2 de novembro de 2008

O Marido, A Esposa, Sua Amiga e a Criança

Eu juro que estou tentando falar da sessão de O Poderoso Chefão na Mostra de São Paulo, mas não consigo. Toda vez que eu consigo um tempo para postar no blog, algo mais interessante aparece no meu caminho. Como ontem, por exemplo.

Eu estava nas Clínicas, esperando pelo metrô para encontrar a Sra. Gordon. Estava na plataforma lendo Direitos Iguais, Rituais Iguais, do Pratchett e segurando uma eventual gargalhada que teimava em escapar, quando ouvi um berro.

– Eu que não quero você! Não é você que não me quer, sou eu que não te quero!

Como todo mundo olhou na direção do grito, eu não iria ficar para trás. Num canto da plataforma, onde o último vagão do metrô iria parar, estavam: a Esposa, uma mulher de 30 anos e a autora do berro; o Marido, homem com mais ou menos a mesma idade e obviamente o alvo do grito; a Criança, uma menina de uns oito anos, que segurava a mão do sujeito (doravante chamada Menina); e a Amiga, outra mulher, que aparentemente não tinha nada a ver com a briga e que, claramente, preferia estar em outro lugar.

Acreditando que nem todas as pessoas da plataforma ouviram sua última declaração, a mulher repetiu:

– Sou eu que não te quero!

A maioria das pessoas desviou o olhar e fingiu que não estava acontecendo nada. Uns poucos continuaram olhando, mas bem disfarçadamente. Eu, obviamente, peguei meu livro e fui mais para perto, para não perder nada. Parei logo atrás deles, e com o livro aberto nas mãos, fingi que estava lendo, enquanto prestava atenção neles.

Não identifiquei o motivo da briga, mas vi que a coisa estava feia.

A Esposa ouvia os conselhos da Amiga (algo como “vocês precisam conversar, vocês ainda se gostam muito”) que seriam inúteis, dado o olhar de ódio que ela dirigia ao Marido. Ele, por sua vez, segurava a mão da Criança e olhava para o túnel do metrô, com uma expressão que ficava em algum lugar entre “por que eu saí da cama hoje?” e “por que eu me meti com essa louca?”. A menina, coitada, olhava assustada do pai para a mãe e da mãe para o pai tentando entender o que estava acontecendo. Prometi para mim mesmo que se ela olhasse para mim, eu iria tentar sorrir para ela.

O metrô chegou. Eu, obviamente, corri para o lado deles, porque não queria correr o risco de ficar num vagão diferente. E, como a porta do metrô parou bem à minha frente, entrei no vagão antes deles. Porém, quando eu passava pela porta, vi, com o canto dos olhos, o Marido segurando a mão da Criança e falando algo como “nós vamos esperar pelo próximo”. E ficou parado ali, enquanto a Esposa e a Amiga entravam no trem.

Mais do que depressa, sentei num banco e fiquei olhando para eles.

A Esposa, ao ver que o Marido não havia embarcado com a Criança, pegou a mão da menina e a puxou para dentro do vagão, gritando algo como “ela vai comigo!”. Antes que a menina aterrissasse dentro do trem, o marido já havia puxado ela de volta para a plataforma. E eu ali, olhando aquela disputada inusitada pela guarda da menina – que substituía toda aquela complicação de advogados e tribunais por um método aparentemente mais eficiente e inspirado em Escravos de Jó – sabendo que a qualquer momento, a porta do metrô fecharia, com ou sem a Criança no caminho. Afinal, as portas do metrô já têm muito que fazer durante o dia e não se importariam com uma criança sendo puxada para dentro e para fora do vagão.

No fim das contas, a Criança acabou ficando do lado de fora. Eu, obviamente, torcendo para que o Marido e a menina entrassem novamente no vagão, para continuar a briga num lugar onde eu pudesse assistir, mas o que sucedeu foi justamente o contrário. Ao ver a filha do lado de fora do metrô, a Esposa saiu do vagão puxando a Amiga para fora.

A discussão continuaria na plataforma da estação. E eu estava dentro do vagão. Eu iria perder o final daquilo!

Todos os meus instintos gritaram para eu levantar e sair do vagão atrás deles, para poder continuar assistindo ao quebra-pau. Aliás, eu estava disposto a segui-los discretamente até os confins da Zona Leste, se fosse preciso. Não importa em qual vagão eles brigassem, eu estaria ali, logo atrás, quieto e assistindo. Mas descer do metrô atrás deles daria muito na cara. Afinal, eles devem ter me visto entrando no vagão logo antes deles, não pegaria bem eu entrar e descer do metrô na mesma estação.

O aviso de que as portas iriam se fechar começou a tocar. Quase levantei.

Quase.

Mas, no último instante, lembrei que já estava atrasado para encontrar a Sra. Gordon. E, se eu me atrasasse ainda mais, provavelmente hoje outra pessoa estaria escrevendo em outro blog um post sobre o casal que ele viu brigando no metrô, com a mulher sem olhar na cara do baixinho careca que pedia desculpas insistentemente, alegando justamente que ele havia se atrasado por causa de uma briga no metrô (algo que tornaria o texto dele melhor ainda, mas transformaria o meu sábado num desastre completo).

Na dúvida, achei melhor (e mais seguro) terminar o dia tendo um post incompleto, mesmo. Paciência, nem sempre as coisas são como a gente quer.

