20 de setembro de 2010

Os Últimos Passos de um Homem

(leia os Penúltimos Passos aqui)


Foi ali perto do Sesc.

Eu estava a dezenas de metros do lugar e já ouvia a música. Dei graças a Deus por, minutos atrás, ter escolhido continuar com a dor a no pé e não ter optado pela enxaqueca.

Não me lembro ao certo da letra, apenas de que se tratava de uma composição formada por duas frases repetidas (à exaustão) e contendo as palavras “amor”, “rosa” e “mulher”. Era pavorosa. Se divulgassem um vídeo de algum soldado sendo interrogado ali naquele boteco ao som daquilo, as imagens causariam um incidente internacional e a intervenção de tropas da ONU no Largo da Batata.

Meu pé direito começou a resmungar que jamais conseguiríamos passar por ali e que deveríamos estar a caminho de um hospital. O pé esquerdo, ainda delirando de dor, cantarolava repetidamente os primeiros versos de Alegria, Alegria, com voz embriagada, embaralhando as sílabas e trocando o “caminhando contra o vento” por “se arrastando com o sapatênis”.

Mandei ambos calarem a boca e fui me aproximando devagar (mesmo porque eu não conseguia andar rápido), como um explorador que se aproximava de uma aldeia de canibais, pelo meio da mata, durante algum ritual tenebroso. Antropologicamente, aquilo era um verdadeiro tesouro. Mas minha tese de doutorado – que explicaria o elo perdido entre os frequentadores de um forró no meio de Pinheiros e o resto da humanidade – teria que esperar, como meu pé direito deixou claro, ao começar a gritar desesperado:

– As calçadas estão entupidas! Nós não vamos conseguir passar!

E ele estava certo. O caminho estava totalmente obstruído. Pelo menos umas oito mesas, todas ocupadas, tornavam a passagem quase impossível. Um pequeno corredor entre elas serviria como caminho para mim, mas não dei atenção a isso.

Aliás, não dei atenção a nada. Quando percebi que todos estavam sentados, em cadeiras de plástico amarelas – que, aos meus olhos, pareciam poltronas de veludo costuradas por ninfas e deuses– consegui apenas sentir ódio. Um ódio frio. Lá estavam os malditos, tomando cerveja, com os pés descansados e gargalhando, enquanto eu, o farrapo humano, cambaleava pela calçada como se tivesse saído de uma versão com cenas estendidas da São Silvestre.

Respirei fundo e comecei a passar pelas mesas, gemendo baixinho e consciente de que estava sendo observado cuidadosamente pelos nativos. Não era para menos. Pela forma torta e desconjuntada que eu andava, todos ali devem ter pensado que eu era alguma pessoa defeituosa pedindo esmolas.

Eu, no lugar deles, pensaria o mesmo.

Aliás...

Uma idéia surgiu na minha mente. Eu poderia usar tudo aquilo a meu favor. Considerei a hipótese de parar no meio das mesas e gritar:

– Pessoal! Desculpe atrapalhar o divertimento de vocês! É bastante humilhante estar aqui, mas poderia ser pior, eu poderia estar roubando! Oi, você pode abaixar a música um pouco? Obrigado. Como eu estava dizendo, estou pedindo a ajuda de vocês porque fiz umas escolhas erradas na vida e acabei comprando um sapatênis com sola de papel. Agora, eu estou tentando voltar para casa, mas meus pés doem demais, e eu não consigo andar direito. Tudo o que eu quero é voltar para casa! Então, ao invés de roubar, estou aqui vendendo essas caixinhas de Mentex, que são super gostosos, refrescantes e de qualid...

– Eu não gosto quando você faz essa cara.

Olhei para baixo. Meu pé direito estava me encarando, um pouco assustado. Eu não respondi. As idéias fervilhavam na minha cabeça.

O cenário era perfeito. Eu estava andando todo torto e com cara de sofrimento. Na melhor das hipóteses, as pessoas teriam piedade de mim - na pior, me dariam uma moeda para eu ir calar a boca e me arrastar até outro lugar.

