10 de janeiro de 2011

A Origem de Cobra

Na escola, eu sempre tive problemas com as matérias ligadas às ciências. Bastava eu ouvir qualquer uma das palavras física, química e biologia e eu ficava totalmente arrepiado, precisando passar a tarde inteira no meu quarto, ouvindo heavy metal ou lendo quadrinhos, para me recuperar. Estas matérias, junto com Matemática (em especial seu desdobramento mais assustador, a temível Geometria), eram os quatro cavaleiros do meu apocalipse estudantil.

Chega a ser até mesmo engraçado, já que meu pai é engenheiro químico, minha mãe é bióloga e meu irmão é físico – todos formados pelas melhores universidades do país. Ou seja, a probabilidade de um prêmio Nobel parar na minha família é enorme – por outro lado, as chances percentuais de ele ser entregue em meu nome são praticamente negativas. Em termos de histórico escolar, eu sou praticamente um bastardo dentro de casa. Bastava eu receber meu boletim para desconfiar de ter sido adotado pelos meus pais – ou pior ainda, ser a cobaia de algum experimento realizado por aquela família de cientistas.

E cada aula destas matérias, no meu longo (muito longo, acreditem) e tenebroso inferno do colegial era um suplício. A prova disso é que minha memória bloqueou muita coisa, provavelmente temendo que o resto do meu cérebro não soubesse lidar com o trauma. Eu tenho blecautes profundos, que devem ser parecidos com aqueles experimentados pelos alcoólatras.

O maior exemplo disso diz respeito à química. Eu me lembro das duas ou três primeiras aulas do primeiro colegial, nas quais aprendi a ler a tabela periódica e depois aquele negócio de isótopos, isóbaros e isótonos. Aí veio o diagrama de Pauling, que é algo que nunca entendi. Depois disso, não me recordo de absolutamente nada.

Não estou falando que eu não entendi o que foi ensinado, estou falando que não sei o que foi ensinado. Há um espaço em branco no meu cérebro. Eu não faço ideia alguma do que foi discutido nas aulas de química. E isso durante todo o colegial. Alguns anos atrás, com um pouco de esforço, lembrei vagamente de alguns desenhos com as letras “O” e “H” e um monte de tracinhos (já me falaram que isso é química orgânica). Mas é só isso.

Já biologia e física eu me saí um pouco melhor. Em física, eu decorava as fórmulas. Quer dizer, eu escrevia todas elas a lápis na carteira antes da prova começar. Ou seja, eu colava. Assim que eu recebia a prova, anotava todas elas num canto da folha e apagava as da carteira. Se o professor perguntasse, eu diria apenas que “é um lembrete, porque é assim que eu estudo”, o que deveria ser considerado um ato legal.

Por outro lado, eu tinha boas notas em biologia, especialmente quando o assunto era o estudo dos reinos animal, vegetal e mineral. Mas aquilo não é difícil. Se você colocar na minha frente um cachorro, um jacarandá e uma pedra, eu consigo imediatamente identificar quem é quem. Agora, aquele negócio de estudar a célula, com todos os retículos endoplasmáticos, o complexo de Golgi (que para mim sempre teve nome de distúrbio psiquiátrico) e mais aquele batalhão de organelas era um inferno.

Cheguei a discutir uma vez com o professor sobre isso. Ele perguntou qual era a função de organela e eu não fazia ideia. Aí, começou aquele sermão sobre eu não prestar atenção na aula, atrapalhar os outros alunos... O discurso de praxe. Não agüentei.

– Mas eu não preciso saber o que um ribossomo faz.

– Evidente que você precisa.

– Não. Seja o que for que eles fazem, eles fizeram durante minha vida inteira, sem eu precisar mandar. Eles são grandinhos e responsáveis, não precisam da minha ajuda. Eles sabem exatamente o que precisam fazer.

– Rob, fora da minha aula.

– Ok. Mas vou levar meus ribossomos comigo.

A classe inteira riu. E eu tomei bomba no final do ano. E os ribossomos não devem nem ter ficado sabendo disso, o que me deu mais razão ainda.

