28 de setembro de 2010

O Casal

Eu estava na Avenida Paulista, no domingo.

Chovia e eu esperava o ônibus que iria me trazer de volta a Pinheiros. Como uma das coisas mais difíceis de fazer em São Paulo é ir da Paulista para Pinheiros de ônibus (existem apenas duas linhas que fazem isso, mas elas circulam com a freqüência do cometa Halley) e chovia o suficiente para me impedir de comprar uma revista para ficar folheando no ponto, comecei a observar as pessoas ao meu redor.

A poucos metros de mim, um casal namorava. Se você conhece a Avenida Paulista, eu estava naquele ponto em frente ao Bob’s e o casal se protegia da chuva sob a cobertura de um dos prédios.

Não demorou muito para eu perceber que eles estavam no começo do namoro. Sorrisos escapavam do nada, beijos ardentes eram trocados – aqueles beijos que já começam no meio, de tão ardentes e apaixonados, e parecem não ter final com selinhos e mais selinhos – e alternados com abraços silenciosos.

Isso sem falar, claro, nas brincadeiras, que, mais que os beijos, são os que constroem um casal: bobagens, piadas internas, tapas carinhosos entre risadas.

E mais abraços. E mais beijos. E mais risadas que escapam.

Fazia tempo que eu não via um casal tão feliz na rua. A sintonia entre eles parecia perfeita. Aliás, era mais que sintonia. Usando um termo que se usa muito em casamentos, na igreja, não era sintonia, era comunhão. Estavam em comunhão total. Mesmo de longe, sob a chuva, percebi que não apenas se completavam totalmente – o que os dava o direito de namorarem ali, construindo um mundo próprio, alheio a tudo – como compreendiam isso. Viviam isso.

Não eram um casal, eram quase uma pessoa só. E uma pessoa feliz.

Mas de repente, devem ter se lembrado que existia um mundo lá fora. Um mundo que não era deles. E, com esse conhecimento, veio o medo de se perderem. Isso porque se abraçaram com força, cada um escondendo o rosto no cabelo do outro, em busca de proteção e abrigo. E se abraçaram para nunca mais se soltar, e ficaram em silêncio, apenas sentindo a presença do outro não somente ali, na Avenida Paulista chuvosa de domingo à tarde, mas sim nas suas próprias vidas.

E mesmo com o medo, estavam felizes. Talvez o medo de perder alguém, afinal de contas, seja mais gostoso que não sentir medo algum por não ter ninguém.

E, assim, baseados nessa felicidade, resolveram enfrentar o mundo. Com um beijo de boa sorte, entrelaçaram os dedos e saíram andando em direção a qualquer lugar: um cinema, um café, um sonho. Tanto faz.

O que importa é que ali, de mãos dadas, sorridentes, estavam seguros do que sentiam e, acima de tudo, sentiam-se amados.Eu fiquei observando enquanto os dois, de costas para mim, se afastavam. Um casal absurdamente feliz.

Realmente faz alguma diferença para você – ou para esta história – o fato de que eram dois homens?


Coração Valente

Championshp Vinyl: Se estes são seus comentários, para onde eles vão?

Post 1: O Intense Debate fica dando pau toda hora!

Post 2: Vamos embora! Este negócio é impossível de ser desinstalado.

Championship Vinyl: Filhos da Blogosfera.... Eu sou o Championship Vinyl!

Post 1: Championship Vinyl tem mil comentários a cada texto!

Championship Vinyl: Sim, eu ouvi dizer. Ele também recebe prêmios a cada postagem. E se estivesse aqui, ele iria destruir o Intense Debate com bolas de fogo dos seus olhos, e relâmpagos da sua bunda.

Exército de Posts: [risadas]

Championship Vinyl: Eu sou Championship Vinyl! E eu vejo um enorme exército de posts reunidos, aqui, para combater a tirania o Intense Debate. Vocês vieram como posts livres, e posts livres vocês são! Vocês vão lutar?

Post 2: Lutar? Contra o Intense Debate? Não! Vamos fugir! E manter os comentários que já temos.

Championship Vinyl: Sim, lutem e vocês podem perder os comentários que receberam. Corram e mantenham os seus comentários... Ao menos até o Intense Debate dar pau de novo. Mas, morrendo nos arquivos do blog, daqui a muitos anos, vocês vão desejar poder trocar todos os comentários e elogios, deste dia em diante, por uma chance, apenas UMA chance, de voltar aqui e dizer ao Intense Debate que ele pode roubar nossos comentários, mas ele jamais tomará... NOSSA LIBERDADE!

Exército de Posts: McGordon! McGordon! McGordon!


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Championship Vinyl [off]: No ano 2010 de Nosso Senhor, um exército de posts, faminto e em menor número, atacou as tropas do Intense Debate nos campos do html. Eles lutaram como guerreiros poetas; eles lutaram como textos; e conquistaram sua liberdade.

"Intense Debate? Não fale comigo sobre o Intense Debate."

26 de setembro de 2010

A Rosa Púrpura da Paulista

Domingo à tarde. Chove em São Paulo.

De dentro da bilheteria, a funcionária do cinema olha o movimento à frente da cabine. A poucos metros dali, a equipe de uma rede paulistana de televisão faz uma matéria tendo a porta do cinema como cenário.

Atenta, a menina, pouco mais de vinte anos de idade, observa a gravação da reportagem. Está totalmente desocupada: não há uma pessoa na fila querendo comprar ingresso para os filmes exibidos. Poucos minutos antes, um casal de meia idade comprou bilhetes para uma sessão e entrou na sala. Eram os únicos da fila. Agora, não há mais ninguém. Assim, ela tem todo o tempo do mundo para vigiar a movimentação da câmera e conferir se o aparelho está apontado para ela.

Com sorte, ela aparecerá na televisão.

Sua família poderá vê-la, por alguns poucos minutos, ali na cabine, no segundo plano da tela. Mesmo em silêncio como uma parte do cenário, Isso será suficiente para ser assunto, na sua casa, por alguns dias. E, mesmo daqui a anos, ela se lembrará disso, do dia em que apareceu na televisão.

Mas ela também se lembrará da noite de hoje. Ao final da última sessão deste domingo – que deve acontecer somente algumas horas depois de eu finalizar este texto – a rotina dela e dos outros funcionários será basicamente a mesma de sempre: apagarão as luzes, recolherão o lixo e fecharão as portas de aço, que separam o cinema da galeria na qual ele está localizado. Demorará até que as luzes sejam acesas novamente. E as portas não se abrirão mais. Ao menos, não tão cedo.

Afinal, o assunto da reportagem que está sendo realizada ali, à frente dos olhos da menina, é justamente o fato de que, após mais de três décadas funcionando no centro da Avenida Paulista, o Gemini, um dos cinemas mais tradicionais da capital paulista, encerrará suas operações hoje.

Daqui a algumas horas, o Gemini deixará de existir.

Foram milhões de beijos enamorados que aconteceram ali dentro, na tela ou na platéia, enquanto o resto da cidade andava pela calçada, a poucos metros dali; homens de terno, mulheres de saia e salto alto, com o passo apertado. Sempre apressados demais para rir ou chorar, ocupados demais para sonhar. Sempre preocupados demais para beijar.

Foram décadas. A cidade foi se modificando. As roupas das pessoas que passavam pelas calçadas mudaram; assim como as maquiagens e os penteados também. Mas a pressa de todos não mudou. E o Gemini permaneceu ali, imóvel, inalterado, lutando contra o tempo.

A cidade, por sua vez, decidiu correr com o tempo e não lutar contra ele. Os sonhos e beijos fugiram da Paulista para os shoppings, em salas de cinema impessoais, que oferecem refil de pipoca, som em dez mil canais e personagens que, hoje em dia, pulam da tela na sua direção. E o Gemini, que vendia sonhos que permaneciam ali mesmo na tela, não conseguiu concorrer com isso.

Aos poucos, sua platéia foi minguando. As cadeiras foram se tornando vagas, e a luxuosa área acarpetada – que servia como sala de espera para o cinema propriamente dito – foi esvaziando. Logo, não sobrou mais ninguém. Somente os funcionários, vendendo ingressos e pipoca para ninguém, projetando filmes que não eram assistidos.

E os sonhos. Ali na tela, esquecidos, abandonados e sendo sonhados por ninguém.

Hoje, tudo acaba. Hoje, a luz se apaga, mas, desta vez, os sonhos sumirão por completo, ao invés de aparecem enormes e coloridos na tela prateada. Não haverá mais ingressos, pipoca, nem posters. Não existirão mais namorados de todas as idades assistindo a filmes de mãos dadas, casais fugindo da vida doméstica, solitários buscando refúgios em romances fictícios e garotos vivendo aventuras em terras estranhas. Não haverá mais nada.

Logo, ele será esquecido, apenas mais um nome na lista dos cinemas de rua paulistanos que fecharam as portas. Seus sonhos, que um dia brilharam na tela enorme, logo se tornarão parte do passado; os beijos apaixonados, os dedos entrelaçados, as gargalhadas e lágrimas que escaparam no escuro se perderão no tempo.

Amanhã, as pessoas passarão apressadas pela calçada, mal reparando na ausência do cinema que esteve ali por décadas. Amanhã, o Gemini se tornará somente uma nota de rodapé na história da cidade.

O que é pouco para um local que vendeu sonhos e mais sonhos por tanto tempo.


Este texto é dedicado à Menina da Bilheteria,
a última (e solitária) personagem do Gemini.

24 de setembro de 2010

Fórum - Experiências Sexuais Verídicas de Nossos Leitores

Atenção! Este post contém material adulto e sua leitura:

1) não é aconselhável se você tiver menos de 18 anos;
2) é terminantemente proibida se você for minha mãe.



Recebi este relato hoje pela manhã.

Veio num e-mail anônimo, com um pedido para ser publicado no blog, e sem qualquer tipo de edição (com um parênteses explicando que "não é nada pessoal, apenas não gosto do seu texto, acho seu estilo bem meia boca").

Ignorei este último comentário e resolvi publicá-lo na íntegra, para vossa apreciação.


"Sou um cachorro adulto, branco e de uma raça pequena. Moro na Zona Oeste da capital paulistana, sozinho com meu dono, que trabalha como jornalista. Passo a maior parte do dia sozinho, mas prefiro desta forma, pois consigo colocar minha leitura em dia. Sempre fui apaixonado pelos clássicos e estou sempre com um deles por perto (atualmente, estou relendo Moby Dick, de Melville).

Como qualquer cão adulto e normal, tenho desejos. Mas diferente da maioria dos outros cachorros, eu me comporto bastante (ao menos neste sentido). Melhor dizendo, eu me preservo. Afinal, não concordo com aqueles que acreditam que, por eu ser um cachorro, devo obedecer cegamente aos meus instintos. Resumindo: sempre fui extremamente discreto com meus relacionamentos. Mas recentemente passei por uma experiência bastante intensa, que gostaria de compartilhar com vocês - e vou manter a minha identidade, bem como a de todos os envolvidos, em segredo.


