28 de fevereiro de 2010

Obituário

"Ele não estará realmente morto enquanto nos lembrarmos dele."

É com imenso pesar que o autor e todos os personagens deste blog anunciam, em decorrência de falência múltipla de órgãos, o falecimento de:


Computador de Rob Gordon

(Fev/2007 - Fev / 2010)


Apesar de não deixar viúva, filhos ou netos, sempre será lembrado pelo seu legado, deixando órfãos dezenas de matérias e centenas de posts para os blogs.

Os personagens do blog agradecem o apoio dado ao PC em seus momentos derradeiros, e comunicam que a Missa de Sétimo Dia será anunciada em breve.

26 de fevereiro de 2010

Rob Gordon e Velha em: "Ata-me!"

Quem acompanha meu Twitter sabe que estou lendo Duna, do Frank Herbert. Aliás, tem sido quase uma experiência sensorial ler o livro com o calor que tem feito em São Paulo. As pessoas andando no deserto, e eu suando em bicas. Chega a ser um novo conceito de imersão dentro da história, algo que nem mesmo James Cameron conseguiu com Avatar.

Enfim, tenho me apaixonado pelo livro. Estou lendo com calma – ele já é difícil e estou lendo em inglês. Então, toda hora tenho que ficar espiando no final do livro, onde tem um glossário com os termos “técnicos, religiosos, sociais e históricos” de Duna. Assim, leio uma página e corro para o final do livro. Leio outra, e corro para o final do livro. No metrô, as pessoas ficam me olhando com certa curiosidade, do tipo “será que ele não sabe que o livro foi feito para ser lido na ordem?”, mas não me importo.

Aliás, quando estou com o livro nas mãos, não me importo com nada. Me fecho ali no planeta Arrakis e desligo do mundo. A única coisa que me incomoda, em ônibus e metrô, são os malditos office-boys que ficam ouvindo música no celular sem fones de ouvido. Sabe, aqueles que acham que o ônibus inteiro quer ouvir a merda da música (e vocês já repararam como nunca é Mozart?).

E eu declarei guerra a este tipo de gente: toda vez que encontro um deles, fecho o livro e fico olhando fixamente para o aparelho de celular – às vezes os donos percebem isso – tentando usar meus poderes mentais para fazer o telefone explodir na mão dele, mas nunca consegui. Uma vez, consegui fazer a bateria acabar, mas foi só.

Enfim, no último domingo, fui almoçar na casa da minha mãe, e, para ir até lá, pego um ônibus chamado Vila Clara, que é exatamente igual a uma Copa do Mundo, mas sem o charme: ou seja, é a cada quatro anos e olhe lá. Assim, eu estava esperando o ônibus – já lendo o livro – com uma menina atrás de mim.

Eu estava confiante: como os portadores de celulares-berradores-de-funk não existem de domingo, eu sabia que devoraria pelo menos umas 20 páginas do livro no trajeto.

Ou, ao menos, era o que eu imaginava. Tudo mudou quando apareceu ela: a velha.

Antes que vocês comecem a jogar pedras em mim, ela não era uma velhinha, era uma velha. Existe uma grande diferença disso: velhinhas são pessoas meigas que dão bombons aos netos; velhas são aquelas que se entopem de maquiagem, usam roupas cafonas e acham que, por serem velhas, podem fazer o que quiserem na rua. Um exemplo: velhinhas pedem licença para passar na sua frente no caixa do supermercado; velhas te empurram.

Evidentemente que a velha chegou e já veio para o meu lado, reclamando que o ônibus demorava muito. Se fosse uma velhinha, eu teria aberto um sorriso e concordado. Como era uma velha, eu não tirei os olhos do livro e comecei a murmurar – não, resmungar seria um termo mais preciso – todas as orações que conheço, implorando para que ela desistisse logo e se afastasse.

Bem, ela desistiu. Mas não de conversar, e sim de conversar comigo. Foi até a menina e começou a reclamar que “o ônibus demora”, que “isso é um absurdo”, que “todo domingo é esse inferno”. E, evidentemente, como toda velha, sua voz não era das mais agradáveis: na escala de sensualidade e suavidade, ficava entre “arara” e “revoada de corvos”.

E eu ali, tentando ler, torcendo para que a menina fosse uma espécie de Rob Gordon feminino e a) mandasse a velha à merda, ou no mínimo, b) a ignorasse.

Claro que eu estava errado.

A menina, evidentemente, começou a conversar com a velha, dizendo que realmente este ônibus demorava muito de domingo. Assim, a velha embalou na conversa e começou a expor suas opiniões sobre o transporte coletivo de São Paulo.

Fiquei puto com a garota. Minha vontade era virar para trás e dar uma bronca, algo como:

– Você sabe que quanto mais você incentivá-la, mais isso vai demorar para acabar?

Mas não disse nada, porque o ônibus chegou neste minuto.

Entrei, e eu sei que é previsível – desculpem por isso, mas às vezes a minha vida é previsível demais – a velha-arara e a menina entraram no ônibus atrás de mim. Me sentei num banco e fiquei observando as duas, torcendo para que elas se sentassem longe – bem longe – de mim.

Comecei a rezar novamente, implorando a Deus que eu não estava pedindo muito, queria apenas ler meu livro sossegado. Infelizmente, minhas orações caíram na caixa postal divina – provavelmente, Deus não trabalha de domingo e a velha se sentou à minha frente. Eu olhei desconsolado para o meu livro: eu jamais conseguiria ler nada com ela ali.

Mas um fiapo de esperança se acendeu. A menina não se sentou ao lado da velha, mas sim do outro lado do ônibus, deixando a velha sozinha no seu canto. Ninguém, em sã consciência, conversa com uma pessoa que está do outro lado do ônibus. Ninguém. As pessoas conversam com quem está ao seu lado, e a velha não tinha ninguém do lado.

E se alguém se sentasse ao lado da velha, eu fingiria uma convulsão e ficaria chutando o encosto do banco até a pessoa ir embora. Ninguém se sentaria ao lado dela E eu estava determinado a manter este bloqueio político à velha durante todo o percurso, se fosse preciso.

Assim, abri meu livro e comecei a ler. Antes de chegar no final do primeiro parágrafo, a voz dela rasgou (o termo é esse mesmo: rasgou) o ônibus:

– E este calor, não?

Eu apenas levantei os olhos. A velha aparentemente havia decidido furar meu bloqueio quebrando estabelecendo novos padrões de inconveniência. Sem se importar com o fato de a menina estar a metros dela, continuou a conversa (num volume superior a 100 decibéis). E a menina, claro, respondeu.

Agora, os papéis haviam se alterado. A velha deixara de ser especialista em transporte urbano e havia se transformado em especialista em metereologia. E eu havia deixado de ser alguém que não estava conseguindo ler para uma pessoa prestes a ter uma síncope. E, assim, durante metade da Faria Lima, eu fui obrigado a ouvir sobre frentes frias, El Niño e aquecimento global. Aliás, eu devo ter aumentado a temperatura do planeta em pelos menos 2 graus, de tanto que eu bufava atrás da velha, com a (vã) esperança de que ela se tocasse.

Claro que ela não se tocou e foi falando sobre o maldito calor até descer do ônibus, já no final da Faria Lima. Despediu-se da menina e foi para as ruas, provavelmente procurando alguém para conversar.

Fechei os olhos e fiquei alguns segundos imóvel, me deliciando com o silêncio. Eu ainda conseguiria ler pelo menos umas dez páginas.

Sorri de leve, cruzei a perna (pé direito por cima da coxa esquerda, sabe?), abri o livro e voltei a ler.

Havia devorado umas duas páginas quando fui trocar a perna de posição e percebi que não conseguia movê-la, mas apenas um pouco. Sem entender o porquê disso, forcei a perna e consegui me mexer. Foi aí que eu percebi que estava amarrado. Uma espécie de corda branca estava prendendo meu pé à minha perna.

Diversas possibilidades passaram pela minha cabeça, desde o ônibus ser, na verdade, um ninho da Laracna até eu ter me tornado a presa de um grupo de caçadores canibais que estavam escondidos no veículo (sim, porque se isso acontecer um dia, será no ônibus em que eu estiver). E conforme eu me mexia, percebia que estava ficando cada vez mais preso, as cordas pareciam se multiplicar.

Tentei usar as mãos para me soltar e senti que a corda era pegajosa. Ou seja, mais provável ser a Laracna que os canibais. Foi aí que eu resolvi cheirar meus dedos.

Tutti Frutti.

Não era uma corda, era um chiclete.

Algum filho da puta havia cuspido o chiclete no chão do ônibus, e, com o calor que fazia, ele estava totalmente derretido. E adivinhem quem havia pisado nele? Olhando para baixo, vi que todos os lugares pelos quais eu havia passado no ônibus estavam com rastros e tiras de chiclete. Se todos os caminhos levam a Roma, todos os fiapos de Bubbaloo ali levavam até Rob Gordon.

Não consegui nem sentir nojo. Imaginando que o ônibus inteiro deveria estar rindo de mim, comecei a tentar me soltar, mas bastava eu mexer – e isso incluía respirar – piorava tudo. Eu não apenas estava com as pernas grudadas uma na outra, como me grudando no banco e na parede do ônibus. Eu estava me tornando uma crisálida.

O ponto em que eu iria descer estava se aproximando e eu ali, grudado.

Com um esforço sobre-humano, consegui me soltar – quase me jogando para o corredor – a tempo de descer onde eu precisava.