Enfim, toda esta longa introdução foi apenas para dizer que se existe algo que eu definitivamente me recordo destas aulas no colegial é que o ser humano é um mamífero – eu poderia até falar que ele é um organismo baseado em carbono, mas isso eu aprendi vendo Jornada nas Estrelas, e não na escola. Mas o ponto é: o homem é um mamífero. Tenho certeza de que isso foi discutido em algum momento do colegial. Ou seja, o homem não voa. O homem não coloca ovos. O homem não respira embaixo d’água.

E, principalmente, o homem não troca de pele.

Ou, pelo menos, é o que eu achava. Isso, até me olhar semana passada no espelho. A princípio, me assustei. Será que minha calvície é tão poderosa que, além dos cabelos, eu também vou perder a pele da cabeça? Ou eu peguei um desvio errado na cadeia evolutiva?

Logo, vi que o fenômeno estava acontecendo com meu corpo inteiro. Eu estava trocando de pele. Camadas e mais camadas de pele caíam dos meus ombros e costas. E eu, claro, ficava puxando tudo – menos no peito, porque sempre puxava um pelo junto, gritando de dor.

Percorri minha memória, tentando me lembrar se eu havia sido mordido por uma lagartixa radioativa, mas foi em vão. Mas o processo continuava. Ou sou um mutante? Mas, se eu sou um mutante, eu devo ter um poder para compensar a perda de pele na cabeça. Tomara que seja telepatia, ou teletransporte. Ou a capacidade de fazer cinco textos ao mesmo tempo. Será que se eu cortar um pedaço do meu corpo, ele crescerá novamente? Melhor testar com um dedo, é mais seguro.

Mas, enquanto fico aqui, puxando camadas de pele do ombro, minha vontade é ligar para todos os professores de biologia que passaram pela minha vida, e dizer a eles:

– Você mentiu. E assim que eu tiver minha pele nova, você irá sentir minha fúria.

Talvez, para já deixar claro minha natureza reptiliana, seria legal esticar todos os “s”. “Assssssssim”, “ssssssssssentir”.

Ou, melhor ainda. Queria voltar no tempo, e quando algum professor explicar que nós somos mamíferos, levantar o braço e perguntar:

– O ssssssssenhor nunca foi à praia? Porque asssssss pessssssssoassssss desssssscasssssscam quando sssssse queimam no SSSSSSSSSol.

Eu poderia até mesmo aumentar o efeito dramático disso comendo uma mosca assim que terminasse de falar a frase, mas isso seria nojento demais – e deve ser bastante difícil pegar uma delas com a língua.


"Oi! Passssssssei o ano novo em Paraty. E você?"


Não, melhor esquecer os professores e lidar com a pele caindo. Espero que os ribossomos e lisossomos saibam o que está acontecendo comigo e resolvam isso urgentemente, porque estou me sentindo nojento. Besta-Fera inclusive já deixou claro que eu não posso dormir na cama enquanto não terminar esta transformação no meu corpo.

Assim, para evitar uma nova confusão biológica, a próxima vez que eu for à praia, vou entrar numa farmácia e pedir:

– Eu quero um SSSSSSSSSSSSundown. Fator Trêsssssssssssss Mil ou o maissssssssss indicado para um ataque nuclear. Quero todosssssssss ossssssssss frasssssssssssscossssssss.

Meu medo é se eu encontrar uma mosca enquanto estiver pagando.

Não vou aguentar.


22 comentários:

Dragus disse...

SSsssssol, ssssempre o ssssol.

Essse maldito sssser dos trópicossss....

Eu não lembro desse quarteto nada fantástico dos meus tempos de colégio. Nem os nomes dos professores.

Rob Gordon disse...

Dragussssssss

Essa é a grande sacada. Eu lembro do nome de metade dos professores. Mas todos eles se lembram do meu, aposto.

Abraços

Fabi disse...

"– Rob, fora da minha aula.

– Ok. Mas vou levar meus ribossomos comigo."

Isso não é um comentário digno, mas eu PRECISAVA grifar esse trecho.

Ana disse...

Você está hiper alimentando os ácaros da sua casa com toda essa pele.
#eca

Eu também tenho esse branco do colegial! Só que com matemática e detalhe, eu adorava e só tirava 10. O.o

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

"– Rob, fora da minha aula.

– Ok. Mas vou levar meus ribossomos comigo."

Só perdeu para o clássico:

"-Rob, mau com u ou mal com l?

