24 de junho de 2010

Barrados no Shopping - Parte I

Desde que vim morar em Pinheiros, meu universo de shopping centers aumentou consideravelmente. Atualmente, não é difícil me encontrar passeando pelos corredores do Eldorado, do Bourbon, ou perdido no Paulista, procurando a saída daquele inferno e encontrando somente o Mc Donald’s (você se lembra deste post aqui, certo?).

A única exigência que faço é que o shopping precisa ter ao menos uma livraria. Caso contrário, minha vontade é andar pelos corredores cuspindo nas vitrines e derrubando as lixeiras para exprimir minha revolta. Porque, cá entre nós, um shopping sem livraria é como um motel sem cama: você até consegue arrumar diversão, mas não do jeito que imaginava.

Mas essa minha diversidade de shoppings, claro, acontece apenas hoje. Pois durante todo o tempo em que morei com a minha mãe, em Moema, existia apenas um shopping na minha vida: o Ibirapuera.

Como ela mora a cinco quadras do shopping, eu estava o tempo inteiro lá dentro. Sozinho em casa? Ia almoçar no shopping. Nada para fazer? Ia passear no shopping. Vontade de tomar sorvete? Shopping. Vale dizer que, nesta época, o Shopping Ibirapuera não era decadente como hoje: até mesmo cinema ele tinha. Eram três salas, sendo que a menor delas (a Sala 3) tinha capacidade para umas vinte pessoas, contando o rapaz do projetor e os atores na tela – a sala 1, por sua vez, era gigantesca.

E foi lá que assisti a muita coisa. Quando criança, vi os três De Volta para o Futuro; Rocky IV e V; Os Garotos Perdidos. Aliás, uma das primeiras sessões de cinema que me lembro, na vida, foi lá: Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu, com a minha mãe. Já mais velho, na época da faculdade, eu ia toda quarta-feira à noite, aproveitando o desconto do dia – nessa época vi O Resgate do Soldado Ryan, Matrix e A Vida é Bela.

Na verdade – e me lembrei disso agora que citei minha mãe – meu relacionamento com este shopping começa com ela. Meus pais se mudaram para Moema em 1973, antes de eu nascer. E, pelo que sei, o shopping começou a ser construído logo depois do meu nascimento. E minha mãe conta até hoje que a primeira vez que ela entrou no shopping – ele estava recém-inaugurado, com alguns pedaços ainda sem acabamento – foi justamente para comprar a roupa que eu usaria na festinha do meu primeiro aniversário.

Ou seja: eu não nasci junto com o Shopping Ibirapuera, mas foi por pouco.

Assim, me acostumei a andar dentro daquele shopping durante toda a minha vida. Conhecia todas as lojas, corredores, localização dos banheiros. Foi lá que comprei meu primeiro disco de rock (não me lembro se foi na Hi-Fi ou no Museu do Disco): um cassete do Creatures of the Night, do Kiss. Era o auge da Kissmania e entrei na loja ao lado da minha mãe, com sete anos, e pedi ao vendedor:

– Eu quero aquele disco do Kiss que tem a música Ô-ô-ô-ô!, cantarolando a introdução de I Love it Loud.

Os anos foram se passando. Assim, o menino que ia ao shopping com a mãe comprar roupas – na esperança de ganhar um brinquedo junto – cresceu alguns centímetros e se tornou o pré-adolescente tímido, que ia ao shopping com os amigos tentando conseguir o telefone de alguma menina.

Mas, quando a adolescência chegou de verdade, meu relacionamento com o shopping mudou radicalmente. Meu cabelo começou a crescer, minha mão começou a segurar cigarros, e meu corpo inteiro passou a ter vontade de desafiar qualquer tipo de autoridade. E – ao menos na minha época – os seguranças de shopping eram uma das formas de autoridade mais temidas que você podia encontrar em seu caminho.

Assim, seja com os amigos de Moema ou com os do colégio (já que o Shopping Ibirapuera era o reduto preferido dos alunos da minha escola), e depois com ambos (minhas duas turmas se fundiram em uma só, para desespero dos seguranças), íamos ao shopping para arrumar confusão.

Na verdade, íamos apenas dar uma volta, mas, quando você anda com cerca de dez pessoas que não possuem idade para votar, tem cabelos compridos e andam com camisetas de caveira (como dizia minha avó), o “arrumar confusão” está implícito em qualquer coisa que você faça. Se você estiver indo pegar um pão na cozinha, você na verdade vai estar procurando por uma oportunidade de arrumar confusão.

Tudo piorou ainda mais quando descobrimos um pequeno restaurante, na praça de alimentação, que vendia vinho sem pedir identidade. Assim, toda sexta-feira, perto das 14:00, estávamos sentados em alguma mesa, enchendo a cara de vinho branco, com aquela elegância habitual dos adolescentes, que envolve, gritos, risadas altas e coisas se quebrando.

