31 de julho de 2010

Os Melhores Anos de Nossas Vidas

“Vou ver no que dá”.

Foi assim mesmo, despretensioso demais. Liguei o computador e comecei a escrever. Primeiro, sem o mínimo direcionamento: experimentando, tentando, errando algumas vezes, acertando outras. Com o tempo, a coisa começou a ganhar corpo, seja em assunto, seja em estilo.

Surgiram personagens, locais e frases que estão aqui até hoje (bastidores: após digitar esta frase, fiquei quase dez segundos olhando para o teclado. Pensado. Lembrando. É muito tempo... É muita coisa.). Vocês começaram a vir mais vezes, e ainda traziam os amigos. E os amigos trouxeram amigos.

De repente, eu não escrevia mais sobre a padaria ao lado da minha casa; eu escrevia sobre a padaria ao lado das suas casas. Em algum momento, a síndica do meu prédio se tornou a síndica dos seus prédios; os atendentes de telemarketing pararam de ligar para mim, e começaram a ligar para vocês. Vocês começaram a caminhar pelas calçadas da Teodoro Sampaio, vocês foram ao Pão de Açúcar de madrugada.

Num dia, eu não sei ao certo quando, vocês tomaram conta disso aqui.

E, de repente, eu deixei de ser uma pessoa que se ferra dos modos mais idiotas e (espero) divertidos, para me tornar, talvez, um amigo de vocês. Vocês perguntam sobre mim nos comentários, fazem menção a coisas que aconteceram meses atrás e eu mesmo não lembrava, me corrigem, apontam quando eu estou sendo contraditório.

A maioria de vocês me conhece muito bem, mesmo sem nunca ter me visto. Porque, na verdade, vocês me vêem. Aqui. O tempo todo.

Faz quatro anos que vocês me vêem aqui o tempo todo.

Sim, este blog completou quatro anos algumas horas atrás. Nestes quatro anos, eu gargalhei muito, mas chorei também. Briguei algumas vezes. Fiz amigos fantásticos, daqueles de levar para a vida inteira. Aprendi sobre mim. Ainda não aprendi a não morrer de vergonha quando elogiam meu blog pessoalmente, mas aprendi muito sobre mim.

Foram quatro anos inesquecíveis.

E tudo isso graças a vocês.

Adoro ser lido? Adoro. Qualquer pessoa que escreve adora.

No último ano, este blog cresceu muito – sobretudo graças ao Twitter. Dezenas de novos leitores apareceram por aqui, juntando-se aos mais antigos. Todos vocês são muito bem vindos. Isso me deixa cada dia mais orgulhoso – alguns comentários que recebo aqui me deixando sorrindo por horas.

Mas, antes mesmo de ser lido, eu adoro escrever. Se existe algo que eu aprendi, nestes quatro anos, é que amo cada uma das letras que surgem na tela em branco, e que vão formando palavras, frases e construindo mundos, pessoas e situações, de forma quase mágica.

Por isso que, não importa se você entra aqui há anos ou apenas há algumas semanas. Se, em algum momento, eu fiz você gargalhar ou chorar uma vez que seja... Bem, isso é algo que não tem preço.

E isso é algo que, não importa quantos textos eu escreva, eu não vou conseguir agradecer à altura.

Mas vou continuar tentando. Prometo. Afinal, o título do post não se refere ao tempo que passou, e sim ao que começa agora.

Sejam bem vindos ao Ano 5 do Championship Vinyl.

Antes, porém, seguindo a tradição de aniversário do Champ, seguem as estatísticas da história do blog (que não incluem este post):

1. 585 posts
2. 3.098.691 caracteres (com espaços)
3. 541.332 palavras
4. 11.538 comentários
5. 136 mode: on
6. 216 Top 5
7. 3 prêmios
8. 59 selos e indicações a prêmios



(Dedicado à @is_adorable,
que inspirou cada uma das palavras

que escrevi nestes quatro anos.
)

29 de julho de 2010

Oração do Blogueiro

Blog nosso,
Que estais na Net,
Santificado seja o Vosso link,
Venha a nós o Vosso texto,
Seja feita a Vossa postagem,
Assim no Blogger como no Wordpress.

O post nosso de cada dia nos dai hoje.
Perdoai as nossas postagens ruins,
Assim como nós perdoamos spams em comentários.
E não nos deixeis cair na preguiça de escrever,
Mas livrai-nos dos plagiadores,
Amém.

27 de julho de 2010

Blogs

Pouca gente sabe, mas a Blogosfera, mais que simples uma reunião de blogs, é um mundo paralelo, com ruas, casas e cidades. E, claro, bares.

E é nestes bares que os blogs amigos se encontram. Sim, os blogs têm vida própria e, assim como eu e você, saem para tomar cerveja e jogar conversa de vez em quanto, normalmente nas noites de sexta. E é num destes bares, numa mesa do canto, que um determinado grupo de blogs se reuniu, numa noite destas.

Os primeiros a chegar foram o Blog do Bruno e o Blog do Dragus. Pediram duas cervejas e começaram a bater papo para matar o tempo, até que os amigos chegassem.

– Não dá mais para morar aqui. Você viu as calçadas como estão?, resmungou o blog do Dragus.

– Ah, mas isso é em todo lugar, respondeu o amigo. Só no Zwkrshjistão é que as calçadas são boas. Porque lá elas são feitas de queijo e sangue de prisioneiros políticos.

– Aqui em Paquetá devem ser feitas de merda.

– Bom, não dá para comparar Paquetá com o Zwkrshjistão. Veja o turismo, por exemplo. Quantos turistas vocês têm em Paquetá por ano? Dois? Três? No Zwkrshjistão, tivemos, somente no ano passado, oito!

– Oito?

– Bem, na verdade um deles morreu durante a viagem. Mas, tecnicamente, são oito sim.

– Cheguei.

Era o Blog do Tyler. Explicou que havia se atrasado porque a Marcela havia sumido com as chaves dele, o que fez com que ele não conseguisse mais sair de casa.

– Essa mulher é foda, encerrou, suspirando.

– No Zwkrshjistão, ela teria morrido. Depois de ser açoitada.

– Em Paquetá, ela seria eleita vereadora.

– A vereadora, as calçadas de merda e o desatino administrativo!, gritou uma voz recém-chegada. Todos olharam para trás, mas já sabiam de quem se tratava. Era o blog do Arthurius.

– E aí, rapaz? Demorou por quê?

– O trânsito, o congestionamento, o descaso com o transporte coletivo.

– Ou seja, o de sempre.

Todos riram. Pediram mais cervejas ao garçom. Continuaram conversando por mais alguns minutos, quando uma nova voz se juntou a deles.

– Faz tempo que vocês chegaram?

Todos olharam para trás e não viram ninguém. Mas já estavam acostumados com isso. Assim, decidiram se virar para o outro lado, olhando a margem direita do texto.

– Porra, Blog do Max! Que mania você tem, de ficar sempre do outro lado.

– Não é sempre. Às vezes fico na esquerda, como vocês. Falem algo, para eu mudar a linha do diálogo e completar meu raciocínio?

– Oi?

– Obrigado. E às vezes fico à direita. O Max gosta assim.

– É que é difícil conversar com você assim. A gente nunca sabe para onde olhar.

– É meu charme. Vocês têm é inveja.

– Inveja... Rá! No Zwkrshjistão, os blogs são centralizados, para evitar tumulto. No Zwkrshjistão, você seria executado!

– Em Paquetá, ninguém iria acessar seu blog. Estou falando, as coisas são feias lá. Ninguém iria entender isso que você faz.

– Azar o deles. Mas e aí, como estamos?

– Quase bêbados. Menos o Blog do Tyler. Ele só tomou uma cerveja. A última vez que chegou alegre em casa, a Marcela colocou ele para fora dali.

– Aliás, isso me lembra... Eu preciso ir, levantou-se o Blog do Tyler.

– Ih, olha o medo da Marcela!

– Não, não é isso. É que este texto está ficando grande demais. Vocês sabem, eu não sei lidar com isso.

– Porra, toda vez é assim! Você bebe uma cerveja e vai embora!

– Desculpe, gente. Eu realmente não me sinto confortável em textos longos.

– O Sucinto, a Fuga, e os Amigos Abandonados no Bar!

– Não, não é isso... Não estou abandonando vocês. Juro. Eu volto amanhã, prometo.

Largou o dinheiro na mesa e foi embora. Os amigos ficaram conversando e enchendo a cara. Falaram sobre os bons tempos, os concursos de blogs, xingaram alguns leitores, elogiaram outros. As horas foram passando, a bebida foi subindo, as risadas se tornando soltas. Eram amigos já há muito tempo, mesmo sem se verem com a freqüência que gostariam.

Mas era hora de ir embora.

– Garçom! A última cerveja, o amendoim e a conta!

– Vamos rachar, certo? A minha parte está aqui.

– A minha, aqui.

– Cade você?

– Aqui.

– Pára com isso! Estou ficando tonto!

– Pronto. Meu dinheiro está aqui.

Tomaram a última cerveja e pagaram. Foram embora, se abraçando e jurando que não demoraria mais até se encontrarem novamente.

O bar ficou vazio.

O garçom se aproximou da mesa em que estavam e recolheu o dinheiro. A conta estava certinha, até os últimos centavos. Ou seja, não haviam deixado gorjeta.

– Ô fase. A humanidade não deu certo mesmo, suspirou, começando a recolher as garrafas.




Nota: Quando eu comecei a blogar, não havia Twitter. Havia apenas o Orkut e as comunidades de Blogs. Lá, conheci muitos blogs que me ensinaram a escrever, e que me inspiram até hoje.

Alguns deles se tornaram mais que blogs, e sim presenças constantes na vida do Champ.

Assim, prestes a entrar em meu quinto ano de blog, presto uma singela homenagem a estes blogs que, mais que inspiradores, tenho o orgulho de chamar de amigos. Existem outros, claro. Mas estes foram (e são) fundamentais.

Obrigado por tudo.

26 de julho de 2010

Champ Games – Detonado: Super Rob World

1ª Fase – Teodoro Sampaio

Nesta primeira fase, o tempo é essencial. Como o Rob sempre acorda atrasado, ele tem poucos minutos para cruzar a Teodoro. Assim, o segredo é correr por entre os camelôs – a cada vez que um deles esbarra no Rob, ele perde 5 segundos. Então, não perca tempo coletando os objetos que caem das barras dos mendigos – normalmente, são porcarias falsificadas que não dão bônus algum. Mas cuidado especial com o mendigo (além de tempo, ele tira uma barra de energia, por causa do cheiro) e a velha com sacola: se ela entrar na sua frente, é quase impossível ultrapassá-la.

No último quarteirão antes do chefe, as pedras da calçada estão soltas. Não tente andar – isso fará o Rob cair em cima de uma das barracas de camelô, derrubando tudo e fazendo com que ele perca 30 segundos (é quase impossível terminar a fase se isso acontecer). O segredo é ir pulando de pedra em pedra (e não adianta decorar: a cada partida, as pedras soltas mudam de posição), tomando cuidado para não bater a cabeça nos toldos.

Chefe: o chefe é uma espécie de Rei dos Camelôs, que fica atrás de uma barraca, atirando objetos no Rob. O que você precisa fazer é pegar três objetos específicos (o boneco falsificado do Homem-Aranha com roupa de mergulhador, um CD pirata do Calcinha Preta e uma trufa que já azedou no Sol), para montar uma arma capaz de derrotá-lo. Assim, desvie de todos os objetos menos dos que você precisa. Ao montar a arma, aperte o botão de ataque e dê um tiro para cima. A polícia irá aparecer para ver do que se trata e o camelô irá fugir.


