31 de março de 2008

Já Volto

Este blog está temporariamente lacrado pelo departamento de saúde pública por motivo de pneumonia.

Prometo que volto assim que eu melhorar.

Rob

29 de março de 2008

Contagem Regressiva

Eu sei que já disse isso aqui antes, mas morro de medo da minha síndica Brick Top. E esse temor vem aumentando cada vez mais. Primeiro, porque eu tenho certeza de que ela joga as pessoas que não obedecem aos regulamentos do prédio para os porcos selvagens que ela cria na sauna. Segundo, porque, de uns dias para cá, sinto que estou sendo seguido, já que aonde quer que eu vá, dou de cara com ela e aquele sorriso de mafiosa russa que ela tem.

Outro dia, por exemplo, precisei pedir para alguém resolver um problema do hall do meu andar, cujo teto estava parecendo um set de Malditas Aranhas 2. Entrei na portaria e cumprimentei o zelador:

– Oi, tudo bem?

– Tudo, e com o senhor?

Antes que eu pudesse responder, ouvi atrás de mim:

– OLÁ.

Senti um arrepio na espinha. A temperatura da guarita caiu uns 15 graus. O cheiro de morte invadiu o ambiente. Olhei para trás e dei de cara com ela.

– É... Oi.

– POSSO AJUDAR?

– Não... Na verdade... É... Tem umas aranhas lá no hall do oitavo andar... Não são muitas, são umas 30, só. Aliás, elas não estão incomodando ninguém. Estava só comentando mesmo. Bom, o papo está bom, mas...

– ARANHAS?

– É. Aranhas. Desculpe.

– VOU PEDIR PARA QUE ELAS SEJAM MORTAS.

A temperatura caiu mais cinco graus quando ela disse a palavra “mortas”. Aproveitei que ela saiu da portaria para procurar o coitado do faxineiro e passar a ordem de execução, e saí correndo dali para rua.

E isso foi apenas um exemplo. Basta eu colocar o pé no prédio que dou de cara com ela. Mas essa semana foi pior. Desde o começo do mês eu entrava no elevador e dava de cara com a convocação para a reunião de condomínio. Eu, obviamente, nem olhava a data que iria acontecer, porque não iria mesmo. Primeiro, porque se eu quisesse estreitar os laços com os meus vizinhos, eu mandava tirar a porta do meu apartamento. Segundo, porque o que decidirem ali, para mim, está bom. Terceiro, porque tenho medo dela sim, então eu duvido que diria qualquer coisa que não fosse “sim. senhora” na reunião.

Quinta-feira à noite. Fui jantar com um amigo meu e voltei para casa pouco depois das 22:00. Entrei no prédio, carregando uma garrafa de Coca. Passei pela portaria e vi um movimento no salão de festas. Vale dizer que até então eu não sabia que meu prédio tinha um salão de festas. Curioso, estiquei o pescoço pela janela e dei uma espiada.

Algumas pessoas sentadas em cadeiras, com papéis nas mãos. Reconheci uns dois moradores. Todos olhavam para um determinado ponto do salão. Arrisquei olhar naquela direção e dei de cara, obviamente, com ela, falando alguma sobre as vagas da garagem. O problema é que ela estava falando com os outros condôminos, mas os seus olhos estavam apontados diretamente para os meus, como duas lanças de gelo.

Na mesma hora me escondi atrás de uma planta e fui correndo para o elevador. Tudo o que eu queria era sumir dali antes que ela viesse tirar satisfações comigo. Coloquei o pé no hall de entrada. O elevador estava no 14º andar. O último. Apertei o botão e fiquei esperando, sentindo o pânico crescer a cada segundo.

13.

12.

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Comecei a ouvir vozes. As pessoas estavam saindo do salão de festas. A reunião tinha acabado. Isso significava que ELA estava saindo do salão de festas. Comecei a apertar o botão com força. Eu sei que isso não funciona, mas o medo falou mais alto. Comecei a forçar a porta do elevador. Caso ela abrisse, eu me jogaria no fosso e acabaria logo com tudo. Pelo menos seria mais limpo.

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6.

As vozes começaram a ficar mais altas. Comecei a me preparar para, a qualquer momento ouvir, atrás de mim, a frase “VOCÊ NÃO COMPARECEU À REUNIÃO DE CONDOMÍNIO” com o mesmo calor e afeto de uma lápide. Pelo volume dos sons, as pessoas estavam quase na porta do hall. E eu ali, indefeso, armado somente com a minha garrafa de Coca Zero. Merda de elevador!

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2.

2.

2.

Parou! Parou no segundo andar! Filha da puta! Solta essa merda! Comecei a chacoalhar a porta do elevador em pânico. Ouvi a voz dela próxima a portaria, falando alguma coisa com o zelador. Provavelmente, estava avisando que me jogaria aos porcos da sauna e que alguém teria que recolher meus restos ainda pela noite. Merda de vida. Merda de porcos.

1.

T.

Abri a porta do elevador. Estava vazio. Ou seja, parou no segundo andar de sacanagem mesmo, só para me complicar. Entrei correndo, mas antes que eu conseguisse fechar a porta, ouvi alguém gritar do hall:

– Segure o elevador!

Bom, era um tom de voz humano. Não parecia ser a síndica. Segurei a porta e coloquei um olho (e nada mais que isso) para fora do elevador. Era uma mulher de uns 40 anos que eu nunca vi na vida.

– Eu vou subir também!

Abri a porta do elevador. Ela entrou e apertou o botão para o quinto andar. Eu apertei o 8 e encostei na parede. Qualquer movimento em falso, eu racharia a cabeça dela com a garrafa de Coca. Ela se virou para mim:

– Você não foi à reunião?

– Não eu sou jornalista trabalho até mais tarde gostaria muito de ter ido mas não consegui mas juro que não foi por culpa minha e prometo que na próxima eu vou de qualquer jeito porque sempre quis participar disso porque acho que é importante.

– Quê?

– É... Não. Não fui.

– Ah, não perdeu nada. Foi chata.

Ela está me testando. Só pode ser isso. Deve ser uma emissária da síndica. Os tentáculos dessa psicopata estão se alastrando pelo prédio! Se eu concordar com o que ela disse, o piso do elevador vai se abrir e eu vou ser jogado no fosso. Provavelmente, os porcos estão lá embaixo hoje. Ela continuou me olhando. Está me analisando, tenho certeza. Está observando minhas reações para descobrir a minha opinião sobre as reuniões. Maldita!

Comecei a entrar em pânico novamente. Não sei mais quanto tempo eu agüentaria essa situação. Mas, do pânico, veio a coragem. A vontade e o ímpeto de resolver isso de uma vez por todas. Tenho que ser homem e dizer, de uma vez por todas, que não vou à reunião de jeito nenhum. Tenho que segurar essa mulher pelo colarinho e dizer que “pode avisar sua chefe que essas reuniões são um saco, eu não vou mesmo e se ela quiser me jogar aos porcos, não estou nem aí. Morro, mas não abro mão das minhas convicções!”.

– Choveu bastante hoje à tarde, não?, foi tudo o que eu consegui dizer.

– Choveu. Ah, o meu andar. Boa noite.

– Boa noite.

E subi sozinho até o oitavo andar. Esperando, a qualquer minuto que o piso se abrisse, que o elevador fosse explodido ou que eu começasse a sentir cheiro de gás vindo da tubulação. Nada. Quando o elevador chegou ao oitavo andar, abri a porta com violência usando o pé, temendo que ela estivesse no hall me esperando com uma faca. Nada.

Entrei no apartamento correndo e tranquei a porta, aliviado. Besta-fera dormia e Jonas (se você é novo aqui, Jonas é o fantasma que subloca meu apartamento) estava deitado no sofá, vendo futebol. Á sua frente, uma caixa de bombons. Vazia.

– Você foi à reunião de condomínio?, ele perguntou.

– Óbvio que não. Eu estava trabalhando.

– Ah.

