A meu ver, isso independe de religião, fé, ou qualquer outra coisa deste naipe, por dois motivos. Primeiro, porque não estou falando dos céus se abrirem para um anjo de cabelos louros surgir descendo num raio de Sol com respostas e ensinamentos ou qualquer outro clichê bíblico. Segundo – e mais importante – qualquer coisa que possa ser enxergada por este prima tem potencial para ser colocada no campo das coincidências.
Ou seja, não é fé, religião ou alinhamento dos planetas. Talvez seja apenas intepretação. Ou, melhor dizendo, talvez seja “saber interpretar”. Mas, sim, como disse acima, eu acredito nisso. A parte do “talvez até mais do que deveria” é porque quando estou naquelas fases de questionamentos, fico procurando sinais de respostas ou conselhos para minhas dúvidas, ao redor de mim, o tempo inteiro.
Muitas vezes, claro, eu apenas me fecho no problema ou na dúvida e o analiso de forma lógica. Mas, por definição, os Rob Gordons são criaturas extremamente emocionais, então nem sempre isso é possível.
Assim, se é evidente que não mergulho na loucura de procurar respostas para minhas dúvidas na forma que a velha da mesa ao lado coloca o guardanapo no colo, às vezes eu brinco comigo mesmo, com coisas como “se o sinal fechar antes daquele carro vermelho passar por mim, eu vou conseguir tal coisa”. Mas isso são mais brincadeiras que qualquer outra coisa – apesar de que um lado do meu cérebro pula de alegria caso o sinal feche antes do carro vermelho passar.
Mas, de forma geral, quando estou numa fase de questionamentos, ando pela rua de forma mais aberta – talvez receptiva – ao que acontece ao meu redor. Porque não vejo mal algum em tentar ouvir o que o mundo me diz. Ao invés de “sorria e o mundo sorrirá para você”, gosto do “pergunte e o mundo responderá para você”.
E agora vamos mudar totalmente de assunto e falar da série Pateta Faz História. As pessoas com mais de 30 certamente devem se lembrar dela: mais que histórias nas quais o Pateta assume o papel de grandes personagens históricos, é uma série que se tornou um verdadeiro marco nos estúdios Disney. Os roteiros – e a própria estrutura das páginas – fogem totalmente do convencional, construindo obra-prima atrás de obra-prima.
Eu me lembro de quando ela foi lançada no Brasil. Pelas minhas contas, foi em 1980. Eu e meu irmão virtualmente enlouquecemos com aquilo. Além da temática (afinal, eram biografias de nomes como Leonardo da Vinci e Marco Polo), e do visual ousado, quase sem regras, o fato de ser uma série fechada com cinco edições era diferente de tudo o que havíamos visto até então, dando o caráter de “especial”.
Por isso que a série se tornou um marco da minha infância. Na verdade, um dos maiores marcos, na verdade. Até hoje, mais de trinta anos depois, me lembro de piadas específicas, de que a capa do volume 5 (“Pateta faz História como Dr. Frankenstein” era branca) e de algumas imagens, como aquela página em que o macarrão que um personagem come no topo escorre para baixo, delimitando os demais quadrinhos.
Se não me engano, a série era bimestral. Quando haviamos comprado dois ou três volumes, eu e minha família fomos morar em Manaus. Minha preocupação com a série era tanta que passei os primeiros meses desesperado em busca das revistas, em vão. Ninguém sequer havia ouvido falar daquilo.
Estava quase pedindo para algum parente de São Paulo comprar para mim quando, um dia, entrei em uma banca e vi o primeiro volume sendo vendido. Foi quanto entendi que a maior parte dos quadrinhos era vendida na Região Norte somente seis meses depois do Sudeste, quase como uma pré-história da distribuição setorial.
Suspirei aliviado e, poucos meses depois, completei minha coleção.
Onde ela está hoje? Não sei. Talvez tenham se perdido em alguma mudança. Eu sempre sonhei em recuperar estes cinco volumes, que já vi à venda (por verdadeiras fortunas) no Mercado Livre. Penso nisso com frequência, mas nunca como uma obsessão de colecionador, ou uma cruzada pessoal. Na verdade, era apenas um pequeno sonho em resgatar um pedacinho doce da minha infância.
