31 de março de 2009

Diretas Já!

Semana passada, minha síndica foi reeleita como entidade máxima do prédio onde eu moro.

De acordo com o que eu consegui apurar junto aos porteiros, ela foi reeleita com 45% votos “sim” e 54% votos “sim, senhora”.

Apenas 1% do prédio (o que equivale, arredondando, a um morador) não estava presente na reunião e, consequentemente, não votou.

E, pelo sorriso que ela me deu ontem, na hora do almoço, ela já sabe quem é este 1%.

É. O Cóixxxmoxxx não perdoa. O "Chupa Rob" se aproxima a passos largos.

Para os leitores que estavam com saudade do Top 5, deixo, então o Top 5 coisas que irão acontecer comigo nos próximos dias (em ordem cronólogica):

1. Serei aprisionado no depósito de limpeza do prédio, onde passarei dois dias aguardando julgamento em meio a vassouras e frascos de desinfetante.

2. Serei levado acorrentado ao salão de festas e, numa reunião de condomínio extraordinária, serei julgado e condenado como preso político.

3. Serei enforcado num guindaste nas obras do metrô ao lado de casa, e meu corpo ficará dependurado durante dias, como exemplo para todas as pessoas das redondezas que pensam em ameaçar o poder da síndica.

4. Meu apartamento será queimado e salgado, para que nada nunca mais possa nascer ali. Besta-fera será condenada como cúmplice e deportada para o exterior.

5. Após quase uma semana servindo de alimentos para os corvos, meus restos serão jogados aos porcos selvagens que a síndica cria na sauna. Minha cabeça será exposta no alto do portão. Meu nome será proibido de ser pronunciado no edifício.

30 de março de 2009

Cantando no Chuveiro Banheiro

Já peço desculpas antecipadamente a qualquer pessoa que se ofenda com este post. Estou desde a semana passada tentando escrever sobre isso, mas não consigo por receio disso. Hoje resolvi meter os peitos, por que ainda estou muito puto com isso.

Antes disso, porém, quero deixar claro uma coisa: eu não tenho preconceito de nenhum tipo. Faço piadas com judeus, negros, orientais, gays e todas as minorias existentes, justamente porque tenho amigos de todas estas minorias – alguns deles, por sinal, grandes amigos.

Para mim, fazer piada com alguém por causa da etnia ou da opção sexual é algo absolutamente natural – respeitadas as devidas fronteiras com o mau gosto – da mesma forma que é normal fazerem piadas comigo por causa da minha altura ou de eu ser careca, ou gostar de filmes de mortos-vivos.

Falando especificamente sobre gays, o que estou tentando dizer aqui é que não tenho absolutamente nada a ver com as decisões que cada um toma sobre seu próprio corpo. Você é homem e quer se relacionar com outro homem? Faça isso, o corpo é seu, a vida é sua e somente você sabe o que é melhor para você mesmo. Agora, da mesma forma que você luta para que a sociedade aceite suas escolhas, favor respeitar as escolhas dos outros.

E isso inclui as minhas.

Posto tudo isso, sexta-feira passada eu estava na Fnac, na hora do almoço e fui até o banheiro. Quem conhece a Fnac de Pinheiros sabe que um dos banheiros fica na parte de CDs, logo depois da seção de jazz e música clássica. Estou caminhando na direção do banheiro, e quando estou a cinco metros, a porta do banheiro se abre e um sujeito de cerca de cinqüenta anos sai de lá de dentro.

Cruzei por ele e entrei no banheiro. Um funcionário da Fnac estava lá dentro. Parei em uma das casinhas e, de pé, abri a calça e obedeci ao imperioso chamado da natureza. Ao mesmo tempo, ouvi a porta se abrindo e pensei “o funcionário da Fnac foi embora”. Segundos depois, a porta se abriu e pensei “outra pessoa entrou no banheiro”.

Acabei o que tinha que fazer ali, fechei a calça e ao me virar para lavar as mãos, vejo que quem havia entrado no banheiro era o mesmo sujeito de cinqüenta e poucos anos que havia usado o banheiro segundos atrás. Já fiquei grilado e, instantaneamente, dei uma olhada de não-tenho-amigos-e-gosto-disso para ele.

Ele me encarou por uns dois segundos e, enquanto eu me dirigia a pia, ele caminhou para um dos mictórios e ficou exatamente de costas para mim. Eu, lavando as mãos, o observava pelo espelho e podia reparar que ele estava claramente fingindo que obedecia ao sistema renal e estava muito mais concentrado em mim no que quer que ele estivesse fazendo ali, porque ele ficou virando a cabeça, tentando me olhar.

Senti nojo. Não nojo da opção sexual dele, nojo da atitude dele. Mesmo assim, não me intimidei e caminhei ao lado dele, para usar aquelas máquinas de ar quente para secar as mãos. Comecei a esfregar as mãos, e, sinceramente, estava pronto para dar uma cotovelada na boca dele ao menor movimento suspeito que ele fizesse. Ele continuou virando a cabeça para tentar me olhar, mas ignorei isso da melhor forma que pude.

Para evitar a confusão que se anunciava – leia-se porrada na boca, seguranças, delegacia, nesta ordem – assim que saí do banheiro caminhei diretamente para a área de CDs de música clássica, de uma forma que ele sairia do banheiro e não teria como me ver. Segundos depois, descobri que menosprezei a cara-de-pau do sujeito. Ele saiu do banheiro olhando para os lados, com o radar ligado. Ao ver onde eu estava, claramente desviou o caminho e se colocou no corredor atrás de mim, num lugar onde poderia ficar me observando.

Larguei um CD que eu estava fingindo ver e, tremendo de raiva, saí de lá antes que eu enfiasse a mão na cara do sujeito. Não sei se ele me seguiu, porque se eu virasse a cabeça e visse que ele estava atrás de mim, o tempo ia fechar de verdade. Fui embora da Fnac e não vi mais nem sinal do sujeito.

Me senti totalmente exposto, especialmente na parte do banheiro. Como eu disse, se você quer que respeitem suas opções, respeite as dos outros. E ficar ensaiando uma aproximação no meio do banheiro masculino não é a maneira mais indicada de fazer isso, ainda mais quando você não sabe se a outra pessoa é gay ou não. Eu não tenho problema nenhum com gays, tenho problema com pessoas que invadem meu espaço sem permissão. Aliás, a atitude deste sujeito mostra que ele não é homossexual, é viadinho – existe uma enorme diferença entre estes dois conceitos, mais ou menos como existe entre “mulher” e “vagabunda”, “homem” e “cafajeste” – e eu estava pronto para tratá-lo como tal.

Você é homossexual e quer me cantar? Sinta-se à vontade. Eu vou soltar um “não” e pronto. Agora, não faça isso dentro de um banheiro. Uma pessoa assim entrar em um banheiro masculino é a mesma coisa que um homem entrar no banheiro das mulheres. Apenas para deixar claro o que me incomodou na situação, aviso aqui que se minha mãe ou minha namorada estivessem dentro um banheiro e um sujeito invadisse o local, eu iria querer matá-lo do mesmo jeito. Porque, sim, é exatamente a mesma coisa que ele fez. E eu, que gosto de mulheres, nunca fiz isso, porque sei que existem limites que devem ser respeitados. E se você não sabe respeitar estes limites de acordo com a sua opção sexual, bem, crie-se, então, um banheiro para gays.

A coisa é pior. Existe uma comunidade no Orkut, com cerca de 200 pessoas, sobre os banheiros da Fnac. No fórum, eles discutem quais lojas da rede têm os melhores banheiros para “rolar uma pegação”, como eles mesmos dizem. Fuçando na comunidade, vi que uma pessoa postou o seguinte comentário sobre o banheiro da Fnac Pinheiros: “Lá é um paraíso a ser descoberto... SEMPRE vazio.... fica no piso inferior, junto aos CDs de musica [sic] clássica [sic]... vale a pena conferir!” Além disso, eles combinam encontros nos banheiros das lojas com frequência.

Estas pessoas sabem que o banheiro não está ali para isso? Elas sabem que existem hotéis e motéis pela cidade e que transar no banheiro é atentado ao pudor? Será que elas desconfiam que famílias frequentam aquela livraria – ela tem até uma enorme seção infantil – e que talvez um pai possa querer levar seu filho pequeno ao banheiro?

Ou os direitos dos gays, pelos quais eles lutam tanto para que sejam aceitos, inclui permissividade? Desculpe, não é porque boa parte da sociedade não aceita sua opção que isso lhe dá o direito de transar onde quiser, ou de se insinuar para outras pessoas dentro de um banheiro. Eu adoro sexo e não é por isso que eu transo na rua, por total respeito às outras pessoas – e isso inclui você.

Então, por favor, respeite a mim, respeite minhas escolhas e respeite os meus valores.

