O que uma mulher de TPM, um mecânico, uma pessoa tarada por rimas, um gago, uma modelo e um diário têm em comum?
Mais do que você imagina.
Cinco blogueiros sensacionais (Gilgomex, Tyler, Barbarella, Dalleck e George Marques), e eu estamos escrevendo em um novo blog: Diários Roubados. Segue uma breve descrição do crime:
"Dizem que o que mais existe na blogosfera são diários. Este blog não traz um diário: traz vários deles, coletados pelo mundo afora. Reais? Mentiras? Não importa. Mas não se surpreenda se você achar, nas páginas abaixo, algo que você viveu."
Visitem e prestigiem!
27 de novembro de 2008
26 de novembro de 2008
There Was a Time...
Em 1991, eu era uma pessoa bastante diferente do que sou hoje.
Fisicamente, admito que não mudei muito: minha altura continua pequena e meu sorriso continua grande. Mas, claro, o tempo já deixa suas marcas em mim. Em 1991, eu estava deixando meu cabelo crescer – anos depois, ele chegaria ao meio das costas – e hoje estou careca; hoje, estou gordo, e, em 1991, eu apenas “não era magro”; e, dezessete anos atrás, um dos meus maiores sonhos era o dia em que meu cavanhaque “fechasse” dos lados da boca, enquanto, hoje, adio interminavelmente uma visita ao barbeiro para aparar a barba.
Mas não foi apenas fisicamente que eu mudei. Afinal, em dezessete anos, muita coisa acontece na vida de qualquer um. Em 1991, eu estava correndo (muito), jogando como um meia-atacante razoável no time da minha rua, enquanto hoje eu corro (muito) para conseguir fechar as revistas no prazo. Na mesma época, eu estava começando a fumar e a beber; hoje, beber tornou-se algo mais raro – minha paixão, como qualquer leitor deste blog sabe, é jantar fora – e estou no meio da luta contra o cigarro.
Além de mudar, eu perdi muita coisa, nestes anos todos. Perdi uma avó, que era minha madrinha. Perdi um animal de estimação. Perdi uma Copa do Mundo, perdi uma final de Libertadores no meu estádio. Mas, em contrapartida, perdi a vergonha de muitas coisas, o medo de tantas outras – apesar de que, ainda tenho ataques de timidez aguda.
Mas, em troca, ganhei o medo de perder. Afinal, quando se tem 15 anos, você pode perder (quase) qualquer coisa, já que você tem a vida inteira pela frente. Com 33 anos, você não pode mais se dar a esse luxo, já que a suposta "vida inteira que você tem pela frente" é estupidamente menor – e talvez você não tenha mais saco de correr atrás de tudo novamente.
Perdi, também, alguns amigos, até mesmo alguns daqueles que você acha que são para sempre. Por outro lado, encontrei amigos em lugares que jamais imaginava, e, apesar de estar teoricamente mais maduro e calejado, continuo inocentemente achando que eles são para sempre. Meus amigos daquela época? Casados, com filhos. Eu não. Ou, como gosto de pensar, eu “ainda” não.
Mas namorei, claro. Já tive paixões arrebatadoras, e em, algumas delas a pessoa nem sabia meu nome – em outras, a pessoa sabia apenas o meu nome. Já magoei muita gente (um punhado delas de propósito), mas fui mais magoado, o que deve render alguns pontos a meu favor quando precisarem me realocar para o céu ou o inferno. Em 1991, eu sabia que gostava de mulheres; hoje, eu continuo gostando de mulheres, mas sei que nunca vou entendê-las, algo que já desisti de tentar. Meu consolo é que muitas vezes elas também não me entendem, o que deve deixar as coisas em pé de igualdade.
Como eu disse, apesar de algumas coisas permanecerem as mesmas (entre elas, espero, minha essência), eu mudei bastante. Na verdade, não fui só eu. O mundo inteiro mudou muito de 1991 para cá. Ao invés de enumerar tudo o que mudou (o que tornaria este post bem parecido com um daqueles e-mails com fotos de coisas dos anos 80), basta dizer que, 17 anos atrás, você não estaria lendo este texto, já que a internet não existia.
Mas uma coisa que não mudou nestes 17 anos – em mim, não no mundo – foram algumas das minhas paixões. Na verdade, o começo dos anos 90 foi crucial para minhas paixões. Foi nesta época que eu me apaixonei de verdade por cinema (não estou falando de filmes, mas de cinema), começando a assistir clássicos; por quadrinhos, começando a destrinchar os universos Marvel e DC, ao lado de dois amigos, um deles leitor fiel deste blog (a propósito, Rubens, o Thanos dá um pau no Darkseid com uma mão nas costas e não importa o que você diga a respeito disso); e por jogos de estratégia (eu cheguei a ficar 17 horas seguidas jogando Civilization II na frente do computador).
E, claro, por música. Foi justamente nesta época que eu descobri que gostava do que meus pais chamavam de “rock pesado”. E o responsável por isso foi o Guns N’ Roses.
Antes de Guns N’ Roses, eu ouvia rádio, mas sem compromisso algum. Mas, quando a banda de Axl Rose explodiu no mundo, eu percebi que era daquilo que eu gostava – claro que, com 15 anos, você está muito suscetível ao marketing, especialmente quando o produto é uma banda “bad boy” como essa. Ganhei os dois primeiros discos (com a diferença de dias entre eles), ainda em vinil, e ouvia o Lado A de Appetite for Destruction todos os dias, até o Axl Rose começar a perder a voz.
E a minha paixão pelo estilo só aumentou. Claro que dei bastante sorte, já que o último momento de ouro do heavy metal foi justamente, no início dos anos 90, quando a maior parte das bandas clássicas (Metallica, Megadeth, Motorhead, Ozzy, Iron Maiden) lançaram grandes trabalhos. Assim, comecei a enveredar por outros caminhos, como Faith No More, Metallica, Megadeth, Ozzy... E, claro, Iron Maiden. Lembro até hoje quando assisti ao clipe de Wasted Years. Foi paixão a primeira vista. Saí naquele dia mesmo, e comprei o vinil do No Prayer for The Dying – que é um dos discos mais fracos da banda, mas que eu adoro, porque foi o “meu” disco do Iron. Sim, eu sou bastante apegado a certas coisas.
Com isso, comecei a construir uma boa coleção de LPs de heavy metal – que hoje estão “guardados” na casa de outro amigo. Ou seja, em pouco tempo, conheci muita coisa que hoje eu vejo como infinitamente melhor que Guns N’ Roses. Mas claro que isso não me impediu de, em certo dia de 1991, sair da escola ao lado de um amigo e entrar naquela fila kilométrica na frente da Woodstock, no centro de São Paulo, para comprar os dois volumes de Use Your Illusion no dia do lançamento.
De lá para cá, dezessete anos se passaram. E muita coisa mudou. Mas não o Appetite for Destruction. Quer dizer, ao menos não para mim. Eu devo ter amadurecido, mas a parte do meu cérebro que ouve este disco, não. Toda vez que eu coloco este CD para tocar em casa, eu volto a ter quinze anos de idade. Basta começarem os primeiros acordes de Welcome to the Jungle para eu ser transportado a uma época na qual eu não tinha quase nenhuma preocupação, exceto uma prova de biologia, uma garota que me olhou por mais tempo do que devia no pátio da escola e o que vou fazer do meu sábado à noite. Convenhamos, não são preocupações particularmente grandes, especialmente perto das que eu tenho hoje.
Aliás, essa sensação ocorre quando ouço todos os meus “primeiros” discos (veja Top 5 abaixo). O impacto que essas músicas tiveram na minha vida foi enorme. E muito marcante. Provavelmente, é por isso que nunca me interessei pelos estilos que vieram depois, como o grunge, o refluxo do movimento punk, as bandas indies. Meu coração musical, no que diz respeito ao rock, foi conquistado antes disso tudo surgir, e eu sou fiel demais ao estilo que ouço. Já fui para trás, para os anos 60 e 70, descobrir as influências das bandas que me ensinaram a gostar de música, e adorei esta viagem; mas não tenho interesse em ir à frente, pesquisar as conseqüências destas mesmas bandas.
Esse post saudosista se deve ao fato de que acabei de comprar o Chinese Democracry, o ábum que o Guns N’ Roses (ou melhor, o Axl Rose) está fazendo mais ou menos desde que tudo isso que eu disse acima. Fui até a Fnac comprar um jornal e dei de cara com o CD. Estava ali, na prateleira, sem grandes campanhas de marketing, sem alarde nenhum. E comprei. Comprei porque tenho a sensação de que devo isso a estes caras (ou a este cara, sendo mais preciso, já que só sobrou ele na banda), por tudo que eles significaram para mim, anos atrás.
Ainda não ouvi o disco, mas uma das vantagens de estar dezessete anos mais velho é que, se o álbum for ruim – e eu não tenho a pretensão de que ela seja bom – eu não vou levar isso para o lado pessoal ou me ofender. Vou encarar apenas como “um disco fraco”, e só. Mas a questão não é essa. Não comprei este disco pelas músicas, mas pelo simbolismo dele. E o simbolismo não tem absolutamente nada a ver com qualidade, ou com o tempo que ele demorou para ser feito, como os fãs, que estão propagando o disco como um dos mais importantes da história.
O simbolismo tem a ver com tudo o que eu disse acima, e o que esta banda significa para mim, em termos afetivos. A questão é que eu estou há mais de uma década esperando por este disco. É muito tempo. E, de repente, dou de cara com o disco na minha frente. Me senti como se tivesse dado um esbarrão em um velho amigo que não reencontrava há anos. Ele está diferente, claro, mas, até aí, eu também estou. Na verdade, ele parece estar bem diferente, talvez até mais do que eu. Mas, em uma risada, no jeito que ele pronuncia uma frase, ou, em uma memória, eu ainda consigo ver o meu amigo. E percebo que, mesmo sem nos falarmos durante tanto tempo, ele nunca deixou de ser meu amigo.
Talvez o reencontro com este amigo que eu não via há anos marque o fechamento de algum ciclo na minha vida. Quem sabe? Ou, na pior das hipóteses, sirva apenas como uma desculpa para eu ir para casa à noite e ouvir Appetite for Destruction, pensando na pessoa que eu era quando tinha quinze anos, e na pessoa que sou, hoje, com 33.
Sim, talvez seja apenas uma desculpa para eu relembrar de velhos amigos, de uma época de risadas despreocupadas, de primeiros beijos e de gols driblando o goleiro. E de pensar em tudo o que ganhei e em tudo o que perdi nestes anos.
E, mais importante, pensar se eu estou no caminho certo. Porque, um dia, mais dezessete anos terão se passado.
E algo me diz que isso vai acontecer antes do que eu imagino.
Enquanto faço isso, deixo vocês com o Top 5 Primeiros Discos de Heavy Metal / Hard Rock da Minha Vida:
1. GN’R Lies – Ganhei de natal, da minha tia, porque eu passei dezembro enchendo o saco da família inteira que queria “um dos discos” do Guns de Natal.
2. Appetite for Destruction – Ganhei (ou comprei?), dias depois, ainda antes do ano novo.
3. The Real Thing – Nesta época, eu gravava todos os videoclipes possíveis (estamos falando de uma era pré-MTV), e foi como conheci O Faith No More. Acho que este ainda é um dos melhores discos dos últimos 20 anos.
4. Skid Row – Surgiu na cola do Guns, e foi vendida como uma banda quase-irmã da banda de Axl. Mas o segundo disco é estupidamente melhor.
5. No Prayer for The Dying - Com mais ou menos 40 segundos da primeira música (Tailgunner), eu tive certeza de que era exatamente isso que eu estava procurando em todas as bandas.
Fisicamente, admito que não mudei muito: minha altura continua pequena e meu sorriso continua grande. Mas, claro, o tempo já deixa suas marcas em mim. Em 1991, eu estava deixando meu cabelo crescer – anos depois, ele chegaria ao meio das costas – e hoje estou careca; hoje, estou gordo, e, em 1991, eu apenas “não era magro”; e, dezessete anos atrás, um dos meus maiores sonhos era o dia em que meu cavanhaque “fechasse” dos lados da boca, enquanto, hoje, adio interminavelmente uma visita ao barbeiro para aparar a barba.