Algum tempo atrás, meu dono apareceu com um jogo de cama novo. Provavelmente, não foi ele quem comprou, ele jamais saberia fazer isso – certa vez ele cismou de fazer suco de laranja, foi ao mercado e voltou com três peras. Mas não importa quem comprou, e sim o jogo de cama em si: lençóis macios, brancos. Só de bater o olho, percebi que eram extremamente confortáveis.


E a fronha.


A primeira vez que a olhei, não dei muita atenção. Era semelhante ao lençol, possuindo absolutamente nada de especial. Mas, assim que a vi recheada com o antigo travesseiro, tudo mudou. Encorpada num canto da cama, a fronha, alva e lisa, praticamente brilhava, desafiando todos os meus instintos. Uma descarga de luxúria percorreu minha pele, deixando meus pelos arrepiados. Meu corpo inteiro desejou aquela fronha de forma animalesca.


Foi naquele momento que eu jurei que ela seria minha um dia. Mas era difícil me aproximar dela, visto que meu dono, quando sai, deixa fechada a porta do quarto. Assim, nossos primeiros contatos foram bastante escassos.


Às vezes ele estava no quarto e eu colocava a cabeça na porta. E nos olhávamos (eu e a fronha, não eu e meu dono, por favor) com promessas de amor selvagem nos olhos. Ela, na cama, me desafiando a subir ali e possuí-la. Eu, na porta, a devorando silenciosamente e à distância. E, entre nós, meu dono, procurando um Homem-Aranha no armário, tornando nossa paixão em algo impossível.


E, assim, nos amamos violentamente em silêncio e à distância. Até o último sábado, quando, logo pela manhã, meu dono saiu do apartamento, para ir à lavanderia do prédio.


E deixou aberta a porta do quarto.


Não perdi tempo e cruzei a sala em direção ao aposento em que ele dorme. Cruzei a porta e a fronha, carnuda de travesseiro e prostrada sobre a cama desarrumada, me olhava, pedindo por mim. Palavras não eram necessárias. A atmosfera era de puro sexo. Com um pulo, subi na cama e parti em direção dela, beijando-a violentamente. Minha língua dançou pelo tecido, e pude sentir o corpo da fronha se arrepiar conforme a mordia de leve. Meus dentes roçavam sua pele, enquanto ela gemia baixinho de prazer.


Mas eu não queria ali. Eu sou macho. Queria devorá-la no meu território: na sala. Assim, abocanhei-a de leve, sentindo sua maciez e cruzei o apartamento em direção à sala, carregando-a entre meus lábios. Eu suava de calor, de desejo, de tesão. Ela me abraçou com força, usando para isso uma de suas pontas, que estava meio solta. Eu gemi o nome dela e rosnei de luxúria.


Na sala, depositei-a com cuidado no chão, perto do armário da televisão, e deitei meu corpo por cima dela. Eu não conseguia enxergar mais nada, estava tomado pelo desejo cego de possuir aquela fronha de qualquer maneira. Nossos corpos exalavam prazer. Finalmente, depois de tanto tempo esperando, ela seria minha. E, assim, levantei uma de minhas pernas e penetrei-a fundo, fazendo-a gritar baixinho na manhã de sábado.


Tive que controlar a velocidade do meu corpo, tal minha fome. Enterrei-me dentro dela, com força, segurando-a com minhas patas dianteiras. Ela, por sua vez, dançava sob mim, gemendo meu nome, implorando para que eu a devorasse, a mordesse, a lambesse inteira.


Nosso ritmo se acelerava cada vez mais, a febre de nossos corpos lânguidos exigindo ser curada, num orgasmo furioso e doce, colorido, selvagem, animalesco. O suor dela se misturava com o meu, e ambos se mesclavam com a minha saliva, enquanto ela gritava, já despreocupada com os vizinhos, se tornando, no chão da sala, uma mulher completa, minha mulher, minha deusa do sex...


– Seu filho da puta! O que você está fazendo?


Paramos assustados. O imbecil havia esquecido três camisetas no sofá e decidira voltar para levá-las à lavanderia, nos surpreendendo na sala.


– Você é desequilibrado? Eu durmo nessa porra!, gritou recolhendo minha amante com uma mão e levando-a de volta para o quarto. Fui atrás, mas ainda estava tão excitado que não conseguia nem andar direito. Mas vi quando ele tirou a fronha do travesseiro e, ignorando minha presença, jogou-a de qualquer jeito no mesmo saco que as camisetas, voltando para a lavanderia.


– Agora eu vou ter que lavar essa merda também. Você é nojento! Cachorro retardado!


E, assim, deixou o apartamento com a sacola, me deixando (literalmente) na mão.


Assim, já faz dias que espero por uma chance de entrar no quarto e terminar o que começamos. Mas o agora o empata-foda não vai nem até o banheiro sem fechar a porta do quarto. Filho da puta. Só de pensar na fronha, meu corpo todo treme de prazer. Eu vou arranjar um modo de entrar ali, nem que eu tenha que colocar aquela porta abaixo.


Um dia, minha fronha... Um dia. Eu prometo.


Ai, ai... Bem, vamos voltar ao Melville.
Ô fase."



22 de setembro de 2010

Arraste-me para o Inferno

Desde que eu vim morar sozinho, anos atrás, meu relacionamento com o mundo sobrenatural se estreitou bastante. Os leitores mais antigos do Champ certamente se lembram do Jonas, o fantasma folgado que divide apartamento comigo, traçando os restos de pizza de madrugada e deixando a garrafa de Coca aberta. Muitos, inclusive, reclamam das longas ausências dele por aqui.

Bem, eu juro que escrevo sempre que ele aparece, eu falo dele no blog. Mas faz tempo que ele está sumido. E, na verdade, eu até desconfio qual seja o motivo. Uma noite, estávamos vendo TV em casa e começou a passar uma reportagem sobre o Chico Xavier. O Jonas se empolgou todo (e começou a gritar “eu conheço esse cara, ele é demais!”), mas eu, que estava saindo da cozinha com pipocas, olhei para a TV e perguntei casualmente:

–É o Roy Orbinson, né?

Ele ficou puto e começou a discutir comigo, falando que não estou nem aí para as coisas que ele gosta, que eu sou egoísta e que eu deveria ler mais. Como eu não levo o Jonas muito a sério, decidi responder cantando Pretty Woman e dançando com a bacia de pipocas na mão. E, como qualquer pessoa, ou melhor, como qualquer fantasma, ele começou a ficar nervoso.

E o problema de você morar com uma criatura dessas é que quando o sujeito perde a cabeça, sua casa vira um cenário do remake de Poltergeist. As lâmpadas começaram a explodir, os livros decolaram e ficaram flutuando pela sala, as cadeiras começaram a cair no chão.

Eu tentei argumentar pedindo a ele que olhasse para a TV, para ver que o Chico Xavier e o Roy Orbinson são iguaizinhos (tomando cuidado de não dizer, em momento algum, que se colocassem uma peruca no Chico Xavier, ele também ficaria igual ao Joey Ramone), mas não adiantou. Ele nem me ouvia. Uma hora, ficou puto de verdade e foi embora atravessando as paredes, dizendo que ia passar uma temporada no apartamento da velhinha do terceiro andar – pelo que eu entendi, a mulher comprou um DVD pirata de Nosso Lar e ele ainda não tinha visto o filme.

De lá para cá, não tive mais notícias. Mas podem ficar tranqüilos que assim que acabar o dinheiro, Jonas, o Fantasma Pródigo, volta para casa.

Mas não é por isso que meu relacionamento com o mundo sobrenatural diminuiu. Afinal, nem de só de um fantasma preguiçoso vive um apartamento mal assombrado.

De umas semanas para cá, comecei a reparar em alguns barulhos estranhos, sempre de madrugada. Estava dormindo e acordava ouvindo gritos bizarros, que não pareciam ser humanos, e lembravam mais um animal sendo sacrificado. Mas, como eles pareciam estar bem longe – ou, ao menos, fora do meu apartamento, virava para o outro lado e dormia.

Isso aconteceu três ou quatro vezes. E não estava ficando louco, já que o Besta-Fera veio se queixar comigo, em uma manhã, de que não conseguia dormir com os barulhos.

Bem, este domingo, eu descobri do que se tratava.

Estava jogando PlayStation 3 na sala e comecei a ouvir os gritos. Era a primeira vez que eu os ouvia durante o dia, e estavam muito mais altos que de costume. Besta-Fera se assustou quando eu levantei e comecei a andar pela casa, procurando saber de qual direção aqueles ruídos tenebrosos vinham. Sim, tenebrosos. Não eram gritos nem lamentos, eram zurros bestiais e raivosos, mas de nenhum animal que eu conhecesse. Ok, admito que biologia nunca foi meu forte, mas até mesmo eu sou apto a distinguir um cachorro latindo de uma pessoa falando.

Não demorou muito para eu perceber que o som entrava no meu apartamento pela janela do banheiro. Era alguma coisa no prédio ao lado. Olhei com cuidado pela janelinha, para ver se o pombo voyeur estava por ali, mas sua janela estava fechada. Assim, me debrucei com calma e olhei para baixo.

Foi então que eu a vi.

No prédio ao lado do meu, existe uma pequena área descoberta, um quadrado com 3 metros de cada lado com chão de ladrilhos. No meio deste pequeno espaço, uma criança com cerca de dois anos, sentada sobre um velotrol. Os sons vinham da criança.

Se você está imaginando que se tratava de apenas uma criança chorando, saiba que eu também pensei nisso quando a olhei pela primeira vez. Mas logo ficou claro que não era nada disso. Vou tentar descrever o que vi da melhor forma possível.

Em primeiro lugar, ela não estava chorando, ela estava gritando palavras em uma língua totalmente incompreensível. Em segundo lugar, seus olhos eram vermelhos. Vermelhos, mesmo, da cor de sangue. Terceiro, mesmo bebê, ela já possuía todos os dentes, mas eles eram pontiguados, como se freqüentasse o mesmo dentista do Cavaleiro sem Cabeça. E, por fim, ela não estava apenas gritando frases em algum idioma morto, mas sim gritando isso e com o braço esticado e o indicador apontado diretamente para mim.

Quando percebi isso, me escondi rapidamente dentro do banheiro, pensando no que eu havia visto. Os gritos continuaram. Com cuidado, coloquei somente os olhos para fora da janela, tentando observá-la com calma sem ser visto. Mas ela me viu e os gritos dobraram de intensidade, e tenho certeza de que ouvi algo parecido com "Gooooordon! Buuuuurn!” no meio das palavras.

E ela continuava apontando para mim, sentada naquele velotrol satânico, provavelmente fabricado com tecido e ossos humanos. E com seus olhos vermelhos e inumanos fixados diretamente em mim.