26 de março de 2009

Cóixxxmoxxx

Pão de Açúcar. Esquina da Teodoro Sampaio com a Mourato Coelho. Olhando de fora, um simples supermercado. Mas, quem o freqüenta sabe que ele é uma espécie de cantina de Mos Eisley (nerd mode: on): um lugar onde toda a escória do universo se reúne.

Uma noite dessas, eu estava na fila do caixa para pagar meu jantar – não lembro o que era, mas certamente não era lasanha, porque ainda não me recuperei do trauma. Enfim, estava esperando minha vez quando comecei a ouvir uma discussão atrás de mim. Não entendia direito o que estava sendo falado, mas o tom das vozes deixava claro que era uma discussão.

Olhei para trás e vi um casal absurdamente estranho – ele parecia uma versão caucasiana do King Kong (em escala 1:1), enquanto ela conseguia a façanha de ser menor que eu e lembrava um gremlin – discutindo com um dos caixas.

Pelo que entendi, eles entraram na fila para pagar suas compras, mas o caixa estava fechando e a funcionária disse que eles deveriam se encaminhar para outra fila. Aparentemente, eles não gostaram disso e saíram dali reclamando. Quer dizer, quem saiu reclamando foi ela; já o Kong simplesmente saiu andando na minha direção – o que me permitiu ler a inscrição jiu-jitsu na sua camiseta – empurrando o carrinho de compras.

Antes que eles dessem dois passos, a funcionária, aparentemente, falou algo sobre aquele caixa ser preferencial e (confesso que não ouvi direito) se eles se encaixassem nessa categoria, poderiam ser atendidos. Foi neste minuto que a gremlin ameaçou voltar e gritou:

– Não seja por isso! Eu estou grávida! E vou ser atendida aí, porque estou grávida!

Obviamente, todos no mercado olharam para ela. Ela, por sua vez, olhou para o pitbull que empurrava o carrinho e continuou:

– Querido, vamos ser atendidos aqui! Eu estou grávida! É o meu direito!

Pensei em comprar um charuto e dar de presente ao futuro papai, mas me contive, primeiro porque tenho noção do perigo e, segundo e mais importante, a reação dele me chamou a atenção. Ele simplesmente virou-se para a gremlin, e, com um ar de quem está mais que acostumado com esse tipo de escândalo da parte dela, disse:

– Deixa, vamoxxxx nexxxte outro caixa.

Assim mesmo, com toneladas de “x” em cada palavra. Mais carioca impossível.

– Eu estou grávida e quero ser atendida aqui!

(Ele vai perder a paciência, enfiar a mão na gremlin e na mulher do caixa. E vai sobrar para mim, porque ele não vai querer deixar testemunhas vivas depois disso. Vou morrer.)

Já estava me preparando para o pior. Olhei na direção da porta do mercado e orientei a 40% dos meus neurônios pararem tudo o que estiverem fazendo e ficarem trabalhando numa rota de fuga, Just in case.

Eles pararam na fila do caixa ao lado do meu. A gremlin ainda queria briga.

– Por que você não me deixou ir naquela caixa?

– Por causa do cóixxxmoxxx.

(Por causa do quê? Tive que pronunciar a palavra baixinho, em voz alta, para entender o que ela queria dizer. Cóixxxmoxxx. Cóismos. Cosmos. Ok. Meu sotaque paulistano é carregado, mas existem palavras que os cariocas deveriam ser proibidos de pronunciar. O problema é que se eu rir, eu morro. Mordi o lábio e respirei fundo)

Ela continuou bufando, batendo o pé, e reclamando que era falta de respeito. O Kong continuou.

– O cóixxxmoxxx vai devolverrr tudo isso para ela.

(Mas como assim, o Cosmos? É sério isso? É um pit-boy-zen? Desde quando isso existe? E esse papo de Cosmos? Imediatamente, me lembrei do Carl Sagan. A risada, dentro de mim, começou a tentar abrir caminho até minha boca com um facão. Eu olhei a inscrição jiu-jitsu na camiseta e mandei ela se acalmar.)

– Eu quero que ela se foda!, gritou a gremlin.

– Já te disse, o cóisxxxmoxxx vai devolverrrr tudo isso para ela. Se ela é exxxcrota, o cóixxxmoxxx vai serrrr exxxcroto com ela.

(Aí, a merda do meu lado infantil entrou em ação, e comecei a imaginar o Cosmos mandando scraps mal educados para a mulher do caixa no Orkut, passando trotes de telefone no meio da madrugada e pichando “Sua Vaca” na frente do prédio dela. Pensei em sair correndo e me atirar dentro de uma das geladeiras de sorvete para rir em paz, mas isso chamaria demais a atenção para mim, que era justamente o que eu tentava evitar.)

Ele continuou:

– Agora, olhe para você. Você alterou toda sua enerrrgia porrr causa dela. Precisava fazerrr isso?

(eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer eu vou morrer)

– É uma desgraçada!

– Você sabe como o cóixxxmoxxx funciona. O cóixxxmoxxx vai se encarregarrr dela. O cóixxxxmoxxx nunca falha.

(Pelo que entendi, o Cosmos é, então, uma espécie de Luca Brasi. Imaginei o James Caan recebendo um mapa das constelações com um peixe enrolado nele. A esta altura, uma gargalhada havia conseguido escapar dos meus pulmões e estava escalando minha garganta com equipamentos profissionais de alpinismo, se aproximando cada vez mais rápido do mundo exterior.)

Ela continuou reclamando. A mulher do caixa me chamou, paguei meu jantar e fui embora correndo, deixando o Carl Sagan e a Gremlin para trás.

Mas, na dúvida, quando coloquei os pés para fora do mercado, depois de passar cinco minutos encostado num muro e gargalhando, olhei para o céu e disse, em voz baixa:

– Eu consegui segurar a risada lá dentro! Eu me comportei! E, depois do lance da lasanha, ainda estou com créditos! Então, vai procurar outro para encher o saco.

Mas, agora que eu postei isso no blog – e eu sabia que não iria agüentar muito tempo – quero só ver o que tal do Cóixxxmoxxx vai aprontar para mim. O “Chupa Rob” é questão de tempo, tenho certeza.

A Saga do Ano

Por incrível que pareça, a série Diga-me o que Procuras... E Eu te Direi Quem És, favorita dos leitores, não conquistou o bicampeonato na disputa pela melhor saga de 2008. A honra coube a Jim Morrison e o Maníaco do Táxi, série de posts que recebeu inúmeros comentários. Admito que não é nessa que eu teria votado, mas, relendo os comentários das três partes, hoje, deu pra ver que o povo realmente gostou. Valeu!

Na verdade, a série Diga-me o que Procuras... E Eu te Direi Quem É não conquistou nem o segundo lugar, já que o Meeting Tyler Bazz conquistou a medalha de prata do ano. Resta saber se o Tyler deu uma sumida porque gastou todo seu tempo livre para votarem nesse texto (aliás, vocês já leram o post-irmão no blog dele?). Assim, Diga-me o que Procuras... E Eu te Direi Quem És ficou em terceiro lugar, seguido de perto por No Capricho e Rob Gordon X TVA, que empataram em quarto lugar.

Posto isso, podemos começar o ano de verdade. Obrigado a todos que votaram!

E, se tudo der certo, outro post ainda hoje - porque, convenhamos, isso não foi um post de verdade, certo?

23 de março de 2009

O Super-Herói de R$ 15,00

Semana passada, o Tenente Marlene – para quem não me conhece pessoalmente, trata-se da minha mãe – conseguiu me convencer a entrar no Dia, aqui, ao lado de casa, com ela. Mas o motivo era nobre: ela dizia que eles vendem lençóis com elástico, que fazem com que a roupa de cama fique esticada e presa durante toda a noite.

Para mim, isso é mais que conforto. É uma necessidade vital. Pela forma que eu me mexo durante a noite, dormir com um lençol solto embaixo de mim apresenta um risco real de, no dia seguinte, as pessoas me encontrarem enforcado no lustre do quarto ou amarrado em um dos pés da cama – e ainda dormindo. Acreditem: meu sono não é exatamente dos mais tranqüilos.

Aceitei a proposta dela, mas com duas condições. Primeiro: como precisávamos comprar algo para o almoço, iríamos passar no Pão de Açúcar antes. Segundo: eu não entraria no Dia. Ela entraria e eu ficaria na porta. Se – e somente se – ela encontrasse os lençóis, aí eu entraria e a encontraria na fila do caixa. Ela aceitou. Assim, enquanto ela entrou no mercado, eu fiquei ali na calçada e levantei minhas sacolas do Pão de Açúcar de forma que todas as pessoas do Dia pudessem vê-las, numa espécie de protesto silencioso contra ao fato daquele mercado não ter sal.

Infelizmente, meu protesto não durou muito, porque aparentemente uma velhinha havia sido assaltada na porta do mercado (ou dentro do mercado, não entendi direito) e a polícia estava fazendo a ocorrência. Minutos depois, minha mãe apareceu na fila do caixa, com dois pacotes na mão, me chamando, e eu fui me juntar a ela. Enquanto estávamos na fila, dei uma espiada no preço dos lençóis e vi que eles custavam algo em torno de R$ 15,00 (financeiramente, minha mente arredonda todos os valores possíveis; eu trabalho somente com quantias “em torno de”).