Mas não foi apenas fisicamente que eu mudei. Afinal, em dezessete anos, muita coisa acontece na vida de qualquer um. Em 1991, eu estava correndo (muito), jogando como um meia-atacante razoável no time da minha rua, enquanto hoje eu corro (muito) para conseguir fechar as revistas no prazo. Na mesma época, eu estava começando a fumar e a beber; hoje, beber tornou-se algo mais raro – minha paixão, como qualquer leitor deste blog sabe, é jantar fora – e estou no meio da luta contra o cigarro.
Além de mudar, eu perdi muita coisa, nestes anos todos. Perdi uma avó, que era minha madrinha. Perdi um animal de estimação. Perdi uma Copa do Mundo, perdi uma final de Libertadores no meu estádio. Mas, em contrapartida, perdi a vergonha de muitas coisas, o medo de tantas outras – apesar de que, ainda tenho ataques de timidez aguda.
Mas, em troca, ganhei o medo de perder. Afinal, quando se tem 15 anos, você pode perder (quase) qualquer coisa, já que você tem a vida inteira pela frente. Com 33 anos, você não pode mais se dar a esse luxo, já que a suposta "vida inteira que você tem pela frente" é estupidamente menor – e talvez você não tenha mais saco de correr atrás de tudo novamente.
Perdi, também, alguns amigos, até mesmo alguns daqueles que você acha que são para sempre. Por outro lado, encontrei amigos em lugares que jamais imaginava, e, apesar de estar teoricamente mais maduro e calejado, continuo inocentemente achando que eles são para sempre. Meus amigos daquela época? Casados, com filhos. Eu não. Ou, como gosto de pensar, eu “ainda” não.
Mas namorei, claro. Já tive paixões arrebatadoras, e em, algumas delas a pessoa nem sabia meu nome – em outras, a pessoa sabia apenas o meu nome. Já magoei muita gente (um punhado delas de propósito), mas fui mais magoado, o que deve render alguns pontos a meu favor quando precisarem me realocar para o céu ou o inferno. Em 1991, eu sabia que gostava de mulheres; hoje, eu continuo gostando de mulheres, mas sei que nunca vou entendê-las, algo que já desisti de tentar. Meu consolo é que muitas vezes elas também não me entendem, o que deve deixar as coisas em pé de igualdade.
Como eu disse, apesar de algumas coisas permanecerem as mesmas (entre elas, espero, minha essência), eu mudei bastante. Na verdade, não fui só eu. O mundo inteiro mudou muito de 1991 para cá. Ao invés de enumerar tudo o que mudou (o que tornaria este post bem parecido com um daqueles e-mails com fotos de coisas dos anos 80), basta dizer que, 17 anos atrás, você não estaria lendo este texto, já que a internet não existia.
Mas uma coisa que não mudou nestes 17 anos – em mim, não no mundo – foram algumas das minhas paixões. Na verdade, o começo dos anos 90 foi crucial para minhas paixões. Foi nesta época que eu me apaixonei de verdade por cinema (não estou falando de filmes, mas de cinema), começando a assistir clássicos; por quadrinhos, começando a destrinchar os universos Marvel e DC, ao lado de dois amigos, um deles leitor fiel deste blog (a propósito, Rubens, o Thanos dá um pau no Darkseid com uma mão nas costas e não importa o que você diga a respeito disso); e por jogos de estratégia (eu cheguei a ficar 17 horas seguidas jogando Civilization II na frente do computador).
E, claro, por música. Foi justamente nesta época que eu descobri que gostava do que meus pais chamavam de “rock pesado”. E o responsável por isso foi o Guns N’ Roses.
Antes de Guns N’ Roses, eu ouvia rádio, mas sem compromisso algum. Mas, quando a banda de Axl Rose explodiu no mundo, eu percebi que era daquilo que eu gostava – claro que, com 15 anos, você está muito suscetível ao marketing, especialmente quando o produto é uma banda “bad boy” como essa. Ganhei os dois primeiros discos (com a diferença de dias entre eles), ainda em vinil, e ouvia o Lado A de Appetite for Destruction todos os dias, até o Axl Rose começar a perder a voz.
E a minha paixão pelo estilo só aumentou. Claro que dei bastante sorte, já que o último momento de ouro do heavy metal foi justamente, no início dos anos 90, quando a maior parte das bandas clássicas (Metallica, Megadeth, Motorhead, Ozzy, Iron Maiden) lançaram grandes trabalhos. Assim, comecei a enveredar por outros caminhos, como Faith No More, Metallica, Megadeth, Ozzy... E, claro, Iron Maiden. Lembro até hoje quando assisti ao clipe de Wasted Years. Foi paixão a primeira vista. Saí naquele dia mesmo, e comprei o vinil do No Prayer for The Dying – que é um dos discos mais fracos da banda, mas que eu adoro, porque foi o “meu” disco do Iron. Sim, eu sou bastante apegado a certas coisas.
Com isso, comecei a construir uma boa coleção de LPs de heavy metal – que hoje estão “guardados” na casa de outro amigo. Ou seja, em pouco tempo, conheci muita coisa que hoje eu vejo como infinitamente melhor que Guns N’ Roses. Mas claro que isso não me impediu de, em certo dia de 1991, sair da escola ao lado de um amigo e entrar naquela fila kilométrica na frente da Woodstock, no centro de São Paulo, para comprar os dois volumes de Use Your Illusion no dia do lançamento.
De lá para cá, dezessete anos se passaram. E muita coisa mudou. Mas não o Appetite for Destruction. Quer dizer, ao menos não para mim. Eu devo ter amadurecido, mas a parte do meu cérebro que ouve este disco, não. Toda vez que eu coloco este CD para tocar em casa, eu volto a ter quinze anos de idade. Basta começarem os primeiros acordes de Welcome to the Jungle para eu ser transportado a uma época na qual eu não tinha quase nenhuma preocupação, exceto uma prova de biologia, uma garota que me olhou por mais tempo do que devia no pátio da escola e o que vou fazer do meu sábado à noite. Convenhamos, não são preocupações particularmente grandes, especialmente perto das que eu tenho hoje.
Aliás, essa sensação ocorre quando ouço todos os meus “primeiros” discos (veja Top 5 abaixo). O impacto que essas músicas tiveram na minha vida foi enorme. E muito marcante. Provavelmente, é por isso que nunca me interessei pelos estilos que vieram depois, como o grunge, o refluxo do movimento punk, as bandas indies. Meu coração musical, no que diz respeito ao rock, foi conquistado antes disso tudo surgir, e eu sou fiel demais ao estilo que ouço. Já fui para trás, para os anos 60 e 70, descobrir as influências das bandas que me ensinaram a gostar de música, e adorei esta viagem; mas não tenho interesse em ir à frente, pesquisar as conseqüências destas mesmas bandas.
Esse post saudosista se deve ao fato de que acabei de comprar o Chinese Democracry, o ábum que o Guns N’ Roses (ou melhor, o Axl Rose) está fazendo mais ou menos desde que tudo isso que eu disse acima. Fui até a Fnac comprar um jornal e dei de cara com o CD. Estava ali, na prateleira, sem grandes campanhas de marketing, sem alarde nenhum. E comprei. Comprei porque tenho a sensação de que devo isso a estes caras (ou a este cara, sendo mais preciso, já que só sobrou ele na banda), por tudo que eles significaram para mim, anos atrás.
Ainda não ouvi o disco, mas uma das vantagens de estar dezessete anos mais velho é que, se o álbum for ruim – e eu não tenho a pretensão de que ela seja bom – eu não vou levar isso para o lado pessoal ou me ofender. Vou encarar apenas como “um disco fraco”, e só. Mas a questão não é essa. Não comprei este disco pelas músicas, mas pelo simbolismo dele. E o simbolismo não tem absolutamente nada a ver com qualidade, ou com o tempo que ele demorou para ser feito, como os fãs, que estão propagando o disco como um dos mais importantes da história.
O simbolismo tem a ver com tudo o que eu disse acima, e o que esta banda significa para mim, em termos afetivos. A questão é que eu estou há mais de uma década esperando por este disco. É muito tempo. E, de repente, dou de cara com o disco na minha frente. Me senti como se tivesse dado um esbarrão em um velho amigo que não reencontrava há anos. Ele está diferente, claro, mas, até aí, eu também estou. Na verdade, ele parece estar bem diferente, talvez até mais do que eu. Mas, em uma risada, no jeito que ele pronuncia uma frase, ou, em uma memória, eu ainda consigo ver o meu amigo. E percebo que, mesmo sem nos falarmos durante tanto tempo, ele nunca deixou de ser meu amigo.
Talvez o reencontro com este amigo que eu não via há anos marque o fechamento de algum ciclo na minha vida. Quem sabe? Ou, na pior das hipóteses, sirva apenas como uma desculpa para eu ir para casa à noite e ouvir Appetite for Destruction, pensando na pessoa que eu era quando tinha quinze anos, e na pessoa que sou, hoje, com 33.
Sim, talvez seja apenas uma desculpa para eu relembrar de velhos amigos, de uma época de risadas despreocupadas, de primeiros beijos e de gols driblando o goleiro. E de pensar em tudo o que ganhei e em tudo o que perdi nestes anos.
E, mais importante, pensar se eu estou no caminho certo. Porque, um dia, mais dezessete anos terão se passado.
E algo me diz que isso vai acontecer antes do que eu imagino.
Enquanto faço isso, deixo vocês com o Top 5 Primeiros Discos de Heavy Metal / Hard Rock da Minha Vida:
1. GN’R Lies – Ganhei de natal, da minha tia, porque eu passei dezembro enchendo o saco da família inteira que queria “um dos discos” do Guns de Natal.
2. Appetite for Destruction – Ganhei (ou comprei?), dias depois, ainda antes do ano novo.
3. The Real Thing – Nesta época, eu gravava todos os videoclipes possíveis (estamos falando de uma era pré-MTV), e foi como conheci O Faith No More. Acho que este ainda é um dos melhores discos dos últimos 20 anos.
4. Skid Row – Surgiu na cola do Guns, e foi vendida como uma banda quase-irmã da banda de Axl. Mas o segundo disco é estupidamente melhor.
5. No Prayer for The Dying - Com mais ou menos 40 segundos da primeira música (Tailgunner), eu tive certeza de que era exatamente isso que eu estava procurando em todas as bandas.
24 de novembro de 2008
Um Dia de Cão - Parte Final
(leia a primeira parte aqui)
Esta semana minha mãe veio passar um dia no meu apartamento. Quando eu saí do trabalho para almoçar em casa com ela, meu celular tocou. Era ela.
– Oi, mãe.
– Quando você vier para casa, traz sal. Acabou.
Minhas entranhas começaram a se revirar de ansiedade. Finalmente, o dia da vingança. Um ódio frio começou a percorrer meu corpo.
– Que ótimo. Eu compro.
– Mas compre no Dia, porque lá é mais barato.
– Sim. Não tenha dúvidas de que é lá que eu vou.
– Se você quiser, eu vou com você.
– Não!
– Porque aí eu aproveito e compro algumas coisas.
– Mãe, isso não vai acontecer. Eu não convido você para ir comigo à Galeria do Rock comprar discos de heavy metal, e você não me convida para ir ao Dia com você. Nós sempre tivemos este acordo de cavalheiros, e boa parte do nosso relacionamento é construída em cima disso. Então, eu vou comprar o sal, ou você vai comprar o sal. Mas nós não vamos comprar o sal.
– Tudo bem, você vai. Mas não esquece que no Dia é mais barato.
– Eu não vou esquecer. Eu estou há três anos esperando por esse dia.
Desliguei o telefone. Minutos depois, entrei no mercado.
Mas, desta vez, eu estava mais esperto. Não comecei a vagar por aquelas terras ermas atrás de sal. Simplesmente fiquei parado no meio do mercado, certo de que, mais cedo ou mais tarde, um dos duendes iria passar por mim.
Dito e feito. Cerca de dez minutos depois, vejo um par de olhos me espreitando por trás de uma pilha de caixas de sabão. Era um deles, esperando eu sair dali para esconder um dos seus potes de ouro. Corri da direção das caixas e, antes que ele percebesse o que estava acontecendo, eu estava em cima dele.
– Sal!
– ...
– Não se faça de desentendido! Sal! Onde tem sal?
Vendo que não tinha escapatória – e um pouco mais tranqüilo ao perceber que eu não queria roubar seu ouro – o duende aceitou os fatos de que não sairia dali sem me dar a informação que eu queria.
– Último corredor.
– Se você estiver mentindo...
