30 de junho de 2010

Barrados no Shopping - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Como bom adolescente, eu já havia me aventurado em territórios inimigos antes. O mais notável deles, claro, era a diretoria da escola, visto que, nesta época, eu era freqüentador assíduo do local. Mas a sala do diretor ainda é um ambiente relativamente seguro, visto que ela fica dentro da escola na qual seus pais o matricularam. O máximo que pode acontecer é você ser expulso da escola, e ter que estudar em outro local, com outra sala e outro diretor.

Já a sala de segurança do shopping é outra história. Lá não existem regras que protejam você: os seguranças são quem mandam ali, e você está entregue ao humor deles – que nunca costuma ser dos melhores. Aliás, esse deve ser um requisito básico para a contratação de seguranças de shopping: os candidatos são levados até uma sala onde está sendo exibido um filme do Gordo e o Magro. Conforme a pessoa solta uma gargalhada, ela está eliminada. Quem não sorrir, fica.

Assim, durante o trajeto, comecei a imaginar que a salinha seria uma espécie de masmorra. Dentro do meu cérebro, a sala da segurança tinha paredes negras, ossadas de adolescentes espalhadas pelo chão e, claro, aparelhos de tortura, normalmente usados para os suspeitos de terem roubado um Sonho de Valsa nas Lojas Americanas confessarem logo o crime e terem uma morte rápida.

Felizmente, me enganei. Era uma sala comum, que não impunha respeito ou medo em ninguém. As paredes eram amareladas, com a tinta descascando, e a única mobília era um sofá velho. Além disso, ela tinha cheiro de guarita (vocês já repararam como toda guarita de prédio tem o mesmo cheiro horroroso?).

Pensei em me virar para o Pico do Jaraguá humano que ainda me acompanhava e perguntar se “isso aqui é a tão temida sala da segurança? É só isso?”, mas me contive. Assim, me apoiei numa parede – o sofá estava ocupado pelos meus amigos, que haviam chegado antes de mim. Decidi primeiro me acostumar ao ambiente antes de fazer qualquer coisa.

Mesmo porque, aparentemente, meus amigos já estavam em campo. E no ataque. O Pico do Jaraguá foi embora, nos deixando somente com dois outros seguranças (os moleques da outra gangue foram liberados logo que cheguei, provavelmente ganhando um vale-casquinha do McDonald’s na saída).

Um dos seguranças, provavelmente interessado em moda, estava implicando com a camiseta do meu amigo. Isto porque hoje este meu amigo é casado e pai de família, mas, à época, usava uma calça rasgada (com metade do tecido da canela pendurado e balançando, como se fosse uma espécie de lepra vestuária) e uma camiseta do Ratos de Porão. O segurança perguntou a ele se “ele era rato para usar aquela camiseta” e ele retrucou que “se você não gostou da minha camiseta, vamos dar uma volta no shopping e comprar outra”.

E ficou encarando o segurança.

E o segurança ficou encarando meu amigo.

E eu tomei cuidado para não encarar ninguém, certo de que tudo aquilo ia dar merda em minutos.

E quase deu. Mas por minha causa. Afinal, o fato de eu não encarar ninguém não me impediria de começar a aprontar lá dentro. Como eu fiquei em pé, encostado a uma parede, dobrei uma das pernas e coloquei o pé na parede. Nunca achei essa posição confortável, mas ela é, de longe, a postura mais folgada que conheço.

Outro segurança (este, aparentemente especialista em linguagem corporal), concordava comigo nesse quesito. No momento em que viu meu pé na parede falou, com voz firme:

– Baixinho! Tira o pé da parede!

Ignorei. Aliás, não apenas ignorei, como fiz cara de paisagem e fiquei encarando a parede à minha frente.

– Tira o pé da parede, baixinho!

Fiz minha melhor cara de paisagem e continuei encarando a parede à minha frente, olhando as manchas amareladas.

O segurança se emputeceu e veio até o meu lado.

– Baixinho! Eu mandei tirar o pé da parede!

Eu mudei minha cara de paisagem para a minha cara de insolente.

– Ah, era comigo? Meu nome não é Baixinho. Meu nome é Rob.

– ...

Ele não deveria ter titubeado. 1 x 0. A partir daí, era só administrar. Ficar dando toques laterais no meio de campo e gastar o tempo. Mas, ele tentou recuperar a iniciativa – ainda mais perdendo em casa.

– Rob, tira o pé da parede.

Guardei minha cara de insolente no bolso e coloquei a máscara de inocente.

– Claro, por que não pediu antes?

2 x 0. A sala veio abaixo. Ele me olhou com ódio, e por um momento, achei que fosse arrancar meu tênis e fazer com que eu o comesse.

Felizmente, o outro segurança – aparentemente, o chefe – começou a falar.

A discursar, na verdade. E começou a dizer que nós estávamos sempre aprontando no shopping, que nós já éramos manjados ali dentro, que nós estávamos sempre aprontando no shopping, que o shopping era um lugar de respeito, que nós estávamos sempre aprontando no shopping, que o shopping não era lugar de brincadeira, que nós estávamos sempre aprontando... Bom, vocês entenderam.

Em resumo: tínhamos que dar o nome e o endereço. Ele anotava tudo num caderno, sabe-se lá para quê. Provavelmente era uma lista de pessoas que seriam executadas de madrugada por um grupo de justiceiros formados por seguranças de shopping da cidade inteira, mas eu não me arrisquei a perguntar isso – como eu sou eu, era capaz de descobrir que sim, “é uma lista de pessoas a serem executadas, e as execuções acontecem por ordem de tamanho”.

Assim, cada um dos envolvidos ia até a mesa na qual ele estava sentado e dava o nome e o endereço. Parecíamos foragidos de um país comunista tentando conseguir asilo político no shopping. Chegou a minha vez.

– Qual seu nome?

– Não é Baixinho, respondi olhando para o outro segurança, sorrindo.

Ele me devolveu o olhar, sem disfarçar a vontade de me assassinar e enterrar meu corpo no estacionamento. 3 x 0. O chefe dos seguranças, aparentemente vendo que a minha briga com o amigo era particular, ignorou meu último comentário.

– Qual seu nome?

– Rob.

– De quê?

– Gordon.

– Endereço?

– Rua das Flores, 1313.

Por um momento, temi que ele percebesse o que eu tinha falado. Mas não foi preciso. Sinceramente? Nem mesmo o Walt Disney saberia o endereço do Pato Donald de cor.

– Onde fica isso?

– Jardim dos Patos, disse, segurando a risada.

– Não conheço isso. Onde fica?

Não responde Patópolis. Não responde Patópolis.

– Em Santo Amaro.

Dica: se você morar em São Paulo e não quiser falar seu endereço, invente um bairro que começa com Vila ou Jardim e explique que fica em Santo Amaro. Sempre cola.

– Todos os seus amigos moram em Moema, e você em Santo Amaro?

Pensei em responder a ele que “sim, como eu fui proibido de entrar em todos os shoppings próximos à minha casa, precisei fazer amigos em outros bairros” apenas para ver o que iria acontecer, mas desisti. Eu poderia perder o controle sobre a situação.

– Sim, minha tia mora aqui em Moema.

– E onde ela mora?

– Você precisa do meu endereço, não o da minha tia. E o meu endereço é Rua das Flores, 1313.

Ele se deu por satisfeito. Deu mais cinco minutos de sermão e nos expulsou do shopping. Dois seguranças nos escoltaram pelas entranhas do Shopping Ibirapuera (tubulações, canos de gás) e nos jogaram na rua. Desta vez, estávamos oficialmente exilados.

Mas claro que demos a volta no quarteirão, entramos pela outra porta e fomos à praça de alimentação beber vinho, para desespero dos seguranças. Porque nós não voltávamos disfarçados, escondidos e com medo de sermos pegos. Nós apenas voltávamos, com a maior cara de pau do mundo.

Porque eles achavam que nós os temíamos, estavam enganados. Especialmente depois disso, sabíamos que o maior risco que corríamos ali dentro era sermos expulsos de novo – somente para voltar de novo, por outra porta.

É isso que eles nunca entenderam.

Mas não posso negar que, durante anos, sempre que eu me aproximava do shopping, sentia receio de ser alvejado por um dos seguranças que, segurando um rifle com mira telescópica no alto de um prédio, havia decidido impedir que aquele baixinho cabeludo escroto entrasse no estabelecimento.

Felizmente, isso nunca aconteceu. Quer dizer, ao menos eu acho.

Afinal, ele pode ter errado o tiro.

29 de junho de 2010

Interlúdio - Terra Estrangeira

Ele se parecia com o House, mas mais magro. A mesma barba rala, os mesmos olhos esbugalhados. Mas muito magro. Veio andando na minha direção, na Paulista. Foi agora à noite, coisa de 2 horas atrás. Passou por mim, e eu mal olhei para ele.

Assim que nossos caminhos se cruzaram, ele se virou e disse:

– Please, do you speak english?

Eu não sei em que estava pensando, mas estava pensando em algo – provavelmente tentando observar melhor o motoqueiro atropelado do outro lado da avenida, cercado por bombeiros e pelo povo do resgate. Assim, precisei de um momento para perceber que era comigo, e mais um momento para perceber que ele estava falando em inglês.

– Yes, respondi.

Ele olhou para cima e soltou um “thank you, Lord” que deixou claro que estava já há bastante tempo procurando por alguém que falasse seu idioma.

Aproximou-se de mim e disse:

– I need your help. I am a teacher. I teach english literature. But I have suffered an accident.

– Accident, perguntei genuinamente interessado.

– Yes, I have burned my arms, ele disse, erguendo as mangas dos casacos e mostrando marcas de quimaduras nos dois braços. Lembrei-me da minha queimadura com a lasanha.

– Because of that, I’m not able to work right now, so I’m asking for your help.

– How can I help you?

– My family will send me some money in a few days. And my room is already paid, but they don’t offer meals…

Chegamos ao ponto. Ele precisa de dinheiro para comer. Eu estava puxando a carteira do bolso, tentando me lembrar se tinha uma moeda de 1 real, quando ele continuou.

– ...and I’m starving.

Aí me quebrou. “Starving” é foda. É forte demais. Se você não domina inglês, “starving” é o equivalente a faminto – ou, de forma mais coloquial, a “morrendo de fome”. A expressão é forte demais, bem mais forte que um “tio, me paga um coxinha” ou “me dá um trocado pro pão”.

E, de repente, no meio da Paulista, eu percebi que o motoqueiro atropelado, os caras do resgate poderiam ajudá-lo – o skatista que parecia o Bob Marley e que fazia acrobacias ali perto não tinha pinta de falar inglês, também. De repente percebi que aquele sujeito estava “morrendo de fome” e eu era a única pessoa que sabia disso.

Puxei a carteira do bolso e abri. Ele continuou.

– And if you buy me a meal, I’ll give you my phone, and I'll pay you back by the end of the week.

Não, eu não queria ser reembolsado. Na verdade, eu queria saber mais sobre ele: de onde era, onde morava aqui em São Paulo, como havia queimado os braços. Mas eu só conseguia pensar em estar morrendo de fome numa terra onde ninguém fala sua língua. Puxei dois reais da carteira e disse:

– No, no. I will help you for free. With this money you should be able to grab something to eat, e entreguei o dinheiro.

Ele sorriu, com sinceridade.

– Oh, thank you. Thank you very much.

– Don’t mention it.

– Oh, by the way, you don’t need english lessons. Your english is pretty good.

Minha vez de sorrir.

– Thank you. Good luck.

Virei as costas e saí andando. Não olhei para trás, mas sabia, naquele momento, que jamais esqueceria essa história.

Realmente, me viro bem no inglês, e já entrevistei muita gente famosa por causa disso – ídolos, inclusive. Mas nunca fiquei tão satisfeito comigo mesmo por falar inglês.

