16 de janeiro de 2011

Deus e o Gnomo na Terra das Carolinas

Os leitores mais antigos do blog sabem que é praticamente impossível – ao menos para mim – conseguir comprar carolinas na padaria aqui ao lado de casa. Bom, ao menos era, na época do post sobre o assunto. Hoje em dia, a equipe de funcionários da padaria já mudou e, com sorte, os confeiteiros que se recusavam a me vender carolinas saíram de lá escoltados por soldados a serviço da Onu, e foram direto para uma prisão internacional.

Assim, hoje é possível comprar carolinas ali. Não há mais cortes nos suprimentos visando inflacionar o valor dos doces no mercado negro, como acontecia antes. Agora, quem estiver em Pinheiros e quiser comer as carolinas daquela padaria precisa apenas se encostar ao balcão e pedir, como em qualquer outra padaria do mundo.

Quer dizer, “como em qualquer outra padaria do mundo” para as demais pessoas, não para mim. Porque comigo a coisa tem que ser no mínimo estranha, senão tem algo de errado. E foi o que aconteceu uma noite desses. Terminei de jantar na padaria e, ao me dirigir ao caixa, olhei a vitrine de doces.

Lá estava ela: uma montanha de carolinas, redondas, apetitosas, com sua cobertura de chocolate brilhando sob a luz de forma quase erótica. Antes mesmo que eu percebesse, já estava com o nariz encostado no vidro, encarando os docinhos como um mendigo na janela de um restaurante.

Como percebi que as outras pessoas estavam começando a olhar para mim, me levantei e fiquei esperando por um funcionário vir me atender, mas não havia ninguém no balcão. Olhei ao redor, procurando por alguém. Nada. Decidi esperar alguns minutos.

– O QUE VOCÊ VAI QUERER?

O grito fez com que eu desse um pulo para trás. Olhei para o outro lado do balcão. Não havia ninguém. Olhei ao meu redor, não havia ninguém por perto. E nenhuma pessoa da padaria estava olhando para mim, esperando por uma resposta. Certo de que eu estava imaginando coisas, decidi ficar quieto e não passar vergonha.

– VOCÊ É O PRÓXIMO A SER ATENDIDO?

Novamente, a voz vinha de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. Só havia uma explicação possível.

Deus estava falando comigo.

Porém, antes de ajoelhar e responder a Ele com humildade, considerei algumas coisas.

Ok, muita gente fala que Deus irá retornar um dia, mas será que Ele retornaria para trabalhar como confeiteiro em uma padaria? Bem aventurados os que pagam com dinheiro trocado porque é deles o Reino dos Céus? Não faz sentido. Ok, Ele escreve certo por linhas tortas, mas trabalhar numa padaria já seria demais.

Além disso, eu não sei se gostaria de ser atendido por Deus. Afinal, Ele sabe absolutamente tudo o que fiz na vida. Imagine a cena.

– Oi, sim, eu queria carolinas.

– Você não acha que devemos conversar primeiro? Sobre algumas coisas que você fez na escola?

– Tem que ser agora? Porque eu estou com um pouco de pressa e...

– Eu ainda me lembro dos seus boletins do primeiro colegial. Seu anjo da guarda quase foi procurar emprego no inferno, na época.

– Olhe, deixa. Eu não quero mais carolinas, mudei de ideia. Boa noite.

– Você não vai escapar fácil assim!

E pronto. Minutos depois, eu seria massacrado por dois anjos com espadas de fogo incumbidos de me punir por não conseguir tirar uma nota maior que quatro em matemática.

– VOCÊ JÁ ESCOLHEU?

O novo grito fez com que eu voltasse à realidade. A voz não vinha de todos os lugares, ela certamente vinha de trás do balcão. E da parte de baixo. E, no momento em que me debrucei sobre o balcão, encontrei, do outro lado, algo que desafiava totalmente a lógica, além de contrariar tudo aquilo no qual a humanidade – eu, em especial – conhecia.

Uma pessoa menor que eu.

