24 de fevereiro de 2010

Aconteceu naquela Década

Neste começo de ano, estou completando dez anos de redação.

Dez anos. É muito tempo. Especialmente para alguém que não é formado em jornalismo – caso alguém aqui não saiba, sou formado em publicidade. Qualquer dia eu conto aqui como entrei no jornalismo, mas não hoje. Mas é bastante tempo. Pelas minhas contas (estamos falando de 120 meses) devo ter produzido mais de 200 revistas – se não , chega bem perto de 200.

Enfim, estamos falando de dez anos de prazos apertados, de correria, de risadas, de stress. Dez anos trabalhando madrugada adentro, dez anos falando no telefone, respondendo alguém no Messenger e digitando um texto – tudo ao mesmo tempo agora. Dez anos tendo que tirar muitos domingos para trabalhar, dez anos sendo o último a chegar às festas de amigos, dez anos não podendo jantar com a Sra. Gordon, amigos e família sempre que dá vontade.

Nesse ponto, passou rápido demais. Parece que foi mês passado que meu pai chorou quando viu minha primeira matéria assinada; parece que foi semana passada que fiz minha primeira entrevista; parece que foi ontem que fiz minha primeira matéria de capa.

Mas, também, não tinha como não passar rápido.

Foram dez anos sempre com prazos apertados. Se alguém fizer as contas, o tempo líquido desta década deve dar uns seis anos, de tanta correria. E o stress não foi apenas por conta de correria. Já soquei mesa, já quebrei telefone com um murro, já xinguei, esbravejei, e um dia me seguraram porque eu queria ir até uma empresa sair no tapa com uma assessora de imprensa.

Cagadas? Já fiz também. Muitas. Já fiquei noites sem dormir preocupado com besteiras que tinha feito, já voltei para casa com lágrimas nos olhos, com nó na garganta, me sentindo um merda, incompetente demais. Já entrei em banheiros e soquei a parede desejando, na verdade, me socar.

Mas hoje eu sei que cagadas fazem parte. Ou, ao menos lido com elas melhor do que lidava em 2000.

E claro que foram dez anos de muito aprendizado. E não apenas no âmbito profissional – tudo o que eu sei sobre jornalismo aprendi dentro de uma redação –, mas na vida como um todo. Afinal, convenhamos: são dez anos. Mesmo se eu fosse garrafeiro, me mataria se não tivesse aprendido absolutamente nada. Talvez o que eu esteja tentando dizer é que aprendi muito sobre mim; sobre limites, sobre capacidade, sobre talento, sobre o que eu sei fazer bem e o que eu não sei. E, claro, aprendi que eu gosto de escrever.

Contudo, foram dez anos bastante divertidos. Fiz amigos, daqueles que você leva para a vida toda, mesmo conseguindo almoçar uma vez a cada dois meses. Porque, sejamos sinceros: passar a madrugada (ou um domingo com final de Copa do Mundo na TV) com uma pessoa fechando revista é o equivalente àquelas amizades de soldados que lutaram juntos e que só vemos nos filmes.

Já fui criticado, já fiz textos de merda, já fiz textos ótimos. Curiosamente, alguns dos melhores elogios que recebi não foram de leitores (bem, alguns foram, daqui a pouco conto um deles), nem de chefes, mas sim de pessoas que trabalhavam comigo, no mesmo ambiente, na mesma batalha do dia a dia, em especial, dois sujeitos que respeito muito, como pessoas e como profissionais.

Um deles disse que aprendeu muito trabalhando comigo; o outro já soltou umas duas ou três vezes que eu faço coisas impensáveis aqui. Quem me conhece sabe que me cobro muito e é difícil eu aceitar elogios Agradeço, mas não consigo assimilá-los direito. Mas me esforcei para acreditar nestes dois elogios, significavam demais para mim, justamente por terem vindo deles.

O elogio que veio de um leitor e que eu prometi contar acima foi legal. Um sujeito ligou para a redação perguntando algo sobre um filme. Eu respondi, conversamos uns cinco minutos. No final, ele agradeceu e perguntou meu nome. Eu respondi e ele soltou:

– Espere, você é o editor da revista?

– Sim.

– Rapaz, que honra falar com você!

Comecei a ficar sem graça, e soltei um “imagine, foi um prazer”, e ele continuou:

– No mês passado, você escreveu uma matéria sobre animações, não?

– Sim.

– Minha esposa adorou aquele texto, ela leu umas três vezes e foi atrás de todos os filmes. Posso passar o telefone para ela? Ela vai adorar cumprimentar você.