– Último corredor! Prateleira do meio!
– Ótimo.
Caminhei apressado pelo mercado, indo na direção do último corredor e deixando o duende para trás. E este foi meu erro. Eu deveria ter levado a criatura comigo. Virei no corredor que ele havia indicado e fui para o meio dele. Olhei para esquerda e vi garrafas de Coca-Cola. Olhei para a direita e vi uma prateleira vazia.
Ou quase vazia.
Um único saco de um kilo de sal Cisne brilhava na frente dos meus olhos.
Aproximei-me da prateleira e fiquei ali, admirando aquela obra de arte. Estava bem no meio da prateleira, como se fosse a estatueta de um deus sobre um altar. Com cuidado, percorri as letras S-A-L-R-E-F-I-N-A-D-O com a ponta do meu dedo. Sua cor alva remetia ao mais alto grau de pureza. Aquilo não era um saco de sal, aquilo era o tempero dos deuses. Imagens de anjos voando pelas nuvens e jogando sal uns nos outros, ao som da Nona Sinfonia, começaram a povoar minha mente. Estiquei o braço e, gentilmente, coloquei-o entre meus dedos.
No momento em que eu o agarrei, meu sorriso desapareceu em meio a uma nuvem de sal. Fiquei ali, parado, com a embalagem na mão, enquanto um filete de sal caía sobre meu pé esquerdo.
Estava furado.
Aí já era demais. Olhei ao redor e constatei que aquele era, realmente, o único saco de sal do mercado. Ou seja, foi uma armadilha. E eu não iria deixar isso barato.
Limpei meu tênis – que, a esta altura, já estava mais temperado que um bife de boteco – e recoloquei o saco na prateleira e saí andando pelos corredores. Tenho certeza de que os duendes acreditaram que, depois disso, eu desistiria e iria para casa. Logo, eles estariam mais relaxados no mercado. Não deu outra: menos de cinco minutos depois, avistei um deles empurrando um carrinho cheio de tranqueiras e o encurralei numa pilha de fardos de papel higiênico. Sem ter para onde fugir, ele foi obrigado a me dar atenção.
– Oi. Você pode me ajudar?
– Hum.
– Vocês sofrem de alguma epidemia de pressão alta?
– Hum?
– É. Pressão alta. Porque eu não consigo imaginar outro motivo para vocês não venderem sal.
– Último corredor. Prateleira do meio.
Eu não iria cair nessa de novo.
– Me mostre.
– Último corred...
– Me mostre!
O duende saiu andando pelo mercado, empurrando o carrinho, e eu ao lado dele. Tenho certeza de que, escondidos nas prateleiras, os outros duendes observavam aquilo com preocupação. Mas nenhum deles me atacou. Chegamos à prateleira indicada e o duende apontou o saco furado com o dedo.
– Sal.
– Está furado.
– Sal, ele insistiu.
– Este saco está furado. Eu quero um saco de sal cuja integridade tenha sido mantida.
Achando que era alguma armadilha minha, ele pegou o sal com as mãos, fazendo uma nova nuvem salgada surgir. Abanou o ar com a mão, e, quando o sal começou a desaparecer do ar, olhou para mim.
– Cabô.
– Não, não pode ter acabado. Não é possível que não tenha mais sal aqui.
– Cabô.
– Vem cá, isso aqui é um mercado, certo?
– Hum.
– Eu duvido que não tenha mais sal aqui. Sal, sabe? Aquele pó branco.
– Sal.
– Isso. Não é cocaína, é sal. Se fosse cocaína, eu entenderia. Mas é sal! Cloreto de sódio. Se você for à praia e encher uma caneca com água do mar, você consegue sal. Quando eles mataram o Tiradentes, no século 18, eles salgaram a casa do sujeito para não nascer mais nada ali. Então, sal não é algo particularmente raro. Eu duvido que vocês tenham apenas um saco de sal. E furado, ainda por cima.
– Cabô.
– Vem cá, qual a freqüência que vocês são reabastecidos? Três anos atrás eu vim aqui e não tinha sal. E hoje não tem sal. Eu quero saber se hoje vocês não tem sal de novo, ou se hoje vocês ainda não têm sal.
– Cabô.
E ficou olhando para mim com um ar de quem não poderia ir muito além disso no diálogo. Tentei ser mais minimalista, para ver se eu conseguia algo.
– Sal?
– Cabô.
– Acabou?
– Cabô.
Respirei fundo, resignado.
– Acabou.
– Hum.
Conformado de que eu não conseguiria sal ali, tentei um último truque, apenas para tirar uma dúvida pessoal. Apontei para o carrinho que ele empurrava e disse:
– Pote de ouro.
Ele olhou assustado para mim, gritou algo incompreensível, deu meia-volta e saiu correndo, empurrando o carrinho. Eu saí correndo atrás, mas, na primeira esquina que eu virei, vi que ele havia desaparecido. Olhei ao redor, e nem sinal dele ou do carrinho. Voltei para a prateleira do sal, e vi que o saco furado de sal havia desaparecido também.
Atravessei a rua e fui até o Pão de Açúcar comprar sal. Eu não passo mais nem na calçada do Dia. Às vezes, quando volto do trabalho de madrugada e o mercado está fechado, ouço barulhos vindo lá de dentro. Algumas noites, são ruídos de escavação; em outras, ouço barulhos que deixam claro que alguém está refinando metal lá dentro.
Eu, claro, finjo que não é comigo e passo reto. Certas coisas, é melhor deixar de lado. Mesmo.
Esta semana minha mãe veio passar um dia no meu apartamento. Quando eu saí do trabalho para almoçar em casa com ela, meu celular tocou. Era ela.
– Oi, mãe.
– Quando você vier para casa, traz sal. Acabou.
Minhas entranhas começaram a se revirar de ansiedade. Finalmente, o dia da vingança. Um ódio frio começou a percorrer meu corpo.
– Que ótimo. Eu compro.
– Mas compre no Dia, porque lá é mais barato.
– Sim. Não tenha dúvidas de que é lá que eu vou.
– Se você quiser, eu vou com você.
– Não!
– Porque aí eu aproveito e compro algumas coisas.
– Mãe, isso não vai acontecer. Eu não convido você para ir comigo à Galeria do Rock comprar discos de heavy metal, e você não me convida para ir ao Dia com você. Nós sempre tivemos este acordo de cavalheiros, e boa parte do nosso relacionamento é construída em cima disso. Então, eu vou comprar o sal, ou você vai comprar o sal. Mas nós não vamos comprar o sal.
– Tudo bem, você vai. Mas não esquece que no Dia é mais barato.
– Eu não vou esquecer. Eu estou há três anos esperando por esse dia.
Desliguei o telefone. Minutos depois, entrei no mercado.
Mas, desta vez, eu estava mais esperto. Não comecei a vagar por aquelas terras ermas atrás de sal. Simplesmente fiquei parado no meio do mercado, certo de que, mais cedo ou mais tarde, um dos duendes iria passar por mim.
Dito e feito. Cerca de dez minutos depois, vejo um par de olhos me espreitando por trás de uma pilha de caixas de sabão. Era um deles, esperando eu sair dali para esconder um dos seus potes de ouro. Corri da direção das caixas e, antes que ele percebesse o que estava acontecendo, eu estava em cima dele.
– Sal!
– ...
– Não se faça de desentendido! Sal! Onde tem sal?
Vendo que não tinha escapatória – e um pouco mais tranqüilo ao perceber que eu não queria roubar seu ouro – o duende aceitou os fatos de que não sairia dali sem me dar a informação que eu queria.
– Último corredor.
– Se você estiver mentindo...
– Último corredor! Prateleira do meio!
– Ótimo.
Caminhei apressado pelo mercado, indo na direção do último corredor e deixando o duende para trás. E este foi meu erro. Eu deveria ter levado a criatura comigo. Virei no corredor que ele havia indicado e fui para o meio dele. Olhei para esquerda e vi garrafas de Coca-Cola. Olhei para a direita e vi uma prateleira vazia.
Ou quase vazia.
Um único saco de um kilo de sal Cisne brilhava na frente dos meus olhos.
Aproximei-me da prateleira e fiquei ali, admirando aquela obra de arte. Estava bem no meio da prateleira, como se fosse a estatueta de um deus sobre um altar. Com cuidado, percorri as letras S-A-L-R-E-F-I-N-A-D-O com a ponta do meu dedo. Sua cor alva remetia ao mais alto grau de pureza. Aquilo não era um saco de sal, aquilo era o tempero dos deuses. Imagens de anjos voando pelas nuvens e jogando sal uns nos outros, ao som da Nona Sinfonia, começaram a povoar minha mente. Estiquei o braço e, gentilmente, coloquei-o entre meus dedos.
No momento em que eu o agarrei, meu sorriso desapareceu em meio a uma nuvem de sal. Fiquei ali, parado, com a embalagem na mão, enquanto um filete de sal caía sobre meu pé esquerdo.
Estava furado.
Aí já era demais. Olhei ao redor e constatei que aquele era, realmente, o único saco de sal do mercado. Ou seja, foi uma armadilha. E eu não iria deixar isso barato.
Limpei meu tênis – que, a esta altura, já estava mais temperado que um bife de boteco – e recoloquei o saco na prateleira e saí andando pelos corredores. Tenho certeza de que os duendes acreditaram que, depois disso, eu desistiria e iria para casa. Logo, eles estariam mais relaxados no mercado. Não deu outra: menos de cinco minutos depois, avistei um deles empurrando um carrinho cheio de tranqueiras e o encurralei numa pilha de fardos de papel higiênico. Sem ter para onde fugir, ele foi obrigado a me dar atenção.
– Oi. Você pode me ajudar?
– Hum.
– Vocês sofrem de alguma epidemia de pressão alta?
– Hum?
– É. Pressão alta. Porque eu não consigo imaginar outro motivo para vocês não venderem sal.
– Último corredor. Prateleira do meio.
Eu não iria cair nessa de novo.
– Me mostre.
– Último corred...
– Me mostre!
O duende saiu andando pelo mercado, empurrando o carrinho, e eu ao lado dele. Tenho certeza de que, escondidos nas prateleiras, os outros duendes observavam aquilo com preocupação. Mas nenhum deles me atacou. Chegamos à prateleira indicada e o duende apontou o saco furado com o dedo.
– Sal.
– Está furado.
– Sal, ele insistiu.
– Este saco está furado. Eu quero um saco de sal cuja integridade tenha sido mantida.
Achando que era alguma armadilha minha, ele pegou o sal com as mãos, fazendo uma nova nuvem salgada surgir. Abanou o ar com a mão, e, quando o sal começou a desaparecer do ar, olhou para mim.
– Cabô.
– Não, não pode ter acabado. Não é possível que não tenha mais sal aqui.
– Cabô.
– Vem cá, isso aqui é um mercado, certo?
– Hum.
– Eu duvido que não tenha mais sal aqui. Sal, sabe? Aquele pó branco.
– Sal.
– Isso. Não é cocaína, é sal. Se fosse cocaína, eu entenderia. Mas é sal! Cloreto de sódio. Se você for à praia e encher uma caneca com água do mar, você consegue sal. Quando eles mataram o Tiradentes, no século 18, eles salgaram a casa do sujeito para não nascer mais nada ali. Então, sal não é algo particularmente raro. Eu duvido que vocês tenham apenas um saco de sal. E furado, ainda por cima.
– Cabô.
– Vem cá, qual a freqüência que vocês são reabastecidos? Três anos atrás eu vim aqui e não tinha sal. E hoje não tem sal. Eu quero saber se hoje vocês não tem sal de novo, ou se hoje vocês ainda não têm sal.
– Cabô.
E ficou olhando para mim com um ar de quem não poderia ir muito além disso no diálogo. Tentei ser mais minimalista, para ver se eu conseguia algo.
– Sal?
– Cabô.
– Acabou?
– Cabô.
Respirei fundo, resignado.
– Acabou.
– Hum.
Conformado de que eu não conseguiria sal ali, tentei um último truque, apenas para tirar uma dúvida pessoal. Apontei para o carrinho que ele empurrava e disse:
– Pote de ouro.
Ele olhou assustado para mim, gritou algo incompreensível, deu meia-volta e saiu correndo, empurrando o carrinho. Eu saí correndo atrás, mas, na primeira esquina que eu virei, vi que ele havia desaparecido. Olhei ao redor, e nem sinal dele ou do carrinho. Voltei para a prateleira do sal, e vi que o saco furado de sal havia desaparecido também.
