1 de junho de 2010

Fome de Viver

Acordei com as galinhas hoje. Aliás, antes delas. Tudo porque algumas semanas atrás fui ao médico fazer um check-up, e ele me pediu uma tonelada de exames. Aparentemente, ele está disposto a provar ao planeta que sou um alienígena, porque pediu exames de tudo, desde os mais comuns até aqueles indiscretos, passando por alguns inusitados, como ultrassom do coração, que eu nunca havia feito.

Não estou exagerando, é capaz até de eu ter que fazer exames de geografia e história nos próximos dias. Estou me sentindo como um paciente em um episódio qualquer de House – e, como eu sou eu, provavelmente, eu vou ter lúpus.

Enfim, hoje, antes das 7 da manhã, eu estava entrando no Fleury ali da Rua Mato Grosso, em Higienópolis. E verde de fome, já que eu estava em jejum desde as 19:00 de ontem. Batman disse uma vez que “a fome alimenta o espírito”, mas aposto que ele nunca teve que jantar às 18:30 e ficar sem comer até o dia seguinte. Aliás, tenho certeza de que ele carrega um pacotinho de biscoitos – ou ao menos um Sonho de Valsa – naquele cinto de utilidades.

E o meu azar é que o Sol ainda não tinha nascido (eu tenho uma teoria de que o Sol acorda todos os dias às 6 horas, mas, no inverno, ele não sai da cama antes das 8 horas), ou eu teria me encostado num muro para tentar fazer um pouco de fotossíntese e enganar a fome. Como não foi possível, eu ia respirando pela boca, torcendo para o oxigênio enganar meu aparelho digestivo, antes que meu estômago decidisse queimar um rim em troca de energia.

Enfim, cheguei ao Fleury e fiquei espantado. As instalações são muito bonitas – me segurei para não comer uma folha de um vaso na recepção – e o atendimento é ótimo, mas, caso um dia você entre ali, tenha em mente que aquilo é um laboratório médico e não um hotel, apesar das aparências.

Isso porque bastou eu me distrair alguns segundos e pronto: lá estava eu, jogado no canto de uma pequena sala, com uma seringa espetada no braço, feito um drogado às portas de uma overdose. Minha sorte é que eu estava em Higienópolis. Se o laboratório fosse mais para o centro, perto da República ou da Santa Ifigênia, capaz de eu ser preso junto com o pessoal da crackolândia – o que não seria má idéia, já que, ao menos na prisão, eu conseguiria fazer ao menos uma refeição.

Felizmente, assim que tiraram a seringa de mim (depois de extrair uma quantidade de sangue suficiente para alimentar meia temporada de True Blood), me indicaram o “lugar do café”, para o qual eu fui me arrastando. Certo que encontraria duas garrafas térmicas vagabundas, uma com chá e outra com café, me surpreendi ao encontrar uma espécie de cantina, com uma atendente fornecendo alimentos de graça.

Quase pulei em cima da mulher.

Só mudei de idéia porque, no último instante, executei uma operação matemática na minha cabeça, concluindo que “Rob Gordon - 6 ampolas de sangue + pulo = tombo”. Assim, apenas me apoiei no balcão e passei os olhos pelo cardápio. Como não encontrei nenhuma parte de grelhados, fui para o básico.

– Quero chocolate quente. Litros e litros de chocolate quente. E todos os biscoitos de chocolate que você tiver.

Eu não era mais um paciente, eu era um país da África afligido por uma guerra civil, e ela, um caminhão da Cruz Vermelha. Peguei os mantimentos e cambaleei para um canto, tentando adivinhar quantos biscoitos eu conseguiria colocar na boca ao mesmo tempo. Mas nem tudo são flores. Estava na metade do segundo biscoito quando outro atendente chamou, no saguão:

– Sr. Gordon! Sr. Rob Gordon!

Suspirei e olhei para os biscoitos, que estavam rindo de mim (o chocolate quente começou a fazer uma espuminha, então acredito que ele estava gargalhando também). Estava quase respondendo que “olha, tinha um loiro alto e forte aqui na outra mesa, mas ele precisou ir embora, talvez fosse esse Sr. Gordon que você está procurando”, mas o atendente, dotado de poderes paranormais (provavelmente após ter se alimentado com meu sangue), olhou fixamente para mim:

– Sr. Gordon?