Eu concordei, e a mulher dele pegou o fone. Ficamos alguns minutos conversando, enquanto ela me dizia tudo que tinha adorado no texto, e o que tinha gostado nos filmes – ela tinha corrido atrás de todos, para assistir, depois de ler a matéria.

Nunca esqueci isso.

A sensação de ter mudado a vida de alguém, mesmo de uma forma pequena e casual, com um texto é indescritível. Quem me conhece, sabe que é exatamente isso que eu tento fazer no blog (de um jeito neste aqui, de outro jeito no Chronicles).

E as entrevistas? Dezenas. Algumas muito legais, outras pavorosas. Tremi, por motivos particulares, ao ver de perto três pessoas: o Roman Polanski, o Leonard Nimoy e o Pelé. Tremi, mesmo.

Mas tem outras histórias boas, como eu ter virado “amigo de caipirinha do Viggo Mortensen”; os irmãos Farrelly (diretores de Quem Vai Ficar com Mary?) terem me segurado praticamente fora da sacada do apartamento em que os entrevistei; ter fumado charuto com o Ron Perlman, na estréia do primeiro Hellboy; e ganhar um desenho exclusivo do Zakk Snyder, com uma criatura que ele não conseguiu colocar em 300, e outro do Don Rosa, desenhista do Pato Donald.

Quanto às ruins, deixa para lá, isso eu guardo para mim.

Tenho amigos com histórias muitos melhores que as minhas, em termos de entrevistas, mas estas têm uma diferença: são minhas. São minhas memórias.

E hoje, com dez anos de redação, todas elas (e não apenas as entrevistas) têm um gosto doce, de conquista, de aprendizado, de superação e, claro, de soltar um “fudeu, desta vez não vai dar”, mesmo sabendo que, no final, dá. Sempre dá.

E daqui a dez anos? Não faço idéia. Quem me conhece bem sabe que meu sonho é viver deste blog – ou ao menos, viver escrevendo coisas parecidas com o que escrevo aqui e no Chronicles.

Um dia, quem sabe.

Mas, até lá, tenho prazos para cumprir, revistas para fechar e pessoas para entrevistar. E gargalhadas para dar, porque existem pessoas que gostam do que fazem, mas eu, por outro lado, faço o que gosto.

E tem uma diferença muito grande aí.

21 comentários:

Kika® disse...

Não podia ser mais divertido. Viver fazendo o que se gosta. Eu acho que não saberia viver de outra forma. E a paixão traduzida nas suas palavras fazem com que eu acredite que vc seja um "hell of a journalist".

Fabio disse...

Rob,

Nunca se esqueça: quando a voz de Deus ecoava, era hora de descer. No caminho ouviam-se os cliques ininterruptos. Um gemido horrendo. Mais cliques. "Senta aí". Mais cliques. Grunhidos. E a frase eterna: "merda! pode subir!".
Ele perdeu no Diablo.
Você perdeu meia hora de fechamento.

=D
Barreto, presente em vários desses 10 anos. hehe
www.soshollywood.com.br

Isadora disse...

Esse é o 'Rob' que eu conheci, e o Rob pelo qual me apaixonei. Parece que foi ontem, amor. Esse é o Rob que me ensinou a gostar do que hoje e tento aprender. Esse é o Rob que me mata de orgulho. Esse é o Rob que eu esqueço às vezes que existe, pela rotina.

Essa é a pessoa que me inspira a cada dia.

Gabriel Alex disse...

Eu quero ser você quando crescer! hehe

Tenho 15 anos, e sempre pensei em fazer jornalismo, mas foi desde que conheci o seu blog e abri o meu próprio que me decidi, é o que eu quero fazer. De certa forma você me influênciou a isso, e se um dia eu for um bom jornalista, vai ser graças aos blogs, e a você!
Parabéns pelos seus 10 anos de jornalismo!

Fabio disse...

Gabriel, não cai na lorota desse anão careca não. Além de ser publicitário (ô raça), ele acha que entende de cinema! Tsc! Tsc! Tsc!

=D

Aliás, Rob já pensou em contar como foram aqueles embates pp vs jor que a gente teve? hahahahaha

Abs,
Barreto, esse sim jornalista, alto, com cabelo e que também acha que entende de cinema :)
http://www.soshollywood.com.br

Daniela disse...

Parabéns, poucas pessoas podem realmente falar que fazem o que gostam. Com todo seu azar, você é um privilegiado, que tenho o prazer de ler, aqui e no Chronicles.

Natalia Máximo disse...