2ª Fase – Redação

Nesta fase, o tempo continua sendo um fator importante, mas a memória também conta – e é preciso bastante paciência. O importante é saber que o Rob não pode ficar mais de 3 minutos longe do teclado, ou ele morre. Assim, você precisa cumprir todas as tarefas (representadas pelos símbolos que aparecem no monitor da mesa do Rob), na ordem que são passadas. Desta forma, o Rob precisa ir até a sala do chefe, falar com o diagramador, pautar o fotógrafo, revisar textos, sempre sem ficar muito tempo afastado do teclado. E não adianta tentar cumprir as missões antes de elas serem anunciadas, para ganhar tempo (entre na sala do chefe sem ser chamado e perca uma vida instantaneamente).

Entretanto, esta fase é que mais traz bônus. Caso aparece o rosto de um menino na tela, aperte o direcional para cima duas vezes, para ativar o Estagiário (com isso, o Rob ganha uma xícara de café que repõe suas energias). Se aparecer o símbolo da Psicologia (parece um garfo), você pode entrar em uma sessão apertando o botão 2. Mas cuidado: a Terapia é sorte pura. O Rob pode sair mais aliviado de lá (o que sobra sua velocidade por alguns segundos), ou mais confuso (e aí fica difícil controlá-lo, se você aperta o direcional para a direita, ele vai para a esquerda; se você aperta para cima, ele vai para baixo etc). E, caso apareça um portão na tela, é possível entrar no minijogo do porteiro: Aqui, o Rob precisa roubar o controle remoto do porteiro e abrir o portão (porque o porteiro não sabe fazer isso sozinho) sem ser pego, e em 10 segundos. Caso ele consiga fazer isso, ganha mais horas de sono e sua barra de energia enche totalmente.

Chefe: Este é um dos chefes mais difíceis, pois é preciso muita concentração. Aparentemente, é simples: basta pular em cima de todas as pautas que o assessor de imprensa envia, na coluna da direita, casando o assunto (explicitado com um desenho) com as fotos que o fotógrafo envia. Mas é preciso cuidado: algumas pautas (as que têm uma caveira) significam uma matéria na Zona Leste, o que fará o Rob perder o resto do dia. Outras, com um porquinho desenhado, significam que é dia de feijoada – isso deixa o Rob com sono e mais lerdo. O objetivo é casar o maior número de pautas e fotos em menos tempo. Lembre-se que cada vez que você deixa de pegar o material do fotógrafo, ele começa a ficar mais preguiçoso e, consequentemente, passa a enviar menos fotos – o que dificulta (e muito) sua tarefa.


3ª Fase – Restaurante

Aqui, é bom ficar esperto desde o começo. Já na porta do restaurante, você precisa pular os clientes imbecis que ficam se amontoando na calçada, sem saber se entram ou saem. Cuidado: não tente agachar (com o botão 3) e passar por baixo deles – isso fará o Rob tropeçar no capacho, na porta, e cair de cara no chão, perdendo energia preciosa. Mas, ao pular, é preciso aterrissar logo após a porta, ao lado da menina que entrega as comandas (para isso, aperte o botão de agachar quando o Rob estiver no ar). Sem comanda, ele é expulso do restaurante e precisa começar tudo de novo.

Dentro do restaurante está um dos inimigos mais chatos do jogo: o maitre. Não permita que ele encoste no Rob de forma nenhuma – caso isso aconteça, ele leva o Rob para a mesa errada (às vezes, ele até mesmo coloca o Rob na calçada, o que faz com que o jogador precise passar por toda a fase de novo). Assim que você conseguir se sentar na mesa preferida do Rob (fica no segundo andar, perto da janela, com uma flecha vermelha indicando o local), tome cuidado com o garçom. Ele ficará arremessando copos de Coca Zero no Rob – desvie daquelas que tem uma bolinha verde dentro (é geli-limão) – e sobremesas (evite os bolos-prestígio e agarre as mousses de chocolate).

Chefe: Este é um dos chefes mais divertidos do jogo. Ele vai andando por entre as mesas, deixando cair ingredientes que ele trouxe da cozinha. Assim, o segredo é misturar os ingredientes para formar os pratos mais estranhos do mundo (camarão com diamante negro, pizza com sucrilhos, peixe à milanesa com amendocrem), acumulando pontos. Quando mais estranho o prato, mais pontos você faz (cuidado: ao criar um prato normal, misturando, por exemplo, alface e tomate, você perde uma vida). Ao chegar em 100 pontos, o cozinheiro é derrotado.


4ª Fase – Boteco

Esta fase requer muita, muita paciência. Aqui, o objetivo é conseguir uma lata de Coca. Mas isso não será tarefa fácil. Primeiro, é preciso chamar a atenção da dona do bar, que está sempre olhando para o outro lado. Para conseguir isso, é preciso pegar uma laranja do chão e jogar para um canto do bar. Na mesma hora, ela irá olhar para o outro lado. Corra para lá e fique pulando na frente dela. Dica: quando estiver no ar, aperte novamente o botão de pulo, para gritar. Isso fará com que ela olhe mais rápido para você. É preciso paciência: primeiro, ela traz uma Fanta. Na caixa de diálogo, aperte “não”. Depois, um tomate. Aperte “não” novamente. Na terceira vez, ela traz uma galinha viva. Mais uma vez, escolha “não”. Na quarta vez, ela traz a Coca.

Com a Coca em mãos, é preciso pagar. E é aí que a fase fica complicada. A dona do bar some, dentro da cozinha, e é preciso chamar sua atenção. O problema é que ela não sai da cozinha enquanto o Rob estiver no bar. Assim, é preciso ir olhando nas outras mesas, para conseguir se disfarçar. Na mesa da esquerda, há um par de óculos escuros. Na terceira mesa da esquerda para a direita, há um chapéu (sob a cadeira). E, na mesa da direita, mexa nos pratos para encontrar um bigode falso. Aperte o botão de pulo duas vezes (para gritar) e a dona do bar irá aparecer. Assim que ela aparecer, prepare-se para enfrentar o chefe.

Chefe: O chefe desta fase é um velho gigantesco que freqüenta o bar e fica gritando feito louco (sempre que estiverem saindo raios de sua boca, é porque ele está gritando. Se o Rob chegar perto dele, seus gritos farão com que o disfarce caia, e a dona do bar, reconhecendo o Rob, voltará para a cozinha. Aí, o velho some e é preciso fazer todo o parágrafo acima. Agora tome cuidado com o cesto de lixo – como o velho perdeu os seus óculos no lixo do bar (Nota do editor: isso aconteceu de verdade), toda vez que ele se aproxima do cesto, começa a procurar os óculos, jogando lixo para os lados – se uma mísera casca de banana acertar o Rob, ele perde uma vida.


5ª Fase – Pão de Açúcar

Esta é a última fase do jogo. O problema é que como ela se passa no fim do dia, o Rob já está cansado, e sua velocidade diminui consideravelmente. Assim, todo cuidado é pouco. O objetivo aqui é percorrer os corredores do supermercado para encontrar uma garrafa de Coca Zero e uma lasanha de calabresa congelada. De cara, as coisas já são difíceis porque como a equipe de limpeza do mercado está trabalhando, diversos corredores estão fechados.

Assim, para pegar a lasanha, é preciso entrar no corredor dos produtos de limpeza (é o de número 3), ir até o final, virar à direita na altura da seção de pães, descer metade do corredor de congelados, pular a geladeira de espetinhos e pegar a lasanha na quarta porta. Para pegar a Coca, pule novamente a geladeira de espetinhos para o corredor de congelados e suba até a seção de pães novamente. Vire à direita e ande até o final deste corredor, entrando no corredor 8 (de utensílios para o lar). Lá, procure por uma passagem abaixo das panelas e, usando o comando de se agachar, passe por ela, para o corredor de bebidas. Desvie dos adolescentes imbecis – sempre que eles derrubam uma garrafa de vinho, o segurança aparece e persegue o Rob, que precisa largar as mercadorias e se esconder dentro da geladeira de iogurte.

Chefe: Com as duas mercadorias em mãos, desça o corredor de bebida (cuidado com os adolescentes) até os caixas. Antes, suba o corredor 4 e pegue os ossinhos para cachorro, você vai precisar deles. Aqui, o truque é o seguinte: o Rob precisa encontrar, entre os 20 caixas abertos, um que tenha troco e não tenha um imbecil na fila. Identificar os que têm troco é fácil (basta escolher o caixa com uma moeda acima da cabeça da funcionária). Quando você achar um deles, é preciso checar se há um imbecil na fila. Para isso, é preciso parar ao lado da pessoa. Se ela começar a conversar com o Rob, é porque é imbecil. A fila não vai andar. Mas, se você pegou os ossinhos de cachorro, aperte o botão C duas vezes e use o Besta-Fera. Ele se aproximará do imbecil, que, sem perceber que ele é um cachorro, olhará para o lado e começará a conversar com ele. Ainda agachado, passe pelo outro lado do imbecil (tomando cuidado para não encostar no inimigo, pois fará com que ele perceba o que está acontecendo – o mesmo vale para os pacotes de Fandangos ao lado do caixa, pois o barulho irá chamar a atenção dele. Cuidado porque às vezes os imbecis estão em dupla (eles ficam um em cada fila) assim, tente passar o mais discretamente possível, dando toques de leve no direcional, para nenhum deles perceber. Parece fácil, mas, como o Rob está cansado, fica difícil controlá-lo. Mexa no direcional com bastante cuidado. No caixa, pague a lasanha, a Coca e vá para casa.

Game Over.

You Win.

Perfect. (Quer dizer, com um dia desses, o "perfect" é na medida do possível, claro.)

23 de julho de 2010

Kong - A Barbeira Demoníaca da Rua Cardeal Arcoverde

Quando eu comecei a trabalhar em Pinheiros, antes mesmo de me mudar para cá, descobri que na Cardeal Arcoverde, existe um pequeno corredor repleto de salões de beleza, cabeleireiros e barbeiros.

Fica bem perto da redação, entre a Pedroso de Moraes e o Largo da Batata, em meio aos botecos decadentes e aos puteiros com nomes escrits em neon (o “escrits” não foi erro de digitação, mas sim uma homenagem ao fato de que o neon destas casas noturnas invariavelmente tem uma das letras queimadas). Ou seja, já faz anos que eu corto o cabelo em um cenário que lembra a Los Angeles de Blade Runner, mas habitada pelos personagens de Mad Max.

Porque eu corto lá? Porque é barato. Como eu não sou internacionalmente conhecido pela cabeleireira, desde os vinte e poucos anos eu uso o cabelo raspado. Antigamente, era ou máquina um ou máquina zero, mas, por ordens expressas da Sra. Gordon, pulei para máquina dois. E faço o mesmo com a barba: máquina dois.

Assim, como eu apenas raspo a cabeça, me recuso a pagar os trinta, trinta e poucos reais de um barbeiro normal. Afinal, num curso de barbeiro, “raspar a cabeça” não deve ser uma das matérias mais difíceis do currículo – se a pessoa pegar DP disso, melhor trancar o curso e ir tentar outra coisa da vida.

Hoje, como as coisas na redação estavam mais tranqüilas, aproveitei que estava na hora do almoço e fui para lá, pois a situação já estava feia: como sou careca, e a barba também estava grande, eu estava parecendo uma espécie de chaveiro do Rasputin. Assim, almocei mais rápido e fui pra minha “sessão mulherzinha”.