Se eu caprichasse no discurso, poderia conseguir umas moedas. Quem sabe uns cinco reais. Seria o início de uma nova carreira. Poderia ganhar a vida como mendigo. Ali na esquina da Teodoro Sampaio com a Henrique Schaumann tem um monte de moleques pedindo esmola, ninguém iria reparar em mais um – ainda mais um do meu tamanho.

Eu poderia também raspar os pelos do Besta-Fera e andar com ele no colo, fingindo que era meu filho – mendigos com criança de colo sempre se dão bem. Ou, melhor ainda, não rasparia nada, e andaria com ele no colo, todo torto e mancando, pedindo esmolas para meu filho que sofre com um problema de pelos no corpo.

– Rob?

Meu pé estava novamente tentando chamar minha atenção.

– Oi.

– Você está naqueles momentos de demência, certo?

– Oi? É... Hum... Não, claro que não! Estou apenas pensando como vamos passar por isso.

– Não minta para mim. Podemos apenas ir embora? Por favor?

Com um suspiro, deixei minha promissora carreira de mendigo de lado e olhei ao redor, tentando voltar à realidade.

Eu já devia ter ultrapassado umas quatro ou cinco mesas, e chegado no pior ponto possível da travessia. Passar pelas mesas havia sido fácil. Mas, cerca de dois metros na minha frente, o caminho estava totalmente obstruído por três casais que dançavam, ali na calçada mesmo e entre as mesas.

Eu resmunguei um “não vou desviar” para mim mesmo, e meu pé direito aplaudiu. Aproximei-me dos dançarinos e parei. No meio da calçada. No meio das mesas. No meio do inferno.

Fiquei assim por uns quinze segundos, estudando as pessoas que dançavam à minha frente. Dois casais deveriam ter cerca de vinte anos. O outro era de pessoas mais velhas, que certamente já deveriam estar na cama naquela hora, e não arrastando o pé daquela forma na calçada. Todos riam. De mim, provavelmente.

Resoluto em não desviar de nada nem de ninguém, eu tinha apenas duas alternativas: ou empurrava todo mundo e passava, ou eu parava. Como eles eram seis e eu era era um (ou melhor, eu era 0,8, já que não possuía mais os pés), decidi parar.

Fiquei imóvel no meio das pessoas, observando os casais dançando à minha frente (e tentando ignorar minha dor nos pés o suficiente para conseguir fazer meu olhar de assassino). Permaneci assim por cerca de quinze segundos, até que apareceu um garçom, levando cerveja e copos para uma mesa com três nativos.

Ele serviu as garrafas e, ao se virar para voltar ao bar, me viu.

Olhou para mim e, certo de que eu era um cliente recém-chegado, perguntou:

– E aí? O que você vai querer, campeão?

Pensei em responder “um escalda-pés”, mas dificilmente ele poderia me ajudar. Desta forma, fui sincero e pedi exatamente o que eu queria.

– Passar.

Ele parou e olhou para mim, procurando algum significado no que eu havia dito. Ou talvez ele não tenha ouvido o que eu disse por causa daquela música infernal. Tanto faz.

– Oi? Não entendi! Pode repetir?

– Eu quero passar, respondi apontando para as três duplas de Fred Astaire e Ginger Rogers do sertão que atrapalhavam o caminho.

Ele olhou para os bailarinos e entendeu a situação. E olhou de volta para mim, se preparando para dizer algo. Provavelmente, numa situação normal ele me mandaria à merda e mandaria eu desviar. Mas foi aí que percebi que provavelmente havia conseguido colocar meu olhar “eu posso matar você a facadas aqui mesmo, seu animal”, porque ele fechou a boca e mudou de idéia.

Olhou para trás e se dirigiu aos membros do Corpo de Baile do Distrito de Pinheiros.

– Vamos dançar lá dentro, pessoal! Vamos deixar as pessoas passarem!

E os casais foram correndo (sim, correndo, o que eu, totalmente desprovido de pés, lutei para não encarar como provocação) para dentro do bar, aproveitando os últimos acordes da história sobre a tal da mulher que amava uma rosa, da mulher rosa que amava alguém, ou algo assim.

E eu segui meu caminho, gemendo e andando torto.

Entrei em casa meia hora depois. Meu pé esquerdo foi hospitalizado – sua situação é estável, mas ele continua em observação. Meu pé direito não fala mais comigo desde aquele dia.

