“Meus pensamentos foram interrompidos
devido a uma gordinha do Greenpeace,
que, quando me viu fumando ali,
olhou nos meus olhos como se eu estivesse
andando pela Floresta Amazônica com uma
serra elétrica e com um colar enfeitado
com a cabeça de um mico-leão.”
(julho de 2006)
Claro que não foi sempre que pensei isso. Quando eu tinha uns doze anos, minha maior ambição era fazer gols driblando (ou encobrindo) o goleiro. Já com uns dezesseis anos, meus pensamentos começaram a se voltar para a idéia de formar uma família, mas ainda era num estágio embrionário (leia-se: se eu conseguir beijar alguém hoje à noite, ganharei a semana). Aí, entrei na faculdade e meus pensamentos sobre família se intensificaram, mas pelo caminho errado, com aquele punhado de decotes e minissaias andando para lá e para cá. Ou seja, meus pensamentos sobre família, durante a faculdade, não eram exatamente familiares.
“– Uma Coca.
– Light?
– Não.
– Light Lemon?
– Não. Uma Coca. Sabe, a vermelha?
– Geli-limão?”
(agosto de 2006)
Mas de repente há um momento que você acorda e percebe que está com trinta anos – mesma idade em que seu pai já tinha dois filhos. OK, a situação econômica do país era outra, mas isso não serve como desculpa. Mas você começa a pensar e percebe que não teve um filho, não escreveu um livro e não plantou a maldita árvore. E como eu não curto botânica e já tenho um blog (alguém se habilita a publicá-lo?), o próximo passo, creio eu, será um filho. Não sei se da mesma forma que eu e a Sra. Gordon pensamos, com shows de rock no domingo de manhã com vassouras na sala, futebol jogado com travesseiros, campeonatos de videogame no sábado, mas acredito que seja o próximo passo.
“Com isso, minhas opções se resumem a duas:
ir até a varanda e começar a atirar na rua garrafas
com bilhetes como “Sou um jornalista preso
no oitavo andar. Por favor, mandem comida!”
ou me arrastar até o Pão de Açúcar
que tem ao lado de casa.”
(janeiro de 2007)
Mas, como eu disse, deve ser difícil para burro e eu tenho consciência disso. E nem só pelo aspecto financeiro, mas pela dificuldade de pegar uma pessoa que não sabe assinar o próprio nome e fazê-la compreender (sem enfiar a mão na cara dele) que cuspir nas outras pessoas no supermercado é errado. Sim, porque criança e juiz de futebol fazem muita merda. A diferença é que o juiz é vaiado por milhares de pessoas; já quanto à criança... Bem, cabe a você limpar a merda dela.
“De repente, o saco de pancadas se levanta,
e finalmente revela-se ao mundo em todo seu esplendor:
um punk gordinho, de 20 e poucos anos, trajando
seus tradicionais jeans, jaqueta de couro e
um cabelo moicano (roxo) que devia ter
a altura de um prédio de três andares.”
(abril de 2007)
Não sei, algo me diz que vou passar o resto da minha vida – desde que essa criança nascer – andando com o moleque na tênue linha entre o que é divertido e o que é errado. E, por mais que a Sra. Gordon reclame disso, tenho certeza de que ela vai estar na mesma linha. Mas, como eu disse, se eu conseguir dar metade da educação (e um décimo da felicidade) que meus pais me deram, sairei daqui com a missão cumprida.
“Além disso, a coisa já tinha
virado questão de honra.
Eu não queria
mais carolinas, eu queria
AQUELAS carolinas.”
(junho de 2007)
Ou seja, tenho certeza de que aprenderei alguma coisa, cada vez que eu tiver que ensinar algo ao meu filho – desde a ordem de todos os filmes do 007 ou todos os campeões e países-sede da Copa do Mundo (sim, eu falo essas duas coisas sem apelar para o Google), até escolher entre uma carreira ou como se desculpar com a namorada pela cagada que fez (porque aos olhos dele eu serei bom nessas coisas).