E, como de costume, assim que coloquei os pés na calçada daquele quarteirão, começaram as propostas. Se você nunca passou por ali, explico: cada salão de beleza tem uma emissária, que fica na calçada, oferecendo seus serviços aos pedestres. Mais ou menos como uma prostituta capilar.

– Qué cortá?

– Vâmu arrumá esse cabelo, gato?

– Tem menina nova na casa, campeão. Quer conhecer? (esse, claro, não é barbeiro, mas sim o porteiro de uma das casas com o nome escrits em neon).

– Tá n’óra de apará esse barba, amô!

Eu ignoro todas. Porque sempre fui fiel a uma das casas, que leva o singelo nome de Arquitetos da Beleza. Eu sei. Pode rir. Pode zoar nos comentários. Eu zoaria. O nome é tosco. Mas não vou lá por causa do marketing bem elaborado e agressivo, e sim porque é um dos únicos limpos que existem ali na região.

O problema é que sempre vou lá, sou atendido por uma pessoa diferente. A coisa funciona assim: na recepção, digo o que quero (cabelo e barba) e a menina vê quem está livre. O problema é que sempre dá confusão, porque nem todos que trabalham ali sabem fazer barba (aparentemente, isso é um segundo estágio no mundo dos salões de beleza).

Assim, já peguei profissionais excelentes (um deles foi um sósia do Ian Gillan, mas com idade para ser avô do vocalista do Deep Purple, que me deixou com uma das barbas mais bem feitas na vida), como gente mais tosca, que não domina tão bem a arte da tesoura.

Mas sempre deu para o gasto, especialmente em vista do preço que pago, que sempre gira em torno de 10, 12 reais. Mas hoje a coisa foi diferente. Entrei ali carregando minha Placar e fui até a recepção. Dei boa tarde e pedi:

– Quero cortar o cabelo e aparar a barba.

– Só tem a Kong disponível.

– Oi?

A recepcionista me ignorou e pegou um microfoninho tosco que fica ao seu lado, começando a falar: “Kong, recepção. Kong, recepção”. Meu sentido de aranha disparou.

A terra começou a tremer. Primeiro, de leve, de forma quase imperceptível. Aos poucos, os tremores aumentaram de intensidade. Copos começaram a tremer, canetas rolavam pelo balcão e caiam no chão. E não paravam de aumentar – em determinado momento, tive que me agarrar ao balcão da recepcionista para não ser jogado ao chão.

– É cabelo e barba?

Olhei para o lado e lá estava a Kong. Devia ter uns 25 anos, morena, cabelos pretos e lisos. Quase 1.90m de altura e um peso que tinha, facilmente, três dígitos. Em arrobas.

Na mão, uma navalha.

Não vou sair vivo daqui, pensei. Meu sentido de aranha aparentemente concordava, tanto que ele nem se preocupou em me alertar do perigo. Na verdade, ele gritou algo como “eu te espero na Fnac” e saiu correndo Cardeal Arcoverde acima.

Eu estava sozinho.

– Você pode me acompanhar?

E eu era homem de dizer “não”? Claro que fui, tentando ignorar a navalha na mão dela. Cruzamos todo o salão e ela se aproximou da última cadeira, no canto mais escuro e desolado do local. Ao lado dela, uma gaiola com três periquitos – provavelmente, era sua marmita.

Contudo, assim que ela se aproximou da sua estação de trabalho, reparou que a cadeira estava afastada do espelho. Assim, sem grandes cerimônias, ela ajeitou a posição do móvel dando-lhe um chute, com a delicadeza de um zagueiro argentino disputando uma final de Libertadores.

Os periquitos ficaram em silêncio. Eu também.

Olhei para eles com uma expressão de “vou morrer”, e eles me devolveram o olhar, concordando.

Sentei-me à cadeira e ela começou a levantá-la, usando aquele pedal que ergue a cadeira um pouco a cada vez que é apertado. Ok, eu sou baixinho. Normalmente, o barbeiro precisa pisar no pedal umas quatro vezes, mas oito (sim, eu contei) como a Kong fez, já é exagero.

Assim, lá estava eu, balançando os pezinhos e numa altura equivalente à Cordilheira dos Andes – mas ainda assim menor que ela – quando a Kong perguntou:

– Como você quer o corte?

Tentando esquecer o fato de que tenho medo de altura, ainda estava me acostumando com o vento e o ar rarefeito da altitude. Logo, não pude responder “tanto faz, só seja gentil comigo, por favor, eu não quero morrer”, mas, sem oxigênio suficiente para isso, resmunguei apenas um “máquina dois em tudo”.

Sem esconder a decepção, ela largou a navalha e pegou a máquina, ligando o aparelho. Máquinas de raspar cabelo normalmente já têm um barulho desagradável, mas a da Kong deveria ser um modelo único e feito sob medida, pois ela não fazia ruídos, e sim guinchava como um porco sendo esfolado vivo.

Com os olhos injetados de sangue e salivando, ela aproximou aquilo da minha cabeça e começou a cortar meu cabelo. A primeira passada e a segunda de máquina passada foram tranqüilas, mas a terceira quase arrancou minha orelha esquerda.

– Ai!

– Mal aí.

E quase arrancou minha orelha de novo. Felizmente, sou careca, e, sem mais o que cortar ali, ela logo teve que mudar para o outro lado – mais umas duas passadas de máquina iguais àquela, e eu teria que a) correr para o Hospital das Clínicas com minha orelha no bolso, ou b) aceitar meu destino e mudar logo meu nome para Vincent van Rob.

Evidentemente, quase perdi a orelha direita também. Me senti como um daqueles soldados da Guerra da Secessão que são obrigados a amputarem suas pernas tendo somente meia garrafa de rum como anestesia. E não, não havia rum ali. Aliás, eu estava próximo ao Largo da Batata: qualquer bebida alcoólica que vendesse ali me prejudicaria mais que a perda das orelhas. Assim, fechei os olhos e agüentei firme – para não irritá-la, eu baixei o tom de voz dos meus “ai!”.

A barba foi mais tranqüila. Tirando, claro, as duas vezes em que ela colocou metade da máquina dentro da minha narina direita ao aparar meu bigode. Minto. Ela não estava aparando meu bigode; o termo correto era “arando”. Se ela usasse uma enxada, talvez doesse menos.

Quando ela desligou a maquininha, percebi um silêncio estranho no ar. Discretamente, tateei as laterais da minha cabeça para checar se minhas orelhas ainda estavam ali. Estavam. Mas havia algo de errado.

Os periquitos. Os periquitos estavam em silêncio, como normalmente os pássaros ficam, quando sentem um predador por perto.

Olhei para baixo – sim, eu estava mais alto que a gaiola – e entendi o motivo da ausência de trinados. Dois deles estavam pálidos e escondidos num canto, e o terceiro havia se enforcado na gaiola com um cadarço velho.

A Kong ignorou tudo isso.

– Você quer lavar o cabelo.

Sim, assim mesmo, com ponto final. Ela não perguntou nem ofereceu, ela determinou que eu queria lavar o cabelo.

– Não, obrigado, eu estou com um pouco de pres...

– Você quer lavar o cabelo.

– Ok...

Chutou o pedal e a cadeira desceu novamente, como um daqueles elevadores que despencam em parques de diversões. Quase fui ao chão com o impacto.

Ela já estava me esperando em uma daquelas cadeiras especiais para lavar o cabelo. Olhei ao redor e percebi que ela estava entre eu e única saída. Não havia como escapar.

Aproximei-me e, disfarçadamente, procurei vestígios de sangue no lavatório. Nada. Tive certeza de que ela limpa aquilo após cada vítima, aquilo tinha cara de ser um abatedouro. Aposto que o pessoal do CSI faria a festa ali com uma garrafa de luminol.

Sentei-me, protegendo meu peito com os braços, feito uma virgem passeando de biquíni por dentro de um presídio. Fechei os olhos e respirei fundo. Água quente começou a cair pela minha cabeça. Senti algo gelado e imaginei que era o xampu.

Só deu tempo de imaginar.

Levei uma porrada na cabeça que me deixou zonzo. E outra. E mais uma. Eu não era mais um Rob Gordon, eu era uma massa de pão. E ela ali, socando o xampu na minha cabeça. E tomo socos, tapas, e puxões, e espirra xampu para todos os lados. Como diria Chico Buarque, “ela fez tanta sujeira, lambuzou-se a tarde inteira, até ficar saciada”.

E, finalmente, ela ficou saciada.

“Com um suspiro aliviado, eu me virei de lado, e tentei até sorrir”. Não consegui. Ela já havia enfiado uma comanda na minha cara.

– Pague no caixa.

Os dois periquitos que ainda permaneciam vivos, vendo que ela havia terminado comigo, se agitaram na gaiola. Agradeci a Kong, fazendo questão de pedir desculpa por qualquer coisa e fui até o caixa. A menina pegou minha comanda e resmungou:

– Deu 15 reais.

– Oi?

– 15 reais.

– Não, está errado. Foi cabelo e barba.

– Ela cobrou apenas um corte.

Então é isso. Como se não bastasse a surra que levei e o terror moral que fui obrigado a experimentar, ainda tive que sair de lá humilhado.

Sou tão careca que pago meia para cortar o cabelo. Ô fase.

21 de julho de 2010

Novas Informações sobre o Caso Bruno

Fui à padaria ao lado de casa almoçar outro dia (sim, a das carolinas). Sentei-me à mesa, abri o jornal de esportes e esperei pela garçonete. Quando ela se aproximou, fiz meu pedido:

– Quero um contra filé, com arroz e fritas. E uma Coca Zero.

– Ok.

Ela anotou o pedido – de modo muito mais eficiente que o Bigode, que não trabalha mais ali – e foi entregar a comanda ao chapeiro, um sujeito de cerca de 40 anos, muito magro e muito alto. Até o momento, eu não sabia o nome dele.

Continuei a ler meu jornal, mas não pude evitar ouvi-la conversando com alguém:

– Espere aí que vou perguntar a ele.

E, se aproximando novamente de mim:

– Você não vai querer salada?

– Não.

Ela se virou em direção ao chapeiro e gritou:

– É sem salada mesmo, Macarrão!

Macarrão?

Até onde eu sei, o amigo do goleiro Bruno está num presídio em Minas Gerais.

Mas, na dúvida, almocei rapidinho, deixei metade da Coca na latinha, e jurei para mim mesmo que nunca mais volto ali.

20 de julho de 2010

Quase Quasímodo

Aconteceu ontem cedo, logo no começo da minha ginástica matinal.

Antes, cabe falar um pouco sobre os exercícios que pratico toda manhã. Depois que eu passei dos 30, comecei a ficar preocupado com minha saúde e minha forma física. Assim, já faz alguns anos que, toda manhã, faço (religiosamente) seis séries de alongamentos, que consistem em, ainda de pé, tocar os pés com os dedos da mão.

Cada série é composta de um (01) exercício que dura em média três (03) segundos, e ocorre da seguinte forma:

1ª – Recolher o jornal do Besta-Fera

2ª – Colocar jornal limpo para o Besta-Fera

3ª – Apanhar a tigela de água do Besta-Fera

4ª – Devolver a tigela de água do Besta-Fera (cheia)

5ª – Apanhar a tigela de comida do Besta-Fera

6ª – Devolver a tigela de comida do Besta-Fera (cheia)

Às vezes, até mesmo arrisco algumas flexões (normalmente para procurar o tênis embaixo da cama), ou alguns minutos de corrida, quando descubro que estou atrasado e minhas chaves aproveitam que não estou olhando e correm para dentro da geladeira ou se enfiam embaixo de uma revista, e ficam ali segurando a risada.

