31 de julho de 2008

Bodas de Papel

Às vezes eu fico pensando e acho que deve ser o máximo ter filhos. Claro que deve ser difícil para burro, mas deve ser gostoso também. Mesmo porque eu gostaria de ser meu filho. Afinal, imagine ser filho de um pai que gosta de Iron Maiden, Nintendo Wii, Homem-Aranha e Star Wars e detesta física e química? Ah, sim, não podemos esquecer que eu serei um pai que sabe bater na bola de trivela – cortesia do meu pai, que me ensinou isso em tardes de sábado e cujo conhecimento terá que ser transmitido para o meu filho.

“Meus pensamentos foram interrompidos
devido a uma gordinha do Greenpeace,
que, quando me viu fumando ali,
olhou nos meus olhos como se eu estivesse
andando pela Floresta Amazônica com uma
serra elétrica e com um colar enfeitado
com a cabeça de um mico-leão.”
(julho de 2006)


Claro que não foi sempre que pensei isso. Quando eu tinha uns doze anos, minha maior ambição era fazer gols driblando (ou encobrindo) o goleiro. Já com uns dezesseis anos, meus pensamentos começaram a se voltar para a idéia de formar uma família, mas ainda era num estágio embrionário (leia-se: se eu conseguir beijar alguém hoje à noite, ganharei a semana). Aí, entrei na faculdade e meus pensamentos sobre família se intensificaram, mas pelo caminho errado, com aquele punhado de decotes e minissaias andando para lá e para cá. Ou seja, meus pensamentos sobre família, durante a faculdade, não eram exatamente familiares.


“– Uma Coca.
– Light?

– Não.

– Light Lemon?

– Não. Uma Coca. Sabe, a vermelha?

– Geli-limão?”

(agosto de 2006)


Mas de repente há um momento que você acorda e percebe que está com trinta anos – mesma idade em que seu pai já tinha dois filhos. OK, a situação econômica do país era outra, mas isso não serve como desculpa. Mas você começa a pensar e percebe que não teve um filho, não escreveu um livro e não plantou a maldita árvore. E como eu não curto botânica e já tenho um blog (alguém se habilita a publicá-lo?), o próximo passo, creio eu, será um filho. Não sei se da mesma forma que eu e a Sra. Gordon pensamos, com shows de rock no domingo de manhã com vassouras na sala, futebol jogado com travesseiros, campeonatos de videogame no sábado, mas acredito que seja o próximo passo.


“Com isso, minhas opções se resumem a duas:
ir até a varanda e começar a atirar na rua garrafas
com bilhetes como “Sou um jornalista preso
no oitavo andar. Por favor, mandem comida!”
ou me arrastar até o Pão de Açúcar
que tem ao lado de casa.”
(janeiro de 2007)


Mas, como eu disse, deve ser difícil para burro e eu tenho consciência disso. E nem só pelo aspecto financeiro, mas pela dificuldade de pegar uma pessoa que não sabe assinar o próprio nome e fazê-la compreender (sem enfiar a mão na cara dele) que cuspir nas outras pessoas no supermercado é errado. Sim, porque criança e juiz de futebol fazem muita merda. A diferença é que o juiz é vaiado por milhares de pessoas; já quanto à criança... Bem, cabe a você limpar a merda dela.


“De repente, o saco de pancadas se levanta,
e finalmente revela-se ao mundo em todo seu esplendor:
um punk gordinho, de 20 e poucos anos, trajando
seus tradicionais jeans, jaqueta de couro e
um cabelo moicano (roxo) que devia ter
a altura de um prédio de três andares.”
(abril de 2007)


Não sei, algo me diz que vou passar o resto da minha vida – desde que essa criança nascer – andando com o moleque na tênue linha entre o que é divertido e o que é errado. E, por mais que a Sra. Gordon reclame disso, tenho certeza de que ela vai estar na mesma linha. Mas, como eu disse, se eu conseguir dar metade da educação (e um décimo da felicidade) que meus pais me deram, sairei daqui com a missão cumprida.


“Além disso, a coisa já tinha
virado questão de honra.
Eu não queria
mais carolinas, eu queria
AQUELAS carolinas.”

(junho de 2007)


Ou seja, tenho certeza de que aprenderei alguma coisa, cada vez que eu tiver que ensinar algo ao meu filho – desde a ordem de todos os filmes do 007 ou todos os campeões e países-sede da Copa do Mundo (sim, eu falo essas duas coisas sem apelar para o Google), até escolher entre uma carreira ou como se desculpar com a namorada pela cagada que fez (porque aos olhos dele eu serei bom nessas coisas).