Atravessei a rua e fui até o Pão de Açúcar comprar sal. Eu não passo mais nem na calçada do Dia. Às vezes, quando volto do trabalho de madrugada e o mercado está fechado, ouço barulhos vindo lá de dentro. Algumas noites, são ruídos de escavação; em outras, ouço barulhos que deixam claro que alguém está refinando metal lá dentro.
Eu, claro, finjo que não é comigo e passo reto. Certas coisas, é melhor deixar de lado. Mesmo.
21 de novembro de 2008
Um Dia de Cão - Parte I
Quando eu vim morar sozinho, uns três anos atrás, minha mãe passou por uma cruzada pessoal para me convencer de que eu deveria fazer minhas compras naquele supermercado O Dia, por que, de acordo com ela, é o mercado mais barato da cidade. Aliás, pouco antes da minha mudança, ela parecia a garota propaganda do lugar, repetindo slogans sempre que tinha chance.
– Bom dia, mãe.
– Bom dia. Não se esqueça de que os preços no Dia são ótimos.
– Ah... Ok.
– Eu já fiz o seu café, com produtos comprados no Dia.
– Que bom.
– Porque lá tem os melhores preços da cidade.
– Ok, mãe. Olhe, eu vou tomar café na rua, estou atrasado.
– Tudo bem. Se precisar de alguma coisa, os preços do Dia são ótimos.
Ela ficou uma duas semanas nessa. Só faltava levantar uma lata de ervilhas e sorrir para uma câmera imaginária, dizendo o quanto aquilo custava no Dia. E, no dia (na data, não no mercado) da mudança, quando eu precisei comprar material de limpeza e um pouco de comida, ela, obviamente, me levou no Dia aqui ao lado, apesar dos meus protestos que o Pão de Açúcar, que fica do outro lado da rua, é maior.
Entramos no mercado – ela com aquele olhar de mãe que está ensinando o grande segredo da vida para sua prole – e eu entendi porque as coisas são tão baratas ali: eles seguem o mesmo modo de organização das Lojas Americanas (gaiola mode: on), deixando os produtos organizados sem lógica nenhuma (algo como deixar a prateleira de melancias entre a de desinfetantes e a de cadernos).
Peguei a lista e comecei a procurar o primeiro item: sal. Saí andando pelas prateleiras e nada. Nem sinal. Procurei algum funcionário do mercado para pedir orientação, mas não encontrei nenhum – provavelmente, estavam todos reunidos na frente da prateleira secreta onde guardam sal. O jeito foi apelar para a minha mãe (afinal, ela tem experiência naquele ambiente) mas ela parecia em transe, intoxicada com os preços baixos.
– Mãe, onde eles guardam o sal aqui?
– Você viu o preço do Bombril?
– Não, não vi. Eu quero sal.
– Está quase a metade do que eu paguei perto de casa.
– Que ótimo, mas eu não encontro o sal.
– Olhe ali!
– Achou o sal?
– Olhe o preço da batata!
– Mãe...
– Acho que eu vou levar um pouco!
Não tive jeito. Segurei-a firmemente pelos ombros e olhei para ela. Seus olhos estavam vidrados.
– Mãe, eu sei que o preço da batata está bom, mas nós temos uma missão aqui. Achar o sal.
– Mas as batatas...
– Podemos focar no sal?
– Mas lá perto de casa as batatas estão por...
– Mãe, ninguém come batata sem sal! Fica horrível! Nós precisamos encontrar um pacote de sal! Recomponha-se!
Aos poucos, ela começou a voltar ao normal. Seus olhos se tornaram um pouco mais vivos. Comecei a andar pelo mercado, com ela ao meu lado. Às vezes, ela olhava o preço de algum produto e suspirava. Eu precisava resolver logo aquilo, ela não iria agüentar muito tempo.
Claro que eu poderia ir atrás dos outros produtos da lista, mas o sal era essencial. Eu não gostaria de morar sozinho se não tivesse sal na minha casa. O sal é uma substância que deixa a vida mais colorida. Não conheço uma pessoa que consiga passar pela bandeja da carne no churrasco e não roubar um torrão de sal grosso. A vida sem sal é uma vida apenas ok. Tanto é que “sem sal” é sinônimo de “sem graça”. Eu nunca vi alguém soltar comentários como “ah, esse filme é meio sem detergente” ou “faltou um pouco de rúcula no último disco da banda tal”. Não. Sal é vida.
E eu não iria desistir tão fácil.
O problema é que comecei a perceber que não ajudar os clientes é uma política daquele supermercado. Os atendentes têm ordens de só arrumarem as prateleiras quando o mercado estiver vazio, normalmente no meio da madrugada. Eles são estritamente proibidos pelos seus mestres de serem vistos pelos consumidores. Provavelmente, aqueles que falham nesse critério são punidos fisicamente e humilhados na presença dos outros, por colocarem em risco o segredo da sua existência. Talvez sejam duendes e escondem potes de ouro no meio das mercadorias. Aposto que, se eu vasculhar em sites e livros sobre fábulas e lendas, encontrarei alguma referência sobre os atendentes do Dia.
Mas a sorte favorece os audaciosos. Continuamos andando pelos corredores, atrás de sal ou de um atendente – o que viesse primeiro. E, para azar do atendente, ele veio primeiro. Ao virar em um corredor, avistei uma criatura vestindo um uniforme do Dia.
– Você!, gritei.
O sujeito olhou para mim assustado e olhou ao redor, procurando um modo de escapar. O problema é que suas rotas de fuga eram apenas duas e estavam obstruídas: se ele corresse na minha direção, eu o apanharia; se ele corresse para o outro lado, eu jogaria uma lata de pêssegos na cabeça dele, como meu olhar deixava claro. Aproximei-me dele e achei melhor tomar cuidado, pois percebi que estava lidando com um animal acuado, que faria qualquer coisa para escapar dali. E, além disso, ele estava armado com dois frascos de amaciante nas mãos.
– Vamos resolver logo isso, eu disse. Sal. Onde?
– Cabô.
– Como assim, acabou? É sal! Sal não acaba!
– Cabô.
– Mas como você sabe? Você nem foi procurar!
– Meu Deus, olhe o preço dessa esponja...
– Mãe, controle-se! Cara, vamos resolver logo isso. Me dá um pacote de sal e eu vou embora.
– Cabô.
– Eu acho que você não está entendendo. Eu não estou quero exterminar a fome e as guerras do planeta, e não estou pedindo por uma porção de favos de mel banhados em néctar. Eu quero um kilo de sal.
– Cabô.
Senti uma mão no meu ombro. Me virei, já preparado para dar de cada com o chefe dos duendes me ameaçando com um machado, mas era minha mãe.
– Você viu o preço da carne moída?
– Mãe!
Olhei de volta e, claro, o duende havia aproveitado aquilo para escapar. Olhei para baixo e vi os dois frascos de amaciante no chão. Nada de potes de ouro. E nem de sal.
– Isso não fica assim!, gritei. Mãe, nós vamos embora! Larga esse pacote de carne!
Agarrei-a pelo braço, e saí de lá na direção do Pão de Açúcar. Mas ainda parei na calçada, olhei para dentro do Dia e fiz, em silêncio, uma promessa.
Um dia eu vou precisar de sal. Sal é uma coisa que dura anos, mas um dia eu vou precisar de sal. E esse dia há de chegar. E, neste dia, eu vou voltar aqui. Eu não vou me esquecer de vocês.
E, esta semana, este dia chegou.
(continua...)
– Bom dia, mãe.
– Bom dia. Não se esqueça de que os preços no Dia são ótimos.
– Ah... Ok.
– Eu já fiz o seu café, com produtos comprados no Dia.
– Que bom.
– Porque lá tem os melhores preços da cidade.
– Ok, mãe. Olhe, eu vou tomar café na rua, estou atrasado.
– Tudo bem. Se precisar de alguma coisa, os preços do Dia são ótimos.
Ela ficou uma duas semanas nessa. Só faltava levantar uma lata de ervilhas e sorrir para uma câmera imaginária, dizendo o quanto aquilo custava no Dia. E, no dia (na data, não no mercado) da mudança, quando eu precisei comprar material de limpeza e um pouco de comida, ela, obviamente, me levou no Dia aqui ao lado, apesar dos meus protestos que o Pão de Açúcar, que fica do outro lado da rua, é maior.
Entramos no mercado – ela com aquele olhar de mãe que está ensinando o grande segredo da vida para sua prole – e eu entendi porque as coisas são tão baratas ali: eles seguem o mesmo modo de organização das Lojas Americanas (gaiola mode: on), deixando os produtos organizados sem lógica nenhuma (algo como deixar a prateleira de melancias entre a de desinfetantes e a de cadernos).
Peguei a lista e comecei a procurar o primeiro item: sal. Saí andando pelas prateleiras e nada. Nem sinal. Procurei algum funcionário do mercado para pedir orientação, mas não encontrei nenhum – provavelmente, estavam todos reunidos na frente da prateleira secreta onde guardam sal. O jeito foi apelar para a minha mãe (afinal, ela tem experiência naquele ambiente) mas ela parecia em transe, intoxicada com os preços baixos.
– Mãe, onde eles guardam o sal aqui?
– Você viu o preço do Bombril?
– Não, não vi. Eu quero sal.
– Está quase a metade do que eu paguei perto de casa.
– Que ótimo, mas eu não encontro o sal.
– Olhe ali!
– Achou o sal?
– Olhe o preço da batata!
– Mãe...
– Acho que eu vou levar um pouco!
Não tive jeito. Segurei-a firmemente pelos ombros e olhei para ela. Seus olhos estavam vidrados.
– Mãe, eu sei que o preço da batata está bom, mas nós temos uma missão aqui. Achar o sal.
– Mas as batatas...
– Podemos focar no sal?
– Mas lá perto de casa as batatas estão por...
– Mãe, ninguém come batata sem sal! Fica horrível! Nós precisamos encontrar um pacote de sal! Recomponha-se!
Aos poucos, ela começou a voltar ao normal. Seus olhos se tornaram um pouco mais vivos. Comecei a andar pelo mercado, com ela ao meu lado. Às vezes, ela olhava o preço de algum produto e suspirava. Eu precisava resolver logo aquilo, ela não iria agüentar muito tempo.
Claro que eu poderia ir atrás dos outros produtos da lista, mas o sal era essencial. Eu não gostaria de morar sozinho se não tivesse sal na minha casa. O sal é uma substância que deixa a vida mais colorida. Não conheço uma pessoa que consiga passar pela bandeja da carne no churrasco e não roubar um torrão de sal grosso. A vida sem sal é uma vida apenas ok. Tanto é que “sem sal” é sinônimo de “sem graça”. Eu nunca vi alguém soltar comentários como “ah, esse filme é meio sem detergente” ou “faltou um pouco de rúcula no último disco da banda tal”. Não. Sal é vida.
E eu não iria desistir tão fácil.
O problema é que comecei a perceber que não ajudar os clientes é uma política daquele supermercado. Os atendentes têm ordens de só arrumarem as prateleiras quando o mercado estiver vazio, normalmente no meio da madrugada. Eles são estritamente proibidos pelos seus mestres de serem vistos pelos consumidores. Provavelmente, aqueles que falham nesse critério são punidos fisicamente e humilhados na presença dos outros, por colocarem em risco o segredo da sua existência. Talvez sejam duendes e escondem potes de ouro no meio das mercadorias. Aposto que, se eu vasculhar em sites e livros sobre fábulas e lendas, encontrarei alguma referência sobre os atendentes do Dia.
Mas a sorte favorece os audaciosos. Continuamos andando pelos corredores, atrás de sal ou de um atendente – o que viesse primeiro. E, para azar do atendente, ele veio primeiro. Ao virar em um corredor, avistei uma criatura vestindo um uniforme do Dia.
– Você!, gritei.
O sujeito olhou para mim assustado e olhou ao redor, procurando um modo de escapar. O problema é que suas rotas de fuga eram apenas duas e estavam obstruídas: se ele corresse na minha direção, eu o apanharia; se ele corresse para o outro lado, eu jogaria uma lata de pêssegos na cabeça dele, como meu olhar deixava claro. Aproximei-me dele e achei melhor tomar cuidado, pois percebi que estava lidando com um animal acuado, que faria qualquer coisa para escapar dali. E, além disso, ele estava armado com dois frascos de amaciante nas mãos.
