15 de setembro de 2010

Os Antepenúltimos Passos de um Homem

Eu sempre andei muito rápido. Desde criança.

Especialmente quando eu estou sozinho. Digamos que, de cada dez pessoas que encontro nas ruas, eu ando mais rápido que oito – e ainda fico puto quando sou ultrapassado pelos outros dois. Algumas pessoas podem ter a impressão de que estou correndo, mas, na verdade, estou andando. Aproveito que não sou internacionalmente reconhecido pela estatura e vou desviando de um cara aqui, ultrapassando outro ali. Literalmente, deixo as pessoas comendo poeira.

E, às vezes eu ando muito rápido quando estou acompanhado também. Não consigo evitar, é hábito. Assim, eu ando conversando com a pessoa, e, quando eu vejo, ela está ficando para trás (o que faz com que, a cada 10 minutos, eu escute um “dá para esperar?” ou “você pode andar mais devagar?”). Aí, diminuo o passo e fico me controlando para andar em velocidade de cruzeiro ao lado da pessoa, até que me desconcentro e pronto, já estou lá na frente de novo.

Porém, de uns dias para cá, eu tenho andado bem devagar.

E não, eu não me converti ao budismo, ou a qualquer outra religião que ensina que devemos aproveitar a paisagem e viver cada momento intensamente. Nada disso.

Meu problema é meu sapato novo.

Não, antes de continuar, vamos esclarecer uma coisa. Ele não é um sapato. O nome daquilo é sapatênis, mas não me sinto muito confortável em dizer isso aqui. Porque, sejamos sinceros, um sapatênis é, antes de tudo, um desvio na evolução. Uma aberração da natureza. O pessoal da indústria de sapatos deve ter se aproveitado de que Deus não estava observando e resolveu fazer um experimento genético, misturando as duas espécies para ver no que dava. Acharam que ficou legal e colocaram nas lojas.

O sapatênis é um erro de conceito. É o “samba rock” dos sapatos. E se você nunca ouvir falar em samba rock (eu invejo você por isso) pense, então, em refrigerantes: o sapatênis seria o Guaraná Cola.

Enfim, eu estava com esse sapato (Nota: em respeito à ordem natural das coisas, eu não vou mais usar o vocábulo “sapatênis”). E, admito que quando comprei, ele parecia confortável. Andei com ele pela loja durante alguns segundos e ele calçou bem no pé.

Mas, claro, era tudo mentira. O ambiente de uma loja de sapatos, com aqueles tapetes grossos, macios é feito justamente para fazer qualquer coisa que você colocar no pé ficar confortável. Pode reparar: algumas lojas de sapato possuem um tapete mais confortável que uma cama, para fazer com que até mesmo um pé de pato fique confortável, enquanto você anda pela loja ouvindo o vendedor dizer que “esta cor ficou ótima em você”.

Dois dias depois, eu já havia entendido que o sapato é confortável sim, desde que eu esteja sentado numa poltrona macia, assistindo TV e bebendo alguma coisa – de preferência com os pés apoiados em um pufe macio de veludo. Porque, no momento em que começo a andar, bastam apenas alguns minutos para perceber que a sola daquele negócio é feita de papel sulfite. E, por causa da consciência ecológica, devem ter usado no máximo duas folhas em cada pé. Não faço idéia da marca do calçado, mas, se eu precisasse apostar em qual fábrica a sola foi produzida, apostaria todo meu dinheiro na Chamequinho.

Sem sacanagem, graças à consistência do solado, eu me sinto o Demolidor andando pelas ruas. Basta eu pisar na calçada para saber exatamente o que existe sob meu pé: quantas pedrinhas, galhos e folhas de árvore, bem como e a composição química das pedras e de qual espécie de árvore a folha veio (não, eu ainda não pisei num cocô de cachorro com este sapato, caso você esteja se perguntando isso).

Ou seja, a cada metro, eu descubro um admirável mundo novo de objetos sob meus pés. O problema é que não consigo me concentrar em informação nenhuma, pois, graças à consistência de celulose do solado, eu venho descobrindo, também, novas interpretações para o conceito de dor.

Se eu ando mais de uma hora com este sapato, as solas dos meus pés começam a doer insuportavelmente. Visualmente, está tudo em ordem: meus pés não incham e nem ficam com bolhas. Eles apenas doem.

Mas doem muito. É um passo e um gemido. Se eu fosse masoquista, perigava eu ter um orgasmo por quarteirão. Eu não consigo andar mais de uma hora com esse sapato nos pés.

