30 de junho de 2010

Barrados no Shopping - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Como bom adolescente, eu já havia me aventurado em territórios inimigos antes. O mais notável deles, claro, era a diretoria da escola, visto que, nesta época, eu era freqüentador assíduo do local. Mas a sala do diretor ainda é um ambiente relativamente seguro, visto que ela fica dentro da escola na qual seus pais o matricularam. O máximo que pode acontecer é você ser expulso da escola, e ter que estudar em outro local, com outra sala e outro diretor.

Já a sala de segurança do shopping é outra história. Lá não existem regras que protejam você: os seguranças são quem mandam ali, e você está entregue ao humor deles – que nunca costuma ser dos melhores. Aliás, esse deve ser um requisito básico para a contratação de seguranças de shopping: os candidatos são levados até uma sala onde está sendo exibido um filme do Gordo e o Magro. Conforme a pessoa solta uma gargalhada, ela está eliminada. Quem não sorrir, fica.

Assim, durante o trajeto, comecei a imaginar que a salinha seria uma espécie de masmorra. Dentro do meu cérebro, a sala da segurança tinha paredes negras, ossadas de adolescentes espalhadas pelo chão e, claro, aparelhos de tortura, normalmente usados para os suspeitos de terem roubado um Sonho de Valsa nas Lojas Americanas confessarem logo o crime e terem uma morte rápida.

Felizmente, me enganei. Era uma sala comum, que não impunha respeito ou medo em ninguém. As paredes eram amareladas, com a tinta descascando, e a única mobília era um sofá velho. Além disso, ela tinha cheiro de guarita (vocês já repararam como toda guarita de prédio tem o mesmo cheiro horroroso?).

Pensei em me virar para o Pico do Jaraguá humano que ainda me acompanhava e perguntar se “isso aqui é a tão temida sala da segurança? É só isso?”, mas me contive. Assim, me apoiei numa parede – o sofá estava ocupado pelos meus amigos, que haviam chegado antes de mim. Decidi primeiro me acostumar ao ambiente antes de fazer qualquer coisa.

Mesmo porque, aparentemente, meus amigos já estavam em campo. E no ataque. O Pico do Jaraguá foi embora, nos deixando somente com dois outros seguranças (os moleques da outra gangue foram liberados logo que cheguei, provavelmente ganhando um vale-casquinha do McDonald’s na saída).

Um dos seguranças, provavelmente interessado em moda, estava implicando com a camiseta do meu amigo. Isto porque hoje este meu amigo é casado e pai de família, mas, à época, usava uma calça rasgada (com metade do tecido da canela pendurado e balançando, como se fosse uma espécie de lepra vestuária) e uma camiseta do Ratos de Porão. O segurança perguntou a ele se “ele era rato para usar aquela camiseta” e ele retrucou que “se você não gostou da minha camiseta, vamos dar uma volta no shopping e comprar outra”.

E ficou encarando o segurança.

E o segurança ficou encarando meu amigo.

E eu tomei cuidado para não encarar ninguém, certo de que tudo aquilo ia dar merda em minutos.

E quase deu. Mas por minha causa. Afinal, o fato de eu não encarar ninguém não me impediria de começar a aprontar lá dentro. Como eu fiquei em pé, encostado a uma parede, dobrei uma das pernas e coloquei o pé na parede. Nunca achei essa posição confortável, mas ela é, de longe, a postura mais folgada que conheço.

Outro segurança (este, aparentemente especialista em linguagem corporal), concordava comigo nesse quesito. No momento em que viu meu pé na parede falou, com voz firme:

– Baixinho! Tira o pé da parede!

Ignorei. Aliás, não apenas ignorei, como fiz cara de paisagem e fiquei encarando a parede à minha frente.

– Tira o pé da parede, baixinho!

Fiz minha melhor cara de paisagem e continuei encarando a parede à minha frente, olhando as manchas amareladas.

O segurança se emputeceu e veio até o meu lado.

– Baixinho! Eu mandei tirar o pé da parede!

Eu mudei minha cara de paisagem para a minha cara de insolente.

– Ah, era comigo? Meu nome não é Baixinho. Meu nome é Rob.

– ...

Ele não deveria ter titubeado. 1 x 0. A partir daí, era só administrar. Ficar dando toques laterais no meio de campo e gastar o tempo. Mas, ele tentou recuperar a iniciativa – ainda mais perdendo em casa.

– Rob, tira o pé da parede.

Guardei minha cara de insolente no bolso e coloquei a máscara de inocente.

– Claro, por que não pediu antes?

2 x 0. A sala veio abaixo. Ele me olhou com ódio, e por um momento, achei que fosse arrancar meu tênis e fazer com que eu o comesse.

Felizmente, o outro segurança – aparentemente, o chefe – começou a falar.

A discursar, na verdade. E começou a dizer que nós estávamos sempre aprontando no shopping, que nós já éramos manjados ali dentro, que nós estávamos sempre aprontando no shopping, que o shopping era um lugar de respeito, que nós estávamos sempre aprontando no shopping, que o shopping não era lugar de brincadeira, que nós estávamos sempre aprontando... Bom, vocês entenderam.

