5 de março de 2008

Anos Dourados

So... understand! Dont waste your time always searching for those wasted years.
Face up... make your stand! And realise you're living in the golden years

Wasted Years - Iron Maiden


Hoje fui almoçar com a patroa no mesmo bar que eu comia (e bebia) na faculdade. Foi coisa rápida, um sanduíche e só. Tempo suficiente para dois garçons e o dono do boteco me reconhecerem e virem perguntar como eu estava, dizendo que eu faço falta ali no bar e que “essa molecada de hoje até que serve, mas não chega aos pés da tua época”. Eu poderia dizer aqui tudo o que fiz na faculdade, especialmente nas semanas de trote, mas, se você não estudou comigo, isso não seria interessante; por outro lado, se você foi meu calouro, aposto que você faz questão de me esquecer. Eu, no seu lugar, faria.

O ponto é que, enquanto estava no bar, percebi que agora em 2008 eu completo uma década de formado. Quando eu era pequeno as pessoas perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse. Ou seja, de acordo com essa teoria, sua vida adulta começa no momento que você exerce uma profissão. Então, este ano, faço dez anos de gente grande.

A diferença é que quando eu era pequeno eu sabia o que queria ser quando crescer (tudo bem que o que eu queria ser mudava toda semana); hoje eu sei que seria muito mais fácil não ter crescido.

Lembro meu primeiro dia na faculdade como se fosse hoje. Como todo moleque, entrei ali certo de que iria mudar o mundo e precisava apenas de uma oportunidade para isso. Hoje, uma década depois, fico feliz em conseguir pagar o aluguel no dia, e ir a um show do Iron Maiden sem entrar no cheque especial. Ao invés de querer criar, produzir, inovar, quero apenas ir para minha casa, cuidar do meu cachorro e tocar a minha vida. Na verdade, nesses dez anos, o mundo não mudou muito – e o que mudou não foi por minha causa.

Aliás, se colocarmos eu e o mundo numa balança, eu mudei mais que ele nesses dez anos. Ponto para ele. Mundo 1 X 0 Rob Gordon. Tudo bem que ainda não constituí família e não existem robgordonzinhos andando por aí e mexendo nas minhas coisas. Ou seja, teoricamente ainda daria para empatar o jogo. A diferença é que eu não quero empatar nada. Afinal, nesse caso, ganhar seria perder. Deixa o mundo levar essa. Eu gosto do que mudei. Ao menos, da maioria das coisas que eu mudei.

Voltando à faculdade, foi divertido? Claro que foi. Porres homéricos, amigos homéricos, gargalhadas homéricas, brigas homéricas com professores nem tão homéricos assim (como um amigo meu lembrou outro dia, eu cheguei a expulsar uma professora da sala de aula durante uma prova). E, melhor ainda, no final de tudo me deram um diploma e falaram: “Pronto, agora você cresceu. Se vira”.

E, pensando bem, acho que me virei sim. E para isso usei muita coisa que aprendi lá.

Foi na faculdade que aprendi a ser sarcástico – não sei se por sobrevivência, por gosto pessoal ou ambos. Lá, me falaram pela primeira vez que eu escrevia bem (sendo que até hoje eu duvido disso em muitos momentos), elogio que se transformou nesse blog aqui. Lá, eu aprendi que milhões de pessoas passam pela sua vida, mas alguns poucos amigos são para vida toda – e que esses você identifica no primeiro minuto.

Mas claro que nem tudo o que aprendi ali foi positivo. Foi lá que me falaram que eu fumo igual ao Al Pacino, o que me fez desistir de parar de fumar (eu estava tentando na época). Fumo até hoje, para desespero da minha dentista. Foi lá que eu descobri que encontrar pessoas parecidas com outras é uma arte. Foi lá que eu descobri, da pior maneira possível, que a capacidade do corpo humano em armazenar álcool é limitada e que misturar pinga com... Bom, deixa para lá.

Mas foi lá, em algum momento – provavelmente no meio de uma gargalhada, com um cigarro numa mão e um copo na outra – que eu também descobri que o importante não é saber viver, é apenas viver. E, quanto a isso... Bem chupa mundo e chupa tempo. Ainda estou aqui. Mesmo depois de todas as porradas e cagadas desses dez anos, ainda estou aqui, de pé.