-É Malcom X, POWER TO THE PEOPLE"

Foi a frase que me convenceu a começar a ler teu blog.

Fábio Megale disse...

Rob, você ainda tem chances: existe Nobel de literatura. :)

Natalia Máximo disse...

Também estou descascando. Mas o pior são as costas. Você sabe que está descascando, não consegue tirar, mas sabe que tem aquelas peles penduradas, incomodando '-'

Fabi disse...

"Rob, você ainda tem chances: existe Nobel de literatura." (MEGALE, Fábio)

Varotto disse...

E o prêmio de introdução de assunto maior que o próprio assunto vai para...

Tudo bem que você não prestasse atenção nas aulas, mas ninguém nunca te disse que um cara que não vai à praia nunca, e anda de tênis dentro de casa, precisa usar protetor solar e se esconder do sol? Mesmo os que vão à praia sempre precisam.

E as havaianas? Não renderam nenhuma boa?

Silvia disse...

Pois você está lembrando de mais conteúdo do que eu do tempo de escola. Eu teria que ter colado um bocado pra usar meia dúzia de termos das aulas de matemática, física, química e biologia.

E, agora, mudou muita coisa, então ainda bem que não lembro de nada, assim tenho que reaprender com minhas filhas, em vez de ficar tentando ensinar tudo diferente para elas! kkkkk

cinemafranco.com disse...

já disseram o que eu ia dizer, portanto...
(o lance do tal do Nobel e a Literatura) ;)

Filipe Ribeiro disse...

Por essas e outras que eu odeio praia, mesmo morando no Recife.

"Rob, você ainda tem chances: existe Nobel de literatura." (MEGALE, Fábio) [2]

Leandro disse...

Depois do post sobre as havaianas, dava pra imaginar que algo assim viria em seguida!

Também me deu calafrios ler sobre estas matérias novamente. Coloquei minha coletânea do Sabbath pra tocar, já já passa !

Bel Lucyk disse...

ahahahahah
fui professora de química!
e também descobri outro dia (aliás, reforcei o que descubro toda vez que vou ao sol) - e sou um camaleao. E desde ssssssabado eu ssssssssou vermelha. Muito vermelha!

ps - a dos ribossomos foi a melhor! =)

passa caladryl. Tá me ajudando!

' bell disse...

o negócio não é ter ribossomos. melanina. melanina e black power.
é.

(adorei o texto, muito tempo que eu não visitava os blogs... passando hoje em tudo um pouco, pra voltar á velha forma.)

Gilgomex™ disse...

"Se você colocar na minha frente um cachorro, um jacarandá e uma pedra, eu consigo imediatamente identificar quem é quem."

Pra mim já seria mais complicado, pois nunca vi um jacarandá... Que eu saiba pelo menos. Mas creio que seja mesmo diferente de um cão e de uma pedra...

Tyler Bazz disse...

Falaram aí em prêmio Nobel de literatura. Não!

Imagina o babaca fazendo o discurso: "Gosssstaria de agradecccccer a todossssss ossssss que me essssscolheram."

Não, Estocolmo, não fará isso com o mundo.

Nath disse...

"– Ok. Mas vou levar meus ribossomos comigo.

A classe inteira riu."

Essssssssssstou rindo até agorahhh.

Kel Sodré disse...

Vou ter que comentar primeiro o comentário do Tyler: intimidade é uma merda. Vê se três anos atrás, quando eu comecei a ler este blog, esse menino fazia comentários com essa liberdade toda! huahuahuahua

"Besta-fera inclusive já deixou claro que eu não posso dormir na cama"

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Tiago J. Fonseca disse...

Chato mode on:

Existem mamíferos que voam e botam ovos.

G7 disse...

Meus professores de biologia foram traumáticos - todos uns filhos da puta.

césar, cheirava pó direto e comia a professora de literatura (baranga, by the way).

Manoel, aqueles babacas metidos a cientista louco, um looser falido.

Zé, tentava comer as alunas mas muitos diziam que ele gostava era de pilar o jantar pra dentro.


a todos voces, meus ex professores, vao todos tomar no cu seus medíocres filhos da puta!

Letícia disse...

Minha mãe me obrigou a fazer técnico em quimica e eu aprendi a amar as reações endotermicas e exotermicas num tanto que eu fui pra faculdade fazer ~~~~historia