Não foi um “ah” qualquer. Foi um “ah, você tem medo dela, esqueci”. Ignorei o comentário e fui jantar. Enquanto esquentava a lasanha, pensei no (a) meu (inha) vizinho (a) Jasmim. Ele (a) se mudou semana passada do prédio. Seu apartamento está vazio. O interessante é que ninguém o (a) viu saindo do prédio. Nenhum dos porteiros. Ninguém. Seus móveis não estão ali, mas ninguém viu um caminhão de mudanças. Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. E os porcos ali, na sauna.

Eu sei que não chego mais perto da sauna de jeito algum – os barulhos que vêm lá de dentro são assustadores – e não coloco mais os pés na garagem do prédio. E, na próxima reunião de condomínio, vou pedir folga do trabalho e chegar umas 3 horas antes.

E vocês já sabem: se eu ficar muito tempo sem postar é porque deu merda. Mandem a polícia procurar pelos meus restos na sauna.

Em tempo, deixo vocês com uma pequena homenagem a minha síndica, numa tarefa quase impossível para mim: o Top 5 filmes modernos de máfia:

1. O Poderoso Chefão – a trilogia inteira. Obra-prima. Revejo (e releio o livro) pelo menos uma vez por ano. Sim, eu sei que o III é mais fraco, mas ainda assim, sou mais um Poderoso Chefão fraco que o melhor filme do Chuck Norris. Meu preferido? Difícil dizer, mas fico com o primeiro. Apesar de achar o II muito mais filme.

2. Era uma Vez na América – na verdade, ele só perde para o Chefão porque são três filmes contra um, é covardia. E também porque não é um filme para qualquer pessoa. Mas também é um daqueles obrigatórios, que todo vertebrado tem que ter em casa.

3. Os Bons CompanheirosO Poderoso Chefão do Scorsese. Lembro que na primeira vez que assisti ao filme, quando Ray Liotta fala, logo no comecinho: “As far as i can remember, I always want to be a gangster”, eu respondi em voz alta: “porra, eu também!”. Foi amor à primeira vista. E até hoje tenho medo do Joe Pesci no filme.

4. O Pagamento Final – Sei que não é exatamente sobre máfia (é mais sobre tráfico), mas tem Pacino. E Pacino consegue deixar até mesmo Aristogatas com cara de filme de máfia.

5. Os Intocáveis – O que é o De Niro, gordo feito uma porca, fazendo Al Capone? O que é aquela cena do taco de baseball? O que é aquela cena da escadaria? De Palma, você está devendo um filmaço como esse há anos.

27 de março de 2008

Pague para Comprar, Reze para Sair - Final Alternativo e Top 5

Como andaram me cobrando nos comentários, fiquei devendo um Top 5 para o post duplo Pague para Comprar, Reze para Sair. Bem, sem mais enrolação, deixo vocês com o Top 5 principais tipos de adolescentes que freqüentam o Pão de Açúcar no sábado a noite:

1. Os aquarelas – Na verdade, todos eles são metidos a transgressores, mas os desse grupo precisam mostrar isso de qualquer jeito. São aqueles que têm mais cores que uma floresta tropical. Andam com uma peça de roupa de cada cor (já cheguei ao cúmulo de ver uma menina usando uma meia laranja e uma verde), cabelos rosas, camisetas rasgadas (normalmente manchadas de tinta, acrescentando mais umas seis ou sete cores no visual) e uma corrente (que roubaram do portão da casa da avó) no pescoço.

2. Os cifrões – São aqueles que fazem questão de mostrar para todo mundo que cagam dinheiro e tossem moedas. A camisa é de marca, a calça é de marca, o sapato é de couro italiano. O cabelo tem mais gel que toda metade dos CDs do Elvis Presley. E ele chegou no mercado com o carro importado do pai. No final, acabam sempre comprando duas latas de Itaipava – sem gelo, porque é mais barato.

3. As perdidas – São aquelas que claramente já se atracaram com a turma toda. Ela ficou com A na noite anterior, por que estava triste após romper o namoro de duas semanas com B e, para se consolar hoje, dará uns beijos em C, que é o namorado da melhor amiga (por quem ela sente uma leve atração). Mas já está de olho no primo de D e no segurança do Pão de Açúcar. A meta dela é fechar o alfabeto até agosto.

4. Os rockers – Andam com calças jeans apertadas, coturno e jaqueta de couro. Usam cintos e pulseiras repletos de tachinhas. Falam para todo mundo que detestam tudo o que toca em rádio, que é som de playboy. Mas a coisa mais pesada que escutam é Guns N’ Roses e estão sempre na galeria do Rock atrás de algo do Evanescene ou do Skid Row.

5. Os politizados – Estão sempre com aquela barba Nando Reis wannabe, camiseta do Che Guevara e boina. Ficam sentados na porta do supermercado, tomando vinho e emporcalhando a calçada com Cheetos, enquanto fazem planos para largarem tudo e irem morar em Cuba (onde conseguiriam seu sustento trabalhando como plantador de banana ou cineasta, tanto faz). Às vezes, aparecem com um violão, e ficam tocando Los Hermanos e Caetano Veloso à noite inteira, antes de voltarem para seus apartamentos de três suítes que dividem com a mãe e duas empregadas.


E, para compensar o atraso, apresento-lhes também o final alternativo para a saga:

Um dia desses, fui com um amigo até o Carrefour, comprar ração para a Besta-Fera. Enquanto no Pão de Açúcar o caixa sempre me recebe dando boa noite e perguntando se “você gostaria de usar o Cartão Mais?”, no Carrefour as coisas são muito mais humanas. Cheguei ao caixa e o operador estava socando o teclado da caixa registradora. Coloquei o saco de ração na frente dele. Ele olhou para mim e disse:

– Que merda! Porra, que sistema lerdo do caralho! Só trava!

E continuou socando as teclas, como se eu não estivesse ali.

Vou reclamar lá no Pão de Açúcar. Não sei se os preços do Carrefour são melhores que o Pão de Açúcar, mas ele é, com certeza, um mercado muito mais divertido.

24 de março de 2008

Carta Aberta aos Donos de Supermercados

É do meu conhecimento que, com a chegada da Páscoa, o consumo de chocolate (sobretudo na forma oval) invariavelmente aumenta, fazendo com que a data torne-se de extrema importância para o varejo brasileiro. Também é do meu conhecimento que expor os ovos de chocolate em armações colocadas nos corredores dos seus estabelecimentos (formando espécies de túneis) é uma estratégia de marketing muito bem elaborada, já que isso chama a atenção dos consumidores para a data com pouco investimento em materiais promocionais – afinal, a decoração é composta pelos próprios produtos.

Porém, em nome de todas as pessoas adultas (que, consequentemente, realizam suas próprias compras) cuja estatura gira em torno de 1.60m, solicito, humildemente que a partir do próximo ano, vocês coloquem alguns ovos de marcas reconhecidas e tradicionais também nas prateleiras normais. Não é necessário abdicar da tradicional exposição em arcos, mas faz-se necessário que vocês disponibilizem também ovos de chocolate de outras maneiras mais acessíveis.

Isso porque a atual exposição destes produtos no modo escolhido por vocês faz com que eles sejam de difícil acesso para pessoas da referida estatura, inibindo o consumo de alguns clientes que contam tanto com poder aquisitivo como disposição para adquirir ovos de chocolate.

Acredito que falo em nome de todos os membros dessa faixa de consumidores (pequena em estatura, mas considerável em volume) quando aponto algumas situações que, invariavelmente, sou obrigado a enfrentar todos os anos, em seus estabelecimentos, com a proximidade da Páscoa:

1. Como não alcanço os ovos, sou obrigado a pedir para algum atendente do mercado pegar o ovo para mim. Isso me deixa totalmente inibido em desistir de comprar o produto caso eu ateste que este não é do meu agrado (ex: invenções ridículas como ovos recheados de frutas tropicais, pedaços de frango ou mirra) e pedir para o funcionário “pegar aquele outro vermelho ali que eu quero ver”, repetindo processo até que eu encontre algo que cumpra minhas expectativas.