E eu só uso o sapatênis agora dentro de casa. E somente ir do quarto até o banheiro. Quando eu tenho que ir até a cozinha, coloco um tênis. E, elegante que sou, vale lembrar que, se vou até o banheiro com o sapatênis azul em um dia, no dia seguinte, uso com o sapatênis cinza.

Sim, porque o babaca aqui comprou dois pares. Ô fase.




Nota: Pessoal, estou experimentando um novo sistema de comentários no Blog. Se encontrarem algum problema para comentar, por favor, avisem.

28 comentários:

Anônimo disse...

2 pares??? ô tristeza...

Camila disse...

Rob, você é a única pessoa que consegue transformar um acontecimento tão simples em um enredo super divertido. Claro que para você não deve ter sido tão simples assim (os três posts mostram bem), mas olha, eu não teria tanto talento para escrever igual.

Lembranças a seus pés. Logo, logo o esquerdo se recupera e o direito volta a falar com você. E se livre dos pares de sapatênis. ;)

Eduardo Leal disse...

Certas coisas persistem em acontecer tanto, mas tanto com a gente , que as vezes pensamos que estamos sendo perseguidos por uma força maior. O pior é ter que conviver com isso por pura falta de opção.Por olhos alheios,isso pode soar até engraçado, mas nunca pra quem sente na pele, literalmente....rsrsrsrrs

Tyler Bazz disse...

DOIS pares? Puta que pariu!!!

Certeza que vc tá usando o sapatênis pisando no calcanhar, como se fosse um chinelo Rider com a frente fechada.

Enfim, se quiser investir na carreira de mendigo, a gente ajuda: par de havaianas brancas com tiras amarelas.

Kika disse...

Rob, você tem que aprender com a gente. Mulher não dá o braço a torcer, mesmo que aquele sapato LINDO esteja te matando, torturando, a gente aguenta. Afinal, o sapato é LINDO. A gente deve ter pago uma fortuna por ele. Ele é LINDO (again). E não vamos arregar. De jeito nenhum. Eu mesma mudo de canal quando tem aquelas reportagens sobre sapatos de salto muito alto e bico fino, que deformam os pés, fazem mal pras pernas, coluna, LALALALALA...rs.

Usa um All Star e foda-se o resto. ;)

Trotta disse...

Quando pés calam a boca, é porque a coisa tá feia.

Varotto disse...

Rapaz! Ou você confundiu as Travessias, ou eu não entendi a piada. "caminhando contra o vento" é de "Alegria, alegria" do Caetano.

Vai ver que é resultado da confusão mental causada pelos pés... :o)

Sil disse...

Dois pares...que bom...

Barlavento disse...

Em sua homenagem vim trabalhar de Melissa hoje.
Te aviso que já estou descalça aqui na sala.

Ana Savini disse...

O seu pé direito tem razão. Você é demente.
Hahahahahaha!

*eu acho que você devia comprar um All Star :P

MarianaMSDias disse...

Bem, o Varotto já falou, mas eu vou repetir que é pra vc peceber que seus leitores snao letrados, ao menos musicalmente falando... "Caminhando contra o vento..." são os versos iniciais de "Alegria, Alegria", e não de "Travessia" (quando vc foi embora, fez-se noite e meu viver...). Percebe a sutil diferença?

E depois, a pergunta que não quer calar: porque raios o ser humano não pega um taxi? Aposto que é só para poder escrever esse texto aqui!
javascript:%20IDCNav('IDCNavOpenID');%20showSignupOpenIDNewThread();
(e pensar que a Sra. Gordon tuitava toda felizinha que convenceu o namorado a comprar um moderno sapatênis... tsc tsc tsc)

Rob Gordon disse...

Verdade! Alegria, alegria!

Bobagem minha. Sorry.

MarianaMSDias disse...

Ow! Tá estranho esse negócio de comentar, ein? Não escrevi aquelas paradas ali em cima não! ;o)

Rob Gordon disse...

Sim, sim.

My Mistake. A música é "Dor, Dor". Não. "Alegria, Alegria". Vou arrumar no texto.

Beijos!

Lilian disse...