Não havia escapatória. Dei uma última mordida num biscoito e ainda estava mastigando quando me colocaram numa outra maca, com uma enfermeira esfregando gel no meu peito. Assim que ela virou as costas, tive o impulso de pegar um pouco do gel com os dedos para chupar, mas mudei de idéia quando um médico entrou na sala, ligou uma televisão e enfiou um sensor (cuja temperatura lembrava uma manhã nublada no Ártico) no meu peito.

Ah, as maravilhas da ciência. Meu coração apareceu numa televisão ao meu lado. O médico – provavelmente recém-formado – se encantou com aquilo.

– Este é seu coração batendo, ele disse.

Que ótimo. Quer dizer que eu ainda não morri de fome. Ainda.

E ele começou a me explicar onde era o miocárdio, onde era a aorta, o que era isso, o que era aquilo. E eu ali, pensando nos biscoitos. Cheguei a pensar até mesmo em dizer a ele que meu coração não estava batendo, mas sim rosnando de fome, e que seria bom se trouxessem uns biscoitos para que eu pudesse alimentá-lo (eu diria até que “a última vez que ele ficou com fome e eu não o alimentei, ele comeu um poodle inteiro, é melhor não arriscar, sabe?”), mas não tive tempo. Talvez fosse a primeira vez que ele usava aquele aparelho, pois não parava de discursar sobre seu encantamento com as imagens. Se meu ultrassom sair em DVD, capaz de ele comprar a edição dupla, com extras.

Tudo acabou e ele me mandou colocar a blusa. Estava planejando voltar ao refeitório antes do próximo exame e oferecer uma propina qualquer para a mulher da cafeteria em troca de um hambúrguer. Claro que não deu certo, porque me mandaram para outra sala de espera. E, claro, era uma sala biscoito-free. E, pior, com uma televisão exibindo o programa da Ana Maria Braga. O assunto?

Biscoitos.

Ela havia convidado uma gordinha de Minas Gerais que ganhava a vida fazendo biscoitos de todos os tipos. De chocolate. De coco. E eu ali salivando. Close nos biscoitos. Amanteigados, Suspiros. Ana Maria Braga come um biscoito. Gordinha come um biscoito. Louro José elogia os biscoitos.

– Sr. Gordon?, disse uma atendente que entrou na sala.

– Oi, sou eu.

– O senhor estava lambendo a televisão?

– Oi? Não, é... Eu vi algo estranho ali na tela e fui olhar mais de perto. Acho que era um mosquito, mas já espantei.

Era mentira, claro. Se fosse um mosquito mesmo, eu teria comido. Ela me entregou um papel.

– O senhor precisa assinar esta autorização antes do exame.

Peguei o papel e li. As palavras “anestésico”, “acompanhante”, “risco”, “biscoito”, “óbito” saltaram aos meus olhos. Sacudi a cabeça e palavra “biscoito” sumiu, sobraram apenas as outras quatro. A pergunta “este anestésico aqui é de comer?” quase escapou, mas me contive e li o cabeçalho da autorização.

"Autorização de Realização – Endoscopia Aguda."

Endoscopia? Não, eu não ia fazer endoscopia nenhuma, ainda mais aguda. Ninguém havia me falado nada de endoscopia – a não ser, claro, que o meu médico tivesse ligado para o laboratório em segredo antes de eu chegar e combinado com as pessoas dali.

– Eu não vou fazer endoscopia. É um eletrocardiograma.

– Tem certeza?

– Absoluta. Mesmo porque você não precisa de uma endoscopia para saber o que tem no meu estomago. Não tem nada nele.

– Só um minuto, vou checar.

Ela virou as costas e eu entrei em pânico. Era evidente que ela retornaria em segundos, acompanhada de dois seguranças, apontando para mim e dizendo que “é ele ali, o carequinha, que não quer fazer a endoscopia, vamos sedá-lo!”. Para minha sorte, foi outra atendente que retornou, com outro papel. E sozinha.

– Sr. Gordon, vamos começar o eletrocardiograma?

Respirei aliviado e comecei a segui-la pelos corredores. Entrei na sala indicada, onde outra atendente me aguardava. Seguindo suas instruções, tirei a blusa e deitei na maca. Em segundos, ela já havia plugado uns vinte sensores em mim, com cabos e tudo o mais, me deixando parecido com uma espécie de mini-mim do Frankenstein ali na maca.

