17 de setembro de 2010

Os Penúltimos Passos de um Homem

(Leia os Antepenúltimos Passos aqui)

Você já andou com dor nos pés?

É mais que dolorido. É ridículo.

Você começa a andar e os pés começam a doer. Você sente um pequeno desconforto, mas continua. Porém, conforme a dor nos pés aumenta de intensidade, seu instinto de sobrevivência começa a fazer com que você, inconscientemente, comece a pisar de modos diferentes a cada passo para aliviar a dor – é quase como uma redistribuição de renda, apenas trocando a “renda” por “dor”.

Então, num momento, você se apóia no lado de fora do pé (“ai!”); no outro, somente com o calcanhar (“que dor!”); no seguinte com o polegar (“merda”). É evidente que isso se reflete na perna, e assim você acaba andando completamente torto pela rua.

Aliás, “completamente torto”, não; “estupidamente torto” parece ser uma forma melhor de descrever.

A cada passo, o seu modo de andar muda drasticamente. Aparentemente, os pés acham que isso pode ajudar com a dor, e não fazem idéia da vergonha que você passará na rua. Num passo, você se locomove pela rua como um alienígena; no seguinte, feito uma pessoa com má formação óssea; no terceiro, você já está parecendo um filhote de ganso aprendendo a andar. Ou seja, em menos de dez metros, as crianças na rua estão rindo de você, e as demais pessoas ao seu redor cruzam seu caminho dando cotoveladas umas nas outras e cochichando coisas como “olhe aquele imbecil”.

Para minha sorte, não havia ninguém na Paes Leme conforme eu comecei a caminhar, gemendo, em direção para casa. Mas, antes de chegar ao final da primeira quadra, descobri que meus planos de tentar ignorar a dor eram ousados demais.

O Batman sempre fala que “basta você isolar a dor e esquecê-la num canto do cérebro, para ela desaparecer”. Bom, talvez isso seja fácil quando você se veste de morcego e planeja pular de um prédio para o outro depois de levar um tiro no ombro ou de ter uma costela quebrada com uma pá. Mas tentar ignorar a dor nos pés andando no meio de Pinheiros é algo inviável.

Contudo, admito que tentei. Mandei a dor ir para algum canto remoto do meu cérebro.

Ela agiu como um adolescente: gritou que ninguém a entende no mundo, subiu as escadas correndo, bateu a porta do quarto e começou a ouvir música no máximo. E, com o volume da música, eu apenas trocaria a dor nos pés por enxaqueca. E dadas as minhas crises de enxaqueca, a troca não seria boa.

Ok, eu conseguiria andar um pouco mais, admito. Mas seria obrigado a andar pela rua de olhos fechados, fugindo de qualquer fonte de luz. Isso sem falar que se algum carro buzinasse perto de mim, meu cérebro explodiria como se eu fosse um personagem do Scanners.

Assim, não tive escolha: abri a porta do quarto, e entreguei os pontos. Avisei à dor que ela não estava mais de castigo e poderia voltar a brincar. Ela, evidentemente, pegou o seu brinquedo preferido (um martelo) e saiu correndo em direção aos meus pés para continuar a se divertir. Quando eu percebi o que estava acontecendo, ela já estava no meu pé esquerdo, dando marteladas e mordendo meu calcanhar.

Agora, se eu estava sofrendo, a situação dos meus pés era bem pior.

Entre um gemido e outro, cheguei a ouvir um pouco da conversa deles e percebi que algo de muito ruim iria acontecer lá embaixo: ou eles morreriam (a autópsia, claro, revelaria falência múltipla dos dedos) ou organizariam um motim e assumiriam o controle do meu corpo – e provavelmente eu seria executado como inimigo político do novo regime.

– Está doendo demais, disse o pé direito.

– Não podemos parar um pouco? Eu não estou agüentando, respondia o esquerdo.

– Não, Esquerdo, vamos tentar chegar logo. Precisamos descansar e nos reorganizar antes de fazer qualquer coisa.

– Se ao menos chovesse um pouco... Eu daria tudo para mergulhar numa poça agora, estou queimando aqui dentro. Estou ficando tonto.

– Estou com muita dor, também. Mas tente não pensar nisso. É pior.

– Vamos rachar um táxi, Direito? Eu não sei mais quanto tempo vou agüentar. Não é exagero. A gente larga esse babaca aqui e ele que se arraste até em casa.

– Chega, Esquerdo. Foco! Respire fundo e vamos.

– Eu não estou agüentando... Me deixe aqui, Direito. Tente se salvar...

– Esquerdo, mantenha sua concentração. Vamos em frente. Você consegue!

– Vou... Desmaiar...

– Esquerdo! Fique comigo! Abra os olhos!

– Um túnel... Ele é feito de esponja...

– Esquerdo! Você está delirando! Abra os olhos!

– Esponja... Que gostoso pisar aqui... Tão suave... Tão Macio... Olhe aquela luz...