Antes de ir embora, olhei ao redor no bar e vi a molecada de hoje. Todos com cara de imbecis. O que me alivia é que, provavelmente, há dez anos atrás eu também tinha a mesma cara de imbecil. Mas, se eles realmente não “chegam nem aos pés da minha época” como o dono do bar disse... Bom, azar. Azar deles, azar do bar. Azar do mundo. Não posso fazer nada, é a vez deles. E, se eles quiserem mudar o mundo (e eles querem, claro), o mundo que se entenda com eles.

Porque agora eu estou ocupado demais vivendo.


Eu sei que esse post foi diferente do estilo do blog, mas pensei nesse assunto a tarde inteira. Prometo que no próximo post volto à programação normal.

16 comentários:

Pâmela disse...

Fiquei curiosa pra saber da história da professora!
E achei ótima a frase "porque agora estou muito ocupado vivendo"
Quanto aos elogios, vc escreve bem sim, se não, não garnharia o prêmio de melhor blog, concorda?
:)

MaxReinert disse...

Pois... e não é que chega uma hora mesmo que a gente tenta parar de mudar o mundo.... mas, pense comigo, se vc mudou e vc está no mundo (pelo menos por enquanto!) o mundo mudou tbm.... ou não?

Thiago Neres disse...

Juro que pela metade do post eu pensei que nos comentários ia falar que era seu post mais diferente que eu já li no blog. E no final, você mesmo conclui isso!

Enfim, foi um post diferente, algo mais introspectivo e nostálgico... mas eu adorei. Rob, você escreve muito bem sim.

E o que vou falar agora pode parecer exagero, mas não é. No dia que você escrever um livro eu vou comprar ele.

Continue assim!

du sotto mayor disse...

e ae... rob... blza?
descobri seu blog no começo da semana... e posso dizer... que já li a maioria dos posts... sou do interior de são paulo... tenho 17 anos... e ha 2 semanas entrei na faculdade... to cursando jornalismo... realmente com vontad d daqui a 4 anos começar a mudar o mundo... (será que eu mudo d ideia até recebe o diploma?)...
enfim... varias pessoas já tinham me dito pra criar um blog... ai quando vi o seu... resolvi cria um...
eu já criei (skynany.blogspot.com) mais falta "montar" ele... se você pudesse me mandar um e-mail com umas dicas... eu agradeceria...

valew... e sim...
vc escreve bem!
t+

Ale disse...

Caralho robbsss ... um post que começa com iron e fala dos bons tempos de escada é sacanagem.... estou em prantos...
embora sem citar nomes, me coloco humildemente em algumas das situações!

Otavio disse...

diferente, mas não com menos qualidade.

se daqui 11 anos, quando fizer 10 anos que eu estiver formado em jornalismo, eu tiver um blog tão legal e puder ir no show dos meus ídolos (difícil, a maioria morreu ou estará morta antes qe eu tenha dinheiro pra pagar um show deles) sem entrar no cheque especial eu também vou estar feliz eheh..

sem o cigarro e sem um cartão clonado, esses aí não fazem parte do meu "sonho" de mudar o mundo ehhe.

Luh disse...

Você sintetizou meu pensamento neste post.

Muito provavelmente não tenho nem um terço da sua experiência de vida (e nem poderia, aos 20 anos), mas já pensei muito sobre o mundo e meu papel nele...e cheguei à conclusão de que mudar o mundo é pra quem pode, e não pra quem quer.

E cheguei à conclusão, também, de que ser egoísta e querer sempre do bom e do melhor não é futilidade. É, ao invés disso, a iluminação, a transcedência; aquele momento mágico em que você percebe que está acima de qualquer ideologia e não é afetado por complexos de culpa.