E não me pergunte o motivo. Eu não saberia explicar direito. Acho que, como eles mesmos dizem no hemisfério norte, I care.

I really do.

Moral da história: não importa a merda em que você esteja, sempre haverá alguém que entende o que você está passando. Basta procurar e ter um pouco de sorte.

(Prometo que no próximo post encerro a saga Barrados no Shopping. Queria apenas contar essa história aqui. E mantive o diálogo em inglês - caso você não fale inglês, entenderá um pouco do que este sujeito estava passando naquele momento.)

27 de junho de 2010

Barrados no Shopping - Parte II

(leia a parte I aqui)

O Dia da Briga aconteceu quando eu tinha uns 16 anos.

Eu estava no Shopping Ibirapuera com meus amigos de Moema e outro metaleiro que andava com a gente. Na verdade, cabe falar aqui sobre este metaleiro: ele era uma espécie de entidade sobrenatural que assombrava o shopping. Isso porque ele estava sempre lá dentro; nunca alguém o havia encontrado na rua.

Aliás, nós o conhecemos lá dentro mesmo: estávamos bebendo um dia e ele se materializou na mesa. A partir daí, não era difícil ele surgir do nada no meio de nós (sempre usando uma camiseta do Carcass com um desenho de pedaços de corpos numa espécie de inferno), e desaparecer do mesmo jeito, normalmente 10 minutos depois de ver que o vinho tinha acabado.

Enfim, neste determinado dia, esta alma penada e cabeluda arrumou confusão no meio da praça de alimentação com uns três ou quatro moleques, que partiram para cima dele. Nós tentamos separar a briga, mas era tarde demais.

Em poucos segundos, estávamos rodeados de seguranças que falavam freneticamente em seus walkie-talkies como se o presidente dos Estados Unidos, em visita ao Brasil, tivesse resolvido de última hora parar no Shopping Ibirapuera para tomar uma casquinha.

Tenho certeza de que a previsão do tempo naquela manhã indicava “céu nublado pela manhã, com 98% de probabilidade de chover seguranças em cima do Rob Gordon e seus amigos no período da tarde”, porque apareceram seguranças de todos os lados possíveis. Eles vinham correndo por entre as mesas, saindo de dentro das lanchonetes. Tenho quase certeza que vi um pousando de pára-quedas ao nosso lado e outro saindo de uma trincheira na frente do Baked Potato, de metralhadora em punho.

Os seguranças agarraram todos – menos eu e outro amigo, que estávamos um pouco mais afastados do epicentro da briga – e começaram a arrastá-los em direção a salinha.

Mas eis que se ergueu uma voz da multidão. Uma senhora de idade que almoçava com os filhos ali perto alegou aos seguranças que “esses meninos cabeludos de preto não fizeram nada, foram os outros que começaram, eu vi tudo”, mas ela foi ignorada.

Afinal, sejamos sinceros aqui: nossa aparência não ajudava muito, especialmente pelo fato de que a gangue rival era composta de moleques que, ao contrário de nós, tomavam banho e se vestiam com roupas de marca para ir ao shopping. E o fato de a única pessoa que parecia disposta a nos defender ter se referido a nós como “os cabeludos de preto” não causou exatamente um impacto positivo à nossa imagem.

Na verdade, éramos como um grupo de muçulmanos sendo assaltado no meio de Nova York – qualquer coisa que acontecesse ali seria culpa nossa. Se um de nós morresse de infarto no meio da confusão, capaz do departamento jurídico do Shopping processar a vítima, sua família e até mesmo seu coração, alegando que o moleque havia “falecido sem autorização, perturbando a ordem”.

Como eu não fui agarrado por segurança nenhum, fiquei quieto no meu canto. Por mais que eu fosse expulso do shopping semana sim, semana também, eu nunca havia ido para a salinha, e não seria dessa vez. Afinal, eu não havia feito nada (mesmo!), a não ser tentar separar a briga (mesmo!). Assim, fiquei parado no mesmo lugar, conforme todos iam em direção à salinha. “Quem brigou que fosse para a salinha; eu iria ficar ali mesmo”, pensei de forma inocente.

Mas percebi que as coisas não seriam bem assim quando senti uma mão agarrando meu braço.

– Você vem também!

Olhei para o lado e vi um monstro vestindo terno e gravata e segurando um walkie-talkie. Até mesmo a respiração dele era ameaçadora. Se você soltasse um tigre naquele lugar, o animal correria para o outro lado e se esconderia abaixo de uma mesa, rezando para não ter sido visto pelo segurança. E esta versão humana do Pico do Jaraguá não apenas tinha me visto, como estava me encarando fixamente. Seu olhar denunciava o fato de que ele havia acabado de deduzir que eu era responsável por todos os problemas que ele teve na vida desde o pré-primário.

Pensei com meus botões: “eu não fiz nada de errado, e todo mundo aqui na praça de alimentação sabe disso. Todo mundo viu. Então, vou argumentar com ele e explicar que não é correto eu ir para a salinha, pois não estou envolvido na confusão”.

Mas, logo em seguida, meus botões responderam: “Rob, você tem 16 anos, cabelos no meio das costas e está usando uma camiseta do Iron Maiden. Você não sabe argumentar, você sabe ser escroto. Então, não invente nada. Apenas faça o que você sabe fazer melhor e vamos ver no que dá”.

Os botões estavam corretos. Empurrei o segurança para longe. A sensação que eu tive foi a de socar um muro, e ele deve ter se deslocado 0,0003 cm para trás – provavelmente, com o peso dele, isso foi suficiente para alterar levemente a órbita da Terra.

– Não coloca a mão em mim!, gritei.

A vantagem de agir desta forma quando você tem 1.60m é que as pessoas se assustam e passam a ver você como um louco inconseqüente que vai escalar o oponente, arrancar seu nariz a dentadas e só vai parar quando levar um tiro de 12 na cabeça. Talvez foi por causa disso que o segurança tenha titubeado por alguns segundos (ele chegou até a me soltar), o que fez com que a senhora de idade enxergasse, aí, uma oportunidade para voltar à sua cruzada pessoal de nos defender:

– Este menino não fez nada! Foram os outros!

O segurança me olhou de cima a baixo (quer dizer, pelo ponto de vista dele, o mais exato seria “me olhou de baixo a mais baixo ainda”) e deduziu que, com meu tamanho, a probabilidade de eu entrar numa briga realmente era mínima. Evidentemente ele também considerou a hipótese de me esmagar com os pés, mas percebeu que talvez não valesse à pena. Assim, deu o veredicto:

– Ok. Você pode ficar.

Não, segurança. Você conhece o ditado “eu dou um boi para não entrar numa briga, mas, quando entro, dou uma boiada para não sair?” Comigo é diferente. Comigo é “eu dou um boi para não entrar numa briga, mas, quando entro, quero meu boi de volta. E exatamente do jeito que ele estava”.

Aproveitando que eu tinha dezenas de testemunhas a meu favor (e uma velhinha de guardiã), virei macho de verdade.

– Porra nenhuma, agora eu vou! E quero ver você me impedir!

Virei às costas e fui em direção à salinha.

(continua...)

24 de junho de 2010

Barrados no Shopping - Parte I

Desde que vim morar em Pinheiros, meu universo de shopping centers aumentou consideravelmente. Atualmente, não é difícil me encontrar passeando pelos corredores do Eldorado, do Bourbon, ou perdido no Paulista, procurando a saída daquele inferno e encontrando somente o Mc Donald’s (você se lembra deste post aqui, certo?).

A única exigência que faço é que o shopping precisa ter ao menos uma livraria. Caso contrário, minha vontade é andar pelos corredores cuspindo nas vitrines e derrubando as lixeiras para exprimir minha revolta. Porque, cá entre nós, um shopping sem livraria é como um motel sem cama: você até consegue arrumar diversão, mas não do jeito que imaginava.

Mas essa minha diversidade de shoppings, claro, acontece apenas hoje. Pois durante todo o tempo em que morei com a minha mãe, em Moema, existia apenas um shopping na minha vida: o Ibirapuera.

Como ela mora a cinco quadras do shopping, eu estava o tempo inteiro lá dentro. Sozinho em casa? Ia almoçar no shopping. Nada para fazer? Ia passear no shopping. Vontade de tomar sorvete? Shopping. Vale dizer que, nesta época, o Shopping Ibirapuera não era decadente como hoje: até mesmo cinema ele tinha. Eram três salas, sendo que a menor delas (a Sala 3) tinha capacidade para umas vinte pessoas, contando o rapaz do projetor e os atores na tela – a sala 1, por sua vez, era gigantesca.

E foi lá que assisti a muita coisa. Quando criança, vi os três De Volta para o Futuro; Rocky IV e V; Os Garotos Perdidos. Aliás, uma das primeiras sessões de cinema que me lembro, na vida, foi lá: Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu, com a minha mãe. Já mais velho, na época da faculdade, eu ia toda quarta-feira à noite, aproveitando o desconto do dia – nessa época vi O Resgate do Soldado Ryan, Matrix e A Vida é Bela.

Na verdade – e me lembrei disso agora que citei minha mãe – meu relacionamento com este shopping começa com ela. Meus pais se mudaram para Moema em 1973, antes de eu nascer. E, pelo que sei, o shopping começou a ser construído logo depois do meu nascimento. E minha mãe conta até hoje que a primeira vez que ela entrou no shopping – ele estava recém-inaugurado, com alguns pedaços ainda sem acabamento – foi justamente para comprar a roupa que eu usaria na festinha do meu primeiro aniversário.

Ou seja: eu não nasci junto com o Shopping Ibirapuera, mas foi por pouco.

Assim, me acostumei a andar dentro daquele shopping durante toda a minha vida. Conhecia todas as lojas, corredores, localização dos banheiros. Foi lá que comprei meu primeiro disco de rock (não me lembro se foi na Hi-Fi ou no Museu do Disco): um cassete do Creatures of the Night, do Kiss. Era o auge da Kissmania e entrei na loja ao lado da minha mãe, com sete anos, e pedi ao vendedor:

– Eu quero aquele disco do Kiss que tem a música Ô-ô-ô-ô!, cantarolando a introdução de I Love it Loud.

Os anos foram se passando. Assim, o menino que ia ao shopping com a mãe comprar roupas – na esperança de ganhar um brinquedo junto – cresceu alguns centímetros e se tornou o pré-adolescente tímido, que ia ao shopping com os amigos tentando conseguir o telefone de alguma menina.

Mas, quando a adolescência chegou de verdade, meu relacionamento com o shopping mudou radicalmente. Meu cabelo começou a crescer, minha mão começou a segurar cigarros, e meu corpo inteiro passou a ter vontade de desafiar qualquer tipo de autoridade. E – ao menos na minha época – os seguranças de shopping eram uma das formas de autoridade mais temidas que você podia encontrar em seu caminho.

Assim, seja com os amigos de Moema ou com os do colégio (já que o Shopping Ibirapuera era o reduto preferido dos alunos da minha escola), e depois com ambos (minhas duas turmas se fundiram em uma só, para desespero dos seguranças), íamos ao shopping para arrumar confusão.

Na verdade, íamos apenas dar uma volta, mas, quando você anda com cerca de dez pessoas que não possuem idade para votar, tem cabelos compridos e andam com camisetas de caveira (como dizia minha avó), o “arrumar confusão” está implícito em qualquer coisa que você faça. Se você estiver indo pegar um pão na cozinha, você na verdade vai estar procurando por uma oportunidade de arrumar confusão.

Tudo piorou ainda mais quando descobrimos um pequeno restaurante, na praça de alimentação, que vendia vinho sem pedir identidade. Assim, toda sexta-feira, perto das 14:00, estávamos sentados em alguma mesa, enchendo a cara de vinho branco, com aquela elegância habitual dos adolescentes, que envolve, gritos, risadas altas e coisas se quebrando.