“A mulher queria se matar se jogando
do sétimo andar, e, quando salvam a
vida dela, ela geme de dor caindo
de uma altura de uns
estar de brincadeira.”
(agosto de 2007)
Enfim, estou falando tudo isso porque meu filho, hoje, completa dois anos. Ou, ao menos, o mais próximo de filho que tenho (Besta-fera não conta, ele é melhor amigo): este blog. Sim, porque na equação posteridade = árvore + filho + livro, este blog é que chega mais perto de ser árvore, filho e livro. Ao menos, por enquanto. Afinal, eu cuido dele, dou textos novos, penso em mudanças, acompanho o crescimento diário dele, tento, todos os dias, fazer dele algo melhor que ele era ontem.
“– Senhor, eu estou olhando a senha aqui
na minha frente. O senhor precisa me
confirmar essa informação.
– Como você está olhando se ela não foi criada?
– Ela está aqui na minha frente.
– Ok. Foda-se. Você precisa de uma senha?
Ótimo. Minha senha é 1 2 3 4.
– Um minuto, senhor. Vou checar.
– Não, animal, não precisa checar nada.
Eu acabei de inventar essa senha.”
(novembro de 2007)
Exagero? Pode ser. Este blog nasceu como um hobby (há outro motivo, mas ele interessa somente a Sra. Gordon – e ela sabe qual é), mas acabou ganhando um grande espaço na minha vida. Como eu disse, pode ser exagero. Mas me mostre um blogueiro (blogueiro não é aquela pessoa que cria um blog, posta meia dúzia de vídeos nas férias e o abandona) que diz não amar seu blog, e eu te mostro um mentiroso. Ou seja, dadas as devidas proporções, este blog é meu filho.
“Era a mesma expressão vidrada e maníaca
que eu via nos olhos da minha mãe quando
saíamos para comprar roupas. É o olhar de
um daqueles sociopatas que se divertem
fazendo com que as pessoas experimentem
dezenas de peças de roupas em 5 minutos”.
(abril de 2008)
E se ter filhos for assim, será extremamente divertido. Afinal, foram dois anos maravilhosos. Cagadas? Claro que teve, sempre tem. Minhas (textos fracos – e, por mais que vocês neguem, eu sei que tem textos fracos aqui) e dele (quando ele resolve aprontar com os malditos códigos). Mas, no custo X benefício, foi muito bom. Faria tudo igual, do mesmo jeito. E quando recebo um comentário dizendo “acordei meus pais com minhas risadas lendo seu texto” ou “não consigo mais ler seu blog no trabalho, serei demitido”, sei que ele é, antes de tudo, um blog feliz.
“– Quem está falando?
– BRICK TOP. SUA SÍNDICA.
Deus do céu.
– Como vai a senhora, tudo bem?
– NÃO. SE ESTOU LIGANDO PARA
VOCÊ, É PORQUE NADA ESTÁ BEM.”
(julho de 2008)
E é feliz por causa de vocês. Sim, vocês. Todos os amigos que ele tem e que, assim como ele, me ensinam algo novo a cada dia, a cada visita, a cada comentário. Sendo assim, vou para o meu quarto assistir TV com a Sra. Gordon e deixar vocês, crianças, por aqui. Hoje, a festa é dele e de vocês.
Obrigado a todos pelos últimos dois anos.
Antes da festa, porém, deixo vocês (como fiz ano passado) com uma relação de estatísticas do Champ em sua história (sem contar este post):
1. 290 posts
2. 1.380.370 toques (com espaços, claro)
3. 242.197 palavras
4. 4166 comentários
5. 99 mode: on
6. 140 Top 5
7. 03 prêmios (melhor blog desta, desta e desta comunidades do Orkut)
8. 57 indicações (somando todas elas aí ao lado, incluindo as recebidas nos últimos meses, que ainda não estavam contabilizadas)