5 de julho de 2010

Barrados no Shopping - Cena Adicional

Apesar de esta história ter acontecido alguns anos depois da minha ida à sala de segurança do Shopping Ibirapuera, ela vale a pena ser contada aqui. Ela ocorreu em duas partes, na época em foi baixada uma lei que proibia as pessoas de fumarem dentro dos shoppings de São Paulo.

Até ai, ok. Eu respeitava a lei. Mesmo porque sempre fui um fumante consciente, ainda mais dentro de shopping. Não fumava na praça de alimentação ou dentro de lojas – nunca cheguei nem a acender um cigarro dentro de um banco, quando era permitido – e deixava para fumar somente quando estivesse andando pelos corredores.

Porém, inventaram esta lei. E eu respeitava. Acendia o cigarro somente fora do shopping.

Menos quando estava chovendo. Aí, eu acendia ainda dentro do shopping, quando estava a um ou dois passos de distância da porta e prestes a sair, e ao colocar os pés para fora, usava o método robgordoniano de fumar na chuva (segurando o cigarro com a mão invertida, deixando-o protegido).

E, num dia chuvoso, estava andando em direção à saída, a coisa de dois metros da porta, quando acendi o cigarro. Antes de eu chegar à porta (o que aconteceria 2 segundos depois), um segurança se aproximou.

– Não pode fumar aqui dentro.

– Eu sei disso. Eu estou saindo.

– Você acendeu aqui dentro. Não pode.

– Eu odeio ser repetitivo, mas você não está me dando alternativas. Eu sei disso e estou saindo.

– Nunca mais fume aqui dentro, ou eu vou fazer você apagar o cigarro.

Meu impulso foi elaborar uma resposta envolvendo os elementos “local onde vou apagar o cigarro” e a “glândula anal do segurança”, mas fiquei quieto. Eu sempre fui pequeno e se existe uma verdade universal é que os seguranças de shopping são sempre grandes, independente de raça, cor, credo e qual shopping trabalham.

Pensei também em argumentar com ele dizendo que se ele não tivesse me pentelhado, eu e minha turma (ou seja, o cigarro, a fumaça, o isqueiro, todo mundo) já estaríamos fora do shopping há muito tempo, mas mudei de idéia. A conta parecia ser complexa demais para ele.

Assim, saí do shopping levando meu cigarro e jurando vingança.

E ela aconteceu dois dias depois (leia-se: primeira vez que eu fui ao shopping depois disso).

Fiquei andando pelos corredores até encontrar este segurança. Perdi uns vinte minutos da minha vida, mas consegui localizá-lo perto da C&A. Assim, passei por ele, fui até o final do corredor, acendi o cigarro e dei meia-volta.

Na verdade, eu não estava apenas caminhando com o cigarro na mão. Eu estava caminhando de forma que todos vissem que eu estava fumando, com a mão para o alto, deixando o cigarro o mais exposto possível. Se eu tivesse uma caneta marca texto comigo, teria pintado o cigarro de verde limão ou rosa choque, para chamar ainda mais a atenção. Na verdade, eu deveria ter feito uma camiseta com os dizeres: “Você viu que estou fumando?”, mas isso não me ocorreu à época.

Mas não foi preciso nem caneta marca texto, nem camiseta, nem nada. O segurança mordeu a isca. E veio até mim, com uma cara que lembrava um tigre que havia avistado sua presa. Eu era o pobre animal que seria caçado e abatido com uma dentada no pescoço, mas continuei caminhando pelas savanas africanas, alheio ao perigo que corria. E com o cigarro na mão.

Porém, diferente dos tigres, ele não me cercou esperando pelo melhor momento de atacar. Na verdade, ele veio direto para cima de mim.

– Não é permitido fumar aqui dentro.

– Sim, eu sei disso.

Pela cara que ele fez, ou ele não gostou muito do que eu disse, ou descobriu naquele minuto que estava com pedras no rim. Agora, olhando em retrospecto, acho que tinha a ver com a minha frase mesmo, tanto que ele não gritou “ai!”, mas sim:

– Apague esse cigarro!

Eu olhei para ele, para o cigarro e depois para ele de novo.

– Por quê?

Pela expressão dele, se fosse realmente uma pedra no rim, ela deveria ser do tamanho de uma rocha.

Ou isso, ou eu estava prestes a morrer.

– Porque não pode fumar dentro do shopping!

Eu olhei mais uma vez para o cigarro e depois para ele.