– Vamos resolver logo isso, eu disse. Sal. Onde?
– Cabô.
– Como assim, acabou? É sal! Sal não acaba!
– Cabô.
– Mas como você sabe? Você nem foi procurar!
– Meu Deus, olhe o preço dessa esponja...
– Mãe, controle-se! Cara, vamos resolver logo isso. Me dá um pacote de sal e eu vou embora.
– Cabô.
– Eu acho que você não está entendendo. Eu não estou quero exterminar a fome e as guerras do planeta, e não estou pedindo por uma porção de favos de mel banhados em néctar. Eu quero um kilo de sal.
– Cabô.
Senti uma mão no meu ombro. Me virei, já preparado para dar de cada com o chefe dos duendes me ameaçando com um machado, mas era minha mãe.
– Você viu o preço da carne moída?
– Mãe!
Olhei de volta e, claro, o duende havia aproveitado aquilo para escapar. Olhei para baixo e vi os dois frascos de amaciante no chão. Nada de potes de ouro. E nem de sal.
– Isso não fica assim!, gritei. Mãe, nós vamos embora! Larga esse pacote de carne!
Agarrei-a pelo braço, e saí de lá na direção do Pão de Açúcar. Mas ainda parei na calçada, olhei para dentro do Dia e fiz, em silêncio, uma promessa.
Um dia eu vou precisar de sal. Sal é uma coisa que dura anos, mas um dia eu vou precisar de sal. E esse dia há de chegar. E, neste dia, eu vou voltar aqui. Eu não vou me esquecer de vocês.
E, esta semana, este dia chegou.
(continua...)
19 de novembro de 2008
Pegando no Tranco
Vamos tentando espantar o bloqueio criativo com a arma mais clichê do mundo: memes. Ou, na verdade, um meme. A Mary deixou aqui nos comentários um convite (ao mesmo tempo em que o Tyler me passava isso por msn) e achei interessante: tenho que responder algumas perguntas sobre minha vida usando apenas nomes de canções de uma determinada banda.
Ou seja, no meu caso, é mais difícil escolher a banda do que responder: afinal, enquanto Iron Maiden é como religião para mim, os The Bits passam bastante tempo ao meu lado também. Na dúvida, resolvi fazer duas versões, uma para cada um.
Então, sem mais delongas, deixo as duas versões com vocês. E não vou indicar o meme para ninguém: se você quiser responder, por favor, sinta-se a vontade e faça o mesmo no seu blog, avisando aqui nos comentários (caso sua banda escolhida seja algo como Calcinha Preta, Calypso, ou coisa do gênero, NÃO me avise, por favor. E deixe meus leitores fora disso.)
Versão The Bits (inclui covers, já que algumas músicas são mais famosas na versão deles)
1) É homem ou mulher
Mr. Moonlight
2) Descreva-se:
The Fool on the Hill
3) O que as pessoas acham de você?
Nowhere Man
4) Como você descreveria o seu último relacionamento?
All Things Must Pass
5) Descreva o estado atual da sua relação com a sua namorada ou pretendente?
All my Loving
6) Onde gostaria de estar agora?
Yellow Submarine ou Octopus's Garden. Ou ainda na The Long and Widing Road
7) O que pensa a respeito do amor?
Magical Mistery Tour
8) Como é a sua vida?
With a Little Help from my Friends
9) O que pediria, se pudesse ter só um desejo?
Twist and Shout
10) Escreva uma frase sábia
Everybody's got Something to Hide Except fot Me and My Monkey
Versão Iron Maiden
1) É homem ou mulher
The Wicker Man
2) Descreva-se:
Stranger in a Strange Land
3) O que as pessoas acham de você?
Public Enema Number One. Ou The Nomad.
4) Como você descreveria o seu último relacionamento?
Holy Smoke (como bem lembrou o Tyler, meu último relacionamento foi com o cigarro)
5) Descreva o estado atual da sua relação com a sua namorada ou pretendente?
From Here to Eternity
6) Onde gostaria de estar agora?
22 Acacia Avenue.
7) O que pensa a respeito do amor?
Sea of Madness
8) Como é a sua vida?
Heaven can Wait
9) O que pediria, se pudesse ter só um desejo?
To Tame a Land
10) Escreva uma frase sábia
Only the Good Die Young
Ou seja, no meu caso, é mais difícil escolher a banda do que responder: afinal, enquanto Iron Maiden é como religião para mim, os The Bits passam bastante tempo ao meu lado também. Na dúvida, resolvi fazer duas versões, uma para cada um.
Então, sem mais delongas, deixo as duas versões com vocês. E não vou indicar o meme para ninguém: se você quiser responder, por favor, sinta-se a vontade e faça o mesmo no seu blog, avisando aqui nos comentários (caso sua banda escolhida seja algo como Calcinha Preta, Calypso, ou coisa do gênero, NÃO me avise, por favor. E deixe meus leitores fora disso.)
Versão The Bits (inclui covers, já que algumas músicas são mais famosas na versão deles)
1) É homem ou mulher
Mr. Moonlight
2) Descreva-se:
The Fool on the Hill
3) O que as pessoas acham de você?
Nowhere Man
4) Como você descreveria o seu último relacionamento?
All Things Must Pass
5) Descreva o estado atual da sua relação com a sua namorada ou pretendente?
All my Loving
6) Onde gostaria de estar agora?
Yellow Submarine ou Octopus's Garden. Ou ainda na The Long and Widing Road
7) O que pensa a respeito do amor?
Magical Mistery Tour
8) Como é a sua vida?
With a Little Help from my Friends
9) O que pediria, se pudesse ter só um desejo?
Twist and Shout
10) Escreva uma frase sábia
Everybody's got Something to Hide Except fot Me and My Monkey
Versão Iron Maiden
1) É homem ou mulher
The Wicker Man
2) Descreva-se:
Stranger in a Strange Land
3) O que as pessoas acham de você?
Public Enema Number One. Ou The Nomad.
4) Como você descreveria o seu último relacionamento?
Holy Smoke (como bem lembrou o Tyler, meu último relacionamento foi com o cigarro)
5) Descreva o estado atual da sua relação com a sua namorada ou pretendente?
From Here to Eternity
6) Onde gostaria de estar agora?
22 Acacia Avenue.
7) O que pensa a respeito do amor?
Sea of Madness
8) Como é a sua vida?
Heaven can Wait
9) O que pediria, se pudesse ter só um desejo?
To Tame a Land
10) Escreva uma frase sábia
Only the Good Die Young
18 de novembro de 2008
É oficial
Este blog enfrenta o maior bloqueio criativo de sua história.
Tenho pelo menos meia dúzia de posts pela metade (um deles para o Chronicles), e não consigo terminar nenhum deles.
Alguém pode me sugerir uma pauta fácil de escrever (um tema, uma notícia, perguntas me entrevistando, qualquer coisa) para eu ter um assunto no próximo post e ver se, terminando um texto, eu consigo espantar essa zica e voltar ao ritmo normal de produção?
Tenho pelo menos meia dúzia de posts pela metade (um deles para o Chronicles), e não consigo terminar nenhum deles.
Alguém pode me sugerir uma pauta fácil de escrever (um tema, uma notícia, perguntas me entrevistando, qualquer coisa) para eu ter um assunto no próximo post e ver se, terminando um texto, eu consigo espantar essa zica e voltar ao ritmo normal de produção?
11 de novembro de 2008
A Nova Geração da Poesia Brasileira
Chegou ao fim o I Concurso Cultural Championship Vinyl - Casas Bahia, iniciado no post anterior deste blog. Os organizadores agradecem a enorme quantidade de poemas recebidos ao longo dos últimos dias, que ilustram o talento dos novos poetas do Brasil. Te cuida, Drummond!

Os vencedores (na ordem de postagem) são:
"Se não fosse obrigado eu não pagaria
e nem estaria nas casas bahia
ouvindo piadas e rimas anos 50
só pra ver se o meu leitor comenta."
(Otávio Cohen, escrevendo sob o pseudônimo de André)
"Eu não sou mais um menino,
pra acreditar em destino,
Mas olha o novo carnê,
24 parcelas, só pra vim te vê."
(Fernando Pocow, em sua terceira tentativa)
"O que eu posso fazer
pra você ver
e perceber
que eu não sei rimar?
Quando a falta de assunto aperta
o jeito é apelar pra poemas.
Não sei se você enxerga,
mas eu não gosto de algemas.
Tem o cara que posta download,
Tem a garota que posta poesia,
Tem o cara que posta farofa,
e tem o cara do Coluna do Lorida.
Não sei se você vai gostar,
mas a intenção não era essa.
Só quero que você clique aí embaixo
no espaço de comentar.
Xingue-me, diga calúnias.
Faça do seu comentário
um texto melhor do que essa balbúrdia.
Não deixe se influenciar,
não fique com medo de se expressar,
faça um comentário espetacular
e reze pra que na próxima estrofe os versos não terminem com 'ar'.
Vou terminando essa droga, que saco!
Porque foi só um tapa-buraco
enquanto meu cérebro está em greve
e só consegue fazer posts de jegue".
(Dalleck)
Reparem no lirismo da obra dos autores acima. E, claro, na diversidade de estilos, indo da poesia marginal de Varotto à grandeza épica de Rbns. Esta geração vai longe. Parabéns aos poetas!
Em breve, novos concursos aqui no Champ.

Os vencedores (na ordem de postagem) são:
"Se não fosse obrigado eu não pagaria
e nem estaria nas casas bahia
ouvindo piadas e rimas anos 50
só pra ver se o meu leitor comenta."
(Otávio Cohen, escrevendo sob o pseudônimo de André)
"Eu podia tá vendeno bala,
chaveiro ou minduim, chefia
Mas tô aqui nessa porra
pra assaltar as casa bahia
Mão na cabeça, cara no chão
passa logo o dinheiro mermão
E se alguém gritá
O bicho aqui vai pegá!
Se o segurança fizé gracinha
vai virá comida de sardinha*
E se a velhinha cantá feliz
vai comê grama pela raiz
Então é bom me dá a sacola
E saí do meu caminho agora
Porque antes de eu entrá num camburão
Levo todo mundo comigo pru caixão"
(Varotto)
chaveiro ou minduim, chefia
Mas tô aqui nessa porra
pra assaltar as casa bahia
Mão na cabeça, cara no chão
passa logo o dinheiro mermão
E se alguém gritá
O bicho aqui vai pegá!
Se o segurança fizé gracinha
vai virá comida de sardinha*
E se a velhinha cantá feliz
vai comê grama pela raiz
Então é bom me dá a sacola
E saí do meu caminho agora
Porque antes de eu entrá num camburão
Levo todo mundo comigo pru caixão"
(Varotto)
"Eu não sou mais um menino,
pra acreditar em destino,
Mas olha o novo carnê,
24 parcelas, só pra vim te vê."
(Fernando Pocow, em sua terceira tentativa)
"Na fila das Casas Bahia;
Entre uma vovó e uma titia;
Só o Rob Gordon que não ria;
De longe ele reconhece uma fria;
O segurança não vai te ajudar;
Esta senhora pretende te alugar;
É fugir agora deste lugar;
E deixar a conta sem pagar;
Esta velhinha é um projeto-piloto;
Do pessoal que trabalha "pro" tinhoso;
Foi um sucesso estrondoso;
Primeiro teste, é claro, com você de novo;
Primeiro teste, é só um aviso;
Escute bem o que eu te digo;
Mudar de loja é bobagem;
Eles te seguem, é uma sacanagem;
Ignore o sentido de "sentido de aranha";
E esteja certo que logo você apanha;
Mês que vem nova parcela;
E você na fila com ela.
(Rbns)
Entre uma vovó e uma titia;
Só o Rob Gordon que não ria;
De longe ele reconhece uma fria;
O segurança não vai te ajudar;
Esta senhora pretende te alugar;
É fugir agora deste lugar;
E deixar a conta sem pagar;
Esta velhinha é um projeto-piloto;
Do pessoal que trabalha "pro" tinhoso;
Foi um sucesso estrondoso;
Primeiro teste, é claro, com você de novo;
Primeiro teste, é só um aviso;
Escute bem o que eu te digo;
Mudar de loja é bobagem;
Eles te seguem, é uma sacanagem;
Ignore o sentido de "sentido de aranha";
E esteja certo que logo você apanha;
Mês que vem nova parcela;
E você na fila com ela.