Não ia demorar muito para começar a relampejar ali mesmo, dentro da sala, até que um raio me atingisse e ela, ensandecida, gritasse “It’s Aliiiive!”, mas fui surpreendido pela chegada de outra médica, que invadiu o recinto, antes que o experimento se concretizasse, felizmente.

Ou não.

Aparentemente, a doutora havia se formado em medicina em alguma faculdade de Berlim, na década de 30, e feito residência em Auschwitz, tendo como orientador o próprio Mengele. Ela pediu para eu subir na esteira e disse:

– Vozê vai comezarr bem devagarr e nós vamos medir seu prezón.

A esteira ligou e eu comecei a caminhar – sim, com todos aqueles cabos ligados em mim – normalmente. A cada trinta segundos, a assistente (que, calculei, deveria se chamar Igor, apesar de não ser corcunda) vinha tirar minha pressão. Estava encarando tudo na boa, até que ela disse:

– Agorra, vamos aumentarr o velozidade.

Fui obrigado a andar mais rápido. Olhei discretamente para o lado e vi os olhos da médica brilhando enquanto ela acompanhava meus batimentos cardíacos num monitor. Isso se repetiu por mais uns três minutos – sempre com o Igor medindo minha pressão – tempo suficiente para ela perceber que meu corpo poderia ser testado de forma mais intensa.

– Vamos caminhar um pouco mais rápida, Herr Gordon. Agorra!

E mexeu num botão, fazendo a esteira girar (muito) mais rápido. Não sei se ela falou sério quando disse “caminhar”, ou se for sarcasmo da parte dela, porque eu já estava correndo. Gotas de suor começaram a descer pelo meu rosto, minha respiração ficou pesada. A Herr Doktor lambia os beiços de excitação, enquanto a Igor media minha pressão.

– Está conzeguindo?

Eu teria respondido “evidente que não” se não estivesse desesperado em busca de oxigênio. Ela, claro, entendeu meu silêncio como um consentimento.

Ou pior, como um desafio.

– Agorra, vamos correr de verdade!, gritou, mexendo em todos os botões da esteira.

Respirei fundo e fui. Meu rosto estava encharcado. A música tema de Carruagens de Fogo começou a tocar nas caixas de som. Minha calça de moletom, fiel companheira de anos, começou a cair. Não satisfeito em ser um experimento nazista, eu era um experimento nazista com meia bunda de fora – e eu não podia fazer nada a respeito, pois qualquer movimento em falso me faria cair de cara no chão.

– Já vamos acabarr com a passeio! Corragem!

Passeio? Que passeio? Eu não estava passeando numa alameda florida, eu estava me transformando lentamente num queniano. Mas não aqueles quenianos que correm na São Silvestre, e sim em um que ainda mora no Quênia, no meio da floresta, e precisa correr o dia todo para escapar de leões. Estava quase me agarrando nos cabos dos sensores e implorando clemência, quando a esteira começou a diminuir a velocidade, até eu poder voltar a caminhar.

– Congratulazões, Herr Gordon. A exame acabou!

Eu não estava mais me segurando nos braços da esteira. Eu estava apoiado em um deles, tentando me manter em pé ali. A Igor mediu minha pressão novamente (devia estar 1000 por 1000) e a esteira foi desligada.

Quando voltei a mim, a Herr Doktor já havia desaparecido – provavelmente estava trabalhando com outros prisioneiros – e fui dispensado. Mais que depressa, coloquei minha blusa e, mesmo com as pernas bambas, saí apressado de lá. E não volto tão cedo.

Afinal, tenho certeza de que a mulher da endoscopia ainda está me procurando, provavelmente deixando biscoitos nos corredores como iscas, para me atrair. E eu, que não sou bobo, não iria cair nessa - saí correndo para um Mc Donald's e estabeleci um novo recorde: Big Mac com fritas e meio litro de Coca as 9:15 da manhã.


Este post é dedicado a
Renata, a "Noiva de Vitória",
que, nos últimos dias,
atravessou (correndo) uma ponte
um pouco maior que a Austrália.

24 comentários:

Fagner Franco disse...

Isso, que você disse não estar inspirado para um post. Só acho que errou no pedido. Big Tasty e a maionese que veio dos céus seria o melhor.