Minha primeira reação foi ligar o computador e acessar o Google, para descobrir a trajetória do Bebê Diabo, registrada pelo extinto Notícias Populares, mas não encontrei nenhuma referência que o ligasse ao Filho de Satã do prédio ao lado. Peguei meu DVD de O Bebê de Rosemary e reassisti a última meia hora, prestando bastante atenção em cada diálogo. Nada. Nenhum dos personagens faz referência a se mudar para Pinheiros.

Quando desliguei o DVD, os gritos haviam parado.

Fui até o banheiro e olhei pela janela novamente. Nada do Bebê das Trevas.

Mas havia algo errado ali. As paredes do prédio estavam chamuscadas, como se algo tivesse queimado ali durante horas. E o chão continha alguns traços estranhos, formando uma espécie de pentagrama que, ao menos de onde eu podia ver, havia sido feito com tinta guache, daquelas que usam no Jardim da Infância. Isso sem falar no cheiro de enxofre.

Um pouco mais tranqüilo, fui até a varanda. Aparentemente, nenhum morador dos outros prédios da minha rua havia escutado algo. O problema era comigo mesmo. Passei os olhos pela calçada e não vi nada de anormal, somente um casal passeando de mãos dadas; uma senhora idosa andando sozinha; um rotweiller preto sentado bem em frente ao meu prédio e olhando fixamente para mim, com os olhos injetados de sangue; três meninos jogando bola e uma família empurrando um carrinho de beb...

Olhei para o rotweiller novamente. Ele olhou para mim e começou a latir.

Os gritos recomeçaram no prédio ao lado. Mas, desta vez, acompanhados de outros sons. Sons de coisas raspando. Fui até o banheiro e olhei com cuidado pela janela.

A coisa estava cada vez pior. O Bebê das Trevas zurrava raivosamente, ainda apontando para mim. Mas, desta vez, o chão do prédio ao lado não era mais de ladrilhos. Ele flutuava no ar, sobre um poço com centenas de almas queimando e gemendo abaixo de si. As paredes eram labaredas de fogo, e o cheiro de enxofre tornava impossível respirar.

GOOOOORDON! BUUUUURN!

Fechei a janela correndo e voltei para a sala. Minha alma estava condenada.

Os zurros bestiais continuaram. Desta vez, ele começou a gritar algumas frases em português (com sotaque de Portugal), dizendo que minha alma seria violada como uma prostituta da Babilônia, e que meu sangue serviria como alimento para ratos durante toda a eternidade. Sério, se eu vou até a varanda e grito algo assim, o mínimo que consigo é uma multa no condomínio.

Agora, como o moleque é filho do Demônio, ninguém faz nada.

Minha única saída era tentar não dar atenção ao som. Assim, peguei meu MP3 e comecei a ouvir música. Não resolveu nada, pois ele ficava alternando somente entre Children of the Damned e The Number of the Beast, do Iron Maiden, N. I. B. do Black Sabbath e Me and the Devil Blues, do Robert Johnson.

Mas, na quarta vez que começou a tocar Robert Johnson, resolvi fazer um teste: conectei o MP3 no PC (os gritos continuavam no prédio ao lado) e apaguei todas as músicas. Não adiantou nada, assim que coloquei o fone de ouvido, as mesmas músicas começaram a tocar.

Ou seja, antes de levar minha alma, o Bebê das Trevas resolveu sacanear minhas músicas. Ao menos o moleque tem bom gosto.

O problema é que isso já faz dias e eu não consigo dormir com os gritos bestiais. E também não posso sair de casa porque o rotweiller continua ali, me encarando. Ontem à noite, uma Kombi estacionou bem à frente dele, impedindo sua visão.

Antes que eu respirasse aliviado, ele assassinou os dois ocupantes do carro com mordidas violentas e precisas e estraçalhou e o veículo com os dentes, passando o resto da noite deitado mastigando pedaços da carroceria. E sem tirar os olhos de mim. E eu ali na varanda, sabendo que queimar no inferno é uma questão de tempo.

Isso faz três dias. Eu saio, vou trabalhar, volto para casa, e o cachorro está ali, me observando. E, assim que coloco os pés em casa, os gritos começam. Outro dia ele passou a madrugada berrando que sou o filho de todas as prostitutas da Cananéia, e que minha alma será empalada em diamantes sanguinolentos.

Os vizinhos já estão comentando. E não sei mais o que faço, pois nada parece funcionar. Já virei um balde de água pela janela do banheiro para ver se espantava o Bebê das Trevas (não adiantou, a água evaporou antes de chegar ao solo) e, ontem à noite, sem conseguir dormir com os gritos, fui até o banheiro e gritei.

– Porra, você está me confundindo com alguém! Cala a boca por uns dez minutos!

– BUUUUUURN!, ele respondeu.

Ô fase. Ô fase do inferno.






Nota: Como o Intense Debate insiste em dar pau no meu blog - ameaçando até mesmo apagar todos os comentários recebidos, voltamos ao sistema normal de comentários, ao menos por enquanto.

Nota 2: Ou não, já que o Intense Debate resolveu voltar sozinho. E duplicado. Aposto que é coisa do Bebê das Trevas.

20 de setembro de 2010

Os Últimos Passos de um Homem

(leia os Penúltimos Passos aqui)


Foi ali perto do Sesc.

Eu estava a dezenas de metros do lugar e já ouvia a música. Dei graças a Deus por, minutos atrás, ter escolhido continuar com a dor a no pé e não ter optado pela enxaqueca.

Não me lembro ao certo da letra, apenas de que se tratava de uma composição formada por duas frases repetidas (à exaustão) e contendo as palavras “amor”, “rosa” e “mulher”. Era pavorosa. Se divulgassem um vídeo de algum soldado sendo interrogado ali naquele boteco ao som daquilo, as imagens causariam um incidente internacional e a intervenção de tropas da ONU no Largo da Batata.

Meu pé direito começou a resmungar que jamais conseguiríamos passar por ali e que deveríamos estar a caminho de um hospital. O pé esquerdo, ainda delirando de dor, cantarolava repetidamente os primeiros versos de Alegria, Alegria, com voz embriagada, embaralhando as sílabas e trocando o “caminhando contra o vento” por “se arrastando com o sapatênis”.

Mandei ambos calarem a boca e fui me aproximando devagar (mesmo porque eu não conseguia andar rápido), como um explorador que se aproximava de uma aldeia de canibais, pelo meio da mata, durante algum ritual tenebroso. Antropologicamente, aquilo era um verdadeiro tesouro. Mas minha tese de doutorado – que explicaria o elo perdido entre os frequentadores de um forró no meio de Pinheiros e o resto da humanidade – teria que esperar, como meu pé direito deixou claro, ao começar a gritar desesperado:

– As calçadas estão entupidas! Nós não vamos conseguir passar!

E ele estava certo. O caminho estava totalmente obstruído. Pelo menos umas oito mesas, todas ocupadas, tornavam a passagem quase impossível. Um pequeno corredor entre elas serviria como caminho para mim, mas não dei atenção a isso.

Aliás, não dei atenção a nada. Quando percebi que todos estavam sentados, em cadeiras de plástico amarelas – que, aos meus olhos, pareciam poltronas de veludo costuradas por ninfas e deuses– consegui apenas sentir ódio. Um ódio frio. Lá estavam os malditos, tomando cerveja, com os pés descansados e gargalhando, enquanto eu, o farrapo humano, cambaleava pela calçada como se tivesse saído de uma versão com cenas estendidas da São Silvestre.

Respirei fundo e comecei a passar pelas mesas, gemendo baixinho e consciente de que estava sendo observado cuidadosamente pelos nativos. Não era para menos. Pela forma torta e desconjuntada que eu andava, todos ali devem ter pensado que eu era alguma pessoa defeituosa pedindo esmolas.

Eu, no lugar deles, pensaria o mesmo.

Aliás...

Uma idéia surgiu na minha mente. Eu poderia usar tudo aquilo a meu favor. Considerei a hipótese de parar no meio das mesas e gritar:

– Pessoal! Desculpe atrapalhar o divertimento de vocês! É bastante humilhante estar aqui, mas poderia ser pior, eu poderia estar roubando! Oi, você pode abaixar a música um pouco? Obrigado. Como eu estava dizendo, estou pedindo a ajuda de vocês porque fiz umas escolhas erradas na vida e acabei comprando um sapatênis com sola de papel. Agora, eu estou tentando voltar para casa, mas meus pés doem demais, e eu não consigo andar direito. Tudo o que eu quero é voltar para casa! Então, ao invés de roubar, estou aqui vendendo essas caixinhas de Mentex, que são super gostosos, refrescantes e de qualid...

– Eu não gosto quando você faz essa cara.

Olhei para baixo. Meu pé direito estava me encarando, um pouco assustado. Eu não respondi. As idéias fervilhavam na minha cabeça.

O cenário era perfeito. Eu estava andando todo torto e com cara de sofrimento. Na melhor das hipóteses, as pessoas teriam piedade de mim - na pior, me dariam uma moeda para eu ir calar a boca e me arrastar até outro lugar.

Se eu caprichasse no discurso, poderia conseguir umas moedas. Quem sabe uns cinco reais. Seria o início de uma nova carreira. Poderia ganhar a vida como mendigo. Ali na esquina da Teodoro Sampaio com a Henrique Schaumann tem um monte de moleques pedindo esmola, ninguém iria reparar em mais um – ainda mais um do meu tamanho.

Eu poderia também raspar os pelos do Besta-Fera e andar com ele no colo, fingindo que era meu filho – mendigos com criança de colo sempre se dão bem. Ou, melhor ainda, não rasparia nada, e andaria com ele no colo, todo torto e mancando, pedindo esmolas para meu filho que sofre com um problema de pelos no corpo.

– Rob?

Meu pé estava novamente tentando chamar minha atenção.

– Oi.

– Você está naqueles momentos de demência, certo?

– Oi? É... Hum... Não, claro que não! Estou apenas pensando como vamos passar por isso.

– Não minta para mim. Podemos apenas ir embora? Por favor?

Com um suspiro, deixei minha promissora carreira de mendigo de lado e olhei ao redor, tentando voltar à realidade.

Eu já devia ter ultrapassado umas quatro ou cinco mesas, e chegado no pior ponto possível da travessia. Passar pelas mesas havia sido fácil. Mas, cerca de dois metros na minha frente, o caminho estava totalmente obstruído por três casais que dançavam, ali na calçada mesmo e entre as mesas.

Eu resmunguei um “não vou desviar” para mim mesmo, e meu pé direito aplaudiu. Aproximei-me dos dançarinos e parei. No meio da calçada. No meio das mesas. No meio do inferno.

Fiquei assim por uns quinze segundos, estudando as pessoas que dançavam à minha frente. Dois casais deveriam ter cerca de vinte anos. O outro era de pessoas mais velhas, que certamente já deveriam estar na cama naquela hora, e não arrastando o pé daquela forma na calçada. Todos riam. De mim, provavelmente.

Resoluto em não desviar de nada nem de ninguém, eu tinha apenas duas alternativas: ou empurrava todo mundo e passava, ou eu parava. Como eles eram seis e eu era era um (ou melhor, eu era 0,8, já que não possuía mais os pés), decidi parar.