(Rbns)
"O que eu posso fazer
pra você ver
e perceber
que eu não sei rimar?
Quando a falta de assunto aperta
o jeito é apelar pra poemas.
Não sei se você enxerga,
mas eu não gosto de algemas.
Tem o cara que posta download,
Tem a garota que posta poesia,
Tem o cara que posta farofa,
e tem o cara do Coluna do Lorida.
Não sei se você vai gostar,
mas a intenção não era essa.
Só quero que você clique aí embaixo
no espaço de comentar.
Xingue-me, diga calúnias.
Faça do seu comentário
um texto melhor do que essa balbúrdia.
Não deixe se influenciar,
não fique com medo de se expressar,
faça um comentário espetacular
e reze pra que na próxima estrofe os versos não terminem com 'ar'.
Vou terminando essa droga, que saco!
Porque foi só um tapa-buraco
enquanto meu cérebro está em greve
e só consegue fazer posts de jegue".
(Dalleck)
Reparem no lirismo da obra dos autores acima. E, claro, na diversidade de estilos, indo da poesia marginal de Varotto à grandeza épica de Rbns. Esta geração vai longe. Parabéns aos poetas!
Em breve, novos concursos aqui no Champ.
6 de novembro de 2008
Coisas da Vida - VII
Outro dia tive que ir até as Casas Bahia pagar um carnê de um telefone que eu comprei. Aliás, deveriam inventar uma nova lei da Física para as Casas Bahia. Se você comprar qualquer coisa ali – seja uma geladeira, uma cama ou uma lapiseira – você nunca mais deixará de ir à loja. E isso não porque o atendimento é maravilhoso e os preços são ótimos, mas sim porque você tem sempre que voltar para pagar algo. E sempre que você vai pagar, um vendedor te pega pelo braço e não deixa você sair antes de comprar outra coisa – que será parcelado. Ou seja, em breve as pessoas passarão mais tempo dentro das Casas Bahia, pagando o que compraram, do que nas próprias residências, usando as coisas compraram nas Casas Bahia.
Como eu estava com pressa, entrei determinado a nem mesmo cumprimentar um vendedor que olhasse para mim. Aliás, estava mesmo pronto para cuspir na cara de qualquer um deles que me viesse me dar bom dia. Atravessei a loja rapidamente – no meio do caminho, uma das vendedoras me viu, mas me abaixei e fiquei agachado atrás de um fogão, fingindo que estava amarrando o sapato por alguns segundos e consegui escapar e fui direto para o fundo da loja, onde ficam os caixas.
Porém, a poucos metros do caixa, meu sentido de aranha disparou. Olhei para os lados procurando a fonte de perigo que deveria estar próxima de mim, mas não vi nada. Achei que tinha me enganado, mas quando olhei para a fila do caixa, senti um arrepio subindo pela minha espinha.
Duas velhas esperavam a vez para pagar.
Nada contra a terceira idade. Sempre dou meu lugar para pessoas idosas, e até mesmo já ajudei alguns a atravessarem a rua. Isso quando eu morava em Moema, claro. Em Pinheiros não rola, porque na Teodoro Sampaio impera a lei da selva e é cada um por si. Mas, de modo geral, sempre respeitei os mais idosos. Vale citar, claro, que isso não se aplica à Velha Louca que mora em Moema, na rua em que cresci (Interlúdio: eu acredito que “Velha Louca” seja um conceito: afinal, toda rua ou prédio que tem uma turma de moleques tem, também, uma entidade misteriosa conhecida como Velha Louca).
Portanto, colocando a Velha Louca de lado, ressalto mais uma vez que sempre respeitei os idosos. Sempre.
Mas, nas Casas Bahia, a idéia de “velha” é diferente. Estar numa fila nas Casas Bahia e ter uma velha na sua frente é uma espécie de loteria: você pode dar sorte e ser premiado com uma velha que vai apenas pagar a prestação do liquidificador, agradecer e ir embora; ou pode ser uma velha que vai transformar seu dia em algo, no mínimo, bizarro.
Comigo, claro, é sempre a segunda opção.
Mas, desta vez, eu não imaginava (e nem estava preparado) para o que iria encontrar.
Parei na fila e um sujeito estava guardando uns documentos no bolso e agradecendo a menina do caixa. Ou seja, assim que coloquei os pés na fila, as velhas foram em direção ao caixa. Eu estava abrindo minha carteira para pegar meu cartão do banco, quando ouvi:
Como eu estava com pressa, entrei determinado a nem mesmo cumprimentar um vendedor que olhasse para mim. Aliás, estava mesmo pronto para cuspir na cara de qualquer um deles que me viesse me dar bom dia. Atravessei a loja rapidamente – no meio do caminho, uma das vendedoras me viu, mas me abaixei e fiquei agachado atrás de um fogão, fingindo que estava amarrando o sapato por alguns segundos e consegui escapar e fui direto para o fundo da loja, onde ficam os caixas.
Porém, a poucos metros do caixa, meu sentido de aranha disparou. Olhei para os lados procurando a fonte de perigo que deveria estar próxima de mim, mas não vi nada. Achei que tinha me enganado, mas quando olhei para a fila do caixa, senti um arrepio subindo pela minha espinha.
Duas velhas esperavam a vez para pagar.
Nada contra a terceira idade. Sempre dou meu lugar para pessoas idosas, e até mesmo já ajudei alguns a atravessarem a rua. Isso quando eu morava em Moema, claro. Em Pinheiros não rola, porque na Teodoro Sampaio impera a lei da selva e é cada um por si. Mas, de modo geral, sempre respeitei os mais idosos. Vale citar, claro, que isso não se aplica à Velha Louca que mora em Moema, na rua em que cresci (Interlúdio: eu acredito que “Velha Louca” seja um conceito: afinal, toda rua ou prédio que tem uma turma de moleques tem, também, uma entidade misteriosa conhecida como Velha Louca).
Portanto, colocando a Velha Louca de lado, ressalto mais uma vez que sempre respeitei os idosos. Sempre.
Mas, nas Casas Bahia, a idéia de “velha” é diferente. Estar numa fila nas Casas Bahia e ter uma velha na sua frente é uma espécie de loteria: você pode dar sorte e ser premiado com uma velha que vai apenas pagar a prestação do liquidificador, agradecer e ir embora; ou pode ser uma velha que vai transformar seu dia em algo, no mínimo, bizarro.
Comigo, claro, é sempre a segunda opção.
Mas, desta vez, eu não imaginava (e nem estava preparado) para o que iria encontrar.
Parei na fila e um sujeito estava guardando uns documentos no bolso e agradecendo a menina do caixa. Ou seja, assim que coloquei os pés na fila, as velhas foram em direção ao caixa. Eu estava abrindo minha carteira para pegar meu cartão do banco, quando ouvi:
Como está tu, cara de tatu?
Eu vou bem, cara de Belém!
Eu vou bem, cara de Belém!
Sem fazer movimentos arriscados, olhei para frente. Uma das velhas havia cumprimentado exatamente dessa forma a menina do caixa, que, claramente constrangida e segurando a risada, soltou um “bom dia” tímido. Enquanto a outra velha– que parecia não ter vocação de repentista ou de apresentadora de programa infantil – entregava o carnê para o pagamento, a velhinha cantora olhou ao redor, procurando novas platéias.
Ao mesmo tempo, eu olhei para cima e implorei a Deus por perdão. E, claro, perguntei discretamente a ele porque é SEMPRE comigo. Ele, obviamente, não me explicou e nem concedeu clemência: quando abaixei os olhos, a velha olhava fixamente para mim.
Eu sorri para ela. Mas não foi um sorriso de “oi, tudo bem?”, foi um sorriso de “vamos fazer um trato: eu já dou risada do que você pensou em dizer e você não se dá ao trabalho de dizer, ok?”. Aparentemente deu certo. Ela me estudou de cima a baixo (e de lado a lado, porque eu estou absurdamente gordo) e desviou o olhar. Coitada da mulher do caixa, pois teve que segurar o rojão sozinha. A velha olhou para ela e, inspirada, soltou seu novo single de trabalho:
Ao mesmo tempo, eu olhei para cima e implorei a Deus por perdão. E, claro, perguntei discretamente a ele porque é SEMPRE comigo. Ele, obviamente, não me explicou e nem concedeu clemência: quando abaixei os olhos, a velha olhava fixamente para mim.
Eu sorri para ela. Mas não foi um sorriso de “oi, tudo bem?”, foi um sorriso de “vamos fazer um trato: eu já dou risada do que você pensou em dizer e você não se dá ao trabalho de dizer, ok?”. Aparentemente deu certo. Ela me estudou de cima a baixo (e de lado a lado, porque eu estou absurdamente gordo) e desviou o olhar. Coitada da mulher do caixa, pois teve que segurar o rojão sozinha. A velha olhou para ela e, inspirada, soltou seu novo single de trabalho:
Você é um anjo de candura
Segurado pela cintura
Comendo rapadura
E numa cadeira dura!
Segurado pela cintura
Comendo rapadura
E numa cadeira dura!
Comecei a me perguntar se ela mesma havia composto isso ou se estava cantando algo do Arnaldo Antunes. A velha olhou para mim, novamente rindo. Eu, claro, coloquei em prática minha habilidade de permanecer imóvel e olhando para o infinito. Na verdade, eu estava suando frio. Eu sabia que aquilo não era uma velha fazendo riminhas nas Casas Bahia, era um recado do destino, uma espécie de bilhete escrito “eu posso acabar com seu dia a qualquer hora, Rob Gordon”, em letras garrafais e vermelhas.
A menina do caixa terminou de autenticar o carnê da velha normal, que agradeceu e começou a ir embora. Sua amiga, obviamente, ainda tinha mais um número no bolso, e, matando Chico Buarque de inveja, recitou:
A menina do caixa terminou de autenticar o carnê da velha normal, que agradeceu e começou a ir embora. Sua amiga, obviamente, ainda tinha mais um número no bolso, e, matando Chico Buarque de inveja, recitou:
Tchau, tchau!
Tchau, peixinho!
Tchau, bacalhau!
Tchau, peixinho!
Tchau, bacalhau!
E foi embora, graças a Deus. Eu cheguei ao caixa, e por uma fração de segundos, pensei em falar tudo rimado também, só para sacanear a funcionária da loja. Mas, aí olhei para o lado, vi que o armário no final do corredor não era um móvel à venda, mas sim um dos seguranças das Casas Bahia. E, como a única rima que eu conseguiria fazer com “oi, eu vim pagar uma conta!” terminaria com “sua tonta!”, achei melhor ficar quieto.
Paguei e fui embora.
Mês que vem vou ter que pagar a conta um dia antes, ou deixar atrasar, para não correr o risco de encontrar a velhinha. Porque ela com certeza vai me reconhecer. E, se isso acontecer, é bem capaz de eu ganhar uma serenata no meio da loja.
Ô fase.
Paguei e fui embora.
Mês que vem vou ter que pagar a conta um dia antes, ou deixar atrasar, para não correr o risco de encontrar a velhinha. Porque ela com certeza vai me reconhecer. E, se isso acontecer, é bem capaz de eu ganhar uma serenata no meio da loja.
Ô fase.
5 de novembro de 2008
A Máfia de All Star
Ano passado, mais ou menos nesta mesma época, eu postei um texto falando sobre os pseudo-intelectuais da Mostra de São Paulo. Este ano, a Mostra já está a todo vapor e fiquei satisfeito de ver que eles continuam os mesmos, mudaram apenas alguns detalhes do vestuário dos estereótipos que habitam a Paulista nesta época: as havaianas (que viraram pop) foram abandonadas e os catálogos da Mostra, agora, são vistos obrigatoriamente ao lado de um par de tênis All-Star. Tomara que ano que vem o All Star vire logo modinha, fazendo o povo da Mostra ter que apelar logo para Kichute ou Conga.
Aliás, aparentemente, a cor do All Star é um indicador da posição que você ocupa na pirâmide social da Mostra. Quanto mais estranha a cor do seu tênis, mais cult você é. Se você usa All Star preto, é porque você é um cult amador, que quando muito vai em alguma sessão do novo filme do Almodóvar (porque, Almodóvar, na Mostra, é pop); agora, se você é daqueles que só assiste a filmes egípcios, seu All Star precisa ser, no mínimo, laranja.
