis, fonte de uma especiaria importantíssima para o comércio na galáxia. Uma obra-prima.





1 - Apocalipse Z
Enquanto livros sobre vampiros – independente da qualidade – pipocam nas livrarias a cada dia, obras sobre mortos vivos parecem relegadas a segundo plano. Ao lado de Guerra Mundial Z, este Apocalipse Z (que nasceu como blog) faz a alegria dos fãs do gênero ao narrar o cotidiano de um jovem advogado espanhol que tenta sobreviver em meio a uma infestação de mortos vivos ao lado de seu gato. Mesclando o clima dos filmes de George Romero com pitadas de Eu Sou a Lenda (o livro, não o filme), é leitura obrigatória para quem gosta do tema.

Top 5 2010 - Música


5 – Muddy Waters

Se em 2009 eu comecei a ouvir blues de forma mais séria, 2010 foi o ano em que me “especializei” em alguns nomes do gênero, como John Lee Hooker e Robert Johnson. Contudo, poucas coisas foram mais tocadas na minha casa neste período que Muddy Waters. Fazendo mágica na guitarra, e com uma voz que fica no meio termo entre solidão e luxúria, Waters ganhou espaço definitivo na minha vida com músicas doloridas e quase hipnóticas, carregadas de apelo sexual e malandragem, e que servem como grande embrião do rock.





4 – The Big Four
Nascido no início dos anos 80, o trash metal norte-americano tornou-se uma das maiores vertentes do heavy metal não apenas no mundo, como na minha vida. Este show – que foi exibido nos cinemas – reúne, pela primeira vez, as quatro maiores bandas do estilo: Anthrax, Slayer, Megadeth e Metallica, tocando juntas em Sofia. Riffs alucinantes, solos enlouquecedores e um momento histórico, com membros dos quatro grupos dividindo o palco durante uma performances do hino Am I Evil, do Diamond Head.





3 – The Final Frontier
Os fãs mais xiitas reclamando de todos os discos novos do Iron Maiden, reclamando que os novos trabalhos da banda passam longe de álbuns como The Number of the Beast e Powerslave. E é verdade, visto que a banda consegue a proeza de se reinventare modernizar a cada disco, mas sem nunca deixar de soar como o Iron Maiden. Este longa, que gira em torno de ficção científica na maioria de suas músicas (o título do disco é uma referência a Star Trek) ilustra isto muito bem, sobretudo na primeira canção, Sattellite 15... The Final Frontier e sua introdução memorável.





2 – Show do Metallica
Confesso que fui ao show de forma despretensiosa, já que eu, como qualquer outra pessoa, havia me decepcionado bastante com os últimos álbuns do Metallica. Para minha surpresa, assisti a um dos melhores shows da minha vida, com uma banda que, mesmo esbanjando experiência nos palcos, tocou cada música com a garra de um grupo iniciante, alternando boas músicas do disco novo e clássicos obrigatórios – de quebra, a abertura foi com Creeping Death, minha canção preferida deles. Foi a noite em que eu e uma das bandas mais importantes da minha vida fizemos as pazes.





1 – Show do Paul McCartney
Se eu tiver que escolher o melhor show que assisti na vida, talvez eu escolha a apresentação do Iron Maiden na turnê Somewhere Back in Time. Isso porque o show do Paul McCartney não iria nem concorrer – aos meus olhos, o que aconteceu naquela noite está em outro patamar. Listar as melhores músicas ou os momentos inesquecíveis daquela noite é uma tarefa quase impossível. Mas quando você assiste a um beatle cantando A Day in the Life na sua frente, sua vida muda. E muda para o bem, pois você sabe que está vendo a história acontecer na sua frente, como para o mal, já que você sente que nunca mais verá algo parecido dentro de um show.

Top 5 2010 - Cinema


5 - Ilha do Medo
Em seu quarto filme, a parceria entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio finalmente chegou à maturidade neste suspense psicológico. O roteiro é quase um primor e DiCaprio mostra, cada dia mais, que realmente virou um ator de verdade. Mas o grande trunfo do filme é mesmo a direção de Scorsese que, seguindo o exemplo de Alfred Hitchcock, esbanja inteligência ao enganar a platéia o tempo inteiro, da forma que desejar.





4 – Como Treinar o Seu Dragão

Num ano comandado por animações, este projeto da DreamWorks chegou aos cinemas sem fazer muito alarde, visto que o estúdio estava mais interessado em promover o quarto Shrek. Contudo, é um dos melhores títulos da história do estúdio, com uma história encantadora, repleta de cenas de aventura e uma dupla de personagens centrais (o pequeno garoto viking e seu dragão) que mostra uma química de fazer inveja a muitos atores de carne e osso.





3 – O Segredo dos Seus Olhos
Premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, este longa argentino mescla inteligência e sensibilidade de uma forma poucas vezes vista, especialmente nos últimos anos. Seu roteiro, mesmo com ares de filmes policial, é um verdadeiro tratado sobre amor, paixão e a passagem do tempo. E de quebra comprova definitivamente que Ricardo Darin é, ao lado de Javier Bardem, um dos maiores atores desta geração.



2 – Toy Story 3
Após os excelentes Wall-E e Up – Altas Aventuras, a Pixar continua seu reinado sobre o mundo das animações mostrando, ano após ano, que o gênero pode ser tudo, menos infantil. Neste capítulo que encerra a trilogia sobre os brinquedos do menino Andy (agora crescido), há de tudo: aventura, comédia, suspense e romance, na medida exata. Mas sua grande qualidade é explorar os personagens centrais e as amizades entre eles de uma forma que torna impossível não chorar rios dentro dos cinemas.