O que nos leva, agora, à noite do último sábado, quando, após passar o dia andando (e gemendo de dor) para cima e para baixo com a Sra. Gordon, fui ingênuo e, ao voltar para casa, fiz um caminho meio ousado, que consiste em atravessar a Paes Leme inteira, cruzar o Largo da Batata e subir boa parte da Teodoro Sampaio.

Em poucas palavras: eu e aqueles malditos sapatos havíamos andado o dia todo. Meus pés já doíam desde o meio da tarde, e eram mais de dez da noite. E, agora, nós três teríamos que cruzar o bairro de Pinheiros. Uma pessoa normal deve fazer esse percurso em cerca de 40 minutos. Eu, com um tênis ou um sapato normal, percorro esta distância em 25 minutos.

Mas, assim que pisei na calçada da Paes Leme, meus pés gemeram e pediram por clemência.

– Eu não vou chegar em casa hoje, profetizei baixinho.

Mesmo assim, tentei ignorar a dor e comecei a caminhar.

(continua)


46 comentários:

carlosjr.1991 disse...

"Especialmente quando eu estou sozinho. Digamos que, de cada dez pessoas que encontro nas ruas, eu ando mais rápido que oito"

É baixinho e gordo segundo suas instruções, se usa roupa vermelha parece o mario, se está andando, parece o mario kart \o

(piada horrivel, mals)

Rob Gordon disse...

Carlos:

Você se esqueceu do bigode (no meu caso, a barba)!

Em off: o Super Mario da família é meu irmão, qualquer dia conto essa história aqui.

Abraços

Adônis disse...

Hahahaha...

Ansioso pela continuação!!

carlosjr.1991 disse...

Já fica a dica então pra um dos proximos, conhecendo a familia do Rob, já que você mesmo, conhecemos todos os seus habitos e gostos (pelo menos os comentados).


Abraço!
Carlos Cruz

Friedriksen disse...

Hahahahaha, "É o “samba rock” dos sapatos" é frase de gênio.

Ricardo disse...

Tive um sapatenis...digo sapato destes uma vez Ganhei de presente da minha mãe "Usa filho, acho que vai ficar lindo no seu pé"....usei 3 vezes e desde então ele se perdeu num limbo temporal e nunca mais foi localizado.

Nelson disse...

Conheço bem esses sapatos que o vendedor fala "é como se você não estivesse usando nada nos pés", e infelizmente o desgraçado está certo. Aliás até acho que andar descalço deve machucar menos, pois pelo menos você sabe que está sem proteção nenhuma.

Por isso que hoje eu só ando de tênis de caminhada, nem chinelo eu tenho mais. Uso até a sola ficar "slick", hehe.

Agora, samba-rock foi demais.

Fabi disse...

Sapato machucando me faz ter crise existencial. Certeza que Schopenhauer usava sapatos de chumbo.

Hally disse...

Eu uso all star. E reclamo por ser muito baixinho e acabar com meus pés. Toda vez que tento comprar uma sapatilha ou um tênis diferente pra "experimentar algo novo" acabo me arrependendo muito. Então nunca mais reclamo dos meus velhos, imundos e "desconfortáveis" all star.

Esse pequeno texto foi pra dizer que sim, eu te entendo perfeitamente caro Rob Gordon.

E pelo visto, nós, leitores carentes, ganharemos uma saga! VIVA! \o/

Varotto disse...

Já pensou na possibilidade de não usar mais estes sapatos (por mais que também doa jogar esse dinheiro fora)?

De qualquer forma, já cheguei à conclusão de que dá para economizar em qualquer coisa: calças, camisas, cuecas, o que for; mas não dá para economizar com sapatos. De forma geral, infelizmente, existe uma relação diretamente proporcional (até certo ponto) entre o preço de um sapato e o conforto e durabilidade proporcionados.

Então, às vezes, deixar de comprar um sapato de R$200,00 para comprar aquele outro que custa R$40,00 e parece bonzinho também, pode resultar em desejos de morte e amputação.

E como calçados, pelo menos para mim, não são coisas que compro com muita frequência, isso acaba não tendo um impacto tão grande nas finanças.

P.S.: A próximas partes vão se chamar os penúltimos e últimos passos de um homem? :o)

Rob Gordon disse...

Fabi:

"Certeza que Schopenhauer usava sapatos de chumbo" é a frase do ano.


Hally:

Ganharam. :-)


Varotto:

Muito bem, Flipper.


Rob

Ana disse...

Aiai, homens...
Duvido que vcs consigam usar sandálias Melissa.
Salto alto...
Melissa de salto alto.

Tyler Bazz disse...

Eu poderia ter escrito o começo do texto, ando rápido pra cacete também..

