13 de março de 2009

20 Anos de Quê?

Hoje, a internet faz 20 anos. Parabéns para ela. Parece que ela já está aí faz um bom tempo – também porque não conseguimos mais viver sem ela. Eu, por exemplo, tenho 13 anos a mais que ela (ou seja, já vi três copas do mundo a mais que a Internet, apenas para usar a minha contagem do tempo preferida).

Mas, por outro lado, eu, com 20 anos, estava cursando uma faculdade e tinha algumas perspectivas para o futuro. Tudo bem, admito que, financeiramente, eu ainda dependia dos meus pais para sobreviver, e que às vezes bebia duas ou três cervejas a mais na sexta à noite, mas estava bem encaminhado na vida. Estudava, lia livros, assistia a bons filmes, lia jornal todos os dias.

E a internet?

Bem, no seu aniversário de 20 anos, ela continua com o mesmo comportamento de um adolescente. Não sabe escrever direito – em alguns casos, ainda tem crises de infantilidade e escreve tudo AxXxXxIm – e passa o dia todo lendo fofocas sobre celebridades e vendo vídeos de mulher pelada que recebeu por e-mail.

Teoricamente, a Internet é apontada como a maior revolução humana desde o dia em que Gutenberg imprimiu uma Bíblia. Eu me lembro de quando a internet começou a aparecer e um professor meu disse a seguinte frase: “você manda um e-mail para alguém da Tchecoslováquia e esta pessoa lerá sua mensagem na mesma hora”. Achei aquilo fascinante. Mas, aparentemente, deu tudo errado: a Tchecoslováquia já nem existe mais, e os e-mails viraram piadas velhas (que acabam sendo colocados nos blogs de humor que duram uma semana) ou PowerPoint de anjinhos & vídeos de sexo que entopem os servidores.

Por enquanto, os maiores legados que a Internet deixou para a humanidade foram coisas do nível de “Paris Hilton Sex Tape” e Mallu Magalhães. Triste.

E o pior é que isso nem é culpa dela. A culpa é nossa – é a mesma teoria que afirma que o assassino não é a arma, mas quem puxa o gatilho. Então, na verdade, o problema da internet são as más companhias. O que é um problema sem solução, já que se você impedir os imbecis de usarem a rede (e por imbecis me refiro desde membros de torcidas organizadas que marcam brigas pelo Orkut, até blogueiros que plagiam textos de outros blogs para driblar a incompetência e ganhar um pouco de fama, passando pelas pessoas que acreditam que “se você não mandar este e-mail para 379 pessoas nos próximos 5 minutos você nunca mais irá beijar na boca”), ela fechará as portas por falta de uso.

Ou seja, a culpa não é dela, é nossa. Claro que muita gente usa a internet de forma sadia, mas a maioria mesmo prefere ver as fotos da Ivete Sangalo correndo no parque ou do Brad Pitt saindo de uma loja, e mais nada. Não digo que as pessoas têm que aproveitar a internet e se tornarem mestres em física quântica, mas a humanidade poderia aproveitar um pouco esta ferramenta e tentar evoluir um pouco.

O problema é que a gente sempre esbarra na ignorância. Faça um teste: entre numa comunidade qualquer do Orkut e comece a ler alguma discussão séria, sobre um assunto aleatório. Aposto (e ganho) com você que, no meio da discussão, a coisa vai desbancar para a baixaria, com um dos envolvidos assumindo a atitude: “você só fala bosta e merece morrer”, apenas porque o outro discorda dele. E aí a gente cai na inclusão social. Ok, todo mundo tem o direito de usar a internet e deixar sua marca no mundo virtual – mas aparentemente, nem todo mundo tem o direito de se preparar (e aí me refiro à educação, mesmo), para ter acesso aos www da vida.

E aí começa o vexame.

Recentemente, os blogs foram apontados como o futuro da internet. Isso veio acompanhado daqueles discursos recheados de clichês como “democracia digital”, “agilidade de informação”, “novas tendências”. Ok. Passeie um pouco pela blogosfera: de cada 10 blogs, pelo menos metade deles não tem absolutamente nada a dizer (e ainda o fazem errado, não acentuam nada, abolindo por conta própria o uso da vírgula, e ignorando o fato de que existem diferenças entre “ss” e “ç”.) e seus autores querem ganhar dinheiro com isso, se tornarem as tais celebridades virtuais já mencionadas por aqui antes.