Ficávamos metade da tarde bebendo e outra metade aprontando. Por aprontando, leia-se: entrávamos bêbados em lojas caras e experimentávamos todas as roupas (com direito a desfile de moda dentro da loja), para não levar nada; entrávamos em lojas de CD e ouvíamos tudo o que tínhamos direito, sem comprar nada, e trocando todos os CDs de lugar; e entrávamos nas Lojas Americanas apenas para deixar os seguranças em pânico, com medo de que roubássemos os estoques de chocolate.

E, claro, parávamos as escadas rolantes com os pés, mas isso nem conta, pois fazíamos o tempo todo – no curso de “aterrorizar seguranças de shopping”, parar a escada rolante seria a matéria da primeira aula, quase um abecedário.

Com isso, começamos a nos tornar conhecidos lá dentro. E da pior forma possível. Bastava começarmos a andar pelos corredores e parecíamos embaixadores de outros países em missão diplomática no shopping, tamanho o número de seguranças que começavam a caminhar à nossa volta, falando desesperadamente em walkie-talkies e tentando prever nossos próximos movimentos.

Em resumo, toda sexta-feira, mais cedo ou mais tarde, éramos expulsos do shopping. O que os seguranças nunca perceberam é que éramos expulsos por uma porta e entrávamos por outra.

Assim, deixamos de ser apenas “conhecidos” e nos tornamos “inimigos públicos números 1 a 15” dentro do shopping. Até, claro, o momento em que nossa entrada foi definitivamente barrada. Não seríamos mais expulsos do shopping, pois não podíamos colocar os pés lá dentro. Estávamos exilados. Éramos párias, sem uma praça de alimentação para chamarmos de lar.

Evidentemente, nunca toquei neste assunto em casa. Afinal de contas, não é o tipo de coisa que você conversa casualmente, ainda mais com seus pais. Imagine uma família jantando:

– E você, Rob? Como foi seu dia?

– Ah, nada de especial. Fui banido do shopping, só isso. Não posso mais entrar lá.

– Como assim, banido?

– É, eu estava com meus amigos na praça de alimentação. Estávamos bêbados e começamos a fazer guerra de batatas fritas. Aí um segurança veio brigar com a gente, e começamos a arremessar as batatas nele. Nada de mais, na verdade. Tem mais bife?

Meu exílio, evidentemente, não me impedia de entrar no shopping – eu ia sozinho, de boné, cabelo preso e camiseta branca. Os seguranças, claro, percebiam que era eu, mas a maioria deles fazia vista grossa, já que eu estava sozinho e com roupas civis.

Contudo, alguns, assim que me identificavam, me escorraçavam do local, alegando que “você sabe que não deve entrar aqui”. Eu, claro, saía e entrava por outra porta. Ser expulso do shopping não me incomodava em nada.

Mas claro que eu não me arriscava a entrar lá ao lado dos meus pais e ser expulso na frente deles. Se eu fosse expulso do shopping na frente da minha mãe, a probablidade de eu ser matriculado num colégio interno no mesmo dia era de 138%. Assim, eu fugia desesperadamente de qualquer possibilidade de entrar no shopping ao lado deles. E isso me privou de muitos almoços. Às vezes, de sábado, miha mãe entrava no meu quarto e informava:

– Rob, coloque uma roupa logo, nós vamos almoçar no shopping.

– Oi? No shopping?

– Sim.

– No Ibirapuera?

– Claro.

– Não, vamos ao Morumbi. É mais bonito.

– Coloque uma roupa logo.

– Olhe, o Morumbi tem promoções na praça de alimentação hoje. Eu vi no jornal.

– Pare de enrolar e coloque uma roupa.

– Não, eu não vou. Não estou com fome.

– Você é um moleque de 16 anos. Você tem mais fome que a população inteira de uma pequena cidade.

– Eu não estou com fome.

– Rob...

– E eu estou com febre também. Com febre, diarréia e dor na perna. Nas duas pernas. Não vou sair de casa.

– Bem... Você quem sabe. Mas não tem comida aqui em casa para você.

– Não tem problema.

Aí eles saíam e eu ficava em casa, verde de fome, roendo o braço do sofá e divagando sobre o fato de madeira não ter propriedades energéticas para o ser humano caracterizar ou não um erro crasso da evolução. Mas, quando eu me lembrava que a alternativa era ser arrastado para a calçada do shopping sob os olhos da minha mãe, a madeira parecia, definitivamente, uma excelente escolha. E até um pouco saborosa.

Mas, mesmo com esse histórico, sempre fizemos bagunça inocente lá dentro. Nunca arrumamos nenhuma confusão séria.