2. Novamente, como não alcanço os ovos, preciso ficar pulando embaixo dos aros feito um personagem de videogame no mercado para alcançá-los (nem sempre com sucesso), o que normalmente acarreta em dois constrangimentos:

I – ser obrigado a ouvir as risadinhas das pessoas que presenciam a cena;

II – ser cercado por crianças que, ao me verem pulando justamente sob os ovos de chocolate (o que leva à inevitável associação com o Coelhinho da Páscoa), se aproximam correndo e gritando, acreditando que sou algum promotor dando amostras grátis e brindes para promover alguma novidade achocolatada.

3. Ser atingido por um ovo Laka tamanho 21 no momento em que uma senhora, da mesma altura que eu, pulando para conseguir agarrar um ovo (como descrito no item 2), acabou se chocando com a armação, derrubando três ovos – o maior deles em cima de mim. Com isso, acabei descobrindo, que a resposta à pergunta “Coelhinho da Páscoa, o que trazes para mim?” é: “um hematoma no ombro”.

4. Desistir de pegar os ovos inatingíveis e, resignado, presentear meus entes queridos com ovos de marcas que não são penduradas nos túneis, como Chocolates Souza, Chocolates Jundiaí, Chocolates Dois Irmãos, Chocolates Alfredo, o que me garante a imagem de “mão de vaca”.

5. Desistir de pegar os ovos inatingíveis e, resignado, presentear meus entes queridos com caixas de bombons, o que me garante a imagem de “preguiçoso que deixou para a última hora e não encontrou ovo nenhum”.

Creio que, após isso, não preciso me alongar mais. Acredito que ilustrei bem a situação das pessoas da minha altura nessa época do ano e que vocês tomarão as providências necessárias para o próximo ano.

Certo de sua colaboração e no aguardo das devidas providências, agradeço antecipadamente.

Rob

19 de março de 2008

Pague para Comprar, Reze para Sair - Parte Final

(leia a parte I aqui)


Fui pagar. Aí que começou o drama. Parei na fila do caixa menos lotado e esperei. Como a molecada não tem dinheiro para ir numa balada, gastando seus preciosos centavinhos no mercado, eles precisam fabricar um “ficódromo” nessa realidadezinha medíocre, e o local escolhido para isso é a fila do caixa.

Então, não é difícil ver um casalzinho se chupando ali. Eu não sei o que tem de tão erótico num ambiente repleto de pilhas, revistas de fofocas e aparelhos de barbear pendurados, e com uma funcionária do supermercado perguntando se é débito ou crédito. Mas para eles, isso deve ser altamente excitante. O problema é que eles se empolgam, os hormônios explodem, a sensualidade aflora, os lábios se tocam... E a porra da fila não anda. Aí, dá-lhe Rob Gordon enfiando o carrinho nos adolescentes e fazendo aquela cara de “puxa, desculpe, não vi que você estava aí”.

E, enquanto eu esperava minha vez, em meio daquela suruba juvenil (o casal da frente dando mordida no pescoço; o casal de trás chupando orelha; eu pensando se comprava um Sonho de Valsa ou um Ouro Branco) meus pensamentos foram interrompidos por um barulho estridente vindo da direção do caixa ao lado do meu. Barulho de algo se quebrando. Algo de vidro.

Na mesma hora, o cheiro de vinho barato se espalhou no local.

Dito e feito. O Pão de Açúcar não tinha mais piso, tinha vinho e cacos de vidro. Em pé, no meio disso tudo, um dos moleques, com uma sacola rasgada na mão. Com o mercado todo olhando, ele ficou da cor do vinho e começou a brigar, gritando “que a sacola estava rasgada, que isso é uma falta de respeito, que vou querer outro vinho de graça, pois é meu direito”. E o cheiro de vinho se alastrando pelo mercado.

Que preguiça desse moleque. Só faltou ele começar a gritar que é tudo culpa da Rede Globo e que ninguém deveria mais comer no McDonald’s ou usar Windows. O problema desses adolescentes é que eles querem brigar pelos seus direitos, querem mudar o planeta, querem desafiar o sistema, mas, na primeira negativa que recebem, a única coisa que conseguem fazer é subir as escadas correndo, bater a porta do quarto e ligar o som no máximo.

O gerente foi até lá e, prestativo, disse que ele podia pegar outro vinho sem problemas.

Teoricamente, o problema estava resolvido. Mas o animal, ao invés de ir buscar o vinho, resolve usar o Pão de Açúcar como palco de sua futura carreira política. Virou-se para o caixa ao lado – que não tinha nada a ver com a história – e perguntou:

– Você viu que a sacola estava furada, certo?

O funcionário, visivelmente sem graça por estar na frente do gerente, balbuciou um “sim” tímido e enfiou a cara na máquina registradora, torcendo para não ser dragado de volta para a confusão. O moleque, claro, insistiu com o gerente.

– Ele viu que a sacola estava furada!

Nisso, o Pão de Açúcar inteiro começou a se amontoar ao lado do caixa, para ver o que acontecia ali – menos o casal à minha frente, que continuava exprimindo seu amor usando as línguas para isso. E o cheiro de vinho impregnando tudo devia tornar tudo mais excitante ainda para eles. E o nosso deputado ali na frente, eufórico e raivoso, lutando pelos direitos da população:

– É um baita absurdo! Vocês precisam checar a qualidade das sacolas antes de colocá-las aqui!

Comecei a ficar puto. Pensei em ir até lá e explicar para a merda do moleque que a merda do problema se resolveria assim que ele pegasse a merda da outra garrafa da merda de vinho. O gerente, querendo encerrar logo aquilo, repetiu, educadamente, que ele levaria outra garrafa de graça. O moleque, claro, nem ouviu e continuou agindo como se ele tivesse acabado de perder uma garrafa de Don Perignon. Eis que ele solta a pérola:

– É por que eu comprei vinho. Então o estrago foi menor. Agora, e se eu estivesse comprando comida? Como isso ficaria?

Eu juro que tentei me segurar. Juro. Pensei em começar a olhar os ingredientes da minha lasanha e esperar aquilo acabar. Comecei a pensar na minha coleção de CDs, nos meus DVDs. Tentei de tudo, mas não consegui me controlar. Simplesmente saiu.

– Se fosse comida não teria acontecido nada. É preciso uma inteligência fora do comum para conseguir quebrar um saco de pão de forma ou uma lingüiça dessa forma.

Falei. E falei alto. Alto o suficiente para a fila inteira olhar para mim e o caixa ao lado do deputado começar a rir. Ele, claro, começou a procurar quem tinha falado aquilo, mas uma das vantagens de você ter 1.60 é a facilidade de desaparecer numa multidão de cinco pessoas.

O gerente olhou novamente para o moleque e disse:

– O senhor pode pegar outra garrafa de vinho.

O deputado bufou, olhou para os lados e entrou no mercado novamente. Quando ele passou do meu lado, parou e olhou para as próprias pernas, percebendo que estavam respingadas de vinho. Bufou de novo e olhou para mim.

– Fala a verdade. Não é de foder? Manchou toda minha calça!

Ele não disse isso ao acaso. Ele falou diretamente para mim. Ele precisava do apoio de alguém da fila e procurou isso em mim.

Tolinho.

– Que coisa, hein? falei, segurando a risada.

– Os caras não olham as sacolas!

– Por isso que eu não confio mais em sacola. Eu levo tudo para casa na mão.

– Mas aí é foda!

– É, mas não vou prestigiar esse lance de sacolas, não. Venho dez vezes por dia no mercado, se for preciso, e compro uma coisa de cada vez. Mas não uso mais sacola.

– Pô, aí!

E foi somente isso que ele conseguiu articular em resposta. A frase dele foi tão complexa que eu não soube como responder. Logo, repeti o que eu tinha dito, para ver se a conversa avançava de alguma forma.

– Eu não uso mais sacola. É bobagem.

Continuou olhando para mim, provavelmente analisando minha sinceridade. Ou tentando arquitetar uma resposta com sujeito e predicado. Quando eu vi que isso seria em vão, resolvi encerrar tudo aquilo.

– O corredor de vinhos é ali.

– Ah, tá, respondeu nosso Nobel de Química.

Virou as costas e foi na direção dos vinhos, resmungando. Olhei para ele e, novamente, não agüentei (ok, confesso que não me esforcei muito, mesmo). Disse, em voz alta:

– Ah, sua calça está toda suja!