Ah, sim, eu tenho um blog. Bem, ele está longe de ser o melhor do mundo (aliás, nos dias em que estou de mau humor, eu o coloco instantaneamente entre os piores), mas, para mim, ele sempre foi um hobby e não uma ferramenta para o sucesso profissional. Então, como eu faço por prazer – e não por sede de fama – cuido dele, reviso meus textos sempre que possível. E o nome disso não é preciosismo. O nome disso é respeito. Respeito com quem lê – porque é óbvio que tem gente que lê o que escrevo, e o mínimo que posso fazer é respeitar estas pessoas, entregando um texto razoavelmente bem escrito e que possa interessar a alguns.

Mas, voltando à qualidade dos blogs (e do conteúdo da internet em geral): isso é a “incrusão digitau?”. Então, o problema não é a inclusão digital – mesmo porque, teoricamente, ela deveria ser a solução – mas o que vem antes dela. É a falta de educação e de cultura, coisas que a internet apenas escancara. Que adianta você ter espaço e liberdade para dizer o que você pensa, se você não tem o hábito de pensar? Seria a mesma que coisa você aceitar jogar pelo seu time, mesmo sabendo que nunca chutou uma bola na vida.

Resumindo: a humanidade não deu certo, e a internet funciona como a maior vitrine desse pensamento.

Tenho certeza de que, daqui a 20 anos, quando a Internet estiver com 40 anos, ela vai estar gorda e decadente, tomando somente dois ou três banhos por semana, e morando no porão da casa dos pais. E vai passar seus dias sem fazer nada de útil, lendo fofocas nos portais, vendo vídeos de mulher pelada e procurando fotos da vizinha de biquíni no Orkut.

Ô fase.

21 comentários:

Dragus disse...

Isso se existir o Orkut até lá. =p

Concordo com tudo que disse, ainda mais com as reclamações cada vez mais solitárias (não porque paramos de reclamar, mas continuam sendo os mesmos) sobre a diferença entre ter e ser. =/

Tenho medo apenas que nesse momento uma cultura superior esteja nos observando por nossos sinais wireless e dando de cara com o que a internet mais produz: sexo e fofoca.

Pelo menos nesse aspecto a internet é democrática... =/

Looky disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Looky disse...

"A culpa é nossa – é a mesma teoria que afirma que o assassino não é a arma, mas quem puxa o gatilho."

"arma" e "assassino" não estariam invertidos nessa frase? o_õ

E quanto ao texto, concordo plenamente. A inclusão digital é tão hipócrita quanto dar um caderno e uma caneta para alguém que não sabe escrever, e acreditar que assim as pessoas serão alfabetizadas.

Looky disse...

Ah ignorem a primeira parte do meu comentário anterior, incompetência minha. Mea culpa, mea maxima culpa.

Flavita disse...

Concordo e discordo. Acho que realmente há muita imbecilidade por aí. Não é à toa que o BBB tem recorde de audiência.

Além disso, acho que hoje as pessoas não são mais preparadas para lidar com frustrações ou para entender que existem opiniões divergentes e que tudo bem sabe? Eu, por exemplo, passo a manhã discutindo com a Fê, minha amiga e coleguinha, sobre o Ronalducho. Eu sou palmeirense e ela corinthiana. Eu sinto que ela quer me esganar, mas ela foi bem educada pelos pais e na hora que ela sente que vai me matar ela levanta para tomar uma água. Infelizmente nem todo mundo tem essa maturidade toda.

No quesito "educação" e habilidade na "língua portuguesa" temos que ir com mais cuidado. Primeiro, vamos separar os burros-de-plantão-que-querem-ser-famosos daqueles que não tiveram acesso à educação e, por isso, cometem falhas na hora de redigir ou articular o pensamento. Depois de separar o joio do trigo vamos lembrar que apesar da gente reclamar muito, poucos estão realmente a fim de colaborar no desenvolvimento da coletividade. Quer dizer, quantos aqui - tão indignados com a ignorância alheia - participam voluntariamente de programas para ajudar os menos favorecidos a: aprenderem a ler, escrever e articular ideias? Garanto que são poucos.

Não me xinga Rob, mas falo de boca cheia que nós - privilegiados de merda - fazemos muito pouco pela inclusão digital. Ficamos conversando com os nossos pares e reclamando da vida. You know what I mean right?

Quanto aos wannabes da websfera...esses não têm jeito mesmo.

ps: sim, estou ligeiramente revoltada com o mundo hoje. Dia de Cão, Attica/Attica blablabla

Nanci disse...