“A mulher queria se matar se jogando
do sétimo andar, e, quando salvam a
vida dela, ela geme de dor caindo
de uma altura de uns 60 cm? Porra, só pode
estar de brincadeira.”
(agosto de 2007)


Enfim, estou falando tudo isso porque meu filho, hoje, completa dois anos. Ou, ao menos, o mais próximo de filho que tenho (Besta-fera não conta, ele é melhor amigo): este blog. Sim, porque na equação posteridade = árvore + filho + livro, este blog é que chega mais perto de ser árvore, filho e livro. Ao menos, por enquanto. Afinal, eu cuido dele, dou textos novos, penso em mudanças, acompanho o crescimento diário dele, tento, todos os dias, fazer dele algo melhor que ele era ontem.


“– Senhor, eu estou olhando a senha aqui
na minha frente. O senhor precisa me
confirmar essa informação.
– Como você está olhando se ela não foi criada?

– Ela está aqui na minha frente.

– Ok. Foda-se. Você precisa de uma senha?
Ótimo. Minha senha é 1 2 3 4.
– Um minuto, senhor. Vou checar.

– Não, animal, não precisa checar nada.
Eu acabei de inventar essa senha.”
(novembro de 2007)


Exagero? Pode ser. Este blog nasceu como um hobby (há outro motivo, mas ele interessa somente a Sra. Gordon – e ela sabe qual é), mas acabou ganhando um grande espaço na minha vida. Como eu disse, pode ser exagero. Mas me mostre um blogueiro (blogueiro não é aquela pessoa que cria um blog, posta meia dúzia de vídeos nas férias e o abandona) que diz não amar seu blog, e eu te mostro um mentiroso. Ou seja, dadas as devidas proporções, este blog é meu filho.


“Era a mesma expressão vidrada e maníaca
que eu via nos olhos da minha mãe quando
saíamos para comprar roupas. É o olhar de
um daqueles sociopatas que se divertem
fazendo com que as pessoas experimentem
dezenas de peças de roupas em 5 minutos”.
(abril de 2008)


E se ter filhos for assim, será extremamente divertido. Afinal, foram dois anos maravilhosos. Cagadas? Claro que teve, sempre tem. Minhas (textos fracos – e, por mais que vocês neguem, eu sei que tem textos fracos aqui) e dele (quando ele resolve aprontar com os malditos códigos). Mas, no custo X benefício, foi muito bom. Faria tudo igual, do mesmo jeito. E quando recebo um comentário dizendo “acordei meus pais com minhas risadas lendo seu texto” ou “não consigo mais ler seu blog no trabalho, serei demitido”, sei que ele é, antes de tudo, um blog feliz.


“– Quem está falando?
– BRICK TOP. SUA SÍNDICA.

Deus do céu.

– Como vai a senhora, tudo bem?

– NÃO. SE ESTOU LIGANDO PARA
VOCÊ, É PORQUE NADA ESTÁ BEM.”
(julho de 2008)


E é feliz por causa de vocês. Sim, vocês. Todos os amigos que ele tem e que, assim como ele, me ensinam algo novo a cada dia, a cada visita, a cada comentário. Sendo assim, vou para o meu quarto assistir TV com a Sra. Gordon e deixar vocês, crianças, por aqui. Hoje, a festa é dele e de vocês.

Obrigado a todos pelos últimos dois anos.

Antes da festa, porém, deixo vocês (como fiz ano passado) com uma relação de estatísticas do Champ em sua história (sem contar este post):

1. 290 posts

2. 1.380.370 toques (com espaços, claro)

3. 242.197 palavras

4. 4166 comentários

5. 99 mode: on

6. 140 Top 5

7. 03 prêmios (melhor blog desta, desta e desta comunidades do Orkut)

8. 57 indicações (somando todas elas aí ao lado, incluindo as recebidas nos últimos meses, que ainda não estavam contabilizadas)

28 de julho de 2008

Why so serious?

Após meses encostado, resolvi que vou pegar firme no Champ Review. Claro que isso pode ser uma febre passageira - afinal, é difícil manter como hobby um blog tão próximo ao que faço como trabalho -, mas mesmo febres passageiras valem a pena.

Enfim, voltando em grande estilo, temos resenha nova . Espero que gostem.

25 de julho de 2008

No Youtube do Senhor, não Existe Satanás!