– Não é uma merda? Porra de sacola!, ele gritou de volta.

Antes que ele voltasse, ouvi, no caixa ao lado do meu, o seguinte diálogo:

– O que é isso?

– Coloca aí para gente pagar junto.

– Mas o que é isso?

– É para fazer brigadeiro.

– Você enlouqueceu? A gente está comprando vodka.

Eu nem precisei olhar para saber quem era, mas me virei assim mesmo. Um casal havia parado de se chupar para explicar ao virgem que fazer brigadeiro não era exatamente uma das metas da noite. Coitado, provavelmente achou que como os pais de alguém haviam viajado, a turminha iria se reunir para jogar RPG ou Winning Eleven.

Coitadinho. Acho que foi naquele momento que o castelinho de cartas dele desabou e ele percebeu que o mundo é uma imundície, repleta de sexo sem amor, música ruim e vinho barato. Ele ainda tentou convencer as pessoas a comprarem a idéia do brigadeiro, mas, quando a menina sugeriu, do alto das suas botas, que “o leite condensado pode, porque aí a gente faz batida”, ele desistiu e foi guardar o chocolate em pó, enquanto repensava sua vida e seus conceitos de felicidade.

Nesse momento, a mulher do caixa me chamou e, chutando cacos de vidro e escorregando no vinho, paguei minha lasanha. Olhei ao redor, não avistei mais o deputado e fui embora.

Em casa, enquanto abria a lasanha – segurando a Besta-fera com os pés – e com a quarta temporada de Nip/Tuck me esperando, me lembrei de um dos monólogos de Robert de Niro em Taxi Driver.

All the animals come out at night - whores, skunk pussies, buggers, queens, fairies, dopers, junkies, sick, venal. Someday a real rain will come and wash all this scum off the streets.

Está mais do que na hora de lançarem uma edição do diretor, com o acréscimo da palavra teenagers na frase. E bem no começo da frase, para ficar perto do “animals”.

17 de março de 2008

Pague para Comprar, Reze para Sair - Parte I

O zoológico de São Paulo está fazendo 50 anos. Parabéns a todos os bichos que estão ali e que há décadas aturam os visitantes pentelhos que ficam jogando amendoim dentro das jaulas; as crianças que gritam para os macacos; e os indivíduos que ficam enchendo o saco do leão quando ele decide sair da toca para tomar um Sol. Este blog deseja votos sinceros de felicidade aos animais (mas somente aos que ficam dentro das jaulas) pela data comemorativa.

Agora, eu acho uma tremenda sacanagem todo mundo ficar babando ovo em cima do zoológico e deixarem de lado o Pão de Açúcar da Teodoro Sampaio, que é um dos maiores catálogos de zoologia existentes. Especialmente no sábado à noite, quando é invadido por multidões de jovens que juntam as moedas e os passes de ônibus para conseguir comprar uma garrafa de vinho São Tomé ou uma vodka Smirnoff.

O problema não é que eles ficam nos corredores correndo, se xingando, jogando futebol com pacotes de Miojo, planejando quem vai ficar com quem no final da noite e fazendo zona na fila do caixa (ou melhor, nas filas, já que cada grupo sempre consegue ocupar três caixas para pagar a mesma garrafa). O problema também não é que eles não conseguem pronunciar uma palavra num volume menor que 125 decibéis. Não, o problema é que eu sempre me esqueço de que nas noites de sábado aquele lugar é um inferno, e só me lembro disso quando já estou lá dentro. E, aí, já é tarde demais.

Esse sábado, porém, a coisa foi pior do que imaginei. Claro que não chegou a ser emocionante como a noite em que o punk foi surrado lá dentro, mas foi bem pior que um sábado a noite comum. Não sei se os adolescentes de Pinheiros estão na época da reprodução, mas o número deles era muito maior que o normal. Andando pelo mercado, consegui traçar um inventário do local: cada corredor do mercado tinha, em média: 2 (duas) camisetas do Che Guevara; 1 (uma) camiseta do Legião Urbana; 3 (três) camisetas do Seu Madruga; e 4 (quatro) garotas que não sabiam andar de salto, mas, independente disso, usavam aquelas botas gigantescas que, até dois anos atrás, eram vistas somente nos pés de super-heróis nos quadrinhos.

Interlúdio: Aliás, qual é a dessas botas? Elas já não são bonitas, e têm a altura de um sobrado. É humanamente impossível alguém se equilibrar em cima daquilo. Aliás, se uma garota usando um par disso ficar imóvel duas horas em qualquer lugar do centro de São Paulo, quando ela resolver ir embora é capaz de descobrirem que dois ou três mendigos já se alojaram embaixo dos pés dela para dormir ali.

E, claro, tinha o virgem. Todo sábado tem um virgem andando ali, perdido no meio de uma turminha. Mas o virgem desse sábado era especial, provavelmente a coisa mais virgem que andou no planeta. Usava tênis, calça social e um pulôver claramente costurado pela avó, tudo combinando com seus óculos nerds e sua cara de quem nunca beijou na boca. Enquanto os amigos combinavam quem ficaria com quem, se levariam Doritos ou Fandangos, e discutiam se Old Eight combina com Tang Uva (adolescente sem dinheiro é uma merda), ele, com certeza, estava pensando na sua fantasia de Dragonball X, Y ou Z para o próximo campeonato de cosplay.

Em meio a tudo isso, este que vos escreve caminhava pelo mercado (com a tradicional cara de poucos amigos que eu uso em ocasiões assim) atrás de uma lasanha de calabresa. Aliás, eu realmente devo ser bom nesse negócio de fazer cara invocada, porque as pessoas realmente abrem caminho para mim, independente do meu 1.60 estar longe de ser ameaçador. Aliás, isso é de família: meu irmão, só com o olhar, faz até policiais desviarem dele.

Enfim: graças a isso, caminhei livremente pelo mercado (com exceção de uma menina que fingiu que não me viu e só abriu caminho quando eu parei na frente dela, com cara de tédio e suspirei, perguntando algo como “por que você existe?” com o olhar) e consegui resgatar minha lasanha e uma garrafa de Coca.

(continua...)

16 de março de 2008

Dance the Night Away

Pelo jeito, era carência mesmo.

Afinal, muitos leitores mostraram que ou posta logo ou apanha o blog continua sendo querido como sempre. Ou até mesmo mais. Teria muito a falar aqui sobre os comentários recebidos no último post mas como estou saindo para trabalhar (quem mandou não estudar e ser jornalista mode: on), deixo apenas um grande obrigado a todos. Vocês são o máximo!

E, claro, aproveito para cumprir uma promessa. Antes de sair, deixo vocês com o vídeo da louquinha que acreditava que o show do Iron Maiden era um misto de Woodstock e balada, como prometido no post sobre o show. Afinal, tem gente até que está fazendo greve de comentários até o vídeo ser postado.

Porém, antes de assistir ao vídeo, vale lembrar o seguinte Top 5:

1. Isso aconteceu horas do show, com nenhuma banda no palco se apresentando (como o som do vídeo deixa claro).

2. Ela se comportou desse jeito "tão feliz dentro do seu próprio mundinho" durante todas as longas horas que antecederam ao show, sem parar por um momento.

3. Às vezes, ela se enrolava numa bandeira do Iron Maiden e corria para os lados, quase derrubando os deficientes físicos daquela área.

4. Não importa qual estilo de música tocasse no sistema de som (heavy metal, death metal, hard rock, stoner metal, black metal norueguês). Ela dançava desse jeito em todas as canções.

5. Se você é a pessoa do vídeo ou o advogado dela, saiba que eu recebi esse vídeo por e-mail e trata-se de uma pessoa num show do Iron Maiden na Europa, realizado anos atrás. Logo, não me processe, porque você se enganou. Não é você (ou sua cliente) no vídeo.



Nos anos 60, tínhamos Mick Jagger. Nos anos 70, Fred Mercury.
Hoje... Bom, hoje nós temos ela.

14 de março de 2008

Dúvida

Eu estou carente, ou tenho achado esse blog parado demais?

Ou eu que me desencantei um pouco com ele?