E, já nas ruas, fui andando como uma pessoa destruída pela radiação, com pedaços do meu corpo de chiclete dissolvendo e grudando em postes, portões, meu pé prendendo nas calçadas.

E, assim, passei a tarde toda na casa da minha mãe, sendo operado com gelo e facas para restabelecer minha composição normal.

Isso já faz dias. E ainda não consigo dormir direito, sonhando com a voz da velha e sentindo cheiro de Tutti Frutti em todos os lugares. Me tornei praticamente um veterano de guerra.

E, pior, estou grudado, literalmente, ao meu passado.

24 de fevereiro de 2010

Aconteceu naquela Década

Neste começo de ano, estou completando dez anos de redação.

Dez anos. É muito tempo. Especialmente para alguém que não é formado em jornalismo – caso alguém aqui não saiba, sou formado em publicidade. Qualquer dia eu conto aqui como entrei no jornalismo, mas não hoje. Mas é bastante tempo. Pelas minhas contas (estamos falando de 120 meses) devo ter produzido mais de 200 revistas – se não , chega bem perto de 200.

Enfim, estamos falando de dez anos de prazos apertados, de correria, de risadas, de stress. Dez anos trabalhando madrugada adentro, dez anos falando no telefone, respondendo alguém no Messenger e digitando um texto – tudo ao mesmo tempo agora. Dez anos tendo que tirar muitos domingos para trabalhar, dez anos sendo o último a chegar às festas de amigos, dez anos não podendo jantar com a Sra. Gordon, amigos e família sempre que dá vontade.

Nesse ponto, passou rápido demais. Parece que foi mês passado que meu pai chorou quando viu minha primeira matéria assinada; parece que foi semana passada que fiz minha primeira entrevista; parece que foi ontem que fiz minha primeira matéria de capa.

Mas, também, não tinha como não passar rápido.

Foram dez anos sempre com prazos apertados. Se alguém fizer as contas, o tempo líquido desta década deve dar uns seis anos, de tanta correria. E o stress não foi apenas por conta de correria. Já soquei mesa, já quebrei telefone com um murro, já xinguei, esbravejei, e um dia me seguraram porque eu queria ir até uma empresa sair no tapa com uma assessora de imprensa.

Cagadas? Já fiz também. Muitas. Já fiquei noites sem dormir preocupado com besteiras que tinha feito, já voltei para casa com lágrimas nos olhos, com nó na garganta, me sentindo um merda, incompetente demais. Já entrei em banheiros e soquei a parede desejando, na verdade, me socar.

Mas hoje eu sei que cagadas fazem parte. Ou, ao menos lido com elas melhor do que lidava em 2000.

E claro que foram dez anos de muito aprendizado. E não apenas no âmbito profissional – tudo o que eu sei sobre jornalismo aprendi dentro de uma redação –, mas na vida como um todo. Afinal, convenhamos: são dez anos. Mesmo se eu fosse garrafeiro, me mataria se não tivesse aprendido absolutamente nada. Talvez o que eu esteja tentando dizer é que aprendi muito sobre mim; sobre limites, sobre capacidade, sobre talento, sobre o que eu sei fazer bem e o que eu não sei. E, claro, aprendi que eu gosto de escrever.

Contudo, foram dez anos bastante divertidos. Fiz amigos, daqueles que você leva para a vida toda, mesmo conseguindo almoçar uma vez a cada dois meses. Porque, sejamos sinceros: passar a madrugada (ou um domingo com final de Copa do Mundo na TV) com uma pessoa fechando revista é o equivalente àquelas amizades de soldados que lutaram juntos e que só vemos nos filmes.

Já fui criticado, já fiz textos de merda, já fiz textos ótimos. Curiosamente, alguns dos melhores elogios que recebi não foram de leitores (bem, alguns foram, daqui a pouco conto um deles), nem de chefes, mas sim de pessoas que trabalhavam comigo, no mesmo ambiente, na mesma batalha do dia a dia, em especial, dois sujeitos que respeito muito, como pessoas e como profissionais.

Um deles disse que aprendeu muito trabalhando comigo; o outro já soltou umas duas ou três vezes que eu faço coisas impensáveis aqui. Quem me conhece sabe que me cobro muito e é difícil eu aceitar elogios Agradeço, mas não consigo assimilá-los direito. Mas me esforcei para acreditar nestes dois elogios, significavam demais para mim, justamente por terem vindo deles.

O elogio que veio de um leitor e que eu prometi contar acima foi legal. Um sujeito ligou para a redação perguntando algo sobre um filme. Eu respondi, conversamos uns cinco minutos. No final, ele agradeceu e perguntou meu nome. Eu respondi e ele soltou:

– Espere, você é o editor da revista?

– Sim.

– Rapaz, que honra falar com você!

Comecei a ficar sem graça, e soltei um “imagine, foi um prazer”, e ele continuou:

– No mês passado, você escreveu uma matéria sobre animações, não?

– Sim.

– Minha esposa adorou aquele texto, ela leu umas três vezes e foi atrás de todos os filmes. Posso passar o telefone para ela? Ela vai adorar cumprimentar você.

Eu concordei, e a mulher dele pegou o fone. Ficamos alguns minutos conversando, enquanto ela me dizia tudo que tinha adorado no texto, e o que tinha gostado nos filmes – ela tinha corrido atrás de todos, para assistir, depois de ler a matéria.

Nunca esqueci isso.

A sensação de ter mudado a vida de alguém, mesmo de uma forma pequena e casual, com um texto é indescritível. Quem me conhece, sabe que é exatamente isso que eu tento fazer no blog (de um jeito neste aqui, de outro jeito no Chronicles).

E as entrevistas? Dezenas. Algumas muito legais, outras pavorosas. Tremi, por motivos particulares, ao ver de perto três pessoas: o Roman Polanski, o Leonard Nimoy e o Pelé. Tremi, mesmo.

Mas tem outras histórias boas, como eu ter virado “amigo de caipirinha do Viggo Mortensen”; os irmãos Farrelly (diretores de Quem Vai Ficar com Mary?) terem me segurado praticamente fora da sacada do apartamento em que os entrevistei; ter fumado charuto com o Ron Perlman, na estréia do primeiro Hellboy; e ganhar um desenho exclusivo do Zakk Snyder, com uma criatura que ele não conseguiu colocar em 300, e outro do Don Rosa, desenhista do Pato Donald.

Quanto às ruins, deixa para lá, isso eu guardo para mim.

Tenho amigos com histórias muitos melhores que as minhas, em termos de entrevistas, mas estas têm uma diferença: são minhas. São minhas memórias.

E hoje, com dez anos de redação, todas elas (e não apenas as entrevistas) têm um gosto doce, de conquista, de aprendizado, de superação e, claro, de soltar um “fudeu, desta vez não vai dar”, mesmo sabendo que, no final, dá. Sempre dá.

E daqui a dez anos? Não faço idéia. Quem me conhece bem sabe que meu sonho é viver deste blog – ou ao menos, viver escrevendo coisas parecidas com o que escrevo aqui e no Chronicles.

Um dia, quem sabe.

Mas, até lá, tenho prazos para cumprir, revistas para fechar e pessoas para entrevistar. E gargalhadas para dar, porque existem pessoas que gostam do que fazem, mas eu, por outro lado, faço o que gosto.

E tem uma diferença muito grande aí.

22 de fevereiro de 2010

Meeting Bruno Palma

(leia a versão do Bruno aqui)

Tem uma história que estou devendo aqui desde o show do Metallica. Hora de quitar a dívida.

Nos dias antes do show, o @brunopalma, blogueiro curitibano de mão cheia e dono do Acepipes Escritos, começou a soltar no Twitter que viria para a apresentação do Metallica em São Paulo. E o Bruno é um cara que eu sempre quis conhecer – o blog dele foi um dos primeiros que eu conheci depois que me tornei blogueiro e, além disso, o sujeito é gente boa demais.

Assim, eu, ele e Sra. Gordon criamos uma força tarefa para nos encontrarmos antes do show. A priori, o que ficou combinado foi que iríamos nos encontrar no Shopping Morumbi e, de lá, partiríamos para o Morumbi juntos.

No papel – ou melhor, na tela – isso funcionou bem demais.

Na vida real, as coisas começaram a degringolar já após o almoço. Peguei um táxi e parti para o Shopping Morumbi, onde a Sra. Gordon me esperava. Assim que saí de Pinheiros e caí na Marginal, recebo um sms no celular. Era o Bruno, dizendo que estava na casa de parentes perto de Pinheiros, e se não seria melhor irmos para o Shopping juntos.

Avaliei a situação. O taxista não parecia disposto a dar um cavalo de pau no meio da Marginal e voltar para Pinheiros. Assim, mandei um sms respondendo que não dava pois eu já estava a caminho.

Primeiro desencontro do dia.

Cheguei ao shopping, almocei com a Sra. Gordon e logo chega outro sms do Bruno, dizendo que, por uma mudança de planos, ele estava indo direto para o estádio do Morumbi, e “com sorte”, nos encontraríamos na fila.

Eu apenas suspirei. “Com sorte”? Bom, comigo esse lance de sorte não funciona. Logo, antes mesmo de responder a mensagem, eu já sabia:

Segundo desencontro do dia.

Assim, fomos para o Morumbi. Eu e Sra. Gordon de arquibancada, e o Bruno na pista. E, de repente, o Bruno deve ter lembrado que eu estava na arquibancada e eu devo ter lembrado que ele estava na pista, e começamos a praticar um dos passatempos mais apreciados por todos os homens do planeta: começamos a nos xingar (via sms, já que essa era a única ferramenta tecnológica disponível).