Na introdução do post anterior, eu havia falado um pouco sobre a importância na internet na evolução humana. Hoje, tive a prova de que eu estava certo. Estou desde manhã atolado de trabalho e passei o dia com uns 20% do meu cérebro pensando em algo para escrever no blog – afinal, foi só um post essa semana – mas nada me ocorria. Tentei rabiscar algumas coisas sobre uns assuntos que tenho em mente, mas os textos não decolavam de jeito nenhum.

Até que comecei a navegar pelos principais portais e dei de cara com um assunto que eu já queria ter falado aqui há certo tempo: o tal do Inri Cristo. Ou, mais precisamente, suas discípulas. Eu já havia visto um video delas há pouco mais de um mês atrás, e fiquei tão chocado quanto na primeira vez em que vi a Marli cantando aquela preciosidade chamada de Bertulina, que mereceu este post aqui.

Antes de continuarmos, porém, cabe falar um pouco aqui sobre o Inri Cristo.Se você nunca ouviu falar nele, saiba que a maneira mais simples de defini-lo é a seguinte: Inri Cristo é o Messias. Desde que Jesus Cristo morreu, a Igreja afirma que um dia Ele retornaria para salvar os homens, e, agora Ele voltou, 2000 anos depois, com o nome de Inri Cristo. Inri Cristo é a reencarnação de Jesus Cristo e está aqui para salvar eu, você, a Besta-fera, minha síndica, enfim, todos nós do pecado. Ou seja: seja feita a sua vontade, ele está (mesmo) no meio de nós.

Essa, claro, é a versão do próprio Inri Cristo. Ao que parece, ele rompeu com a Igreja Católica e fundou sua própria religião, chamada SOUST (Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade). Agora, ele fica andando de toga para lá e para cá afirmando que é a reencarnação do filho de Deus.

O interessante é que a única prova de que ele é um Jesus 2.0 é justamente o fato de ele falar isso. Ou seja, por essa lógica eu também posso fazer um site e dizer que sou a reencarnação de alguém. Aliás, como eu já tenho o Champ Vinyl, vou começar a usá-lo para difundir a idéia de que eu sou a reencarnação do Darth Vader e que estou aqui na Terra para trazer equilíbrio à Força. Eu estava desaparecido desde 1983, quando filmaram O Retorno de Jedi, mas agora voltei.

Já entrei no site dele algumas vezes, que conta com seções como biografia do cara, o novo Pai Nosso que ele criou, uma seção de profecias – que, de acordo com o site, foram previstas por ele ainda “na fase Jesus” – e até mesmo uma seção de perguntas e respostas. Na primeira vez, fui direto nessa parte, mas deu para ver que, enquanto Jesus ilustrava Seus ensinamentos com parábolas, Inri Cristo prefere seguir o método Brizola de pregação. Ou seja: fala, fala, fala e não diz nada. Além disso, já deu entrevista no Jô e foi ao Hopi-Hari com o pessoal do Pânico. Multiplicar os pães e fazer aleijados andarem não é exatamente a proposta dele.

Mas o verdadeiro tesouro que a humanidade ganha com isso tudo não é o fato de termos um novo messias andando entre nós. Sim, porque na eterna busca deste blog em provar que a humanidade não deu certo, a figura de Inri Cristo não é nada se comparada aos vídeos musicais feitas por duas de suas discípulas, Asusana (isso não é erro de digitação) e Alibera (isso também não é erro de digitação), que levam os ensinamentos de Inri em canções. Fui pesquisar no site e descobri que são doze apóstolas, todas elas com nomes começados com “a” e usando a mesma roupinha, um misto de uniformes de aeromoça dos anos 50 e de enfermeira.

Sim, enquanto Jesus pregou no Sermão da Montanha para umas 300 pessoas, Inri Cristo é mais esperto. Ele espalha seus ensinamentos colocando suas apóstolas, ou melhor, as Inriquetes para cantar. Elas pegam uma música que gostam, alteram toda a letra para a realidadezinha do Inri Cristo e colocam na Internet. A primeira delas foi uma tal de Plágio Divino, que nada mais era que A Banda, de Chico Buarque. A letra era praticamente igual, mas trocava a banda da música pelo Inri Cristo. Ou seja, o faroleiro que contava vantagem, a namorada que contava as estrelas pararam para ver o Inri Cristo. Todo mundo parou para ver o Inri Cristo. E a meninada toda se assanhou. E elas duas também, como vocês podem ver pelas coreografias nível programa do Bolinha. Pobre Chico.