Ficávamos metade da tarde bebendo e outra metade aprontando. Por aprontando, leia-se: entrávamos bêbados em lojas caras e experimentávamos todas as roupas (com direito a desfile de moda dentro da loja), para não levar nada; entrávamos em lojas de CD e ouvíamos tudo o que tínhamos direito, sem comprar nada, e trocando todos os CDs de lugar; e entrávamos nas Lojas Americanas apenas para deixar os seguranças em pânico, com medo de que roubássemos os estoques de chocolate.

E, claro, parávamos as escadas rolantes com os pés, mas isso nem conta, pois fazíamos o tempo todo – no curso de “aterrorizar seguranças de shopping”, parar a escada rolante seria a matéria da primeira aula, quase um abecedário.

Com isso, começamos a nos tornar conhecidos lá dentro. E da pior forma possível. Bastava começarmos a andar pelos corredores e parecíamos embaixadores de outros países em missão diplomática no shopping, tamanho o número de seguranças que começavam a caminhar à nossa volta, falando desesperadamente em walkie-talkies e tentando prever nossos próximos movimentos.

Em resumo, toda sexta-feira, mais cedo ou mais tarde, éramos expulsos do shopping. O que os seguranças nunca perceberam é que éramos expulsos por uma porta e entrávamos por outra.

Assim, deixamos de ser apenas “conhecidos” e nos tornamos “inimigos públicos números 1 a 15” dentro do shopping. Até, claro, o momento em que nossa entrada foi definitivamente barrada. Não seríamos mais expulsos do shopping, pois não podíamos colocar os pés lá dentro. Estávamos exilados. Éramos párias, sem uma praça de alimentação para chamarmos de lar.

Evidentemente, nunca toquei neste assunto em casa. Afinal de contas, não é o tipo de coisa que você conversa casualmente, ainda mais com seus pais. Imagine uma família jantando:

– E você, Rob? Como foi seu dia?

– Ah, nada de especial. Fui banido do shopping, só isso. Não posso mais entrar lá.

– Como assim, banido?

– É, eu estava com meus amigos na praça de alimentação. Estávamos bêbados e começamos a fazer guerra de batatas fritas. Aí um segurança veio brigar com a gente, e começamos a arremessar as batatas nele. Nada de mais, na verdade. Tem mais bife?

Meu exílio, evidentemente, não me impedia de entrar no shopping – eu ia sozinho, de boné, cabelo preso e camiseta branca. Os seguranças, claro, percebiam que era eu, mas a maioria deles fazia vista grossa, já que eu estava sozinho e com roupas civis.

Contudo, alguns, assim que me identificavam, me escorraçavam do local, alegando que “você sabe que não deve entrar aqui”. Eu, claro, saía e entrava por outra porta. Ser expulso do shopping não me incomodava em nada.

Mas claro que eu não me arriscava a entrar lá ao lado dos meus pais e ser expulso na frente deles. Se eu fosse expulso do shopping na frente da minha mãe, a probablidade de eu ser matriculado num colégio interno no mesmo dia era de 138%. Assim, eu fugia desesperadamente de qualquer possibilidade de entrar no shopping ao lado deles. E isso me privou de muitos almoços. Às vezes, de sábado, miha mãe entrava no meu quarto e informava:

– Rob, coloque uma roupa logo, nós vamos almoçar no shopping.

– Oi? No shopping?

– Sim.

– No Ibirapuera?

– Claro.

– Não, vamos ao Morumbi. É mais bonito.

– Coloque uma roupa logo.

– Olhe, o Morumbi tem promoções na praça de alimentação hoje. Eu vi no jornal.

– Pare de enrolar e coloque uma roupa.

– Não, eu não vou. Não estou com fome.

– Você é um moleque de 16 anos. Você tem mais fome que a população inteira de uma pequena cidade.

– Eu não estou com fome.

– Rob...

– E eu estou com febre também. Com febre, diarréia e dor na perna. Nas duas pernas. Não vou sair de casa.

– Bem... Você quem sabe. Mas não tem comida aqui em casa para você.

– Não tem problema.

Aí eles saíam e eu ficava em casa, verde de fome, roendo o braço do sofá e divagando sobre o fato de madeira não ter propriedades energéticas para o ser humano caracterizar ou não um erro crasso da evolução. Mas, quando eu me lembrava que a alternativa era ser arrastado para a calçada do shopping sob os olhos da minha mãe, a madeira parecia, definitivamente, uma excelente escolha. E até um pouco saborosa.

Mas, mesmo com esse histórico, sempre fizemos bagunça inocente lá dentro. Nunca arrumamos nenhuma confusão séria.

Até, claro, o Dia da Briga.

(continua aqui)

21 de junho de 2010

Rob Gordon X Champ Vinyl X Bloqueio Criativo

Cinco dias sem postar. Cinco. Fazia muito tempo que isso não acontecia. Aliás, o problema não é passar cinco dias sem postar, mas sim ficar cinco dias sem escrever. Sinto falta de escrever. Por outro lado, sinto falta de escrever mais não sei ao certo o motivo de não ter sequer rabiscado algo esses dias.

Tudo bem, os problemas de sempre estão ao meu redor: falta de tempo, atolado de coisas para fazer no trabalho, dezenas de coisas para resolver, matérias para escrever, telefonemas para fazer. E tem a Copa do Mundo também... Minha atenção fica toda ali. Junte isso ao cansaço que estou sentindo e pronto.

Mas não é isso. Tem algum outro motivo. Idéias não faltam. Continuo andando pela rua atrás de crônicas, e até tenho achado algumas, às vezes até mesmo dentro de casa, mas nada que me inspire a sentar e escrever. Bosta. Será que estou sem tesão de transformar estes assuntos em texto? Será que os textos da Copa me esgotaram tanto assim? Coloquei muita coisa ali, alguns deles foram verdadeiras porradas... Será que isso me deixou traumatizado e agora estou com medo de voltar a escrever de novo?


– O que você está se lamuriando ai?

– Oi?

– Você está com cara de cu.

– Não consigo escrever.

– Nada? Ou não consegue escrever para mim?

– Para você. No trabalho, eu consigo.

– Acho que é hora de você encarar os fatos.

– Que fatos?

– Você é medíocre. Você sempre foi medíocre.

– Não comece.

– Mas é verdade. Vira e mexe você tem esses bloqueios. É incompetência demais.

– O que você sabe disso? Você é um blog!

– Justamente. Você acha que eu gosto de ficar quase uma semana sem ser atualizado? Como você acha que eu me sinto?

– O Chronicles, às vezes, fica semanas sem ser atualizado. E não reclama.

– Chronicles... Não entendo porque você ainda fala esse nome. Seria tão mais fácil, para todo mundo, se você se referisse a ele como “o meu blog bichinha”. Inclusive você deveria mudar logo o endereço dele para blogbichinhadorob.blogspot.

– Chega. Vou desligar o PC.

– Rá! Vai arregar! Sua mediocridade não conhece limites, mesmo.

– Não, só não estou com saco de ficar aqui, sem conseguir escrever, e ainda ouvindo suas bobagens.

– Arregão!

– Estou indo.

– Espera! Não vá, não! Tenho uma idéia para você escrever.

– Qual?

– É... Hum... Espera...

– ...

– É...

– Você não tem idéia nenhuma. Tchau!

– E aquele texto que você começou a escrever? Sobre você ser um morto vivo?

– Não, não era bem isso.

– Claro que era! Eu li o começo. Achei bem fraquinho, por sinal.

– Não, seu babaca. Eu ia descrever uma infestação de mortos vivos, mas aí eu ia me colocar como morto vivo, me arrastando pelas ruas nas madrugadas em que eu saio arrebentado da redação.

– Ah, entendi. Se você refizer o começo, que estava ruim, sem clima, nenhum, talvez dê liga.

– Depois eu vejo.

– Você não vai ver depois. Você vai deixar ele encostado, até perder o arquivo. Como sempre.

– Depois eu vejo, já disse.

– Rob, quantos textos que você desiste de escrever sem terminar são finalizados depois?

– ...

– Nenhum! Nenhum deles! Você abandona todos!

– Se eu abandono, é porque não estão bons!

– Quem é você para achar isso? Nós já conversamos sobre isso! Eu sou o blog aqui, são meus textos. Você é meu escritor, e é pago para redigir, mais nada. E ainda deveria achar bom, porque eu deixo você usar uma ou outra piada sua nos textos.

– Sou pago para redigir? Não, eu não sou pago para escrever no blog.

– Foi apenas força de expressão. Não seja literal assim. Mas, olhe só, quando eu começar a gerar dinheiro, você vai receber pelo seu trabalho?

– Um salário?

– Não vamos exagerar, também, certo? Estou falando de uma mesadinha.

– Chega. Eu vou embora.

– E o texto?

– Eu não vou escrever hoje.

– Eu preciso ser atualizado! Não me importa se você está sem inspiração ou não! Eu preciso ser atualizado! As pessoas estão reclamando! Entre no Twitter e veja as pessoas perguntando quando eu serei atualizado!

– Eu sei disso. Não me pressione!

– A pressão não é em você, é em mim! As pessoas querem me ler e eu ainda estou com estas bostas de textos de Copa! Eu estou aqui juntando pó, abandonado, esquecido... E você aí, feito um inútil, assistindo México e África do Sul. Não demora muito você vai se emputecer com algo, em algum jogo, e escrever uma “Carta Aberta ao Juiz que Apitou Holanda e Dinamarca”. Você é deprimente, Rob.

– Eu gosto de fazer Carta Aberta. Meus leitores gostam também.

– Seus leitores, não. Meus Leitores.

– Champ?

– Meus leitores! Não abro mão disso! Eles estão cagando para você! A gente já conversou sobre isso!

– Champ?

– Eu sou o astro aqui! Você? Você é figurinha dos bastidores.

– Champ?

– Diga.

– Vai começar o jornal.

– E daí? Vai começar a se pautar pelo jornal agora? “Carta aberta ao Homem que Roubou um Banco em Moscou”? É isso?

– Não. Eu quero ver os gols de hoje.

– Não se atreva!

– Eu volto depois, ok?

– Não estou blefando! Não se atreva! Eu vou escolher 100 posts ao acaso e apagar sem dó!

– Não vai, não. Eu mudei a senha do blog.

– Filho da puta!

– Depois eu volto.

– Não apague a luz! Volte aqui! Acende essa luz!

...

– Volte aqui!

...

– Eu não estou brincando, vou apagar seus posts!

...

– Tem como só acender a luz? Aí eu apago só cinco posts!

...

– Dois?

...

– Traz Coca quando voltar?

17 de junho de 2010

Uma Vida em Copas: Alemanha – 2006

(Texto Anterior: Coréia & Japão – 2002)



A Copa de 2006 foi extremamente diferente para mim. Afinal, após os sete primeiros torneios da minha vida, o campeonato da Alemanha foi o primeiro que assisti aos jogos longe dos meus pais. Cerca de dois ou três meses antes da Copa, fui morar sozinho, em Pinheiros, onde estou até hoje. Assim, tive que escolher um novo canto da sala para tomar posse – ninguém se atrevia a se sentar no meu lugar na casa da minha mãe, nas Copas anteriores. E cabe dizer que eu havia deixado a casa dos meus pais com uma grande alegria, vendo o São Paulo ser novamente campeão do mundo meses antes.

Assim, morando sozinho, esta talvez tenha sido a primeira Copa que assisti na posição de adulto, com um comportamento razoavelmente maduro durante os jogos. Afinal, ao menos no que diz respeito a CEP e endereço para correspondência, eu não era mais filho. Ainda não era pai (na verdade, ainda não sou), mas não era mais filho.