E foi aí que ficou mais que claro que o Bruno era um cara legal. Se você não é homem (ou porque nasceu mulher ou porque teve seu passe vendido para outro time ao longo dos anos), aprenda isso: homens, quando são amigos, se xingam o tempo todo. Se um homem cumprimenta outro com “oi, tudo bom?”, é porque eles não são amigos. Amigo que é amigo cumprimenta com “e aí, viado?”.

Bom, palavrões e xingamentos à parte, Metallica entrou no palco, arrasou e o show acabou.

Liguei para o Bruno e perguntei se ele não queria voltar comigo, rachar um táxi, algo assim. Ele não apenas concordou como agradeceu – aparentemente, após o show terminar, ele deve ter caído na real sobre o fato de não fazer a menor idéia de como voltar para a casa dos parentes - pelo tom de voz dele, ele sabia que estava apenas em São Paulo.

Assim, fiquei esperando a carona da Sra. Gordon ao lado dela, e trocando sms com o Bruno, o guiando até onde estávamos. E foi aí que eu pensei: como ele vai reconhecer a gente? Tudo bem, provavelmente eu sou a única pessoa careca e de 1.60 aqui, mas, mesmo assim...

Foi aí que a Sra. Gordon teve a idéia:

– Fale para ele que eu estou de azul cobalto.

– Oi?

– Fale para ele que eu estou de azul cobalto, não tem erro.

– Cobalto é azul?

– Vai, mande a mensagem logo.

– Mas ele é homem. Ele não vai saber o que é azul cobalto.

– Vai por mim, ele vai saber.

Foi aí que me instinto de sobrevivência apitou e eu respondi:

– Bom, ele luta kung fu e você... Bem, você é você. Vou mandar a mensagem.

Só depois eu me lembrei que o Bruno, na verdade, saberia sim o que é azul cobalto porque ele trabalha como designer gráfico. Assim, fiquei com isso na cabeça (“eu realmente não sabia que cobalto era azul”), sem perceber que um alarme estava apitando dentro do meu cérebro.

Infelizmente, a Sra. Gordon teve que ir embora antes do Bruno chegar – e, com ela, nossa referência azul cobalto. E nada do Bruno aparecer. Assim, eu e o Bruno começamos a trocar sms novamente, tentando fazer com que ele encontrasse o local onde eu estava, e sempre com mensagens do tipo “onde você está, seu viado?” e “estou chegando, caralho”.

De repente, meus neurônios, cansados de falarem comigo em vão, subiram em dois postes dentro do meu cérebro e estenderam uma faixa, com letras garrafais (em azul cobalto - meus neurônios não perdem uma):

O BRUNO LUTA KUNG FU


Foi aí que eu percebi onde estava me metendo. Fiquei branco. Eu passei a tarde xingando um sujeito que luta kung fu. Não, minto: ele lutava kung fu, anos atrás. Hoje, é pior. Hoje ele dá aula de kung fu.

Fechei os olhos e imaginei o Bruno na minha frente, com aquelas calças largas, tipo Bruce Lee, sem camisa, rodando um nunchaku e disparando shurikens na minha direção. Olhei ao redor, procurando algum baixinho careca ali por perto. Minha idéia era ir embora e deixar o Bruno espancar o sujeito. Nada. Tentei, então, ficar na ponta dos pés, mas isso fez minha altura subir de 1.60m para 1.62m, o que não ajudou muito.

A saída seria arrumar uma peruca, mas mudei de idéia na mesma hora. Eu morro apanhando, mas ao menos minha dignidade permanece viva.

Estava rezando para o Bruno ser um gordinho de 1.20 quando toca meu celular. Era ele. Achei melhor maneirar nos xingamentos.

Ele começou:

– Porra, onde você está?

– Oi, tudo bem? Estou no lugar que eu disse que estava. Desculpe por isso. Já estou indo para onde eu deveria estar. Desculpe por isso também. Acho seu blog o máximo.

– Não, fique aí, já estamos chegando.

Eu já estava pronto para perguntar um “vem cá, você é muito grande?”, com a desculpa de “como eu vou reconhecer você?”, mas o “estamos” me chamou a atenção.

Como assim, “estamos”?

– Hã... Estamos?

– Sim. Eu e meus amigos.

Meu Deus.

– É... Em quantos vocês estão?

– Estamos em quatro.

Meu Deus.

Cruzei os dedos e comecei a rezar para serem quatro anões. Assim, eles teriam a minha altura, as coisas seriam mais fáceis. Por outro lado, apanhar de uma gangue de anões seria humilhante demais. E humilhação por humilhação, seria melhor voltar ao plano da peruca.

Assim, resolvi enfrentar meu destino como homem, já pensando no meu epitáfio, algo como “Ele apanhou tanto que não estava mais roxo, e sim azul cobalto”.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque do meu celular. Era o Bruno me ligando:

– Chegamos, estamos em frente ao portão cinco.

Olhei ao redor procurando por quatro anões juntos. Nada.

Olhei ao redor procurando algo que fosse azul cobalto ao meu lado. Nada. Ótimo, qualquer coisa, vou ficar quieto na minha aí. Se vierem falar comigo, vou fingir que não falo português.

Olhei ao redor novamente e vi quatro sujeitos, e um deles falando ao fone: o Bruno.

Ele era razoavelmente grande. Ao menos, eu acho. Como já disse antes, passou de 1.70, para mim, é tudo igual. O problema eram os amigos dele: dois deles eram enormes, e o outro com certeza deve ter precisado comprar três ingressos para entrar no Morumbi. Não é exagero.

Meu Deus. Eu vou morrer.

Acendi um cigarro e cheguei perto. Nos cumprimentamos (eu pronto para sair correndo e olhando de lado, procurando por alguma viatura) e começamos a conversar sobre o show, comentando o quanto tinha sido sensacional.

Logo, estávamos os cinco espremidos em um táxi, voltando para Pinheiros, onde paramos num Habib’s para comer. E eu me sentindo "o" mafioso, com quatro guarda-costas brutamontes (na verdade, três, mas um é professor de kung fu, não se esqueçam disso) ao meu lado. Minha vontade era começar a cuspir nas pessoas na rua e fazer gestos obscenos para os carros, só para comprar briga.

Mas, adulto que sou (aham mode: on) me comportei e ficamos horas ali, rolando de rir no Habib’s (onde descobrimos um garçom idêntico ao Diego Tardelli). Todos os quatro são gente finíssima. Gigantescos, assustadores, mas gente finíssima - e ainda me expicaram porque a cidade se chama Curitiba e o time Coritiba, algo que eu sempre quis saber - e se você tem essa curiosidade também, sinto muito, mas não falo, é coisa apenas para iniciados.

Depois, nos despedimos, e, no dia seguinte, ainda encontrei tempo para dar uma volta com o Bruno, almoçando na padaria em frente ao Degas e indo com ele até a Livraria Cultura da Paulista, onde ele fez a excelente aquisição de um 007 (Cassino Royale) em inglês.

E aí, nos despedimos (sem deixar, claro, de falar um pouco mal da vida) e voltei para casa pensando: a melhor coisa de você ter um blog é saber que graças a ele você faz amigos em todos os cantos do país. E amigos de verdade. Porque se eu não apanhei do Bruno esse dia, depois de tanto que eu o xinguei, é porque é uma amizade de verdade.

Em tempo: se você não conhece o Acepipes Escritos, sugiro que leia a tag sobre o Zwkrshjistão, país criado pelo Bruno. Como eu fiz questão de dizer a ele, estes posts foram um dos primeiros que me fizeram pensar: “quero escrever assim”, no longíquo 2007, quando eu ainda tentava aprender a blogar direito.

P. S. – Bruno, a próxima vez tem Degas, você gostando disso ou não.

17 de fevereiro de 2010

Uma Luz na Escuridão

Então, é isso. Andando da redação para casa, hoje, vi que o bairro inteiro está sem luz. Os botecos estão iluminados por velas, os semáforos estão apagados. Assim, o caos se instalou nas ruas ao redor do meu prédio.

A Cardeal Arcoverde, por exemplo, esta totalmente parada – cheguei a andar duas quadras dela sem ver os carros se moverem. Evidentemente, nem coloquei os pés na Teodoro. Como ela leva esse negócio de ser a pior rua do bairro para o lado pessoal, ao descobrir que a Cardeal estava congestionada, deve ter dado um jeito de capotar todos os veículos que conseguiu.

Mas o ponto não é esse. O ponto é que o bairro inteiro – ou, ao menos, boa parte dele – está sem luz, com exceção do meu prédio.

Sorte? Bem, se você está pensando isso, melhor eu dar as boas vindas aqui, porque você definitivamente é um leitor novo, e ainda não sabe que a única sorte que eu tenho é a má sorte.

Posto isto, estou com certo receio. Apenas o meu prédio com luz? Não, não é bom sinal. Algo de muito ruim vai acontecer.