– Fique longe da luz! Esquerdo! Não chegue perto da luz!

– Direito... Vem para cá, é tão gostoso aqui...

– Seu filho da puta! A próxima vez que você estiver na rua e precisar ir ao banheiro, é melhor você estar de fraldas, porque seu tornozelo irá quebrar sem motivo algum! Juro em nome do que é mais sagrado, eu não vou me esquecer disso!

Evidentemente, estas últimas frases foram dirigidas a mim.

Mas eu não estava mais ouvindo nada, e sim pensando num modo de aplacar minha dor. Tudo o que eu poderia fazer era plantar bananeira e tentar caminhar sobre as mãos até em casa, mas, como eu sou eu, era bem provável que eu enfiasse a mão num prego no terceiro passo e nunca mais pudesse escrever na vida.

Foi aí que eu percebi que não havia solução. Eu estava fadado a andar até a minha casa. Metro por metro. Passo por passo. Gemido por gemido.

A não ser que... Sim! Já que a dor era inevitável, o segredo era parar de pensar em como fazer com que meus pés parassem de doer e me concentrar em como fazer com que eles doessem o mínimo possível.

Se cada metro havia se tornado um verdadeiro calvário para mim, o segredo era diminuir o número deles. Ou, ao menos, não aumentar o número de passos de forma alguma. Uma das poucas coisas que me lembro de ter aprendido na escola é que a menor distância entre dois pontos é uma linha reta.

E era justamente isso que eu iria fazer.

Tracei mentalmente uma linha reta até minha casa. Manteria meu ritmo e não daria um passo sequer além do estritamente necessário. Desviaria apenas de muros e casas. E mais nada. As pessoas que desviassem de mim. Os animais que desviassem de mim. Os carros e ônibus que desviassem de mim. E, no caso dos veículos, eu não desviaria mesmo, porque ser atropelado por um ônibus causaria uma dor menor que a que eu sentia nos pés. Com sorte, talvez eu até morresse rapidamente, e, com mais sorte ainda, eu seria enterrado descalço.

Com isso em mente, fui caminhando – e dando graças a Deus que as ruas estavam desertas – e gemendo, disposto a não desviar cinco centímetros do meu caminho original. Durante alguns quarteirões, cumpri isso à risca.

Mas claro que meu azar, sábio e perspicaz, se adaptou rapidamente à minha estratégia.

Porque o meu azar é assim: ele entende o que estou fazendo com uma rapidez impressionante, se adapta à nova situação e elabora uma resposta imediata.

E foi justamente por isso, dois quarteirões depois que eu decidi não desviar de nada (e de ter raspado o ombro numa árvore, o que me fez incluí-las na mesma lista de casas, prédios e muros), minha vida se tornou um poema.

A saber:

No meio do caminho tinha um forró.
Tinha um forró no meio do caminho
Tinha um forró
no meio do caminho tinha um forró.

(continua...)


27 comentários:

Graveheart disse...

é uma pergunta idiota, mas... tirar os tênis e ir com a cara e a coragem sujando a meia não seria a melhor solução? :P

Gabriela disse...

Isso porque você é homem e jamais usou Melissa (é uma marca de sandálias de plástico)! Aí sim eu queria ver! Hehe

Rob Gordon disse...

Gravehart:

Então, como bom bicho de cidade, eu não sei andar descalço. Manja aqueles filmes em que as pessoas precisam andar sobre um braseiro? É a mesma coisa.

Além disso, à esta altura do campeonato, meus pés não doíam mais por causa do sapato. Eles apenas doíam. Não ia adiantar muito ficar descalço.

Abraços!

Rob

Tyler Bazz disse...

Eu acho bonito que é você ainda tem esperanças. Bola planos e estratégias pra se livrar da dor... tsc tsc tsc.

Yara Balestrero disse...

Aiiiiiiiiiii, Seu Robigordi, tô com muito dó...
Um forró no meio do caminho??? Os pés não vão querer entender isso, não vai ter negociação....

Nathalia disse...

ok, primeira vez que eu vejo uma descrição tao parecida com o que é andar de salto por horas depois de 21 anos de tenis.
a qualidade do texto é diretamente proporcional ao tamanho da sua dor!

Lilian disse...

Eu ia responder a mesma coisa ao Graveheart. Já passei por situação semelhante, e chega uma hora que não faz mais a menor diferença estar calçado ou não. Me identifiquei com o lance do andar de ganso, hahahaha. Comigo foi ainda pior, de mochila nas costas e montes de sacolas nas mãos. Para minha sorte, eu fiquei uma hora e meia sentada dentro do ônibus, a caminho da minha cidade, o que diminuiu um pouco a dor. Em vez de ganso, acho que parecia só um patinho novo andando pelo caminho da rodoviária até meu carro, rs.