Aliás, isso acontece com muita frequência. Manhã sim, manhã também, eu perco algo em casa. E aí começa a briga: reviro almofadas, vasculho jornal, olho os armários, amaldiçôo meu destino ingrato, xingo todos os móveis, até achar o objeto em questão – que normalmente estava no meu bolso.

Uma vez, cheguei até mesmo a apelar para um último recurso. Olhei ao redor e como não havia ninguém por perto, apelei para São Longuinho e dei os tais três pulinhos. Mal havia terminado o terceiro pulinho quando ouvi uma gravação, que vinha dos céus.

Oi, aqui é São Longuinho, eu não posso atender no momento. Após o sinal, deixe seu nome, telefone e descreva o objeto perdido que eu retornarei assim que possível.

Estou esperando até hoje ele retornar minha ligação. Não duvido nada que ele tenha anotado meus dados e, logo em seguida, perdido o pedaço de papel na escrivaninha (santo de casa não faz milagre mode: on).

Mas estou me distraindo. Estava falando da minha ginástica de hoje de manhã. Estava começando o primeiro alongamento do dia quando, no momento em que abaixei para pegar o jornal usado pelo Besta-fera, entrei numa espécie de fenda temporal. Quando me abaixei, estava com 34 anos; e, ao começar a me levantar, tinha quase 80 anos de idade. Quer dizer, ao menos minha coluna estava com esta idade.

Na hora, senti apenas uma pontada, como se minha coluna tivesse sido perfurada.

Tive a sensação de me tornar a vítima do jogo Detetive – crianças passariam a tarde coletando pistas para descobrir que o Rob Gordon foi assassinado, com o punhal, na varanda, pelo Coronel Mostarda. Uma luz brilhante e meio avermelhada surgiu na minha frente, como se eu estivesse sendo baleado impiedosamente num Medal of Honor da vida.

Se eu fosse um personagem shakesperiano, teria suspirado e dito algo como “sinto a vida se esvair do meu corpo” ou “Sórdida traição! Golpearam-me pelas costas!”. Mas eu sou apenas um Rob Gordon. Ou seja, tudo o que consegui fazer foi largar o jornal e, enquanto as merdas do cachorro se espalhavam pelo chão, berrar:

– Aaaaaauuuuuu!

Besta-Fera, com um ar levemente interessado ao meu lado, disse “esta frase não é minha?” com os olhos.

Ignorei o comentário dele, mesmo porque eu não estava em posição de responder. Na verdade, eu não estava em posição de nada. Estava justamente na humilhante pose conhecida como “aquela em que Napoleão perdeu a guerra”: meio encurvado na varanda, com a cabeça ainda virada para baixo.

Fiquei assim alguns segundos até recuperar o fôlego – tenho certeza de que, assim como nas revistas em quadrinhos da Turma da Mônica, pequenos raios vermelhos de dor saíam das minhas costas. Não sabia o que era pior: minhas costas terem travado ou minhas costas terem travado comigo ali na varanda, rodeado por excrementos de todos os tipos.

Porque é evidente que se um dia minhas costas travassem e eu ficasse paralisado, isso não aconteceria num campo de tulipas ou num lago com ninfas gregas se banhando, mas sim no meio da merda do cachorro, ali na varanda, à vista do bairro.

Estranhamente, uma sensação de paz me atingiu. Subitamente, todos os meus problemas estavam resolvidos. Quer dizer, ao menos eles pareciam insignificantes. Contas para pagar? Prazos no trabalho? Nada disso tinha importância. Todos os meus problemas haviam se condensado em apenas um: minha coluna. E se eu resolvesse o problema em questão – minhas costas, ao menos o suficiente para me afastar daquele depósito de dejetos caninos, minha vida seria perfeita.

Assim, respirei fundo e comecei a analisar minhas possibilidades. Ou tentava me levantar de uma vez só, rezando para um estralo milagroso resolver tudo no processo, ou ia tentando me endireitar aos poucos, vendo até onde conseguia.

Claro que decidir pelo caminho mais rápido (ou seja, tentar endireitar a coluna de uma vez só) poderia aumentar o estrago. Aliás, como eu sou eu, capaz do movimento quebrar minha coluna e eu cair tetraplégico no meio dos cocôs da Besta-Fera. A história chegaria aos jornais e, com o tempo iriam fazer um filme sobre mim, igual aquele do Javier Bardem, mas com o nome de Mar de Merda Adentro.

Mesmo assim, eu estava atrasado para o trabalho. E nada pode deter o jornalismo brasileiro. Respirei fundo, criei coragem e me levantei de uma vez só:

– Aaaaaauuuuuu!

Vitória!

Ou não.

Consegui me erguer, na verdade, uns cinco centímetros, antes de ter a sensação de que a Aliança Rebelde, certa de que minhas costas eram a Estrela da Morte, decidissem atacá-la com força total.

Mas estes cinco centímetros foram suficientes para fazer com que agora eu olhasse a rua, e não os cocôs. Já era algo.

Contudo, eu não podia permanecer ali, era ingrato demais. Assim, tomando cuidado para mexer na coluna o mínimo possível, dei meia volta e me arrastei pela sala, caminhando com a elegância e o suingue do RoboCop. Meu destino? O sofá.

Depois de muita luta, cheguei até ele, fiz uma baliza na sala, e me sentei na beirada. Respirei fundo, e criei coragem para me deitar de lado. Aos poucos, fui descendo, tentando me deitar (“Ah... Ai... Ah... Ai...”), até que por fim consegui (“Aaaaaahhhhhh”).

Espero que ninguém tenha ouvido isso, ou vão achar que eu estava fazendo sacanagem logo no meio da manhã. E, pior, com o cachorro. Corcunda e zoófilo. Não eram nem 10 horas da manhã e, mesmo sem conseguir me mover, eu caminhava a passos largos para me tornar o freak do prédio.

Mas, deitado ali, a dor se aliviou um pouco e comecei a pensar nas minhas alternativas. Eu não poderia trabalhar assim. Eu mal havia conseguido chegar ao sofá, jamais conseguiria ir até a redação. Minha única alternativa era colocar as costas no lugar.

Mas, e a coragem para isso?

Assim, decidi que passaria o resto da vida corcunda. Aliás, esta seria minha nova profissão: corcunda. Seria o meu novo estilo de vida. Mudaria meu nome para Igor, e iria ao apartamento da minha antiga síndica pedir um emprego. Tenho certeza que ela faz experimentos com animais e crianças, evidente que ela teria vaga para um estagiário ou para um corcunda de recados.

Meu destino, então, estava traçado: passaria o resto da minha vida me arrastando pelo prédio, carregando um castiçal envelhecido com velas já meio queimadas, cumprindo suas ordens funestas. A única exigência que eu faria seria poder usar a expressão “Yes, master” o tempo todo. Nada de ticket ou vale-transporte, somente o “Yes, master”. Algo como:

– IGOR, VÁ ATÉ A GARAGEM E TRAGA TRÊS CÉREBROS E ÁCIDO.

– Yes, master.

– NA VOLTA, PASSE NO TERCEIRO ANDAR E SEQUESTRE UMA CRIANÇA.

– Yes, master.

Salário? Não preciso, o mestre me alimenta com suas sobras. Casa? Eu poderia muito bem ir até aquela igreja na esquina da Cardeal com a Heinrque Schaumann e pedir asilo. Moraria no sino. Assim, eu continuaria morando perto do trabalho, algo que deve ser bastante importante quando você é um corcunda. O problema era o nome. Ao invés do Corcunda de Notre Dame, eu seria o Corcunda da Igreja do Calvário. Ô fase.

Mas foi aí que percebi uma coisa. Dificilmente meu mestre me deixaria praticar meus hobbies. E eu não sou nada sem eles.

– Master, eu queria ir à banca comprar um Homem-Aranha.

E tome chicotada.

– Master, eu queria jogar um pouco de Harry Potter Lego no Wii.

E tome chicotada.

– Master, eu queria...

E tome chicotada.

– Mas, Master...

E tome chicotada.

E eu não sou nada sem meus hobbies. Assim, minha carreira de corcunda-assistente-de-cientista-maluco se encerrou antes mesmo de começar.

Só me restava, então, voltar ao jornalismo. Assim, respirei fundo, relaxei o máximo possível e me deitei de barriga para cima, gemendo. Meu plano era ficar ali alguns minutos, até criar coragem e me esticar, para ver o que acontecia.

Não deu tempo. Besta-Fera, me vendo deitado ali, de barriga para cima, decolou do chão da sala, flutuou no ar e aterrissou.

No meu peito.

Ploc!

–AAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUU!!!!!! FILHO DA PUTA!

Ainda estava ganindo e me contorcendo de dor no sofá, quando me lembrei do barulho que ouvi antes do meu berro.

“Ploc”.

Que “ploc” foi esse? Será que algo caiu no chão? Sentei-me rapidamente no sofá e olhei ao... Sentei-me no sofá? Rapidamente?

Eu estava curado! Besta-fera havia me curado!

De alguma forma, ele havia colocado minha coluna no lugar. Levantei-me e (satisfeito com o fato de que eu havia me tornado novamente um homo erectus) comecei a andar pela casa, testando, aos poucos, minha coluna. Nada de dor. Eu estava definitivamente curado.

Imediatamente, aqueles 20% do meu cérebro que eu não controlo, ao perceberem que eu tenho um cachorro com poderes curativos (um mutante, talvez?), começaram a bolar modos de capitalizar em cima disso. Talvez uma aparição na TV, uma excursão por cidades do interior. Quem sabe até mesmo o início de uma seita chamada Devotos de Besta-Fera?

Mas eu estava atrasado. Passei a mão na cabeça dele, agradecendo (ele me devolveu um olhar de “me deve um almoço, viu?”) e, com cuidado na hora de abaixar, terminei de trocar o jornal do cachorro, dei comida e água e ele e fui atrás das minhas coisas.

Carteira, celular...

Que inferno! Cadê as minhas chaves?

15 de julho de 2010

Devidisê

Eram quase 2 horas da manhã quando aquela gordinha, com cerca de quarenta anos de idade, óculos fundo de garrafa e cabelos presos num rabo de cavalo se aproximou do único caixa que estava aberto naquele horário, empurrando um carrinho repleto de mercadorias, para pagar suas compras no Pão de Açúcar da Teodoro Sampaio.

O mercado estava quase deserto. Assim, ela não apenas caminhou na direção do caixa sem demonstrar pressa nenhuma, como ainda encontrou tempo para começar a selecionar quais compras do carrinho iria efetivamente levar.

Sim, selecionar as compras do carrinho.

Ok, sejamos sinceros. É normal uma pessoa, na fila do caixa, decidir que uma ou outra mercadoria é desnecessária. Ao invés de dois potes de maionese, a pessoa percebe que precisa apenas de um, abandonando o sobressalente ali, à própria sorte, no meio dos pacotes de Doritos que ficam ao lado da fila. É absolutamente normal.

Contudo, a Gordinha estabeleceu novos conceitos para escolher suas compras. Aparentemente, as mercadorias, para chegarem à sua casa, precisam passar por um processo de seleção semelhante à Fuvest, composto por duas fases.

A mecânica, aparentemente, é a seguinte: uma laranja, por exemplo, sonhando com um futuro melhor na casa da Gordinha (ao menos até ser devorada numa tarde de sábado, ou virar suco) se inscreve na categoria Perecíveis. Assim, ela precisa ser aprovada na primeira fase, que consiste em, ainda na prateleira, chamar a atenção da Gordinha.