Fiquei imóvel no meio das pessoas, observando os casais dançando à minha frente (e tentando ignorar minha dor nos pés o suficiente para conseguir fazer meu olhar de assassino). Permaneci assim por cerca de quinze segundos, até que apareceu um garçom, levando cerveja e copos para uma mesa com três nativos.

Ele serviu as garrafas e, ao se virar para voltar ao bar, me viu.

Olhou para mim e, certo de que eu era um cliente recém-chegado, perguntou:

– E aí? O que você vai querer, campeão?

Pensei em responder “um escalda-pés”, mas dificilmente ele poderia me ajudar. Desta forma, fui sincero e pedi exatamente o que eu queria.

– Passar.

Ele parou e olhou para mim, procurando algum significado no que eu havia dito. Ou talvez ele não tenha ouvido o que eu disse por causa daquela música infernal. Tanto faz.

– Oi? Não entendi! Pode repetir?

– Eu quero passar, respondi apontando para as três duplas de Fred Astaire e Ginger Rogers do sertão que atrapalhavam o caminho.

Ele olhou para os bailarinos e entendeu a situação. E olhou de volta para mim, se preparando para dizer algo. Provavelmente, numa situação normal ele me mandaria à merda e mandaria eu desviar. Mas foi aí que percebi que provavelmente havia conseguido colocar meu olhar “eu posso matar você a facadas aqui mesmo, seu animal”, porque ele fechou a boca e mudou de idéia.

Olhou para trás e se dirigiu aos membros do Corpo de Baile do Distrito de Pinheiros.

– Vamos dançar lá dentro, pessoal! Vamos deixar as pessoas passarem!

E os casais foram correndo (sim, correndo, o que eu, totalmente desprovido de pés, lutei para não encarar como provocação) para dentro do bar, aproveitando os últimos acordes da história sobre a tal da mulher que amava uma rosa, da mulher rosa que amava alguém, ou algo assim.

E eu segui meu caminho, gemendo e andando torto.

Entrei em casa meia hora depois. Meu pé esquerdo foi hospitalizado – sua situação é estável, mas ele continua em observação. Meu pé direito não fala mais comigo desde aquele dia.

E eu só uso o sapatênis agora dentro de casa. E somente ir do quarto até o banheiro. Quando eu tenho que ir até a cozinha, coloco um tênis. E, elegante que sou, vale lembrar que, se vou até o banheiro com o sapatênis azul em um dia, no dia seguinte, uso com o sapatênis cinza.

Sim, porque o babaca aqui comprou dois pares. Ô fase.




Nota: Pessoal, estou experimentando um novo sistema de comentários no Blog. Se encontrarem algum problema para comentar, por favor, avisem.

17 de setembro de 2010

Os Penúltimos Passos de um Homem

(Leia os Antepenúltimos Passos aqui)

Você já andou com dor nos pés?

É mais que dolorido. É ridículo.

Você começa a andar e os pés começam a doer. Você sente um pequeno desconforto, mas continua. Porém, conforme a dor nos pés aumenta de intensidade, seu instinto de sobrevivência começa a fazer com que você, inconscientemente, comece a pisar de modos diferentes a cada passo para aliviar a dor – é quase como uma redistribuição de renda, apenas trocando a “renda” por “dor”.

Então, num momento, você se apóia no lado de fora do pé (“ai!”); no outro, somente com o calcanhar (“que dor!”); no seguinte com o polegar (“merda”). É evidente que isso se reflete na perna, e assim você acaba andando completamente torto pela rua.

Aliás, “completamente torto”, não; “estupidamente torto” parece ser uma forma melhor de descrever.

A cada passo, o seu modo de andar muda drasticamente. Aparentemente, os pés acham que isso pode ajudar com a dor, e não fazem idéia da vergonha que você passará na rua. Num passo, você se locomove pela rua como um alienígena; no seguinte, feito uma pessoa com má formação óssea; no terceiro, você já está parecendo um filhote de ganso aprendendo a andar. Ou seja, em menos de dez metros, as crianças na rua estão rindo de você, e as demais pessoas ao seu redor cruzam seu caminho dando cotoveladas umas nas outras e cochichando coisas como “olhe aquele imbecil”.

Para minha sorte, não havia ninguém na Paes Leme conforme eu comecei a caminhar, gemendo, em direção para casa. Mas, antes de chegar ao final da primeira quadra, descobri que meus planos de tentar ignorar a dor eram ousados demais.

O Batman sempre fala que “basta você isolar a dor e esquecê-la num canto do cérebro, para ela desaparecer”. Bom, talvez isso seja fácil quando você se veste de morcego e planeja pular de um prédio para o outro depois de levar um tiro no ombro ou de ter uma costela quebrada com uma pá. Mas tentar ignorar a dor nos pés andando no meio de Pinheiros é algo inviável.

Contudo, admito que tentei. Mandei a dor ir para algum canto remoto do meu cérebro.

Ela agiu como um adolescente: gritou que ninguém a entende no mundo, subiu as escadas correndo, bateu a porta do quarto e começou a ouvir música no máximo. E, com o volume da música, eu apenas trocaria a dor nos pés por enxaqueca. E dadas as minhas crises de enxaqueca, a troca não seria boa.

Ok, eu conseguiria andar um pouco mais, admito. Mas seria obrigado a andar pela rua de olhos fechados, fugindo de qualquer fonte de luz. Isso sem falar que se algum carro buzinasse perto de mim, meu cérebro explodiria como se eu fosse um personagem do Scanners.

Assim, não tive escolha: abri a porta do quarto, e entreguei os pontos. Avisei à dor que ela não estava mais de castigo e poderia voltar a brincar. Ela, evidentemente, pegou o seu brinquedo preferido (um martelo) e saiu correndo em direção aos meus pés para continuar a se divertir. Quando eu percebi o que estava acontecendo, ela já estava no meu pé esquerdo, dando marteladas e mordendo meu calcanhar.

Agora, se eu estava sofrendo, a situação dos meus pés era bem pior.

Entre um gemido e outro, cheguei a ouvir um pouco da conversa deles e percebi que algo de muito ruim iria acontecer lá embaixo: ou eles morreriam (a autópsia, claro, revelaria falência múltipla dos dedos) ou organizariam um motim e assumiriam o controle do meu corpo – e provavelmente eu seria executado como inimigo político do novo regime.

– Está doendo demais, disse o pé direito.

– Não podemos parar um pouco? Eu não estou agüentando, respondia o esquerdo.

– Não, Esquerdo, vamos tentar chegar logo. Precisamos descansar e nos reorganizar antes de fazer qualquer coisa.

– Se ao menos chovesse um pouco... Eu daria tudo para mergulhar numa poça agora, estou queimando aqui dentro. Estou ficando tonto.

– Estou com muita dor, também. Mas tente não pensar nisso. É pior.

– Vamos rachar um táxi, Direito? Eu não sei mais quanto tempo vou agüentar. Não é exagero. A gente larga esse babaca aqui e ele que se arraste até em casa.

– Chega, Esquerdo. Foco! Respire fundo e vamos.

– Eu não estou agüentando... Me deixe aqui, Direito. Tente se salvar...

– Esquerdo, mantenha sua concentração. Vamos em frente. Você consegue!

– Vou... Desmaiar...

– Esquerdo! Fique comigo! Abra os olhos!

– Um túnel... Ele é feito de esponja...

– Esquerdo! Você está delirando! Abra os olhos!

– Esponja... Que gostoso pisar aqui... Tão suave... Tão Macio... Olhe aquela luz...

– Fique longe da luz! Esquerdo! Não chegue perto da luz!

– Direito... Vem para cá, é tão gostoso aqui...

– Seu filho da puta! A próxima vez que você estiver na rua e precisar ir ao banheiro, é melhor você estar de fraldas, porque seu tornozelo irá quebrar sem motivo algum! Juro em nome do que é mais sagrado, eu não vou me esquecer disso!

Evidentemente, estas últimas frases foram dirigidas a mim.

Mas eu não estava mais ouvindo nada, e sim pensando num modo de aplacar minha dor. Tudo o que eu poderia fazer era plantar bananeira e tentar caminhar sobre as mãos até em casa, mas, como eu sou eu, era bem provável que eu enfiasse a mão num prego no terceiro passo e nunca mais pudesse escrever na vida.

Foi aí que eu percebi que não havia solução. Eu estava fadado a andar até a minha casa. Metro por metro. Passo por passo. Gemido por gemido.

A não ser que... Sim! Já que a dor era inevitável, o segredo era parar de pensar em como fazer com que meus pés parassem de doer e me concentrar em como fazer com que eles doessem o mínimo possível.

Se cada metro havia se tornado um verdadeiro calvário para mim, o segredo era diminuir o número deles. Ou, ao menos, não aumentar o número de passos de forma alguma. Uma das poucas coisas que me lembro de ter aprendido na escola é que a menor distância entre dois pontos é uma linha reta.

E era justamente isso que eu iria fazer.

Tracei mentalmente uma linha reta até minha casa. Manteria meu ritmo e não daria um passo sequer além do estritamente necessário. Desviaria apenas de muros e casas. E mais nada. As pessoas que desviassem de mim. Os animais que desviassem de mim. Os carros e ônibus que desviassem de mim. E, no caso dos veículos, eu não desviaria mesmo, porque ser atropelado por um ônibus causaria uma dor menor que a que eu sentia nos pés. Com sorte, talvez eu até morresse rapidamente, e, com mais sorte ainda, eu seria enterrado descalço.

Com isso em mente, fui caminhando – e dando graças a Deus que as ruas estavam desertas – e gemendo, disposto a não desviar cinco centímetros do meu caminho original. Durante alguns quarteirões, cumpri isso à risca.

Mas claro que meu azar, sábio e perspicaz, se adaptou rapidamente à minha estratégia.

Porque o meu azar é assim: ele entende o que estou fazendo com uma rapidez impressionante, se adapta à nova situação e elabora uma resposta imediata.

E foi justamente por isso, dois quarteirões depois que eu decidi não desviar de nada (e de ter raspado o ombro numa árvore, o que me fez incluí-las na mesma lista de casas, prédios e muros), minha vida se tornou um poema.

A saber:

No meio do caminho tinha um forró.
Tinha um forró no meio do caminho
Tinha um forró
no meio do caminho tinha um forró.

(continua...)


16 de setembro de 2010

Quatrocentos. Por extenso.

"O Champ está longe de ser o melhor blog da internet.
Por outro lado, não existe um blog com leitores tão sensacionais como o meu.
"


Interrompemos a programação normal deste blog para informar que, em algum momento do dia de hoje, o Champ atingiu a marca de quatrocentos seguidores. Sim, quatrocentos. Não são 400, porque – ainda mais numa ocasião como esta – faço questão de escrever um número desses por extenso.

Eu quero que a palavra seja grande.