Sim, comemoramos os 20 anos da internet, dessa revolução em nossas vidas, mas como todo grande poder tem grandes responsabilidades, usamos para o bem e para o mal.

Tudo depende do mancebo que estiver em frente ao computador. Assim como qualquer outra coisa na vida.

E esse conceito de inclusão digital para mim é utopia. Vamos educar primeiro antes de colocar um computador na frente, certo?

Bom final de semana!

Autor disse...

Dia desses recebi um email com as 'pérolas do orkut' e, no meio de tantas fotos de coisas 'print screenadas' de lá cheguei à conclusão de que sou totalmente contra a inclusão digital.
Não dá! Sério!

Parabéns pelo texto.
Muito bem redigido (como todos, sempre venho aqui).

Grande abraço

George Marques disse...

Realmente eu concordo que não adianta colocar um computador daqueles que mal sabem ler/escrever.

Só que o meu instinto nerd não me deixa ficar quieto e tenho que dizer que hoje não é a "Internet" que faz aniversário e sim a "Web". A internet surgiu e, 1969 com nome de arpanet e ganhou esse nome em 1977.

A internet já tem 40 anos, mas garanto que quem convive com ela a todo esse tempo não são aqueles que marcam brigas pelo o Orkut.

Dalleck disse...

Tudo está sendo banalizado. Ainda preferia a época em que só nerds ficavam o dia todo no PC e que só eles sabiam o que era memória e HD de um PC... agora todo mundo acha que é técnico... sem falar nos pseudo-designers

P! disse...

Eu acho que você generalizou de mais, passou a impressão de que 90% do uso da internet serve para "redução intelectual". Eu não acho isso. Se tantos usuários assim estivessem apenas atrás de pornografia e fofocas sobre celebridades, portais como o Uol, por exemplos, não estariam entre os mais acessados. Blogs como o seu, por exemplo, não estariam entre os melhores. Também acho que em blogs, as pessoas têm o direito de publicar o que quiserem desde que não estejam prejudicando ninguém. Oras, se não gosta do conteúdo daquele blog, não entre mais.
Concordo com você em alguns pontos, acho ridículo pessoas que passam e repassam correntes no Orkut, mas não é apenas isso que acontece nele. Quantas pessoas que há muito tempo eu não via, hoje posso conversar por que as encontrei no Orkut? Ele e o MSN são as minhas maiores fontes de comunicação, meu telefone fixo está quase em desuso.
É claro um monte de gente fica mandando aqueles mesmos e-mais com as mesmas mensagens que falam "Jesus blá blá blá" ou "Deus blá blá blá", mas esse monte de gente não pode representar o todo. Muitas pessoas usam o e-mail como ferramenta de trabalho (inclusive você, eu acho, por ser jornalista), comunicação e várias outras coisas. Tenho uma amiga no Japão e as nossas conversas só são possíveis graças à esses meios, tão criticados, da internet.
Eu creio que em meio de tantas bobagens citadas, muitas outras coisas podem ser salvas. Não estou discordando completamente do que você escreveu ou dizendo que acho lindo pessoas ficarem pondo pornografias e babaquices em seus blogs tentando ganhar dinheiro com isso, apenas acho que a internet também têm muitas coisas boas a serem consideradas, e você as deixou passar despercebido.
E pessoas babacas, idependente da existência da internet ou não, sempre estarão ali, sendo babacas. Elas afetarão nossas vidas via virtual ou real, independente dos meios.

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

eu tenho 15 anos de internet... pq na roça não tinha essas modernidades não.

só quando fui pra capital é que fui ter um computador só meu...

e era uma carroça.

aff

O Frango disse...

e eu nem tenho 20 anos ainda...

Concordo com a maioria das coisas que você falou aí. Eu também tenho o meu blog pelo simples prazer de escrever. Foi a forma mais criativa e diferente que eu consegui encontrar para começar a praticar um pouco esse hábito que vai ser tão frequente na minha profissão.

O maior problema é que qualquer um pode fazer um blog. Se não tem nada útil pra postar e quer só aparecer, não gasta seu tempo. Acho que a estatística é a mesma que você falou... de cada 10, metade dos blogs é "dispensável". Mas os outros cinco valem a pena ser lidos...

Lilian disse...

Você tem o mesmo ponto de vista que eu: não é a internet que é podre; é a humanidade. Qualquer mídia que usemos será somente o nosso reflexo. =/

Matheus Silva disse...