Gente, tá meio estranho esse Intense Debate por aqui. Tá tão diferente do meu blog! o.O

Alessandra Costa disse...

Isso não é possível, como alguém consegue pensar em tantas coisas enquanto sente dor nos pés ? meu cérebro geralmente para quando isso acontece comigo.
Aaah, eles estavam dançando FORRÓ, tinha que ter passado derrubando todos , onde já se viu isso ... haha. Ótima saga, muito boa mesmo :)

Yara Balestrero disse...

Dois pares, Rob Gordon??? Fáááááála sério... Ô fase.
Mas acho que se você continuar usando os sapatênis (mesmo que seja do quarto para o banheiro) os pés não vão ficar de bem nunca mais. Joga fora, como um sinal de boa vontade.

Pedro Lucas disse...

Esse comentário me loga automaticamente com minha conta do wordpress... Mas meu blog sério é do blogspot.com, ô fase...

Mar Rob, pra ser moleque de rua, por mais que você tenha tamanho, precisava ser uns 25 anos mais novo... hahahahaha

Fabi disse...

"fiz umas escolhas erradas na vida e acabei comprando um sapatênis com sola de papel" HAHAHAHAHAHAHAHA

Fabi disse...

Eu sou um homem. Porque não sei andar de salto, não tenho qualquer intenção de aprender, e só uso all star ou sandália. É, não sou sexy. Mas ao contrário do que repetem à exaustão, cheguei sem sinais de demência aos 26 assim, então pronto.
Desejo plena recuperação aos seus pés, porque dá vontade de amputá-los com faca de mesa quando isso acontece.

@Megale disse...

Algum tempo atrás, na loja de sapatos:

- Até que são confortáveis estes sapatênis.
- Gostou?, perguntou o vendedor.
- Gostei bastante, mas não sei se levo o azul ou o cinza.
- Porque não os dois? Posso fazer um desconto especial.
- Rob?
- Cala a boca, pé direito. Ele falou em desconto.

Rob Gordon disse...

hahahahahahaa

Foi mais ou menos isso!

Bruno disse...

Tá, eu sei que devia comentar sobre o texto (se bem que um sujeito que compra DOIS pares de sapatênis não sei não se merece meus comentários), mas...

sensacional esse troço aqui de comentários!

Nathalia disse...

sapatenis já é uma coisa que nao deveriam ter inventado, agora comprar dois de uma vez? é... nao foi muito esperto de sua parte. alias, nao passou pela sua cabeça em nenhum momento chamar um taxi? de qualquer forma, espero que seus pés já tenham se recuparado.

Barba Ruiva disse...

Rob, rob...


Realmente, eu estou traçando mentalmente o caminho que você fez para ir até sua casa...

Pior que nem dava pra jogar Zombie, Run! Né?

Já caí na imbecilidade de comprar algumas coisas porque eram bonitas, e me arrependi mortalmente (e.g. a calça que fazia meu celular ficar do colada com meu saco e toida vez que ele tocava era constrangedor, btw também comprei 2 calças dessa marca, as duas me revoltam e não as uso mais...)

Acho melhor você passar a comprar coisas pré-aprovadas por amigos. É sempre bom conhecer uma cobaia.

E... você tornou uma história dolorosa em coisa decente de se ler. Devia escrever um livro, sério. "Tristezas e Felicidades na vida de um Blogueiro" seria um bom título.

Abraços,

Barba

Irmão do Rob disse...

Rob:
i. vc comprou 2 sapatênis
ii. Vc sabe q o nome daquele sapato é sapatênis
iii. Vc escreveu 3 posts sobre a dor em seus pés sensíveis
iv. Vc pediu um escalda pés que nada mais é que um tratamento corpóreo
v. e, como prova irrefutável, vc sabe as cores dos seu sapatos

Vc foi promovido a bicha louca... Parabéns... Seus próximos blogs serão sobre o que? Maquiagem? Drenagem linfática? Celulite?

Daniela disse...

Kkkkk

Não havia pensado nisso, mais por alguns minutos seu irmão me corrompeu os pensamentos.... hehehehe

Daniela disse...

Kkkkk

Não havia pensado nisso, mais por alguns minutos seu irmão me corrompeu os pensamentos.... hehehehe