Os aprovados, então, são colocados no carrinho e levados até o caixa, onde passam por um novo processo de seleção, sendo vistoriados e analisados pela própria Gordinha, que escolhe quais são dignos de entrar em seu lar, e apresentam potencial para alimentá-la.

E a nota de corte parece ser alta – tudo para manter o padrão de excelência das refeições da Gordinha. Aparentemente, uma das categorias mais disputadas era a de congelados, com oito candidatos por vaga. E ela analisa cada um deles individualmente, com olhos atentos.

Ou isso, ou ela é um andróide que veio do futuro (e com um leitor de código de barras nos olhos) com a missão de encontrar um produto do Pão de Açúcar que, em alguns anos, se tornará o líder da revolução armada contra as pessoas, comandando exércitos de derivados de leite selvagens e produtos de limpeza treinados para matar.

Porque nada mais explicaria a demora dela para vistoriar cada produto. Cada item era retirado do carrinho e analisado em média por cinco segundos, antes de seu destino (a glória na esteira do caixa ou o esquecimento total naquele limbo de Doritos) ser anunciado. E, como ela tinha mais de quarenta produtos no carrinho, estamos falando de muitos e muitos “cinco segundos”.

Algumas eras geológicas depois, a Gordinha finalmente se decidiu por cerca de doze itens e os entregou ao caixa, que anunciou o valor em alto e bom som:

– 182 reais e quarenta centavos.

Enquanto ela guardava as coisas em diversas sacolas – felizmente, não havia um processo de seleção para isso – entregou um cartão do banco ao funcionário que, de forma automática, o espetou na máquina.

– Débito ou crédito?

– Débito.

Ele apertou dois botões e pediu:

– Pode digitar a senha.

A Gordinha apertou cinco ou seis teclas e continuou guardando as compras.

Mas foi interrompida.

– Senhora, está dando transação não autorizada. Vou tentar novamente.

– Sim, respondeu ela, por trás de seus óculos fundos.

– Débito ou crédito?

– Débito.

– Só um minuto... A senha, por favor.

Ansiedade. Da Gordinha, claro. O caixa parecia estar apenas com sono.

– Está dando transação não autorizada.

– Mas não é possível. Eu tenho saldo!

– Está dando transação não autorizada.

– Será que o problema é com o sistema?

– Devidisê, ele disse, juntando, numa palavra, mais fonemas do que qualquer gramática e muitos fonoaudiólogos desaconselhariam.

– Vamos tentar de novo?

– Débito ou crédito?

– Débito.

– Pronto. A senha, por favor.

Silêncio.

– Não autorizada.

– Não, isso está errado. Eu tenho saldo.

– Devidisê o sistema.

– Será que eu tenho a última mensagem de texto que recebi hoje à tarde?

Se esta história fosse um filme francês, neste exato momento um dos espectadores teria virado para a namorada, na platéia, e dito “não estou entendendo nada, o que ela quer com o celular?”. Felizmente, a vida é um filme americano, e a Gordinha, ciente das limitações do público, explicou seus atos.

– Eu recebo mensagens no celular sempre que uso o cartão, e ele me informa o saldo que eu tenho. Eu recebi uma hoje, mas não sei se apaguei... Está aqui! Ah não, esta é da operadora de celular. Não, eu já apaguei.

O caixa, atento ao fato de que a expressão “devedisê” não se encaixaria no contexto, permaneceu mudo. Ao contrário dele, o cérebro da Gordinha funcionava a todo vapor, e depois de se reunirem por alguns segundos, apresentaram algo que eles classificavam como uma idéia (na verdade, era uma série de frases rabiscadas num papel de pão amassado, junto com um número de telefone sem nome).

– Já sei! A conta deu 182 reais, certo? Então, cobre 30 reais no cartão, porque assim eu recebo uma nova mensagem de texto do banco e vejo meu saldo!

– Trinta reais?

– Sim, nas compras abaixo disso eu não recebo nada. Tem que ser 30.

– Débito ou crédito?

– Débito.

– Pronto. A senha, por favor.

Nervosismo.

– Passou.

– Que bom! Vamos esperar a mensagem de texto!

O caixa ficou em silêncio, provavelmente percebendo que, sem opção de sair dali, era evidente que ele iria esperar a mensagem junto com ela.

Mas claro que isso não iria garantir que a mensagem fosse entregue.

– Ai, meu Deus. Nunca demorou tanto assim. Será que vai demorar porque já é de madrugada?

– Devidisê.

– Eu preciso saber meu saldo! Ai banco, manda a mensagem logo!

O celular da Gordinha, que provavelmente estava dormindo na bolsa até o momento, acordou e, ficando imediatamente encabulado com o fato de ser arrastado para o meio daquela situação, resolveu tocar e acabar logo com aquilo.

– Chegou! Vamos ver... Vamos ver... Olhe só! Eu tenho 231 reais de saldo!

– Hum, respondeu o caixa.

– Vamos passar de novo. A compra tinha dado 182 reais e quanto?

– Quarenta centavos.

– Bom, você já cobrou trinta reais. Pode passar então 152 reais e quarenta centavos.

– Débito ou crédito?

– Débito

–A senha, por favor.

Olhar de vitória da Gordinha.

– Deu não autorizado.

– Não é possível! Esse problema deve ser no seu sistema!

– Devidisê.

– Ai, meu Deus... E agora? Como vou fazer para pagar as compras...? Já sei! Já sei! Vou sacar dinheiro ali no caixa eletrônico e pago em dinheiro. Você me espera?

“Bom, eu não posso mesmo sair daqui”, respondeu o caixa com o olhar. A Gordinha, porém, não deu atenção e já estava a caminho do caixa. Na metade do caminho, deu meia volta e questionou:

– Mas nesse horário eu só posso sacar cem reais, né?

– Devidisê.

– Ai... Olha, vamos tentar o seguinte. Tenta passar 52 reais e quarenta centavos. Se você conseguir, eu saco os outros cem reais, e pago em dinheiro.

E entregou o cartão ao caixa que, mesmo sem entender nada, achou melhor fazer o que ela estava falando.

– Débito ou crédito?

– Débito

– A senha, por favor.

Expectativa.

– Passou.

– Ufa! Agora, não faz sentido ele passar cinqüenta reais e não passar 150 reais, se eu tenho saldo na conta. Tem algo errado aí!

– Né?, retrucou o caixa, demonstrando todo seu entusiasmo pelo assunto.

– Agora eu vou sacar cem reais e já trago para você, em dinheiro.

– Ok.

Ela foi até o caixa eletrônico e espetou o cartão. Ao mesmo tempo, seu celular tocou, avisando do novo débito. Ela conferiu a mensagem e, ainda do caixa eletrônico, virou-se para o funcionário e gritou “eu tenho saldo, sim!”, talvez para tranqüilizá-lo. Mas ele não parecia exatamente nervoso – a não ser, claro, que ficar limpando a ponta da unha com uma tampa de caneta Bic fosse sua maneira de demonstrar ansiedade.

Minutos depois, ela volta, ofegante e com os óculos fundo de garrafa embaçados.

– Consegui!

E entregou duas notas de cinqüenta reais ao caixa.

– Está pago, então?

– Sim.

– Vocês têm que ver esse sistema de vocês! Ele está com problemas, você não acha?

– Devidisê.

Pegou as sacolas e saiu, esbaforida, em direção à porta. O rapaz do caixa observou em silêncio ela se afastando, receando que ela retornaria, para continuar a conversa. Ao perceber, aliviado, que isso não aconteceria, decidiu continuar trabalhando e passar as compras de mais um cliente.

– Próximo!

E o próximo cliente, um sujeito baixinho, careca e gordinho, depositou suas compras no caixa: uma lasanha (de calabresa) congelada e uma garrafa de Coca Zero.

Adivinhem quem era?