Assim, elaborei um Top 5 Explicações para Apenas o Meu Prédio Estar Aceso e Suas Consequências:

1. Trata-se de uma invasão de mortos-vivos. Enquanto digito isso, zumbis estão devorando as pessoas nas ruas, e o número de mortos-vivos cresce em progressão geométrica. Por isso não há mais luz. Logo, a internet vai cair também. E chegará um momento em que o mundo será habitado somente por zumbis, que se arrastarão pelas ruas em busca de alimento, inutilmente. Inutilmente, claro, até eles perceberem que “olhe só, tem um prédio todo aceso em Pinheiros. Vamos até lá? Deve ter comida.” (isso, claro, já traduzido do “grrrauuurrrr” que eles costumam falar, para o seu maior conforto). Logo, a notícia vai se espalhar e todos os mortos vivos do planeta cercarão meu prédio, que se tornará uma espécie de Fogo de Chão dos zumbis.

2. Alienígenas estão em órbita da Terra, há séculos, monitorando a vida humana e acompanhando a evolução da nossa espécie. Agora, eles finalmente decidiram que é o momento de iniciar a invasão (provavelmente, captaram as transmissões do Zorra Total num sábado à noite e decidiram que nossa espécie é perigosa demais). Assim, eles desligaram todas as formas de energia do planeta. O único prédio que permanece aceso é o meu, que, na verdade, não é um prédio, mas sim uma sonda dos aliens. Logo, o pessoal da NASA vai vir aqui investigar e descobrir que toda a tecnologia deles está centrada no meu quarto, e vão lacrar aquilo para estudos. Eu? Como não posso sair do prédio, sob suspeita de ser um agente duplo alienígena, vou dormir na escada do prédio.

3. Foi um atentado terrorista que deu errado. Bombardearam as usinas do Brasil, mas, por acaso, a tomada que deixa meu prédio ligado permaneceu inteira. Assim, em minutos a CIA vai entrar no meu apartamento, e aos berros de “Move! Move! Move!” e “Room, clear! Kitchen, clear!” vão prender todo mundo. Logo, vai ficar claro que meu cachorro é um perigoso terrorista conhecido como Bestan Al-Feran Assad, e será confinado em Guantánamo. E, na primeira sessão de interrogatório, ele vai revelar que apenas cumpria ordens, e eu sou o cérebro por trás de tudo.

4. Trata-se de golpe de estado arquitetado pela minha Síndica, que, visando expandir seus domínios, apagou a luz do bairro todo e iniciou um plano de invasão, ampliando as fronteiras para o que será conhecido como Primeiro Império Síndico-Mafioso do Ocidente. Como ela nunca foi muito com a minha cara, dificilmente eu conseguirei algum ministério. É mais provável que eu seja obrigado a lutar no front de alguma das fronteiras (Pinheiros - Itaim, quem sabe?), ou, mais provável, que eu seja jogado e esquecido numa mina de sal. E, pior, mesmo acorrentado ali, terei que continuar a pagar o condomínio de alguma forma.

5. Cansado de ver a enorme quantidade de erros em Sua criação, Deus resolveu formatar tudo. Apagou o planeta inteiro e voltou para a estaca zero. Assim, no final da tarde, soltou um “faça-se a luz”, mas, como andou lendo livros de micro-gerenciamento, resolveu fazer desta vez tudo em menor escala; assim, acendeu apenas o meu prédio, que vai ser o pequeno universo particular Dele. Ou seja, a humanidade, agora, tem um novo começo. E eu sou o Adão da coisa toda. O problema não é andar para cima e para baixo vestindo apenas uma folhinha de parreira – cá entre nós, é vergonhoso, mas eu vou estar sozinho mesmo. O meu medo é que tenho certeza que vão trocar as fichas lá em cima e acabarão escolhendo a Elza Soares como Eva. Aí, vou ter que chamar o Criador e tentar negociar algo como “eu troco ela, três costelas e um braço inteiro por um PlayStation 3, que tal?”. E se Ele não aceitar, sinto muito, mas que encontre outra raça dominante. Eu estou fora.

15 de fevereiro de 2010

Estação do Império dos Acadêmicos Unidos da Vila do Championship Vinyl

Em ritmo de carnaval, vamos à publicação do primeiro samba-enredo daquela que (ao menos até onde sei), é a primeira escola de samba da blogosfera brasileira.

A composição do samba-enredo é do carnavelesco Rob Gordon, em colaboração com os passistas @otaviocohen e @ericfranco, que deram dicas preciosas (respectivamente, as divisões em sílabas em determinados versos e a presença sempre marcanta de Maurício de Nassau).

(Vale lembrar que os trechos em itálico são as indicações para os sambistas puxarem o samba-enredo)


Nonsense na Avenida

Eu quero ver
futebol e documentários,
Filmes, seriados, e tal!
Mas eu ligo a TV,
e não importa pra onde olhe,
Só passa carnaval!

(E é difícil!)
É difícil... Di! Fí! Cil!
Sim meu amor, sou mesmo azedo!
É difícil... Di! Fí! Cil!
Aguentar a letra de um samba enredo!
Porque eles são todos iguais,
Não importa a escola ou os ares,
Falam sempre as mesmas coisas,
Santos Dumont, Zumbi e os Palmares!

E isso sem falar... Em Maurício de Nassau!

(E também tem!)
E também tem... Tam! Bém! Tem!
Todos os deuses africanos!
Oxossi! Ogum! Pai Vavá! Olodum!
E a coerência? Entra pelo cano!
Porque o samba enredo é uma beleza,
Pode ser sobre Pokemon, SBT ou Ceará,
Mas, meu amor, você pode ter certeza,
Que vai ter uma frase sobre Iemanjá!

E isso sem falar... Em Maurício de Nassau!

(E o samba vai!)
E o samba vai... Sam! Ba! Vai!
Noite e dia, madrugada adentro!
E o samba vem... Sam! Ba! Vem!
Nos sentidos centro-bairro, bairro-centro!
E regras gramaticais? Pode esquecer!
Não tem vírgula, ponto ou frase,
Nem acento agudo ou circunflexo,
Meu Deus do céu... Meu Deus, ô fase!

E isso sem falar... Em Maurício de Nassau!

Eu quero ver,
futebol e documentários,
Mas só tem Sapucaí!
E eu desligo a TV,
E vou para o meu quarto,
Porque só me resta ir dormir!

Update: A Estação do Império dos Acadêmicos Unidos da Vila do Championship Vinyl não é a primeira escola de sampa da blogosfera brasileira: o título cabe à Unidos do Imperador, nascida em 2008, com um samba enredo que homenageou o Oscar Niemeyer.

12 de fevereiro de 2010

O Cachorro que Sabia Demais

A sala apertada cheirava a suor. As primeiras luzes da manhã invadiam o recinto pelas frestas das venezianas brancas. Numa pequena cadeira, colocada bem no meio da pequena sala, Besta-fera recuperou sua consciência aos poucos.

À sua frente, um homem saiu das sombras e caminhou para a luz. Era pequeno e calvo. Seus olhos irradiavam frieza. Encostou-se de costas numa mesa e, com os punhos apoiados no móvel, disse:

– Bem vindo de volta, Sr. Fera.

O pequeno cachorro branco sacudiu levemente a cabeça. Precisava dos seus sentidos afiados. O homem continuou.

– Você conhece aquela piada do francês, do italiano, do brasileiro e do português que foram condenados a vinte anos de prisão, mas cada um deles podia pedir escolher algo para levar para dentro da cela?

– ...

– Imaginei que não. Ela é muito antiga, não é contada mais. O francês escolheu um estoque ilimitado de vinhos. O italiano, um suprimento de massas. O brasileiro pediu uma mulata. E, o português, cigarros, alegando que não conseguia ficar sem fumar.

– ...

– Assim, eles foram colocados nas celas e lá ficaram por vinte anos. Quando abriram as portas, sabe o que encontraram?

– ...

– O francês estava totalmente embriagado, cercado de garrafas vazias. O italiano havia comido toda a massa, e estava pesando quase 200 quilos. O brasileiro estava magro e fraco, cercado de filhos. E o português estava encolhido num canto da cela, tremendo, com um cigarro apagado na mão, perguntando aos guardas se algum deles tinha fogo.

– ...

– Isso não vai acontecer aqui, Sr. Fera. Não importa quanta dor ou sofrimento tenha que ser infligido, isso não vai acontecer aqui.

– ...

– E eu sou jornalista. Eu fecho revistas e mais revistas de madrugada. E, até os meus vinte e poucos anos, levei centenas e centenas de pés na bunda. Eu entendo um pouco de dor, acredite.

– ...

– Mas podemos evitar tudo isso agora, se você disse o que preciso. Onde está meu isqueiro?

– ...

– Você sabe do que estou falando. É um isqueiro Bic, pequeno e azul. Ele foi comprado esta semana. Onde ele está?

– ...

– Nós dois sabemos que o senhor sabe o paradeiro do isqueiro, Sr. Fera. Ele estava aqui até ontem, quando fui dormir. Apenas o senhor ficou aqui em casa e agora o isqueiro está desaparecido. Não é preciso ser um gênio para compreender seu envolvimento com isso.

– ...

– Assim, eu vou perguntar mais uma vez. Onde está meu isqueiro?

– ...

– Resistir é inútil. Eu vou arrancar esta informação do senhor. É apenas uma questão de tempo. Sabe, Sr. Fera, o segredo da tortura é jamais deixar o torturado desistir de viver. Eu vou torturar você de todas as formas possíveis, mas sempre manterei um fiapo de esperança em seu cérebro. E, cedo ou tarde, você vai ceder. Nesta hora, você vai implorar para eu lhe matar. E, aí, eu já estarei fumando meu cigarro tranquilamente, com meu isqueiro no bolso.

– ...

– Você vai perder, Sr. Fera. É apenas uma questão de tempo. Não sei quem mandou o senhor aqui, mas agora você entenderá o que acontece com aqueles que cruzam meu caminho.