Chegamos ao caixa e pagamos. A menina do caixa cobrou “algo em torno de” R$ 15,00 e eu estendi o cartão do banco. Mas algo estava errado. Meu sentido de aranha começou a apitar incansavelmente. Olhei ao redor e não vi nada de estranho. Peguei os lençóis e sai do mercado com minha mãe, com aquela sensação de que alguma coisa errada estava acontecendo.

Antes mesmo de sair do mercado, caiu a ficha e eu percebi o que estava errado. Olhei a nota fiscal. “Algo em torno de R$ 15,00”, multiplicado por dois, dá “algo em torno de R$ 30,00”, se não me falha a memória. Ou seja, ela havia cobrado apenas um dos lençóis. Levei dois e paguei um – mas de forma acidental.

Claro que algumas pessoas podem achar que, neste momento, passei por um enorme processo de consciência, pesando o que é certo e o que é errado e aplicando isso ao valor real de R$ 15,00 (que é pouco mais que um lanche num McDonald’s). Não sei se cheguei a passar por um exame de consciência, mas, se passei, durou algumas frações de segundo. Dei meia-volta e fui ao caixa.

– Eu comprei dois lençóis e você cobrou apenas um. Vim pagar o outro.

– Nossa, é mesmo! Obrigada.

Enquanto ela registrava o outro lençol, olhei ao meu redor. As pessoas estavam me encarando, como se eu fosse uma aberração. A priori, isso não chamou minha atenção, já que ultimamente, por causa da minha queimadura na mão, as pessoas têm me olhado constantemente como se eu fosse uma aberração. Mas, desta vez, as pessoas não estavam olhando minha mão com cara de nojo, estavam olhando para mim. Olhei para baixo e me certifiquei de que meu zíper estava fechado. E as pessoas continuavam olhando para mim.

– Está cada vez mais difícil encontrar pessoas assim.

O silêncio foi cortado por um office-boy que estava na fila logo atrás de mim. Olhei para ele e pensei em dezenove piadas para responder, mas o orgulho do que eu tinha feito, nos seus olhos, era algo tão visível que fiquei sem graça (sim, isso acontece às vezes) e consegui apenas sorrir. E agradecer.

Saí de lá pensando sobre isso.

É engraçado. Eu não fui pagar o lençol apenas porque custava somente “algo em torno de R$ 15,00” e esse é um preço baixo para se fazer uma boa ação e passar o resto do dia se sentindo bem. E nem porque isso poderia pesar no bolso da mulher do caixa – minha mãe perguntou se o prejuízo sairia do bolso dela, ela respondeu que não, pois o caixa havia registrado apenas a venda de um deles.

Eu voltei lá e paguei pelo simples fato de que comprei o lençol. Não importa o valor, e não importa se isso não prejudicará ninguém (duvido que um lençol possa fazer o Dia pedir falência), me importa que era a coisa certa a fazer. Se ele custasse algo em torno de R$ 300,00, eu teria feito o mesmo.

Sem querer puxar sardinha para o lado dos meus pais, eu devo isso a eles. Já vi meu pai atravessar o bairro para devolver trinta centavos a um jornaleiro que lhe deu troco a mais. E, até aí, não vejo mérito algum nisso. Eu com os lençóis, ou meu pai com os trinta centavos, não fizemos nada além da nossa obrigação.

O grande problema do país é que, hoje em dia, você fazer isso equivale a colocar uma cueca por cima da calça e passar as madrugadas combatendo o crime. Você deixa de ser cidadão e se torna um super-herói, autor de proezas inimagináveis, como voltar ao caixa para pagar um produto que não foi cobrado, ao invés de ir direto para casa e contar para todo mundo, orgulhoso, que o lençol saiu de graça. E dormir, toda noite, em cima de um lençol que você não pagou – e não se importar com isso.

Sendo assim, agora eu tenho uma resposta adequada para o office-boy que estava na fila. Apesar de ser tarde, espero que ele esteja lendo isso aqui, Vou, inclusive, reconstruir o diálogo.

– Está cada vez mais difícil encontrar pessoas assim.

O silêncio foi cortado por um office-boy que estava na fila logo atrás de mim. Olhei para ele e, do alto do meu metro e sessenta, respondi:

– Eu sei. É por isso que o Brasil está na merda. E é por isso que o Brasil nunca vai sair da merda.

E é verdade. Todo mundo diz que o problema do Brasil são os políticos. Eu digo que o problema do Brasil é o povo. Aliás, povo não, o agrupamento de pessoas que mora aqui – que é algo bem diferente (e bem abaixo) do conceito de povo. Políticos? Pegue um senador, por exemplo. Ele não É senador, ele ESTÁ senador. Mas ele É brasileiro. Fica a questão: ele rouba porque ele é político, ou ele rouba porque ele é brasileiro, e o fato de ser senador apenas lhe dá chances de fazer isso?

Mas não importa. Eu vou continuar pagando pelos meus lençóis, mesmo que, com isso, eu corra o risco de ser visto como o Capitão América ou como o carequinha imbecil que acabou de jogar fora R$ 15,00. O país pode não ter jeito – e, na minha opinião, não tem mesmo – mas eu faço questão de, todas as noites, colocar a cabeça no travesseiro e dormir com a consciência tranqüila.

E, para isso, o mínimo que eu preciso é usar uma roupa de cama pela qual eu paguei.

Ah, sim, em tempo: a velhinha, lá do começo do post, não havia sido assaltada. Ela estava sendo presa por ter roubado mercadorias dentro do mercado. É sério.

E, com a excelente repercussão deste post, deixo vocês com o Top 5 frases mais sensacionais ditas até agora nos comentários (ainda em construção):

1. "Estatisticamente os políticos são uma amostra do povo..." (Alexandre Rigotti)

2. "Acho que eu nao teria a consiencia para fazer tua boa ação e ficaria com o dinheiro, não por malandragem mas (infelizmente) por hábito" (Matheus Silva)

3. "Na verdade somos uma nação de renan-calheiros em potencial (alguns até já potencializados)." (Varotto)

4. "E é assim que começam minhas discussões sobre porque eu não tenho carteirinha falsa de estudante..." (Flavita)

5. "Sua mãe nunca iria sair do DIA em menos de 3 horas. NUNCA, porque lá nunca tem caixa aberto." (Cruela Cruel Veneno da Silva) – afinal, um pouco de humor não faz mal a ninguém


P.S. - A propósito, tem texto no Champ-Chronicles: O Espectador. Espero que gostem.

19 de março de 2009

Darkness

Quando eu vim morar sozinho em Pinheiros, acreditei que estava me mudando para um bairro cool, repleto de artistas, pessoas alternativas e intelectuais. Claro que vale a pena dizer que minha idéia mesmo era morar perto do trabalho, independente da vizinhança. Mas, esta era a imagem que eu tinha de Pinheiros: um bairro cool. Porém, desde o começo do ano, estou chegando a conclusão que não moro em Pinheiros. Na verdade, nem em São Paulo mais eu moro. Eu me mudei, na verdade, para a Terra-Média. Mais precisamente, Mordor.

Ou, mais precisamente ainda, the DARK land of Mordor. (pessoal da produção, negrito, itálico e caixa alta no 'dark', por favor)

Antes que pensem que estou morando em meio a orcs, aviso que não é isso (se bem que outro dia vi um punhado deles no Pão de Açúcar). O motivo real é que, se o mundo realmente está passando por uma crise de energia como dizem por aí, Pinheiros é certamente o local mais afetado. Se, daqui a séculos, esta suposta crise de energia for estudada nas aulas de história, Pinheiros será o ground zero de tudo isso.

A luz aqui, agora, acaba toda semana. E as chuvas que têm caído – ou melhor, desmoronado – sobre a cidade não estão ajudando muito. Pinheiros é um bairro com sérios problemas. Eu já havia reparado que se alguém cuspir na rua, a luz na minha casa pisca. E se você pegar um pedaço de giz e escrever a palavra CHUVA no asfalto da Teodoro Sampaio, a luz do bairro acaba cinco minutos depois.

Sem sacanagem, a luz acaba aqui, toda semana. E eu não fico sem luz por alguns minutos, não. É “acabar a luz” de gente grande: na última terça feira, por exemplo, eu fiquei aproximadamente seis horas sem luz. Posso estar errado, já que eu e as frações nunca fomos particularmente amigos, mas isso, até onde sei, corresponde a ¼ do dia. Curiosamente, apenas o meu prédio alcançou esta marca. Todos os outros prédios tiveram a luz restabelecida depois de quatro horas de escuridão – ninguém me contou, eu vi. Já o meu prédio e algumas casas ao lado, após seis horas.