Eu não sei se cheguei a comentar isso com vocês nos outros posts nos quais falei sobre os seguidores do Champ (se você é novo aqui, fiz isso quando o blog chegou a 100, 200 e 300 seguidores), mas é difícil demais fazer um post desses. Mais do que vocês imaginam.

Não estou sendo demagogo, nem vou cair no discurso de “é emocionante, fica difícil encontrar as palavras”. É emocionante? É. É emocionante demais.

Talvez para muita gente isso não signifique grande coisa. Afinal, um modo de ver a coisa é que a pessoa apenas clicou no “seguir este blog” ali embaixo. Ela segue dezenas de blogs e segue o Champ também. Até aí, nada demais. Sim, este é um modo de ver a coisa.

Mas não é o meu modo de enxergar isso.

Não me importo com quantos blogs a pessoa segue, mas sim com o fato de que ela segue o meu. E o “seguir”, para mim, significa que ela gosta do que eu escrevo, a ponto de deixar o seu rosto e seu nome estampados ali, para os outros leitores saberem disso. E isso significa muito para mim.

Ou, talvez, a pessoa goste do Champ a ponto de querer fazer parte dele de alguma forma. Já me falaram certa vez que este blog é uma espécie de comunidade, com um grupo de pessoas que se conheceu nos comentários. Talvez a pessoa me siga porque quer fazer parte disso, fazer parte do blog em si, e do que escrevo. Isso significaria mais ainda para mim.

Mas eu estava dizendo que é difícil escrever um post destes.

O motivo não é porque “é difícil encontrar as palavras”, mas porque é difícil demais é achar as pessoas certas no contador de seguidores. Aquilo é uma bagunça, o Blogger coloca tudo fora de ordem, e eu tenho que deduzir quem é novo, quem trocou de nome, me baseando tanto pelo que sei de cabeça como pelos posts anteriores. Algumas pessoas tem quatro ou cinco blogs linkados, então olho um por um para saber qual linkar (vendo qual é o mais atualizado, dando preferência para aquele em que o leitor escreve sozinho etc).

Mas eu faço questão de tentar.

Vou caçando os nomes, desvendando a ordem dos seguidores e montando a lista com os 100 mais recentes. Normalmente, eu começo a fazer isso dias antes da postagem, é um trabalho de horas. E, como eu já disse certa vez, a margem de erros (seja a respeito de nomes, ou a respeito de links) é enorme. Nomes que já entraram em listas anteriores acabam se repetindo, um link ou outro vai errado.

Mas eu adoro fazer estes posts. Por dois motivos.

O primeiro é porque, desta forma, eu conheço vocês um pouco mais. Clico em todos os seguidores, olhos os blogs (daqueles que têm, claro). Eu sempre estou de olho nos novos seguidores, querendo saber quem lê o Champ, mas, com a correria do dia a dia, fica difícil acompanhar todos, alguém sempre acaba escapando.

E, segundo, e mais importante, é que talvez existam blogs nos quais o número de seguidores significa apenas um punhado de nomes, que funcionam para abastecer o ego do blogueiro. Mas, para mim, não.

Cada rostinho ali no canto é de uma pessoa, com uma vida e uma história próprias. Mais que números, são pessoas que dedicam (ou dedicaram) alguns minutos do seu dia a parar o que estavam fazendo por alguns minutos e ler o que eu escrevo. E sem pedir nada em troca.

E, para quem escreve, nada pode significar mais que isso.

Assim, caros:

Tarsis, Juba, Danielle Lourenço, Wesley Modro, Leonardo Takahara, Sebar, Bia, Nara., Nirlando Cavallaro Oliveira, adrianobragademorais, William Maass Costa, Isabella Furtado, Juliano Detoni, Aline Cruvinel, MarianaMSDias, Vitor Nucci, Mariana Paschoal, , Kell Alves, lespaced, Mikhail, Cidadão Entretido, Gabriel Martin, Érico Cordeiro, Elisa Birolli, Michelle, Chantinon, Elaine, Lado Oculto, C’est La Vie, Bruna Fernanda, Foxy’s Tales, Gilmar Martins, GilVampiro, Jam Ajna Soares, Demorô... Partiu!, Triclonagenados Frutos do Acaso, Will Wih, Verônica Júlio, Alesandro, Jo, Alexandre, Prix Dekanum, Bejorn, Rocker, Anderson, Tuane Soares, Paam, EduardoALeal, Paulinha, Isadora -, Stella (Cris Vieira), Pedro Luz, Carolina, Alessandra Costa, Mariana Perez, Matilda, Tary, Bianka, Jean Freyre, Café& Conversa, Letícia Santos, Bill Falcão, Os Farsantes, Lucas Brandão, Bio Cocó, balbina conspira, eduardo miranda, Mulher Vitrola, the relativity of the universe, Mônia, Vagner de Alencar, violeta, Hong Kong Fu, Cadê minha Neolsaldina?, Milla, Lilith Blue, Ana B., Ricardo Lubisco, Fabi, rosana de Lucena, fefisroberti, Laryssa, Petescadas, Andie, Lemmy, Jú Limão, Rafael Sette Câmara, Anelise, Carol, Anna., roo.rocki, Stephanie – Dare to Dream, Jade Amorim, Victor von Serran, Larissa, Tula Verusca, ordinary_eyes, Pistache, Ludy #, Decepção não Mata, Engorda, Marcela Lopes, Flor, Renny, Hydrachan, Carpe Diem, André Lázaro Ramos, , Brunetts

Não sei exatamente a razão de vocês terem resolvido seguir este blog de alguns meses para cá – e adoraria saber o motivo de cada um. Mas, independente do motivo – e também de quem ou o que os trouxe até aqui – saibam de uma coisa:

Vocês fazem parte da história deste blog. E eu me sinto muito honrado por isso.


Nota - A frase que abre este post foi escrita em junho de 2009, quando o Champ atingiu 100 seguidores. E hoje o valor desta frase se multiplicou por 4. E isso graças a vocês.



15 de setembro de 2010

Os Antepenúltimos Passos de um Homem

Eu sempre andei muito rápido. Desde criança.

Especialmente quando eu estou sozinho. Digamos que, de cada dez pessoas que encontro nas ruas, eu ando mais rápido que oito – e ainda fico puto quando sou ultrapassado pelos outros dois. Algumas pessoas podem ter a impressão de que estou correndo, mas, na verdade, estou andando. Aproveito que não sou internacionalmente reconhecido pela estatura e vou desviando de um cara aqui, ultrapassando outro ali. Literalmente, deixo as pessoas comendo poeira.

E, às vezes eu ando muito rápido quando estou acompanhado também. Não consigo evitar, é hábito. Assim, eu ando conversando com a pessoa, e, quando eu vejo, ela está ficando para trás (o que faz com que, a cada 10 minutos, eu escute um “dá para esperar?” ou “você pode andar mais devagar?”). Aí, diminuo o passo e fico me controlando para andar em velocidade de cruzeiro ao lado da pessoa, até que me desconcentro e pronto, já estou lá na frente de novo.

Porém, de uns dias para cá, eu tenho andado bem devagar.

E não, eu não me converti ao budismo, ou a qualquer outra religião que ensina que devemos aproveitar a paisagem e viver cada momento intensamente. Nada disso.

Meu problema é meu sapato novo.

Não, antes de continuar, vamos esclarecer uma coisa. Ele não é um sapato. O nome daquilo é sapatênis, mas não me sinto muito confortável em dizer isso aqui. Porque, sejamos sinceros, um sapatênis é, antes de tudo, um desvio na evolução. Uma aberração da natureza. O pessoal da indústria de sapatos deve ter se aproveitado de que Deus não estava observando e resolveu fazer um experimento genético, misturando as duas espécies para ver no que dava. Acharam que ficou legal e colocaram nas lojas.

O sapatênis é um erro de conceito. É o “samba rock” dos sapatos. E se você nunca ouvir falar em samba rock (eu invejo você por isso) pense, então, em refrigerantes: o sapatênis seria o Guaraná Cola.

Enfim, eu estava com esse sapato (Nota: em respeito à ordem natural das coisas, eu não vou mais usar o vocábulo “sapatênis”). E, admito que quando comprei, ele parecia confortável. Andei com ele pela loja durante alguns segundos e ele calçou bem no pé.

Mas, claro, era tudo mentira. O ambiente de uma loja de sapatos, com aqueles tapetes grossos, macios é feito justamente para fazer qualquer coisa que você colocar no pé ficar confortável. Pode reparar: algumas lojas de sapato possuem um tapete mais confortável que uma cama, para fazer com que até mesmo um pé de pato fique confortável, enquanto você anda pela loja ouvindo o vendedor dizer que “esta cor ficou ótima em você”.

Dois dias depois, eu já havia entendido que o sapato é confortável sim, desde que eu esteja sentado numa poltrona macia, assistindo TV e bebendo alguma coisa – de preferência com os pés apoiados em um pufe macio de veludo. Porque, no momento em que começo a andar, bastam apenas alguns minutos para perceber que a sola daquele negócio é feita de papel sulfite. E, por causa da consciência ecológica, devem ter usado no máximo duas folhas em cada pé. Não faço idéia da marca do calçado, mas, se eu precisasse apostar em qual fábrica a sola foi produzida, apostaria todo meu dinheiro na Chamequinho.

Sem sacanagem, graças à consistência do solado, eu me sinto o Demolidor andando pelas ruas. Basta eu pisar na calçada para saber exatamente o que existe sob meu pé: quantas pedrinhas, galhos e folhas de árvore, bem como e a composição química das pedras e de qual espécie de árvore a folha veio (não, eu ainda não pisei num cocô de cachorro com este sapato, caso você esteja se perguntando isso).

Ou seja, a cada metro, eu descubro um admirável mundo novo de objetos sob meus pés. O problema é que não consigo me concentrar em informação nenhuma, pois, graças à consistência de celulose do solado, eu venho descobrindo, também, novas interpretações para o conceito de dor.

Se eu ando mais de uma hora com este sapato, as solas dos meus pés começam a doer insuportavelmente. Visualmente, está tudo em ordem: meus pés não incham e nem ficam com bolhas. Eles apenas doem.

Mas doem muito. É um passo e um gemido. Se eu fosse masoquista, perigava eu ter um orgasmo por quarteirão. Eu não consigo andar mais de uma hora com esse sapato nos pés.

O que nos leva, agora, à noite do último sábado, quando, após passar o dia andando (e gemendo de dor) para cima e para baixo com a Sra. Gordon, fui ingênuo e, ao voltar para casa, fiz um caminho meio ousado, que consiste em atravessar a Paes Leme inteira, cruzar o Largo da Batata e subir boa parte da Teodoro Sampaio.

Em poucas palavras: eu e aqueles malditos sapatos havíamos andado o dia todo. Meus pés já doíam desde o meio da tarde, e eram mais de dez da noite. E, agora, nós três teríamos que cruzar o bairro de Pinheiros. Uma pessoa normal deve fazer esse percurso em cerca de 40 minutos. Eu, com um tênis ou um sapato normal, percorro esta distância em 25 minutos.

