O Jonas, na verdade, sempre esteve por aqui. Aparecia de vez em quando e ia embora. Ficava um tempo sem voltar, mas sempre acabava aparecendo de novo. E, nas últimas semanas, sua freqüência se tornou tão grande que, ele acabou se mudando de vez para cá. Na verdade, a relação que eu tenho com o Jonas já é tão costumeira para mim que, às vezes, dá a impressão que ele já estava aqui, antes mesmo de eu me mudar para esse apartamento.
E talvez ele realmente já estivesse. Porque Jonas é o vulto que mora na minha cozinha. Sim, estou dividindo o apartamento com um vulto. Um fantasma. Um “isprito”, como diz o porteiro do meu prédio. E, já que eu e ele vamos ter que conviver juntos, resolvi batizá-lo de Jonas, porque, convenhamos, “vulto” é algo muito impessoal. É frio demais. E eu não gostaria de saber que ele se refere a mim como “o humano” ou “o vivo” quando conversa com os seus amigos vultos.
Não, não. Eu não estou louco. Eu sei que morar sozinho pode fazer com que você comece a imaginar coisas ou até mesmo criar amigos imaginários. Mas não fui só eu quem viu o Jonas. Outras pessoas, nos últimos meses, já o viram ali no seu cantinho, na cozinha, perto do fogão. Mas quem sempre o vê ali é a Besta-fera, que, às vezes, começa a latir desesperadamente para a cozinha, mas sem colocar as patas lá dentro.
Mas, por mais que ele goste daquele canto, o Jonas não é um vulto de um lugar só. Em uma das primeiras noites aqui, eu estava lendo na cama e o vi claramente passar pelo corredor, indo na direção de um espelho. Outro dia, eu estava aqui no computador e a Besta-fera saiu correndo apavorada do banheiro. Provavelmente, o Jonas estava lá. Eu nem me atinei. Porra, o cara estava no banheiro, o cachorro não tinha nada que ir lá xeretar, puta grosseria.As pessoas me perguntam se eu não tenho medo. Bom, tenho, um pouco. Na verdade, não é medo. É receio. Como o Jonas mora aqui, mas não coloca um tostão dentro do apartamento, fico preocupado com a hipótese de ele começar a se acostumar mal. Aliás, isso já está acontecendo. Jonas não é um fantasma assustador, é um fantasma folgado. Ele passa o dia inteiro aqui, mas não arruma nada, não contribui. Pelo contrário, só atrapalha.
Um dia, eu cheguei e a Besta-fera tinha derrotado, numa feroz batalha, o seu pior inimigo: o sofá. A sala era espuma e pedaços de tecido para todo o lado. Fui dar um esporro nele, mas claro que fui ignorado. E o Jonas ali, no computador, no chat do Uol. Na mesma hora, fui tirar satisfação:
– Porra, você viu ele destruindo o sofá! Porque você não fez nada?
– Ah, mal aí... Eu estava vagando pelo apartamento com minhas correntes.
– Olha o estado que o sofá ficou!
– Relaxa, eu deito no outro. Aliás, tem Palmeiras hoje na TV, hein?
– Jonas, você fica o dia inteiro em casa! Por que, nessas horas...
– Mentira sua! Eu saí depois do almoço, fui assustar a velhinha do segundo andar.
– Ah, ok, Jonas. Deixa para lá. Esquece.
– Vamos pedir pizza, hoje? Eu quero calabresa.
Folgado demais. Deve ser por isso que ele não assombra o apartamento, aqui ele vive na boa. Tem dias que vou trabalhar e deixo uma caixa de bombom na mesa. Quando eu volto, não tem mais nenhum Sonho de Valsa, só sobraram aqueles bombons recheados de maioneses de atum, que ninguém come. Isso quando eu não chego em casa e descubro que o Jonas acabou com a Coca, comeu a lazanha de calabresa congelada ou misturou todos meus CDs na estante, só de sacanagem. Se poltergeist quer dizer “espírito brincalhão”, Jonas deve significar “espírito babaca”.
E, assim como acontece com a Besta-fera, eu não consigo ter voz ativa com o Jonas. Ele sempre fica me olhando com aquela cara de “não fui eu, eu estava quieto aqui”. Então, eu tenho duas crianças em casa. Uma que se diverte destruindo tudo o que tenho, e outra que se diverte mexendo nas coisas que a primeira não alcança. E, ai de mim, se resolvo comer algo que o Jonas goste. Nessas horas ele se lembra de que é um fantasma e resolve usar isso a seu favor. Aí, eu me cago de medo. E espero que ele não leia isso aqui, porque aí sim é que ele vai deitar e rolar aqui dentro.
Por isso que agora eu tenho que ir ao mercado, quase todas às noites, pensando no Jonas. Pizza? Bombom? Coca? Tenho que comprar sempre o dobro, por causa da porra do vulto. Virei refém dessa situação. Então, acredite: o problema não é você morar com uma criatura do outro mundo. O problema é você morar com uma criatura do outro mundo que acha que é a dona do mundo.
E, enquanto escrevo isso, o Jonas deve estar lá na cozinha, acabando com a Coca. Melhor eu sair e ir comprar mais. Mas podia ser pior: deixo vocês com as 5 criaturas de terror que eu gostaria que nunca se mudassem para cá.
1. Morto-Vivo – Você pede para ele buscar o almoço, no sábado e ele volta só na quarta-feira à tarde, trazendo um cérebro meio mastigado.
2. Vampiro – Mal cabe uma cama no apartamento, como eu vou conseguir encaixar um caixão no quarto? E, além disso, precisaria cortar alho da dieta.
3. A Criatura de Frankenstein – Além do problema do cheiro, eu teria que tirar todos os espelhos da casa. É um dos maiores casos de baixa-estima da literatura.
4. Lobisomem – Não, pelo amor de Deus. Já chega a Besta-fera.
5. Bruxa – Eu já cozinho mal, mas isso não quer dizer que eu esteja disposto a tomar sopa de asa de morcego temperada com unha de codorna virgem. Especialmente porque, em Pinheiros, nem as codornas devem ser virgens.