Umas três centenas de leitores podem me mimar um pouco aí nos comentários?

Rob

13 de março de 2008

Caro Ozzy Osbourne,

As pessoas dizem por aí que o senhor acabou.

Andam falando que o senhor está completamente esclerosado, não se lembra das letras das músicas e que sua voz, que nunca esteve entre as 10 melhores do rock, piorou ainda mais. Além disso, dizem que o senhor nem sabe mais o que acontece ao seu redor, mal consegue articular uma frase inteira e que sua mulher, que não é exatamente a Miss Simpatia, manda e desmanda em você.

Dizem que a sua carreira solo não é a mesma desde meados dos anos 90 e está longe de chegar perto dos trabalhos que você fez no início da década de 80. E, claro, muita gente diz que apenas os seus primeiros discos estão próximos de chegar ao nível das suas músicas com o Black Sabbath.

Resumindo: dizem que o senhor deveria se aposentar. Aliás, dizem que o senhor já deveria ter feito isso já há algum tempo. Chega de gravar CDs. Chega de se apresentar ao vivo. Deixe espaço para os mais jovens, é o que eles dizem. É o que o senhor teima em não ouvir – e, provavelmente, vão falar que sua audição já está toda comprometida.

Mas o senhor insiste. Você insiste em gravar novos trabalhos. E continua saindo em turnê, mesmo com sua memória totalmente afetada e com condições físicas (no mínimo) discutíveis. E as pessoas estão falando que sua turnê atual nada mais é que um caça-níquel, com um set list contendo apenas 14 músicas. Estão falando que o senhor não vai tocar No More Tears porque sua voz acabou. Afinal, o senhor mal consegue se agüentar em pé no palco, que dirá quanto mais cantar uma música de mais de seis minutos em tons altíssimos.

E, agora, o senhor virá se apresentar no Brasil. Justamente na minha cidade. Exatamente no mesmo local em que poucas semanas atrás, foi apresentado um dos maiores shows da minha vida.

Bem, Ozzy... Eu tenho plena consciência de quem fala tudo isso é a mesma molecada que vai ao Palestra Itália naquela noite para assistir o show do Korn, uma banda que eles devem classificar como “bem lôca” e que provavelmente molhou a mão de alguém para poder sair em turnê ao seu lado.

Claro, eles devem conhecer suas músicas principais (afinal, quem não as conhece?), mas nem desconfiam que foi o senhor – ao lado de Tony Iommi, Bill Ward e Geeze Butler – quem criou o heavy metal como conhecemos hoje. Eles acham que você é apenas o cara do reality show. Ou, quando muito, “apenas o cara engraçado do Black Sabbath que canta No More Tears, que é bem lôca”.

Eles não desconfiam que, sem o senhor, provavelmente o Korn não existiria. Nem o Slipknot. Nem os Linkin’s da vida. Aliás, se a sua carreira tem um defeito, é esse.

Bem, eu não me importo se o senhor está cantando bem ou mal, se o senhor está bem fisicamente, se o senhor consegue lembrar as letras das músicas sem a ajuda de um teleprompter.

Não me importo com absolutamente nada disso. Eu não vou assistir ao seu show.

Eu vou ao estádio, sim, naquela noite, mas para prestar reverência. Porque eu, como qualquer pessoa que gosta de rock pesado, devo isso ao senhor.

Sem mais,

Rob.



1970. Provavelmente 80% da minha coleção de CDs nasceu aqui.

12 de março de 2008

En Passant

Algumas pílulas robgordianas

Os seguintes blogueiros indicaram este blog a prêmios:
O Antagonista (Este Blog Faz a Diferença / É um Blog Muito Bom, Sim Senhora! (duas vezes) / Awards Blogs Favoritos de 2007 / Diz que até não é um Mau Blog / Blog cabeça / Este Blog Vale a Pena Conferir); Nathy (My blog has total force); Rera (100 Pratas para o melhor conteúdo); The Rocks (Este blog vale a pena conferir); Geradori (Diz que até não é um mau blog). Agradeço a lembrança e já coloquei todos os selos ali ao lado. Não vou colocar aqui no post porque o Blogger sempre sacaneia minhas imagens.

Este blogueiro indica estes blogs a todos os prêmios acima (com exceção do “100 pratas para o Melhor Conteúdo”):
Blog Do Tyer, Blá-Bláismo, Estimulanet, Coluna do Lorida, Imponderavelmente Insustentável

Este blogueiro indica estes blogs ao prêmio 100 Pratas para o Melhor Conteúdo (idealizado por este blog aqui e cujas regras implicam em apenas três indicados):
Diego Moretto, Acepipes Escritos, Pequeno Inventário
Leiam as regras antes de passarem as indicações para frente.


A saga do meu cartão clonado conquistou a espantosa marca de 98 comentários (mas nenhuma resposta da merda da Visa), o que lhe dá o direito de entrar no panteão dos posts conceituais, jogando a clássica Don Juan da Claro para escanteio. Chupa, Dri!


Obviamente, vocês chegaram a ver este post do Capinaremos, que rodou a internet. É digno de aplausos. Parabéns, Zanfa! Qualquer elogio que eu fizesse aqui não descreveria a genialidade do post.

Após anos fazendo rock, os Beatles compõem a balada Yesterday. A música é apontada como uma das melhores da banda e uma das melhores baladas da história. Após anos fazendo rock, os Rolling Stones compõem a balada Angie. A música é apontada como uma das melhores da banda e uma das melhores baladas da história. Após anos fazendo rock, Rob Gordon escreve um post-balada para o Dia da Mulher. Um dos comentários recebidos propõe uma parceria com um blog sobre o Atlético Mineiro. Onde eu errei? Ô fase.

10 de março de 2008

A Morte não Manda Recado (a Tim também não)

(ou: Rob Gordon X Tim - Round 3)


Uma das piores bobagens que uma pessoa pode fazer é declarar guerra em várias frentes. Enquanto você precisa combater apenas em um lugar, suas chances de vitória são enormes. Mas, a partir do momento que você tem inimigos em todos os pontos cardeais, a probabilidade de que um deles consiga furar o cerco enquanto você está lutando em outro lugar é enorme. Isso é provado historicamente: no momento em que Hitler decidiu que ia peitar a Inglaterra E a União Soviética, foi só uma questão de tempo para um enorme “chupa Alemanha!” ser decretado na Europa.

Minha vida está parecida com isso, com a diferença de que, ao contrário de Hitler, eu não luto com ninguém por vontade própria. Eu entro em guerra apenas para defender minhas fronteiras dos exércitos bárbaros das tribos Visa, Tim, Terra, etc. No momento, estou com duas guerras declaradas: Visa (que tentou desestabilizar a economia do meu império com meu cartão clonado) e Submarino (que seqüestrou um livro que comprei de presente para um amigo meses atrás).

Eu sei que nem toquei nesse assunto do Submarino aqui no blog ainda. É que eu guardo essa ligação para momentos que eu preciso me divertir, porque aquilo é cafona demais. Você liga e eles dizem que vão transferir para “um de nossos tripulantes”. Não tem como ser mais tosco. A última vez que eu liguei, tentei falar para a mulher “levantar o periscópio ou acionar o sonar para encontrar a porra do livro”, mas acabei caindo na gargalhada no meio da frase. Claro que ela não me levou a sério e não me entregou o livro.

Ou seja, tenho que lutar em duas frentes – e não importa se uma delas é divertida. Agora, o problema é que essa semana eu descobri que tenho um agente inimigo infiltrado aqui em casa. Provavelmente ainda amargurada com minha vitória no Conflito do Celular Roubado, a Tim está, desde o final do ano passado, investindo em inteligência e contra-espionagem para conseguir sua vingança. E conseguiram corromper meu celular, agora. Ele virou um agente duplo.

Já faz uns dias que eu comecei a questionar a eficiência dele porque eu simplesmente não conseguia ligar para ninguém. Eu discava e a ligação caía antes de completar. Eu discava e caía de novo. Aí eu olhava para o visor para conferir o número e o celular ali, com aquela cara de idiota, fingindo que não era com ele. Detalhe que algumas ligações eram importantes (leia-se namorada brava e chefe, o que dá quase no mesmo, com uma pequena vantagem para o chefe) e eu ali, isolado do mundo, sem conseguir resolver nada. Cheguei a considerar que era o sinal, então praticamente me pendurei para fora da janela para tentar ligar e nada.