Na verdade, uma pessoa muito menor que eu. Era uma mulher na casa dos cinquenta anos, com mais ou menos uns 70 centímetros de altura. Como ela não era anã, a única saída possível é que se tratava de um gnomo. Contudo, até onde eu sei, os gnomos tem cara de quem nasceu na Irlanda, e o rosto da atendente da padaria indicava que ela havia nascido em Minas Gerais. Talvez Goiás.

Por uma fração de segundos, temi que ela fosse um dos duendes que trabalham no supermercado Dia, no mesmo quarteirão, mas logo vi que não era o caso. Afinal, ela olhava para mim com vaga curiosidade, e os goblins daquele supermercado me odeiam com todas as forças desde que eu fui até lá comprar um saco de sal.

– Você não vai pedir?

Olhei para trás. Duas pessoas haviam chegado à padaria e estavam atrás de mim, esperando para ser atendidas. A primeira delas, um sujeito de gravata com cerca de 40 anos, parecia irritado com minha demora. Decidi pensar sobre a estagiária do banco do Harry Potter em casa, com calma.

– Eu queria 150g de carolinas.

– QUAIS CAROLINAS?

Aparentemente, ela não sabe falar sem gritar. Talvez ela seja tão pequena que tenha medo de não ser ouvida pelas outras pessoas. Eu já passei por situação parecida.

– Como assim, quais?

– QUAIS CAROLINAS?

Fiquei sem saber o que fazer. Não fazia ideia de que existiam outros tipos de carolina. Quem sabe carolinas com chocolate branco? Olhei para a vitrine abaixo de mim, mas não vi nada de diferente. Assim, apenas apontei a única pilha de carolinas que existia ali.

– Aquelas ali.

– SÃO 150 GRAMAS?

Aquilo começou a me irritar. Meu pedido não havia sito tão difícil de ser compreendido. E começou a irritar também as pessoas na fila – agora eram três – que, ao que tudo indica, estavam culpando a mim, e não a duende goiana pela demora.

– Sim. São 150g. De carolinas. Daquelas carolinas, respondi, apontando a pilha mais uma vez, para não deixar dúvidas.

– VOCÊ VAI LEVÁ-LAS NUM SACO?

Onde mais eu poderia levá-las? Antes que eu respondesse, porém, os tambores começaram a soar na minha cabeça.

Se você é novo aqui, eu explico: quando encontro alguém estranho, meus neurônios entram em uma espécie de transe – que envolve tambores e danças tribais ressoando cada vez mais alto na minha cabeça. Este ritual é a forma que eles encontram para pedir que eu solte uma resposta a) azeda; b) sarcástica; c) azeda e sarcástica; d) todas as anteriores.

Provavelmente, eles desejavam que eu respondesse algo como “não, não, eu vou levá-las dentro do meu tênis”, “imagine, eu vou sentar aqui no chão e comer”, “não, eu quero que elas sejam entregues em casa daqui a quatro anos, três meses e dois dias” ou “tenho uma ideia, eu fico ali atrás da geladeira de sorvete, você jogas as carolinas para mim e eu tento pegá-las com a boca, que tal?”. Isso faria com que eles explodissem de felicidade e passassem horas dançando e celebrando, pois os deuses haviam dado sinais de que a safra de azedume este ano seria excelente.

Mas resolvi me controlar e respondi apenas:

– Bom... Sim. Acho que sim. É o padrão, certo?

Ela ignorou minha pergunta e começou a colocá-las num saco branco. Colocou o saco na balança: 150g exatas. Pura mágica. Esse pessoal de Gringotes sabe mesmo como fazer contas. Me entregou o saco e perguntou:

– SOLAMENTE?

– Oi?

– SOLAMENTE?

Falar em espanhol foi demais. O barulho dos tambores se tornou ensurdecedor. Os neurônios dançavam, seminus, e gritavam palavras incompreensíveis. O mundo começou a rodar na minha frente. Se eu estivesse sozinho em casa, colocaria a mão nos ouvidos e gritaria “parem! por favor!”. De repente, a resposta começou a se formar dentro da minha mente. Surgiu do nada e começou a ganhar formas, letras, palavras. E, quando ela estava pronta, vermelha e brilhando feito metal quente no céu do mundo dos neurônios, o silêncio se fez.