E, infelizmente, All Star de todas as cores estavam presentes na fila para a entrada da exibição de O Poderoso Chefão em cópia restaurada. Isso sem falar nos cachecóis, nos “óculos de Mostra”, aqueles quadradinhos, sempre verdes ou laranjas, e dezenas de pessoas fazendo cara de conteúdo enquanto assistiam ao filme.
Se eu fui?
É claro que eu fui. Apesar das minhas restrições à Mostra, O Poderoso Chefão entra naquela categoria (que eu já citei em alguns posts do blog) de algo que precisa ser assistido por todo e qualquer vertebrado do planeta – seja uma pessoa, seja um peixe, seja um texugo. Eu, como sou absolutamente tarado pelo filme, iria até mesmo se ele fosse exibido num telão no meio da festa do peão de Barretos. Além disso, tratava-se da cópia pessoal do Coppola, o que tornava o evento mais obrigatório ainda.
Então, sábado à noite, entro no Cinesesc ao lado de um amigo, também fã do filme. Uma pequena fila já se amontoava na porta do cinema, mas acabei pegando um lugar aparentemente bom, mais ou menos em trigésimo. Porém, minutos depois, acabei percebendo que eu estava no pior lugar da fila, por causa do grupinho de pseudo-intelectuais que estava ao meu lado. Eles eram quatro: três suportáveis e uma gordinha particularmente odiosa, que fazia questão de mostrar para todas as outras pessoas da fila o quanto ela era cult.
Como se não bastassem as suas vestimentas, que davam a impressão de que ela havia acordado às cinco horas da manhã só para ter bastante tempo para se dedicar à fina arte de se vestir mal (como aquelas pessoas que usam roupas que não combinam, como calça social, havaianas e regata, e dizem que “gostam de brincar com os estilos”) o tom de voz dela era insuportável. E não digo isso porque eu fiquei prestando atenção no que ela dizia, digo isso porque até os freqüentadores da igreja evangélica ao lado do cinema tinham dificuldades para se concentrar em suas preces quando ela abria a boca.
Mas, pior que o tom de voz, era o conteúdo do papo. Querendo bancar a veterana de Mostra, ela fazia questão de comentar em alto e bom som os filmes que ela já havia assistido. Mas, diferente das pessoas normais, ela não escolhia seus filmes por gênero, assunto, ator ou diretor, mas por país.
– Eu já assisti quatro até agora nesta Mostra. Um inglês, um nacional, um porto-riquenho e um chinês.
Quando ela disse isso, eu não consegui evitar um suspiro de saco cheio. Por que esse povinho da Mostra dá tanto valor a isso? Só para mostrar que “não gosta de filmes americanos”? Será que ela tem a menor desconfiança de que O Poderoso Chefão é americano? Estava quase perguntando para a gorda se, ao invés de possuir um catálogo da Mostra, ela não havia saído de casa com uma das cartas de objetivo do War, que dizia que ela precisava conquistar 24 territórios até o fim do festival, mas não tive chance, pois ela continuou:
– Ah não! Errei! Assisti a um ucraniano também, mas saí no final. Ou seja, são cinco filmes até agora.
Cinco? Como cinco? Se você não assistiu o final, você não assistiu ao filme! Perder o começo do filme é uma coisa, mas perder o final é totalmente diferente. Qualquer cineasta – e isso deve incluir os ucranianos – fazem o filme pensando no final. Imagine uma pessoa que saiu do cinema faltando dez minutos para acabar O Sexto Sentido. Tive um impulso de comprar a briga, dizendo que ela havia desrespeitado o cinema ucraniano e todo o trabalho do cineasta ao fazer isso, e que ela uma gordinha comercial de merda, que deveria estar mesmo era no Cinemark, assistindo a qualquer coisa do Adam Sandler e se entupindo de Mc Donald’s depois, mas me segurei. Não valia a pena.
Felizmente, fui surpreendido por uma das monitoras da Mostra, que passam pelas filas distribuindo as cédulas para os espectadores, na saída, dar suas notas para o filme – os chamados “votos do júri popular”. Não sei qual o propósito de fazer isso numa sessão de O Poderoso Chefão, já que qualquer pessoa que estivesse ali daria a nota máxima, pois se tratavam de fãs do filme. Não, talvez a gordinha ucraniana desse apenas nota 3, alegando que o roteiro escorrega em alguns momentos e o James Caan está um pouco exagerado. O curioso é que eles fizeram isso na sessão do Chefão, mas o filme – fiquei sabendo depois – não iria concorrer, para alegria da gordinha, que detestaria ver um filme produzido num país que possui água potável e cujo roteiro possui começo, meio e fim, como sendo o melhor da Mostra.
As portas se abriram e entramos no cinema. Felizmente, as únicas pessoas cults perto de nós estavam atrás da gente, e não falavam muito no cinema. Ao nosso lado, um casalzinho formado por “senhor e senhor” assistiam ao filme de mãos dadas o que me rendeu as duas gargalhadas da noite: a primeira, na cena da punhalada na mão do Luca Brasi, quando um deles soltou uma interjeição que ganharia poucos pontos num concurso de masculinidade; a segunda, na cena em que o Pacino foge do restautante após cometer os dois assassinatos crucias para o filme, um dos membros do casal não agüentou de tanta tensão e resolveu aliviar os nervos gritando (eu disse gritando) no cinema:
– Lar-ga a ar-ma! Lar-ga a ar-ma! (assim mesmo, com tudo separadinho em sílabas, vai saber o porquê.)
Pobre Michael Corleone. Duvido que ele durasse muito tempo na máfia com um consiglieri desses.
Em quase três horas da manhã quando o filme acabou, e fomos para o Oregon, comer o melhor X-Salada Bacon da história do Universo. Curiosamente, falamos pouco sobre o filme – da mesma forma que eu falei pouco sobre o filme aqui. Não há muito que dizer sobre a experiência de assistir a Chefão no cinema, é o mesmo que tenta descrever um orgasmo em palavras.
Então, acabamos montando a grade de programação da nossa Mostra de Cinema ideal. Sendo assim, deixo vocês com o Top 5 salas da programação da Mostra Championship Vinyl de Cinema:
1. Sala Ultraviolência – ficaria exibindo Laranja Mecânica 24 horas por dia, ininterruptamente, durante todos os dias do festival.
2. Sala sobre o Nada – a cada dia, uma temporada inteira de Seinfeld seria exibida.
3. Sala Cult – Todos os filmes das séries Rambo, Velozes e Furiosos e American Pie serão exibidos com dublagem em russo. Para sacanear os pseudo-intelectuais, o catálogo do festival não identificará os filmes e chamará isso de “Retrospectiva Leste Europeu”, informando também que cachecóis serão sorteados ao final de cada sessão.
4. Sala Deus – Onde acontecerá a “Retrospectiva Sergio Leone”.
5. Sala Corleone – O Poderoso Chefão, O Poderoso Chefão II, O Poderoso Chefão III exibidos ininterruptamente.
Update: Sra. Gordon de blog novo. Visitem, linkem, comentem, prestigiem.
Aliás, aparentemente, a cor do All Star é um indicador da posição que você ocupa na pirâmide social da Mostra. Quanto mais estranha a cor do seu tênis, mais cult você é. Se você usa All Star preto, é porque você é um cult amador, que quando muito vai em alguma sessão do novo filme do Almodóvar (porque, Almodóvar, na Mostra, é pop); agora, se você é daqueles que só assiste a filmes egípcios, seu All Star precisa ser, no mínimo, laranja.
E, infelizmente, All Star de todas as cores estavam presentes na fila para a entrada da exibição de O Poderoso Chefão em cópia restaurada. Isso sem falar nos cachecóis, nos “óculos de Mostra”, aqueles quadradinhos, sempre verdes ou laranjas, e dezenas de pessoas fazendo cara de conteúdo enquanto assistiam ao filme.
Se eu fui?
É claro que eu fui. Apesar das minhas restrições à Mostra, O Poderoso Chefão entra naquela categoria (que eu já citei em alguns posts do blog) de algo que precisa ser assistido por todo e qualquer vertebrado do planeta – seja uma pessoa, seja um peixe, seja um texugo. Eu, como sou absolutamente tarado pelo filme, iria até mesmo se ele fosse exibido num telão no meio da festa do peão de Barretos. Além disso, tratava-se da cópia pessoal do Coppola, o que tornava o evento mais obrigatório ainda.
Então, sábado à noite, entro no Cinesesc ao lado de um amigo, também fã do filme. Uma pequena fila já se amontoava na porta do cinema, mas acabei pegando um lugar aparentemente bom, mais ou menos em trigésimo. Porém, minutos depois, acabei percebendo que eu estava no pior lugar da fila, por causa do grupinho de pseudo-intelectuais que estava ao meu lado. Eles eram quatro: três suportáveis e uma gordinha particularmente odiosa, que fazia questão de mostrar para todas as outras pessoas da fila o quanto ela era cult.
Como se não bastassem as suas vestimentas, que davam a impressão de que ela havia acordado às cinco horas da manhã só para ter bastante tempo para se dedicar à fina arte de se vestir mal (como aquelas pessoas que usam roupas que não combinam, como calça social, havaianas e regata, e dizem que “gostam de brincar com os estilos”) o tom de voz dela era insuportável. E não digo isso porque eu fiquei prestando atenção no que ela dizia, digo isso porque até os freqüentadores da igreja evangélica ao lado do cinema tinham dificuldades para se concentrar em suas preces quando ela abria a boca.
Mas, pior que o tom de voz, era o conteúdo do papo. Querendo bancar a veterana de Mostra, ela fazia questão de comentar em alto e bom som os filmes que ela já havia assistido. Mas, diferente das pessoas normais, ela não escolhia seus filmes por gênero, assunto, ator ou diretor, mas por país.
– Eu já assisti quatro até agora nesta Mostra. Um inglês, um nacional, um porto-riquenho e um chinês.
Quando ela disse isso, eu não consegui evitar um suspiro de saco cheio. Por que esse povinho da Mostra dá tanto valor a isso? Só para mostrar que “não gosta de filmes americanos”? Será que ela tem a menor desconfiança de que O Poderoso Chefão é americano? Estava quase perguntando para a gorda se, ao invés de possuir um catálogo da Mostra, ela não havia saído de casa com uma das cartas de objetivo do War, que dizia que ela precisava conquistar 24 territórios até o fim do festival, mas não tive chance, pois ela continuou:
– Ah não! Errei! Assisti a um ucraniano também, mas saí no final. Ou seja, são cinco filmes até agora.
Cinco? Como cinco? Se você não assistiu o final, você não assistiu ao filme! Perder o começo do filme é uma coisa, mas perder o final é totalmente diferente. Qualquer cineasta – e isso deve incluir os ucranianos – fazem o filme pensando no final. Imagine uma pessoa que saiu do cinema faltando dez minutos para acabar O Sexto Sentido. Tive um impulso de comprar a briga, dizendo que ela havia desrespeitado o cinema ucraniano e todo o trabalho do cineasta ao fazer isso, e que ela uma gordinha comercial de merda, que deveria estar mesmo era no Cinemark, assistindo a qualquer coisa do Adam Sandler e se entupindo de Mc Donald’s depois, mas me segurei. Não valia a pena.
Felizmente, fui surpreendido por uma das monitoras da Mostra, que passam pelas filas distribuindo as cédulas para os espectadores, na saída, dar suas notas para o filme – os chamados “votos do júri popular”. Não sei qual o propósito de fazer isso numa sessão de O Poderoso Chefão, já que qualquer pessoa que estivesse ali daria a nota máxima, pois se tratavam de fãs do filme. Não, talvez a gordinha ucraniana desse apenas nota 3, alegando que o roteiro escorrega em alguns momentos e o James Caan está um pouco exagerado. O curioso é que eles fizeram isso na sessão do Chefão, mas o filme – fiquei sabendo depois – não iria concorrer, para alegria da gordinha, que detestaria ver um filme produzido num país que possui água potável e cujo roteiro possui começo, meio e fim, como sendo o melhor da Mostra.
