4 de fevereiro de 2010

Sobre Homens e Nerds

Hoje, recebi um comentário do meu irmão sobre o texto Sobre Meninos e Nerds, publicado ontem. Emocionante e sincero, seu texto merecia mais que simplesmente figurar entre os outros comentários e acabamos o transformando, a quatro mãos, num post.

Eu teria muito a dizer sobre o que está escrito aí, mas, desta vez, não quero. Quero apenas que o texto fale por si só.

Dia desses, li uma frase fantástica: “só pode se considerar um hacker quem uma vez teve que ajustar volume e tonalidade de um gravador de fita K7 para carregar (leia-se “load”) um jogo”. Sim, eu e meu irmão sempre fomos nerds.

Na verdade, somos filhos de nerds. Nossos pais contam que, nos primeiros meses do casamento, (obviamente) estavam sem grana, e ficavam assistindo filmes de terror até de madrugada na TV, os salgadinhos eram colocados ao lado sobre um tabuleiro de xadrez que fazia o papel de uma mesa.

Fomos criados entre livros e seriados. Nosso pai (o nerd master) lia os contos de Tarzan para dormirmos. Quando aparecia uma revista nova do Fantasma, em casa, nós quatro (sim, minha mãe também) brigávamos para ver quem leria primeiro. Eu joguei RPG antes de ser moda, conheci a loja Forbidden Planet num shopping da Lapa praticamente no dia da inauguração. Eu e o Rob jogávamos livros de aventuras-solo o tempo todo.

E temos o orgulho de dizer que nosso único trabalho em equipe, até hoje, foi terminarmos juntos Phantasy Star (para Master System) sem ajuda alguma – sim, sem consultarmos revistas de dicas. E ficávamos de madrugada mapeando calabouços em cadernos quadriculados, e um ia acordar o outro quando fazia uma grande descoberta no jogo.

Nosso pai até chora vendo a morte de Spock em A Ira de Khan e achamos que, se algum dia ele não assistir A Procura de Spock logo em seguida, ele vai entrar em choque. Hoje com meus 40 anos completos, agradeço aos meus pais pelos natais em que muitos livros eram trocados. Minha esposa está esperando um filho (já sabemos que é menino) e eu e o Rob ficamos trocando links sobre lembrancinhas e enfeites de porta com temas de Star Trek. E o Rob namora, e sua namorada, apesar de não aparentar, tem um grande potencial nerd – não é à toa que foi muito bem recebida na família.

Hoje eu e o Rob ainda olhamos para a mesma sala dos meus pais e lembramos, com um sorriso meio bobo, dela toda cheia de barbantes (que roubávamos da minha mãe) amarrados em cadeiras, sofás, janelas, transformando o ambiente numa enorme teia de aranha, onde um Falcon era pendurado, pois o chão tinha lava (desenhos da década de 70 adoravam lava) e ele não podia cair, ou morria.

Hoje, eu tenho 40 anos e, coincidentemente, 40 horas-aula/semana em cursos de engenharia. Meu irmão tem 34 e, coincidentemente, 34 revistas para fazer a cada dia que falo com ele. Mas no fundo, somos apenas crianças brincando de adultos. Ou, mais precisamente, sonhando que somos adultos.

Confesso que muitas vezes queria acordar, descer correndo a escada encontrar um leite com Nescau em cima da mesa e ir ver Viagem ao Fundo do Mar na TV (passava de manhã na Record) com meu irmão e, enquanto balançávamos junto com o submarino, pensar rapidamente no sonho de, um dia, ter 40 anos, e saber que ainda faltariam quase 30 anos para isso.

E ficaria feliz pelos próximos 40 anos, se tivesse somente mais um dia como esse. E sei que meu irmão também.

Este texto é dedicado às duas pessoas mais importantes na vida destas duas crianças. São duas mulheres que conversam sentadas num banco de um parque, observando as crianças brincarem de Jornada nas Estrelas no parquinho, e sorriem dizendo: “Sim, são as nossas crianças”.

Jane e Isadora, obrigado por tudo.

Em meio a tantas brincadeiras e mundos de faz-de-conta, vocês são aquelas que nos mostram, todos os dias, que vale a pena ser feliz no mundo real.

22 comentários:

jane disse...

Seus chatos. Eu estou chorando, viu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Leonor disse...

Poxa...me emocionei...^^
Textos assim fazem a gente continuar acreditando que vale a pena matar um "inimigo" por dia, nem que seja pra sermos aclamados como heróis por nossos filhos...

Nelson disse...

Pô, saudades de ser criança, realmente.

Dani. disse...

Olha, nem cheguei aos trinta, mas entendo o que vc diz. Como disse no post anterior, é delicioso ainda ser criança.

Besos, e felicidades eternas com a Sra. Gordon. A gente sabe que é por ela que seus textos são tão lindos, aqui e no Chronicles.

Daniela disse...

Emocionante...

Tyler Bazz disse...

Porra.
Eu confessei pra vc que chorei lendo um texto no Chronicles esses dias, então hoje vou me contentar a dizer apenas uma coisa:

Bichinhas.

Simone Miletic disse...

Tá, chorei!

Kel Sodré disse...

Ah... acho então que o projeto da humanidade não foi tão falido assim afinal de contas, né?

Mari Hauer disse...