"Ah sim, eu tenho um blog. Bem, ele está longe de ser o melhor do mundo"

Não está tão longe assim

Gilgomex™ disse...

internet é coisa do cão...

queimemos nossos computadores, desliguemos todos os cabos de rede, excluamos todos nosso perfis no orkut, msn e até nos blogs, e façamos de tudo para o mundo escrever as boas e velhas Remingtons!!!!

(E voltemos a curtir umas fitas k-7 bem fodásticas...)

Kel Sodre disse...

Rob, sua mão melhorou?

Gostei muito da frase:
"Que adianta você ter espaço e liberdade para dizer o que você pensa, se você não tem o hábito de pensar?"

Concordo muito. Aliás, vi ontem na TV uma propaganda - não me lembro de quê, desculpem - cuja texto é extremamente bem escrito. Só para tentar ajudar na identificação, fala algumas coisas sobre o um homem negro e de nome muçulmano ser presidente dos EUA, sobre o prêmio de melhor jogador de futebol do mundo ser de de uma jogadora, sobre o papa estar dando sermões pela itetnet (olha ela aí, mais uma vez...). E, no final dessa propaganda, há a frase "De que adianta uma banda larga, se a mente é estreita?" - ou algo que o valha. Concordo. É o que a Lilian disse: qualquer mídia que usemos será o nosso reflexo. E o problema não é da internet, é puramente das pessoas. Na época dos telegramas, tinha gente que usava para dar golpes. Na era das revistas, a Contigo! já estava lá. E atire a primeira pedra quem nunca recebeu um trote por telefone.

Não sou contra a inclusão digital, pois acho que isso seria, mais uma vez, não dar oportunidade a pessoas que já não tiveram oportunidade a uma educação decente, moradia decente, alimentação, segurança para sair de casa, tranquilidade para ir trabalhar e deixar os filhos sozinhos e uma série de outros privilégios que nós, pessoas educadas e esclarecidas, que escrevemos com todos os acentos, "ss" e "ç", nem nos damos conta.

Porém, acho que não adianta somente colocar computadores nas escolas públicas e achar que essa será a solução dos problemas. Como disse alguém aí em cima nos comentários, é como colocar caderno e caneta na mão do povo e achar que essa será a solução para o analfabetismo. Ou danificar as máquinas, achando que assim a revolução industrial não irá acontecer.

E gostei do texto, gostei do recorte. Acho que, se fosse para escrever sobre os pontos positivos também, não seria um texto para blog. Seria um tratado sobre a internet, uma tese de mestrado/doutorado, um artigo científico.

Arthurius Maximus disse...

Lendo o seu brilhante texto e percebendo que suas conclusões são muito próximas das minhas, me vem a mente a lembrança do que a secretária de educação carioca falou numa entrevista: "Numa pesquisa que não foi divulgada por ter sido considerada chocante para o governo federal, um instituto chegou a conclusão de que 74 % da população brasileira é formada por analfabetos funcionais".

Isso é um dado dramático e que reflete muito bem a realidade que percebemos hoje com nosso trabalho na Internet e no dia a dia do "mundo real".

Daí se explicam a corrupção, o desmando generalizado e a incrível falta de senso público que nós temos. Sem falar nos óbvios problemas com a produção cultural.

Um abraço.

P! disse...

Kel Sodre, a propaganda é da Tim.

rbns disse...

Bobagem. A Internet mudou o mundo e dá alguma esperança para a democracia no planeta.

Kel Sodre disse...

P!, obrigada, é isso mesmo! Vi ontem a propaganda na TV e lembrei do meu comentário no blog!

Talvez os servilos da Tim não sejam lá essas coisas mas, pelo menos, o redator publicitário que eles contrataram é muito bom! rs

Thais Padovani disse...

Nem abro e-mails.
o meu endereço de msn soh recebe essas merda de piada, mensagens feitas,correntes e pelo menos 1 vez por mês entro pra apagá-las. E por incrível que parível a maioria são de pessoas que trabalham em frente a um pc! E fico imaginando...será que trabalham mesmo???!!!
Tenho um e-mail apenas para aquilo oq os e-mails foram feitos: receber mensagens realmente objetivas, seja de trabalho,faculdade,mensagens de parentes... essas coisas.

Dpoix ti enviuu um mail lindiuu MiGuXxXxoOoOoOooO!!! Xodadiii ;D



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