– ...

– Onde está o isqueiro?

– ...

– Onde está o isqueiro?

– ...

– ONDE ESTÁ O ISQUEIRO?

– ...

– É sério, eu não estou blefando. Eu vou matar você se você não me disser onde está o isqueiro.

– ...

– Vamos fazer o seguinte? Me diga onde está o isqueiro, eu solto você, e esquecemos tudo isso. Ok?

– ...

– Você me vê mexendo nas suas coisas? Nos seus brinquedos? Não, não vê. Eu respeito suas coisas. Respeito o seu espaço. Agora, você não. Você precisa mexer em absolutamente tudo o que é meu. Tudo. Mas desta vez você foi longe demais. Eu quero meu isqueiro!

– ...

– Olhe, por favor. Eu acordei agora há pouco. Você sabe que eu fumo muito pela manhã. E eu acabei de tomar café. Eu PRE-CI-SO fumar. É difícil demais entender isso?

– ...

– Quem mandou você aqui? Foi o Serra? Foi o Dráuzio Varella? Quem?

– ...

– Ok. Você não vai colaborar mesmo. Ok. Não dá mais confiar em ninguém hoje em dia, mesmo.

– ...

– Quer saber? Às vezes eu esqueço que você é apenas um cachorro. Desculpe. É evidente que você não pegou meu isqueiro.

– ...

– Eu vou comprar fósforos no caminho da redação. E, olhe, desculpe ter desconfiado de você. Eu apenas fiquei nervoso porque preciso fumar e... Bem... Você tem o hábito de mexer nas minhas coisas, você sabe.

– ...

– Vamos fazer assim? À noite eu passo no Pão de Açúcar e compro um osso para você. E a gente esquece tudo isso, ok?

– ...

– Desculpe. Mesmo. Eu vou trabalhar, tá?

– ...

– E, bem... Acho que nem preciso falar isso, mas se você encontrar um isqueiro Bic por aí, ele é meu. Ok? Ele é azul.

– ...

– Desculpe, mais uma vez. Estou saindo, à noite eu volto.

– ...

O homem calvo colocou a carteira no bolso e deixou a sala, fechando a porta atrás de si.

Besta-Fera desceu da cadeira e caminhou para o sofá. Lá, ligou a TV e colocou no Discovery Channel, esperando encontrar algum documentário sobre vida selvagem, especialmente sobre lobos – eram seus preferidos.

Após sintonizar o canal, colocou a pata atrás da almofada e puxou um charuto e um pequeno isqueiro Bic azul. Acendeu o charuto, deu uma longa baforada e sentiu o sabor do tabaco queimado em sua boca. Pousou o charuto no cinzeiro e, esperando pelo programa, suspirou:

– Imbecil.

11 de fevereiro de 2010

O Império dos Sentidos

É comum acreditar que um aparelho de mp3 gira em torno de apenas um dos cinco sentidos: a audição. O engano é fácil de ser explicado, já que estamos falando de música (no meu caso, no máximo), entrando diretamente nos seus ouvidos pelos fones.

Agora, o que nem todo mundo sabe é que é possível expandir a experiências para todos os demais sentidos. Basta apenas um pouco de imaginação – e uma capacidade inigualável de pagar micos colossais.

E eu possuo essas duas características (especialmente a segunda, que tenho de sobra), como ficou claro no elevador do meu prédio, hoje de manhã.

Assim, deixo vocês com o Top 5 Sentidos do Corpo Humano, Pela Ordem que Eles Organizaram uma Conspiração para me Envergonhar:

1. Audição - Entrei no elevador ouvindo Holy Wars... The Punishment Due, do Megadeth, no mp3. No máximo. Apertei o botão do Térreo e encostei-me à parede. As guitarras começaram a cortar meu cérebro em dois, enquanto a bateria fazia meus órgãos tremerem. O baixo dominava o elevador. Fechei os olhos e fiquei ouvindo a música, acorde por acorde, verso por verso. Logo, comecei a cantar junto, baixinho. O elevador se tornou meu palco.

2. Tato – Não agüentei e comecei a tocar air guitar no elevador. Eu praticamente sentia o instrumento em minhas mãos, e comecei a cantar junto, balançando a cabeça. Eu não estava mais no elevador (que, a esta altura, deveria estar no sexto andar). Eu estava em Donnington, em algum Monsters of Rock. E no palco. Eu não era mais Rob Gordon, eu era David Mustaine, chacoalhando os cabelos (que não tenho), cantando, cada vez mais alto, Waaaaaaage the war... On organized crime!, e enlouquecendo os milhões de fãs (que também não tenho), todos apaixonados pela minha banda (que não existe).

3. Olfato – Comecei a sentir um leve perfume adocicado ao meu redor. Achei estranho. No meio de um show do Monsters of Rock, o único cheiro adocicado que deveria existir era o de maconha. Fora isso, apenas cheiro de suor. De onde estaria vindo aquele cheiro? Afinal, mesmo se meu mp3 tivesse um recurso como “ativar odor” da música, versos como “some people risk to employ me, some people live to destroy me, either way they die... They diiiiie!” dificilmente teriam cheiro doce, estando mais para odor de pólvora e sangue.

4. Visão – Curioso, abri os olhos. Não estava mais em Donnington, mas sim de volta ao meu elevador. E eu não cantava para uma platéia de milhões, mas para uma pessoa: uma mulher com cerca de quarenta anos, moradora do terceiro andar do meu prédio, e que estava saindo de casa, provavelmente para trabalhar. O perfume vinha dela. Eu estava tão entretido com meus riffs imaginários que não senti o elevador parando. Ao menos, ela estava, aparentemente, gostando da música. Afinal, ela estava rindo. Se bem que logo caí na real e percebi que não estava rindo por estar satisfeita com a minha performance, mas por ter aberto a porta do elevador e ter dado de cara com o carequinha imbecil do oitavo andar “brincando de musiquinha”.

5. Paladar – Eu não sentia mais o gostinho da fama na boca; apenas o sabor da vergonha. Parei de balançar a cabeça, guardei meu instrumento e abandonei a carreira musical. Não consegui nem olhar para a mulher. Dei apenas um sorriso amarelo e fiquei encarando o chão, ate o elevador parar no Térreo e eu descer, resmungando um bom dia, baixinho. Graças a Deus, ela foi para a garagem. A próxima vez que o pessoal do Megadeth me procurar para uma jam no elevador, a única condição que meu agente fará será ela precisa ser, obrigatoriamente, no meio da madrugada.

9 de fevereiro de 2010

Janela Indiscreta

Acho que eu nunca comentei isso por aqui, mas o prédio em que moro fica ao lado de um edifício menor, mais antigo. Até aí, tudo bem. Eu moro em São Paulo e em Pinheiros. É inevitável que, para onde eu olhe, dê de cara com prédios e mais prédios.

Mas este prédio ao lado do meu tem uma peculiaridade: as janelas das salas dos apartamentos do fundo ficam quase de frente ao pequeno vitrô do meu banheiro. Ou seja, toda vez que eu fico em pé à frente do vaso, obedecendo ao meu sistema renal, observo a sala de uma família.

Felizmente, pela posição das janelas, eles não me vêem diretamente. Eles conseguiriam se tentassem com certo afinco, mas seria desagradável demais, tanto para eles, como para mim. Mas eu, ali da frente do vaso, vejo claramente o que acontece lá dentro.

Por um lado, é bom. Sempre lamentei o fato de não poder ler nada quando vou usar o vaso em pé (adoro aqueles bares que penduram algo na frente do mictório para você ler, e até mesmo já pensei em fazer o mesmo em casa, com jornais), e, assim, tenho com o que me distrair. Então, fico ali olhando a avó tricotando, ou o filho fazendo os deveres na mesa.

Por outro lado, é ruim. Por causa do pombo.

Sim, faz alguns meses que os meus vizinhos de banheiro adotaram um pombo de estimação. Tudo bem, não é exatamente um animal de estimação comum, mas lembre-se que estou falando de Pinheiros, então vale tudo. Aliás, eu não me surpreenderia se a família fosse formada por hippies que, cansados de combater a opressão do departamento de correios e telégrafos, decidiram se corresponder com os amigos usando pombos correios.

Enfim, até aí, tudo bem. A casa é deles, e, se quiserem ter um ornitorrinco de estimação, que tenham. Mas, confesso que não sou muito fã de pombos, desde o dia em que fui atacado por uma gangue deles na Avenida Paulista, anos atrás. Aliás, vale a pena contar essa história aqui antes de continuarmos.

Eu estava almoçando naquele McDonald’s que ficava perto da Brigadeiro Luis Antônio, num casarão antigo – hoje, acho que aquele endereço é uma agência do Banco Real. E eu estava almoçando sozinho, numa mesinha que ficava ao lado de fora, com a Paulista à minha frente. Assim que me sentei e comecei a comer, comecei a ouvir barulhos estranhos, de asas batendo.

Levantei os olhos do jornal e vi cerca de vinte pombos. Estavam pousados no parapeito ao meu lado, a cerca de meio metro de mim, olhando minhas batatas fritas. Não estou exagerando, eram uns vinte mesmo, quase um pequeno esquadrão. E estavam ali, imóveis, arrulhando (gostaram? Fui pesquisar no Google), cagando no parapeito e encarando minhas batatas.