É engraçado isso. Talvez, aquela história de que Deus disse “Faça-se a luz” não chegou a Pinheiros ainda – o que me deixa mais convencido ainda de que eu moro num lugar esquecido por Deus. Ou talvez Deus apenas tenha receio de interferir com a administração da minha síndica mafiosa. O motivo não faz diferença. O que importa é que eu olhava da rua e todas as casas e prédios iluminados e o meu ali, apagado, negro, sombrio, parecendo um enorme monolito do 2001 no meio do bairro.

Pinheiros, visto da minha varanda.
Atentem para o belíssimo arco-íris da paisagem.

E eu não sei quanto a vocês, mas eu sou totalmente dependente de energia elétrica. A única coisa na minha casa que não está ligada a uma tomada é a cama. Na verdade, meu drama começa já na entrada do prédio: sem luz, eu subo de escadas. Oito andares. OITO. Ou seja, quando eu consigo entrar em casa, já é hora de sair de novo. Mas, obviamente, eu subo, porque não vou ficar batendo papo com o porteiro até a luz voltar. E aí, eu subo, abro a porta, e...

E nada.

Não há o que fazer. TV, PC, microondas, rádio, todos inutilizados. Fico sentado na sala igual a um idiota, olhando a escuridão. Cheguei, em umas das vezes, a acender uma vela e ficar lendo um livro na mesa da sala, mas desisti na segunda página, é rústico demais.

Aí, vou até a varanda e olhos os prédios da frente: lá, as pessoas estão iluminadas, felizes, assistindo suas televisões, checando e-mails, jogando Wii... E eu ali, na idade da Pedra. A próxima vez que um de vocês estiver passando por Pinheiros e perceber que o bairro está sem luz, olhe para os lados para ver se não avista um baixinho careca vestindo a pele de algum animal morto e colhendo frutos na rua, ou tentando quebrar um coco com uma pedra. Sou eu, tentando garantir minha subsistência.

Estou terminando este texto no trabalho e vou para casa. Mas já estou calculando a probabilidade de não ter luz na minha casa. Como se trata de Pinheiros, 20%. Como choveu hoje, este índice sobe para 45%. Como sou eu, as chances (reais) são de 98,7% - se eu tivesse um texto urgente do trabalho para fazer em casa, as chances seriam de 140%.

Então, se eu não der mais as caras por aqui hoje, vocês já sabem o que aconteceu: estarei, em algum lugar entre o térreo e o oitavo andar, tentando entender porque a vida é assim.

15 de março de 2009

H2Ô Fase

Sexta-feira. Estava no restaurante ao lado do meu trabalho. Acabei de almoçar e pedi um doce, acompanhado de uma água – quem me conhece sabe que tenho a mania de só comer sobremesa com uma garrafa d’água ao lado. Pedi o doce, e ele fez o melhor possível para anotar o que eu queria na minha comanda (eu já vi um dos garçons dali transformar uma torta holandesa em “ohlandeza”). Esperei ele terminar de desenhar a palavra torta-mousse ali (Deus tenha piedade deste “ss”) e falei com o garçom:

– Você me vê uma água, também? Sem gelo e sem gás, por favor.

– Sem gelo e sem gás?

– Sem gelo e sem gás.

– Ok.

Passam-se os minutos. Eu estava despreocupado, porque sei que o meu pedido não tinha a complexidade de uma Coca Geli-Limão, que abre margens à inúmeras interpretações por parte dos garçons. Afinal, eu queria apenas uma água. E parto do princípio de que se 75% do corpo de alguém é formado por uma substância, esta pessoa obrigatoriamente está familiarizada com ela.

Eis que o garçom volta, com uma água sem gelo e sem gás. Mas com um copo cheio de gelo. Não falei nada, fiquei apenas olhando. Esperei ele abrir a garrafa, e, na hora que ele iria servir, coloquei a mão em cima do copo.

– Era sem gelo.

– Ah, era sem gelo?

– Sem gelo.

Eu estava certo de que ele apenas pegaria o copo e jogaria os gelos na bandeja – a primeira vez que um garçom fez isso na minha frente, achei o cúmulo da eficiência. Mas, não. Ele pegou o copo com gelo, a água (que não tinha gás nem gelo, ou seja, estava exatamente do jeito que eu pedi) e levou tudo embora.

Fiquei olhando. Foi até o balcão de bebidas, ficou lá algum tempo e deu meia-volta, andando na direção da minha mesa com uma bandeja. Conforme ele se aproximava, pude reparar que o copo estava realmente sem gelo; a garrafa de água, por sua vez, estava gelada – o vidro brilhava, como se ela tivesse sido tirada de um freezer naquele momento.

Ele parou ao meu lado e colocou o copo na mesa. Antes que ele pudesse abrir a garrafa, eu disse:

– É sem gelo.

– O copo está sem gelo.

– Eu não estou falando do copo. Sim, o copo é sem gelo, mas a água também. O conjunto inteiro é sem gelo.

– Ah, então você quer uma água natural?

– Toda água é natural.

– Não, natural, que eu digo, no sentido de sem gelo.

– Uma água gelada também é natural.

– É que quando é sem gelo, a gente fala natural.

– A gente quem?

– A gente.

Bom, ok. Mesmo sem saber se por “a gente” ele se referia aos garçons em geral ou se estava falando de “nós” (no sentido de “eu e ele”), consegui aprender o termo técnico. “Água natural” significa sem gelo. Claro que isso me deixou na duvida se a expressão correspondente para água gelada seria “água gelada” ou “água artificial”, mas, na prática, não importa, porque eu não bebo água gelada.

– Ok. Eu quero uma água natural. O copo é natural, também.

– Sim, senhor.

Ao invés de deixar o copo (que já era natural) sobre a mesa, ele novamente levou tudo embora. Suspirei. O problema de você ter tantos problemas com atendentes de telemarketing como eu, é que isso começa a afetar a sua vida de tal maneira que, em alguns momentos, você considera fornecer o número do seu CPF para o garçom para ver se ele acerta o pedido. Estava divagando sobre esta idéia quando ele surgiu de volta, com a tal da água natural e colocou na mesa.

Algo me dizia que outra coisa deveria acontecer, mas ele não fez movimento algum. Apenas ficou parado ao meu lado, tentando ler trechos do jornal de esportes que estava aberto sobre a minha esa. Percebi que a iniciativa não partiria dele, então resolvi tomar uma atitude.

– E o copo?.

– Ah, esqueci! Vou buscar!

– Esquece. Eu tomo no gargalo.

Preciso começar a anotar essas coisas. Ou eu pronunciei errado, ou a expressão “Quero uma água natural” significa “quero uma água sem gelo, mas o copo não é importante”. Maldito dialeto dos garçons, sempre cheio de armadilhas, regras estúpidas e pegadinhas.

As escolas de idiomas deveriam ter cursos que ensinassem isso. De nada adianta você falar inglês, espanhol e francês se você não consegue conversar com uma pessoa que trabalha logo ali na esquina. Cheguei até mesmo a considerar a hipótese de contratar um garçom de outro lugar para ir ao restaurante comigo todos os dias, e ser meu intérprete enquanto almoço. O problema é que, para eu convencê-lo a aceitar o trabalho, eu teria que falar sua língua, ao menos para negociar salários e explicar o que eu quero que ele faça. E, se eu falasse o dialeto dos garçons com essa fluência toda, não precisaria mais de intérprete.

Ou seja, não tem saída mesmo. Estou preso neste inferno.

13 de março de 2009

20 Anos de Quê?

Hoje, a internet faz 20 anos. Parabéns para ela. Parece que ela já está aí faz um bom tempo – também porque não conseguimos mais viver sem ela. Eu, por exemplo, tenho 13 anos a mais que ela (ou seja, já vi três copas do mundo a mais que a Internet, apenas para usar a minha contagem do tempo preferida).

Mas, por outro lado, eu, com 20 anos, estava cursando uma faculdade e tinha algumas perspectivas para o futuro. Tudo bem, admito que, financeiramente, eu ainda dependia dos meus pais para sobreviver, e que às vezes bebia duas ou três cervejas a mais na sexta à noite, mas estava bem encaminhado na vida. Estudava, lia livros, assistia a bons filmes, lia jornal todos os dias.

E a internet?

Bem, no seu aniversário de 20 anos, ela continua com o mesmo comportamento de um adolescente. Não sabe escrever direito – em alguns casos, ainda tem crises de infantilidade e escreve tudo AxXxXxIm – e passa o dia todo lendo fofocas sobre celebridades e vendo vídeos de mulher pelada que recebeu por e-mail.

Teoricamente, a Internet é apontada como a maior revolução humana desde o dia em que Gutenberg imprimiu uma Bíblia. Eu me lembro de quando a internet começou a aparecer e um professor meu disse a seguinte frase: “você manda um e-mail para alguém da Tchecoslováquia e esta pessoa lerá sua mensagem na mesma hora”. Achei aquilo fascinante. Mas, aparentemente, deu tudo errado: a Tchecoslováquia já nem existe mais, e os e-mails viraram piadas velhas (que acabam sendo colocados nos blogs de humor que duram uma semana) ou PowerPoint de anjinhos & vídeos de sexo que entopem os servidores.

