(leia a versão do Bruno aqui) Tem uma história que estou devendo aqui desde o
show do Metallica. Hora de quitar a dívida.
Nos dias antes do show, o
@brunopalma, blogueiro curitibano de mão cheia e dono do
Acepipes Escritos, começou a soltar no Twitter que viria para a apresentação do Metallica em São Paulo. E o Bruno é um cara que eu sempre quis conhecer – o blog dele foi um dos primeiros que eu conheci depois que me tornei blogueiro e, além disso, o sujeito é gente boa demais.
Assim, eu, ele e Sra. Gordon criamos uma força tarefa para nos encontrarmos antes do show. A priori, o que ficou combinado foi que iríamos nos encontrar no Shopping Morumbi e, de lá, partiríamos para o Morumbi juntos.
No papel – ou melhor, na tela – isso funcionou bem demais.
Na vida real, as coisas começaram a degringolar já após o almoço. Peguei um táxi e parti para o Shopping Morumbi, onde a Sra. Gordon me esperava. Assim que saí de Pinheiros e caí na Marginal, recebo um sms no celular. Era o Bruno, dizendo que estava na casa de parentes perto de Pinheiros, e se não seria melhor irmos para o Shopping juntos.
Avaliei a situação. O taxista não parecia disposto a dar um cavalo de pau no meio da Marginal e voltar para Pinheiros. Assim, mandei um sms respondendo que não dava pois eu já estava a caminho.
Primeiro desencontro do dia.
Cheguei ao shopping, almocei com a Sra. Gordon e logo chega outro sms do Bruno, dizendo que, por uma mudança de planos, ele estava indo direto para o estádio do Morumbi, e “com sorte”, nos encontraríamos na fila.
Eu apenas suspirei. “Com sorte”? Bom, comigo esse lance de sorte não funciona. Logo, antes mesmo de responder a mensagem, eu já sabia:
Segundo desencontro do dia.
Assim, fomos para o Morumbi. Eu e Sra. Gordon de arquibancada, e o Bruno na pista. E, de repente, o Bruno deve ter lembrado que eu estava na arquibancada e eu devo ter lembrado que ele estava na pista, e começamos a praticar um dos passatempos mais apreciados por todos os homens do planeta: começamos a nos xingar (via sms, já que essa era a única ferramenta tecnológica disponível).
E foi aí que ficou mais que claro que o Bruno era um cara legal. Se você não é homem (ou porque nasceu mulher ou porque teve seu passe vendido para outro time ao longo dos anos), aprenda isso: homens, quando são amigos, se xingam o tempo todo. Se um homem cumprimenta outro com “oi, tudo bom?”, é porque eles não são amigos. Amigo que é amigo cumprimenta com “e aí, viado?”.
Bom, palavrões e xingamentos à parte, Metallica entrou no palco, arrasou e o show acabou.
Liguei para o Bruno e perguntei se ele não queria voltar comigo, rachar um táxi, algo assim. Ele não apenas concordou como agradeceu – aparentemente, após o show terminar, ele deve ter caído na real sobre o fato de não fazer a menor idéia de como voltar para a casa dos parentes - pelo tom de voz dele, ele sabia que estava apenas em São Paulo.
Assim, fiquei esperando a carona da Sra. Gordon ao lado dela, e trocando sms com o Bruno, o guiando até onde estávamos. E foi aí que eu pensei: como ele vai reconhecer a gente? Tudo bem, provavelmente eu sou a única pessoa careca e de 1.60 aqui, mas, mesmo assim...
Foi aí que a Sra. Gordon teve a idéia:
– Fale para ele que eu estou de azul cobalto.
– Oi?
– Fale para ele que eu estou de azul cobalto, não tem erro.
– Cobalto é azul?
– Vai, mande a mensagem logo.
– Mas ele é homem. Ele não vai saber o que é azul cobalto.
– Vai por mim, ele vai saber.
Foi aí que me instinto de sobrevivência apitou e eu respondi:
– Bom, ele luta kung fu e você... Bem, você é você. Vou mandar a mensagem.
Só depois eu me lembrei que o Bruno, na verdade, saberia sim o que é azul cobalto porque ele trabalha como designer gráfico. Assim, fiquei com isso na cabeça (“eu realmente não sabia que cobalto era azul”), sem perceber que um alarme estava apitando dentro do meu cérebro.
Infelizmente, a Sra. Gordon teve que ir embora antes do Bruno chegar – e, com ela, nossa referência azul cobalto. E nada do Bruno aparecer. Assim, eu e o Bruno começamos a trocar sms novamente, tentando fazer com que ele encontrasse o local onde eu estava, e sempre com mensagens do tipo “onde você está, seu viado?” e “estou chegando, caralho”.
De repente, meus neurônios, cansados de falarem comigo em vão, subiram em dois postes dentro do meu cérebro e estenderam uma faixa, com letras garrafais (em azul cobalto - meus neurônios não perdem uma):
O BRUNO LUTA KUNG FU
Foi aí que eu percebi onde estava me metendo. Fiquei branco. Eu passei a tarde xingando um sujeito que luta kung fu. Não, minto: ele lutava kung fu, anos atrás. Hoje, é pior. Hoje ele dá aula de kung fu.