Mas outros fatores me ajudaram nisso.

O primeiro deles foi a desilusão que sofri 1998 e a conseqüente de redenção de 2002, que me fizeram olhar o futebol com outros modos. Apesar de ter compreendido mais o efeito que estas duas Copas tiveram em mim somente algumas semanas atrás – com os textos que redigi para o blog – eu sei que entrei com uma disposição diferente na Copa do Mundo.

Assim, mesmo sem cair naquele conceito de “é só um jogo” (porque, para quem gosta de futebol, Copa do Mundo está longe, mas bem longe mesmo, de ser “apenas um jogo”), me preparei para o campeonato sabendo que não ser campeão era uma probabilidade bem grande. E me esforçando para encarar uma inevitável desclassificação como algo que não se aproximasse do fim do mundo.

E, cá entre nós, a probabilidade de não ser campeão era alta. No papel, a equipe brasileira soava como imbatível, tendo alguns dos maiores jogadores de futebol da época: Ronaldo, Roberto Carlos, Kaká, Adriano, Ronaldinho Gaúcho, Cafu. O técnico era Carlos Alberto Parreira, o mesmo de 1994.

No papel, a seleção brasileira era imbatível – mas, até aí, com exceção da Copa de 90, qual seleção brasileira não era imbatível no papel?


Em pé: Dida, Adriano, Juan, Kaká, Lúcio e Cafu.
Agachados: Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Zé Roberto, Roberto Carlos e Emérson.

No papel, um timaço. Nos gramados, não.

Contudo, no mundo real, a situação era bem diferente. Bastava olhar a seleção de perto para ver que a Copa não seria fácil. Ronaldo, assim como em 2002, vinha de inúmeras contusões, mas já estava com a forma física de um barril; Adriano ia pelo mesmo caminho; Roberto Carlos e Cafu já estavam com idade avançada, o que consiste num pecado mortal para dois laterais.

E, mais importante que isso: a bagunça nos treinamentos, com a presença de convidados, políticos, atores, empresários deixavam claro que a Nike, patrocinadora da seleção, estava transformando a Copa do Mundo numa enorme ação de marketing, com o aval da CBF e aproveitando a falta de comando de Parreira.

E, enquanto isso, nós aqui no Brasil com a esperança de sempre, jogando quatro anos de frustrações em cima de um grupo de jogadores que, cercado de privilégios e mimos, não parecia se importar muito com o que acontecia ao seu redor.

Na concentração, a seriedade com
que o Brasil encarou a Copa de 2006.

E foi com este clima que estreamos na Copa, em 13 de junho, contra a Croácia. A vitória apertada (1 x 0) escancarou os problemas do time. O tal “quadrado mágico” de Parreira (formado por Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo e Adriano) simplesmente não funcionava. Ronaldo, na verdade, mal apareceu no jogo – me lembro de receber um sms de um amigo dizendo que “o problema do quadrado é o Redondo”.

Mas o problema do time não era tático, estava na atitude. Os medalhões da seleção brasileira, acostumados a títulos e mais títulos, claramente acreditavam que a Copa estava ganha desde o primeiro jogo e que os gols – e o show – sairiam naturalmente. O resto da primeira fase caminhou da mesma forma: os 2 x 0 contra a Austrália e os 4 x 1 contra o Japão (treinado por Zico) aconteceram muito mais por deficiência técnica dos outros times que por méritos brasileiros.

O jogo contra o Japão, contudo, poderia ter sido o mais importante na campanha de 2006. Já classificado, Parreira escalou o time com diversos reservas, especialmente Juninho Pernambucano que, vivendo excelente fase no futebol francês, deu uma nova cara ao time, correndo em poucos minutos mais que Ronaldinho Gaúcho nos dois jogos anteriores. Também neste “novo Brasil”, destacavam-se Ricardinho e Cicinho.

Os quatro gols foram resultado de um futebol mais rápido e inteligente, sem a burocracia e o salto alto visto nas duas primeiras partidas, e o jogo deixou claro que, assim como aconteceu em 1958 (quando Feola colocou Pelé e Garrincha no time no último jogo da primeira fase, contra a URSS), o título do Brasil em 2006 passava pelo banco de reservas.

Mas, no primeiro jogo das oitavas, este título voltou para o banco. Parreira ignorou o desempenho do time na partida anterior – se por incompetência ou por ordens da CBF, não faz diferença – e voltou com a escalação apática. O placar elástico de 3 x 0 contra Gana passa a impressão de o time ter jogado de forma convincente, mas não foi o que aconteceu. Mesmo correndo um pouco mais, o time continuava jogando de forma despretensiosa.

A esta altura, o país estava dividido. De um lado, a população, que queria os medalhões fora do time e os reservas em campo. De outro, a imprensa brasileira, chapa-branca por definição e liderada pela Rede Globo, transformando a Copa em uma enorme festa.

Sim, alguns jornalistas criticavam o peso de Ronaldo, mas, até mesmo isso foi atenuado quando ele se tornou o “maior artilheiro da história das Copas”, atingindo 15 gols na partida contra Gana. As aspas são porque ele é realmente o jogador que mais marcou gols em Copa, mas, para mim, não é o maior artilheiro. Afinal, Ronaldo marcou 15 gols em 3 Copas (4, se contarmos 1994), enquanto o francês Fontaine marcou absurdos 13 em apenas uma Copa (1958) – pelas minhas contas, até mesmo o alemão Gerd Müller superaria o brasileiro, com 14 gols em duas Copas (1970 e 1974).

Ronaldo marca contra Gana e a
imprensa enlouquece. Era pouco.

Mas o que me deixava enfurecido é que aparentemente os jornalistas preferiam falar do peso de Ronaldo, sem coragem de questionar Ronaldinho Gaúcho. Então melhor jogador do mundo e com a responsabilidade de comandar o time do Brasil, o meia do Barcelona mal havia encostado na bola durante a Copa, praticamente observando os jogos ao lado da linha lateral do campo, enquanto milhões de dólares caíam em sua conta bancária a cada minuto, devido às campanhas publicitárias.

Assim como as outras promessas da Copa – o inglês Rooney e o português Cristiano Ronaldo – Ronaldinho Gaúcho fugiu, se escondeu atrás da fama e fez apenas número na seleção. Com isso, a Copa de 2006 não pertenceu a nenhuma das promessas, mas sim ao veterano Zidane, que parecia estar faminto para se despedir do futebol com a taça. E se tem algo que eu aprendi ao longo de Copas do Mundo é que esta fome é essencial para a vitória. Zidane estava faminto e o Brasil estava de barriga cheia, encarando a Copa apenas como uma sobremesa.

Eu já temia pelo pior na manhã antes daquele Brasil e França. O histórico era totalmente desfavorável: França. Quartas de final. Tudo conspirava contra. Mesmo assim, resolvi apostar e fiz uma promessa, em silêncio: “se o Brasil ganhar, eu compro uma camisa oficial”. Eu não tinha uma camisa da seleção brasileira desde criança. O ato de comprar uma camisa, para mim, não significava desfilar com ela pelas ruas, mas sim atestar que eu estava do lado do time. Mais que uma promessa, era um pedido, e talvez tenha sido a minha única atitude de menino nesta Copa: “Brasil, se você ganhar este jogo, eu fico do seu lado até o fim”.

Mas, conscientemente, eu sabia que não iria ganhar – mesmo com Juninho em campo. Comecei a partida torcendo, mas, o time, aparentemente, não se importava se eu – ou o resto do país – estava torcendo. A França dominou a partida o jogo inteiro e o gol acabou saindo na fatídica cobrança de falta em que Roberto Carlos não marcou Henry, para arrumar sua meia. O lateral se defende deste lance até hoje, arrumando explicações, mas não faz mais diferença – nunca fez, na verdade.

Além de Roberto Carlos arrumando a meia, outras imagens daquela partida ficaram marcadas para sempre na minha memória. A mais importante delas é o chapéu de Zidane em cima de Ronaldo, no meio de campo, e que, para mim, simboliza todo o jogo.

Entretanto, próximo ao final do jogo, ganhei um herói: durante um contra-ataque da França, o zagueiro Lúcio fez uma falta que praticamente rachou Henry em dois, e ao se levantar, ao invés de pedir desculpas ao francês, abriu os braços e começou a gritar com o resto do time, deixando claro que, assim como o resto do país, ele estava puto com a atitude da equipe. Nada me tira da cabeça que ele deu uma porrada em Henry porque não podia quebrar algum dos medalhões do próprio time e tenho certeza de que o que ele gritou com o time era exatamente o que o país inteiro estava gritando desde o primeiro jogo.


Mais uma vez, o time assistiu a Zidane jogar.

Eu? Eu passei o segundo tempo inteiro sentado na frente da televisão, em silêncio, com as pernas cruzadas e o queixo apoiado na mão – minha tradicional pose de enraivecido. Minha única reação foi quando o juiz apitou o final do jogo. Enquanto Gilberto Silva caía aos prantos no meio de campo – o que também fez com que ele subisse demais no meu conceito – eu peguei uma almofada que estava ao meu lado e praticamente cobrei um tiro de meta com ela, a chutando em direção ao teto, e antes que ela voltasse ao chão, eu já havia dado um murro violento na porta da sala.

E, olhando de volta para a TV, vi uma imagem que nunca mais esqueci. Robinho, que à época jogava no Real Madrid, estava brincando e rindo ao lado de Zidane, claramente querendo aparecer na mesma foto que o francês. Minha vontade era pegar um avião até Frankfurt e arrebentá-lo de porrada.

Meu ódio, pela primeira vez, não era pela derrota. Era pelo time. Eu estava me sentindo traído. Como meu pai sempre disse, Copa do Mundo é um torneio para homens, e metade do time do Brasil era composto de moleques que estavam ali para brincar e fazer farra, mais preocupados com sua própria carreira do que em honrar aquela camisa.

Mal sabia eu que minha vida mudaria nas horas seguintes. Sentei-me no computador e escrevi um longo texto, analisando o desempenho de jogador a jogador e do técnico durante a Copa do Mundo. E escrevi furiosamente, enraivecido, dando algumas opiniões que permanecem até hoje – e que muita gente discorda.

A principal delas é que Ronaldinho Gaúcho nunca foi um craque, mas sim apenas um jogador extremamente habilidoso – é preciso mais que habilidade para se tornar um craque. É preciso ter culhões. E isso ele nunca teve, pois sempre que a responsabilidade de decidir era dele, ele fugiu – ele faria o mesmo novamente, no Barcelona X Internacional, que deu o título mundial ao time gaúcho.

O resto da Copa? Soou desimportante para mim, mesmo com momentos inesquecíveis como o Portugal X Holanda das quartas de final, mesmo com a lendária cabeçada de Zidane em Materazzi na partida final, que deu o título a Itália – o que apenas aumentou o sabor amargo da Copa de 2006 na minha vida.


Mais uma vez, era da Itália. Mais uma vez, doeu.

Assisti aos jogos com um distanciamento bem grande, e o motivo para isso, eu entendo apenas hoje. A mídia adora enaltecer o fato de que o Brasil é o único país que disputou todas as Copas do Mundo. E eu a corrijo agora: o Brasil participou de todas as Copas, mas não disputou a de 2006.

Mas eu disse que minha vida mudou após o jogo contra a França. Assim que acabei o texto, enviei a alguns amigos, e me senti estranhamente calmo. Eu não tenho mais este texto, ele foi digitado diretamente no corpo do mail, mas gostaria de poder reler o que escrevi ali. Foi naquele minuto que eu descobri que escrever me fazia bem emocionalmente, era quase uma terapia.

Foi naquele final de tarde de 1 de julho de 2006 que – ao menos em termos emocionais – meu blog nasceu.