Mas, assim que pisei na calçada da Paes Leme, meus pés gemeram e pediram por clemência.

– Eu não vou chegar em casa hoje, profetizei baixinho.

Mesmo assim, tentei ignorar a dor e comecei a caminhar.

(continua)


14 de setembro de 2010

Cicilho

Foi agora, aqui na redação.

Meu celular tocou três vezes. O identificador de chamada acusava “número privado”. Não atendi na primeira vez. Tocou de novo. Atendi, era uma ligação a cobrar. Desliguei. Tocou mais uma vez, outra chamada a cobrar. Fiquei preocupado.

Aceitei a ligação.

Era uma garota, claramente no meio da rua, querendo falar com o Cicilho. Ia gargalhar, mas lembrei-me que a ligação era a cobrar. Disse que não tinha ninguém com esse nome e desliguei. O telefone tocou. “Número privado”. Atendi. Era a mesma menina querendo falar com o tal Cicilho. Respondi que ela estava com o número errado e com algumas vogais a menos. Desliguei.

Tocou mais uma vez. “Número privado”. Foda-se. Atendi.

–Alô.

– Cadê o Cicilho?

– Quem está falando?

– Quero falá com o Cicilho!

– Sim, isso eu ouvi. Quem está falando?

– É a Lucilâneide.

Ok, o nome dela não era esse, mas não era muito diferente. E, cá entre nós, uma pessoa que liga meia-noite de segunda-feira, a cobrar e do meio da rua, para alguém chamado Cecílio, claramente não irá se chamar Rita Hayworth ou Vivien Leigh. Resolvi dar corda.

– Oi. Sou eu.

– Cicilho?

– Sim. Sou eu, Cecílio.

– Sua voz tá diferente!

Antes que eu respondesse, outra menina pegou o telefone e começou a falar.

– Cicilho? Vêim buscá nóis!

– Oi?

– Num é o Cicilho, a voiz tá diferente! Cicilho?

– Eu.

– Você num é você. Sua voiz tá diferente!

– Sou eu sim.

– Num é!

– Ok. E como é a minha voz?

– Sua voiz é mais fina!

– É que eu estava dormindo, por isso.

– Ai, já tá durmindo?

– Já. Acordei com vocês ligando.

– Então, a gente queria que você vinhesse buscá a gente e levá nóis pra casa!

Oi? Abusada, essa Lucilâneide.

– Putz, eu estava dormindo...

– Ah, Cicilho, pega nóis aqui. Tâmo no Jardim Roberto!

Jardim Roberto. Deus. Não faço idéia de onde fica isso. Isso tem pinta de nome de lugar que não possui água potável. Mas, como bom jornalista, resolvi ver o que tinha para mim nisso tudo.

– O que eu ganho, se eu for aí?

– Ah, Cicilho, você saaaaaaabe!

– Não, não sei. O que eu ganho?

A outra menina, ainda anônima, berrou no fone.

– TUDO O QUE VOCÊ QUERÊ!

Antes que eu gargalhasse no telefone, a Lucilâneide assumiu o controle da ligação. Mentalmente, vi ela segurando o telefone com uma mão e empurrando a outra menina, a do “querê”, com o pé.

– Vai, Cicilho, pega nóis aqui e leva pra casa.

– Já disse, quero saber o que eu ganho.

– Você num é o Cicilho, sua voiz tá fina!

– Não muda de assunto, Lucilâneide. O que eu ganho?

– Tudo, ué. É só pedi!

– Ok. Estou indo aí.

– Você tava dormindo com quem?

– Sozinho, ué.

– Você nunca dórmi sozinho!

– Bom, eu estava sozinho. Estou indo para aí. Chego em vinte minutos.

– Você dórmi num quarto cum monte de muié!

Fodão, esse Cecílio.

– É, mas estou sozinho hoje. Vou colocar uma camiseta e vou para aí.

– Você vêim como?

Fudeu. O que eu respondo?

– Como assim, como?

– É, você vêim como?

Resolvi jogar a bola para ela.

– Como você acha que eu vou?

– Num sei. Vêim de pé ou montado?

Montado? Ela acha que eu vou a cavalo para o Jardim Roberto? Bom, vamos ver o que sai.

– Montado, claro.

– Você num é o Cicilho! Tua voz tá diferente!

– Eu não quero mais ouvir isso. Vocês estão no Jardim Roberto? Estou indo.

– Cicilho, Cicilho...

– Não demora. E é bom se animar, porque agora eu perdi o sono.

– Você num é o Cicilho!

– Já já a gente conversa. Chego aí em uns vinte minutos.

– Tá bom. Vêim logo! Tá mó friaca!

– Espere aí que estou chegando. E eu vou montado. Beijos.

– Bêju.

Eu avisei duas vezes: eu não sou o Cecílio.

Se ela não quis me ouvir, problema dela.


12 de setembro de 2010

O Beijo da Mulher Varanda

Eu estava trabalhando no PC agora mesmo quando ouvi um grito ao lado de fora do meu apartamento. O berro, com voz de mulher, foi:

– Fala para ela arrumar um namorado e transar!

Besta-Fera, que dormia no sofá, acordou, resmungou “vizinhança de merda” e foi para o quarto dormir.

Eu, curioso, fui até a varanda.

Olhei para baixo e vi uma gordinha, de cerca de 30 anos, apoiada no apartamento da mulher que tentou se matar pulando da sacada, anos atrás (se você nunca leu, está aqui).

Antes que eu me perguntasse “será que foi essa gorda que gritou”, ela me respondeu.

Isso porque, sem perceber minha presença, olhou para trás, para dentro do apartamento, e reforçou seu ponto de vista original, com outro berro, urrado com a delicadeza do Max Cavalera em seus melhores dias.

– Fala para ela arrumar um namorado, assim ela transa! Assim ela transa e beija na bôôôôôôôôôôca!

Não foi um “boca”. Foi um “bôôôôôôôôôôca”, em negrito mesmo, com 10 letras “o”, cada uma delas com um acento circunflexo provavelmente esculpido em granito.

Olhei para o prédio da frente e sorri sem graça para o casal de idade que veio até a varanda ver do que se tratava aquilo, me esforçando para mostrar a eles que “pessoal, eu apenas moro aqui, não tenho nada com isso”. Mas acho que eles não viram por causa da distância.

Na dúvida, virei as costas em silêncio e fui me esconder dentro do meu apartamento. Capaz da minha próxima fatura de condomínio vir com um valor altíssimo porque, além do salário dos porteiros, os moradores do meu prédio vão ter que começar a pagar couvert artístico. Ô fase.

10 de setembro de 2010

35

Jean-Luc Picard: Não importa quantos anos você viveu, Wil, mas sim como você os viveu. Alguém me disse certa vez que o tempo é um predador que nos persegue durante a vida inteira. Mas talvez o tempo seja também um companheiro em nossa jornada, que nos lembra que devemos celebrar cada momento de nossas vidas, porque eles não voltarão mais... Afinal de contas, somos apenas mortais.

William Riker: Fale por você mesmo, senhor. Eu planejo viver para sempre.

(Jornada nas Estrelas – Generations)


Décadas.

Milhares de dias, recheados de sorrisos e lágrimas, amores e desilusões, despedidas e abraços. De conquistas, vitórias e derrotas. De paixões fulminantes e adolescentes, explosões de ódio imaturo. De amores maduros e cuidadosos, raivas frias demais para serem perdoadas.

Dei gargalhadas altas em mesas de bar; defendi pênaltis e fiz gols de placa; tive vontade de gritar de felicidade no meio da rua. Mas também soquei paredes para aliviar a frustração, chorei escondido, escrevi poemas não publicados.

Milhares de sonhos. Alguns eu abandonei, outros me esqueceram. Outros eu adaptei, troquei, manuseei. Mas um punhado deles sempre esteve aqui, desde o primeiro dia. E sempre estará. Sempre guardado ao lado dos livros, filmes, músicas, quadrinhos, jogos e textos que me ensinaram, confortaram, e mostraram que, antes de tudo, ninguém nunca está sozinho.

Milhares de pessoas. E, com elas, sorrisos, apelidos, brigas, brincadeiras, segredos, confiança, discussões, broncas, beijos, abraços. Histórias para contar gargalhando. Histórias para lembrar sozinho e se emocionar justamente por se lembrar.

Alguns desapareceram no tempo e se tornaram apenas rostos vagos em salas de aula, em prédios do bairro, em festas, bares e casas de amigos. Outros sempre foram para sempre e sempre souberam disso.

Milhares de pessoas, milhares de sonhos, milhares de dias.

Décadas.


“E, aí, o tempo passou.
E, como todo mundo,

o menino maluquinho cresceu.”




Update: Caros Natália Maximo, Juliana Cenoura, Ana, Otávio Oliveira, Maryfarah, Daniela, Lilian, Varotto, R., Nanny, Michele, Leandro, Sil, @camicap, Cinemafranco.com, Rubens, Alexandre, Paty, Yara Balestrero, Dragus, Kika, Gabriela, Fábio Megale, Devaneador, Gilgomex, Daniela, Silvia, Manuela, Gabriel Alex, Rafael, Michelle, Anônimo, Dani, Max Reinert, Felipe Lima, *#*@le*#*, Brunín... Assis e a todos que enviaram os parabéns pelo Twitter:

Um enorme e sincero muito obrigado!

8 de setembro de 2010

Live at La Casserole

Meu primeiro podcast não foi baseado no Champ, mas sim no Chronicles. E ele não foi gravado, nem publicado em lugar nenhum. Foi ao vivo.

Segue um trecho:

Talvez vocês acreditem que devem agradecer a cada uma destas 70 ou 80 pessoas pelo fato de elas terem vindo para este almoço hoje, celebrar o casamento de vocês. Mas eu acho que é justamente o contrário. Vocês não têm que agradecer nada. Somos nós que temos que agradecer.

Como todo casal, vocês têm problemas, brigas, discussões e desavenças. Mas quem vê de fora tem a certeza de que, mesmo com tudo isso, você estarão juntos no dia seguinte. Vocês continuarão a ser um casal no dia seguinte. Porque vocês não são mais duas pessoas, faz muito tempo que vocês formam um casal. Um casal de verdade.

Então, somos nós que temos que agradecer, não vocês. Nós temos que agradecer pelo exemplo maravilhoso que vocês passam para nós, todos os dias, e há muitos anos.

E nós temos a sorte de sermos seus amigos, termos a sorte de conviver com vocês, de aprender com vocês. Aliás, eu não sou mais amigo do noivo ou da noiva. Eu sou amigo do casal. E tenho muito orgulho disso. E também tenho muito orgulho de ter sido escolhido para falar isso justamente hoje, na frente de vocês.


Quem diria que, após centenas de posts e crônicas, um dos textos que mais me deu orgulho na vida não foi escrito, mas sim discursado, no meio de um restaurante francês e sem muito planejamento, por conta do casamento de um grande amigo?

