28 de janeiro de 2007

Perseguição - Variações sobre o Mesmo Tema

Cinco cenários diferentes para a mesma história (com a mesma estrutura narrativa e a mesma linha de acontecimentos). Mudam apenas os personagens.

Escolham a que vocês gostam mais e divirtam-se.

Eu, por outro lado, não tive escolha e fui obrigado a viver uma delas – adivinhem qual?

E, não, não foi nada divertido.


Terra-Média
Final da Segunda Era

Enquanto perseguia o dragão pela caverna úmida, o cavaleiro lembrou-se rapidamente de sua missão: fazer a criatura beber a poção mágica preparada por um feiticeiro, que o colocaria em sono profundo e traria paz aos camponeses da região. Seus pensamentos foram dissipados quando escorregou numa pilha de ossos humanos e restos de roupas esquecidos no chão úmido, o que quase lhe derrubou e deu segundos de vantagem preciosos ao dragão.

– Não escaparás da justiça, vil criatura!, gritou bravamente.

Segundos depois, chegou a uma espécie de câmara, iluminada apenas por alguns raios de sol que penetravam no local por rachaduras na caverna. Não havia mais sinal da fera. O cavaleiro, porém, estava preparado para isso. Sabendo que os dragões são atraídos por cheiro de sangue fresco, voltou à entrada da caverna e voltou, desta vez com seu cavalo – que não disfarçava o medo de penetrar naquele local fétido. Amarrou o bicho num dos pilares naturais que se formaram na caverna através dos séculos e, rápida e silenciosamente, escalou uma parede apoiando os pés em falhas rochosas. Quando encontrou um lugar que lhe dava uma boa visão do local, esperou, pacientemente.

Horas depois, ouviu passos que faziam a estrutura da caverna tremer. Seu cavalo, nervoso, começou a relinchar. Foi uma questão de segundos até que o dragão, enfurecido, estivesse quase em cima do animal, pronto para devorá-lo. Mas os poucos segundos foram suficientes: o cavaleiro pulou de onde estava e caiu justamente sobre a cabeça do dragão, agarrando-se ao seu pescoço. O monstro, assustado e enraivecido, começou a se debater furiosamente, mas o herói não o largava. Buscando apoio com um dos pés sob as escamas avermelhadas do animal, consegui projetar seu corpo ao ar, bem à frente das presas da fera, e, agilmente, jogou o frasco de poção na goela do bicho. Este engasgou com o inesperado líquido, e começou a se debater. Minutos depois, estava deitado no chão da caverna, dormindo silenciosamente.

Os camponeses estavam a salvo!


Colônia de Mineração Gamma VII
Século 28

Enquanto perseguia o alienígena pela caverna úmida, o guerreiro do espaço lembrou-se rapidamente de sua missão: fazer a criatura beber o líquido sintetizado nas usinas da terceira lua de Júpiter, que o colocaria em sono profundo e traria paz aos mineiros daquela colônia. Seus pensamentos foram dissipados quando escorregou numa pilha de equipamentos de mineração e algumas rochas soltas, esquecidos no chão úmido, o que quase lhe derrubou e deu segundos de vantagem preciosos ao alien.

– Não incomodará mais os mineiros deste planeta, vil alienígena!, gritou bravamente.

Segundos depois, chegou a uma espécie de salão dentro da mina, iluminada apenas por algumas tochas artificiais utilizadas pelos mineiros. Não havia mais sinal da criatura. O guerreiro espacial, porém, estava preparado para isso. Sabendo que aquela espécie de alienígena é atraída pelo brilho de pedras preciosas, pegou alguns cristais utilizados como combustível de naves espaciais e depositou-as no chão, cuidadosamente, sem fazer barulho. Acionou seu dispositivo de invisibilidade e esperou, pacientemente, próximo à porta que levava a sala de tratamento dos cristais.

Horas depois, ouviu passos que lembravam o som de alguém pisando em poças d’água. Foi apenas uma questão de segundos até que o alienígena – provavelmente oriundo do sistema Beta XIII - estivesse correndo pelo local, pegando as gemas do chão com seu braço esverdeado e as engolindo. Porém, a criatura distraiu-se com duas pedras que brilhavam mais intensamente, e virou de costas para o local onde o guerreiro, invisível, aguardada. Sabendo que não teria outra chance, disparou com sua pistola uma rede de alumínio maleável sobre a criatura, fazendo com que caísse no chão e começasse a lutar ferozmente pela liberdade. Quando ela parecia cansada e entregue ao seu destino, o valoroso herói agachou-se ao lado dela, e, rapidamente, injetou o líquido na gengiva do animal, que adormeceu profundamente. Agora, era hora de levá-la para o planeta-zoológico de Epsin Plus IV, onde ela seria bem tratada ao lado de outros de sua espécie.

