27 de junho de 2010

Barrados no Shopping - Parte II

(leia a parte I aqui)

O Dia da Briga aconteceu quando eu tinha uns 16 anos.

Eu estava no Shopping Ibirapuera com meus amigos de Moema e outro metaleiro que andava com a gente. Na verdade, cabe falar aqui sobre este metaleiro: ele era uma espécie de entidade sobrenatural que assombrava o shopping. Isso porque ele estava sempre lá dentro; nunca alguém o havia encontrado na rua.

Aliás, nós o conhecemos lá dentro mesmo: estávamos bebendo um dia e ele se materializou na mesa. A partir daí, não era difícil ele surgir do nada no meio de nós (sempre usando uma camiseta do Carcass com um desenho de pedaços de corpos numa espécie de inferno), e desaparecer do mesmo jeito, normalmente 10 minutos depois de ver que o vinho tinha acabado.

Enfim, neste determinado dia, esta alma penada e cabeluda arrumou confusão no meio da praça de alimentação com uns três ou quatro moleques, que partiram para cima dele. Nós tentamos separar a briga, mas era tarde demais.

Em poucos segundos, estávamos rodeados de seguranças que falavam freneticamente em seus walkie-talkies como se o presidente dos Estados Unidos, em visita ao Brasil, tivesse resolvido de última hora parar no Shopping Ibirapuera para tomar uma casquinha.

Tenho certeza de que a previsão do tempo naquela manhã indicava “céu nublado pela manhã, com 98% de probabilidade de chover seguranças em cima do Rob Gordon e seus amigos no período da tarde”, porque apareceram seguranças de todos os lados possíveis. Eles vinham correndo por entre as mesas, saindo de dentro das lanchonetes. Tenho quase certeza que vi um pousando de pára-quedas ao nosso lado e outro saindo de uma trincheira na frente do Baked Potato, de metralhadora em punho.

Os seguranças agarraram todos – menos eu e outro amigo, que estávamos um pouco mais afastados do epicentro da briga – e começaram a arrastá-los em direção a salinha.

Mas eis que se ergueu uma voz da multidão. Uma senhora de idade que almoçava com os filhos ali perto alegou aos seguranças que “esses meninos cabeludos de preto não fizeram nada, foram os outros que começaram, eu vi tudo”, mas ela foi ignorada.

Afinal, sejamos sinceros aqui: nossa aparência não ajudava muito, especialmente pelo fato de que a gangue rival era composta de moleques que, ao contrário de nós, tomavam banho e se vestiam com roupas de marca para ir ao shopping. E o fato de a única pessoa que parecia disposta a nos defender ter se referido a nós como “os cabeludos de preto” não causou exatamente um impacto positivo à nossa imagem.

Na verdade, éramos como um grupo de muçulmanos sendo assaltado no meio de Nova York – qualquer coisa que acontecesse ali seria culpa nossa. Se um de nós morresse de infarto no meio da confusão, capaz do departamento jurídico do Shopping processar a vítima, sua família e até mesmo seu coração, alegando que o moleque havia “falecido sem autorização, perturbando a ordem”.

Como eu não fui agarrado por segurança nenhum, fiquei quieto no meu canto. Por mais que eu fosse expulso do shopping semana sim, semana também, eu nunca havia ido para a salinha, e não seria dessa vez. Afinal, eu não havia feito nada (mesmo!), a não ser tentar separar a briga (mesmo!). Assim, fiquei parado no mesmo lugar, conforme todos iam em direção à salinha. “Quem brigou que fosse para a salinha; eu iria ficar ali mesmo”, pensei de forma inocente.

Mas percebi que as coisas não seriam bem assim quando senti uma mão agarrando meu braço.

– Você vem também!

Olhei para o lado e vi um monstro vestindo terno e gravata e segurando um walkie-talkie. Até mesmo a respiração dele era ameaçadora. Se você soltasse um tigre naquele lugar, o animal correria para o outro lado e se esconderia abaixo de uma mesa, rezando para não ter sido visto pelo segurança. E esta versão humana do Pico do Jaraguá não apenas tinha me visto, como estava me encarando fixamente. Seu olhar denunciava o fato de que ele havia acabado de deduzir que eu era responsável por todos os problemas que ele teve na vida desde o pré-primário.

Pensei com meus botões: “eu não fiz nada de errado, e todo mundo aqui na praça de alimentação sabe disso. Todo mundo viu. Então, vou argumentar com ele e explicar que não é correto eu ir para a salinha, pois não estou envolvido na confusão”.