1 – A Origem
Para desespero dos intelectualóides de plantão, existe vida inteligente no cinemão americano. E, atualmente, o diretor Chris Nolan é um dos grandes responsáveis por isso. Após o brilhante O Cavaleiro das Trevas, ele repete a dose com este longa estrelado por Leonardo DiCaprio (e um elenco de apoio invejável), apresentando uma trama ambientada no mundo dos sonhos, com ares de filme noir e costurada com uma precisão cirúrgica de fazer inveja a muitos filmes do circuito de arte.

4 de janeiro de 2011

Bastidores

Blogueiro 1: Que tal "Rubro"?

Blogueiro 2: É que eu tenho um chamado “Vermelho”. Ainda assim?

Blogueiro 1: Espera.

Blogueiro 2: Pensei em algo com "Aconselhamento". Ttirar o foco do sangue. “Vivência", ou...

Blogueiro 1: Não, o sangue é a chave aí. É forte demais pra ficar sem o foco.

Blogueiro 2: Hmm... Hemorragias é muito nojento?

Blogueiro 1: Muito, lembra hemorróida.

Blogueiro 2: ahahuahua

Blogueiro 1: "Gotas". "Lágrimas". "Rubro"

Blogueiro 2: Rubro Choro é ruim, me lembra Negro Gato.

Blogueiro 1: Vou viajar. As lágrimas dela mancharam a toalha. A vida dos dois, pro bem e pro mal, estão manchadas também.

Blogueiro 2: "Mancha"?

Blogueiro 1: Algo nesse caminho.

Blogueiro 2: "Mácula"?

Blogueiro 1: Não, isso é mais pra “deixar de ser puro”. "Sangue bão". hahahaha

Blogueiro 2: AUHAhuaHUAhuaHUA

Blogueiro 1: Cara, acho que encontrei. Vamos brincar em cima de sangue. Tipo AB negativo.

Blogueiro 2: Pensei nisso também. Transfusão, Doador Universal. O Negativo. O NEGATIVO!

Blogueiro 1: Então, eu pensei nesse logo de cara, mas o "O" fica com cara de artigo. O negativo / A negativa

Blogueiro 2: Sim. Essa é a coisa. Você lê como se fosse "O Sangue", "O Carro", mas tem o sangue escondido. E combina com os "já era", "não tem mais volta" do texto.

Blogueiro 1: Pode ser, acho que funciona. Agora, o que você acha de ir alem na brincadeira? "O(s) Negativo(s)". Assim fica sendo sobre o sangue e sobre eles.

Blogueiro 2: Boa. Com os S entre parênteses mesmo, né?

Blogueiro 1: Isso.

Blogueiro 2: Já era. Estou postando. Feito.




3 de janeiro de 2011

A Aurora do Homem

Não foi muito tempo. Somente quatro dias.

Este foi o período em que fiquei sem sequer chegar perto de um PC e mal usando o celular. Mas o suficiente para eu desaprender tudo.

Passei boa parte da manhã sentado na minha mesa estudando o teclado com a desenvoltura de um homem de Neandertal, maravilhado com aquele instrumento. Passava os dedos por ele, reconhecendo alguns dos símbolos em suas teclas, e maravilhado com um botão grande sem símbolo algum, localizado na parte inferior.

Passei boa parte da manhã também mexendo no mouse e encantado com o fato de que, na tela à minha frente, uma flechinha acompanhava todos os meus movimentos. Ainda limitado dentro da minha pré-história, cheguei até mesmo a olhar atrás da tela para ver se não tinha alguma outra pessoa (ou até mesmo uma divindade) mexendo a setinha. Não tinha ninguém. Era eu mesmo quem controlava aquela setinha na seta.

Sou o senhor da setinha!

Agora que dominei a setinha – um avanço tecnológico incrível para quem está apenas no terceiro dia do ano – é hora de começar a escrever.

Preciso fazer os tops 5 de 2010, e, claro, os posts da viagem.

Mas não consigo me concentrar. Fico apertando incansavelmente aquele botão comprido e sem símbolo algum, tentando entender porque ele faz um barulho diferente dos outros, menores.

Mas... Que barulho é esse? Parece um pássaro... Será que é o botão comprido? Não, não é. Parei de apertar e o barulho continuou.

Acho que vem dessa caixinha preta aqui ao lado. Eu me lembro disso. Como é mesmo o nome disso? Tem a ver com biologia... Ecossistema? Recessivo? Citoplasma?

Não... Não é isso. Mas é perto de citoplasma. Citoplasma... Núcleo... Célula!

Celular!

Lembrei! Isso é um telefone!

Observei a telinha. Um número que não conheço. Pelo tamanho, de outra cidade. Atendi.

– Alô?

– Já falei com ele e está tudo certo. Você vai pegar o Palio. Ele vai deixar a chave em cima da roda dianteira, da mesma forma que fez com o Golzinho. E vai estar no mesmo lugar. Resolve isso, por favor.

– Oi?

– Não tem o que errar. Só procurar a chave na roda e pegar o carro. Aí a gente vê o que faz. Abração.

– É... Ok. Abraços.

Suspirei. Finalmente, me lembrei de tudo.

Meu nome é Rob Gordon.

E, aparentemente, o ano promete.