Tenho um tênis que dá cãibra nos dedos do pé. Sabe aquela que algumas pessoas provocam de propósito quando estão deitadas no sofá? Aquela.
Dói, mas é legal. :D

Leel disse...

Eu ia fazer a mesma pergunta sobre jogar os sapatos fora, mas vou esperar até o final da saga.

A pior parte é que a gente não descobre a porcaria que comprou até usá-la de verdade.

Doctor Doom disse...

"É o “samba rock” dos sapatos" é frase de gênio. [2]

Juro que nessa parte do texto eu fiquei refletindo sobre sapatênis, guaraná cola, samba rock, ou o flamengo se mudar pra são paulo.

Kell Alves disse...

Me senti tão 'anormal': Adoro sapatênis!

Jady disse...

Meu marido costuma dizer que tem "pés sensíveis" e é uma novela comprar sapatos pra ele. Entra loja, sai loja, experimenta 1488 modelos e, dentre eles, 1 agrada.

Então dia desses, quando estava alimentando meu vício (leia-se comprando sapatos no passarela.com.br) vi na linha masculina uma marca chamada Sapatoterapia. Fui ler o bla blá bla wishkas sache todo e decidi arriscar alto comprando um sapato para ele, pela net e sem direito a prova ;-)

Pois não é que ele adorou, achou super confortável? E ainda disse que o pé está "sendo abraçado" ;-)

Bjs e abraços

Yara Balestrero disse...

Bom, eu tiraria o sapato e iria para casa descalça. Mas o Rob Gordon??? Nããããoooo, ele NUNCA faz o que a gente imagina.

Trotta disse...

Pufe macio de veludo = BICHA.

Ana disse...

"Tenho um tênis que dá cãibra nos dedos do pé. Sabe aquela que algumas pessoas provocam de propósito quando estão deitadas no sofá? Aquela.
Dói, mas é legal. :D"
De propósito? Dói, mas é legal?
Oi?
O Tyler é total masoquista. E você também por insistir em usar o tal "sapatênis".
Dor nos pés beira a tortura.

Varotto disse...
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Varotto disse...

Momento mudança de assunto:

Já parou para pensar que quando (e não "se", mi capisci?) você publicar seu livro, vai acabar tendo de colocar uma foto sua e acabar com todo o mistério?

Fim do momento mudança de assunto.

Mari Hauer disse...

Joga fora esse troço! Minha mãe tem loja de sapato, eu amo sapato e uso MUITO salto alto! Mas não compro um sapato que não consiga passar a noite em cima deles!

Imagino que vc não esteja acostumado com a sola do maldito, por ser muito fina! Eu tbm não consigo usar sapatos baixos com sola fina!

Procura uma palmilha que parece que tem um amortecedor no calcanhar! É ninja! Vc pode usar um sapato com a sensação de calçar um tênis e ainda fica uns 4 cm mais alto, olha que beleza! hahaha... Já resolvi dois dos seus problemas! Mas vou esperar o fim da saga pra saber que fim levou o tal do sapatênis!

Beijos!

Bruno disse...

E digo mais: sapatênis, samba rock, carne de soja e efeito de virada de página em livro digital.

Anna. disse...

Sério que existe "samba rock" ? MEDO.

Eu sou tão acostumada com meu All Star ferrado que acho muito estranho usar qualquer tipo de sapato que não dê pra sentir o chão em baixo dos pés. Então eu até gostaria desses xD

Natalia Máximo disse...

"O sapatênis é um erro de conceito. É o “samba rock” dos sapatos."

É a descrição perfeita pra essa atrocidade do mundo da moda. Só perde pra pochete e pras ombreiras (fora as clogs, horrorosas).

Mas, depois de andar o dia inteiro, se fosse comigo, meus pés já estariam anestesiados e eles só sentiriam a dor quando tirasse os sapatos. Os seus não?

Natalia Máximo disse...

"Sapato machucando me faz ter crise existencial. Certeza que Schopenhauer usava sapatos de chumbo."
Melhor comentário EVER.

Tiago J. Fonseca disse...

Olá Rob. Não costumo comentar, mas tenho que admitir que achei essa frase genial:

"O sapatênis é um erro de conceito. É o “samba rock” dos sapatos."

Aliás, poucas pessoas conseguem descrever uma dor no pé como você, muito bom!

Fabi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabi disse...

"E digo mais: sapatênis, samba rock, carne de soja e efeito de virada de página em livro digital."

'CABOU. É isso.

Fabi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...

Viuuu, gasta uma graninha a mais e compra um sapato de melhor qualidade???

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Aposto que você continuou usando esses sapatos SÓ pra ter um post, você viu que eram desconfortáveis, e pensou:

"Ah, isso dá post, quando conseguir um eu tiro"

Conseguiu logo 3, viu que coisa boa??