Meu sentido de aranha disparou imediatamente. Qualquer movimento brusco e eu seria atacado pelos pombos, e perderia minhas batatas. Comecei a mastigar devagar, sem tirar os olhos deles. Já ouvi dizer que você não pode demonstrar medo na frente de animais, e aqueles pombos, aparentemente, podiam farejar medo – e batatas fritas – a quilômetros de distância.

Assim, fiz meu olhar Charles-Bronson-em-Era-Uma-Vez-no-Oeste e continuei comendo, encarando os pombos. E eles ali, arrulhando (agora que eu aprendi isso, vou usar o tempo todo) e esperando por um momento de distração da minha parte.

E evidentemente que, como eu sou eu, não demorou para este momento de distração acontecer. Quando fui pegar uma batata, a embalagem, que estava em pé, caiu, e as batatas se espalharam pela bandeja. Aos olhos dos pombos, aquilo significava, aparentemente, um ato de generosidade da minha parte, quase como um “ei, vocês aceitam batatas?”

Foi uma festa aviária. As pessoas deveriam achar que uma continuação de Os Pássaros estava sendo filmada na Paulista. Os pombos – todos eles – voaram para cima das minhas batatas e, claro, para cima de mim. Pousaram na mesa, pousaram na bandeja, pousaram nas cadeiras.

E pousaram em mim.

Eu era apenas um, e eles, um exército. Não havia muito que fazer. Assim, continuei comendo ali, com os pombos ao meu redor, na minha mesa e no meu ombro, como se eu fosse uma espécie de São Francisco – não de Assis, mas da Paulista. E passei o resto do almoço assim, soterrado em pombos e com as pessoas que passavam na Paulista rindo de mim, sem entender direito o que era aquilo. Sério, se pombos acessassem a internet, eu teria certeza de que se tratava de flash mob.

Isto posto, voltemos ao pombo dos meus vizinhos.

Se os membros da família ainda não descobriram que da janela deles é possível ver meu apartamento, o pombo já se ligou disso. Toda vez que eu apareço ali, dou de cara com o bicho, que fica numa gaiola quadrada, logo abaixo da janela, olhando fixamente para mim.

Na verdade, eu acho que o pombo está obcecado por mim. Às vezes, eu entro no banheiro e dou uma espiada rápida pela janela, e lá está ele, olhando na direção da janela. Ou seja, ele não fica olhando para mim quando estou ali, ele fica olhando para o meu banheiro o dia inteiro, esperando eu aparecer. É quase um pombo-stalker.

E isso está começando a me irritar. No começo eu achava curioso, mas esta falta de privacidade está começando a me deixar puto. Outro dia fiz um gesto obsceno para o pombo, mas ele não se tocou. Deu uma virada rápida de cabeça (o que foi bom, pois eu estava começando a acreditar que ele estava empalhado), arrulhou alguma coisa e voltou a olhar para mim.

Esta é minha rotina agora. Eu não posso mais usar o banheiro direito porque fico sendo espionado por um pombo voyeur. Tanta coisa para se fazer na vida, e ele fica ali na janela, desocupado, observando as pessoas dentro do banheiro – aposto que quanto estou tomando banho, ele fica esticando o pescoço para ver melhor. Imagine só o que ele não pensa sobre mim com aquela cabecinha doentia dele?

Qualquer hora eu vou colocar a cara na janela e gritar que “vou chamar a polícia, seu filho da puta!”, para ver se ele se assusta.

E não, não vou fechar a janelinha do banheiro. Não vou dar este gostinho ao pombo. Porque se eu fizer isso, é capaz de ele achar que eu estou bancando o difícil e mais dia menos dia, vou acordar e dar de cara com pombo na minha varanda, esperando eu passar de cueca pela sala.

Vou agüentar firme e seguir minha vida, como se nada estivesse acontecendo. E fazer de tudo para não imaginar que tipo de nojeiras ele fica pensando sobre mim. Pombo cafajeste.

8 de fevereiro de 2010

O Despertar dos Mortos

Eu sempre tive problemas para acordar. Sempre.

Quando eu era moleque e morava com meus pais, eu chegava ao cúmulo de acordar às 6:30 da manhã, me vestir em 0,3 minutos e deitar de novo, de roupa e tudo, para dormir mais meia horinha antes de ir para a escola. Às vezes, eu chegava até a sonhar nesse chorinho de sonho. Isso, claro, quando eu conseguia dormir de verdade, já que normalmente essa meia horinha de sono, tão vital para mim, era atrapalhada pela minha mãe, que ficava berrando da sala para eu acordar, resmungando que “todo dia é esse inferno para você sair da cama!”.

Mas tem outras histórias dessa época. Meu irmão, quando acordava no mesmo horário que eu, conta que não era difícil ele ir escovar os dentes e, no caminho, colocar a cabeça dentro do meu quarto. Segundo ele, eu estava sentado na cama, imóvel, com uma das pernas da calça vestida e a outra ainda no chão, olhando fixamente para um pé de meia na minha mão. Provavelmente, eu estava tentando entender o que era aquele pedaço de pano – se era uma luva, uma meia ou um gorro – e como colocá-lo no meu corpo.

Tudo isso porque meus neurônios não ligam antes da hora do almoço. Eu sempre fui vespertino. Meu dia começa, de verdade, às 14:00. Antes disso, eu sou uma espécie de morto-vivo dos filmes do Romero, me arrastando em busca de alimento e murmurando palavras incompreensíveis.

Eu sempre fui assim. E sempre achei que o mundo estivesse acostumado com a idéia de meu cérebro, ao menos antes do almoço, funcionar com a velocidade de um 386. Antes das 14:00, não adianta tentar fazer nada, meu cérebro ainda está dando boot.

Mas, agora, minha mãe, mesmo sabendo que este sempre foi meu jeito, cismou que a coisa é pessoal com ela.

Às vezes, ela vai até minha casa, para dar um “jeitinho no apartamento” – coisa de mãe, vocês sabem. Eu costumo dar graças a Deus, porque meu apartamento é um daqueles lugares que, para ser arrumado, não precisa de uma faxineira, mas sim de uma equipe da defesa civil, cães farejadores (que procuram pelo maldito pé de meia que sempre some) e voluntários da população local.

Ou seja, minha mãe decidir ir até ali “dar um jeitinho” é uma graça divina. O problema é que ela normalmente chega quando eu ainda estou dormindo. Levanto da cama, quase sempre, quando ela está entrando.

Ela, como sempre, já está a todo vapor.

Eu? Eu não estou nem com as caldeiras acesas.

Resmungo um oi, dou um beijo nela e me arrasto até o computador para ver meus e-mails, carregando meu baldinho de Nescafé e desviando da Besta-Fera, que, sempre que alguém entra em casa, decide começar a correr pela sala como se fosse uma versão canina do Carl Lewis.

E é aí que começa o conflito. Minha mãe quer conversar (e eu entendo o lado dela, claro), mas eu não consigo responder. O motivo é simples: eu não entendo absolutamente nada do que ela está falando. E, para piorar, ela começa a falar sobre todos os assuntos possíveis. E meu cérebro, que ainda estava tentando processar o “oi” dela, começa a se atrapalhar.

– Está tudo bem com você?

– Você foi dormir tarde ontem?

– Eu vi no jornal que tem apartamentos para vender no Butantã.

– Você pegou a roupa na lavanderia?

E eu fico olhando para ela, em silêncio, tentando ganhar tempo para decifrar o que ela está falando, porque nada daquilo faz sentido para mim. Assim, começo a balbuciar respostas do tipo:

– Tá.

– Não sei.

– Tá.

– Não sei.

E eu não respondo dessa forma para ser grosso, cortar o assunto ou deixar claro que não quero conversar. Eu respondo assim porque não estou entendendo absolutamente nada do que está acontecendo ao meu redor. Durante os primeiros goles de café, eu não faço idéia de quem sou eu, de quantos anos tenho ou do que faço para viver. Se, naquele momento, alguém falar que eu trabalho numa plataforma de petróleo, eu não apenas vou acreditar como vou até o quarto procurar meu capacete, antes de sair para o trabalho.

Não é exagero. Abro um Uol qualquer e fico olhando a tela do monitor, e meu cérebro, aos poucos, começa o seu processo de inicialização, tentando deduzir se eu devo ir para o trabalho ou para a escola; qual porta da sala leva para o meu quarto e qual leva para o elevador; e se aquele cachorro correndo pelo apartamento já estava ali ontem. Imagine, então, se eu vou saber se busquei a roupa na lavanderia ou o que diabos é um Butantã.

E ela, como toda mãe, continua:

– Você tem dentista essa semana?

– Você está tomando seus remédios para o dente?

– As coisas estão muito apertadas na redação?

– A Besta-fera tomou banho?

Assim, quando as perguntas se acumulam, os três neurônios que estão no cérebro (que pertencem ao turno da noite, e sabem apenas sonhar) ficam sobrecarregados. E eu acabo, invariavelmente, soltando um “não sei! não sei!” um pouco mais grosso do que deveria.

E aí complica mais ainda.

– Mas que mau humor!

– Não é mau humor. Eu não estou entendendo absolutamente nada do que você fala!

– Eu venho aqui e você fica com essa cara feia.

– Não é porque estou de olhos abertos e andando pela casa que estou acordado. Eu não estou. Eu estou dormindo.

– Você foi dormir tarde ontem?

– Eu não sei, eu não sei o que fiz ontem. Eu não sei nem quem eu sou.