Mas, logo em seguida, meus botões responderam: “Rob, você tem 16 anos, cabelos no meio das costas e está usando uma camiseta do Iron Maiden. Você não sabe argumentar, você sabe ser escroto. Então, não invente nada. Apenas faça o que você sabe fazer melhor e vamos ver no que dá”.

Os botões estavam corretos. Empurrei o segurança para longe. A sensação que eu tive foi a de socar um muro, e ele deve ter se deslocado 0,0003 cm para trás – provavelmente, com o peso dele, isso foi suficiente para alterar levemente a órbita da Terra.

– Não coloca a mão em mim!, gritei.

A vantagem de agir desta forma quando você tem 1.60m é que as pessoas se assustam e passam a ver você como um louco inconseqüente que vai escalar o oponente, arrancar seu nariz a dentadas e só vai parar quando levar um tiro de 12 na cabeça. Talvez foi por causa disso que o segurança tenha titubeado por alguns segundos (ele chegou até a me soltar), o que fez com que a senhora de idade enxergasse, aí, uma oportunidade para voltar à sua cruzada pessoal de nos defender:

– Este menino não fez nada! Foram os outros!

O segurança me olhou de cima a baixo (quer dizer, pelo ponto de vista dele, o mais exato seria “me olhou de baixo a mais baixo ainda”) e deduziu que, com meu tamanho, a probabilidade de eu entrar numa briga realmente era mínima. Evidentemente ele também considerou a hipótese de me esmagar com os pés, mas percebeu que talvez não valesse à pena. Assim, deu o veredicto:

– Ok. Você pode ficar.

Não, segurança. Você conhece o ditado “eu dou um boi para não entrar numa briga, mas, quando entro, dou uma boiada para não sair?” Comigo é diferente. Comigo é “eu dou um boi para não entrar numa briga, mas, quando entro, quero meu boi de volta. E exatamente do jeito que ele estava”.

Aproveitando que eu tinha dezenas de testemunhas a meu favor (e uma velhinha de guardiã), virei macho de verdade.

– Porra nenhuma, agora eu vou! E quero ver você me impedir!

Virei às costas e fui em direção à salinha.

(continua...)

10 comentários:

Natalia Máximo disse...

Bom mesmo ia ser a velhinha acompanhar todo mundo pra salinha!

Jéssica disse...

Obrigada por me deixar curiosa e querer ler a continuação AGORA! HAHAHAHAHAHAHAHAHA e ah Rob,você era mesmo um adolescente terrível. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Kel Sodré disse...

Saco... Tenho ficado vários dias sem vir ao champ por causa do trabalho. Justamente quando eu venho, pego uma saga pela metade. Devia ter entrado aqui só lá pra quarta ou quinta-feira...

Varotto disse...

Já falei antes que você é perturbado?

Jullia A. disse...

Rob! Se comporte.

Layla Barlavento disse...

Ainda bem que meu filho não lê o seu blog. Ainda hoje você é uma péssima influência! Mas um dia você terá filhos... Ah Rob... Você terá...

May. disse...

"A vantagem de agir desta forma quando você tem 1.60m é que as pessoas se assustam e passam a ver você como um louco inconseqüente que vai escalar o oponente, arrancar seu nariz a dentadas e só vai parar quando levar um tiro de 12 na cabeça."

É verdade, mas melhor ainda quando você é mulher e tem que tomar uma atitude dessas.

ANDERSON PRATES disse...

Querido essa frase agora vai fazer parte da minha vida nunca havia pensado nisso mas é verdade
post top five do ano de 2010
adorei a frase

Comigo é diferente. Comigo é “eu dou um boi para não entrar numa briga, mas, quando entro, quero meu boi de volta. E exatamente do jeito que ele estava”.

Otavio Oliveira disse...

Como vc é idiota, rob. pqp. ohahoaoha

da proxima vez q eu estiver prestes a entrar em uma briga, vou pensar 'ah, vamo lá, pq não, é uma ótima desculpa para postar no meu blog e vencer bloqueio criativo daqui 15 anos'.

Pedro Lucas Vasconcellos disse...

"as pessoas se assustam e passam a ver você como um louco inconseqüente que vai escalar o oponente, arrancar seu nariz a dentadas e só vai parar quando levar um tiro de 12 na cabeça"

hHAHAHAHAHAHAHA Passei o resto do texto rindo!