Por enquanto, os maiores legados que a Internet deixou para a humanidade foram coisas do nível de “Paris Hilton Sex Tape” e Mallu Magalhães. Triste.

E o pior é que isso nem é culpa dela. A culpa é nossa – é a mesma teoria que afirma que o assassino não é a arma, mas quem puxa o gatilho. Então, na verdade, o problema da internet são as más companhias. O que é um problema sem solução, já que se você impedir os imbecis de usarem a rede (e por imbecis me refiro desde membros de torcidas organizadas que marcam brigas pelo Orkut, até blogueiros que plagiam textos de outros blogs para driblar a incompetência e ganhar um pouco de fama, passando pelas pessoas que acreditam que “se você não mandar este e-mail para 379 pessoas nos próximos 5 minutos você nunca mais irá beijar na boca”), ela fechará as portas por falta de uso.

Ou seja, a culpa não é dela, é nossa. Claro que muita gente usa a internet de forma sadia, mas a maioria mesmo prefere ver as fotos da Ivete Sangalo correndo no parque ou do Brad Pitt saindo de uma loja, e mais nada. Não digo que as pessoas têm que aproveitar a internet e se tornarem mestres em física quântica, mas a humanidade poderia aproveitar um pouco esta ferramenta e tentar evoluir um pouco.

O problema é que a gente sempre esbarra na ignorância. Faça um teste: entre numa comunidade qualquer do Orkut e comece a ler alguma discussão séria, sobre um assunto aleatório. Aposto (e ganho) com você que, no meio da discussão, a coisa vai desbancar para a baixaria, com um dos envolvidos assumindo a atitude: “você só fala bosta e merece morrer”, apenas porque o outro discorda dele. E aí a gente cai na inclusão social. Ok, todo mundo tem o direito de usar a internet e deixar sua marca no mundo virtual – mas aparentemente, nem todo mundo tem o direito de se preparar (e aí me refiro à educação, mesmo), para ter acesso aos www da vida.

E aí começa o vexame.

Recentemente, os blogs foram apontados como o futuro da internet. Isso veio acompanhado daqueles discursos recheados de clichês como “democracia digital”, “agilidade de informação”, “novas tendências”. Ok. Passeie um pouco pela blogosfera: de cada 10 blogs, pelo menos metade deles não tem absolutamente nada a dizer (e ainda o fazem errado, não acentuam nada, abolindo por conta própria o uso da vírgula, e ignorando o fato de que existem diferenças entre “ss” e “ç”.) e seus autores querem ganhar dinheiro com isso, se tornarem as tais celebridades virtuais já mencionadas por aqui antes.

Ah, sim, eu tenho um blog. Bem, ele está longe de ser o melhor do mundo (aliás, nos dias em que estou de mau humor, eu o coloco instantaneamente entre os piores), mas, para mim, ele sempre foi um hobby e não uma ferramenta para o sucesso profissional. Então, como eu faço por prazer – e não por sede de fama – cuido dele, reviso meus textos sempre que possível. E o nome disso não é preciosismo. O nome disso é respeito. Respeito com quem lê – porque é óbvio que tem gente que lê o que escrevo, e o mínimo que posso fazer é respeitar estas pessoas, entregando um texto razoavelmente bem escrito e que possa interessar a alguns.

Mas, voltando à qualidade dos blogs (e do conteúdo da internet em geral): isso é a “incrusão digitau?”. Então, o problema não é a inclusão digital – mesmo porque, teoricamente, ela deveria ser a solução – mas o que vem antes dela. É a falta de educação e de cultura, coisas que a internet apenas escancara. Que adianta você ter espaço e liberdade para dizer o que você pensa, se você não tem o hábito de pensar? Seria a mesma que coisa você aceitar jogar pelo seu time, mesmo sabendo que nunca chutou uma bola na vida.

Resumindo: a humanidade não deu certo, e a internet funciona como a maior vitrine desse pensamento.

Tenho certeza de que, daqui a 20 anos, quando a Internet estiver com 40 anos, ela vai estar gorda e decadente, tomando somente dois ou três banhos por semana, e morando no porão da casa dos pais. E vai passar seus dias sem fazer nada de útil, lendo fofocas nos portais, vendo vídeos de mulher pelada e procurando fotos da vizinha de biquíni no Orkut.

Ô fase.

9 de março de 2009

Rob Gordon X Telefônica

Quando eu resolvi colocar Speedy aqui em casa, alguns leitores – e muita gente que eu conheço – me avisaram que a empresa é um lixo. Todo mundo falou mal e fizeram questão de deixar claro que a coisa lá é feia. Eu achei que estavam exagerando, e fui em frente. E não tive problemas até recentemente, quando minha internet ficou dois dias fora do ar. O problema era lá. Ok, pode acontecer com qualquer um. Paciência.

Ontem*, porém, eu estava no computador e minha internet, coitada, engasgou e caiu roxa no chão, sem conseguir respirar. Fui olhar mais de perto e fiquei assustado: ela parecia morta. Peguei uma conta de telefone e liguei para a central de atendimento.

Quem me atendeu foi a esposa do HAL 9000 (o computador do 2001 – Uma Odisséia no Espaço, para os não iniciados). O grande problema dessas gravações de empresas de telemarketing é que elas sempre falam como o William Shatner, de soquinho. Ou seja, o tempo que uma pessoa normal demoraria para falar uma frase é multiplicado por três, quando se tratam dessas gravações debilóides.

Enfim, resumindo: liguei e a criatura atendeu.

– Bem. Vindo. À. Central. De. Relacionamento. Telefônica. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. O. Telefone. Um. Um. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Aguarde. Para. Ser. Atendido. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. Outra. Linha. Disque. O. D. D. D. Mais. O. Número. Do. Telefone. Para. O. Qual. Deseja. Consultar. Se. Você. Não. É. Cliente. Telefônica. Disque. Três.

Não sei em quanto tempo você demorou para ler isso, mas, no telefone, estas frases duram quase um minuto. Eu, já de saco cheio, resolvi aguardar – mesmo porque não tinha outra alternativa. Passado alguns momentos, a HAL voltou.

– Para. Facilitar. O. Atendimento. Desenvolvemos. Um. Novo. Sistema. De. Reconhecimento. De. Fala. Diga. Em Poucas. Palavras. Qual. O. Motivo. De. Sua. Chamada. Por. Exemplo. Como. Faço. Para. Adquirir. O. Speedy. Ou. Qual. O. Valor. Da. Minha. Conta. Lembre. Se. Que. Estes. São. Apenas. Exemplos. Então. Qual. O Motivo. Da. Sua. Chamada.

– Meu Speedy não conecta.

– Entendi. Reparo. Do. Speedy. Aguarde. Um. Minuto. Enquanto. Redireciono. Você. A. Um. De. Nossos. Atendentes.

Aí começa a tocar uma música irritante, que parece ser do High School Musical. Ao menos, tenho certeza de que o moleque que canta não tem mais de quinze anos. Depois de uma estrofe, um refrão e outra estrofe, fui atendido.

– Telefônica, Lucrécio, boa noite. Em que posso ajudá-lo?

– Como assim, no que pode me ajudar? A mulher aí da gravação não te falou o que eu quero?

– Não, senhor. Em que posso ajudá-lo?

– Porque eu conversei bastante com ela, e estávamos falando justamente sobre o meu problema. Se ela me redirecionou para você, é porque ou ela disse qual o meu problema, ou você tem apenas uma única função aí, que deve estar relacionada com o meu problema. Ao menos, ela deve ter deduzido isso.

– Não senhor, eu não fui informado.

– Quer saber? Ok. Deixa. Eu liguei porque estava usando a Internet e meu Speedy caiu. Agora eu não consigo mais conectar.

– Só um minuto que eu vou transferir o senhor para o suporte técnico.

– Espere, você não é do suporte técnico?

Obviamente, minha pergunta não teve resposta, já que ele transferiu a ligação antes de eu falar qualquer coisa e não ouviu nada do que eu disse. E dá-lhe a porra do High School Musical de novo.

Aliás, só deu High School Musical. Fiquei ouvindo aquela coisa por intermináveis minutos. Quando reparei que estava começando a entender a letra (“Everyday, everyday, everybody alguma coisa”) percebi que minha sanidade estava sendo colocada à prova. Desliguei e liguei novamente.

– Bem. Vindo. À. Central. De. Relacionamento. Telefônica. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. O. Telefone. Um. Um. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Aguarde. Para. Ser. Atendido. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. Outra. Linha. Disque. O. D. D. D. Mais. O. Número. Do. Telefone. Para. O. Qual. Deseja. Consultar. Se. Você. Não. É. Cliente. Telefônica. Disque. Três.

A esta altura, eu já estava socando doentiamente o sofá ao meu lado.