Aliás, falando em outro doce, tenho outra memória. Perto da casa em que nasci e cresci, em Moema, havia uma confeitaria famosa à época, chamada Brunella.
É outro marco da minha infância. Isso porque não era incomum meu pai voltar para o trabalho com uma bandeja repleta de doces – lembro que era embrulhada num papel amarelo claro, com o logo da confeitaria.
Assim, bastava meu pai aparecer em casa com os doces que a noite deixava de ser “uma noite” e se tornava uma “noite de festa”. Ficavámos nós quatro na cozinha, comendo doces de todos os tipos. Hoje – e me perdoem se eu me emociono um pouco ao escrever isso – eu entendo que era realmente uma festa, e estávamos apenas celebrando o fato de sermos uma família e termos um ao outro.
E foi numa destas noites que nasceu outra paixão da minha vida: uma espécie de bolo, cortado de forma triangular e recheado com mousse, coberto por cascas de chocolate endurecido. Nunca soube o nome correto do doce, e nunca precisei: era a “cabaninha”. Era assim que eu o chamava (aos meus olhos, ele se parecia com uma casinha, ou uma cabaninha), era assim que minha família passou a chamá-lo, por minha causa.
A cabaninha era sempre o primeiro doce que eu comia. Meu pai comprava sempre quatro de cada tipo, e eu abria mão de qualquer outro doce em troca de mais uma cabaninha – as trocas com meu irmão eram comuns.
Mais que meu doce preferido, a cabaninha é um símbolo da minha infância. Mais que um simples doce, a cabaninha faz parte da minha história. Ou melhor, fez parte. Em algum momento da minha adolescência, a Brunella fechou as portas – hoje existe uma Kalunga ali, logo atrás do Shopping Ibirapuera – e a cabaninha desapareceu. Sempre que entro numa doceria, passo os olhos pela vitrine em busca dela ou de um doce parecido, mas nunca encontrei nada igual.
Assim como a série Pateta Faz História, a cabaninha se perdeu no tempo, ficando presa em recordações de infância.
Ou não. Porque, poucos dias atrás, chegou às bancas a coleção Pateta Faz História, com vinte volumes reunindo todas as quarenta histórias da série, incluindo as que permaneciam inéditas no Brasil.
E as histórias daquelas cinco revistas que eram minhas.
E, novamente: “ou não”, porque outro dia descobri uma Brunella remanescente ao lado do Parque da Aclimação. Na hora, imaginei que fosse outra empresa com o mesmo nome, mas era ela mesma. Era a minha Brunella.
E, ali no canto da vitrine de doces, as minhas cabaninhas.
Comi duas. Comi duas, descobri que o nome do doce, na verdade, é bolo triângulo e, pela primeira vez na vida, paguei pelas minhas próprias cabaninhas. Mas, mais importante que isso, descobri que o sabor do doce é exatamente como me lembrava. Exatamente igual. Minha memória não distorceu nem inventou nada. As cabaninhas continuam sendo o meu doce.
Este post pode parecer uma bobagem para vocês. Afinal, para vocês, são apenas cinco revistas em quadrinhos e um bolo (que, agora descobri, chama-se bolo triângulo).
Mas, como eu disse acima, basta saber interpretar. São cinco revistas e um bolo que passei décadas procurando, e que têm um valor emocional altíssimo para mim. E, de repente, em poucos dias, eu literalmente tropeço nos dois.
A vida está me mostrando algo. Eu adoraria encerrar este texto com uma frase linda, e um ensinamento maravilhoso que concluísse tudo isso, para fechar o texto com chave de ouro. Mas não vou fazer isso. A vida está me mostrando algo, mas hoje eu não quero entender nada (na verdade, eu já entendi – preciso apenas processar).
Hoje eu quero apenas ficar comendo cabaninha e lendo Pateta Faz História.
Hoje eu quero apenas ter cinco anos.
Hoje eu quero ter a vida inteira pela frente.
(Este post é dedicado
aos meus pais.)
aos meus pais.)
Update: desde que postei o texto, estava com o pressentimento de que algo estava faltando. Fumando um cigarro, percebi o que era. Faltavam imagens. Faltava um quadrinho, um doce e, principalmente, um menino. Agora está completo.