Na verdade, eu não sei direito nem que ela é – deve ser da minha família, pois, a esta altura, já me lembro vagamente de ter passado um ou outro natal com ela – mas, por segurança, guardo esta dúvida para mim. E, felizmente, quando ela percebe que as chances de arrancar uma frase coerente de mim são nulas, desiste e vai para o outro canto da casa.

Aí, aos poucos, eu começo a acordar. Logo, meus neurônios estão se reunindo no refeitório, onde tomam café e enrolam mais um pouco, antes de começarem a trabalhar.

Minha mãe, claro, percebe isso – toda mãe percebe o que acontece dentro do próprio filho minutos antes dele – e volta a se aproximar. Mas os neurônios ainda estão no refeitório, não há muito que fazer.

– As coisas estão pesadas na redação?

– Sim.

– Você tem falado com seu irmão?

– Sim.

– Você tem comido direito?

– Sim.

– Onde você está colocando suas correspondências de banco?

– Sim.

– Sim o quê?

– Sim.

– Desisto. Não dá para conversar com você.

– Sim.

Novamente: não estou sendo grosso. Estou apenas usando o único recurso que tenho na parte da manhã: uma capacidade de raciocínio semelhante ao de uma lontra.

Mas minha mãe tem sua parcela de culpa, também. Enquanto eu sou um 386, com um Windows 3.11, ela quer ligar o PC e imediatamente checar e-mail, navegar em três sites diferentes (um deles com vídeos) e abrir o Word. É claro que vai travar.

E os neurônios, coitados, ainda enrolando no refeitório e comentando sobre o jogo de ontem. Na verdade, eles ficam ali até umas 11. Quem costuma me salvar são os neurônios estagiários, que, proibidos de tomarem café da manhã junto com os outros, assumem seus postos de trabalho e começam a enviar respostas para minha boca. Não é nada muito elaborado, mas dá para enganar.

Na verdade, as respostas não são muito coerentes, basta colocar o “mãe” no final da frase e ela já fica um pouco mais satisfeita. Eu continuo sem saber quem ela é, e o que significa “mãe”, mas parece surtir efeito.

– Mas como está chovendo esses dias, não?

– Sim, mãe.

– Você viu a enchente na Zona Norte?

– Sim, mãe.

– Que horror, não?

– Sim, mãe.

– Você tomou chuva ontem?

– Não, mãe.

(Vale dizer aqui que esta última resposta não é mérito dos neurônios, mas meu. Faz anos que meu instinto de sobrevivência aprendeu isso. Sempre que sua mãe perguntar se você tomou chuva, a única resposta aceitável é “não”. Mesmo se o Jornal Nacional exibir uma matéria de cinco minutos mostrando você preso numa enchente e debaixo de uma tempestade, negue até a morte. Mães encaram o fato de seus filhos tomarem chuva quase como uma traição, uma ofensa pessoal, e não perdoam isso facilmente.)

E, assim, colocando “mãe” no final da frase, dá para arrancar um empate. E às vezes, chego a virar o jogo, quando de repente eu me levanto, dou um abraço e um beijo nela e solto um:

– Mã, faz mais café?

Talvez você esteja se perguntando por que motivo eu não faço isso desde que ela chega. Porque para me lembrar disso, seria preciso ter um cérebro. Mas, enquanto escrevia este texto, tive uma idéia: na véspera, vou pendurar uma cartolina na porta do meu apartamento com a inscrição:

Rob:
Abrace, beije, chame de Mã e peça café.
Confie em mim, depois explico.
Abraços,
Rob.


O bom é que como a cartolina vai estar na porta, minha mãe vai ficar de costas para ela quando entrar no apartamento. Com sorte, ela só vai ver a cartolina quando eu já estiver no trabalho.

Mas, se algo der errado, ela avistar a cartolina e me perguntar o que é aquilo, eu não vou saber explicar. E não porque vou ficar sem graça, mas porque eu não faço a menor idéia de como aquela cartolina chegou ali, do que aquilo se trata e quem diabos é o Rob.

6 de fevereiro de 2010

O Urso Adormecido e o Gênio Matemático

Eu adoro a frase “aqueles que não compreendem o passado estão fadados a repeti-lo”. E acho que isso é verdade. Se você passa por um determinado acontecimento diversas vezes na sua vida, é porque você não entendeu ainda o que está acontecendo. Ou seja, a culpa é exclusivamente sua.

Ou não.

A atendente do boteco aqui em frente à redação é um exemplo do “ou não”.

Aparentemente, ela não entende o passado, mas também não tem muita intimidade com a matemática. E, assim, ela é obrigada a atravessar mais de uma vez algumas situações, mas sempre me carregando a tiracolo.

Lembram-se deste post aqui? Pois bem, o que vou relatar agora aconteceu ontem.

Cheguei ao boteco e pedi dois boxes de Marlboro. Ela me deu os cigarros e disse, em alto e bom e som:

– Oito e cinqüenta.

Eu abri a carteira, puxei uma nota de R$ 10,00 e entreguei. Ela pegou a nota e falou alguma coisa incompreensível. Na dúvida, eu apenas sorri.

E ela me devolveu uma nota de R$ 2,00.

Calculei que ela deveria ter falado algo como “estou com pouco troco aqui, depois você me devolve 50 centavos”. Afinal, esta seria a única explicação para ela ter me voltado R$ 2,00. Num mundo normal, se eu lhe desse, então, cinquenta centavos, tudo estaria resolvido. Assim, abri a carteira e disse:

– Olhe, eu tenho duas moedas de 25 centavos aqui. Já fica certo.

– Ah, ok.

Ela pegou as moedas e analisou o que estava acontecendo. Talvez fossem muitos números para ela, mas ela assumiu, imediatamente, a expressão de “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”. Puxou uma nota de R$ 1,00 e me devolveu.

– Agora eu te dou mais um real e fica certo.

– Como assim?

– Cinqüenta centavos que eu estava te devendo com mais estes cinqüenta centavos, dá um real. Pronto.

– Eu estava devendo cinqüenta centavos.

– Não, você me deu dez reais.

– Sim, e você me devolveu dois.

– E agora estou dando mais um real, por causa dos cinqüenta centavos.

Foi neste momento a China acordou. China é a dona do boteco. Eu a chamo assim por causa da II Guerra Mundial, quando falavam que a China era o urso adormecido. A diferença é que, de acordo com os historiadores, se a China acordasse, a guerra tomaria rumos totalmente diferentes. Agora, se a dona do boteco acordar um dia, ninguém vai perceber, porque ela vai continua imóvel. Aliás, é provável que ela apenas se espreguice e resmungue um "Guerra? Que guerra? Calma, acabei de acordar".

Não é exagero meu. Ela é praticamente uma medusa que se esqueceu dos próprios poderes e, ao se pentear uma manhã, olhou no espelho e virou pedra.

Ela estava ao lado da atendente, alheia a tudo o que acontecia, com seus tradicionais olhos perdidos e aparentemente presa em algum canto do seu mundinho. Mas, a confusão envolvendo centavos e reais pareceu tê-la incomodado e ela despertou momentaneamente do transe. Demonstrando uma perspicácia ímpar naquele boteco, ela disse

– Ele está certo, pega a nota de um real.

A atendente olhou para ela com cara de interrogação. Depois olhou para mim e para a nota de um real. Todas as fibras do seu ser gritavam que ela estava sendo enganada em algum momento, mas isso estava além da sua compreensão. Com olhos de “a conta não fecha”, suspirou e pegou a nota.

Eu virei as costas e saí do boteco. O urso voltou a adormecer. E, como a atendente não entendeu nada do que aconteceu, ela vai ter que passar por tudo isso de novo, e em breve.

Adivinhem com quem.

4 de fevereiro de 2010

Sobre Homens e Nerds

Hoje, recebi um comentário do meu irmão sobre o texto Sobre Meninos e Nerds, publicado ontem. Emocionante e sincero, seu texto merecia mais que simplesmente figurar entre os outros comentários e acabamos o transformando, a quatro mãos, num post.

Eu teria muito a dizer sobre o que está escrito aí, mas, desta vez, não quero. Quero apenas que o texto fale por si só.

Dia desses, li uma frase fantástica: “só pode se considerar um hacker quem uma vez teve que ajustar volume e tonalidade de um gravador de fita K7 para carregar (leia-se “load”) um jogo”. Sim, eu e meu irmão sempre fomos nerds.

Na verdade, somos filhos de nerds. Nossos pais contam que, nos primeiros meses do casamento, (obviamente) estavam sem grana, e ficavam assistindo filmes de terror até de madrugada na TV, os salgadinhos eram colocados ao lado sobre um tabuleiro de xadrez que fazia o papel de uma mesa.

Fomos criados entre livros e seriados. Nosso pai (o nerd master) lia os contos de Tarzan para dormirmos. Quando aparecia uma revista nova do Fantasma, em casa, nós quatro (sim, minha mãe também) brigávamos para ver quem leria primeiro. Eu joguei RPG antes de ser moda, conheci a loja Forbidden Planet num shopping da Lapa praticamente no dia da inauguração. Eu e o Rob jogávamos livros de aventuras-solo o tempo todo.

E temos o orgulho de dizer que nosso único trabalho em equipe, até hoje, foi terminarmos juntos Phantasy Star (para Master System) sem ajuda alguma – sim, sem consultarmos revistas de dicas. E ficávamos de madrugada mapeando calabouços em cadernos quadriculados, e um ia acordar o outro quando fazia uma grande descoberta no jogo.