Os mineiros espaciais estavam a salvo!


Novo Texas
1887
Enquanto perseguia o índio renegado pelas pradarias ao pôr do Sol, o pistoleiro lembrou-se rapidamente de sua missão: fazer o pele-vermelha beber uma dose de um calmante, que o colocaria em sono profundo e possibilitaria que a criança branca seqüestrada por ele, fosse resgatada a tempo de ser tratada de sua febre. Seus pensamentos foram dissipados quando seu cavalo tropeçou numa armadilha preparada pelo inimigo com gravetos e rochas soltas, que quase lhe derrubou e deu segundos de vantagem preciosos ao índio.

– Aquela criança precisa de cuidados médicos, vil indígena!, gritou bravamente.

Segundos depois, chegou à entrada da caverna utilizada como esconderijo pelo guerreiro indígena. Mas não havia sinal dele na região. O pistoleiro, porém, estava preparado para isso e sabia que o local deveria estar repleto de armadilhas. Conhecendo os costumes indígenas, afastou-se e montou acampamento a poucos metros dali, amarrando seu cavalo, armando uma pequena fogueira e recheando um saco de dormir com seu casaco e sua sela. Rapidamente, subiu na copa de uma árvore da região e esperou, pacientemente.

Horas depois, ouviu passos que passariam despercebidos a ouvidos menos experientes. Foi apenas uma questão de segundos até que o indígena estivesse ajoelhado ao lado do saco de dormir, com um punhal na mão, pronto para eliminar seu perseguidor. Antes que pudesse desferir o golpe, porém, foi atingido violentamente pelo pistoleiro, que pulou da árvore sobre o pele-vermelha, derrubando-o no solo duro. Ambos começaram a travar uma violenta luta, até que o herói conseguiu segurar o punho do índio, forçando-o a largar o punhal. Segurando o pele-vermelha pelo pescoço, conseguiu derrubá-lo ao chão e, imobilizando-o com o peso do seu corpo, conseguiu fazer o indígena beber o líquido, o que o fez dormir quase instantaneamente.

A criança estava a salvo!


Pequena Ilha no Caribe
Meados do século 16

Enquanto perseguia o capitão pirata através da espessa vegetação da ilha tropical, o marinheiro lembrou-se rapidamente de sua missão: fazer o corsário beber um ungüento modificado, que o faria adormecer rápida e profundamente, o que possibilitaria que ele fosse levado de volta à Inglaterra, como prisioneiro, para responder pelos seus crimes contra a marinha real. Seus pensamentos foram dissipados quando dezenas de pássaros assustados com o barulho voaram de uma moita, o que quase lhe derrubou e deu segundos de vantagem preciosos ao bucaneiro.

– Não escaparás da justiça real, vil criminoso!, gritou bravamente.

Segundos depois, chegou a uma clareira que, certamente, servia como acampamento para o bucaneiro. Mas não havia mais sinal dele na ilha. O marinheiro, porém, estava preparado para isso. Colocou um saco de moedas de ouro na areia branca e, utilizando-se de um truque que aprendera com nativos caçadores do continente, enterrou-se rapidamente ao lado do saco, utilizando apenas um broto oco de plantas para respirar e esperou, pacientemente.

Horas depois, ouviu passos. Foi apenas uma questão de segundos até que o corsário estivesse ajoelhado ao seu lado, contando as moedas com uma mão e segurando a espada com outra. Rapidamente, o marinheiro deu um golpe com sua perna, fazendo o capitão pirata tombar na areia, e pulou sobre o inimigo, atirando para longe sua espada. Porém, o criminoso sabia lutar desarmado e tentou estrangular seu atacante, que conseguiu se defender apenas dando uma cabeçada no rosto do bucaneiro, que praticamente perdeu os sentidos com o golpe. Num átimo, o marinheiro virou o pirata de bruços e, imobilizando-o com o joelho, obrigou-o a beber o ungüento. Segundos depois, o criminoso dormia profundamente no local.

Os navios ingleses estavam a salvo!