Todo homem é uma ilha, mas, de acordo com a Tim. Eu não sou uma ilha qualquer. Eu sou uma ilha com campo de força magnético que impossibilita a entrada de qualquer sinal de celular . Tudo isso porque a porra da Tim faz aquelas promoções onde você compra um Cebolinha na banca de jornal e ganha um celular. Logo, o sistema está totalmente congestionado e, como os atendentes de lá não são exatamente ganhadores do Nobel de Química, nem devem saber como começar a resolver isso. E o pior é que a empresa não faz nada para ajudar, porque metade das ligações deve ser feita pelos próprios operadores da Tim tentando vender mais planos ainda. Para se ter uma idéia, eu moro em São Paulo e faz meses que tem uma pessoa da Tim me ligando de Minas Gerais para me vender um plano.


Eu e meu celular estamos atrás da última Kombi.
O veículo à direita da foto é a caixa postal
com meus recados indo para a praia.


Agora, o engraçado é que a Tim consegue ligar para mim para me vender os novos planos repletos de vantagens e ofertas imperdíveis, mas eu não consigo ligar para a Tim para dizer que não quer oferta nenhuma, quero só conseguir ligar para as pessoas. Isso, claro, porque tentei ligar para a Tim várias vezese aconteceu a mesma coisa. Ou seja: nada. Eu disco e o celular fica me olhando com aquele olhar de tapado, dando a mesma desculpa: “estou procurando a rede”. Pior que ele fala isso e cai na garhalhada, nem tenta disfarçar mais.

Isso aconteceu MUITAS vezes ao longo dos últimos dias. Como eu calculei que a coisa era pessoal comigo (porque sempre é), cheguei a fingir que discava para alguém do telefone fixo até perceber que o celular não estava olhando. Aí, pegava o desgraçado e ligava rápido para alguém, mas ele estava esperto e – claro – desligava na minha cara de novo.

De repente, ele voltava a funcionar, assim como quem não quer nada. E, assim como quem não quer nada, ele morria de novo minutos depois. Ou seja, eu ligava para todo mundo que precisava sabendo que eu tinha uns 10 minutos para fazer todas as ligações. Ou seja, era mais ou menos assim:

– Alô?

– Oi, é o Rob. Estou ligando porque teremos que desmarcar nossa churrascaria de hoje, estou totalmente enroscado aqui no trabalho. Mas depois eu falo com você, tenho só mais 6 minutos para ligar para minha mãe, para a dentista e para o Visa, porque eles ainda não resolveram meu cartão. Vamos na quinta-feira, acho que rola. Abraços. Tchau.

Agora, o grande problema é que, no momento em que ele voltava a funcionar, eu recebia todas as mensagens de voz e de texto (mais ou menos 317) dos últimos dias, que deviam estar acumuladas em algum depósito virtual da Tim. E, aproveitando isso, o celular dava o golpe de mestre: eu ligava na caixa postal (quando conseguia, claro) e apagava as mensagens. Só que o infeliz se recusa a tirar o ícone de mensagem do visor (aquele envelopinho medíocre). Ou seja, de acordo com o celular, havia mensagens para mim. De acordo com a Tim, não. Então, eu tenho passado os dias com o celular apitando do meu lado reclamando que eu sou relapso e não pego minhas mensagens. O problema é que as mensagens não existem.

Idéia: “Vou mandar uma mensagem para mim mesmo, para ter o que apagar. Aí, aquele envelope de merda some”. Gênio.

Peguei o celular de um amigo e liguei para mim mesmo. Deixei o telefone tocar. Deixei cair na caixa postal. Eis que o celular, todo feliz, vibra e apita na mesa. “Tem mensagem para você”. Perfeito. Emocionado com a perspectiva de fazer aquele envelope idiota sumir da minha frente, liguei para a caixa postal. Atendeu aquela gravação débil-mental da Tim.

– Caixa postal da Tim. O serviço não está disponível no momento...

– COMO ASSIM?

– ... tente novamente em alguns minutos.

– COMO ASSIM NÃO ESTÁ DISPONÍVEL? VOCÊ ESTÁ AÍ, SUA IMBECIL! SE VOCÊ ESTÁ AÍ, O SERVIÇO ESTÁ DISPONÍVEL! EU QUERO MEUS RECADOS!

Claro que a gravação desligou na minha cara. E isso, claro, não porque é uma gravação, mas porque é uma gravação da Tim.

Isso já faz alguns dias. De lá para cá, meu celular tem apitado a cada 5 minutos para eu pegar as mensagens. Às vezes, eu tento ligar e a ligação não completa. Às vezes, eu tenho ligar e a gravação diz que o serviço não está disponível. Em ambos os casos, eu jogo o celular na mesa e dou uma gargalhada histérica.

Enfim, se você é meu amigo e quer falar comigo, deixe recado aqui no blog. Aqui eu (ainda) consigo baixar minhas mensagens. Enquanto isso, vou selecionando a melhor alternativa do Top 5 frases que eu vou falar assim que conseguir ligar para a Tim:

1. “Olá. Eu queria saber quais são meus recados. A caixa postal está fora do ar, então quero que você acesse meus recados e repita em voz alta para mim, imitando a voz das pessoas.”

2. “Tem mensagem para você. Tem mensagem para você. Tem mensagem para você. Tem mensagem para você. Tem mensagem para você. Tem mensagem para você. Tem mensagem para você. Tem mensagem para você.”

3. “Oi, tudo bem? Eu preciso resolver um problema com o meu cartão de crédito e com um livro do Submarino. Como eu não consigo ligar para ninguém porque vocês são ridículos, o que você prefere? Você vai ligar no Submarino e no Visa e falar por mim? Ou você prefere ligar para os dois ao mesmo tempo, aí podemos fazer uma conferencia e eu resolvo todos os problemas de uma vez.”

4. “Não olhe para trás. Não faça movimentos bruscos. Há uma luzinha vermelha na sua cabeça. Isso porque eu estou na cobertura do prédio do outro lado da rua, com um fuzil soviético com mira laser. Eu não consigo acessar minha caixa postal e, quando isso acontece, eu fico nervoso. Quando eu fico nervoso, meu dedo coça. O que podemos fazer?”

5. “Eu sou cliente da Tim há anos e estou tendo que ligar para vocês de um celular da Claro. Você pode me apontar qual o erro na frase anterior?”

7 de março de 2008

Dia da Mulher

Fui convidado a participar de uma blogagem coletiva agendada para hoje sobre o Dia da Mulher. Vou ser sincero, eu não vejo muito o que falar sobre o assunto. Primeiro, porque qualquer coisa que eu escrever aqui vai cair no clichê de “mulheres são corajosas, mulheres são fortes”, bem no esquema Maria, Maria de ser. Segundo, porque mulheres, para mim, são como vinho: eu gosto bastante delas, mas não entendo quase nada do assunto. E, quando acho que estou começando a entender, acontece algo que mostra que sou totalmente amador mesmo.

Mas a idéia me fez pensar não exatamente sobre o Dia da Mulher, mas sobre a idéia mulher. Fiquei com o conceito “mulher” na cabeça o dia todo. Passei o dia tentando defini-la na minha cabeça, mas não consegui. Na verdade, consegui, mas não surgiu nada que me parecesse original, ou que, ao menos, tivesse um diferencial. E elas merecem algo assim. Afinal, se elas têm um dia só para elas, devem ser importantes, merecem uma definição especial. Eu, por exemplo, não tenho dia nenhum. Logo, eu sou apenas “o cara do Champ”.