Com o passar dos meses, fui amadurecendo a idéia, adiando a criação do blog, mas sem nunca deixar de pensar nisso. Pouco mais de um ano depois, em 31 de julho de 2007, postei meu primeiro texto no Championship Vinyl. E estou aqui até hoje. Este é o texto de número 566. Neste mais de 500 textos, eu já gargalhei, já chorei, já esmurrei outras portas e paredes. Já escrevi textos bons e ruins. Em suma: já ganhei e já perdi. Mas nunca perdi o amor por isso aqui. Nunca.

E o mínimo que eu espero de uma seleção brasileira que dispute uma Copa do Mundo é isso: que ela sinta amor não apenas pela camisa que veste, mas também pela minha torcida e pelos meus sentimentos, que, mesmo nos piores momentos e nas derrotas mais amargas, estão sempre lá, em meio a gritos, sorrisos e choros, mas sempre com aquela ponta de esperança, com aquele “eu acredito” impresso na alma.

Assim como acontece no meu blog, eu não faço questão de vitória nenhuma. Como eu digo desde o primeiro texto aqui, não faço questão de craques, faço questão de heróis. Faço questão apenas de ir dormir sabendo que aqueles onze homens, nos gramados do mundo afora, fizeram o melhor que eles podiam ter feito.

Qualquer vitória – em Copas, no blog, na vida – sempre será uma conseqüência disso.



(Estes textos foram escritos antes da Copa de 2010.A ideia é, a partir de agora, atualizar a série sempre pouco antes de cada Copa do Mundo. Assim, o próximo texto é: África do Sul - 2010)

16 de junho de 2010

Este Sou Eu. Ou Quase.

Como estou demorando para postar minha foto por motivos alheios à minha vontade - nenhum dos fotógrafos requisitados aceitou o serviço - e, em respeito aos leitores, decidi tomar uma solução paliativa.

A foto ainda vai sair. Provavelmente, com produção caseira que dá o melhor sentido possível ao conceito de "ô fase", mas vai sair, eu garanto. Porém, para demonstrar que estou agindo de boa fé, segue, abaixo um pequeno esboço meu andando pela Teodoro Sampaio.



Apesar da perspectiva não deixar minha altura clara, gostaria de ressaltar que sim, sou eu - como a careca deixa claro.

E, se vocês acharem que estou magro demais, já adianto que não é Photoshop. Quem manja de moda sabe que preto emagrece.

13 de junho de 2010

The King

Desde criança, eu assovio o dia todo. Bom, não o dia todo, mas é bem comum você me encontrar andando sozinho na rua e assoviando. E desde criança mesmo: quando eu tinha 12 ou 13 anos, voltava da escola assoviando o tema de A Ponte do Rio Kwai nas ruas de Moema, o que fazia com que meu cachorro já soubesse que eu estava chegando em casa minutos antes de eu virar a esquina da minha rua.

E isso acontece desde criança mesmo. É mania. Aliás, eu me lembro do dia em que aprendi a assoviar. Eu devia ter menos de dez anos. Era um sábado e fomos visitar minha avó – mãe do meu pai – que morava em Santos. E, sabe-se lá porque, naquele dia eu cismei que iria aprender a assoviar. Assim, fiquei o dia todo soprando e soprando, tentando aprender, até começar a emitir alguns sons. Embalei e fui em frente. No fim da tarde, eu já sabia assoviar. Não era um mestre do assovio, mas sabia como fazer.

A partir daí, fui treinando. Graves, agudos. Com meu pai, aprendi até mesmo a assoviar de um jeito que não é preciso fazer bico: a boca fica imóvel, na posição normal, apenas levemente entreaberta.

– Esse modo é perfeito para assoviar dentro da sala de aula, porque o professor não percebe quem está assoviando, ele me explicou.

– Pára de ensinar bobagem ao menino, disse minha mãe, cerca de vinte segundos depois.

Talvez minha única frustração seja nunca ter aprendido a dar aqueles assovios altos, com dois dedos dentro da boca. Por outro lado, não sinto mais falta disso. Além disso, inventei outra técnica que, se não é alta, é divertida: eu fico passando o indicador nos lábios enquanto assovio, como se estivesse “tocando a boca” (ou puxando o lábio inferior com os dedos bem rápido), o que resulta num som diferente, que fica alternando graves e agudos à velocidade da luz.

Assim, faz anos que assovio de tudo: desde temas de filmes (nada neste mundo é mais assoviável que a trilha de O Poderoso Chefão, especialmente a levemente melancólica The New Godfather, que é o tema de Michael) a música clássica, passando por Frank Sinatra, The Platters, Beatles, Chico Buarque e, claro, um eventual Iron Maiden ou Metallica (mas nem tudo de heavy metal é assoviável).

E, como eu disse, é o dia inteiro. Quando eu morava com meus pais, não era difícil minha mãe vir perguntar se eu tinha almoçado alpiste, e minha outra avó, que mora com meus pais, elogiar a qualidade do meu assovio. Mas, se eu assovio o dia todo, não assovio todos os dias – porque tem dias que não rola, que não sai, que a boca fica “seca”.

Mas sexta-feira saiu. Estava voltando para casa e – sabe-se lá porque – comecei a assoviar Elvis Presley. Assim, subi a Teodoro soprando as notas de Can’t Help Falling in Love with You. E aí fui andando pelas calçadas, assoviando, me lembrando da letra e brincando com a música. Sim, quando eu cismo de assoviar uma música, eu começo a brincar com ela. Assovio mais grave, depois experimento com agudos; deixo as notas contínuas, num assovio só, ou vou mudando de nota para nota de soquinho.

Enfim, sou quase um débil-mental preso dentro do meu mundinho musical.
E, quando entrei no Pão de Açúcar, já estava assoviando outra música, enquanto pegava a garrafa de Coca, algo para comer e me lembrando da letra.

Maybe I didn’t treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn’t love you

Quite as often as I could have


E, andando pelos corredores, com meu jantar na mão e a música nos lábios, fui em direção ao caixa. Enquanto ele passava minhas compras, eu continuei assoviando, apenas abaixei um pouco o volume.

Atrás de mim, dois sujeitos um pouco mais novos que eu – amigos, provavelmente – aguardavam a vez para pagarem duas latas de cerveja.

Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You were always on my mind

Quando eu me preparava para entrar na segunda estrofe (ansioso para chegar logo na parte do “Te-e-ell me, Tell me your sweet love hasn’t died”), um deles me chamou. Parei de assoviar e ele perguntou:

– Posso fazer uma pergunta?

– Claro.

– Que música é essa que você está assoviando?

– Always on my Mind.

– Always on my Mind? Eu estava ouvindo você assoviar, e acho que conheço essa música, mas não tenho certeza.

Aí resolvi falar a palavra que poderia acabar com qualquer dúvida dele.

– Elvis.

Na verdade, o correto não seria Elvis, mas sim Brenda Lee - a versão de Elvis apenas é a mais famosa. Mas uma discussão musical dentro do Pão de Açúcar, numa sexta-feira à noite, não precisa deste tipo de preciosismo. Tanto que a palavra “Elvis” pareceu resolver a questão, pois o sujeito abriu um sorriso.

– Tem razão! Elvis!

Sorri para ele, que não me devolveu o sorriso. Ao invés disso, começou a cantar baixinho.

– You’re always on my mind... You’re always on my mind.

Eu, gentil, não assoviei mais, deixando espaço para o solo dele. O rapaz do caixa começou a rir enquanto meu novo companheiro de turnê cantarolou alguns segundos, antes de virar para o amigo e dizer:

– Always on my Mind. Essa música é foda. O Elvis era foda.




Eu sorri, guardei meu troco, peguei minha sacola e me despedi, deixando os dois para trás. Saí do mercado e tenho certeza de que os alto faltantes do Pão de Açúcar anunciaram que Lladies and gentleman... Elvis has left the building”.

Já na rua, voltei a assoviar a música, desde o começo. E, claro, ajeitei minha jaqueta de couro. Afinal, naquele momento eu não era mais o Rob Gordon, eu era o Rei do Rock.

Ao menos na Teodoro Sampaio.

Assim, deixo vocês com o meu Top 5 Músicas do Elvis que mais gosto.

1. Can’t Help Falling in Love – De todas as baladas de Elvis, esta é tranquilamente a mais emocionante. E isso não é pouca coisa.
2. Always on my Mind - De todas as baladas de Elvis, esta é tranquilamente a mais dolorida. E isso não é pouca coisa.
3. Hound Dog – A música que faziz Elvis rebolar na televisão, para os gritos das adolescentes e desespero dos pais. Sem essa música, 80% dos CDs que existem na sua casa não existiriam.
4. Não Esqueci da Foto – Sim, é evidente que eu sei que isso não é uma música do Elvis. Mas fica como satisfação (ainda estou trabalhando nisso) e como um teste para ver se vocês estavam atentos.
5. Jailhouse Rock – Talvez existam outras melhores, mas poucas tão divertidas. E, como foi a primeira música de Elvis que eu conheci, entra pelo caráter sentimental da coisa.

11 de junho de 2010

Uma Vida em Copas: Coréia & Japão – 2002

(Texto anterior: França - 1998)



Para mim, a Copa de 2002 começou de forma totalmente diferente do que havia acontecido nas edições anteriores do torneio. Em todas as minhas Copas, de 1982 em diante, o ritual era o mesmo: nas semanas que antecediam o início do campeonato, eu começava a sentir uma ansiedade digna de uma criança na semana antes do Natal, pensando apenas na Copa. Comprava todas as revistas possíveis sobre o assunto, estudava tabelas, fazia bolões e não conversava sobre nenhum outro assunto.

Em 2002, porém, foi diferente. Após a final da Copa de 1998, eu gradualmente me afastei do futebol, como deixei claro no texto anterior. Desde o final da Copa da França, eu havia me desinteressado totalmente pelo esporte que sempre foi minha grande paixão, e por apenas um único motivo: eu não havia conseguido lidar com a dor da derrota em uma final de Copa.

Assim, entre 1998 e 2002, eu mudei certos hábitos na minha vida. Passei a não me interessar mais pelos cadernos de esporte dos jornais, por exemplo. Se durante toda a minha vida eu não saía de casa pela manhã sem ler a principais notícias, nesses quatro anos não era difícil eu ficar dias sem colocar as mãos nele. Sim, eu continuava assistindo aos principais jogos na televisão, mas sempre com um distanciamento e uma frieza – mesmo quando se tratava do meu time – que eu jamais poderia imaginar que aconteceria comigo.

Na verdade, eu não estava fugindo do futebol. Eu apenas não me envolvia com ele de jeito algum. Assistia aos jogos de forma apática, tomando cuidado para que meu coração não começasse a bater no ritmo dos chutes e dos dribles. E, sim, ele queria bater nesse ritmo, eu que o impedia. Eu era quase um ex-alcoólatra observando as pessoas em um bar do outro lado da rua.

Assim, minha vida se tornou mais tranqüila em certos aspectos, mas, por outro lado, mais vazia. O futebol havia feito parte da minha vida desde que ela havia começado. Me arrisco a dizer aqui que, sem o futebol, eu e meu pai seríamos apenas isso: pai e filho; foi o futebol que, ao longo dos anos, nos tornou melhores amigos.

Mas eu não queria mais nada com o futebol. Ele havia deixado de ser uma paixão e se tornado menos que um jogo, mas apenas um esporte. Tudo porque eu morria de medo de me machucar novamente como havia acontecido em 1998. Covardia? Sim, muita. E, aos meus amigos que me questionavam sobre isso, eu apenas respondia:

– Quando ganharmos mais uma Copa, eu volto.

Sinceramente? Eu não sabia se ganhar uma Copa iria fazer com que eu voltasse. Eu achava que sim, mas não tinha certeza. Mas não descobri isso de verdade até que a Copa de 2002 começasse do outro lado do planeta.