Fernanda Fefis disse...

Uma boa palmilha é a solução do seu problema.. ^^

Fan Club Gordonianos(as) disse...

Rob e suas sagas fodas!

Opior é vc comprar um tênis por 40 reais, só pra ter um reserva e na loja servir perfeitamente, e chegando em casa notar que ele simplesmente encolheu! Tive que tirar a palmilha, ou seja, alem de mega apertado(atrofia do dedos quase), também sinto o defeitos do solo.

Abçs
***Quase uma mãe, dando vida!***

Sr. Sem sono disse...

Cara, eu já andei tanto em Pinheiros, princiaplmente durante o dia, que imagino como vc se sente andando atrás daquelas pessoas lentas, ou deveria dizer LENTAS - pq sinceramente achei que era o único que se sentia vitorioso deixando milhoes de pessoas pra trás, e extrememnte irritado quanod elas fecham qualquer passagem e te obrigam a andar a passo de formiga!

Anyway, to ansioso pela continuação =)

PS. Leio seu blog tem mais de um ano e nunca comentei - não me mate, eu sou só preguiçoso em deixar comentários =)

Sil disse...

Pinheiros à pé e com sapato machucando?

Você é masoquista sim :P

Mas como a Ana falou, vocês homens nunca tiveram que usar melissa...e de salto. E o pior é que fizeram umas tão bonitinhas que dá vontade de comprar. E as danadas ficam confortáveis na hora de experimentar mas depois são uma tortura.

Não demore para a continuação, já estou ansiosa :)

Beijo

Barba Ruiva disse...

Rob, Rob...

Meu pai sempre me falou: "Compra a mais barato que o tecido é o mesmo."

De uns tempos pra cá eu percebi que, em se tratando de calças jeans, o corte faz uma diferença ABSURDA. Isso porque comprei calças que tinham o bolso muito grande, logo meu celular parava no meio da minha perna, e no vibra-call não era interessante quando alguém me ligava e eu estava do lado de pessoas mais velhas.

Isso passa com estes sapatos. Eu comprei um par na SIDEWALK e... tenho orgasmos de prazer - e não de dor - toda a vez que consigo colocá-los para caminhar.

Fica a dica: sapatos deste tipo - SideWalk.


Um grande abraço!

Camila disse...

Te entendo perfeitamente. Não posso usar sapatos de sola fina ou baixos demais e usar salto alto é uma tortura. Às vezes compro um sapato achando que é confortável e, depois de um dia de uso, tenho que aposentá-lo.

"O sapatênis é um erro de conceito. É o “samba rock” dos sapatos." - GENIAL!

gilgomex disse...

Sola de papel deve ser importante em determinados momentos... Dá pra usar o lado que não toca o chão para certas necessidades...

marcio sarge disse...

Deve ser estranho pra você ter que usar um sapato que reduz seus atributos (como a super velocidade) é como ser atingido por um estatus negativo em jogo de RPG kkk.

Você deve ta vendo o mundo em câmera lenta agora.

M. disse...

Vc nunca usou um salto 15 né?
Pode apostar, é pior.

Por isso que sempre digo que tenho predileção por coisas exóticas, tais como: homens adultos, sapatos confortáveis... São coisas dificilimas de achar.

Rafael RFP disse...

Salve!

Sei como é um calçado com solado fino desse jeito; me lembrou um tênis tabajara que eu tive, que parecia que dava pra fazer leitura de braile com os pés!

No aguardo da continuação...

Abraço!

Barlavento disse...

"Basta eu pisar na calçada para saber exatamente o que existe sob meu pé: quantas pedrinhas, galhos e folhas de árvore, bem como e a composição química das pedras e de qual espécie de árvore a folha veio..."

Este é o sapato do CSI e você ainda não percebeu! Você pode tentar carreira no jornalismo investigativo...

"(não, eu ainda não pisei num cocô de cachorro com este sapato, caso você esteja se perguntando isso)."

Quando isso acontecer você será capaz de dizer a cor e raça do cachorro!

Melinda Bauer disse...

Bah Rob, tudo na vida é aprendizado, mesmo que seja sobre seus pés ou novas tecnologias sobre anatomia dos calçados.
Mas... não pensou num plano do B, como por exemplo comprar um croc ou qualquer chinelo e aliviar imediatamente o contratempo?
Me responde uma coisa...:Teu avô não era português?
Eu já passei por isso com uma bota, mas naquela época(muito distante) meu orgulho me impediu de tirar a bota e partir para o plano B.

O resultado é que quase cheguei às medidas extremas . Amputação?

Beijo