– Eu não estou fumando. Eu estou apenas segurando o cigarro. Fumar implica em levar o cigarro à boca e tragar. Você me viu fazendo isso?

– Não. Mas a lei...

– Eu estou de acordo com a lei e não estou fumando em local proibido. Existe alguma lei que me proíba, especificamente, de portar um cigarro aceso?

– A lei serve para isso também.

– Como você sabe? Você já teve oportunidade de ler o texto da lei na íntegra?

– Não. Mas tem uma cópia na sala da segurança, nós recebemos.

– Bom, é apenas isso que vai resolver este impasse. Se você quiser buscar o texto da lei, eu espero aqui. E nós lemos juntos.

Ele parou para pensar. Todos os seus instintos diziam que ele estava sendo enganado, mas seu cérebro não conseguia identificar em qual local da conversa isso estava acontecendo.

Como incentivo, eu continuei:

– Eu espero aqui. E pode ficar tranqüilo que não vou fumar enquanto isso. É proibido.

E ele foi. E, em algum lugar do universo, a Teoria da Evolução sentiu uma pontada no peito e pensou “melhor eu procurar um médico, tem algo de errado”. E eu, claro, virei as costas e saí rapidinho do shopping, antes que ele voltasse, para rir do lado de fora.

Mas sem fumar, porque era proibido.

12 comentários:

Natalia Máximo disse...

E podia fumar em shopping? Nunca soube disso!

Ana disse...

E os seguranças do Shopping Ibirapuera continuaram sendo alvo da ira de Rob Gordon mesmo depois de adulto.

Natalia, no nosso tempo (meu e do Rob, sabe como é, somo quase idosos) podia fumar em todo lugar. Avião, cinema, shopping,... Para os nossos pais, cigarro era uma coisa que fazia parte do cotidiano. Um HORROR!! O_o

rodrigo disse...

Rob, Rob.... Não eramos tão conscientes assim não, lembra na facu quando estudavamos numa catacumba no subsolo sem janela e mesmo assim fumavamos em sala de aula?

Jullia A. disse...

Hahaha o/
A parte que podia fumar no aviao eu lembro. era la no fundo da parte economica, perto dos banheiros.

E eu nao sou tao idosa assim. o/

enfim, protesto 'e protesto.

Rob Gordon disse...

Rodrigo

Eu me permite fumar dentro da sala de aula na faculdade quanto uma imbecil acendeu um incenso na sala.

Varotto disse...

Cara, você tem de se tratar...

P.S.: Por que será que eu acho que há muitas outras cenas adicionais dignas de nota para a série "Barrados no Shopping"?

Nelson disse...

Sou adepto do método robgordoniano também, só uma vez que a polícia me parou achando que eu tava fumando maconha.

Pelo visto, a parte da lei de "é proibido conduzir acesos cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos..." se deve a você.

Mas uma coisa é verdadeira: se você não consegue achar alguma coisa no shopping (nem algum balcão de informações), simplesmente acenda um cigarro. Um segurança se materializará logo ao seu lado num prazo de até 3 segundos. Aí, basta imitar um gringo, pedir desculpas, apagar o cigarro e pedir informação, haha.

abraço Rob!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Nunca soube que um dia se pôde fumar em shoppings hahahahaha

mim disse...

Pois é, como o Nelson falou: "é proibido conduzir acesos cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos e assemelhados", a lei é bem clara quanto à isso. Sou fumante e respeito o direito dos outros de não fumarem, mas fiquei muito puto com esta história de que não podem mais existirem os fumódromos.

Bel Lucyk disse...

kkkkkkkkkkkkkkk
nao eh possivel que ele nao percebeu que tava sendo enganado!? Ja imagino a cena: ele andando apressado, quase correndo, chegando na sala, lendo o texto e relendo pra nao ser pego de surpresa, procurando os argumentos e montando tudo na cabeça... edepois de ter feito tudo isso, quando voltou, ficou a ver navios! ahahahahahhahaha
Oh,Rob! Daqui a pouco vc fica proibido de entrar nesse tambem!

Kel Sodre disse...

Ai, gente, eu ia comentar só "E ele foi!!!", mas diante de tantos comentários eu-nem-sabia-que-um-dia-já-se-pode-fumar-em-shopping eu tive que mudar o teor do meu comentário. É nessas horas que a gente sente que está ficando velho, não é mesmo?

Ricardo disse...

Seguranças em geral estão preparados para : Violência, agressões diversas, apartar brigas, indicar aonde fica o banheiro, mas nunca para uma discussão com base em argumentação e retórica