15 de março de 2007

Eu, Robô


– Nossa, que montagem legal! Quem fez? Você? Está perfeita!

– Não. Ninguém fez. Ao menos ninguém que eu conheça.

– Como assim?

– Deixa, vamos mudar de assunto.

Eu tenho essa conversa por msn pelo menos uma vez por semana, e ela quase sempre é exatamente como eu reproduzi aqui, com pequenas variações. Enfim, hora de expor a verdade: essa foto, nada mais é que a representação iconográfica do conceito de "ô, fase" que se aplica a minha vida. Essa foto significa que o universo definitivamente conspira contra mim. E, insisto: nenhum amigo meu - e eu conheço bastante gente que trabalha com imagens - fez essa montagem, a história é um pouco mais complicada. Aliás, bizarra é um termo melhor.

Alguns meses atrás, eu estava procurando no Google uma imagem de um disco de DVD, para colocar numa matéria. Digitei "dvd" e mandei ele buscar imagens. Logo na primeira página dos resultados, dei de cara com isso aí que vocês viram acima: uma versão robotizada da minha pessoa.

Se você não me conhece pessoalmente, você vai achar que estou exagerando. Acredite, eu não estou. O nariz arrebitado, o formato dos olhos, a boca e aqueles malditos riscos emulando meu cavanhaque estão aí. E, numa piada de mau gosto, deixaram minha cabeça aberta, para dizer que ou eu não tem porra nenhuma nela, ou para sacanear meus estágios avançados de calvície (merda de herança genética mode: on). Tudo bem, eu não tenho olhos azuis como o robô, mas aposto que isso é por causa de algum sensor ou algo do tipo. Enfim, se você me conhece, sabe que não é exagero. Sou eu ali na foto.

E desde o momento em que eu vi essa foto - e, sim eu precisei salvar a foto, porque ninguém acreditaria se eu contasse -, me sinto como se minha vida inteira fosse um episódio de Além da Imaginação. Até onde me lembro, não sou nenhuma celebridade para ficar achando fotos minhas na internet. Ainda mais fotos robóticas. Será que era um site de outra dimensão, onde Rob(ôs) Gordon são a espécie dominante? Será que alguma empresa de robótica fez um avançado estudo de marketing e resolveu produzir seu novo modelo baseado na minha imagem - e os cheques dos royalties chegam até o final da semana? Será que alguma seita me cultua como o messias de um futuro cibernético, e esperam, em silêncio, o momento em que eu anunciarei minha chegada ao mundo?

Duvido. Afinal, sou eu e as coisas comigo não funcionam assim. No mínimo, foi algum gordinho solitário da Dinamarca que resolveu fazer um site pornô e colocou a minha foto na seção "mecatronics bizarre sex". O primeiro site pornô com uma sessão de robôfilia do mundo, e a minha foto, com minha suposta intimidade cibernética exposta ali. Ok, não é bem a MINHA foto, mas robô ou não, tenho que zelar pela minha imagem.

A única solução era entrar no site. E, já esperando pelo pior, cliquei no link. Trata-se de um fórum de discussão russo e, como eu não falo russo, não tenho a menor idéia do que as pessoas discutem ali. Agora, o mais estranho: a minha foto robótica não foi postada por algum usuário, mas está na abertura do site (Não, não estou brincando. Clique no link e veja). O que me leva a concluir que o tema do site sou eu. Ou melhor, meu eu-robô.

Então, é isso. Rapazes e moças russos espantam o frio das madrugadas do leste europeu discutindo sobre a minha suposta versão cibernética - que eu não conheço – na internet. Agora, o que será que as pessoas discutem sobre o Rob(ô) Gordon, que, pelo jeito, deve fazer um baita sucesso na Rússia?

A minha preocupação não é mais descobrir onde arrumaram aquela foto, e, sim, saber do que se trata o fórum. O que será que as pessoas discutem ali? Se a coisa ficar no nível de tópicos como "Onde vocês compraram o seu?", "O de vocês já deu pau?", "O que vocês mais gostam no Rob(ô) Gordon?", ok.

O problema é que não deve ser nada disso.

No mínimo, os tópicos são postados por nerds que ficam ensinando como crackear a programação do meu Eu-Robô, para obrigá-lo a fazer tarefas inglórias, como fazer drinks e strip-tease numa boate underground de Moscou, prestar serviços sexuais aos proprietários lascivos e me colocarem de faxineiro num boteco qualquer em Kiev. Meu alter-ego tenta sobreviver numa terra que deve ser um misto de Inteligência Artificial e Blade Runner, não sabendo o que esperar a cada minuto, mas, com a certeza de que vai se fuder de um jeito ou de outro. E, pior, deve sobrar para mim, pois aposto minhas fichas que alguém deve ter postado, naquele fórum, um tópico "já ouvi falar que ele é baseado num carinha lá do Brasil". Ô fase.

