6 de março de 2007

A Guerra da Vila Mariana - 2º Tempo

Caso não tenha lido os posts anteriores, aqui estão a introdução e o primeiro tempo do jogo.


46’ – Começa o segundo tempo. Rob Gordon continua deitado na arquibancada, suando e se comunicando com as pessoas por meio de gemidos.

50’ – Após duas cervejas e três cigarros, Gordon volta para o segundo tempo, mancando e sentindo pontadas no baço toda vez que respira. É um herói - pelo menos, aos seus olhos. Entra na quadra e tira a camisa, o que faz com que o time adversário o respeite menos ainda.

52’ – Lançamento em profundidade para Gordon. Ele corre na direção da bola, com chances de marcar, mas subitamente, pára no meio do caminho e se curva em campo. “Falta perna. Falta ar”, ele diz.

57’ – GOOOOOL do time dos adultos! Gordon rouba a bola no meio de campo e pára na frente do marcador. Faz-que-vai, faz-que-não-vai, faz-que-vai, faz-que-não-vai e, percebendo que não ia ter forças para ir mesmo, passa a bola para um companheiro de equipe que cumprimenta para dentro do gol. 2 x 3.

58’ – O time das crianças prepara-se para dar a saída. Gordon bate palmas e, usando suas últimas forças, grita para motivar o time. “Vamos empatar essa merda!” De novo, os pais olham feio para ele.

62’ – Após avisar os companheiros de time que iria cavar uma falta, Gordon recebe a bola na lateral e fica fazendo graça. Dribla um, dribla outro. Quando se vê cercado por 6 crianças, joga as pernas para o ar, grita como se estivesse vendo sua família ser assassinada e cai no chão, rolando de dor (time argentino mode: on). As crianças se afastam, preocupadas. Gordon sai mancando e fazendo força para não rir. O gordinho olha com uma cara de quem sabe que é tudo fingimento, mas o olhar de Gordon desencoraja qualquer tipo de comentário de sua parte.

63’ - GOOOOOL do time dos adultos! Na cobrança de falta, a bola passa rasteira no meio da barreira e engana o goleiro, um menininho de cinco anos que estava mais preocupado em se balançar na rede do que em defender a própria meta. 3 x 3.

68’ – Substituição no time dos adultos. Gordon, alegando que suas coxas não respondem mais às ordens do cérebro, entra no gol. É o primeiro goleiro da história a defender com apenas uma das mãos – com a outra, segura o cigarro.

Já próximo do final do jogo, Gordon, enlouquecido
de sede, certifica-se de que não há cerveja dentro da bola

71’ – Contra ataque do time das crianças. A bola sobra para o gordinho, que avança na direção da área, seguido por outros quatro moleques. Gordon sai do gol e atira-se corajosamente nos pés do menino, agarrando a bola. Resultado: impede o gol adversário, mas tira o ombro do lugar, com um estalo ouvido por qualquer pessoa num raio de dois metros ao seu redor. Antes que consiga levantar-se e arrumar o ombro, ainda é chutado por três garotos, que tentam fazê-lo largar a bola.

78’ – GOOOOOL do time das crianças! – A bola é lançada para um dos adultos, mas este nem tenta correr atrás dela. As crianças recuperam a bola e atacam em massa, com todo o time – alguns, inclusive, tentando tomar a bola do próprio companheiro. Oito deles invadem a área e algum deles (sabe-se lá qual) chuta. Rob Gordon flexiona os joelhos, toma impulso e pula. A bola viaja em direção ao gol. O arqueiro flutua no ar e prepara-se para a defesa mais espetacular de sua recém iniciada carreira de goleiro. Aproxima-se da bola e estica o braço. Mas o ombro machucado range como uma porta velha e o braço trava na metade do caminho. Cai de cara no chão e ouve apenas as crianças correndo ao seu redor e gritando “gooool!” feito alucinadas. 3 x 4.

81’ – O time dos adultos dá a saída e tenta um ataque fulminante. Porém, a loirinha atravessa a quadra correndo e girando, justamente entre o atacante e o gol. O “atleta” (aspas bem grandes) abdica da chance do empate para poupar a vida da infante.

83’– GOOOOOL do time das crianças! Numa rápida jogada de ataque, as crianças envolvem o goleiro numa série de passes curtos e um deles – a essa altura, nem faz diferença mais quem – dá uma bomba no gol. Rog Gordon, deitado num canto da quadra e gemendo ao lado de outro adulto, ouve apenas o goleiro do seu time reclamando com os adversários: “Vocês disseram que não valia bomba” Pelo jeito, agora vale. 3 x 5

88’ – Rob Gordon manda um foda-se e sai da quadra. Deita na arquibancada e fica fazendo movimentos lentos, verificando quais ossos do seu corpo estão inteiros. Não são muitos.

90' – Fim de jogo. Gordon fica deitado na arquibancanda, tomando cerveja e usando toda a sua capacidade física para respirar. Olha para a quadra. As crianças já escolheram dois outros times e preparam-se para começar outra partida. “Meu Deus, eles não são humanos”, pensa, antes de fechar os olhos e desejar uma morte rápida e indolor. De quebra, o gordinho impiedoso ainda vem até a grade, perto da arquibancada e grita: “Tá morrendo, né? Se fudeu, babaca!” e volta correndo para jogar. Gordon apenas geme, antes de desmaiar.

6 comentários:

Lanark disse...

Não gosto de futebol, mas gostei bastante desses posts. O modo como você descreveu essas crianças lembra um pouco aqueles filmes de comédia...


Ah, eu odeio crianças!

_gDaRu_ disse...

Comédia não Lanark... terror... essas crianças tem o demonio no corpo... se bem que faz sentido a comédia heheheh...

Odeio futebol, ainda mais quando tem alguma especie de gordo-chato em campo hehehe.

Alexandre Rigotti disse...

se fudeu babaca

Otavio disse...

aposto que esse veinho cara de fronha dos posts bate mais bola do que você! Será que ele pede um cigarrinho no meio da partida pra expectorar? hehe

Fabinho disse...

se fudeu babaca

Nadia disse...

Mano... marac o tio careca foi foda.
Acho que a unica coisa pior que essa que me aconteceu foi trabalhar no dia das crianças da prefeitura de uma cidadezinha xexelenta qualeur e ouvir, do alto dos meus 1,65 e nos meus quase 20 anos, um guri de 12 anos e 1,73 de altura dizer: "Tia, posso subir nesse negócio aqui?"
Não tive forças pra ver qual era o negócio ao qual ele se referia.