As portas se abriram e entramos no cinema. Felizmente, as únicas pessoas cults perto de nós estavam atrás da gente, e não falavam muito no cinema. Ao nosso lado, um casalzinho formado por “senhor e senhor” assistiam ao filme de mãos dadas o que me rendeu as duas gargalhadas da noite: a primeira, na cena da punhalada na mão do Luca Brasi, quando um deles soltou uma interjeição que ganharia poucos pontos num concurso de masculinidade; a segunda, na cena em que o Pacino foge do restautante após cometer os dois assassinatos crucias para o filme, um dos membros do casal não agüentou de tanta tensão e resolveu aliviar os nervos gritando (eu disse gritando) no cinema:
– Lar-ga a ar-ma! Lar-ga a ar-ma! (assim mesmo, com tudo separadinho em sílabas, vai saber o porquê.)
Pobre Michael Corleone. Duvido que ele durasse muito tempo na máfia com um consiglieri desses.
Em quase três horas da manhã quando o filme acabou, e fomos para o Oregon, comer o melhor X-Salada Bacon da história do Universo. Curiosamente, falamos pouco sobre o filme – da mesma forma que eu falei pouco sobre o filme aqui. Não há muito que dizer sobre a experiência de assistir a Chefão no cinema, é o mesmo que tenta descrever um orgasmo em palavras.
Então, acabamos montando a grade de programação da nossa Mostra de Cinema ideal. Sendo assim, deixo vocês com o Top 5 salas da programação da Mostra Championship Vinyl de Cinema:
1. Sala Ultraviolência – ficaria exibindo Laranja Mecânica 24 horas por dia, ininterruptamente, durante todos os dias do festival.
2. Sala sobre o Nada – a cada dia, uma temporada inteira de Seinfeld seria exibida.
3. Sala Cult – Todos os filmes das séries Rambo, Velozes e Furiosos e American Pie serão exibidos com dublagem em russo. Para sacanear os pseudo-intelectuais, o catálogo do festival não identificará os filmes e chamará isso de “Retrospectiva Leste Europeu”, informando também que cachecóis serão sorteados ao final de cada sessão.
4. Sala Deus – Onde acontecerá a “Retrospectiva Sergio Leone”.
5. Sala Corleone – O Poderoso Chefão, O Poderoso Chefão II, O Poderoso Chefão III exibidos ininterruptamente.
Update: Sra. Gordon de blog novo. Visitem, linkem, comentem, prestigiem.
2 de novembro de 2008
O Marido, A Esposa, Sua Amiga e a Criança
Eu juro que estou tentando falar da sessão de O Poderoso Chefão na Mostra de São Paulo, mas não consigo. Toda vez que eu consigo um tempo para postar no blog, algo mais interessante aparece no meu caminho. Como ontem, por exemplo.
Eu estava nas Clínicas, esperando pelo metrô para encontrar a Sra. Gordon. Estava na plataforma lendo Direitos Iguais, Rituais Iguais, do Pratchett e segurando uma eventual gargalhada que teimava em escapar, quando ouvi um berro.
– Eu que não quero você! Não é você que não me quer, sou eu que não te quero!
Como todo mundo olhou na direção do grito, eu não iria ficar para trás. Num canto da plataforma, onde o último vagão do metrô iria parar, estavam: a Esposa, uma mulher de 30 anos e a autora do berro; o Marido, homem com mais ou menos a mesma idade e obviamente o alvo do grito; a Criança, uma menina de uns oito anos, que segurava a mão do sujeito (doravante chamada Menina); e a Amiga, outra mulher, que aparentemente não tinha nada a ver com a briga e que, claramente, preferia estar em outro lugar.
Acreditando que nem todas as pessoas da plataforma ouviram sua última declaração, a mulher repetiu:
– Sou eu que não te quero!
A maioria das pessoas desviou o olhar e fingiu que não estava acontecendo nada. Uns poucos continuaram olhando, mas bem disfarçadamente. Eu, obviamente, peguei meu livro e fui mais para perto, para não perder nada. Parei logo atrás deles, e com o livro aberto nas mãos, fingi que estava lendo, enquanto prestava atenção neles.
Não identifiquei o motivo da briga, mas vi que a coisa estava feia.
A Esposa ouvia os conselhos da Amiga (algo como “vocês precisam conversar, vocês ainda se gostam muito”) que seriam inúteis, dado o olhar de ódio que ela dirigia ao Marido. Ele, por sua vez, segurava a mão da Criança e olhava para o túnel do metrô, com uma expressão que ficava em algum lugar entre “por que eu saí da cama hoje?” e “por que eu me meti com essa louca?”. A menina, coitada, olhava assustada do pai para a mãe e da mãe para o pai tentando entender o que estava acontecendo. Prometi para mim mesmo que se ela olhasse para mim, eu iria tentar sorrir para ela.
O metrô chegou. Eu, obviamente, corri para o lado deles, porque não queria correr o risco de ficar num vagão diferente. E, como a porta do metrô parou bem à minha frente, entrei no vagão antes deles. Porém, quando eu passava pela porta, vi, com o canto dos olhos, o Marido segurando a mão da Criança e falando algo como “nós vamos esperar pelo próximo”. E ficou parado ali, enquanto a Esposa e a Amiga entravam no trem.
Mais do que depressa, sentei num banco e fiquei olhando para eles.
A Esposa, ao ver que o Marido não havia embarcado com a Criança, pegou a mão da menina e a puxou para dentro do vagão, gritando algo como “ela vai comigo!”. Antes que a menina aterrissasse dentro do trem, o marido já havia puxado ela de volta para a plataforma. E eu ali, olhando aquela disputada inusitada pela guarda da menina – que substituía toda aquela complicação de advogados e tribunais por um método aparentemente mais eficiente e inspirado em Escravos de Jó – sabendo que a qualquer momento, a porta do metrô fecharia, com ou sem a Criança no caminho. Afinal, as portas do metrô já têm muito que fazer durante o dia e não se importariam com uma criança sendo puxada para dentro e para fora do vagão.
No fim das contas, a Criança acabou ficando do lado de fora. Eu, obviamente, torcendo para que o Marido e a menina entrassem novamente no vagão, para continuar a briga num lugar onde eu pudesse assistir, mas o que sucedeu foi justamente o contrário. Ao ver a filha do lado de fora do metrô, a Esposa saiu do vagão puxando a Amiga para fora.
A discussão continuaria na plataforma da estação. E eu estava dentro do vagão. Eu iria perder o final daquilo!
Todos os meus instintos gritaram para eu levantar e sair do vagão atrás deles, para poder continuar assistindo ao quebra-pau. Aliás, eu estava disposto a segui-los discretamente até os confins da Zona Leste, se fosse preciso. Não importa em qual vagão eles brigassem, eu estaria ali, logo atrás, quieto e assistindo. Mas descer do metrô atrás deles daria muito na cara. Afinal, eles devem ter me visto entrando no vagão logo antes deles, não pegaria bem eu entrar e descer do metrô na mesma estação.
O aviso de que as portas iriam se fechar começou a tocar. Quase levantei.
Quase.
Mas, no último instante, lembrei que já estava atrasado para encontrar a Sra. Gordon. E, se eu me atrasasse ainda mais, provavelmente hoje outra pessoa estaria escrevendo em outro blog um post sobre o casal que ele viu brigando no metrô, com a mulher sem olhar na cara do baixinho careca que pedia desculpas insistentemente, alegando justamente que ele havia se atrasado por causa de uma briga no metrô (algo que tornaria o texto dele melhor ainda, mas transformaria o meu sábado num desastre completo).
Na dúvida, achei melhor (e mais seguro) terminar o dia tendo um post incompleto, mesmo. Paciência, nem sempre as coisas são como a gente quer.
Tenho pena mesmo da Criança, que está descobrindo isso da pior maneira possível.
Eu estava nas Clínicas, esperando pelo metrô para encontrar a Sra. Gordon. Estava na plataforma lendo Direitos Iguais, Rituais Iguais, do Pratchett e segurando uma eventual gargalhada que teimava em escapar, quando ouvi um berro.
– Eu que não quero você! Não é você que não me quer, sou eu que não te quero!
Como todo mundo olhou na direção do grito, eu não iria ficar para trás. Num canto da plataforma, onde o último vagão do metrô iria parar, estavam: a Esposa, uma mulher de 30 anos e a autora do berro; o Marido, homem com mais ou menos a mesma idade e obviamente o alvo do grito; a Criança, uma menina de uns oito anos, que segurava a mão do sujeito (doravante chamada Menina); e a Amiga, outra mulher, que aparentemente não tinha nada a ver com a briga e que, claramente, preferia estar em outro lugar.
Acreditando que nem todas as pessoas da plataforma ouviram sua última declaração, a mulher repetiu:
– Sou eu que não te quero!
A maioria das pessoas desviou o olhar e fingiu que não estava acontecendo nada. Uns poucos continuaram olhando, mas bem disfarçadamente. Eu, obviamente, peguei meu livro e fui mais para perto, para não perder nada. Parei logo atrás deles, e com o livro aberto nas mãos, fingi que estava lendo, enquanto prestava atenção neles.
Não identifiquei o motivo da briga, mas vi que a coisa estava feia.
A Esposa ouvia os conselhos da Amiga (algo como “vocês precisam conversar, vocês ainda se gostam muito”) que seriam inúteis, dado o olhar de ódio que ela dirigia ao Marido. Ele, por sua vez, segurava a mão da Criança e olhava para o túnel do metrô, com uma expressão que ficava em algum lugar entre “por que eu saí da cama hoje?” e “por que eu me meti com essa louca?”. A menina, coitada, olhava assustada do pai para a mãe e da mãe para o pai tentando entender o que estava acontecendo. Prometi para mim mesmo que se ela olhasse para mim, eu iria tentar sorrir para ela.
O metrô chegou. Eu, obviamente, corri para o lado deles, porque não queria correr o risco de ficar num vagão diferente. E, como a porta do metrô parou bem à minha frente, entrei no vagão antes deles. Porém, quando eu passava pela porta, vi, com o canto dos olhos, o Marido segurando a mão da Criança e falando algo como “nós vamos esperar pelo próximo”. E ficou parado ali, enquanto a Esposa e a Amiga entravam no trem.
Mais do que depressa, sentei num banco e fiquei olhando para eles.
A Esposa, ao ver que o Marido não havia embarcado com a Criança, pegou a mão da menina e a puxou para dentro do vagão, gritando algo como “ela vai comigo!”. Antes que a menina aterrissasse dentro do trem, o marido já havia puxado ela de volta para a plataforma. E eu ali, olhando aquela disputada inusitada pela guarda da menina – que substituía toda aquela complicação de advogados e tribunais por um método aparentemente mais eficiente e inspirado em Escravos de Jó – sabendo que a qualquer momento, a porta do metrô fecharia, com ou sem a Criança no caminho. Afinal, as portas do metrô já têm muito que fazer durante o dia e não se importariam com uma criança sendo puxada para dentro e para fora do vagão.
No fim das contas, a Criança acabou ficando do lado de fora. Eu, obviamente, torcendo para que o Marido e a menina entrassem novamente no vagão, para continuar a briga num lugar onde eu pudesse assistir, mas o que sucedeu foi justamente o contrário. Ao ver a filha do lado de fora do metrô, a Esposa saiu do vagão puxando a Amiga para fora.
A discussão continuaria na plataforma da estação. E eu estava dentro do vagão. Eu iria perder o final daquilo!
Todos os meus instintos gritaram para eu levantar e sair do vagão atrás deles, para poder continuar assistindo ao quebra-pau. Aliás, eu estava disposto a segui-los discretamente até os confins da Zona Leste, se fosse preciso. Não importa em qual vagão eles brigassem, eu estaria ali, logo atrás, quieto e assistindo. Mas descer do metrô atrás deles daria muito na cara. Afinal, eles devem ter me visto entrando no vagão logo antes deles, não pegaria bem eu entrar e descer do metrô na mesma estação.
O aviso de que as portas iriam se fechar começou a tocar. Quase levantei.
Quase.
Mas, no último instante, lembrei que já estava atrasado para encontrar a Sra. Gordon. E, se eu me atrasasse ainda mais, provavelmente hoje outra pessoa estaria escrevendo em outro blog um post sobre o casal que ele viu brigando no metrô, com a mulher sem olhar na cara do baixinho careca que pedia desculpas insistentemente, alegando justamente que ele havia se atrasado por causa de uma briga no metrô (algo que tornaria o texto dele melhor ainda, mas transformaria o meu sábado num desastre completo).
Na dúvida, achei melhor (e mais seguro) terminar o dia tendo um post incompleto, mesmo. Paciência, nem sempre as coisas são como a gente quer.
Tenho pena mesmo da Criança, que está descobrindo isso da pior maneira possível.
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