Até então, eu havia acompanhado a seleção brasileira com certo interesse, especialmente durante as Eliminatórias – não sei se eu não conseguia ficar longe, mesmo observando aos jogos com frieza, ou se eu fazia questão de assistir aos jogos para me testar – mas simplesmente me recusava a olhar a Copa com otimismo ou com os olhos de menino que haviam me acompanhado em todas as edições do torneio.

Entretanto, a figura de Felipão, que assumiu o time num momento delicado das Eliminatórias, me inspirava respeito. Eu não gostava dele até uns poucos anos antes, já que, aos meus olhos, ele representava muito do que eu não gostava no futebol, mas seu trabalho no Grêmio e (especialmente) no Palmeiras conquistou meu respeito.

Mas o fato decisivo foi quando ele peitou a pressão nacional (incendiada pela Rede Globo) para a convocação de Romário – incluindo aí uma coletiva de imprensa armada pelo próprio jogador – e não o incluiu no grupo que disputaria a Copa. Naquele momento, ele me ganhou. Apesar de admirar o futebol de Romário, eu nunca fui admirador da pessoa Romário – e não estou falando de vida pessoal, mas de atitude dentro de campo.

Na Copa de 1994, por exemplo – que Romário insiste em dizer que ganhou sozinho, o que não é verdade, pois isso pode ser dito apenas de Garrincha (em 1962) e de Maradona (em 1986) – Romário claramente jogava mais para ele que para o time, como eu já disse aqui. Romário jogava muita bola, sim, mas eu sempre venerei jogadores que se sacrifiquem pelo time, abominando aqueles que faziam o time se adaptar às suas vontades, como o atacante havia feito em todos os clubes pelos quais havia passado.

Ao ignorar os apelos de Romário, da mídia e do povo, Felipão mostrou ter culhões. E se existe algo que eu admiro, não apenas no futebol, mas na vida, é uma pessoa com culhões. E talvez tenha sido nesse momento que eu decidi dar uma chance ao Brasil durante a Copa. Eu iria assistir aos jogos de qualquer maneira, mas é possível que neste momento eu decidi que, sim, iria torcer.

Assim, quando a seleção entrou em campo para enfrentar a Turquia, pelo primeiro jogo do grupo C, eu e o resto do país não sabíamos o que esperar. No papel, o time era irregular, com alguns jogadores novos que tentavam cavar seu espaço no time e remanescentes da campanha de 1998. O destaque, novamente, era Ronaldo, que havia deixado de ser um trunfo para assumir o papel de incógnita, devido às seguidas lesões que quase acabaram com sua carreira.

Em pé: Lúcio, Cafu, Roque Jr. Edmílson, Émerson e Marcos.
Agachados: Roberto Carlos, Kléberson, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo.

A família Scolari ganhou o mundo.

Na verdade, acredito que uma das maiores sortes que o Brasil teve, em 2002, foi estrear justamente contra a Turquia, o adversário mais difícil de seu grupo. Caso o primeiro jogo fosse contra uma equipe mais fácil, o time poderia não ter se unido como aconteceu já a partir desta primeira partida. O que se via em campo era um Brasil coeso e sólido na defesa – bem ao estilo de Felipão – e com futebol rápido na frente, graças à habilidade de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo.

O placar (2x0), porém, dá a impressão de um jogo fácil, coisa que não podia estar mais longe da verdade. A Turquia endureceu a partida desde o primeiro minuto – e levou perigo muitas vezes – fazendo com que logo o jogo se tornasse uma verdadeira guerra, que culminou com a pseudo-confusão detonada quando Rivaldo levou uma bolada no joelho e fingiu ter sido atingido no rosto.

Deste lado da tela, eu assistindo aos jogos com meus pais, travava outra guerra, mais particular. Durante todo o primeiro tempo, eu me comportava como alguém que reencontra uma ex-namorada pela primeira vez após o final do namoro. Não me sentia à vontade e acreditava que o mundo inteiro estivesse me observando, apenas para ver quais seriam as minhas reações.

Mas era bobagem minha. Todos estavam de olho na TV, e continuaram assim até o início do segundo tempo, quando Ronaldo fez 1 x 0. A bola entrou e eu dei um soco no ar, exclamando um “gol!” seco e firme. De todas as pessoas que estavam na casa dos meus pais aquele dia, ninguém achou minha reação estranha – apenas eu. Porque fazia quatro anos que eu não vibrava com um gol.

Eu estava torcendo. Querendo ou não – e a esta altura eu ainda não estava certo se queria –, eu estava torcendo. Tanto que comemorei exatamente da mesma forma (seca, quase áspera – hoje eu sei que era raiva) o segundo gol, de Rivaldo, que definiu o jogo.

Para minha sorte, o resto da primeira fase foi extremamente mais tranqüilo, com vitórias fáceis sobre China (4x0) e Costa Rica (5x2). Na verdade, foram quase dois treinos, que me permitiram assistir às partidas de forma tranqüila, sem pressão, o que me ajudaram e muito. Assim, o Brasil já estava nas oitavas de final, mas eu ainda não havia entrado na Copa com os dois pés – mas nem isso me impediu de celebrar as quedas precoces de Argentina e França.

E foi aí que tudo começou a mudar. No primeiro jogo da segunda fase o Brasil ficou frente a frente com a Bélgica, num jogo que se mostrou mais difícil do que qualquer um imaginava. Ao menos no primeiro tempo, pois, na segunda etapa, o Brasil sobrou no jogo e, com um placar de 2 x 0, avançou para a próxima fase.

No dia seguinte, comemorei a queda da Itália nas mãos da Coréia do Sul, anfitriã que ganhava todos os jogos com a ajuda da arbitragem, indo dormir feliz com o fato de que os três países que, a cada quatro anos, se tornam meus inimigos mortais, estavam voando de volta para casa.

Eu ainda não estava torcendo pelo Brasil, ao menos naquele sentido único de “torcer” que somente quem gosta de futebol entende. Uma pessoa comum torce pelo seu time porque quer que ele ganhe – um torcedor, pelo contrário, torce pelo seu time porque sabe que a derrota custará caro. Pessoas comuns esquecem as derrotas em poucas horas; um torcedor continua amargando lances da partida, revivendo jogadas decisivas (e se perguntando “e se?” a cada momento) durante semanas.

Eu não queria mais sentir isso. Eu estava há quatro anos fugindo disso.

Eis que veio o jogo com a Inglaterra.

E, com ele, veio o gol de Owen aos 23 minutos de jogo. Inglaterra 1 x 0 Brasil. Silêncio na sala. Mesmo contra a minha vontade, senti um gosto amargo na boca. E não pude evitar pensar na ironia de sermos desclassificados pelos ingleses, provavelmente a seleção que eu tenha menos respeito dentre todas as campeãs do mundo.

O pesadelo das quartas de final estava novamente no meu colo. E frases como “se o jogo acabasse agora, estaríamos fora” e “se tomarmos mais um gol, tudo acaba de vez” começaram a dançar na minha cabeça, até que Beckham, ao final do primeiro tempo (e na jogada que melhor resume seu comportamento em campo ao longo de toda a carreira), tirou o pé da dividida, gerando um contra-ataque que culminou no gol de empate.

E eu cerrei o punho mais uma vez, e gritei “gol!”, muito alto. Eu não conseguia mais disfarçar minha raiva. Estava com raiva da seleção por não estar ganhando da Inglaterra, mas estava com raiva de mim por estar com medo de ser desclassificado.

Não me recordo se conversei com as outras pessoas durante o intervalo, mas porque eu estava ocupado demais pensando em tudo isso, em como eu deveria agir e, especialmente, o que eu deveria estar sentindo. E, sejamos sinceros: quando você começa a pensar em como deve se sentir, é porque você já escolheu como se sentir, falta apenas admitir para você mesmo.

E eu finalmente admiti a forma que estava me sentindo aos cinco minutos do segundo tempo, quando Ronaldinho Gaúcho cobrou uma falta da intermediária, no ângulo, marcando o segundo “gol sem querer” mais importante da minha vida (o primeiro ainda é o de Müller, em 1993, no final de São Paulo X Milan). Desta vez, eu não soquei o ar. Seaman, o goleiro inglês, ainda não havia entendido a jogada e eu já estava fora do sofá, e fora do chão, com os pés no ar e gritando enlouquecido pela sala.

Seaman tenta entender o que aconteceu.
Pela primeira vez em quatro anos, eu gritava.

Naquele dia, eu voltei a gostar de futebol. Naquele dia, eu voltei a torcer. Mas isso não aconteceu não no gol de empate ou no gol da virada; eu havia voltado a torcer muito antes, no gol inglês. Quando a bola morreu no fundo do gol de Marcos, eliminando o Brasil – ao menos até o gol de empate – um dos meus maiores defeitos veio à tona: o orgulho.

Eu nunca consegui admitir que alguém fale (ou mostre) para mim que eu não posso ter determinada coisa. Eu levo este tipo de coisa para o lado pessoal e me torno praticamente obcecado em conseguir aquilo, apenas para provar para mim mesmo e para aquela pessoa que sim, eu podia. Infantil? Bastante. Mas, releia este parágrafo com atenção e veja que eu não me referi a isso como “uma de minhas características”, mas sim “como um dos meus maiores defeitos”. Eu tenho plena consciência de que isso é um defeito meu, da mesma forma que, hoje, eu tenho plena consciência de que não estava nem aí para a Copa – ou, ao menos, estava tentando permanecer assim – até o Brasil correr risco de ser eliminado. Aí a coisa mudou de figura.

Tanto que na semifinal eu já estava vendido. O segundo jogo com a Turquia, para mim, foi extremamente diferente que o primeiro. Eu já estava totalmente envolvido; e não porque era um semifinal, mas sim porque eu estava voltando a ser eu mesmo, ainda sem muita consciência disso.

E o fato do jogo já começar em clima de guerra – ainda reflexo do polêmico lance de Rivaldo na partida de estréia – acirrou ainda mais meus ânimos, que explodiram quando Ronaldo fez um gol feio, de bico, no início do segundo tempo.


Galvão Bueno enlouqueceu totalmente
com "o exército de turcos atrás de Denílson".


Soltei meia dúzia de berros e estas foram as únicas palavras que falei durante o resto da partida – me lembro claramente de ficar todo o segundo tempo em silêncio, com um olho na bola e outro no relógio no canto da tela, ansioso, esperando a partida acabar.

Estávamos na final. De novo.

E, pela primeira vez na história das Copas, iríamos jogar contra a Alemanha, do temível goleiro Kahn, que, assim como o Brasil, havia chegado totalmente desacreditada à Copa e, atropelando um adversário atrás do outro (inclusive a surpreendente Coréia do Sul, que chegou à semifinal), disputaria o título contra nós.

E eu comecei a sofrer logo depois do jogo contra a Turquia. Como o Brasil nunca havia enfrentado a Alemanha em Copas, eu não tinha nem um histórico de resultados para tentar buscar um pouco de calma.

Além disso, era uma final de Copa. A expressão “final de Copa” ainda me dava arrepios. Quando eu era menino, sonhava com a frase “final de Copa”, sem adivinhar que, no futuro, teria uma das maiores alegrias da minha vida em 1994, numa “final de Copa”, e uma das grandes decepções, quatro anos depois, numa “final de Copa”.

Ao longo dos dias que antecederam a partida, imagens da final de 1998 apareciam na minha mente a todo instante. Eu tentava empurrá-las para o lado substituindo-as pelas minhas memórias da final de 1994, mas descobri que isso não dava resultado algum. Pelo contrário, piorava tudo, porque, até hoje, quando me recordo da decisão por pênaltis de 1994, sinto todo o nervosismo que senti daquele dia, chegando a fazer com que meu estômago embrulhe.