13 de julho de 2010

Fim do Dia

Tchau, até amanhã. Sim, estou indo. É... Fiquei até mais tarde hoje. Para o senhor também, até logo. Pelo menos não preciso esperar o elevador. Acho que essa é a única vantagem de ir embora de madrugada. Impressionante, essa catraca com as digitais nunca funciona. Pronto. Vai, abre logo esse portão, quero ir embora. Toda noite é esse inferno. Finalmente. Porra, não acredito que está chovendo. Não poderia ter começado a chover depois que eu entrasse em casa? Agora, não estou mais morto, estou morto e molhado. Mas pelo menos terminei tudo o que precisava. Amanhã, preciso apenas esperar voltar da revisão para mandar diagramar, aí posso começar a outra revista. Merda. Queria ter começado essa revista hoje. Porque no final vai faltar um dia, quer apostar? Sempre falta um dia. Aliás, eu tinha algo importante amanhã... Não consigo me lembrar o que era. Merda, essa loja de conveniência já fechou. Queria comprar algo para beliscar no caminho. Mas não vou passar no mercado, estou cansado demais. Quero só ir para minha casa. Puta que pariu, o que eu tenho amanhã? Não é dentista, ficou para sexta. Terapia? Não. Aluguel? Caralho, que dia é hoje? 13? 13. Porra, a chuva apertou. Não, não é o aluguel. Ah, lembrei, amanhã é o dia que eu entrego os textos. Bom, já estão entregues, graças a Deus. Mais um mês vencido. Estranho ver a Teodoro vazia assim. Não é assustadora é... Sei lá, solitária. Com essa chuva caindo, então, mais ainda. Mas, também, madrugada de segunda feira. Ninguém está na rua. Só eu. Queria estar em casa. Não, queria estar com ela. Ingrato demais isso. Ingrato demais trabalhar até esse horário. Juro que vou mudar isso. Preciso mudar isso. Engraçado, aquela janela desse prédio está sempre acesa. Sempre. Vai, cara, vai logo, você está dentro do carro, eu estou a pé na chuva, anda com essa merda ou me deixe atravessar. Ih caralho, e esse cara vindo na minha direção? Só falta eu ser assaltado agora. Bom, ele vai se fuder, porque eu não tenho nada. Quer dizer, eu que vou me fuder. Ele está chegando perto, não vou nem olhar. Não era nada. E se eu olhar para trás e ele estiver me olhando? Foda-se, vou continuar andando. Mas sim, preciso dar um jeito nisso. E descansar um pouco. Mas eu estou, juro que estou. Juro que estou fazendo o melhor de mim. Espere, se estamos no dia 13, O Blu-ray do Senhor dos Anéis sai essa semana. Mas não, não vou comprar agora. Quero guardar dinheiro. Preciso guardar dinheiro. Merda de chuva. Merda de cansaço, não estou conseguindo nem pensar direito. Será que isso rende post? Eu andando pela Teodoro sem conseguir pensar direito? Aliás, tem tanta coisa que eu quero postar ali... Mas está faltando tempo. Não. Está faltando tesão, estou desanimado demais. Deve ser cansaço. É muito problema, muita conta para pagar, muita briga, todo dia. Quando eu era criança, meu pai falava isso. Matar um leão por dia. Eu achava graça. Pior que é isso mesmo, um leão por dia, em alguns dias dois. Todos os dias. Vai sinal do caralho, fecha. Decisões, problemas, porradas. E para quê? Será que vale a pena? Sei lá, se eu tivesse ao menos uma pista de que eu estou no caminho certo, de que estou fazendo as coisas de forma certa. Porque eu tento. Eu juro que eu tento acertar o tempo inteiro, mas, às vezes parece que não é o bastante. Vontade de escrever no blog. Desabafar algo ali. Mas nem sei o que preciso desabafar. Ou o que quero desabafar. Coitada da minha psicóloga. Tenho pena dela às vezes. Mal sei o que há de errado comigo, ou com a minha vida... Não. Chega. Nem começa com isso. São quase duas da manhã, você não tem que se cobrar. Não agora. Descansa um pouco a cabeça. Merda de chuva. Descansa um pouco a cabeça, você merece. Ou, se não merece, precisa. Não merece. “Merecer não tem nada a ver com isso”. Imperdoáveis. Preciso rever esse filme. Caralho! Esqueci de ligar para o fotógrafo. Merda! Preciso ligar amanhã cedo. Não posso esquecer. Merda de cansaço. Esqueci por causa do cansaço, é muita coisa na cabeça. O tempo todo. Caralho, como eu queria parar de pensar um pouco. Cinco minutos. Juro. Cinco minutos. Será que eu pensava assim quando era moleque? Não lembro. Não consigo lembrar. Provavelmente. Mas eu não me cobrava tanto. Isso eu tenho certeza. Eu era mais sossegado. Não sei quando eu comecei a me cobrar tanto assim. Ou o motivo. Não, não vou entrar no Pão de Açúcar. Quero ir para casa. Mais nada. O fotógrafo. Não se esqueça de ligar para o fotógrafo. Vai, só mais uma quadra e acabou. Paz. Sossego. Ao menos por hoje. Queria colo. Queria o colo dela. O colo dela e música. Nat King Cole. Vontade de ouvir Nat King Cole. Será que eu tenho algo no PC? Não, se eu ligar o PC eu não durmo. Eu vou arrumar algo para fazer. O blog, o post da Gordinha do Pão de Açúcar. Não posso esquecer também. E esse blog? Será que vira algo um dia? Será que eles realmente gostam do que eu escrevo? Porque, sei lá, às vezes... Não, sem se cobrar. Sem fazer isso. Já chega a forma que eu me martirizo quando faço cagada, não vou começar a fazer isso quando acerto também. É o cansaço, tem que ser. Mas eu queria só isso mesmo, queria ter a certeza de que estou no caminho certo, que vai valer a pena. Saudade dos meus pais. Saudade de ter meus pais ali, resolvendo tudo a toda hora. Foda. Tomara que meu filho, com 34 anos, sinta tanta falta assim de me ter ao lado dele. Ou não. Tomara que ele não precise. Filho. Deve ser o máximo. Deve ser a coisa mais feliz do mundo. Tem que valer a pena. Tenho que estar no caminho certo. Vai, abre logo este portão. Foda-se que você estava dormindo, eu estou na chuva. Boa noite. Conta? Porra, outra? Conta, conta, conta. Foda, parece que a vida é só isso. Tem que ser mais que isso. Pelo menos o elevador está no térreo. Oi, sou eu. Vem cá! Oi! Sabe que enquanto eu não tenho filho, você é meu filho, né? E eu vou cuidar de você sempre o melhor que posso, prometo. Amanhã vou chegar mais cedo e a gente vai dar uma voltona, ok? Olha, sua comida. Água você tem. Pára, chega. Sossega. Eu também estava com saudade. Olhe, se eu estiver fazendo algo errado, você me avisa, tá? Porque não é de propósito, é porque eu não vou ter percebido. E aí eu vou tentar mudar. Prometo. Vai comer, eu quero só esse Toddynho e ir para a cama. Me secar e ir. Amanhã de manhã eu tomo banho. Tá chovendo, você viu? Torce pra não chover amanhã e a gente passeia. Desculpa, eu sei que acabei de chegar, mas preciso dormir. Amanhã começa tudo de novo. Desculpa. Estou muito cansado. Caralho, que delícia deitar. Ficar sem pensar em nada, até dormir. Que delícia. Tomara que o dia amanhã seja bom. Eu sei que você já está dormindo faz horas, mas dorme bem. Sonha muito. Eu te amo. Venha, sonho. Estou esperando.

11 de julho de 2010

Pronto. Top 5 Fotos Rob Gordon

Pronto.

Após semanas correndo (em vão) atrás de um fotógrafo cujo trabalho me fizesse justiça, joguei tudo para o alto e resolvi atender, de uma vez, os leitores que comentaram no post Carlos, Seu Criado. Assim, como a ilustração que fiz parece não ter agradado (mesmo sendo uma reprodução fiel minha), produzi uma série de fotos aqui em casa mesmo e escolhi o Top 5 para vocês.

Se alguém duvidar da veracidade das imagens, basta ler os arquivos do blog. Careca? Check. Barba? Check. Gordinho? Check. Camiseta de banda? Check.

Altura? Bom, creio que é melhor vocês verem as imagens. Elas falam por si só.

Assim, leitores: este sou eu. Divirtam-se.



Jogando Wii



Com minha coleção de livros nerds.
Obviamente, são pockets, ou não consigo segurá-los.



No PC. É aqui que eu blogo.



Deitado no sofá, assistindo a algum Blu-ray.



E, como presente aos leitores mais antigos, uma reconstituição do trágico momento
em que me queimei após cair com a lasanha da Sadia no chão da cozinha.

7 de julho de 2010

Correntes Filosóficas

Apocalípticos e integrados. Freudianos e junguianos. Ofensivos e retranqueiros. Capitalistas e comunistas. Ateus e crentes. Monarquistas e Presidencialistas. Democratas e republicanos. Carnívoros e Vegetarianos. Mozart e Beethoven. Beatles e Rolling Stones. Coca e Pepsi. Campo e praia. Feijão com arroz e arroz com feijão.

Não existe nenhum assunto em que todo mundo concorde. E esta é justamente uma das maiores riquezas do ser humano. Afinal, é justamente das discordâncias que nascem novas idéias, novas maneiras de ver o mundo. A evolução vem da discórdia. E a tolerância também: num mundo ideal, as pessoas não apenas têm opiniões diferentes, como aprendem a respeitar a forma de pensar dos outros. Porque não existe nenhum assunto que todo mundo concorde. Nunca existiu.

Ok, talvez exista uma exceção aí. Não conheço ninguém que discorde da frase “toda unanimidade é burra”, dita por Nélson Rodrigues.

A frase “toda unanimidade é burra” é unânime.

Aliás, vamos pensar sobre isso: se é unânime concordar que “toda unanimidade é burra”, isso faz da frase em si uma burrice. E, se a frase é burra, ela consequentemente estará errada: logo, nem toda unanimidade é burra. Mas, se nem toda unanimidade é burra, a unanimidade em torno da expressão “toda unanimidade é burra” pode estar correta, o que, por sua vez, daria razão à frase, transformando em burrice qualquer unanimidade – incluindo acreditar nesta frase.

Pronto, realizei o sonho da minha vida: inventar um paradoxo, que doravante será chamado de Paradoxo de Gordon (porque, convenhamos, Paradoxo de Chupa Nélson seria prepotente demais).

Mas o ponto não é este. Meu objetivo aqui é abordar duas das correntes de pensamentos mais fortes da história, e que costumam ser deixadas de lado em análises filosóficas. São duas linhas de raciocínio que acompanham o homem há milênios, e que são injustamente relegadas ao lado B da evolução.

Trata-se da divisão entre o “não era importante” e o “era mentira”.

Independente de qual corrente o filósofo segue, suas opiniões sobre o assunto vem à tona sempre que alguém que esquece o que iria falar para ele.

Acontece com todo mundo. Você precisa conversar sobre determinada coisa com uma pessoa, e, ao encontrá-la, o assunto simplesmente sai correndo do cérebro, desce pelo pescoço e se esconde atrás do fígado, normalmente ficando abaixado ali atrás, e rindo baixinho.

Assim, quando você abre a boca, o assunto não está mais lá. Na recepção do cérebro, onde ele esperava para ser atendido, não tem ninguém, só um sofá vazio e uma televisão passando o programa da Ana Hickmann. A recepcionista, claro, não sabe de nada (“ele estava aqui até agora, juro. Deve ter saído quando fui pegar café”).

E aí você fica com aquela cara de bobo na frente da pessoa, até se dar por vencido e soltar um “eu precisava falar uma coisa com você, mas esqueci...”.
E é aí que os filósofos entram em campo.

Algumas pessoas juram de pés juntos que isso aconteceu porque você ia contar uma mentira. Apesar de não ter nenhum embasamento teórico minimamente sólido para crer nisso (especialmente porque ela não sabe nem qual era o assunto), ela não muda de opinião, considerando aquilo quase como uma guerra santa.

Por outro lado, existe a outra corrente de pensamento: aqueles que, após anos de estudos e experimentos deduziram que uma pessoa só se esquece de um assunto que iria falar com outra quando ele não era importante.

E, claro, eles adaptam todo e qualquer exemplo a isso.

Tomemos como exemplo o sujeito que se esqueceu de contar para a namorada que aquela prima loira do interior – aquela mesma, que anda somente de biquíni e colocou silicone nos seios – vai passar o final de semana na casa dele por causa do vestibular.

Os que defendem a idéia do “esqueceu porque não era importante” dizem que ele não contou nada justamente porque isso jamais abalaria o namoro, tratando-se apenas de providenciar hospedagem a um parente distante. Já os que defendem a idéia do “esqueceu porque era mentira” dizem que o sujeito já estava mal intencionado desde o primeiro momento, e que, na primeira oportunidade, serraria a cama do quarto de hóspedes, para obrigar a prima a dormir no mesmo quarto que ele.

A única coisa em que os cientistas dos dois grupos provavelmente concordariam é que o caso, claro, precisaria ser analisado com mais cuidado, com os dois grupos requisitando algumas fotos da prima – preferencialmente de biquíni – para analisar melhor o caso.

Na minha família, existe uma guerra filosófica. Tenho membros das duas correntes no clã Gordon, e não consigo lidar direito com nenhum dos dois.
Mas, agora, colocando isso no papel, tenho que admitir que um deles parece fazer mais sentido.

Vamos, assim, aos exemplos práticos:

1. Mãe

– Eu tinha que falar uma coisa com você, mas esqueci...

– Ah, então era mentira.

– Como assim?

– Se você esqueceu, é porque era mentira.

– Mãe, você não tem como saber disso. Você não sabe o que era. Nem eu sei.

– Com certeza, era mentira.

– Não era mentira. Quer dizer, acho que não. Eu apenas me esqueci o que era. Daqui a pouco eu me lembro e falo.

– Tudo bem, mas deve ser mentira.

– Ok, mãe, ok.

– Aliás, nem precisa falar depois, quando você lembrar.

– Ok, mãe, ok.

– Porque com certeza devia...

– Devia ser mentira. Eu sei.

– Senão você não teria esquecido.

– Ok, mãe, ok.

– Rob, conte logo o que era.

– Mãe, eu não posso contar. Eu esqueci o que era.

– O que você está aprontando, hein?

2. Avó

– Eu tinha que falar uma coisa com você, mas esqueci...

– Então não era importante.

– Como você sabe? Talvez fosse, e eu esqueci porque estou com muita coisa na cabeça.

– Se fosse realmente importante, você não teria esquecido. Você teria esquecido outra coisa, e não essa.

– Tem razão.

É. Ponto para minha avó. Parece ser incontestável. Não chega a ser unânime (Paradoxo de Gordon mode: on), mas parece ser incontestável.

6 de julho de 2010

Pinheiros - Constantinopla

Dia desses, precisava ir até a Avenida Paulista. Peguei minhas coisas e fui até a Teodoro esperar um dos ônibus que passam por ali.