(Todo o trecho abaixo foi digitado diretamente no Blogger, diferente do trecho acima, feito no Word, como de costume.)

Fiquei mais de cinco minutos olhando para este texto na tela pensando se postava ou não. E pensando sobre o que falei. Pensando sobre uma amizade de quinze anos.

Talvez este texto não funcione como deveria. Talvez ele desapareça logo em meio à centenas de textos postados aqui. Mas... Não sei. Me marcou demais.

Vocês, leitores habituais deste blog, sabem muito da minha vida. Acho que queria contar apenas que poucas ocasiões na vida me deixaram mais honrado que essa. Ou, na pior das hipóteses, digamos que eu estava apenas pensando alto aqui, e por isso este post nasceu.

Sim, as pessoas gargalharam em dois ou três momentos. Mas é deste trecho acima que eu vou me lembrar para sempre. Me lembrarei para sempre deste trecho e do modo que a Sra. Gordon me olhou quando voltei para a mesa.

O trecho eu compartilhei com vocês. O olhar dela eu vou guardar para mim.

7 de setembro de 2010

Vida

Vamos por partes.

Em primeiro lugar, eu nunca disse que acabaria com o Champ ou com o Chronicles por causa da falta de comentários. O texto anterior, Morte, é totalmente genérico. E caso você seja alguém que a) pediu para eu não acabar com o blog; ou b) me xingou abertamente por causa do texto, volte ao post anterior e selecione, com o mouse, o texto (em branco) abaixo da palavra “Fim”. Talvez você se surpreenda. Talvez você me xingue novamente.

Agora, se o texto é ficcional, quase uma crônica, porque ele não está no Chronicles? Porque ele é verdadeiro. E está acontecendo com cada vez mais frequência.

Não vou acabar com os meus blogs, pois sou apaixonado incondicionalmente por eles – adoro receber comentários, mas, antes de tudo, adoro escrever. Contudo, cada vez mais, tenho visto blogs muito bons (inclusive, bem melhores que os meus) caminhando a passos largos para o esquecimento, devido aos poucos comentários que vem recebendo. E o esquecimento, muitas vezes, leva ao final do blog.


"É que nem o sujeito que sai pra correr depois de dez anos sem exercício. Belo dia, ele se manda pro parque, chega lá e sai em desabalada carreira. Não dá nem cinquenta metros e já dói aqui do lado. Aí ele para pra tomar um fôlego. Corre um tanto e para pra amarrar o cadarço. Puxa as meias pra cima, corre. Caminha. Para. Corre. Para. Para. Aí volta pra casa de táxi, traumatizado, joga o tênis no fundo do armário e, pronto!, o mundo do atletismo perdeu mais um. Blog é assim: a gente pensa que é atleta, mas chega na hora e vê que a coisa não é tão fácil. Dê um fôlego a mais, ajude seu blogueiro favorito a correr mais uns dez metros, comente!"
Bruno Palma

Acepipes Escritos



O tom do post anterior, somado aos dias em que fiquei sem postar, serve para mostrar que isso pode acontecer com qualquer blog, seja o Champ, o Chronicles, ou qualquer um que você adora a ponto de visitar regularmente e se decepcionar quando descobre que ele não foi atualizado.

Sim, a grande questão aqui são os comentários. Eles fazem a diferença no dia a dia de um blog. Se você tem blog – e, quando digo blog, quero dizer "um blog que gera conteúdo" – sabe disso tão bem quanto eu. Acessos, visitantes, pageviews, prêmios... Tudo isso é importante, mas os comentários recebidos em cada postagem, são vitais.

Eles são os indicadores de saúde do blog.

E, não, não estou falando de ego. É evidente que o ego está na equação, já que quem escreve quer ser lido. Porém, antes de tudo, blogueiros de verdade não querem colecionar elogios, mas sim opiniões. E isso inclui também críticas.

São os comentários que constroem a ponte entre o blogueiro e o leitor; são eles que transformam um blog em algo democrático, um espaço onde autor e leitor conversam abertamente. E são os comentários que indicam ao blogueiro se ele está no caminho certo, o orientando tanto no que diz respeito a estilo como a quais assuntos abordar.

Vou traduzir isso para o Champ, para mostrar que não se trata de teoria: se você gosta dos meus textos, saiba que os comentários que recebo são alguns dos grandes responsáveis por isso. Talento? Talvez eu tenha, sim, muito obrigado. Mas de nada adianta ter talento se você não sabe como utilizá-lo. E eu, por experiência própria, posso afirmar que aprendi a usar, ou melhor, a direcionar o meu talento aqui no blog, unicamente graças aos comentários. Acha que estou exagerando? Pegue um texto qualquer do primeiro ano do blog e outro mais recente, faça a comparação entre os dois.


"O problema de um blog sem comentários é que ele deixa de ser um blog. Exterminada a conversa, resta apenas a exibição patológica de um pretenso autor, e ninguém quer reafirmar durante muito tempo sua própria esquizofrenia. Quer???!"
Max Reinert
Pequeno Inventário de Impropriedades



Isso, claro, sem falar no estímulo que os comentários proporcionam ao blogueiro. Quanto mais comentários, maior a vontade que a pessoa tem de escrever. Não estou dizendo aqui que sem este tipo de retorno todo blog inevitalmente acabará sendo deixado de lado até ser abandonado totalmente (contudo, como eu disse lá em cima, isso pode acontecer sim). O que quero mostrar é que, ao perceber que está sendo lido, o blogueiro se sente naturalmente incentivado e, consequentemente inspirado a produzir mais e mais.

E ele percebe que está sendo lido pelos comentários. Como eu já disse antes, os comentários são o combustível do blog.

E, por fim, aquilo que considero o mais importante: os comentários, muitas vezes, geram um debate (entre leitor e autor, ou entre leitores) sobre o tema da postagem. Já aconteceu diversas vezes aqui no Champ, especialmente nos textos um pouco mais sérios. E poucas coisas que acontecem dentro de um blog podem ser mais sadias que essa.

Vale ressaltar que, quando falo “comentário”, estou me referindo a “participação” – se você é daqueles que comenta em todos os blogs que encontra, com um texto padrão dizendo que “adorei seu blog, visite o meu”, este texto não se refere a você, porque você nunca fez um comentário na sua vida.


"Ultimamente, os textos que não "pedem" a participação do leitor, textos que não provoquem interação, têm tido menos comentários. Às vezes a gente não pode – ou não quer – fazer o texto interativo.Mas o blog é! E por isso o comentário é importante, mesmo num texto em que o leitor seja só leitor. Eles são muito mais que um número no fim do post. É pelo comentário que a gente vê a opinião do leitor sobre o texto, fica sabendo se o post ficou ou não legal, e também descobre quem lê o que a gente escreve."
Tyler Bazz
Blog do Tyler


E o número de comentários caiu, de uns meses para cá, drasticamente. Não apenas no Champ (sim, eu tenho comentários, mas o número deles diminuiu consideravelmente) e sim nos blogs em geral – ao menos, em quase todos que conheço e nos quais tenho contato com os autores.

Com isso, textos excelentes e muito bem escritos estão sendo lidos, mas estão passando em bran...

Quer dizer, estão sendo lidos?

Não sei. E, pior: o próprio autor não sabe.

O motivo do volume de comentários ter caído? A meu ver, é incerto. Pode ser comodismo dos leitores, pois muitos acham mais fácil simplesmente dar RT no link, no Twitter. É uma iniciativa legal, já que o leitor está praticamente endossando o texto aos seus seguidores, mas, para o blogueiro, não chega aos pés de um comentário. Aliás, é uma iniciativa que, teoricamente, não deveria excluir o comentário, e sim complementá-lo. Se você gostou do texto a ponto de indicar aos outros, porque não comentá-lo também?

E, claro, pode ser comodismo de nós, blogueiros. E abro espaço aqui para um mea culpa.

Alguns anos atrás, a blogosfera era muito mais ativa. Memes, postagens coletivas, prêmios... Eu mesmo não dava conta de tudo. Hoje, a maioria de nós está caminhando mais por inércia: digamos que, ao invés de estarmos "postando", estamos, na maior parte do tempo, "mantendo os blogs atualizados". E existe uma diferença bem grande aí. E o leitor habitual é o primeiro a perceber isso.


"De uns 6 meses para cá, notei uma queda acentuada no número de comentários - o que, de certa forma, coincidiu com o auge do Twitter. Os índices de acesso aumentam cerca de 20 a 30% ao mês, então o motivo não seria falta de visitantes. Gastei quase um dia inteiro para fazer dois tutoriais, e recebi apenas 1 comentário em cada um. Isso é desanimador, pois o melhor de ter um blog está em saber a reação dos meus leitores. Ok, temos agora os RTs do Twitter, mas confesso que sinto saudades dos comentários e sei que a falta deles trata-se de um acontecimento geral."
Juliana

Dicas Blogger


Ou seja, algo precisa ser feito, mas também da parte de quem posta. Acho que é hora de dar uma sacudida geral na blogosfera. Este assunto, claro, é muito mais abrangente e acho que deve ser tratado como um problema separado, especialmente porque tentar descobrir se a blogosfera está parada porque os comentários caíram, ou se os comentários caíram porque a blogosfera está parada, seria apenas colocar uma roupa nova na questão “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”.

E, claro, tem a terceira alternativa para o motivo do volume de comentários ter reduzido: perdemos a mão. Nossos textos caíram em qualidade. Toda vez que um texto meu não recebe o número de comentários que eu imagino, eu considero esta hipótese. Mas ter perdido a mão ou não é apenas especulação da minha parte, já que este é exatamente o ponto que estou tentando mostrar: não temos como saber se estamos escrevendo bem ou mal, sem os seus comentários.

Sem você, leitor, se manifestando, podemos dar o melhor de nós, mas estaremos sempre tateando no escuro.


"Deixar de receber comentário faz o blogueiro perder parte do carinho que nutre pela coisa, ficando apenas sua paixão de escrever. Isso significa menos textos, pois blogar passa a ser apenas uma forma de exercitar masturbação mental, algo que passa a fazer de vez em quando, enquanto não arruma local mais reconfortante para despejar esse desejo incontido. Até que encontra, e fecha o blog. E todos perdem."
Dragus
Pensamentos Equivocados


É evidente que ninguém quer leitores que se sintam obrigados a comentar. Qualquer blogueiro consegue identificar um comentário feito com tesão – seja ele positivo ou não - de um feito de forma automática. Queremos sim, que você, leitor, participe, mas apenas por que sentiu vontade disso. E é isso que tentamos fazer a cada texto novo: incitar você a participar do blog. Eu disse uma vez aqui no Champ: “quem faz o blog são vocês; eu apenas escrevo”. E isso é verdade.

Gostou do texto? Comente. Não gostou? Discordou? Na sua opinião, o sujeito só falou merda? Comente. Acha que não tem nada a dizer sobre o assunto? Você tem, acredite. Qualquer blogueiro sabe o que fazer com seu comentário, sabe como “usá-lo” e extrair o melhor do que você disse sobre o texto em questão.