Enfim, em nome da dignidade da minha versão robótica, peço humildemente a todos que lerem isso aqui: se você fala russo, por favor, não venha me dizer o que se discute ali, tenho um pressentimento de que é melhor não saber. E, em hipótese alguma, entre lá no fórum e diga que me conhece. Aliás, se um dia você visitar a Rússia e, encontrar em algum beco sujo um andróide parecido comigo, mas largado na sarjeta, com os olhos cansados e marcados pelas terríveis humilhações e degradações físicas e morais que vêm sofrendo ao longo dos anos, finja que não viu nada e continue seu caminho.

E quanto a você, Rob(ô) Gordon: simpatizo com sua situação e acho injusto demais isso que fazem com você, mas, por favor, não me procure. A não ser que você traga o cheque dos royalties pela uso da minha imagem. Aí, dependendo do valor, podemos conversar.

Deixo vocês, agora, com os 5 Melhores Robôs da História (não, o Rob(ô) Gordon não conta)
1. Marvin, de O Guia do Mochileiro das Galáxias - Lidera a lista fácil, fácil. É depressivo, paranóico e e absurdamente pessimista e é, tranquilamente, a melhor coisa dos livros de Douglas Adams e, especialmente, do filme (com a voz de Alan Rickman).
2. Bender, de Futurama - Ok, eu vou ser apedrejado aqui, mas foda-se. Eu gosto mais de Futurama que de Simpsons. E o robô cleptomaníaco e alcóolatra é um dos grandes motivos disso, já que ele é, disparado, o melhor personagem da série.
3. Roy Batty, de Blade Runner - Imagine um robô com a força e a agilidade do Batman e que mostra, em cada frase que fala, ter a profundidade do Chico Buarque?
4. R2-D2, de Star Wars - Ninguém entende o que ele fala, mas é sempre ele que tem que salvar a pátria - e, por tabela, o babaca do C-3PO. Mas, por favor, esqueça a cafona versão voadora da nova trilogia.
5. Maria, de Metrópolis - Se não fosse pela Maria do filme de Fritz Lang, talvez nenhum dos robôs acima existiria. Ou seja, tem que estar na lista de qualquer jeito, até mesmo por educação.

8 comentários:

Mariliza Silva disse...

Tô deverasmente preocupada!
Cara, procure alguem que saiba ler e falar russo. Procure estes cursos de idiomas e pede para eles utilizarem este site como dever de casa de tradução! Afinal, você já foi assunto de sala de aula não é! Mais uma vez vai ser moleza! Oh doido!!!!

beijão e some não (anda muito sumidinho...)
Mariliza

Chatão disse...

O Babelfish resolve:

SECOND MOSCOW INTERNATIONAL Dvd- forum - these are the professional forum of representatives DVD- industry in Russia and countries SNG(.RSHCH), rendezvous point for the business contact of producers, who represent entire spectrum DVD - programs, representatives of wholesale and retail commercial organizations and, certainly, basic users - owners of domestic cinemas, worshippers and amateurs of cinema, music and other programs on DVD.

Rob Gordon disse...

Ilmo Sr. Chatão:

Isso é o que eles dizem. Eu não acredito em nada, até que me provem algo.

Afinal, vai saber se o Babelfish não tem alguma espécie de parceria com o site, com o objetivo de destruir moralmente o Rob(ô) Gordon?

chatão disse...

Realmente, a máfia russa tem seus tentáculos por todos os lugares...

Rob Gordon disse...

Lorenzo Lamas e Michael Dudikoff que o digam

Bruno disse...

E se você for um desses robôs que veio parar aqui? Tipo o Homem Aranha numa das 1986236 vezes em que ele descobriu que era um clone de si mesmo?

f.fujita disse...

Chupa, robô!

Isadora A. disse...

meus parcos conhecimentos intergaláticos permitem dizer que tá mais pra R2-D2 que pra sex-symbol russo, Rob. O 'formato' é mais apropriado, e outra: como representante FFLCHiana - ou fefelenta - original, devo dizer que a barba está deveras cultivada pra exercer qualquer atração nas russas, nos russos, ou nas estudantes comunistas, whatever.

'hay que endurecer-se, pero sin perder la ternura jamás!'. levou a sério, huh ?