– Para. Facilitar. O. Atendimento. Desenvolvemos. Um. Novo. Sistema. De. Reconhecimento. De. Fala. Diga. Em Poucas. Palavras. Qual. O. Motivo. De. Sua. Chamada. Por. Exemplo. Como. Faço. Para. Adquirir. O. Speedy. Ou. Qual. O. Valor. Da. Minha. Conta. Lembre. Se. Que. Estes. São. Apenas. Exemplos. Então. Qual. O Motivo. Da. Sua. Chamada.

– Meu Speedy não conecta.

– Entendi. Reparo. Do. Speedy. Aguarde. Um. Minuto. Enquanto. Redireciono. Você. A. Um. De. Nossos. Atendentes.

– Telefônica, Maria Clara, boa noite. Em que posso ajudá-lo?

– Eu estava usando o Speedy e a conexão caiu. Agora não consigo mais conectar.

– Eu não tenho acesso ao suporte técnico, senhor.

– É óbvio que você não tem. Até onde eu sei, você é o suporte técnico.

– Não senhor, eu sou do departamento comercial.

– Olhe, eu vou implorar para você. Se eu tiver ouvir aquela robô maldita ou aquela música nojenta eu vou me jogar pela varanda. E isso não é bom para vocês, já que eu dificilmente continuaria cliente de vocês estando morto. Veja, a ligação caiu na sua mesa por algum motivo. Pode ser azar, pode ser destino. Quem sabe você é a escolhida. Por favor, resolva o meu caso. É só o que eu peço.

– Eu não tenho acesso ao suporte técnico, senhor.

– Repetir isso não resolve meu problema. Tem algum plano B?

– Eu posso fazer uma ocorrência de defeito para o senhor.

– Sim. Uma ocorrência de defeito é uma boa idéia. O que é uma ocorrência de defeito?

– Um técnico irá à sua residência em até 48 horas.

– Você enlouqueceu? 48 horas? Eu quero checar o meu e-mail! Eu estava no PC até agora.

– É o que eu posso fazer, senhor. Estou realizando a ocorrência.

– Não! Não faça isso! Eu não quero isso!

– Senhor, se o seu Speedy não está funcionando, é necessária a presença de um técnico.

– Esqueça, vou resolver do meu jeito.

Desliguei e liguei de novo.

– Bem. Vindo. À. Central. De. Relacionamento. Telefônica. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. O. Telefone. Um. Um. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Aguarde. Para. Ser. Atendido. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. Outra. Linha. Disque. O. D. D. D. Mais. O. Número. Do. Telefone. Para. O. Qual. Deseja. Consultar. Se. Você. Não. É. Cliente. Telefônica. Disque. Três.

A esta altura, eu já estava deitado no chão da sala, mordendo o pé do sofá. Besta-fera, que acredita ter o monopólio caseiro sobre destruição dos móveis, me olhava feio de um canto.

– Para. Facilitar. O. Atendimento. Desenvolvemos. Um. Novo. Sistema. De. Reconhecimento. De. Fala. Diga. Em Poucas. Palavras. Qual. O. Motivo. De. Sua. Chamada. Por. Exemplo. Como. Faço. Para. Adquirir. O. Speedy. Ou. Qual. O. Valor. Da. Minha. Conta. Lembre. Se. Que. Estes. São. Apenas. Exemplos. Então. Qual. O Motivo. Da. Sua. Chamada.

– Reparo do Speedy.

– Não. Entendi. Diga. Novamente. O. Motivo. Da. Sua. Chamada.

– Eu estou sem internet, sua vaca imunda!

– Entendi. Reparo. Do. Speedy. Aguarde. Um. Minuto. Enquanto. Redireciono. Você. A. Um. De. Nossos. Atendentes.

Everyday, everyday, everybody, lá-lá-lá-lá-lá...

– Telefônica, Maria Clara, boa noite. Em que posso ajudá-lo?

– Como assim, “Maria Clara”?

– Em que posso ajudá-lo?

– Você é a Maria Clara do departamento comercial?

– Isso mesmo.

– Eu falei agora há pouco com você, sobre o reparo do Speedy.

– Senhor, eu não tenho acesso ao suporte técnico.

– Eu sei disso! Eu desliguei e liguei de novo, e a imbecil da gravação me jogou em você novamente!

– O senhor quer fazer a ocorrência?

– Não! Eu quero falar com o suporte técnico! O que essa débil-mental da gravação faz o dia inteiro aí? Ela fica passando trote para as pessoas? Jogando as ligações para departamentos errados?

– Senhor...

– Por favor, deve ter uma maneira de eu falar com o suporte técnico. Deve ter algum comando, alguma senha secreta que faz a gravação me transferir para o suporte técnico.

– O senhor precisa desligar e ligar novamente.

– Maria Clara, eu vou fazer isso. Mas um aviso: se você atender esta merda de novo, eu vou acabar com a sua vida.

Desliguei e liguei. Meu fígado começou a doer.

– Bem. Vindo. À. Central. De. Relacionamento. Telefônica. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. O. Telefone. Um. Um. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Aguarde. Para. Ser. Atendido. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. Outra. Linha. Disque. O. D. D. D. Mais. O. Número. Do. Telefone. Para. O. Qual. Deseja. Consultar. Se. Você. Não. É. Cliente. Telefônica. Disque. Três.

– INFERNO!!!

– Para. Facilitar. O. Atendimento. Desenvolvemos. Um. Novo. Sistema. De. Reconhecimento. De. Fala. Diga. Em Poucas. Palavras. Qual. O. Motivo. De. Sua. Chamada. Por. Exemplo. Como. Faço. Para. Adquirir. O. Speedy. Ou. Qual. O. Valor. Da. Minha. Conta. Lembre. Se. Que. Estes. São. Apenas. Exemplos. Então. Qual. O Motivo. Da. Sua. Chamada.

– Adivinhe.

– Não. Entendi. Diga. Novamente. O. Motivo. Da. Sua. Chamada.

– EU ESTOU SEM INTERNET, SUA PUTA!!!

– Desculpe. Estou. Com. Problemas. Aguarde. Um Minuto. Para. Ser. Atendido.

Mais ou menos seis everyday, everyday, everybody depois, eu fui atendido.

– Telefônica, Antuérpio, boa noite. Em que posso ajudá-lo?

– Olhe, não sei mais. Eu liguei porque o meu Speedy não funciona. Como meus problemas têm aumentado cada vez que eu ligo, não sei mais o que eu tenho que resolver. Enfim, vamos tentar desde o começo. Meu Speedy não conecta.

– O senhor precisa ligar para o suporte técnico.

– E você acha que eu estou tentando fazer o que há meia-hora? Dar corda no computador?

– O senhor deve ligar e escolher a opção 3 e, depois, 2.

– Primeiro o 3, depois o 2?

– Isso mesmo.

– Você está de sacanagem?

– Senhor?

– Aquela gravação de merda já cansou de me falar que a opção três é para quem não é cliente da Telefônica.

– Se o senhor quiser, eu transfiro.

– É óbvio que eu quero!

Everyday, everyd...

Caiu a linha. Eu fui até a varanda, levantei um dos punhos para o céu e comecei a gritar com Deus e com os anjos, berrando alguma coisa parecida com “se vocês têm algum problema comigo, venham me pegar pessoalmente!”. Depois do meu momento Tenente Dan em Forrest Gump, liguei novamente.

– Bem. Vindo. À. Central. De. Relacionamento. Telefônica. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. O. Telefone. Um. Um. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Aguarde. Para. Ser. Atendido. Se. Você. Deseja. Atendimento. Para. Outra. Linha. Disque. O. D. D. D. Mais. O. Número. Do. Telefone. Para. O. Qual. Deseja. Consultar. Se. Você. Não. É. Cliente. Telefônica. Disque. Três.

Não tive dúvida. Não tinha nada a perder, resolvi seguir o conselho do animal e apertar o 3. Pior do que estava, não ficaria.

– Aproveito. Para. Informar. Que. O. Speedy. Está. Com. Problemas. Técnicos. Na. Sua. Região. Já. Estamos. Trabalhando. Para. Solucionar. O. Problema. A. Previsão. De. Reparo. É. Dia. 6. De. Março. As. Duas. Horas. E. Trinta. Minutos. Quer. Que. Repita. Esta. Informação.

– ...

– Não. Entendi. Quer. Que Repita. Esta. Informação.

– Porque você não me disse isso a primeira vez que liguei?

– Não. Entendi. Quer. Que Repita. Esta. Informação.

– Eu quero que você morra!

– Não. Entendi. Quer. Que Repita. Esta. Informação.

– Não, sua vaca imunda! Enfia a informação no meio do...

Desligou no meio da frase. Ou seja, ela é uma criatura pensante e pode, realmente, ouvir o que digo. Bom saber.

Vai ter volta.