Até, claro, o Dia da Briga.

(continua aqui)

16 comentários:

Ana disse...

Eu frequentava o Shopping Ibirapuera nessa mesma época. Vi a maioria dos filmes que você viu nesses cinemas também.
Só o disco do Kiss (LP no meu caso) que não fui comprar e sim pedi para o Papai Noel. E ele, como um bom velhinho que é, me deu de Natal. hahahahaha De qualquer forma, entrar na Hi-Fi era como entrar no paraíso.
Mas, ao contrário de você, eu me comportava e deixava a bebedeira para o 7-Eleven da Av. Maracatins.
Ainda bem que seus bloqueios criativos resultam em posts como esse! =D
O punk é esperar pela segunda parte...

disse...

Quero muito saber do resto. Adorei, como sempre!

Pedro Lucas Vasconcellos disse...

"E viramos os inimigos públicos do 1 ao 15"

hahahahaha Estou rindo até agora hahahahha

Tary disse...

Nossa, adorei muito, muito o seu blog. Você escreve MUITO bem! Sobre o post, concordo plenamente com a parte de que shopping PRECISA ter livraria! E quantos filmes bons você viu no cinema...(: Mal posso esperar pelo restante da história.
Estou seguindo e voltarei mais vezes.
Beijo!

Flores do Aslfato disse...

Pra mim, seus posts sobre seu passado são os melhores.


=]

Jullia A. disse...

Virmos “inimigos públicos números 1 a 15” dentro do shopping.

HAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHHAHAHAHHAHA

eu rio quando eu repito em pensamento. hahahahah

Anônimo disse...

lol

muito medo da continuacao dessa saga xD

brigas em shopping nunca sao bonitas de se ver =P

Bia Nascimento disse...

Acho que sou a única paulistana que nunca foi nesse shopping...
Tenho uma relação parecida com o falido West Plaza... Minha primeira sessão de cinema foi lá (O Rei Leão), meus primeiros cds comprados lá pela minha mãe (Acústico dos Titãs e Nine Lives, Aerosmith), meus primeiros passeios sozinha com as amiguinhas da escola, meus primeiros beijos, bagunças... Ai saudades!!

Natalia Máximo disse...

Antes de qualquer coisa: ROB GORDON, SEU ARRUACEIRO!!!!
E, Bia, o West Plaza também foi meu primeiro shopping, pra tudo isso aí! Somos vizinhas?

Nelson disse...

West Plaza era o meu também. Já foi um bom shopping aquele.

Lembro no auge da minha adolescência, eu com calça rasgada e pulseiras de couro, almoçando tranquilamente, quando dois seguranças me acusaram de ter parado a escada rolante. Pelo jeito você deixou seguidores por estes lados, Rob.

Helga disse...

Eu moro a quatro quadras do Shopping Ibirapuera, super perto da Mystic Video, sobre o qual vc fez um post há algum tempo.
To doida pra saber o resto da história, não demora, por favor?

Pri disse...

Seus posts sobre a sua adolescencia são mto hilários... rsrsrsrs
Quero saber do "Dia da Briga"!

George Marques disse...

"Se você estiver indo pegar um pão na cozinha, você na verdade vai estar procurando..."
Senti uma certa influência de atendentes de telemarketing nessa frase...

Carolina Tapajóz disse...

Eu já fui expulsa do cinema de Caçapava, mas, ainda bem, não cheguei a ser banida... na semana seguinte tava lá com a mesma galera fazendo bagunça :D

Bejorn disse...

Cara, fico intrigado quando vejo os seguranças dos shoppings anotando naqueles papeizinhos.
Não sei se alguém aqui já reparou nisso.
Passa uma senhora de idade e, zap, o segurança saca uma caneta e começa a anotar num bloquinho.
Passa um casal de namorados e lá vai o cara de novo com suas anotaçõezinhas.
Alguns procuram disfarçar, esperar a pessoa se afastar; Mas outros não perdem tempo e o fazem de forma ostensiva, na cara das pessoas.
Qual seria o significado de tanta escrevinhação e desfaçatez?

May. disse...

Não fui mais de 5 vezes nesse shopping (só tenho certeza de duas, mas presumo que posso ter ido quando criança e não lembro). E sobre o West Plaza que estão falando aqui, eu fui poucas vezes também, mas me lembro bem das plaquinhas no meio do corredor. Enfiei a testa numa delas de uma tal forma que me dá dor só de lembrar. Vai ver que é por isso que eu não lembro muito do resto do shopping.


Mas vamos aos fatos: vc era a definição da adolescência. A única coisa que eu lamento é você ter morado em casa nesse tempo. Se morasse em prédio, AÍ SIM o acervo de histórias com brigas assim seria imenso.