Tyler Bazz disse...

PORRA, ROB!!!

Beleza, o post tá ótimo! O sotaque é foda....

MAS COMO ASSIM VOCÊ NÃO CONTA A HISTÓRIA DA NOIVA QUE ATRAVESSOU A PONTE???????????????

Natalia Máximo disse...

Na minha humilde opinião, você conseguiu driblar o bloqueio criativo brilhantemente. Me lembrou um dos primeiros textos seu que li (que eu não vou lembrar o nome agora), sobre como você imagina os "líderes" do seu corpo, ou algo assim. E, como daquela vez, ri MUITO!

Leel disse...

cara, vc é doente. tá, vc já leu isso.

mas COMO vc consegue transformar uma manhã de exames NESSE POST?

morri.

Ana disse...

Concordo com o Tyler.

Ri alto aqui "MAS COMO ASSIM VOCÊ NÃO CONTA A HISTÓRIA DA NOIVA QUE ATRAVESSOU A PONTE??????????????"

Rosana disse...

Lembrei do meu exame na esteira...abafa #socorro!!!! hahahahaha

Nathália disse...

repito o que o/a Leel ali disse.
mas COMO vc consegue transformar uma manhã de exames NESSE POST?

só um cara foda pra fazer isso né! haha. muito bom. e adivinha, eu acabei de ler este post com o estomago roncando de fome esperando o meu sanduiche que pedi a uma hora e ainda não chegou, mas eu supero, ou... vou apelar pra um saco de biscoitos tamanho familia! hahahaha :* parabens.

Tuíla disse...

Sofri pra não rir alto demais e minha mãe entrar correndo no quarto perguntando se eu tou bem como ela fez da ultima vez.

Muito bom o post.

disse...

Pelo menos não pediram pra você fazer fibronasofaringolaringoscopia.

Bia disse...

Depois de tanto tempo se passar por aqui, encontro um post desses! Muito bom, vou dormir rindo!

Tiago J. Fonseca disse...

Muito bom! Ri bastante aqui. Não costumo comentar em blogs mas tenho que dizer que você é mestre na arte de dramatizar assuntos cotidianos!

Tiago J. Fonseca disse...

Aliás, por que você não publica um livro?

R. disse...

só pra deixar claro,a noiva que atravessou a ponte sou eu, mas eu não atravessei a ponte vestida de noiva, afinal casei ano passado, no dia do dilúvio em vitória-es (vide saga "marcha para vitória"). e a ponte não é maior que a austália, a não ser que a austrália tenha menos de 3,3km :P

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

WTF noiva que atravessou a ponte?

*modo chat-vinyl on*

E aí ana, como vai?

*modo chat-vinyl off*

Rob Gordon disse...

***Entra na sala***

Rob Gordon disse...

Oi. Alguém online?

Rob Gordon disse...

Tem alguém online aí? Tô em Pinheiros, perto do Pão de Açúcar.

Rob Gordon disse...

***Sai da sala***

Jullia A. disse...

Nao comer pra exames, eu supero.
Mas, uma vez, fui fazer ultra-som no utero ( nao, nao estou gravida. Nem estava) e voce tem que ir de jejum etomar 2 litros de agua antes de entrar na sala. DOIS litros. E a filha da puta da examinadora( que deus a tenha,porque eu espero que ela tenha morrido)aperta a maquininha em cima da area da bexiga. Com o gel da antartida. Isso 'e tortura.

Muito bom o post (:

Dani disse...

Ótimo post, ri litros.
Mas Rob, querido, falando sério: o que você tem?

Besos e melhoras, se for o caso.

Melinda Bauer disse...

Ei Rob? Pensa bem...e se Herr Doktor tivesse que fazer uma colonoscopia....?
iac iac iac

Varotto disse...

Caro mini-mim do Frank,

Melhor post dos últimos tempos. E tenho dito!

Eric Franco disse...

Odeio esse teste, dá uma olhada nesse aqui: http://orabujo.blogspot.com/2007/04/lucky-man.html

Lendo os dois, podemos concluir que esses médicos são sempre imigrantes. Deve ter alguma coisa na constituição que proíbe que você submeta seus compatriotas a esse tipo de tortura.

Kel Sodre disse...

Noiva que correu uma ponte um pouco maior que a Austrália.

...

Né?