O problema é que as mocinhas tomaram gosto pela coisa. Logo em seguida, caiu na rede um vídeo delas cantando a versão inricristiana de Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, do Geraldo Vandré, num culto. Ou seja, é o primeiro trabalho live da dupla. O Iron Maiden tem o Live after Death, o Deep Purple tem o Made in Japan e elas têm, agora, o Live at Sermão, com a presença do próprio Inri.

Aí a coisa desandou de vez.

Asusana e Alibera resolveram investir cada vez mais na carreira e começaram a trabalhar em cima de sucessos internacionais. Adaptaram uma música da Rihanna, Umbrella (com direito à dupla cantando debaixo de um guarda-chuvas) e logo em seguida partiram para What a Feeling, música-tema do filme Flashdance. Mas claro que elas não dançam igual a Jennifer Beals, mesmo porque as roupas não deixariam. Mas fica a expectativa para que elas façam a coreografia num show, de preferência com o Inri Cristo no palco. Eu pagava fácil para ver isso.

E você acha que as Inriquetes pararam por aí? Nada! A vítima seguinte foi Hotel California, do Eagles. O legal é que todos os clipes da Asusana e Alibera são apresentados por uma outra discípula, que funciona como hostess, mas não tem nome (para efeito de identificação, vamos chamá-la de Assolan). Agora, será que alguém avisou a dupla que Hotel California é uma música que fala sobre satanismo? Enfim, Inri e as Inriquetes exorcizaram a música, e o refrão deixou de ser “Welcome to the Hotel Califórnia” para virar “Conheci Inri Cristo e sua história”, naquele que seria o clipe mais elaborado da dupla – e o primeiro a apresentar legendas em inglês e ainda música de fundo, claramente arrancada de um karaokê tosco.

Daí em diante, o trabalho da dupla só melhorou. Aliás, podemos dizer que o trabalho das Inriquetes pode estar em seu auge, de tão cafona que se tornou. Para ilustrar a luta de Inri contra o mal, resolveram gravar a “versão mística” de Eye of the Tiger (a única diferença é que no lugar do Rocky Balboa temos o peso-mosca Inri Cristo), com direito a luvinhas de boxe e soquinhos no ar ( e a abertura com a Assolan, também de luvinhas, deitada numa mesa de sinuca, seja lá o que tentaram dizer com isso). É, foi nisso que viemos parar depois de milênios de evolução. Deprimente.

Mas, recentemente, aconteceu o que eu temia. Para o meu desespero, a dupla colocou os pés no heavy metal. Sim, no heavy metal. O último single das apóstolas é nada mais, nada menos, que uma adaptação tosca da música Crusader, do Saxon. O projeto foi anunciado numa entrevista das duas no site da MTV – que mostra que a emissora está cada vez mais preocupada com a qualidade musical de sua programação – e o vídeo caiu na rede, com o nome de Rei dos Reis.

Porém, agora que elas começaram a namorar o metal, fico até com medo do que pode acontecer pela frente. Será que as Inriquetes conseguirão fazer uma versão inricristiana de alguma coisa do Slayer, por exemplo? Fico até com medo de elas decidirem regravar, por exemplo Disciple, trocando o refrão “God Hates Us All” por “Inri Cristo é o tal!”. Ô fase.

Enfim, depois que mexeram com heavy metal, a coisa se tornou uma guerra santa, ao menos comigo. Deixo, então, o Top 5 Músicas que se as Inriquetes mexerem, eu vou partir pro tapa com essas duas. E nem vou cobrar 30 moedas de prata por isso.

1. Rime of the Ancient Mariner (Iron Maiden)

2. Victim of Changes (Judas Priest)

3. Creeping Death (Metallica)

4. Seasons in the Abyss (Slayer)

5. Black Sabbath (Black Sabbath)

22 de julho de 2008

Crise de Identidade

Nos anos 60, auge da guerra fria, os Estados Unidos começaram a investir num sistema que tornasse possível o diálogo entre todos os computadores das Forças Armadas. Com isso, estratégias e segredos militares poderiam ser transferidos instantaneamente de uma base para outra – independente do lugar em que elas estivessem – o que facilitaria muito, também, a pesquisa científica.