E, quando me deitei, na madrugada de 30 de junho, poucas horas antes do jogo, pela primeira vez na minha vida como torcedor de futebol, eu senti medo. Eu não estava preocupado, eu estava com medo. Estava com medo de poder passar por tudo aquilo que havia me derrubado em 1998, estava apavorado com a idéia de saber que somente vencer uma Copa faria com que eu voltasse a ser o que era, e ter chegado tão perto disso, apenas para perder novamente.

Dormi apenas alguns minutos aquela noite. Cochilava e sonhava com o jogo, com resultados, com gols do Brasil, com gols da Alemanha, até que, assim que o dia nasceu, decidi descer para a sala e esperar a partida começar. Logo, toda minha família estava ali, ao meu lado, e a bola começou a rolar.

Eu juro que adoraria descrever aqui jogadas eletrizantes e tudo o que senti no primeiro tempo da partida, mas não consigo. Eu não me lembro de nada. Quando assisto aos lances do jogo hoje, me recordo da maioria deles, mas eles escapam da minha memória assim que volto minha atenção para outra coisa. Se você me perguntar onde eu estava no primeiro tempo de Brasil X Alemanha, eu vou responder que “acho que na casa dos meus pais, mas não tenho certeza.”

Mas eu me lembro de ver Kahn deixando a bola escapar e Ronaldo aproveitando o rebote, já quase na metade do segundo tempo. O país, que esteve tenso por 67 minutos, explodiu num grito; eu, que havia decidido me tornar adulto quatro anos antes, explodi e voltei a ser menino definitivamente. Mesmo porque, mesmo sendo campeão do mundo, eu nunca havia experimentado a sensação de comemorar um gol do Brasil numa final de Copa.

Mas ainda faltavam 20 minutos para o jogo acabar. Eu não conseguia mais ficar quieto e comecei a fazer algo que sempre fiz em momentos assim, na casa da minha mãe: eu ficava andando por trás de duas poltronas (que separavam a sala de estar da sala de jantar), feito um bicho numa jaula, mudo e sem tirar os olhos da TV. Havia percorrido quilômetros naquele pequeno espaço de três ou quatro metros durante inúmeros jogos da Libertadores, em diversos jogos de campeonatos brasileiros – e, pela primeira vez na vida, eu fazia isso numa final de Copa do Mundo. Justamente na Copa em que jurei que nunca mais faria algo assim.

E andei para lá e para cá durante pouco mais de dez minutos, até Rivaldo abrir as pernas, enganando a defesa alemã e deixando a bola passar para Ronaldo que, de fora da área, bateu no canto. 2 x 0.

Nada mais mudaria isso. Éramos campeões. As pessoas começaram a gritar na sala. Eu devo ter gritado também, mas por pouco tempo. Assim que o jogo recomeçou, eu me encostei em um móvel e fiquei olhando fixamente a televisão. Todos na sala estavam mais relaxados, mas eu não.

Eu comecei a chorar.

Não estou falando que senti um nó na garganta ou que meus olhos começaram a marejar de emoção. Foi pior. Eu desatei a chorar incontrolavelmente, soluçando em pé na sala, sem conseguir falar direito, sem conseguir ver mais jogo nenhum. Minha mãe veio me abraçar para tentar me consolar, mas eu não via mais nada.

Ronaldo comemora o segundo gol contra a Alemanha.
Na minha vida, a Copa de 2002 terminou neste minuto.


A única coisa que eu conseguia enxergar eram os últimos quatro anos da minha vida, nos quais eu havia me afastado da maior paixão da minha vida. Aquele segundo gol do Brasil me fez perceber que estes anos haviam sido os mais vazios da minha vida – não porque o futebol fez falta (fez, e muita), mas porque eu havia ficado meses e meses tentando negar o que eu era.

Comecei a me lembrar de tudo o que eu havia vivido durante todas as minhas Copas do Mundo, todos os meus gritos, os socos nas paredes, os abraços enlouquecidos no meu pai e (um pouco mais cuidadosos, mas não muito) na minha mãe. Comecei a me lembrar de jogos, de lances, de gols, de sorrisos e lágrimas e percebi que sim, boa parte da minha vida poderia ser escrita por meio dessas sensações, e que muito do que sou se formou em meio às Copas do Mundo.

E percebia também que, durante anos, eu estive disposto a abandonar tudo isso por medo, e chorava mais ainda. Eu não estava chorando por um título, ou por uma partida de futebol. Eu estava chorando quatro anos da minha vida.

Naquele momento eu descobri que nunca vou deixar de ser um menino no que diz respeito ao futebol – e, consequentemente no que diz respeito a todas as minhas paixões e a todos os meus amores – por mais que eu queira, por mais que a derrota seja dolorida.

Eu não me recordo de absolutamente nada da partida depois do segundo gol. Eu não tenho, na minha memória, imagem nenhuma dos últimos onze minutos da partida. Tudo o que eu consigo me lembrar é do meu choro incontrolável, e da dor que eu havia carregado sozinho e em silêncio durante quatro anos e que eu colocava para fora a cada segundo.

No meu coração, a Copa da Coréia e do Japão se encerrou aos 34 minutos do segundo tempo da final. Assim, a Copa de 2002 foi a Copa mais curta da minha história. A Copa de 2002 foi a Copa que me salvou.


Cafu levanta a taça que eu,
por quatro anos, fingi que não existia.


A prova disso é que quando Cafu, usando uma camiseta que homenageava o bairro em que cresceu, levantou a taça, eu não estava mais na sala. Eu já havia corrido para o outro lado do portão e ganhado o mundo da rua. Eu era campeão do mundo e estava comemorando nas ruas, pulando e gritando. Porque eu havia voltado a ser um menino.

E, mais que em qualquer outro momento da minha vida, mais até em que em 1994, desta vez eu sabia que era para sempre.

(Próximo texto: Alemanha - 2006)

8 de junho de 2010

Sugestão Obrigatória #4 - Eneaotil



Um cronista não é uma pessoa que sabe escrever, mas sim uma pessoa que pega absolutamente qualquer situação do cotidiano e transforma num texto de dar água na boca. Mas o problema é separar o joio do trigo: afinal, da mesma forma que o Twitter fabrica humoristas a torto e a direito, a Blogosfera também é formada por cronistas e mais cronistas – o problema é que muitos deles têm a capacidade de transformar qualquer assunto num texto desinteressante e, em muitos casos, mal escrito.

Mas, em meio ao trigo, um blog que brilha é o Eneaotil, assinado pela Subversiva. Não me lembro como eu o conheci, mas me recordo que a primeira vez que acessei, passei quase um dia inteiro lendo e fuçando nos arquivos. E me encantei com o texto dela, que tem aquela característica quase mágica de fazer com que você se sinta próximo a ela, ou ao filho dela, Luquinhas (presente em muitos dos posts), mesmo sem nunca tê-los visto na vida.

O texto da Subversiva tem uma característica que todo texto de cronista precisa: ele é leve. A forma com que ela escreve flui de uma maneira que não cansa nunca, e faz você gargalhar quando menos espera – e é isso que torna cada post em algo brilhante. Mas ele também é corajoso e não se furta a levantar perguntas que não têm resposta, sejam sobre o time de coração, sobre relacionamentos, sobre trabalho, sobre frustrações, sobre o filho... Em poucas palavras? Sobre a vida.

Assim, ao final de cada post, depois que você gargalhou, pensou sobre a vida e se emocionou, sobra apenas uma certeza: todo mundo é um pouco Subversiva, e todo mundo sempre foi um pouco Luquinhas. A nossa sorte é que a Subversiva sabe disso – e nos mostra isso, como ninguém, todos os dias.

Assim, deixo você com o Top 5 Melhores Textos do Eneaotil, escolhidos (e comentados) pela própria autora:

1. Deus não Fez a Gente Peixe - "Eu, aos 27 anos, tentando aprender a nadar. Nem precisa explicar mais nada, né?!"

2. Sogra - "O primeiro de uma série dos amores do Lucas. Daqui até o fim da vida, pretendo escrever um monte de capítulos."

3. Capítulo 7: O Fim² - "O capítulo 7 da novela particular do Luquinhas é triste, mas é bonito e tem a ver com um pouquinho de todos nós."

4. Sete - "Quando o Lucas fez 7 anos, escrevi para ele sobre o seu nascimento. É o texto que mais gostei de ter escrito até hoje."

5. Amor Eterno - "Tema recorrente no meu blog, os textos sobre o Corinthians sempre geram polêmica. Esse é leve, divertido e tem a ver com um dos meus amores eternos."

7 de junho de 2010

Uma Vida em Copas: França - 1998

(Texto anterior: EUA - 1994)


Quem me conhece há bastante tempo sabe que eu fiz o primeiro colegial três vezes. Caso você não sabia disso, deixe-me explicar os motivos (ao menos antes de você começar a achar que eu sou uma espécie de Forrest Gump, um sujeito com QI abaixo da média e algumas histórias para contar).

Até os 13 ou 14 anos, eu era um aluno exemplar, minhas notas ficavam entre as mais altas da sala. Claro que mesmo assim, alguns dos professores me odiavam, pois sabiam que eu era um dos pilares da bagunça na aula – eu era uma espécie de catalisador da zona. E, dos 17 em diante, voltei a ser um aluno exemplar, bagunçando o tempo, desafiando professores a torto e a direito, mas com notas excelentes.

O problema foi naquele pequeno espaço entre os 14 e os 17. Nessa época, eu me perdi totalmente: rock, bebida, cigarro, meninas, festas. Simplesmente não havia espaço para a escola no meu cérebro. Assim, eu fui massacrado, por dois anos seguidos, pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse (a saber: Matemática, Física, Química e Biologia). Nas matérias de humanas – Português, História – eu ia muito bem, obrigado, até perceber que estava totalmente enrascado nas outras matérias e largar mão de tudo. Assim, tomei pau dois anos seguidos.

Mas o curioso é que, a respeito da maioria das matérias, eu me recordo do que foi ensinado na sala de aula, independente de eu ter prestado atenção ou não. Física? As aulas eram sobre cinemática. Biologia? Tentaram me ensinar a maldita genética. Matemática? Funções. E por aí vai.

A exceção é química... Eu simplesmente não faço idéia do que foi falado na sala de aula. A última aula de Química que eu entendi na vida aconteceu na segunda ou terceira semana de aula do primeiro colegial, com aquele negócio de isóbaros, isótonos e isótopos. Depois disso, surgiu aquele diagrama da distribuição de Pauling, e eu, sem entender nada (lembro apenas que tinha algo que envolvia “s2”), entreguei os pontos.

Mas, diferente das outras matérias, eu não faço idéia do que foi dado na sala da aula durante o resto do ano. Eu estava na sala de aula, mas não tenho a menor noção do que foi falado. Veja bem, não é que eu não entendi a matéria; eu não faço ideia de qual foi a matéria.

O meu cérebro simplesmente bloqueou todas essas memórias.

Exatamente como a Copa de 1998.

Chega a ser curioso isso. Eu sou apaixonado por Copas do Mundo, me recordo de lances, por exemplo, da Copa de 1982, como se eles tivesse acontecido ontem (como o segundo gol do Brasil contra a União Soviética), mas a Copa de 1998 é um verdadeiro vácuo na minha mente.

Provavelmente, isso ocorreu por causa da dolorosa final, mas não tenho certeza disso. Ao menos, até agora, enquanto escrevo estas linhas. E, talvez, no final deste post eu entenda isso um pouco melhor – pois eu penso muito na Copa da França como torneio (como penso em todas as Copas), mas eu evito, a todo custo, pensar na relação que eu tenho com a Copa de 98. O pouco que me lembro dela é nublado na minha mente. Nublado e assustador, sem romantismo algum, como se fosse um pesadelo que tive há muito tempo e do qual me lembro apenas trechos.