E pensar que a molecada de hoje acha que vai mudar o mundo porque não bebe coca-cola...

chaverinho disse...

tem dez anos que vc se formou.. e eu me formo no meio do ano... em jornalismo..
a conclusão que cheguei em relação ao curso:
1º semestre - a doce ilusão de mudar o mundo, é tudo encantado encantado, um sonho;
2º semestre - a dura realidade;
3º semestre - aceitação da realidade;
4º semestre - cria-se uma negação com o jornalismo;
5º semestre - cria-se o ódio;
6º semestre - o outro mundo, o mundo digital ou talvez uma válvula de escape;
7º semestre - tortura chinesa;
8º semestre - pq pombas eu fiz esse curso? o que vou fazer da vida agora?

Alexandre Rigotti disse...

Há 10 anos vc é formado...

Há 20 anos vc andava pelo seu imenso quintal de 1000m2 recolhendo "formigas assassinas" para acompanhar a luta feroz em um vidro velho.

Já sou "gente grande" faz tempo, mas fique tranquilo.. nós mudamos o mundo sim.. um antigo texto de teatro dizia: nossa revolução é silenciosa, é no dia-a-dia; só não seremos famosos mas nem por isso menos importantes.

Rafael Barbosa disse...

Eu termino a faculdade esse ano. Não mudei nada, nem o mundo nem em casa praticamente hahahaha. Mas quem sabe daqui a dez anos né??
abraço!

An@Lu disse...

Esse texto foi delicioso. Me identifiquei com ele em vários momentos. E a gente adora saber que nem tudo são desgraças na vida do Mr. Gordon.
É engraçado como a vida vai nos levando por caminhos diferentes daqueles que idealizamos quando crianças. Em julho eu vou fazer 2 anos de "gente Grande", e também fui mais mudada pelo mundo do que o contrário.
Adorei o post! E se está bem escrito e se foi feito pelo Rob Gordon, então com certeza que merece um lugarzinho ao sol aqui no Champ!

Fabinho disse...

Alexandre Rigotti aí em cima...
Você se esqueceu DA ARANHA...rsrsrs DA ARANHA...rs
Sr. Rob vou parafrasear um amigo que temos em comum..."Se nos dicionários a palavra amigo tivesse uma foto essa foto seria a sua."
A nostalgia nos pega em momentos mais inesperados não é mesmo(como entrar num bar por exemplo).
Tenha a certeza de que, diferente do que o gato fala para Alice, em Alice no país das Maravilhas, "quando você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve", eu tenho a certeza de que você está indo no caminho certo e dessa forma mudando o mundo, um mundo quase "imbecil".
Falando em nostalgia me lembrei de um amigo que fez um desfile de terno(moda verão) dentro de um bar, totalmente embriagado, rsrsrs

Grande abraço

helen disse...

Será que sou uma péssima pessoa por ter perdido a vontade de mudar o mundo no 2º ano do Ensino Médio?

ianslater disse...

"1º semestre - a doce ilusão de mudar o mundo, é tudo encantado encantado, um sonho;
2º semestre - a dura realidade;
3º semestre - aceitação da realidade;
4º semestre - cria-se uma negação com o jornalismo;
5º semestre - cria-se o ódio;
6º semestre - o outro mundo, o mundo digital ou talvez uma válvula de escape;
7º semestre - tortura chinesa;
8º semestre - pq pombas eu fiz esse curso? o que vou fazer da vida agora?"

Deusolivre, se for assim, to fudido, to fazendo jornalismo também(1º semestre), heheh.

Mas não, não tenho pretensões de mudar o mundo, apenas viver a minha vida e fazendo as coisas que gosto. O que vier é lucro.

Larissa Bohnenberger disse...

Poxa, se eu te entendo!!!
Essa coisa de crescer, virar gente grande é, na minha mais sincera opinião, um pé no saco. Contas para pagar, responsabilidades, ter que aprender a ser sério... sim, porque eu, apesar de já ser gente grande, aparentemente ainda não sei me comportar como uma profissional, já que contopiadas e dou gargalhadas escandalosas no meu ambiente de trabalho. Argh!

Agora, eu também tô bem curiosa querendo saber o que exatamente o Rob Gordo com provável cara de imbecil de 10 anos atrás fez para conseguir expulsar uma professora da sala no meio de uma prova... acho que tu deves fazer um post sobre isso, sim?

Bjs!

Flavita disse...

Bom, bom, bom. Afinal de contas eu tive a satisfação de estar lá, entre uma gargalhada e outra.