* Isso tudo aconteceu na quinta-feira, cerca de 1 hora e meia antes de eu queimar até a alma com aquela maldita lasanha da Sadia. O texto já estava pronto, mas este acidente, muito mais urgente, acabou entrando na frente aqui no blog. Mesmo assim, todas as referências temporais foram mantidas.

7 de março de 2009

Certa Noite, no Inferno...

Para alegria dos leitores - e minha infelicidade - a dupla de demônios deste post aqui voltou. Espero que se divirtam - afinal, alguém tem que se divertir com isso.


Local: Sala do Diretor de Novos Projetos
Horário: 19:49


Demônio-assistente: Com licença?

Demônio-diretor: Claro, pode entrar.

Demônio-assistente: Senhor, creio que finalizei nosso projeto com queijo quente.

Demônio-diretor: O da lasanha?

Demônio-assistente: Isso mesmo. Acredito que ele esteja pronto para o teste inicial.

Demônio-diretor: Podemos tentar hoje à noite.

Demônio-assistente: Vamos usar o Rob Gordon novamente?

Demônio-diretor: Claro. Ele é o mais indicado.

Demônio-assistente: Bem, senhor, me sinto na obrigação de fazer uma ressalva. O projeto é mais perigoso do que os outros que testamos com ele.

Demônio-diretor: Perigoso como?

Demônio-assistente: Bem, senhor, ultimamente eu assisti aos três filmes da série Premonição... O senhor conhece?

Demônio-diretor: Não, não gosto de filmes assim. Prefiro romances. Mas o que isso tem a ver com o projeto queijo quente?

Demônio-assistente: Bem, digamos que eu tenha me deixado influenciar um pouco pelos filmes. Sabe, os roteiros destes filmes, mortes que são verdadeiras obra-primas da engenharia. São extremamente criativas, com todos os elementos ao redor da vítima conspirando para que ele morra. São muito divertidas. Mas, o senhor sabe, não deixam de ser mortes.

Demônio-diretor: E daí? Ninguém se importa com o Rob Gordon.

Demônio-assistente: Tenho receio de que algo grave possa acontecer com ele, o que nos obrigaria a procurar outra cobaia para nossos projetos.

Demônio-diretor: Entendo sua preocupação, mas pode ficar tranqüilo. Cobaias existem aos montes. Admito que testarmos nossas idéias com outra pessoa pode não ser tão divertido quanto é com o Rob, mas não estamos aqui para nos divertir, concorda?

Demônio-assistente: Sim, senhor.

Demônio-diretor: Ótimo. Que horas podemos ver o projeto, então?

Demônio-assistente: Assim que ele chegar. O departamento de inteligência me informou que ele deve chegar em casa hoje somente após as 22:00.

Demônio-diretor: Então encontre-me neste horário na sala de testes.

Demônio-assistente: Sim, senhor.


Local: Sala de Testes
Horário: 22:02

Demônio-diretor: Ele já chegou?

Demônio-assistente: Ele está no caminho de casa, senhor. E todos os preparativos já foram acionados.

Demônio-diretor: Como assim?

Demônio-assistente: Aumentamos a temperatura de São Paulo em aproximadamente quatro graus esta noite. O Rob realmente está com calor, pelo que pude observá-lo pelas câmeras. E, além disso, aumentamos progressivamente a quantidade de sal na ração do seu animal de estimação.

Demônio-diretor: Aquele que ele chama de Besta-Fera?

Demônio-assistente: Isso mesmo.

Demônio-diretor: Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Demônio-assistente: Senhor, se me permite, gostaria de não explicar nada antes que acontecesse. Gostaria que o senhor visse tudo com seus próprios olhos, sem saber qual foi a minha idéia. Acredito que é assim que os roteiristas de Premonição pensaram ao escrever os filmes, e creio que é um modo de trabalho que funciona. Causará mais impacto.

Demônio-diretor: Bom... Tudo bem. Vamos ver. Onde ele está?

Demônio-assistente: Está entrando em casa. Como o senhor pode ver na câmera três, ele está com uma sacola do Pão de Açúcar. Durante a tarde, irradiamos algumas imagens de lasanha de calabresa em seu cérebro, e parece que ele mordeu a isca.

Demônio-diretor: Sim, ele sempre foi influenciável. Mas ainda não entendo onde o ração salgada e o calor irão se encaixar.

Demônio-assistente: Em poucos instantes, o senhor descobrirá. Veja, ele está entrando em casa e tirando a roupa. Ele sempre faz isso no calor, fica só de cuecas em casa.

Demônio-diretor: É impressão minha ou ele engordou?

Demônio-assistente: Bastante. Se o senhor puder olhar na câmera dois, agora ele está na cozinha, colocando ração para a Besta-Fera. Provavelmente, ele irá trocar a água da tigela do cachorro, também. Ele está na pia... Pronto. Perfeito.

Demônio-diretor: Mas e a lasanha?

Demônio-assistente: Ele deve colocar para esquentá-la em poucos minutos. Hoje terá jogo na TV, e ele deve deixar a televisão ligada. Pronto.

Demônio-diretor: Ele está voltando para a cozinha.

Demônio-assistente: Sim, ele irá esquentar a lasanha agora. Se o senhor olhar para a câmera 7, verá que o cachorro dele foi comer a sua ração.

Demônio-diretor: Sim, posso ver. E daí?

Demônio-assistente: Como eu afirmei, aumentamos a quantidade de sal da ração. Assim, o animal precisará beber água imediatamente após o jantar.

Demônio-diretor: Mas e daí?

Demônio-assistente: Só mais um instante, senhor. Peço que confie em mim.

Demônio-diretor: Ok.

Demônio-assistente: A lasanha deverá demorar um pouco para aquecer. Cerca de quinze minutos. Tudo irá se encaixar perfeitamente. Além disso, hoje pedi ajuda a um demônio italiano, que esteve envolvido em algumas operações no Vesúvio, para dar uma calibrada no microondas do Rob.

Demônio-diretor: Como assim?

Demônio-assistente: Pedi a ele que deixasse a temperatura máxima como sendo equivalente a uma erupção vulcânica.

Demônio-diretor: Entendi. Olhe, o cachorro foi beber água.

Demônio-assistente: Sim, e a lasanha está esquentando. O Rob está de cuecas na sala, assistindo ao jogo, e não percebeu que o animal foi beber água. E este cachorro dele, toda vez que bebe água, esparrama tudo pelo chão da cozinha.

Demônio-diretor: Isso é interessante. Temos que aproveitar isso novamente, de alguma outra forma. Talvez envolvendo sabão em pó e facas.

Demônio-assistente: Excelente idéia, senhor. Vou começar a trabalhar nisso assim que terminarmos este projeto. Olhe, a lasanha ficou pronta! Preste atenção, agora, senhor. Vou ligar a câmera oito, que mostra o interior do microondas. Pronto.

Demônio-diretor: Ela está fumegando! Está até borbulhando! Você sabe a temperatura exata?

Demônio-assistente: Não senhor, mas acredito que seja superior a 100 graus Celsius. Posso pedir a informação exata.

Demônio-diretor: Não é necessário.

Demônio-assistente: Veja, o Rob está levantando, apenas de cuecas, para pegar a lasanha. Olhe aqui nesta outra câmera. Ele abriu o microondas e pegou a bandeja com cuidado. Agora, ele obrigatoriamente tem que andar até o balcão da cozinha para poder se servir.

Demônio-diretor: Acho que entendi aonde você quer chegar...

Demônio-assistente: O chão está todo molhado. Veja, senhor, ele está quase lá... Quase lá... Pronto!

Demônio-diretor: Ele escorregou! Ele caiu no chão da cozinha, com lasanha e tudo!

Demônio-assistente: Sim, senhor! Conseguimos! Veja como voou lasanha fumegando para todos os lados, inclusive nele!

Demônio-diretor: O que ele está fazendo? Porque ele não se levanta?

Demônio-assistente: Acredito que esteja apenas deitado no chão da cozinha gritando de dor e tentando entender o que aconteceu.

Demônio-diretor: É uma pena que não temos áudio. Já mandei arrumarem isso, mas o técnico ainda não veio.

Demônio-assistente: Verdade. Veja, ele se levantou!

Demônio-diretor: O que ele foi fazer na pia?

Demônio-assistente: Deixe-me ligar esta outra câmera aqui, teremos um visual melhor. Pronto. Ele está na torneira da cozinha jogando água gelada nos braços e no peito.

Demônio-diretor: Ele está chorando?

Demônio-assistente: Ao que parece, sim. Continua gritando, mas, aparentemente, está chorando de dor.

Demônio-diretor: Adorei isso! Olhe, tem lasanha pela casa inteira!

Demônio-assistente: Exato, senhor. Fizemos isso justamente com lasanha, e não com outro prato quente, pela quantidade de molho que os humanos colocam neste produto. Isso, aliado ao queijo fervendo, fez com que a lasanha, ao atingir o chão, se tornasse quase uma granada de fragmentação, que explodiu à queima-roupa na cara dele.

Demônio-diretor: Maravilhoso! Onde ele está indo?