Tenho pena mesmo da Criança, que está descobrindo isso da pior maneira possível.

22 comentários:

Fernando Pocow disse...

Primeirão!

JP disse...

"– Eu que não quero você! Não é você que não me quer, sou 'eu que te não quero'!"

Tem que trocar a ordem, Rob, "eu que não te quero"

"assustada para do pai para a mãe e da mãe para o pai tentando entender o que estava acontecendo."

E nesse segundo, tirar o primeiro "para".

Adoro seus textos.

Rob Gordon disse...

Sorry, JP. Escrevi o texto correndo, essas coisas escaparam da revisão.

Obrigado pelo toque!

Barbarella disse...

Brincaderia hein Rob, briga de marido e mulher ng mete a colher, muito menos o bedelho...rsrs

Isso me fez lembrar um post do Sarge:
"- Eu te amo...
- Eu te odeio..
- Qual o motivo da briga mesmo?

Olha, certeza você encontrar o mesmo casal no maior amor do mundo na estação e é claro a criança olhando sempre do pai para a mãe e da mãe para o pai.

O amor é lindo não é mesmo!!!

Quem nunca participou de um barraquinho de amor que atire a primeira pedra...rs

Marcio Sarge disse...

Apesar de muito divertido a sua narrativa eu também fiquei com pena da criança... foda mesmo!

Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher como disse a Barbarella mas ninguém falou sobre meter o blog, não é mesmo.

Em tempo: estou te odiando aqui por não ter posto seu pescoço e sua cara em risco e não ter seguido esses 4 ai, nem que fosse até o tribunal, queria saber o fim, tomara que você perca as 10 últiamas folhas do livro do Pratchett para você ver como é rsrsrs.

Até.

Rob Gordon disse...

Sarge,

Eu pensei muito em fazer isso, mas, vai por mim, você não conhece a Sra. Gordon.

Welker disse...

Se a criança em questão fosse um menino, você teria testemunhado a criação de um Eminem brasileiro, ou algo parecido.

E, principalmente nestes casos, o truque do celular funciona muito bem: Segure o celular como se estivesse falando com alguém, isso é o truque perfeito para olhar diretamente para brigas ou não ser parado em pesquisas na rua. A chance de assaltos aumenta, mas é um risco que se tem de correr, afinal, estamos vivendo em São Paulo. Uhuuuul \o/

Tyler Bazz disse...

Muito preconceituoso você. Só porque era um casal brigando aos berros no metrô você já decidiu que eles seguiriam viagem até os confins da zona leste. Concordo =D

Fábio Buchecha disse...

Maldito Rob e seus revisores oficiais de texto!

Meus posts ficam meses no ar sem correção ¬¬

By the way, use esse causo de hoje como pretexto para mostrar a Sra. Rob Gordon como você se importa com o relacionamento e blá blá blá. Mulheres adoram essa rasgação de seda =P

O Lerdo disse...

Ver uma briga é muito bom! Só de ler o seu texto a adrenalina já foi às alturas hahahhahha.
Por que nós humanos somos assim? xD
O triste é constatar que nem a filha eles poupam... ô, egoísmo!
Por que nós humanos somos assim? [2] =P

MaxReinert disse...

Pena criança - mode on!

Adoro barraco alheio - mode sempre on!!!!

thx!

gilgomex disse...

putz... o leitor "Jovem Pan" corrigiu o Rob...
sei q o rob se fingiu de simpático, mas cuidado, caro Jovem Pan, na hora que estiver dormindo... heuheuheuheuheuheu.

cara, briga de casais são muito assustadoras... eu não conseguiria ficar perto durante muito tempo. fico com medo da coisa sobrar pra mim, mesmo que eu seja apenas mais um entre uma multidão de 134 pessoas... tenho medo de sobrar pra mim.

Dragus (de CyberCafe) disse...

Esse relato me lembrou do meu sogro, que é viciado em metrô porque considera o meio de transporte um covil de situações bizarras, e isso aqui no Rio de Janeiro, onde o "bizarro" ocorre com menos freqüência e tolerância que aí em São Paulo.

Stephanie disse...

eu também finjo que leio no metrô e presto atenção em barracos e histórias estranhas, me senti até melhor pela minha bisbilhotice com esse seu post, Rob.

agora me dá um vergonha dessa gente por causa da Menina, um dia talvez (daqui há alguns anos) seja vista no metrô usando uma blusa preta de uma banda depressiva, spikes, franjão e maquiagem pesada, achando que a vida não presta, ai ai.

Thiago Apenas disse...

"Sabendo que a qualquer momento, a porta do metrô fecharia, com ou sem a Criança no caminho."
Parece roteiro de filme de suspense.

Otavio Cohen disse...

ia ser legal se a porta se fechasse com a menina no meio.

Leon disse...

Ah, l'amour...

Amelie disse...

Aaah, como assim vc não saiu do vagão?????

Trujillo disse...

Muito bom!! Vc escreve muito bem. Me prendeu.

Abcs

Luis Filipe disse...

seguir até a zona leste não digo
mas tavez eu ficaria perto até eles subirem em um trem
heh.

Gabi disse...

O Otávio me assusta.

E a Sra. Gordon também. oO

Larissa Bohnenberger disse...

Putaqueopariu... e agora eu é que fique me roendo de curiosidade...