Nosso pai até chora vendo a morte de Spock em A Ira de Khan e achamos que, se algum dia ele não assistir A Procura de Spock logo em seguida, ele vai entrar em choque. Hoje com meus 40 anos completos, agradeço aos meus pais pelos natais em que muitos livros eram trocados. Minha esposa está esperando um filho (já sabemos que é menino) e eu e o Rob ficamos trocando links sobre lembrancinhas e enfeites de porta com temas de Star Trek. E o Rob namora, e sua namorada, apesar de não aparentar, tem um grande potencial nerd – não é à toa que foi muito bem recebida na família.

Hoje eu e o Rob ainda olhamos para a mesma sala dos meus pais e lembramos, com um sorriso meio bobo, dela toda cheia de barbantes (que roubávamos da minha mãe) amarrados em cadeiras, sofás, janelas, transformando o ambiente numa enorme teia de aranha, onde um Falcon era pendurado, pois o chão tinha lava (desenhos da década de 70 adoravam lava) e ele não podia cair, ou morria.

Hoje, eu tenho 40 anos e, coincidentemente, 40 horas-aula/semana em cursos de engenharia. Meu irmão tem 34 e, coincidentemente, 34 revistas para fazer a cada dia que falo com ele. Mas no fundo, somos apenas crianças brincando de adultos. Ou, mais precisamente, sonhando que somos adultos.

Confesso que muitas vezes queria acordar, descer correndo a escada encontrar um leite com Nescau em cima da mesa e ir ver Viagem ao Fundo do Mar na TV (passava de manhã na Record) com meu irmão e, enquanto balançávamos junto com o submarino, pensar rapidamente no sonho de, um dia, ter 40 anos, e saber que ainda faltariam quase 30 anos para isso.

E ficaria feliz pelos próximos 40 anos, se tivesse somente mais um dia como esse. E sei que meu irmão também.

Este texto é dedicado às duas pessoas mais importantes na vida destas duas crianças. São duas mulheres que conversam sentadas num banco de um parque, observando as crianças brincarem de Jornada nas Estrelas no parquinho, e sorriem dizendo: “Sim, são as nossas crianças”.

Jane e Isadora, obrigado por tudo.

Em meio a tantas brincadeiras e mundos de faz-de-conta, vocês são aquelas que nos mostram, todos os dias, que vale a pena ser feliz no mundo real.

3 de fevereiro de 2010

Sobre Meninos e Nerds

Dia desses estava com a Sra. Gordon numa Livraria Cultura e comecei a folhear um livro de Jornada nas Estrelas. Li a contracapa e soltei:

– Este livro de Star Trek deve ser legal.

– Sobre o que é?

– É uma coletânea de histórias dentro do Universo Espelho.

– Dentro do quê?

– Do Universo Espelho.

– Você fala como se isso fosse a coisa mais comum do mundo.

Dei risada, mas saí da livraria pensando sobre isso.

E, sim, para mim, o Universo espelho é a coisa mais normal do mundo.

Ele faz parte da minha vida desde que, ainda criança, assisti ao episódio Mirror, Mirror, da Série Clássica. Assim como outras séries e filmes. Cresci assistindo (e brincando de) Star Trek, Star Wars, 007, Indiana Jones. Quadrinhos? Aos 14 anos comecei a ler histórias de super-heróis e nunca mais parei.

Eu sempre fui nerd. E, como tenho 34 anos, estou falando de ser nerd numa época na qual ser nerd não era cool. Ser nerd era nerd mesmo. Não existiam séries de TV vangloriando os nerds, nem revistas voltadas ao público nerd, e a frase “nerd is the new sexy” não poderia estar mais longe da realidade.

Claro que algumas coisas jogavam a meu favor. Eu não era um sujeito desengonçado com óculos fundo de garrafa – sim, estereótipos já existiam naquela época –, gostava de jogar bola (e não apenas jogava, mas jogava com trombadinhas), gostava da minha cerveja, do meu cigarro, de aprontar na rua, de ir a festas e bares com meus amigos.

Mas nunca abandonei meu lado nerd. Ele faz parte da minha formação, e se reflete em toda a minha adulta. Até mesmo em coisas que, à primeira vista, não são nerds. Heavy metal, por exemplo. Quer coisa mais nerd que músicas que falam sobre história, demônios, guerras? E nem vou falar sobre o Blind Guardian e suas muitas músicas que homenageiam o universo de Tolkien, porque seria clichê demais e também porque está longe de figurar entre as minhas bandas favoritas.

E confesso que eu rompo com alguns clichês de nerd. Ao menos, dos nerds atuais. Não domino programação de computadores – toda a parte “por trás” do blog é meu primo quem cuida – e nem fico devorando revistas sobre gadgets eletrônicos (adoro, mas não é meu assunto preferido).

Por outro lado, eu sou nerd a ponto de transformar assuntos não-nerds em nerdices. Sei diálogos inteiros de O Poderoso Chefão e tenho mais facilidade me lembrar dos campeões de todas as Copas do Mundo do que para lembrar meu CEP.

Na verdade, eu sou um misto de nerd e criança.

Eu brinco o tempo todo, especialmente quando estou andando sozinho na rua. Os diálogos de O Poderoso Chefão que recito (“Someday, and that day may never come, I call you upon to do a service to me. Butta... Until that day, accept this justice as a gift of my daughter’s wedding day”), falo imitando a voz e os trejeitos do Marlon Brando; os de Star Wars (“The Force is with you, Young Skywalker. But you are not a Jedi yet”), reproduzindo a voz e a respiração do Vader.

Falo sozinho. Repito diálogos inteiros de filmes, baixinho, no meio da rua. São frases que me jogam diretamente de volta à infância, quando eu não era um jornalista que sonhava em fechar a revista no prazo e em pagar o aluguel; mas sim uma criança que sonhava em encontrar um templo perdido, em livrar a galáxia da tirania, em salvar a princesa e ser aclamado como herói.

Se o mundo precisa de fantasia, eu preciso mais que o mundo. É por isso que eu sempre tive um pé no mundo real e o outro num mundo de fantasia.

Talvez seja por isso que eu tenho um blog.

E se você tem um blog e cria obras de ficção – que não necessariamente precisam se passar “há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante”, mas podem ser na padaria da esquina ou no elevador do seu prédio – talvez seja por isso que você cria e escreve o tempo todo.

Porque a realidade é chata demais, às vezes.

Outro dia, o Tyler levantou no Twitter a questão “vocês se consideram blogueiros ou escritores?”. Eu respondi que me considero escritor, sem nem precisar pensar. Sempre deixei isso claro aqui – se sou bom escritor ou não, não importa. Entre blogueiro e escritor, sou escritor. O blog é apenas uma ferramenta de publicação, para mim.

Mas, antes de escritor, sou criança. Basta ver como eu brinco com a realidade aqui no blog (lembram do post do Toddynho, certo? Tem esse aqui, bem antigo, que pouca gente leu e também é altamente nerd).

A palavra chave é essa: criança. Porque, para ser escritor, você precisa saber sonhar. E, para sonhar, você (ou, ao menos, uma boa parte sua) precisa ser criança. E, querem a verdade? Acho delicioso entrar no elevador do meu prédio, voltando para casa, apertar o botão do oitavo andar e, enquanto as portas se fecham, dizer, baixinho: “Bridge”.

Sim, eu faço isso. E, às vezes, quando chamo meu cachorro, eu não o chamo pelo nome, mas sim com a frase “Ensign Besta-Fera, report to the bridge!” E, acreditem, vocês não sabem nem metade das coisas que passam pela minha cabeça e que eu faço quando estou sozinho. E adoro todas elas.

Porque a coisa mais deliciosa do mundo é você ser uma criança de 34 anos. Não, minto. A coisa mais deliciosa do mundo é você ser uma criança de 34 anos e ter um blog para brincar. Isso, claro, porque eu ainda moro sozinho. Deixem eu casar para vocês verem o que eu vou aprontar, ensinando meus filhos a se levantarem e o caçula gritar “captain on the brigde” sempre que a Sra. Gordon entrar na sala (e eu levanto junto, claro).

Porque, daqui a uns anos, eu vou estar casado e com filhos. E, pagando contas, trabalhando, cuidando de quem está ao meu redor, tentando crescer em todos os aspectos possíveis, tem uma coisa que faço questão: ter a mesma idade que eles, para sempre. Por isso que, toda vez que eu desligar o computador e for para casa, o caminho que irei seguir é: "segunda estrela à direita e direto até o amanhecer".

Assim, deixo aqui uma pequena homenagem a alguns dos meus amigos de infância:



Afinal, muito do que eu sei sobre sonhar, aprendi com algumas dessas pessoas do vídeo acima. E toda vez que eu assisto a este vídeo eu choro. E aí não é nerdice, é porque alguns dos meus melhores amigos de infância estão aí, nestas cenas. Ao lado dos meus pais e do meu irmão, são pessoas com quem aprendi muito sobre vida, amor, sonhos e coragem e honra.

O mínimo que eu devia a eles, então, é um post. Afinal, eles sempre foram, e sempre serão meus amigos (referência mode: on). E, claro, um Top 5 Coisas que Aprendi vendo Jornada nas Estrelas e que Levarei para o Resto da Vida:

1. Quando sua lógica falhar, confie num palpite.
2. Inimigos são invisíveis. Assim como os Klingons, eles possuem camuflagem.
3. Mesmo quando estamos em nosso mundo, às vezes somos alienígenas.
4. Humanos são altamente ilógicos.
5. Nunca acredite num cenário sem possibilidade de vitória.