Demônio-assistente: Acredito que para o chuveiro, senhor. Quando os humanos se queimam, instintivamente eles buscam água gelada para aplacar a dor! Mas pensamos nisso também.

Demônio-diretor: Como assim?

Demônio-assistente: Regulamos o chuveiro dele para o modo inverno. A água numa temperatura pouco abaixo da lasanha.

Demônio-diretor: Ele voltou?

Demônio-assistente: Acredito que ele tenha vindo buscar o banco que fica na cozinha para regular o chuveiro. Como o senhor pode ver, ele continua gritando de dor e está correndo. Quer que eu faça ele dar uma topada com o dedinho no canto do móvel?

Demônio-diretor: Não, não é necessário. Deixe ele se refrescar no chuveiro, antes que causemos danos irreparáveis. Você está de parabéns! O projeto é um sucesso!

Demônio-assistente: Obrigado, senhor. Fiz apenas o meu trabalho.

Demônio-diretor: Aliás, estou aqui há anos e nunca havia visto alguém fazer o Rob chorar de dor. Parabéns. Quero que passe amanhã no meu escritório, vamos discutir seu futuro aqui dentro.

Demônio-diretor: Nos veremos amanhã, então. Mais uma vez, parabéns.

Demônio-assistente: Obrigado, senhor. Até amanhã e boa noite.

Demônio-diretor: Boa noite.

**************************

Em respeito aos leitores e leitores que não gostam de ver este tipo de imagem - e eu sei que tem muita gente que não gosta - não vou postar fotos das minhas mãos aqui. Agora, se alguém realmente quiser ver as queimaduras de segundo grau do meu pulso direito, clique aqui. E, para ver minha mão esquerda, que tem uma bolha (causada por queijo ou molho ou ambos) que estabelece novos recordes no hall da fama de queimaduras, clique aqui (mas aviso que é nojento).

Já as queimaduras do peito, barriga, braços e pernas foram tão graves, mais respingos, e tudo de primeiro grau.

Enfim, continuo vivo. Para a alegria dos demônios.

4 de março de 2009

Rárárá!

Às vezes, o mundo dá voltas de forma instantânea. Aproximadamente 36 horas após eu assistir Watchmen no Cinemark do Shopping Eldorado, entro, neste mesmo cinema, para acompanhar a pré-estréia da nova versão de O Menino da Porteira. Sai Alan Moore, entra Daniel. Não fiquei para assistir ao filme – que provavelmente não deve ser ruim– porque estava cansado, suado e queria ir para casa. Então, apenas acompanhei o evento ao lado de um fotógrafo, procurando por celebridades e pessoas da empresa que irão distribuir o filme em vídeo (sendo que estas eram quem me interessavam realmente).

Passada uma hora lá dentro, algumas salas já tinham começado suas sessões (todas foram usadas na pré-estréia) e nada ainda do Daniel ou do pessoal da distribuidora – eles acabaram não indo, como descobri depois. E eu ali no meio, procurando pelas pessoas e no celular, coordenando o trabalho de outro fotógrafo, em outra pré-estréia. Até aí, paciência. Não foi a primeira vez que fiz isso e nem será a última.

Estou no meio do cinema (que, mesmo com algumas sessões começadas, ainda tinha bastante gente no saguão) ao lado do meu fotógrafo, disputando espaço com fotógrafos de revistas de celebridades, que, de vez em quando, saíam correndo na direção de alguém, cobrindo essa pessoa de flashs, quando sinto uma mão no meu ombro. Era alguém perguntando se poderia me entrevistar. Eu disse que estava trabalhando, que era jornalista, mas, aparentemente, a pessoa não se importou, e disse que era rápido.

Antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, eles colocaram uma câmera na minha cara e passaram o microfone para um sujeito que entra na seleta lista dos “homens adultos menores que eu”, que contém menos de vinte nomes. Era o tal de Ivo Holanda, aquele cara das pegadinhas do SBT. Olhei para o microfone e vi que o símbolo não era do SBT, mas de outra emissora – ACHO que RedeTV, não tenho certeza. Provavelmente ele estava sendo entrevistado pelo pessoal da RedeTV, que pediu para ele fazer uma pegadinha com alguém – e claro que, entre as centenas de pessoas ali, ele escolheu o carequinha parado ali no meio. Ô fase.

Enfim, ele chamou meu fotógrafo e explicou para nós dois as regras da pergunta que ele iria fazer. Eu não entendi absolutamente nada porque a) eu não olhava para ele, procurando pelo pessoal que eu precisava encontrar; e b) ele fala com a mesma velocidade e clareza daqueles caras que escondem uma moeda em um de três potes no centro da cidade, sem dar tempo para você pensar. Me lembro só que consistia em algo como “eu vou dar duas alternativas, vocês escolham uma”, ou “eu vou dar duas alternativas, um de vocês escolhe uma”, ou “eu vou fazer uma pergunta, vocês escolhem a resposta”. Sei lá, não fazia o menor sentido. Aí, ele fez a tal pergunta:

– Namoro ou amizade?

Meu fotógrafo respondeu “amizade”. Eu ainda estava abrindo a boca para responder, quando ele começou a gritar e celebrar o fato de eu não ter dito nada. Para não arrumar confusão, tentei entrar na brincadeira e ameacei algum protesto, para ver se ele se dava por satisfeito e me esquecia, mas ele, no auge da sua generosidade, resolveu “me dar uma segunda chance”.

Abriu a carteira e me mostrou um papel com o número 23 escrito. Perguntou “o que vem depois desse”. Eu olhei para o papel e olhei para ele, não acreditando naquilo. Manja aquelas brincadeiras feitas pelo irmãozinho de oito anos do seu amigo? Era algo parecido. Mas pensei que não, não é possível, deve ter algo por trás disso. Deve existir uma piada aí, vamos ver.

– Vinte e quatro.

Ele começou a passar a mão no meu rosto e me chamar de “querido”, “querida”, algo assim. Ah. Então era só isso mesmo: um truque para eu falar o número vinte e quatro em voz alta. Minha vontade foi aproveitar que estava na frente das câmeras e fazer uma careta e soltar uma risada bem retardada, deixando claro qual, em minha opinião, era o público-alvo daquela brincadeira, mas deixei quieto. Fingi que tinha achado graça e me despedi.

Voltando para casa, fiquei pensando sobre isso. Eu não sei o que é pior. A piada em si, ou o fato desse negócio dar audiência a ponto de alguém sobreviver disso. Ou, pior ainda, andar com um papel com o número 23 na carteira para fazer pegadinha com as pessoas na rua, como se o seu talento humorístico fosse do mesmo nível do Monty Python ou dos Irmãos Marx.

Em outra pré-estréia, anos atrás (acho que do filme O Casamento de Romeu e Julieta), fui filmado pelo pessoal do Pânico, que escureceu a tela e deixou apenas o meu rosto iluminado, falando alguma coisa sobre a Luana Piovani, antigo desafeto deles, que estava sendo entrevistada a poucos metros de mim. Não sou fã do Pânico – acho que eles têm algumas tiradas boas, mas é só isso – mas eles são os reis da comédia perto de alguém como Ivo Holanda. Se bem que até mesmo um funeral é mais divertido que ver o Ivo Holanda na TV, com piadinhas que já eram velhas (e sem muita graça) décadas atrás.

Ontem, quem estava na pré-estréia também era o pessoal do CQC. Acho que eles conseguem ser muito superiores ao pessoal do Pânico, mas mais pela coragem que eles têm em entrevistar políticos e / ou pessoas que supostamente teriam algo a dizer, e não apenas ficarem fazendo perguntinhas de duplo sentido para as Carolinas Dieckmann da vida. O problema é que com Pânicos e CQCs, a fórmula se esgota rápido, e logo isso se tornará repetitivo também. Mantém-se o formato, mudando apenas os entrevistados da semana.

Voltando ao Ivo Holanda, é deprimente que uma pessoa ganhe fama com isso. Culturalmente, é pobre demais. E em termos de criatividade também. É mais ou menos como estar em 2008 e achar que você está falando com o mesmo público que ouvia os programas de rádio nos anos 50, certo de que aquelas piadinhas irão funcionar.

Se bem que, se o Ivo Holanda ainda está aí, é porque as piadas funcionam, o que deixa claro o nível do espectador médio da televisão brasileira – e, por extensão, o nível cultural do brasileiro médio. O que não é nada surpreendente, tratando-se de um país onde um programa como Zorra Total fica dez anos no ar.

Na verdade, o grande problema do brasileiro não é a falta de cultura. Isso pode acontecer a qualquer pessoa, e a qualquer povo. O grande problema do brasileiro é que alguém disse, certa vez, que ele é engraçado por natureza, e ele acreditou nisso. Achou que era verdade. Mais ou menos como deve ter acontecido com o Ivo Holanda, em algum momento de sua carreira.



Quer fazer humor? Tenha um mínimo de criatividade...



... ou de inteligência.