Apartamento de Rob Gordon
Sábado à tarde
Enquanto perseguia a Besta-fera através do corredor que dava do quarto para a sala, Rob Gordon lembrou-se rapidamente de sua missão: fazer o bicho beber dez gotas de Novalgina todos os dias, durante uma semana, por causa de uma inflamação no ouvido. Seus pensamentos foram dissipados quando escorregou na merda do caderno de esportes do jornal que estava esquecido no chão, o que quase lhe derrubou e deu segundos de vantagem preciosos ao bicho.

– Volta aqui, porra! Você tem que tomar essa merda!, gritou bravamente.

Segundos depois, chegou à sala, utilizada como esconderijo pelo cão. Mas não havia sinal dele no aposento. Gordon, porém, estava preparado para isso. Conhecendo os costumes do bicho, colocou um pouco de ração no tapete à frente da televisão. Sentando-se no sofá, ligou um DVD de Futurama e começou a assistir o episódio, aparentemente alheio a tudo. Sabia que estava sendo observado e tomou o cuidado de esconder a seringa com a Novalgina entre as pernas. Esperou, pacientemente.

Minutos depois, ouviu passos. Foi apenas uma questão de segundos até que o animal estivesse no chão, ao seu lado, cheirando a ração, aprontando-se para comê-la. Agilmente, Gordon pulou do sofá – sem pausar o Futurama, não havia tempo para isso – e agarrou o bicho com uma das mãos, sem largar a seringa. O animal tentou escapar, mas Gordon foi mais rápido e imobilizou-o com as pernas, forçando o animal a abrir a boca com uma das mãos e espirrando o líquido amargo para dentro de sua goela. O cão saiu chacoalhando a cabeça e olhando para Gordon com um olhar de quem estava muito, muito puto.

Um dia já foi. Faltam apenas seis!


5 epílogos (um para cada uma dessas histórias):
1. Terra-Média: o cavaleiro foi aclamado pelo povo como herói, e, com isso, o rei cedeu a mão de sua filha em casamento a ele. Viveram felizes para sempre.
2. Colônia de Mineração Gamma VII - o guerreiro espacial recebeu inúmeros cristais dos mineiros. Ficou milionário, largou tudo e casou-se com a namorada de infância. Viveram felizes para sempre.
3. Novo Texas - O pistoleiro virou herói de todos os colonos da região, o que lhe valeu o emprego de xerife numa pequena cidade. Lá, conheceu uma dócil e jovem professora, com quem se casou. Viveram felizes para sempre.
4. Pequena Ilha do Caribe - a fama do marinheiro chegou à corte inglesa. A realeza lhe presentou com uma frota de navios e com a mão de uma bela condessa. Casaram-se e viveram felizes para sempre.
5. Apartamento de Rob Gordon - a besta-fera, ainda emputecida com a Novalgina, rouba uma das meias de Rob Gordon e desaparece pela casa. Não se sabe o paradeiro de nenhum dos dois no momento, mas, certamente, planejam viver felizes para sempre.

3 comentários:

Ana Claudia disse...

Coitadinho....
Compre Novalgina pediátrica, pelo menos o gosto é doce.E boa sorte nos próximos dias.A experiência me manda dizer: serão muito piores!
Beijos

Felipe Lima disse...

Não acreditei que apenas uma pessoa comentou este post tão criativo. Cada história poderia virar um argumento de filme, afinal Hollywood não anda muito inventiva mesmo. Filmes de ação, de fantasia e comédias românticas acabam sendo pequenas variações de um mesmo roteiro. Eles chegaram ao limite da falta de criatividade quando resolveram fazer remakes de praticamente todos os filmes de terror asiáticos, até deram oscar para os Infiltrados, premiando esse tipo de prática. Não estou dizendo que o filme é ruim, pelo contrário é ótimo, mas nele não há nenhuma alteração relevante em relação a Conflitos Internos que o torne digno de ganhar o maior prêmio do cinema mundial, Pequena Miss Sunshine é um cinema muito mais original, mas penso que a academia não premiaria uma "comédia" por mais inovadora e surprendente que ela seja. Enfim, tá bem fácil para você conseguir um lugar entre os indicados há melhor roteiro, com qualquer uma das versões sobre o besta-fera. Como diria Chacrinha "Nada se cria..."

Nadia disse...

quem usa "bucaneiro" e "átimo" no mesmo texto... sério?

Gostei.