Parabéns por estes dez anos de jornalismo, profissão sofrida, louca, estressante, mas criativos e muito alegres. Tenho certeza que, daqui a dez anos, terei a mesma reação com RP, só espero que, durante essa jornada, você não queira me esbofetear se eu ainda for assessora de imprensa! hahaha

E espero mesmo que você possa viver só dos Champs algum dia, sério mesmo. Não posso significar grande coisa e muito menos falar por todos seus leitores, mas pode acreditar numa coisa: seu blog mudou a minha vida, e pra melhor!

Otavio Oliveira disse...

Tenha certeza que, desse jeito casual e quase imperceptível, vc muda sim a vida de algumas pessoas. principalmente umas aí que estão se formando agora em jornalismo e desejam ter a metade da experiência e das alegrias (e, por que não? das tristezas) que vc teve nesses anos.

valeu.

@otaviocohen

Nadia disse...

Sensacional... 10 anos é tempo pra caralho.
Parabéns.

Agora fala, nem ia ter tanta graça se os prazos fossem folgadinhos... ou ia?

Varotto disse...

"Tremi, por motivos particulares, ao ver de perto três pessoas: o Roman Polanski, o Leonard Nimoy e o Pelé."

Bom... você omitiu, talvez intencionalmente, que do Pelé, você viu mais do que queria (ou não, vai saber...). Foi esse grande, enorme, incomensurável particular que fez você tremer, no caso dele? Hein? Hein??

P.S.: Pena que ninguém filmou você na coletiva do Polanski, para você saber o que perguntou a ele...

Varotto disse...

Ah! Si isquici: parabéns pelo décimo de século de redação.

Rob Gordon disse...

Varotto

Assim você me complica. :-)

Qualquer dia conto essa história aqui!

Abraços

Dalleck disse...

Dez anos no MSN? E o coitado do ICQ? xD

Parabéns pela década, Rob! Em 2000 eu tinha tipo... 9 anos, rs

E quero isso pra minha vida também, fazer o que gosto (que felizmente já estou fazendo), aprender muito e ter histórias pra contar. É a vida!

Dalleck disse...

É, agora que eu vi que você escreveu Messenger e não MSN. Perdi a moral no comentário, hahah

Dani. disse...

Parabéns! Acabei de me formar -não em Jornalismo, mas em História- e espero um dia poder dizer que faço o que gosto, realmente.

Besos.

Dama do Lago disse...

Parabéns pela década de sofrimento :D
Só muita paixão é capaz de fazer alguém suportar o que vocês suportam nestes fechamentos.
Lamento ter sido motivo para alguns dos seus pensamentos desesperados de que "não vai dar tempo" ^_^
Tenho certeza de que, com o seu talento para escrever, muita coisa boa virá nos próximos anos.
Beijos
Sil

Kel Sodré disse...

No começo desse post, eu só conseguia ficar espantada em perceber que,desde o ano 2000 já foram 10 anos. Aí, depois uma luz neon vermelha começou a piscar dentro da minha cabeça, por trás dos meus olhos, com o letreiro:

INVEJA

Affe, Rob, Polanski e Leonard Nimoy??? Acho que eu chorava... juro. E ele não falou, mas tenho certeza de que isso vale pro Otavio também. A diferença é que ele VAI encontrar esse povo daqui a uns anos que eu sei.

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

São textos como esse que me fazem cada vez mais querer ser jornalista, Obrigado Rob.

rbns disse...

Ok. Eu tranbalharia 10 anos mastigando vidro para ter um Donald do Don Rosa.

Daniela disse...

Rob,

Lindo, simplesmente lindoo!
Bem que você poderia lançar seu livro, faria toda questão de ir no lançamento!

Amanda Ullmann disse...

Sumi, mas isso eu preciso comentar. Adorei mais um texto seu, pra variar e realmente me emocionou. Sério. Preciso contar só uma coisa. Eu nunca soube o que fazer da vida. E nunca, nunca mesmo, pensei nisso. Toda vez que eu tinha que escrever alguma coisa eu reclamava, falava que não ia fazer, deixava pra última hora, e saia melhor do que eu imaginava. E reclamava não por não gostar. Eu acho que sempre tive medo de escrever, mesmo recebendo um elogio que me fazia mudar de ideia por um tempo, e boas notas (estou no 2º ano dessa maravilha que é o ensino médio) mas enfim, foi lendo o seu blog que decidi o que ia fazer da vida, e ano que vem (é ano que vem? sei lá) vou prestar o vestibular pra Jornalismo. Pode ser cedo pra falar, mas estou bem segura disso. E é isso aí, acho que é uma escolha importante que você me ajudou a fazer. Bom, obrigada. De verdade. E parabéns pela sua década de redação.