Isso foi o embrião de algo que, nos anos 90, seria conhecido como Internet, uma rede enorme que, em tese, conectaria todos os computadores do planeta entre si. De acordo com uma pesquisa feita em 2007, 17% das pessoas do planeta utilizavam regularmente a internet. O número ainda é pequeno porque provavelmente os moradores do Oriente Médio e os usuários do Speedy ainda não têm acesso a esta tecnologia, mas a tendência é que isso mude um dia.

Enfim, a internet revolucionou o modo de pensar das pessoas. Não se vive mais sem internet. Muito dos avanços científicos e tecnológicos dos últimos anos não seriam possíveis sem ela. Isso sem falar que qualquer pessoa pode se sentar e expor seus pensamentos ao mundo em blogs e páginas pessoais. Músicos expõem seus trabalhos, cientistas apresentam suas teses, escritores publicam romances e contos. Imagine o que Leonardo da Vinci, Beethoven e Einstein faria com a internet.

Já no Brasil, aparentemente ninguém fez nada com a internet ontem porque o Orkut saiu do ar durante algumas horas, para manutenção. De acordo com essa notícia aqui, miguxos de todos os cantos do país se reuniram na aldeia virtual, usando blogs e twitter para expressar seu pânico pela impossibilidade de entrar no Orkut. E aí, claro, começaram os boatos: o site ficaria fora do ar por seis meses, foi tudo um truque para aumentar a dependência das pessoas, estavam investigando todos os perfis atrás de pedofilia. O fenômeno já ganhou até nome: o apagão do Orkut. Original demais.

Enfim, os miguxos brasileiros estão mais tranqüilos. O Orkut voltou ao ar.

Ou, ao menos, parte dele.

Sim, porque continuando com o meu inferno astral, a única coisa do Orkut que não voltou ao ar foi o meu perfil. Aparentemente, a única página do Orkut que não abre é a minha. Isso porque dois minutos antes do Orkut sair do ar, meu perfil foi invadido.

Eu estava trabalhando tranquilamente e de repente comecei a receber e-mails do Orkut, e os e-mails me chamavam de Jeniffer (com dois “f” mesmo). Entrei no meu profile e tive a maior crise de identidade da minha vida. Constatei que tudo o que eu sabia sobre a minha vida, todas as minhas memórias eram uma farsa. A partir daquele momento, eu me chamava Jeniffer e tinha 19 anos.

Abri minha carteira, peguei meu RG e fui conferir meu nome. Nada de Jeniffer. Entrei no Orkut de novo. Agora eu não era mais Jeniffer, era apenas Jeni. Fui ler o “quem sou eu”, mas tinha um texto cafona ali, cheio de frases feitas, não consegui passar nem da terceira linha. Fui para o álbum de fotos e não tinha mais foto nenhuma. Ou seja, agora eu sou uma Jeniffer, ou melhor, uma Jeni, e não consigo nem saber se sou gostosa. Fui até o banheiro e me olhei no espelho. Barba mal feita, barrigudo, careca. Ou seja, a tal da Jeni era um canhão. Ô fase.

Voltei para a minha mesa e abri meu mail. As pessoas aparentemente não se importavam com a minha feiúra e estavam me adicionando como amigos. Em três minutos, umas cinco pessoas me adicionaram – todas elas com aqueles nomes indecifráveis e coloridos, escritos com a mesma fonte usada na capa daqueles discos de Death Metal que você não consegue nem ler o nome da banda. Todos eles adicionavam e mandavam scraps dando “oiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, aparentemente sem se importar com o fato da Jeni ser careca e ter cavanhaque.

Ou seja, minha versão Jeni é bastante popular, mesmo sendo feia. As únicas conclusões que consegui tirar disso foram: 1) eu sou feia, mas muito legal; ou 2) eu sou feia, mas dou para qualquer um.

O problema é que fiquei curioso a respeito dos meus novos amigos, mas não sabia o que fazer. Sim, porque quando você é adicionado por alguém que não conhece, é comum mandar um scrap dizendo “De onde você me conhece? Quem é você?”, mas seria estranho demais começar a mandar scraps para meus novos amigos perguntando “De onde você me conhece? Quem sou eu? Eu não era homem hoje de manhã?”. Enfim, logo em seguida o Orkut saiu do ar e a Jeni foi embora com ele.

À noite, quando cheguei em casa, fui direto tomar banho e, até onde eu percebi, estava tudo no lugar. Fiz questão de checar. E, percebendo que eu era eu, fui dormir em paz. Mas, na dúvida, desliguei o celular. Afinal, vai saber com que tipo de loucos eu andava quando eu era Jeniffer?