E, por fim, ele sabe usar isso como ferramenta – e incentivo – para melhorar ainda mais o blog.

E, caso o texto estiver bombando de comentários, isso não quer dizer que o seu irá passar batido pelo autor. Confie em mim: eu leio cada comentário que apita no meu e-mail como se fosse o primeiro que recebo na vida. Porque – e isso não é demagogia – não é o número de comentários que importa. É o SEU comentário que importa.


"Existe claramente uma tendência das pessoas comentarem no Google Reader e no Twitter. Mas, quando você faz isso (principalmente no Google Reader) você só conversa com seus amigos. Na caixa de comentários de um blog, você conversa com o autor diretamente, e com as outras pessoas que frequentam aquele espaço, podendo fazer amizades. Eu fiz muitas amizades dessa forma."
Adriano Trotta
Blog do Trotta


Comentando, você pode fazer seu blog predileto, seja ele qual for, ainda melhor.

Comente, participe, opine, critique. O blogueiro quer isso de você: suas opiniões, suas ideias. E ele te convida a mostrar todas elas, a cada nova postagem que publica. Porque, por melhor que um blog seja, ele não vive sem comentários. Quando muito, e com sorte, ele consegue sobreviver sem comentários. E mais nada.

Sim, é você, leitor que está aí do outro lado da tela, que faz um blog ter vida. E você faz isso com seus comentários. Eles têm mais importância para a gente do que você pode imaginar.


"Por mais que surjam meios de se monetizar conteúdos, não há remuneração mais gratificante para um autor de blog que um comentário. Porque não há reação pior do que a apatia, o silêncio, a indiferença. Sim, todo blogueiro é carente de atenção. Mas que atire o primeiro mouse aquele que não deseja despertar uma emoção ao expor um texto publicamente. Parafraseando aquela composição da dupla Alice Ruiz & Arnaldo Antunes, um blog sem comentários é como um coração que não bate nem apanha."
Alexandre Inagaki
Pensar Enlouquece


Se você é blogueiro, sinta-se convidado a levar esta discussão ao seu blog, para os seus leitores. Faça um texto – você é bom nisso que eu sei – e espalhe a ideia. Espalhe entre seus leitores, convoque os blogs amigos a fazer o mesmo.

Para ajudar, seguem até mesmo opções de banner (que não contém em lugar algum o nome ou o endereço do Champ, pois o objetivo destes textos jamais foi a promoção deste blog). Escolha o que mais lhe agrada, faça um texto a respeito, passe a ideia para frente.








Agora, se você é apenas leitor, peço apenas que pare e pense um pouco sobre seus blogs preferidos.

Lembre-se de alguns textos que você leu ali. O autor daquele blog é alguém que, muitas vezes, passou horas escrevendo o melhor texto possível, com o objetivo de fazer você gargalhar na hora do almoço, chorar no meio da madrugada, aprender algo novo ou passar o resto do dia pensando em algo que você nunca tinha percebido antes.

E tudo o que ele quer em troca destas horas que ele usou escrevendo para você é um comentário que levará apenas um minuto para ser escrito.

Você não acha que vale a pena?



Nota: Este blog agradece imensamente a todos os blogueiros que enviaram os depoimentos publicados acima.

1 de setembro de 2010

Morte

Estava no vazio.

Nada ao seu redor, somente branco. Sem paredes, sem céu, sem chão. Mas, mesmo assim, ele estava deitado, apoiado em algum lugar. E arrastou-se para o lado, tentando se levantar. Não conseguiu.

Queria apenas que a dor, que o deixava totalmente vazio e sem vida, parasse. Ou, ao menos, diminuísse e se tornasse suportável. Assim, poderia ao menos pensar no que fazer. Poderia pensar onde errou, qual esforço foi em vão.

Mas a dor não parou. Pelo contrário. A cada tentativa de erguer, sentia-se enfraquecido.

E, na ausência de paredes para se apoiar, voltou ao chão logo na primeira vez que lutou para se erguer sobre suas pernas. De quatro, tentou se levantar novamente, em vão. E caiu definitivamente, lembrando-se do seu passado e de tudo o que vivera até então, tantas histórias, gargalhadas, lágrimas...

Lembrou-se de tudo, antes de perder a consciência.

Definitivamente.

E, num suspiro, se foi.

Assim morreu o blog que não recebia mais comentários de leitores.

Fim
Este texto é puramente ficional e não se refere, de forma alguma, ao Championship Vinyl ou ao Championship Chronicles. Mesmo assim, obrigado por terem voltado a comentar no blog.

Rob Gordon X Bêbado da Fnac

Sabe aqueles dias nos quais você precisa matar alguém?

As mulheres chamam de TPM. Eu sou mais sincero e chamo de “dias que preciso matar alguém”. Sim, é esse o nome. Tem outros nomes, como “o dia em que o Rob está com os cornos virados”, ou “o dia em que o Rob está virado no saci”. Mas eu particularmente prefiro “dias que preciso matar alguém”.

E não é “dias nos quais preciso matar alguém”, é “dias que preciso matar alguém” mesmo, porque homicídio e concordância gramatical não necessariamente precisam andar juntos.

São os dias em que tudo, absolutamente tudo, deu errado e eu, em algum momento, explodo.

Ando pela rua torcendo para que alguém menor que eu surja do nada, puxe uma faca e mande-me entregar o celular. Assim, eu tenho todos os motivos do mundo para fazer com que ele coma a faca, o celular e provavelmente um dos meus tênis. Claro que nunca aconteceu nada, mesmo porque se existisse um homem menor que eu, ele estaria no Livro dos Recordes e não assaltando por aí.

Mas o outro motivo pelo qual nunca aconteceu nada é que meu rosto, quando estou assim, não deve ser dos mais simpáticos. Alguns meses atrás eu tive uma crise dessas e fui para a Paulista. Eu andava pela calçada e as pessoas iam desviando e abrindo caminho para mim. E evitando me olhar nos olhos. Num determinado momento, minha vontade era parar e berrar: “vocês não têm vergonha de sentir medo de alguém do meu tamanho?”

Sim, eu sou estourado. Puxei do meu pai. Já arrebentei porta de guarda-roupa com um murro, e quem leu minha saga das Copas sabe que em 1994, quando a Holanda empatou o jogo das quartas de final, afundei a tampa do quadro de luz da casa da minha mãe com uma cabeçada (se você não leu, está aqui).

Mas, quando eu explodo, dura apenas cinco minutos. Já os dias nos quais eu preciso matar alguém são bem mais raros (felizmente) e o ódio dura muito mais (infelizmente). Nesses dias, se eu fosse um personagem de Star Wars, o Darth Vader ligaria para o Imperador assim que me visse, para falar:

– Mestre? Acho que tem um lado negro mais negro ainda que o nosso. Você nunca me disse nada sobre isso. Sabe de algo a respeito? Porque, pelo que vi, lá parece ser mais promissor em termos de carreira. Isso sem falar na satisfação pessoal.

Enfim, ninguém precisa ficar assustado. Estes dias nos quais o Michael Douglas em Um Dia de Fúria perguntaria timidamente se pode andar comigo na rua, como meu assistente, são raros mesmo.

Mas recentemente tive um deles.

Estava andando pela rua com a minha melhor expressão Charles-Bronson-em-qualquer-Desejo-de-Matar, quando o tal moleque menor que eu com uma faca surgiu do nada, mas na figura de um guardador de carros bêbado. Foi ali, na frente da Fnac.

– Ei! Vozzzzzê aí!

Eu parei e olhei.

Eu já havia visto este bêbado ali algumas vezes. Está sempre gritando e mexendo com as pessoas na rua.

Enquanto ele se aproximava, tentei incinerá-lo com meus olhos. Não deu certo.
Meu punho se fechou.

Como estou jogando Batman – Arkham Asylum no PS3, planejei com cuidado cada um dos meus movimentos. Eu iria quebrar o nariz dele com um murro; ele iria ficar tonto; eu daria uma voadora; ele cairia para trás, sobre o capô de um carro estacionado a poucos metros. E eu terminaria a surra o segurando pelos cabelos encardidos e enfiando meu joelho em sua boca. Quando ele estivesse no chão, tentando contar os ossos quebrados, eu diria apenas “volte para sua cela ou eu irei atrás de você”, estalando o pescoço.

Meu punho apertou.

Não, melhor. Lembrei-me do Santino Corleone socando o Carlo Rizzi em O Poderoso Chefão. Ia cobrir o pau d’água de porrada até chegarmos perto de uma lata de lixo. E de metal, tinha que ser um latão de metal. Com o pinguço no chão, pegaria o tampo do latão e o surraria impiedosamente com aquilo, até deixar seu rosto desfigurado. Aí, me levantaria e cuspiria na cara dele, resmungando ofegante que “touch my sister again and I’ll kill you, seu bêbado filho da puta”.

(E, nos meus devaneios, o pessoal do Frans Café sairia correndo assustado para a rua, para ver o que estava acontecendo, e eu já quebrava um deles de porrada também, para puni-los pelo fato de nunca terem troco.)

Mas mudei de idéia. Primeiro, porque não tenho irmã. Segundo, a única lixeira ali perto é de plástico.

Não ia dar certo.

Estava pensando em qualquer surra que o Clint aplicou em alguém no cinema quando o bêbado decidiu que eu havia demorado demais. Era a vez dele.

– Vozzzzê conhezzzze zaquela piada do careca? Zzzzzzzá ouviu? Za piada do careca?

E de repente eu me lembrei que não sou o Batman, nem o Santino, nem ninguém.

Lembrei-me que sou o Rob Gordon.

Quer dizer, na verdade eu estava prestes a me tornar o Careca da tal piada, mas, naquele instante, eu ainda era o Rob Gordon. E, como Rob Gordon, eu não dou voadoras nem tenho tampas de metal de latas de lixo. Eu tenho só as palavras.

E, como o sujeito parecia estar bêbado demais para se lembrar de que um dia alguém disse “paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras não me atingem”, fui em frente.

– Conheço. É aquela na qual o careca manda o bêbado ir tomar no cu.

Meu punho continuou fechado.

– Zoi?

– É, é assim mesmo. Presta atenção que eu vou contar. Ok?

– Zok.

– Vai tomar no cu.

– Zoi?

– Eu avisei que já conhecia.

Pensei em colocar um “mortal” no final da minha frase, mas o bêbado não teria atentado a isso. (Nota mental: experimentar chamar alguém de “mortal” na próxima discussão que tiver na rua. Não me esquecer de fazer olhar de deus. Hades, de preferência. Procurar imagens no Google para futura referência.)

– Hum... Zaxo que não zera azzzim.

– Agora é. Vai embora antes que eu conte de novo.

– Tá. Xau.

– Tchau.

Virei a esquina, me apoiei na vitrine da Fnac e fiquei rindo por cinco minutos.

Às vezes, é mais fácil do que a gente imagina.

E mais divertido.