Enfim, acabei chegando a uma solução. A melhor maneira de você definir algo é encontrar o seu símbolo. Signo e significado. E, bem... Eu tenho o símbolo das mulheres aqui comigo. Tenho a imagem das mulheres, tenho o som das mulheres. As palavras? Palavras são totalmente desnecessárias aqui. Amor. Coragem. Inteligência. Sensibilidade. Beleza. Brilho. A música apenas emoldura isso.


boomp3.com



5 de março de 2008

Anos Dourados

So... understand! Dont waste your time always searching for those wasted years.
Face up... make your stand! And realise you're living in the golden years

Wasted Years - Iron Maiden


Hoje fui almoçar com a patroa no mesmo bar que eu comia (e bebia) na faculdade. Foi coisa rápida, um sanduíche e só. Tempo suficiente para dois garçons e o dono do boteco me reconhecerem e virem perguntar como eu estava, dizendo que eu faço falta ali no bar e que “essa molecada de hoje até que serve, mas não chega aos pés da tua época”. Eu poderia dizer aqui tudo o que fiz na faculdade, especialmente nas semanas de trote, mas, se você não estudou comigo, isso não seria interessante; por outro lado, se você foi meu calouro, aposto que você faz questão de me esquecer. Eu, no seu lugar, faria.

O ponto é que, enquanto estava no bar, percebi que agora em 2008 eu completo uma década de formado. Quando eu era pequeno as pessoas perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse. Ou seja, de acordo com essa teoria, sua vida adulta começa no momento que você exerce uma profissão. Então, este ano, faço dez anos de gente grande.

A diferença é que quando eu era pequeno eu sabia o que queria ser quando crescer (tudo bem que o que eu queria ser mudava toda semana); hoje eu sei que seria muito mais fácil não ter crescido.

Lembro meu primeiro dia na faculdade como se fosse hoje. Como todo moleque, entrei ali certo de que iria mudar o mundo e precisava apenas de uma oportunidade para isso. Hoje, uma década depois, fico feliz em conseguir pagar o aluguel no dia, e ir a um show do Iron Maiden sem entrar no cheque especial. Ao invés de querer criar, produzir, inovar, quero apenas ir para minha casa, cuidar do meu cachorro e tocar a minha vida. Na verdade, nesses dez anos, o mundo não mudou muito – e o que mudou não foi por minha causa.

Aliás, se colocarmos eu e o mundo numa balança, eu mudei mais que ele nesses dez anos. Ponto para ele. Mundo 1 X 0 Rob Gordon. Tudo bem que ainda não constituí família e não existem robgordonzinhos andando por aí e mexendo nas minhas coisas. Ou seja, teoricamente ainda daria para empatar o jogo. A diferença é que eu não quero empatar nada. Afinal, nesse caso, ganhar seria perder. Deixa o mundo levar essa. Eu gosto do que mudei. Ao menos, da maioria das coisas que eu mudei.

Voltando à faculdade, foi divertido? Claro que foi. Porres homéricos, amigos homéricos, gargalhadas homéricas, brigas homéricas com professores nem tão homéricos assim (como um amigo meu lembrou outro dia, eu cheguei a expulsar uma professora da sala de aula durante uma prova). E, melhor ainda, no final de tudo me deram um diploma e falaram: “Pronto, agora você cresceu. Se vira”.

E, pensando bem, acho que me virei sim. E para isso usei muita coisa que aprendi lá.

Foi na faculdade que aprendi a ser sarcástico – não sei se por sobrevivência, por gosto pessoal ou ambos. Lá, me falaram pela primeira vez que eu escrevia bem (sendo que até hoje eu duvido disso em muitos momentos), elogio que se transformou nesse blog aqui. Lá, eu aprendi que milhões de pessoas passam pela sua vida, mas alguns poucos amigos são para vida toda – e que esses você identifica no primeiro minuto.

Mas claro que nem tudo o que aprendi ali foi positivo. Foi lá que me falaram que eu fumo igual ao Al Pacino, o que me fez desistir de parar de fumar (eu estava tentando na época). Fumo até hoje, para desespero da minha dentista. Foi lá que eu descobri que encontrar pessoas parecidas com outras é uma arte. Foi lá que eu descobri, da pior maneira possível, que a capacidade do corpo humano em armazenar álcool é limitada e que misturar pinga com... Bom, deixa para lá.

Mas foi lá, em algum momento – provavelmente no meio de uma gargalhada, com um cigarro numa mão e um copo na outra – que eu também descobri que o importante não é saber viver, é apenas viver. E, quanto a isso... Bem chupa mundo e chupa tempo. Ainda estou aqui. Mesmo depois de todas as porradas e cagadas desses dez anos, ainda estou aqui, de pé.

Antes de ir embora, olhei ao redor no bar e vi a molecada de hoje. Todos com cara de imbecis. O que me alivia é que, provavelmente, há dez anos atrás eu também tinha a mesma cara de imbecil. Mas, se eles realmente não “chegam nem aos pés da minha época” como o dono do bar disse... Bom, azar. Azar deles, azar do bar. Azar do mundo. Não posso fazer nada, é a vez deles. E, se eles quiserem mudar o mundo (e eles querem, claro), o mundo que se entenda com eles.

Porque agora eu estou ocupado demais vivendo.


Eu sei que esse post foi diferente do estilo do blog, mas pensei nesse assunto a tarde inteira. Prometo que no próximo post volto à programação normal.

3 de março de 2008

Scream for me, Brazil!

Sempre achei extremamente difícil escrever um texto sobre um show do Iron Maiden. É uma banda que eu não consigo analisar de modo imparcial, já que sempre significou demais para mim, desde a minha adolescência. Isso não significa que eu encare todas as suas músicas como obras-primas, mas é realmente complicado deixar o lado pessoal de lado. Felizmente, isso aqui não é uma matéria jornalística, mas apenas uma crônica sobre o show, então a emoção não só é permitida como, em minha opinião, recomendada.

E eu já sabia disso quando coloquei os pés na fila, antes dos portões se abrirem. Eu passei a semana inteira ouvindo Queen, The Beatles e The Who para não pensar no show – caso contrário, eu não conseguiria nem trabalhar direito – mas, quando parei na fila, com meu ingresso na mão, cai na real e senti a barriga congelar. Para driblar a ansiedade (tanto na fila quanto já dentro do estádio) comecei a prestar atenção nas pessoas na platéia, já que qualquer show de rock (em especial os de heavy metal) reúne algumas das figuras mais dantescas da atualidade.

Felizmente, não achei nenhum emo. Claro que deveria haver um ou outro por ali – emos são como ervas daninhas e aparecem em qualquer lugar – mas não encontrei. Por outro lado, aos poucos, comecei a separar os espectadores em algumas espécies diferentes.

Fãs Normais – São as pessoas que gostam da banda e querem assistir os ingleses tocando ao vivo. Aí, você encontra desde turmas de amigos a casais de namorados, passando por famílias inteiras, num claro exemplo de pais e filhos que compartilham o mesmo gosto. Claro que mesmo aí você algumas figuras, como o sósia do Morrisey, incluindo o topete da altura de um prédio de três andares, mas com orelhas dignas do Dumbo (que devem ter sido confiscadas na porta como equipamento de gravação) e um carioca mentiroso, que ficava na fila contando mentiras-clichês (quem ele já comeu, quais shows ele já assistiu, com quem ele já brigou) para um grupo de sujeitos do interior que acreditavam em tudo que ele dizia – com especial destaque para dois deles, que usavam o mesmo chapéu ridículo e que provavelmente formavam uma dupla caipira conhecida como Indiana & Jones.

Fãs radicais – Existem em menor número, mas sempre estão ali. São aqueles que mais curtem o show. Berram, cantam junto, choram. Aí, o show acaba e eles voltam para casa e começam a postar mensagens em fóruns dizendo que o som estava ruim, o repertório não foi lá essas coisas, e mal se ouvia o baixo do Steve Harris. Todo show do Iron tem umas pessoas assim. Duvida? Entre no Orkut ou em fóruns e comece a ler sobre o show.

Os metidos a transgressores – São, provavelmente, os mais idiotas. Tratam-se daquelas pessoas que, como estão num show de rock, precisam mostrar para todo mundo que bebem mais que todo mundo e fumam mais maconha que a população inteira da Bolívia. Ou seja, gastaram uma baita grana no ingresso e, na terceira ou quarta música, estão de quatro na pista, vomitando até as tripas, sem ver absolutamente nada. E, pior, ainda vão dizer que “o show foi bem lôco”.