Em resumo: tínhamos que dar o nome e o endereço. Ele anotava tudo num caderno, sabe-se lá para quê. Provavelmente era uma lista de pessoas que seriam executadas de madrugada por um grupo de justiceiros formados por seguranças de shopping da cidade inteira, mas eu não me arrisquei a perguntar isso – como eu sou eu, era capaz de descobrir que sim, “é uma lista de pessoas a serem executadas, e as execuções acontecem por ordem de tamanho”.

Assim, cada um dos envolvidos ia até a mesa na qual ele estava sentado e dava o nome e o endereço. Parecíamos foragidos de um país comunista tentando conseguir asilo político no shopping. Chegou a minha vez.

– Qual seu nome?

– Não é Baixinho, respondi olhando para o outro segurança, sorrindo.

Ele me devolveu o olhar, sem disfarçar a vontade de me assassinar e enterrar meu corpo no estacionamento. 3 x 0. O chefe dos seguranças, aparentemente vendo que a minha briga com o amigo era particular, ignorou meu último comentário.

– Qual seu nome?

– Rob.

– De quê?

– Gordon.

– Endereço?

– Rua das Flores, 1313.

Por um momento, temi que ele percebesse o que eu tinha falado. Mas não foi preciso. Sinceramente? Nem mesmo o Walt Disney saberia o endereço do Pato Donald de cor.

– Onde fica isso?

– Jardim dos Patos, disse, segurando a risada.

– Não conheço isso. Onde fica?

Não responde Patópolis. Não responde Patópolis.

– Em Santo Amaro.

Dica: se você morar em São Paulo e não quiser falar seu endereço, invente um bairro que começa com Vila ou Jardim e explique que fica em Santo Amaro. Sempre cola.

– Todos os seus amigos moram em Moema, e você em Santo Amaro?

Pensei em responder a ele que “sim, como eu fui proibido de entrar em todos os shoppings próximos à minha casa, precisei fazer amigos em outros bairros” apenas para ver o que iria acontecer, mas desisti. Eu poderia perder o controle sobre a situação.

– Sim, minha tia mora aqui em Moema.

– E onde ela mora?

– Você precisa do meu endereço, não o da minha tia. E o meu endereço é Rua das Flores, 1313.

Ele se deu por satisfeito. Deu mais cinco minutos de sermão e nos expulsou do shopping. Dois seguranças nos escoltaram pelas entranhas do Shopping Ibirapuera (tubulações, canos de gás) e nos jogaram na rua. Desta vez, estávamos oficialmente exilados.

Mas claro que demos a volta no quarteirão, entramos pela outra porta e fomos à praça de alimentação beber vinho, para desespero dos seguranças. Porque nós não voltávamos disfarçados, escondidos e com medo de sermos pegos. Nós apenas voltávamos, com a maior cara de pau do mundo.

Porque eles achavam que nós os temíamos, estavam enganados. Especialmente depois disso, sabíamos que o maior risco que corríamos ali dentro era sermos expulsos de novo – somente para voltar de novo, por outra porta.

É isso que eles nunca entenderam.

Mas não posso negar que, durante anos, sempre que eu me aproximava do shopping, sentia receio de ser alvejado por um dos seguranças que, segurando um rifle com mira telescópica no alto de um prédio, havia decidido impedir que aquele baixinho cabeludo escroto entrasse no estabelecimento.

Felizmente, isso nunca aconteceu. Quer dizer, ao menos eu acho.

Afinal, ele pode ter errado o tiro.

10 comentários:

Otavio Oliveira disse...

ohaohhooha serio, se vc estudasse na minha escola eu ia te odiar mto. é o tipo de cara q eu odiava mas tinha uma puta inveja.

isso, claro, se eu tb tivesse passado a adolescencia em patopolis.

Flores do Aslfato disse...

Vc sabe de cor o endereço do Pato Donald?

hahahahah

Matheus Silva disse...

um adolescente cabeludo que só usava preto e sabia o endereço do pato donald?

realmente tu nao era uma pessoa comum

Leels disse...

Rob, vc não existe! Eu jamais teria o seu sangue frio.

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

As histórias do Rob Adolescente são quase melhores que as do Rob adulto!!!

Ligeirinho disse...

uhauahahua muito bom BAixinho!!!


detalhe.. eu posso.. de um baixinho pra outro nao eh ofensa.. rsrs


demorou pra terminar a historia mas valeu rs

Bruno disse...

Felizmente isso não aconteceu... ainda.
A vigança é um prato que se come frio.

Alexandre Greghi disse...

RUA DAS FLORES,1313.... rolei de rir qdo li isso!

Judy disse...

Pô, Rob! Depois tu ainda pergunta porque virou piloto de testes do diabo!

Você era o instrumento dos testes do diabo sobre os seguranças. Só perdeu o cargo quando passou da idade.

Renee Finkelstein disse...

Que historia!
Vai fazer algum livro ou algo especial com todo o que você escreve? Uma amiga que trabalha num delivery em moema está pensando em fazer algo similar, porque escreve muitas historias engraçadas da vida real.