Na verdade, cabe aqui uma crítica: uma das coisas mais difíceis de você fazer, em São Paulo, é ir da Teodoro Sampaio para a Paulista de ônibus. O ridículo é que as duas ruas são extremamente movimentadas, muito importantes e são próximas uma da outra – não próximas o suficiente para ir a pé, mas próximas o bastante para ter pelo menos uma meia dúzia de linhas de ônibus com este trajeto. E existem somente dois ônibus que fazem isso.

Como se não bastasse, estes dois ônibus são como Copa do Mundo. Eles aparecem somente a cada quatro anos, e às vezes o resultado é bem insatisfatório – sim, eles param no ponto somente quando estão com vontade disso. Então, não é difícil você ficar ali plantado e assistindo a passagem de ônibus que vão para todos os destinos possíveis (desde Lapa – Penha até Montevidéu – Caracas, passando por Condado – Mordor via Valfenda), menos os que vão para a Paulista.

Às vezes eu chego até mesmo a me questionar se no trajeto entre meu prédio e o ponto eu não invadi uma dimensão paralela na qual a Avenida Paulista nunca existiu (como uma daquelas terras paralelas do universo DC). Porque eu fico ali, em pé, observando o mundo ao meu redor. Vejo prédios sendo erguidos e sendo demolidos; pessoas nascendo, crescendo, envelhecendo e morrendo; guerras começando e acabando; espécies sendo extintas. E nada da porra do ônibus passar.

E, neste dia específico, não me recordo o que iria fazer na Paulista, mas qualquer um dos dois ônibus me servia. Tanto o Largo da Pólvora (cujo nome indica que seus carros devem ter um índice de criminalidade maior que o do Acre), que vai até a Brigadeiro, quanto o outro, que vai até o Paraíso, e que se chama... É... É uma palavra grande, como é mesmo...?

Esse é o problema. Eu nunca lembro o nome dele. O nome desse ônibus é uma combinação de letras que meu cérebro é incapaz de guardar – e deve ser algo pessoal. Eu sou capaz de me lembrar de planetas de Star Wars e Star Trek, mas não consigo decorar o nome do maldito ônibus que vai para a Paulista. É como se ele fosse uma espécie de Lorde Voldemort do transporte público. Assim, toda vez que vou para a Teodoro pegar um ônibus para a Paulista, eu sei que minhas opções são o Largo da Pólvora e Aquele-que-não-Deve-ser-Nomeado.

E, veja bem, eu sei qual é o nome do ônibus. Quando ele aparece no ponto, eu não fico em dúvida, me perguntando “será que é este que vai para a Paulista?”, e nem fico olhando para ele com aquela cara de “de onde eu conheço você mesmo? Nós estudamos juntos? Você morava em Moema?”.

Não, não. Quando ele passa, eu o reconheço na mesma hora, e sinto até mesmo certo alívio por finalmente me lembrar do nome. Mas, ao mesmo tempo, fico frustrado por ter sido incapaz de me lembrar do seu nome sem ajuda, e normalmente reajo a isso exclamando um palavrão enquanto faço o sinal.

Enfim, voltando a este dia específico. Cheguei ao ponto e comecei a esperar por qualquer um dos dois ônibus que iam para a Paulista. Mas, cansado de nunca decorar o nome dele, decidi que hoje eu iria me lembrar do nome do ônibus sem a ajuda de ninguém. Tenho 34 anos, e é hora de começar a enfrentar meus demônios – e o ônibus misterioso que vai da Teodoro para a Paulista seria um bom começo.

Assim, eu pedi a Deus para que impedisse esse ônibus de passar pelo ponto antes que eu me lembrasse do nome dele. Se a rua estivesse menos lotada – algo que jamais aconteceria, já que a Teodoro Sampaio tem a mesma densidade demográfica de uma ponta de estoque em Pequim – provavelmente eu me ajoelharia na calçada e, usando um galho como espada, me portaria como um cavaleiro prestes a embarcar nas cruzadas, pedindo a Deus que “ilumine meu caminho, faça com quem eu me lembre do nome do ônibus, para que assim eu seja digno de ir até a Paulista, amém”.

Isso, claro, se a rua estivesse vazia. Como ela estava lotada, eu apenas me apoiei no muro de uma loja de sapatos que fica em frente ao ponto e comecei a pensar no maldito nome do ônibus.

O problema é que isso aconteceu antes do almoço, e o expediente do meu cérebro começa as 14:00, que é quando começa a chegar o povo da Criação. Pela manhã, existem apenas dois neurônios trabalhando lá dentro. São dois estagiários que têm a função de ver se as coisas estão funcionando normalmente e ordens expressas de não mexerem em nada. Assim, é claro que se eles espantaram quando receberam um e-mail informando que o cérebro deveria parar todas as tarefas daquela manhã para identificar o nome do ônibus.


Estagiário 1: Você viu este e-mail sobre o ônibus? Acho que é com a gente.

Estagiário 2: Vi, acabei de receber na minha máquina. Será que eles sabem que só nós estamos aqui?

Estagiário 1: Acho que não. Mas pediram o nome do ônibus para agora. Vamos ter que resolver.

Estagiário 2: Hum... O que você tem de informações sobre esse ônibus?

Estagiário 1: Vou ver aqui, espere. Ih... Estou sem rede. Deve ter sido a enxaqueca de ontem.

Estagiário 2: Será que caiu aqui também? Hum... Não, aqui está ok.

Estagiário 1: Checa na sua máquina, então.

Estagiário 2: Espere. Hum... Será que isso vai estar em P de Paulista? Ou em T de Teodoro?

Estagiário 1: Tenta em O. De Ônibus.

Estagiário 2: Boa! Deixe-me ver... Ah, está aqui. É o Largo da Pólvora. Matamos.

Estagiário 1: Não, não é o Largo da Pólvora. É o outro.

Estagiário 2: Ah, é?: Bom, deve estar aqui perto... Achei! Ônibus sem Nome que vai de Pinheiros para a Paulista. Deve ser isso.

Estagiário 1: Com certeza. O que diz aí?

Estagiário 2: Que o nome é uma palavra só. E grande.

Estagiário 1: Grande quanto?

Estagiário 2: Não diz. Só fala aqui que é grande. Ah, olhe. Tem a palavra “vogal”, escrita a mão mesmo, ao lado.

Estagiário 1: Vogal? Qual vogal?

Estagiário 2: Não fala. Só diz isso: vogal.

Estagiário 1: É muito pouca coisa.

Estagiário 2: Mas é o que tem...

Estagiário 1: O segredo é pensarmos no trajeto. O que tem perto da Paulista cujo nome é grande e com vogal?

Estagiário 2: Masp. Banco Real. Fiesp.

Estagiário 1: Não, é palavra grande.

Estagiário 2: Eu sei, mas eu não costumo passar pela Paulista. Conheço bem pouco ali.

Estagiário 1: Não deve ser difícil. O ônibus sai de Pinheiros. Deve pegar a Dr. Arnaldo e vai para o outro lado da Paulista. E é uma palavra grande...

Estagiário 2: Se ao menos soubéssemos qual a vogal...

Estagiário 1: Shopping Paulista não, são duas palavras. Paraíso não é grande. Brigadeiro?

Estagiário 2: Talvez.

Estagiário 1: Mas eu conheço ele. Aí estaria “nome de doce”, e não “vogal”.

Estagiário 2: Olhe, eu sei que não tem muito a ver, mas eu não consigo parar de pensar em Constantinopla.

Estagiário 1: Oi?

Estagiário 2: Desde a hora que vimos que é uma palavra grande, estou com Constantinopla na cabeça.

Estagiário 1: Você tem noção do quanto isso é ridículo?

Estagiário 2: Tenho. Mas não consigo pensar em outra coisa. Acho que é porque eu vi um documentário sobre o império turco ontem. Constantinopla. E a palavra é grande, você tem que admitir isso.

Estagiário 1: Bom, deixe a Constantinopla para lá, vamos pensar nisso aqui. Será que a vogal é um “a” de Antônio, de Brigadeiro Luiz Antonio?

Estagiário 2: Não, ninguém chama a Brigadeiro de Luiz Antônio. Todo mundo chama de Brigadeiro.

Estagiário 1: Tem razão.

Estagiário 2: E Arturdiazevedo?

Estagiário 1: Oi?

Estagiário 2: Arturdiazevedo.

Estagiário 1: Isso não é uma palavra só. São três. E nem é perto da Paulista, é em Pinheiros.

Estagiário 2: Ah, não sabia.

Estagiário 1: Sério, ele está indo para a Paulista! Isso não pode ser tão difícil assim!

Estagiário 2: Olhe, desculpe...

Estagiário 1: Desculpe por que?

Estagiário 2: Eu simplesmente não consigo evitar!


Eu já estava há dez minutos no ponto, e nada do maldito nome aparecer na minha mente. E, sabe-se lá qual o motivo, cada vez que eu tentava me lembrar do nome do maldito ônibus, a palavra Constantinopla surgia na minha mente. Comecei a me sentir um imbecil.

E as pessoas ao meu lado concordariam comigo, porque a cada dois minutos eu abaixava a cabeça, esfregava os olhos com as pontas dos dedos e resmungava algo como “sai da minha cabeça, merda de palavra!”. Mais alguns minutos, e eu começaria a socar minha cabeça no meio da Teodoro (clube da luta mode: on), gritando que “nem com vogal você é!”. E daí para um hospital psiquiátrico seria um pulo.

Num ato de desespero, comecei a listar todas as palavras que começavam com vogais e eu conheço. Amor. Elefante. Igreja. Utopia. Constantinopla. Escola. Açude. Adoniran. Constantinopla. Empatia. Ombudsman. Constantinopla. Infelicidade. Estranho. Constantinopla. Constantinopla. Constantinopla

Merda de palavra!

Minha vontade era enfiar minha cabeça no ponto de ônibus até rachá-la em dois, arrancar a merda da Constantinopla lá de dentro, jogá-la na loja de sapatos e correr para o primeiro ônibus que passasse por ali, para escapar dela. Estava prestes a fazer isso quando vi o Largo da Pólvora se aproximando.

Fiz sinal e eu embarquei. Paguei e me sentei num banco vazio, amaldiçoando a mim mesmo por, mais uma vez, não ter me lembrado do nome do ônibus. Decidi colocar isso de lado e esperar pela próxima chance.

Antes mesmo do segundo ponto, porém, tambores começaram a rufar na minha cabeça. Numa praça, centenas de neurônios estavam em pé ao lado de um monumento coberto com um pano. Quando os tambores pararam, três neurônios puxaram o pano, e, sobre os aplausos da multidão, uma palavra se descortinou à vista de todos - se fosse Constantinopla, eu iria mandar interditar meu cérebro.

"Aclimação"

Fechei os olhos, aliviado.

Mas, antes mesmo de comemorar, mandei um memorando para meu cérebro, ordenando que novos estagiários fossem contratados o mais rápido possível.

5 de julho de 2010

Barrados no Shopping - Cena Adicional

Apesar de esta história ter acontecido alguns anos depois da minha ida à sala de segurança do Shopping Ibirapuera, ela vale a pena ser contada aqui. Ela ocorreu em duas partes, na época em foi baixada uma lei que proibia as pessoas de fumarem dentro dos shoppings de São Paulo.

Até ai, ok. Eu respeitava a lei. Mesmo porque sempre fui um fumante consciente, ainda mais dentro de shopping. Não fumava na praça de alimentação ou dentro de lojas – nunca cheguei nem a acender um cigarro dentro de um banco, quando era permitido – e deixava para fumar somente quando estivesse andando pelos corredores.

