12 de agosto de 2011

Era uma Vez na China (in Box)

Às vezes eu reclamo das ligações de telemarketing que recebo aqui em casa. Muitas delas já viraram posts no blog – se você é leitor novo, dê uma olhada na tag Telemarketing para ter uma ideia.

Mas gostaria de assumir publicamente aqui que a culpa por algumas das ligações mais estranhas da minha vida é totalmente minha. Afinal, algumas das conversas telefônicas mais estranhas da minha vida poderiam ter sido evitadas se eu não tivesse pegado o telefone e discado por conta própria.

O problema é que normalmente eu não consigo escapar delas, porque, em algumas ocasiões eu tenho um problema que não consigo evitar: fome. E, como todo homem solteiro, eu não tenho livros de receitas, eu tenho livros e mais livros com telefones e cardápios de delivery.

Dia desses, por exemplo, decidi ligar para um restaurante de comida chinesa. Fui atendido por uma mulher que, após trocar três palavras comigo, pediu que eu voltasse a ligar em cinco minutos, pois o sistema havia caído. Obedeci. Cinco minutos depois, liguei. Ninguém atendeu. Aguardei mais alguns instantes e liguei. Ninguém atendeu.

Um lado do meu cérebro começou a decidir o sabor da pizza que eu iria pedir, mas resolvi dar uma última chance e liguei.

Atenderam. Mas não era a mulher. Agora era uma voz de homem.

- Restaurante que Vende Comida Chinesa Dentro de Caixinhas, boa noite.

- Oi. Eu queria fazer um ped...

- O seu telefone, por acaso, é 1234...?

E ficou em silêncio, esperando. E nada do resto do telefone. Tive certeza de que era minha vez de mexer as peças.

- Isso. Mas falta uma parte do número.

- Só um minuto. 1234... 1234... 1234-5678?

- Isso.

- O senhor não tem cadastro conosco?

- Tenho.

- Mas este telefone não está cadastrado.

- Eu estou ligando do celular e o cadastrado é o fixo. Eu não sabia que precisava ligar do fixo.

- O senhor pode me passar o número? Assim eu localizo seu cadastro e acesso seu endereço.

- Não seria mais fácil eu apenas falar o endereço?

- É que desta forma eu consigo acessar o cadastro, senhor.

Engraçado isso. Eu preciso esperar ele acessar o meu cadastro para conseguir o meu endereço. O tempo de espera para isso é de quase três minutos. Partindo do princípio que eu sei meu endereço de cor, eu demoraria menos de dez segundos para falar meu endereço. Pensei em sugerir isso novamente, mas o tom da última frase deixou claro que, para ele, acessar o cadastro era algo pessoal. Quase uma cruzada. Achei melhor passar o número do fixo.

- Ok. O número é 8765-4321.

- 8765?

- Isso. 8765-4321. Conseguiu?

- 7... 6...

Meu Deus.

- 5... 4...

321! 321!

- 3... 2...

A próxima vez, eu vou sugerir que eles entreguem minha comida antes de acessar meu cadastro. Assim, eu posso jantar enquanto ele digita meu telefone. Talvez dê para assistir a um filme também. Algo pequeno, tipo Ben-Hur.

- 1.

- Amém.

- Estou com seu cadastro aqui!

Eu quase pude ver ele se virar para os outros funcionários, sussurrando empolgado que “eu disse que ia funcionar! Eu disse que não estávamos jogando dinheiro fora! Agora nós já sabemos onde ele mora! Aposto que ele está super satisfeito com isso!”

- O endereço do senhor é Rua Tal, Número X?

- Isso. Apartamento Y.

- É... Apartamento?

Pelo tom de voz, a dúvida dele não era a respeito de eu morar em um apartamento ou não. Parecia ser algo mais amplo, envolvendo todo o conceito de apartamento.

- Isso. Sabe quando tem uma casinha em cima da outra? Aqui é assim. A minha casa fica em cima de outras, e têm outras acima da minha. Pode parecer difícil de imaginar, sem fotos, mas funciona, confie em mim. E o número da casinha é Y.

- Aqui não diz nada sobre apartamentos.

Será que eu vou ter que ligar para outra unidade que atenda apartamentos? Ou conseguir uma autorização especial para que eles me atendam?

- Confie em mim. É apartamento Y.

- Ok.

- Posso fazer meu pedido?

- ...tamento.... É? Y?

Qual o problema com o teclado dele?

- Isso. Y.

- Então o endereço do senhor é Rua Tal, Número Tal, Apartamento Y?