Juju disse...

eu sou uma pessoa que sofre de pés sensíveis e acredite, tirar o sapato ajuda sim, pq né? chao geladinho, dá um refrescaaaada.... e adoro andar descalça. então, numa situação parecida, eu tomei coragem e tirei a sandalia assassina e andei descalsa pelas ruas do centro de SP. nada que um bom banho e muito alcool nao resolva!

mas, aqui entre nós, não rolava pegar um taxi, pelamor de Dadá?

Ana disse...

Preciso dizer que eu admiro muito quem escreveu aqui que ficaria descalço. Eu não ficaria descalça andando pelas ruas de São Paulo nem que eu tivesse quebrado o pé!
É uma daquelas aflições que fazem parte dos meus piores pesadelos. Sério.
E, Rob, o que foi esse diálogo entre os pés? hahahahahahaha
Muito bom!
O difícil é, como sempre, ter que esperar a continuação da saga, ainda mais com um poema como esse no final...

Tiago J. Fonseca disse...

Rob, o Rei do Drama.

Bebel disse...

Poxa, já andei descalça uma vez pq estava chovendo e eu estava de salto, uma combinação q não dá muito certo. E uma outra vez meus pés estavam doendo por causa do salto e meu marido tirou as meias, me deu e eu fui andando feliz e contente só de meia pelas ruas. O mais engraçado é o olhar das pessoas, uns sentem pena, outros acham estranho.

Mas falando sobre o post, o texto é ótimo. O único problema é a espera. Eu odeio esperar, Rob!!!
Adianta, aí!!!

Mari Hauer disse...

Ai Gzuiz amado!

Eu morro de curiosidade com essas sagas! Nunca tive muito problema com dor nos pés. Não porque nunca senti, mas porque sempre deixei doer!

Fiz ballet clássico durante uma vida e meus pés viviam em bolhas! Já manchei muita sapatilha com sangue, um nojo! Queria ver seu pé esquerdo ser lazy se conversasse com os meus! HAHAHAHA...

Hydrachan disse...

Nossa... Quanto sofrimento. o.o

É por essas e por outras que eu tenho um lema: quando alguma coisa incomoda, livre-se dela. ò.ó

Da próxima vez, livre-se dos seus pés!

=*

Filipe disse...

Rob, fique feliz por ter problemas só com o sapato.

Pior seria se você corresse apenas meia hora por dia durante apenas duas semanas numa esteira e percebesse a formação de calos no pé direito.

E percebesse que esses calos eram causados por seu tênis, já velho e gasto.

E perceber que, trocando de tênis, os calos pararam, mas a dor continuou.

E finalmente descobrir que a real causa da dor é o seu pé, que tem uma pisada errada, mais pra fora do que deveria, o que causou inclusive o gasto excessivo no tênis anterior.

Se eu conseguisse fazer um texto com a qualidade do seu o meu blog ganharia uma saga de uns cinco capítulos...

Fernanda Fefis disse...

Não sei pq.. mas pelo andar da carruagem já vejo q nesse forró teve alguns pisões no seu pé... hehehe..

Aliás, acho q todo mundo já passou por uma situação dessas na vida.. de pensar q vai perder o pé.. mas só vc sabe fazer com que isso vire uma saga!!

Varotto disse...

Eu continuava descalço fácil...

Natalia disse...

Esse texto só reforça que nada é tão ruim que não possa piorar trinta e cinco mil vezes! :|

Rafael Sette Câmara disse...

Prova irrefutável de que usar sapatênis não é boa ideia. Como sempre, ótimo texto!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Concordo com o Tyler, porque você ainda tenta? Você sabe que vai se dar mal no final hahahahaha

Carlos Cruz disse...

O esquema mesmo é tirar o sapado do que doi mais, tirar a camisa, amarrar nele, e ir pulando nesse pé até sua casa ignorando os olhares escandalizados!

Abraço,
Carlos Cruz

Rodrigo Rigotti disse...

Eu achava que bolha no pé era ruim, mas me abdiquei desse pensamento right now.
[]'s,
Rodrigo

Bel disse...

Só digo uma coisa: EU RI! (e ainda estou rindo!!!!)

Aguardo ansiosa pela continuação.

Ricardo disse...

"A cada passo, o seu modo de andar muda drasticamente... Num passo, você se locomove pela rua como um alienígena; no seguinte, feito uma pessoa com má formação óssea; no terceiro, você já está parecendo um filhote de ganso aprendendo a andar."

John Cleese ficaria com inveja com este combo de silly walk.

Melinda Bauer disse...

Solução terminal para pés rebeldes!Rob você precisa recuperar o controle!!
Lindas próteses!

Abraço

Sil disse...

Ai, meus pés estão doendo só de imaginar.

E você ainda sacaneia colocando um "continua"...você não tem dó da gente mesmo :P

Leandro disse...

"– Um túnel... Ele é feito de esponja..."

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Matheus Silva disse...

pq será que o texto de um cara aparentemente retardado mental que traça diálogos entre as partes do próprio corpo é tao bom?