Porém, inventaram esta lei. E eu respeitava. Acendia o cigarro somente fora do shopping.

Menos quando estava chovendo. Aí, eu acendia ainda dentro do shopping, quando estava a um ou dois passos de distância da porta e prestes a sair, e ao colocar os pés para fora, usava o método robgordoniano de fumar na chuva (segurando o cigarro com a mão invertida, deixando-o protegido).

E, num dia chuvoso, estava andando em direção à saída, a coisa de dois metros da porta, quando acendi o cigarro. Antes de eu chegar à porta (o que aconteceria 2 segundos depois), um segurança se aproximou.

– Não pode fumar aqui dentro.

– Eu sei disso. Eu estou saindo.

– Você acendeu aqui dentro. Não pode.

– Eu odeio ser repetitivo, mas você não está me dando alternativas. Eu sei disso e estou saindo.

– Nunca mais fume aqui dentro, ou eu vou fazer você apagar o cigarro.

Meu impulso foi elaborar uma resposta envolvendo os elementos “local onde vou apagar o cigarro” e a “glândula anal do segurança”, mas fiquei quieto. Eu sempre fui pequeno e se existe uma verdade universal é que os seguranças de shopping são sempre grandes, independente de raça, cor, credo e qual shopping trabalham.

Pensei também em argumentar com ele dizendo que se ele não tivesse me pentelhado, eu e minha turma (ou seja, o cigarro, a fumaça, o isqueiro, todo mundo) já estaríamos fora do shopping há muito tempo, mas mudei de idéia. A conta parecia ser complexa demais para ele.

Assim, saí do shopping levando meu cigarro e jurando vingança.

E ela aconteceu dois dias depois (leia-se: primeira vez que eu fui ao shopping depois disso).

Fiquei andando pelos corredores até encontrar este segurança. Perdi uns vinte minutos da minha vida, mas consegui localizá-lo perto da C&A. Assim, passei por ele, fui até o final do corredor, acendi o cigarro e dei meia-volta.

Na verdade, eu não estava apenas caminhando com o cigarro na mão. Eu estava caminhando de forma que todos vissem que eu estava fumando, com a mão para o alto, deixando o cigarro o mais exposto possível. Se eu tivesse uma caneta marca texto comigo, teria pintado o cigarro de verde limão ou rosa choque, para chamar ainda mais a atenção. Na verdade, eu deveria ter feito uma camiseta com os dizeres: “Você viu que estou fumando?”, mas isso não me ocorreu à época.

Mas não foi preciso nem caneta marca texto, nem camiseta, nem nada. O segurança mordeu a isca. E veio até mim, com uma cara que lembrava um tigre que havia avistado sua presa. Eu era o pobre animal que seria caçado e abatido com uma dentada no pescoço, mas continuei caminhando pelas savanas africanas, alheio ao perigo que corria. E com o cigarro na mão.

Porém, diferente dos tigres, ele não me cercou esperando pelo melhor momento de atacar. Na verdade, ele veio direto para cima de mim.

– Não é permitido fumar aqui dentro.

– Sim, eu sei disso.

Pela cara que ele fez, ou ele não gostou muito do que eu disse, ou descobriu naquele minuto que estava com pedras no rim. Agora, olhando em retrospecto, acho que tinha a ver com a minha frase mesmo, tanto que ele não gritou “ai!”, mas sim:

– Apague esse cigarro!

Eu olhei para ele, para o cigarro e depois para ele de novo.

– Por quê?

Pela expressão dele, se fosse realmente uma pedra no rim, ela deveria ser do tamanho de uma rocha.

Ou isso, ou eu estava prestes a morrer.

– Porque não pode fumar dentro do shopping!

Eu olhei mais uma vez para o cigarro e depois para ele.

– Eu não estou fumando. Eu estou apenas segurando o cigarro. Fumar implica em levar o cigarro à boca e tragar. Você me viu fazendo isso?

– Não. Mas a lei...

– Eu estou de acordo com a lei e não estou fumando em local proibido. Existe alguma lei que me proíba, especificamente, de portar um cigarro aceso?

– A lei serve para isso também.

– Como você sabe? Você já teve oportunidade de ler o texto da lei na íntegra?

– Não. Mas tem uma cópia na sala da segurança, nós recebemos.

– Bom, é apenas isso que vai resolver este impasse. Se você quiser buscar o texto da lei, eu espero aqui. E nós lemos juntos.

Ele parou para pensar. Todos os seus instintos diziam que ele estava sendo enganado, mas seu cérebro não conseguia identificar em qual local da conversa isso estava acontecendo.

Como incentivo, eu continuei:

– Eu espero aqui. E pode ficar tranqüilo que não vou fumar enquanto isso. É proibido.

E ele foi. E, em algum lugar do universo, a Teoria da Evolução sentiu uma pontada no peito e pensou “melhor eu procurar um médico, tem algo de errado”. E eu, claro, virei as costas e saí rapidinho do shopping, antes que ele voltasse, para rir do lado de fora.

Mas sem fumar, porque era proibido.

4 de julho de 2010

Gesù Bambino


Quando enfim eu nasci
minha mãe embrulhou-me num manto.

Me vestiu como se

eu fosse assim, uma espécie de santo.

1 de julho de 2010

Ao Meu Sobrinho

Moleque,

Antes de tudo, saiba que é estranho demais, para mim, escrever um texto para alguém que só vai ler isso daqui a alguns anos. Aliás, é mais estranho ainda escrever para alguém que eu nem conheço. Mas vou tentar assim mesmo – afinal, sendo seu tio, é o mínimo que eu posso fazer.

Como você está lendo esta carta agora, presumo que você tenha aprendido a ler recentemente. Assim, acredito que sua vida esteja começando agora – a não ser, claro, que você seja um vagabundo que só conseguiu se alfabetizar com 20 anos de idade, o que espero que não aconteça.

Mas, partindo do princípio que você ainda esteja dando seus primeiros passos no mundo, queria dar umas dicas para você aqui. Porque (e já é hora de você aprender isso) seus pais vão sempre dar conselhos a você, sempre vão tentar orientá-lo da melhor forma possível. Mas, quando você precisar de toques (e você ainda vai aprender que “conselhos” e “toques” são coisas totalmente diferentes), seu tio estará sempre aqui para você.

Assim, deixe-me dar um primeiro toque para você: as coisas não são fáceis lá fora. Aliás, são bem complicadas, na maioria das vezes. Por isso, não cometa o mesmo erro de muita gente e não tente acabar logo com sua infância. Acredite em mim: a infância é sábia. Ela sabe qual é a hora correta de acabar. Confie nela.

E vou dar o segundo toque: fique esperto. Assim que sua infância acabar, começarão a surgir problemas de gente grande. Primeiro, eles aparecem na forma de trabalhos de química e provas de geografia. E não vou mentir aqui para você: metade destas coisas você nunca vai usar na vida (saber que a capital do Nepal é Katmandu nunca me ajudou em nada), mas você vai ter que passar por elas.

Mas não se preocupe: você vai dar conta disso. Alguns serão mais difíceis, mas você vai dar conta. E, conforme os anos forem passando, os problemas ganham outros nomes. Deixam de ser trabalhos de escola, e passam a ser chamados de aluguel, trabalho, responsabilidades. E, quer saber? Você vai dar conta também.

Porque, se existe algo que eu aprendi ao longo destes anos, e que eu já posso falar a você, é que “no final tudo dá certo”. Mesmo.

Mas você acha que a vida é só feita de problemas? Em alguns momentos vai parecer que sim, eu sei, mas ela sempre tem muita coisa boa. Basta saber procurar. Sabe... Eu até invejo você em alguns momentos. Existem coisas que não tem preço, e você ainda vai descobrir isso. E todas elas são apaixonantes.

E, moleque, você vai se apaixonar muito ainda.

E não estou falando de pessoas. Ainda. Estou falando de você se apaixonar por um determinado brinquedo; de você se apaixonar pelo gol que fez no campeonato da escola; de você se apaixonar por um livro, um filme, uma música. Algumas paixões vêm e vão. Seu tio, por exemplo, já teve muitas paixões. Algumas delas não estão mais comigo, mas elas sempre deixam algo com a gente, nem que seja uma memória doce. Você vai se apaixonar muito ainda, e, escute seu tio: apaixone-se sempre.

E quanto às pessoas? Ah sim, essas são apaixonantes também. Desde a amiguinha da escola até a futura mãe dos seus filhos, muita gente vai passar pela sua vida. Você vai se apaixonar pelas pessoas certas e pelas pessoas erradas; você vai se apaixonar por pessoas sem entender porque está apaixonado por elas; muita gente vai partir seu coração, e, sim, você vai partir o coração de muita gente também. Não tem como fugir disso.

O que estou falando é que existirão dias que você vai querer voltar para casa pulando e dançando pela rua por causa dessas pessoas; mas existirão dias que tudo o que você vai desejar é entrar em casa, se arrastar até a cama, dormir e esquecer. Faz parte, e sempre vai ser assim.

Então, mais um toque: algumas vitórias não são definitivas, mas nenhuma derrota dura para sempre. Nunca se esqueça disso.

Por isso que eu disse lá em cima: não acabe com a sua infância antes dela pedir por isso. Passe o tempo que for preciso sentado no tapete da sala dos seus pais, brincando com seus bonequinhos, criando mundos imaginários e vivendo aventuras que só você vai conseguir bolar. Porque será dentro desses mundos e no meio destas aventuras que você vai moldar o homem, honesto e feliz, que você virá a ser um dia.

E eu sei que você vai ser um homem honesto e feliz.

Quer saber como eu tenho tanta certeza disso? Por causa da sua família. Moleque, você nunca vai estar sozinho. Nunca. Porque você tem uma família maravilhosa, que te ama muito. E nós sempre vamos estar por perto. Você tem dois pais maravilhosos, tios que te amam demais e quatro avós que são completamente apaixonados por você.

Nunca se esqueça disso. Nunca.

E aproveite cada momento com eles. Aproveite cada brincadeira no chão da sala com um tio, cada soneca com um avô, cada bombom que alguma avó deu escondido. Aproveite cada minuto no colo da sua mãe, ou no ombro do seu pai. Aproveite ao máximo cada natal, cada almoço de Páscoa, cada final de campeonato, cada vez que for ao cinema com seus pais.

E naqueles almoços de domingo, que todos estão comendo e rindo ao seu redor, e você não consegue pensar em outra coisa a não ser sair da mesa para jogar videogame, encontrar seus amigos ou sair com a namorada... Fique um pouco mais na mesa. Estes almoços de domingo vão ser algumas das melhores memórias que você terá, por muitos e muitos anos.

Mas não serão esses almoços de domingo que tornarão você uma pessoa feliz. Isso é somente você quem pode fazer.

Porém, a gente vai estar sempre aqui para te ajudar.

Quer a prova disso? Eu estou escrevendo este texto um dia antes de você nascer, e eu já amo demais você, mesmo sem te conhecer. Toda a sua família te ama demais, moleque.

E, quanto a este texto... Não tenha pressa em lê-lo. Ele vai estar sempre aqui, no blog, para você.

Aliás, quer saber de uma coisa? A cada vez que você pegar este texto, você vai entendê-lo de forma diferente. Algumas frases vão estar escritas do mesmo jeito que sempre estiveram, mas você vai ler cada uma delas de forma diferente do que havia lido.

Porque – e você ainda vai entender isso – a vida é exatamente assim.

Seja bem vindo, e confie em mim: você vai adorar isso aqui!