Lendo os dois últimos textos e principalmente o que o seu irmão escreveu fiquei pensando na minha relação com os meus irmãos. Acho que mais que lembranças nerds, lembranças da infância podem ser deliciosas e significativas, né?
E acho que a beleza vêm de nos reconhecermos no outro, das coisas em comum. Acho que, no fundo, isso é família!
Quando eu era pequena eu lembro que eu ficava MUITO brava quando alguém dizia que eu era igualzinha à minha mãe! E era de jeito, da fisionomia, o jeito de sorrir, do que gostava! Hoje, quando alguém diz isso, meus olhos enchem de lágrimas! O meu jeito de falar e, principalmente o meu jeito de escutar são dela!
Vocês falaram dos Natais com livros... em casa também era assim. E tínhamos a mania de fazer palavras cruzadas todos juntos! Faço isso até hoje quando viajo para ver a minha mãe...
Não me acho muito nerd, mas percebo o quanto tenho de referência que vem de casa, do berço e o quanto isso se tornou importante pra minha vida! E como é bom quando sai alguma brincadeira de infância que fazíamos entre irmãos e voltamos, no mesmo momento, a ter 10 anos de idade!
Àquelas que mostram à vocês que vale a pena ser feliz no mundo real, que vocês construam uma vida repleta de fantasias, brincadeiras lúdicas e muito amor!
Me emocionei muito lendo lembrando que antes de eu ser mãe, serei sempre filha e menina na minha casa!

Isadora disse...

Êêee família... tô chorando e o Rob me espiando pela câmera (nerd).

Alê, você deveria escrever mais.

Amor, o que faz tudo mais lindo é exatamente que nunca, nunca, nunca deixamos de ser crianças. E não há nenhum esforço pra isso. Vc encontrou sua Ellie, e eu encontrei meu Carl rabugento. Tão simples quanto pode ser.

E eu ainda acho que o maior agradecimento aqui deveria ser a dois senhores que me acolheram tão bem, que eu já considero da minha família, e que criaram duas crianças tão nerds e tão lindas como vocês.

E agora temos o Eduardo pra estragar!

(E sim, imaginem quando forem os filhos DELE! =])

Amo você, nerd. Amo demais.

Isadora disse...

ps: agora ele que tá chorando.

HUA HUA HUUAAAAA!

Rob Gordon disse...

Maldita cam. (L)

Varotto disse...

Olha só, vamos parar com isso aí porque já tem muita gente chorando, e o que SP está precisando menos no momento é de mais água.

Na minha adolescência lia todos os títulos da Marvel, o que acabei deixando de lado depois (mas por motivos outros, nunca por achar que é coisa de criança).

E não só perdi horas da minha vida ajustando volume e tom (além do famigerado controle de azimute) de gravadores para carregar software, como ainda tenho meu TK-85 na caixa e as fitas k-7.

Mas nunca me classifiquei (ou fui classificado) como nerd (nem hoje, nem na época em que isso era um xingamento), acho que porque essas coisas acabaram não ocupando um papel central na minha vida.

Na verdade, o conceito de nerd era muito mais estereotipado antigamente. Acho que o Rob, de acordo com sua própria descrição, nunca nem teria sido "classificado" como nerd na época, só porque lia quadrinhos e gostava de metal.

Mas nunca parei para pensar direito nisso, até mesmo porque tenho um grande emputecimento com exageros nessa mania humana de arrumar prateleira para tudo. Rótulo é coisa de vidro de azeitona e maionese.

Quanto à não deixar de ser criança, apoio totalmente. Na verdade escuto esse tipo de coisa com frequência. Apesar de uma criança barbada, com 1,82m e 100kg causar um certo estranhamento.

Para falar a verdade, costuma-se dizer aqui em casa que meu filho não precisa de irmãos porque compete comigo.

Enfim, keep on rockin'...

Nadia disse...

Já pode chorar agora?
ahuahuahuahauhuahuaua

Ow... sério, quer ser padrinho dos meus filhos e estragar MUITO eles pra mim?

xDDD

R. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
R. disse...

ai, esse champ está tão comédia-romântica-sessão-da-tarde nesses últimos dias.... :P (coração gelado mode: on)

Gilgomex™ disse...

Tyler Bazz disse tudo... heuheheuhehuee

Mas lembro-me bem dos meus primórdios também. Boncecos dos Thundercats (meu irmão quebrou o Lion e apanhou bastante... até hoje ele lembra disso... e eocmo ele é mais forte que eu hoje em dia, eu apenas sorrio), gibis, livros (série Vaga-lume, quem lembra???) e etc...

Infelizmente meu pai não era nada nerd, e como já contei no meu blog, quando comprei um "hominho" dos comandos em ação, ele me xingou muito pqgastei com uma "boneca"... fim da piscada.

E minha mãe vivia querendo incendiar a churrasqueira com meus gibis...

Gilgomex™ disse...

E como a mioria das pessoas que me conhecem pelo msn (inclusive o Rob) sabem, ninguém acha que eu sou criança. Talvez pelo fato de ser muito sério o tempo todo.

k. disse...

p... todas as vezes de que me convenço de que o enfant terrible será filho único, algo acontece pra abalar minhas convicções. Algumas vezes, o ‘algo’ é um post como este...

k.

rbns disse...

Muito bonito Alê.

Os nerds orbitam as mesas estações espaciais e acabam se encontrando.

RPG, BBS, livros-jogo. Tudo isso em conheci com vcs. dois.

Obrigado.

Pri disse...

Nossa q lindo esse texto, se eu fosse a Isa tb iria chorar!
Parabéns Rob e irmão do Rob... e continuemos nerds pq vamos dominar o mundo!! uahahaha

Eduardo C disse...

O Rob me dá esperanças... ehuaha. Não no mundo em si, mas nas pequenas coisas

vlws :)