- Sim.

- Qual seu pedido?

- Uma porção de rolinho primavera. Um yakisoba júnior e uma carne com batata imperial júnior executivo.

Um pequeno adendo: A carne com batata imperial não é meu prato preferido. Mas eu peço sempre por causa do nome. Imperial. Eu me sinto muito importante toda vez que como batatas imperiais. Mas foi só um desabafo. Vamos de volta à conversa, já que o atendente estava repetindo meu pedido.

- Um yakisoba júnior e uma carne com batata imperial júnior executivo.

- Isso.

- O executivo é o que vai arroz, certo?

Gozado. Nas duas ou três primeiras vezes que liguei para o restaurante, eu que perguntei isso. Engraçado como os papéis se inverteram. Será que eu estava dentro de um episódio de Além da Imaginação e havia trocado de corpos com o atendente? Olhei ao redor e aparentemente eu estava em casa. E aparentemente eu ainda era eu mesmo. Com fome, e pensando em pedir uma pizza, mas eu mesmo. Decidi jogar limpo com o sujeito.

- Então, eu não trabalho aí. Teoricamente, eu quem deveria perguntar isso para você, e não o contrário.

- Sim, senhor.

- Mas sim, é o que tem arroz.

- Sim, senhor. E para beber?

Juro que se ele tivesse perguntado “e para tomar?” eu teria respondido que “nada, obrigado, já estou tomando no cu desde a hora que você atendeu o telefone”. A piada era boa demais para ser perdida assim, e eu poderia manipular a conversa até ele ser obrigado a perguntar o “e para tomar?”. Mas mudei de ideia, quando o verso “e a saudade começou a apertar”, da música Faroeste Caboclo, começou a tocar repetidamente no meu cérebro, apenas trocando a a palavra “saudade” por “fome”.

- Uma Coca Zero.

- Sobremesa?

- Quantas bananas têm na porção de banana caramelada?

- Quatro.

- Vocês tem meia porção?

- Temos a porção inteira, a meia porção e por unidade.

- Ok. Eu quero meia porção.

- Meia porção com duas bananas?

Na mesma hora, me lembrei dos macacos do 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Todos eles estavam ao redor do monolito (sim, eu sei que o certo é monólito, mas não consigo usar este acento) caminhando em direção à evolução. Menos um deles, que estava segurando um telefone e olhando para quatro bananas carameladas, tentando dividir a porção em duas partes iguais. Resolvi ajudá-lo mais uma vez.

- A porção inteira tem quatro, certo? Olhe, eu não quero interferir com a rotina de vocês, mas acredito que sim, a meia porção teria duas bananas. Quer dizer, eu não sei a política de vocês sobre aritmética, mas presumo que o correto seria ter duas bananas. Porção inteira, quatro. Meia porção, duas. Pegou?

- Sim, senhor. Meia porção com duas bananas carameladas. E meia porção com dois abacaxis caramelados?

Não é possível. Eu devo ter ligado por engano para alguma rádio, e eu estou ao vivo participando de uma pegadinha.

- Oi?

- Meia porção com duas bananas carameladas. E meia porção com dois abacaxis caramelados.

Tentei repassar a conversa inteira na minha mente em busca de algum sinal de abacaxis. Mas mudei de ideia quando, na minha imaginação, o atendente ficou dois minutos digitando meu telefone em busca do meu cadastro. Não tive saco de passar por aquilo de novo. Decidi tentar resolver o problema com ela e fiz a pergunta da forma mais honesta que consegui.

- De onde você tirou esses abacaxis?

- Nós temos aqui de sobremesa.

- Tudo bem, mas eu e você estamos conversando há quase cinco minutos e em momento algum discutimos abacaxi. A nossa conversa foi totalmente abacaxi-free.

Na verdade, não foi. Porque a conversa inteira já havia se transformado no maior abacaxi do meu dia. Mas eu não ia entrar neste assunto com ele. Ele já havia tido problemas em dividir quatro por dois, acho que era muito cedo para falar sobre metáforas.

- Sim, senhor.

- Então os abacaxis foram algum pop-up que abriu aí.

- Sim, senhor.

- A gente estava quase terminando, podemos manter o foco na banana? Eu juro que assim que a gente resolver isso, eu desapareço e deixo você em paz.

E eu fui sincero quanto a isso.

- Sim, senhor.

- Obrigado.

- Sem abacaxis, então?

Não respondi. Tudo o que consegui fazer foi me sentar na cadeira mais próxima e começar a chorar baixinho.