Os neurônios pararam, feito estátuas e ficaram esperando para ver o que iria acontecer. Eu, sem controle algum sobre minha boca, apenas abri os lábios e a resposta, com vida própria, escapou por ali, ganhando vida dentro da padaria, em alto e bom som.

– Só lamento.

Nem foi uma resposta tão boa, mas era o que os neurônios queriam. Eles explodiram de felicidade, urrando em êxtase. Fogos de artifício explodiram nos céus. Os deuses haviam indicado que este ano seria o ano dos trocadilhos e eles dançariam por dias, como agradecimento por esta dádiva.

Paguei e fui para casa. Quando eu terminei de comer as carolinas, ainda era possível ouvir aquela turba dançando dentro do meu cérebro. Às vezes, meu crânio chacoalhava um pouco.

Tomei um Cefalium e fui para a cama.

Agora eu sei de onde vêm minhas crises de enxaqueca.




15 comentários:

Isabel Barros disse...

Adorei!!
Faz tempo que não ria tanto, viu.
Ainda bem que SEMPRE estou de dieta e não corro o risco de passar nem na porta desta padaria.

Abraços

Moreira disse...

"e o rosto da atendente da padaria indicava que ela havia nascido em Minas Gerais. Talvez Goiás."


nós de minas temos uma cara espefícica? rs


muito bom, robbb

Perci Carvalho disse...

nháá.. que saudades de vir aqui ^__^


poxa...eu bem que podia ter pedido pro meu namorado descobrir que padaria era essa e me trazer carolinas nos poucos meses que ele trabalhou aí em sp... em pinheiros..

mas nem lembrei :/


agora licença... tem provavelmente 1 zilhao de posts que eu nao li ainda... bjo Rob!

Ana disse...

Eu ri. Muito.
Nem vou citar aqui as melhores partes pq são mtas.

Varotto disse...

Título alternativo: Willow na terra das Carolinas ;o)

Fabi disse...

"– SOLAMENTE?" foi maravilhoso.

Kika disse...

Rob, quanto leio algum post sobre o seu tamanho, imediatamente volto ao livro "A Chave do Tamanho", do Lobato. Garanto que ali você iria tirar as intempéries por ser pequeno de letra! ;)

Dragus disse...

Gostei do título alternativo do Varotto.

Cuidado com essas pessoas, elas podem te capturar e colocar você de ingrediente.

pettoruti disse...

Todo mundo toma Cefalium agora?

Renata de Toledo disse...

Ai!! Minha barriga está doendo até agora de tanto rir da imagem mental que eu formei de você atrás do freezer de sorvetes tentando abocanhar as carolinas arremessadas pela fadinha da padaria.....

Rafael disse...

"Só lamento"?
esperava mais do mestre...
Mas a historia foi muito boa, quase acreditei, o q te desmascarou foi o fato d vc conseguir as carolinas tao facilmente, ja q da ultima vez vc quase fez o atendente sofrer um derrame...

Marina disse...

"Esse pessoal de Gringotes sabe mesmo como fzer contas..."

Hhahuahuahauhau"

Alessandra Costa disse...

“não, não, eu vou levá-las dentro do meu tênis" hahahah
Fazia tempo que eu não ria tanto com um post, muito bom.

Larissa Bohnenberger disse...

Lágrimas escorrem pelo meu rosto. Lágrimas de tanto rir, é claro, já que este foi um dos textos mais engraçados que você já escreveu. Mas também lágrimas de emoção. Porque, veja só, foi com a saga das Carolinas que eu conheci e comecei a ler o Champ Vinyl... tãnãnãnãnã... ah, parece que foi ontem...

Bjs!

Gabi Bianco disse...

No nosso próximo almoço, gritarei "go long" e jogarei as batatas fritas e você as pegará com a boca, enquanto o Eric tenta te derrubar, uma coisa meio rugby. Estamos combinados.