Fechei os olhos e imaginei o Bruno na minha frente, com aquelas calças largas, tipo Bruce Lee, sem camisa, rodando um nunchaku e disparando shurikens na minha direção. Olhei ao redor, procurando algum baixinho careca ali por perto. Minha idéia era ir embora e deixar o Bruno espancar o sujeito. Nada. Tentei, então, ficar na ponta dos pés, mas isso fez minha altura subir de 1.60m para 1.62m, o que não ajudou muito.
A saída seria arrumar uma peruca, mas mudei de idéia na mesma hora. Eu morro apanhando, mas ao menos minha dignidade permanece viva.
Estava rezando para o Bruno ser um gordinho de 1.20 quando toca meu celular. Era ele. Achei melhor maneirar nos xingamentos.
Ele começou:
– Porra, onde você está?
– Oi, tudo bem? Estou no lugar que eu disse que estava. Desculpe por isso. Já estou indo para onde eu deveria estar. Desculpe por isso também. Acho seu blog o máximo.
– Não, fique aí, já estamos chegando.
Eu já estava pronto para perguntar um “vem cá, você é muito grande?”, com a desculpa de “como eu vou reconhecer você?”, mas o “estamos” me chamou a atenção.
Como assim, “estamos”?
– Hã... Estamos?
– Sim. Eu e meus amigos.
Meu Deus.
– É... Em quantos vocês estão?
– Estamos em quatro.
Meu Deus.
Cruzei os dedos e comecei a rezar para serem quatro anões. Assim, eles teriam a minha altura, as coisas seriam mais fáceis. Por outro lado, apanhar de uma gangue de anões seria humilhante demais. E humilhação por humilhação, seria melhor voltar ao plano da peruca.
Assim, resolvi enfrentar meu destino como homem, já pensando no meu epitáfio, algo como “Ele apanhou tanto que não estava mais roxo, e sim azul cobalto”.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque do meu celular. Era o Bruno me ligando:
– Chegamos, estamos em frente ao portão cinco.
Olhei ao redor procurando por quatro anões juntos. Nada.
Olhei ao redor procurando algo que fosse azul cobalto ao meu lado. Nada. Ótimo, qualquer coisa, vou ficar quieto na minha aí. Se vierem falar comigo, vou fingir que não falo português.
Olhei ao redor novamente e vi quatro sujeitos, e um deles falando ao fone: o Bruno.
Ele era razoavelmente grande. Ao menos, eu acho. Como já disse antes, passou de 1.70, para mim, é tudo igual. O problema eram os amigos dele: dois deles eram enormes, e o outro com certeza deve ter precisado comprar três ingressos para entrar no Morumbi. Não é exagero.
Meu Deus. Eu vou morrer.
Acendi um cigarro e cheguei perto. Nos cumprimentamos (eu pronto para sair correndo e olhando de lado, procurando por alguma viatura) e começamos a conversar sobre o show, comentando o quanto tinha sido sensacional.
Logo, estávamos os cinco espremidos em um táxi, voltando para Pinheiros, onde paramos num Habib’s para comer. E eu me sentindo "o" mafioso, com quatro guarda-costas brutamontes (na verdade, três, mas um é professor de kung fu, não se esqueçam disso) ao meu lado. Minha vontade era começar a cuspir nas pessoas na rua e fazer gestos obscenos para os carros, só para comprar briga.
Mas, adulto que sou
(aham mode: on) me comportei e ficamos horas ali, rolando de rir no Habib’s (onde descobrimos um garçom idêntico ao Diego Tardelli). Todos os quatro são gente finíssima. Gigantescos, assustadores, mas gente finíssima - e ainda me expicaram porque a cidade se chama Curitiba e o time Coritiba, algo que eu sempre quis saber - e se você tem essa curiosidade também, sinto muito, mas não falo, é coisa apenas para iniciados.
Depois, nos despedimos, e, no dia seguinte, ainda encontrei tempo para dar uma volta com o Bruno, almoçando na padaria em frente ao Degas e indo com ele até a Livraria Cultura da Paulista, onde ele fez a excelente aquisição de um 007 (Cassino Royale) em inglês.
E aí, nos despedimos (sem deixar, claro, de falar um pouco mal da vida) e voltei para casa pensando: a melhor coisa de você ter um blog é saber que graças a ele você faz amigos em todos os cantos do país. E amigos de verdade. Porque se eu não apanhei do Bruno esse dia, depois de tanto que eu o xinguei, é porque é uma amizade de verdade.
Em tempo: se você não conhece o Acepipes Escritos, sugiro que leia a tag sobre o
Zwkrshjistão, país criado pelo Bruno. Como eu fiz questão de dizer a ele, estes posts foram um dos primeiros que me fizeram pensar: “quero escrever assim”, no longíquo 2007, quando eu ainda tentava aprender a blogar direito.
P. S. – Bruno, a próxima vez tem Degas, você gostando disso ou não.