- Senhor?

- Sem abacaxis, então.

- Vamos repassar o pedido, então?

- É... Acho que é melhor.

Mas, ao menor sinal da palavra abacaxis, eu vou desligar na sua cara. E, um sujeito com a descrição parecida comigo aparecerá nas manchetes amanhã, após ter entrado num restaurante chinês em Pinheiros armado e promovido uma chacina lá dentro. Mas claro que isso seria coincidência, não seria eu. Juro. De verdade.

- Porção de rolinhos primavera. Yakisoba júnior. Carne com batata imperial júnior executivo.

Não pergunte se esse tem arroz, por favor. Não pergunte se esse tem arroz, por favor.

- Uma Coca Zero. Meia porção de bananas carameladas. Confere?

- Sem abacaxis, certo?

Silêncio. O tempo congelou. Ele sabia que qualquer movimento brusco, neste momento, poderia causar uma tragédia. Do outro lado, ele respirava com cuidado, tentando manter a calma. Se eu fosse rico, apostaria minha fortuna que os neurônios dele estavam relendo toda a conversa, nervosos e suados, e pensando se cortavam o fio azul ou o vermelho.

- Sem abacaxis.

Cortaram o fio certo. Respirei aliviado.

- Confere.

- O valor é Tantos Reais. O prazo de entrega é 30 minutos.

Para minha surpresa, chegou tudo certo - eu desliguei o telefone certo de que receberia um saco de cimento em casa. A culpa deve ter sido minha. Tenho certeza de que fiz algo errado, para ter chegado tudo certo.

Agora, se vocês me dão licença, vou passar o resto do dia relendo este post e tentando descobrir em qual parte ele realmente entendeu onde eu morava e o que eu queria.

E com o cardápio de uma pizzaria à mão.

13 comentários:

Sil disse...

Ler o post na hora do almoço foi acertado e errado.

Acertado porque do jeito que eu ri, ia dar confusão no escritório e errado porque agora estou morrendo de vontade de comer comida chinesa e morrendo de medo de pegar o telefone para pedir ;P

Bom fim de semana.

beijos

Fernanda Almeida disse...

E olha agora eu ligando lá no China In Box e pedindo o almoço e torcendo pra ninguem me oferecer nem banana caramelada e nem abacaxi! rsss

Miss Sbaile disse...

Muito bom. Dei muita risada aqui.

Mas eu trabalhei em restaurante a vida toda (antes de começar a usar terno), e você repete pro cliente 20 vezes antes que ele peça uma coisa achando que é outra e depois te atormente a vida pra trocar (fez sentido isso?). Mas é... cliente pode ser infernal também.

Beijo.

littlemarininha disse...

Rindo feito uma louca aqui, principalmente com a meia porção de banana, haha

Boa sorte na próxima vez, haha

Wi disse...

hahaha
Tenho uma teoria: ele era chinês e tava traduzindo o que vc dizia no Google Translate. haha
Só isso explica a parte do apartamento e o abacaxi que surgiu do nada. :P

Pri disse...

ô fase...

Varotto disse...

Muito bom!

Vários pontos altos (ou baixos, dependendo do referencial).

Aproveite que os seis filmes de Guerra nas Estrelas saem em blu ray em setembro para assistir de ponta a ponta enquanto espera seu pedido ser processado...

Lilian disse...

Esse é mais um daqueles posts que não comento pq não consigo parar de rir.

Depois eu volto.

Matheus Silva disse...

que pena que ele nao falou tomar.

IsabelVeronica disse...

Putz!
Eu teria desistido no número do telefone fixo.

Agora, como paro de rir?

Kel Sodré disse...

Então, minha gente. A pessoa passa 16 anos na escola (nunca repeti um ano, juro. Só confiem nos meus cálculos), faz mais 5 de faculdade, se forma em Jornalismo, sabe todas as regras do novo acordo ortográfico e vem descobrir no Champ que o certo é monólito. MO-NÓ-LI-TO. Com acento!!

Sem mais.

Michele disse...

FOI NO CHINA IN BOX DO BEXIGA, EU SEI QUE FOI!
PEDI LÁ AGORA E SOFRI A MESMA COISA.

ps.: malz o caps lock...

Mario disse...

Eu amo comida chinesa. Sempre que tenho com os meus amigos ordenou comida chinesa ou sushi. Eu encontrei um lugar perto da minha casa eu posso solicitar delivery comida e trazê-lo rapidamente. É delicioso.