Os That's 80 Show – Se um show de rock fosse uma cidade, esses seriam as atrações turísticas. Existem em pouco número, mas suficiente para chamar a atenção. São aquelas pessoas que acreditam que ainda vivemos no auge do hair metal dos anos 80 e vão ao show com botas bico fino, uma calça que ficaria apertada até mesmo numa vara de pescar, camiseta (rasgada) do Mötley Crüe, um cabelo que fica em algum estágio entre Tina Turner e Sideshow Bob e, no rosto, mais maquiagem que um catálogo da Avon. O sonho deles é chegar ao show de Cadillac, tomando Jack Daniels e com duas loiras de biquíni, mas, provavelmente, foram de metrô, o que torna tudo mais constrangedor ainda.

A Louca – Estava ao meu lado. Eu estava na cadeira especial, e ela no espaço reservado para deficientes. A princípio, achei que ela estava ali acompanhando alguém, mas, aos poucos, percebi que ela sofria de síndrome de boçalidade. Isso porque, desde horas antes do show, ela ficava dançando ao som das músicas que tocavam pelo sistema de som. Aliás, ela não dançava. Ela se apresentava. Andava para um lado e para o outro, rebolava, jogava os cabelos para trás, se enrolava numa bandeira do Iron Maiden, mexia os braços. Sim, isso tudo antes do show. A cada brisa suficiente para mexer o cabelo dela, ela rebolava e corria como um protótipo de Mick Jagger. Louca de pedra. Cheguei a filmar alguns passos dela com meu celular e, se quiserem, eu coloco aqui depois.

E, desde a abertura dos portões, foram essas pessoas que aguardaram, debaixo de um sol lawrencedaarabiano pelas tão esperadas 20:00, quando a banda entraria no palco. Nesse meio tempo, a única maneira de sobreviver era consumindo os copos de água vendidos ao preço de um carro 0 km, resultado das inúmeras proibições do show.

Era proibido entrar com garrafas de água, com copos de água, com suco. Proibido entrar com qualquer coisa. Até mesmo frutas estavam proibidas, o que me levou a pensar se, em algum show recente, alguém ameaçou outra pessoa com uma banana ou com uma fatia de melancia. Curioso que frutas eram proibidas, mas maconha não, já que em duas ou três vezes ao longo da tarde eu quase tive uma overdose só com a marofa ao meu redor.

E foram essas mesmas pessoas que assistiram ao show (bem meia-boca) da Lauren Harris, filha do baixista do Iron, sem demonstrar grande hostilidade (provavelmente em respeito ao cara) e que sofreram com a chuva que caiu no Palestra Itália minutos antes do show. Aliás, chuva não; dilúvio. Choveu de balde. Em poucos minutos, eu estava com as meias totalmente encharcadas e o maço de cigarro dissolvendo no meu bolso. Sem exagero, se a banda lançar o CD desse show, poderiam chamá-lo de Live at Vietnam e colocar Rainmaker como faixa bônus.

Mas, as 20:00 em ponto, começam a aparecer imagens da banda no telão. O estádio começa a tremer. De repente, ouve-se o famoso Churchill’s Speech. O estádio começa a ruir. E eis que a banda entra no palco. O estádio vem abaixo. Aliás, não só o estádio, como os músicos, já que o palco estava um sabão por causa da chuva, e eles andavam claramente tomando cuidado para não cair. Até mesmo Bruce Dickinson, famoso por correr uma maratona em cada show, se movimentava com cuidado, mas às vezes, brincava de escorregar pelo palco.

E, durante a primeira meia hora de show, isso não mudou. E, aparentemente, ninguém na platéia parecia se importar. Também, com músicas como Aces High, 2 Minutes to Midnight, Revelations e The Trooper, o palco poderia estar desabando que ninguém estaria nem aí. Clássico atrás de clássico. E a platéia, diferente do show do Aerosmith, foi um show à parte: músicas inteiras eram cantadas em coro pelo estádio inteiro e, a qualquer coisa que acontecia no palco (como Bruce Dickinson secando o palco com um rodo) era motivo para gritos de “Maiden! Maiden!”.

E eis que o show chega à metade. Rime of the Ancient Mariner. A música-monstro, com cerca de três dias de duração. Para mim, a melhor música de heavy metal de todos os tempos. E, pelo que eu vi, para mais da metade do estádio também. Foi uma das poucas músicas que eu percebi que muita gente não cantou junto, por dois motivos. Primeiro: só Bruce Dickinson e Steve Harris devem saber a letra inteira de cor; segundo, não é uma música para “agitar”, é uma música para assistir. Depois disso, a banda emenda com Powerslave e The Number of the Beast. Chega a ser covardia.

Claro que os fãs radicais já devem estar na internet reclamando como “ah, The Number de novo?”. Sim, The Number de novo. Sim, Fear of the Dark de novo. Se você não quiser ver essas músicas num show do Iron Maiden, não vá a um show do Iron Maiden. Ou leve um iPod com as músicas que você mais gosta e ouça durante o show. Apenas não encha o saco em relação ao setlist. Afinal, se você já viu The Number ao vivo trocentas vezes, lembre-se que muita gente que está ali, está vendo a banda ao vivo pela primeira vez, e tem o mesmo direito que você teve, no seu primeiro show do Iron, de urrar ao ouvir essas músicas.



A segunda metade do show, com o palco seco, continuou com o desfile de clássicos que transformaram o grupo em grife de heavy metal, com destaque para Heaven can Wait, Run to the Hills (“ah, de novo?” “Sim, de novo, cala a boca que eu quero ouvir o solo”) e Iron Maiden, que contou com a presença de ninguém menos que Eddie versão Somewhere in Time. Pausa para o intervalo (mais ou menos cinco minutos de “Maiden! Maiden!” até a banda voltar) e o bis com Moonchild, The Clairvoyant e Hallowed Be Thy Name (que melhora a cada vez que é tocada).

A banda se despede e sai do palco. O Palestra Itália continua com as luzes apagadas e o palco iluminado. Ninguém arreda pé do estádio. Maiden! Maiden! Todos torcem para que eles voltem e toquem alguma outra coisa. Qualquer música. Maiden! Maiden! Pode ser Aces High de novo, não problema. Até um cover de Ivan Lins serve. Maiden! Maiden! Maiden! As luzes se acendem. A banda não irá voltar.

E, sinceramente, não precisavam voltar. Fãs com lágrimas nos olhos, pessoas totalmente sem voz e eu, em êxtase, certo de ter visto a maior apresentação do Iron Maiden na cidade de São Paulo (é a terceira que assisto).

Não há como descrever o que se sente após um show desses. Talvez a melhor maneira de ilustrar isso seja com a imagem que foi captada no telão, durante o show, com alguns fãs segurando uma bandeira com a inscrição “Iron Maiden is my Religion”. Realmente, Iron Maiden é a religião de muita gente que estava no Palestra Itália.

E ontem foi dia de culto. Amém.

Para encerrar, o Top 5 músicas inesquecíveis de um show inesquecível:

1. Powerslave – Eu sempre disse às pessoas que não morreria sem assistir essa música ao vivo. Tarefa cumprida.

2. Wasted Years – Foi a primeira música que ouvi deles, no final da década de 80, e que resultou em amor à primeira vista. Com cerca de 30 ou 40 segundos de música, comecei a sentir uma dor enorme na garganta. A única solução foi parar de cantar, colocar a mão no rosto e chorar feito uma criança.

3. Rime of the Ancient Mariner – Como eu já disse em outro post, é uma música que quando acaba de ser tocada, você precisa sair e comprar outro ingresso, porque o que você pagou na entrada já foi gasto com isso.

4. Aces High – A melhor música para abertura de shows de todos os tempos.

5. The Clairvoyant - Os primeiros 10 segundos dessa música justificam a invenção de um instrumento conhecido como baixo.


Update: Se você nunca foi a um show de Iron Maiden e está duvidando do conceito de religião, sugiro que assista ao vídeo abaixo. É, provavelmente, o pior vídeo já gravado em um show. Por outro lado, creio que é o vídeo mais emocionante já gravado de um show.