A respeito dos jogos do Brasil, eu me lembro da final, e sei que jogamos a semifinal contra a Holanda, porque me lembro de termos vencido nos pênaltis – mas não me lembro do jogo. Fora isso, mais nada. Há um espaço em branco no meu cérebro, com a placa “local reservado para a Copa de 98” numa parede. E só.

Assim, eu não vou pesquisar sobre a Copa e escrever sobre coisas que não me lembro. Não seria honesto. Nem com vocês, nem comigo. Então, vamos de cabeça mesmo.

No início da Copa de 1998, eu estava prestes a me formar na faculdade e era uma pessoa totalmente diferente de quatro anos antes. Aliás, esta é a grande graça de se pensar nas Copas do Mundo em retrospecto – entre uma Copa e outra não existem quatro anos, existe uma vida inteira.

Eu, com 22 anos, tinha uma confiança enorme na Seleção Brasileira. Primeiro, porque o time era bom – apesar de ser treinado pelo Zagallo, que eu sempre detestei. Segundo, minha análise na numerologia das Copas (como apontei no texto anterior desta série) havia dado certo em 1994, e isso indicava que o Brasil seria novamente campeão em 1998 (explicando rapidamente, caso você não tenha lido: com a posse definitiva da Jules Rimet pelo Brasil, e a entrada em campo de uma nova taça, a Copa de 1994 foi equivalente a de 1958; assim, a de 1998 seria correspondente a Chile – 1962).


Em pé: Taffarel, Júnior Baiano, Rivaldo, Aldair, César Sampaio e Cafu.
Agachados: Ronaldo, Giovanni, Bebeto, Dunga e Roberto Carlos.

Este é o Brasil do qual não me lembro.


Após digitar esta última frase, fiquei parado alguns minutos, olhando para a tela, fumando e tentando me lembrar de qualquer coisa da Copa, além do que eu disse. Nada. É inútil. Não me vem nada à cabeça. Nenhum gol, nenhum lance, de nenhum jogo da primeira fase. Chega a ser irritante. Eu sei a campanha completa da Copa de 58, acontecida quase vinte anos antes de eu nascer, mas não consigo ver uma imagem da Copa de 98.

Para não dizer que não me lembro de nada, me lembro das oitavas de final entra Paraguai e França. Os donos da casa penaram para passar pela melhor defesa da Copa (me lembro bem do time do Paraguai, já que a maioria dos zagueiros jogava no Brasil), e quase ficaram para trás ali mesmo.

Deste jogo eu me lembro um pouco. Assisti no meu trabalho e fiquei extremamente desapontado com a vitória da França. Eu já tinha a França engasgada desde a Copa de 1986 (eu não consigo perdoar eliminações em Copas do Mundo de jeito nenhum) e torci desesperadamente pelo Paraguai, mas foi em vão. E, parando para pensar agora, me lembro de ter sentido algo estranho ao final do jogo: não foi nada muito exato como “a França vai ganhar essa porra” ou “pintou o campeão”, mas tive um pressentimento meio estranho ali, no meio do trabalho, enquanto os jogadores da França celebravam a vitória.

Enquanto isso, o Brasil ia passando pelos adversários. A equipe tinha remanescentes de 1994, com destaque para Taffarel e Bebeto (Romário havia sido cortado dias antes da Copa, por contusão), sendo liderada por Ronaldo, então um dos melhores – senão o melhor – jogador do mundo à época.

Talvez embalado pela vitória de 1994, eu acreditava que a Copa seria nossa, novamente, e com facilidade.

O problema é que, também embalado pela Copa de 1994, eu me esqueci da regra básica para se assistir a uma Copa do mundo, e que eu havia aprendido a duras penas, desde 1982: a primeira coisa a se fazer numa Copa do Mundo é se preparar para perder, pois a dor da derrota é grande demais.

Se você não se prepara para ela, a porrada é devastadora. E eu havia me esquecido completamente disso. Eu ainda estava na Copa dos Estados Unidos. Ou seja, eu havia evoluído e amadurecido em todos os aspectos da minha vida, menos no que diz respeito as Copa do Mundo – neste assunto, eu ainda vivia e respirava 1994. O Brasil foi atropelado em 1998 e caiu, mas eu, por outro lado, caí de uma altura maior ainda. Eu literalmente despenquei de uma altura de quatro anos.

Mas, antes do tombo, veio a Holanda. Como eu disse, não me recordo de nada do jogo (acredito que tenha sido 1 x 1 e não quero pesquisar. Se eu estiver errado, favor indicar nos comentários, por favor), mas, sabe-se lá porque, meu cérebro registrou totalmente a decisão por pênaltis.

Repetindo alguns dos rituais de 1994, estávamos vendo o jogo na minha casa (eu, meus pais e um amigo). E não faço idéia do motivo, mas me recusei a assistir os pênaltis na sala. Fui para o quintal e fiquei do lado de fora da casa, assistindo pela janela. Ou semi-assistindo, pois eu observava apenas os pênaltis cobrados pela Holanda, me afastando da janela nas cobranças brasileiras, rezando e esperando ansiosamente pela reação das pessoas.

Eu devo ter ficado muito nervoso – como qualquer pessoa ficaria, afinal, era uma semifinal de Copa – pois, quando a classificação para a final se confirmou, me recordo de sair pulando e gritando pela garagem de casa, em direção à rua. Mas mesmo estas memórias, felizes, são meio nubladas, como se tivessem acontecido muito anos antes do que realmente ocorreram.

E veio a final.

Como um amigo meu disse, depois, “o jogo era contra a França, em Paris, dois dias antes do aniversário da Queda da Bastilha”. Não havia como ganhar. Mas eu não me importava com isso. Era uma final de Copa, e nós iríamos ganhar. Nós éramos os campeões, e nós seríamos os campeões novamente.

Mas, com a final, vieram os rumores. Ronaldo passou mal. Ronaldo não joga. Ronaldo teve convulsões. Edmundo joga. Ronaldo está no hospital. Ronaldo joga. Edmundo joga. Edmundo fica no banco. Ronaldo está escalado. Edmundo está escalado. Ninguém sabia ao certo o que iria acontecer, ou quem iria jogar, até que o Brasil entrou em campo. Com Ronaldo.

Mas, na verdade, o Brasil não entrou em campo. Ele apenas saiu do vestiário e pisou no gramado. E quem gosta de futebol sabe que isso não é entrar em campo. O Brasil não jogou.

A França, claro, não tomou conhecimento disso. Num escanteio, Zidane de cabeça. 1 x 0. Minutos depois, outro escanteio. Zidane de cabeça. 2 x 0. Quase um replay do primeiro gol. Enquanto o primeiro gol assustou o segundo gol estilhaçou o sonho do Penta. Ao final do primeiro tempo, eu, sem entender o que estava acontecendo, estava transtornado.


Zidane decola e faz o primeiro gol.
Ou o segundo. Não faz mais diferença.


Lembro de pouca coisa (ou quase nada, na verdade) do segundo tempo. Acredito que a França tocou a bola, administrando a vantagem, enquanto o Brasil tentava inutilmente renascer no jogo – mas com Ronaldo andando em campo e os demais jogadores de olho no centroavante, nada iria dar certo. E, próximo ao final, o golpe de misericórdia: França 3 x 0 Brasil. Nem lembro quem fez. Nem lembro se eu ainda estava de olho na TV.

E ninguém nunca soube ao certo o que aconteceu. Boatos, claro, existem aos montes. Algumas pessoas afirmavam que o Brasil havia vendido a Copa do Mundo, enquanto outros colocavam a culpa da convulsão de Ronaldo no fato de ele ter descoberto que Susana Werner, ali mesmo, na França, o teria traído com Pedro Bial (que estava cobrindo o torneio para a Rede Globo).

Muita gente disse muita coisa, mas nada nunca foi muito concreto. A única certeza que tenho é que Ronaldo – por qualquer que seja o motivo – realmente teve uma convulsão. Isso ficou claro num choque (normal) com o goleiro francês Barthes, no qual ele ficou estendido em campo e quase todos os jogadores brasileiros correram em sua direção, sem sequer tentar disfarçar o pânico.

Ronaldo se choca com Barthes e cai.
Ninguém nunca entendeu ao certo o que houve.


Como eu disse, boatos existem aos montes. Hoje, eu não me importo com nenhum deles, mas à época, fiquei obcecado pelo assunto. Não era a derrota que me incomodava mais, mas sim a ausência de uma explicação sólida. Passei dias e dias com os olhos mergulhados em matérias esportivas, buscando pistas que me indicassem o que havia acontecido realmente, e que me explicassem porque havíamos perdido aquela Copa.

Eu já havia passado por inúmeras dores e frustrações em Copas do Mundo, mas eu nunca havia entendido o que a expressão “Copa de 1950” – que assombra meu pai até hoje – significava de verdade. E foi neste dia que eu finalmente entendi a dimensão disso.

Em 12 de julho de 1998, o menino que havia chorado de tristeza em 1982, 1986, 1990 (e de alegria em 1994) experimentava, pela primeira vez, a maior dor de todas, e sem chorar. Porque, de todas as tristezas que você pode sentir, as piores são aquelas que não vertem lágrimas. Essas nunca são aliviadas.

Essas são aquelas que você leva para sempre.

E agora eu sei o motivo do meu cérebro ter bloqueado minhas lembranças desta Copa. O problema nunca foi a tristeza que eu senti com a derrota, mas sim o fato de que eu nunca soube lidar com a Copa de 98.

Talvez as derrotas anteriores pudessem ter me preparado para isso. Por outro lado, acredito que nada no mundo poderia ter me preparado para isso. A dor que eu sentia não era mais algo desesperador como nas derrotas anteriores, era uma dor conformada. Amarga, até. Se a Copa de 1982 havia doído muito porque eu era um menino, a Copa de 1998 doeu mais ainda, por jogar na minha cara justamente que eu não sou mais um menino, por mais que eu me sinta como um, a cada quatro anos.


O melhor jogador do mundo levanta a taça,
após derrotar um time vazio na final.


Aos poucos, fui me conformando e parei de procurar explicações. Voltei a tocar minha vida. Mas, enquanto as derrotas anteriores haviam arrasado comigo, a de 1998 me anestesiou completamente. Eu me tornei totalmente apático em termos de futebol.

Não foi uma decisão concreta, tomada num momento específico da minha vida. Ela ocorreu de forma gradual. Quando percebi, já era tarde demais. Eu não queria mais nada com futebol. Não queria contato algum com o futebol. Não assistia mais a jogo nenhum, não lia mais jornais.

Porque eu não sabia como lidar com uma dor daquele tamanho.

Sem saber o que fazer com aquela dor, abri mão do futebol para me proteger. Querendo ou não, acabei me afastando totalmente da minha grande paixão, que havia me acompanhado desde os três ou quatro anos de idade, quando eu deitava no tapete da sala nas tardes de sábado para ver jogos ao lado do meu pai.

O segundo gol de Zidane não apenas acabou com o sonho do Penta, mas sim com meu amor pelo futebol. As derrotas anteriores haviam me deixado triste, mas esta, em 1998, foi além: no que diz respeito ao futebol, ela me transformou numa pessoa triste. O menino dentro de mim havia chutado a bola para longe e ido para o quarto, dormir.

Assim, fiquei anos tendo nenhum (ou quase nenhum) contato com o futebol. Porque, mesmo sem nunca ter pronunciado isso em voz alta, sem nunca ter determinado isso de forma consciente, eu sabia que apenas uma coisa poderia resgatar minha paixão: vencer outra Copa do Mundo.

Somente isso me traria de volta.

(Próximo texto: Coréia & Japão - 2002)