E, enquanto meu profile não volta ao ar, deixo vocês não com um Top 5, mas sim com o Top 1 frases mais cretinas que as pessoas usam no "quem sou eu" do Orkut:

1. "Pessoas Inteligentes falam de Idéias, Pessoas Comuns falam de Coisas, Pessoas Medíocres falam de Pessoas!" (será que até hoje ninguém percebeu que esta frase fala de pessoas, logo, pelo sentido dela, quem escreve isso é uma pessoa medíocre?)

18 de julho de 2008

Caro Pequeno Inventário de Impropriedades

Antes de mais nada, gostaria de ressaltar meu espanto quando fui avisado sobre esta carta aqui, publicada nas suas páginas no dia 16 de julho. Li e reli a carta diversas vezes, para conseguir elaborar uma resposta à altura.

Aliás, cabe dizer aqui quem encontrou a carta pela primeira vez foi meu escritor, Rob. Mas ele – em mais uma mostra de sua total incompetência literária – não encontrou ainda uma maneira de respondê-la adequadamente. Peço desculpas pela demora. Para evitar que essa situação se prolongue ainda mais, acabei decidindo eu mesmo teria que resolver isso. Se você quer algo bem-feito, faça você mesmo, é o que sempre digo.

Mas, voltando à questão que nos trouxe aqui, o texto – aparentemente escrito pelo autor que trabalha para você, Max Reinert – coloca o talento de Rob Gordon em primeiro plano. E isso é algo que não poderia fugir mais da realidade.

Apenas para ressaltar um fato que alguns dos meus leitores já sabem, existe uma distância muito grande entre os conceitos “Rob Gordon” e “qualidade deste blog”. Rob é – e sempre será – apenas uma ferramenta no Championship Vinyl. E, por mais que seja uma ferramenta esforçada, coitado, ele tem uma importância pequena em termos criativos e organizacionais aqui.

Podemos dizer que Rob Gordon está para este blog como o botão de negrito está para o Word. Ele é um detalhe aqui dentro. Caso este blog faça sucesso um dia, Rob jamais será o responsável direto por isso. Para ir mais a fundo à questão: eu o mantenho escrevendo no blog pura e simplesmente por motivos econômicos. Rob Gordon é barato (e essa é a grande vantagem de qualquer mão de obra não especializada).

Você, por outro lado, é um blog com um escritor de primeira linha em seu quadro de funcionários. Este rapaz que escreve os seus textos deixa o Rob no chinelo. O domínio que ele tem sobre as palavras é invejável. Às vezes, lendo os seus textos, fico pensando porque diabos o Rob não consegue escrever desse jeito. Ele até consegue fazer um ou outro texto mais ajeitado, mas sempre para o Chronicles (que, para mim, nada mais é que um blog dor-de-cotovelo).

Já este rapaz aí, Max, consegue sempre me surpreender com a facilidade com que ele brinca com o espaço do blog, colocando diálogos alinhados à esquerda e à direita, fotos, palavras coloridas e em destaque. O Rob mal sabe postar uma imagem – teve um post que ele precisou colocar a imagem quatro vezes até ficar do jeito que eu queria. Sério, chega a ser digno de pena. Além do mais, eu duvido que o Rob consiga postar textos com a qualidade deste menino que trabalha para você, e com a mesma freqüência. O Rob é uma preguiça só. Bosta de escritor.

Entretanto, vejo que você, como blog, deveria controlar um pouco mais este rapaz. Sim, porque acompanho suas postagens há tempos e tenho certeza de que esta carta não é coisa sua, e sim deste seu funcionário. Por favor, avise a ele – como eu já avisei ao Rob – que, caso eles tenham algum problema entre si, ou se apenas desejam trocar correspondências, que usem os e-mails pessoais ou o Orkut para isso. E jamais em horário comercial.

Aliás, nada me tira da cabeça que tudo isso foi armação do Rob e do Max Reinert para o Rob conseguir um aumento. Tenha a certeza de que, se uma carta nesse estilo for publicada aqui sobre a qualidade sobre dos seus textos, isso nada mais será que o segundo estágio do plano deles. Mas, caso isso aconteça, deixe que eu cuido do Rob.

Peço, ao menos, que instrua o seu funcionário para, na próxima vez que ele quiser ressaltar minhas qualidades, dê nome aos bois e aponte o verdadeiro responsável por isso: eu.

De blog para blog, isso é o mínimo que você poderia fazer nesta situação.

Temos que nos unir e combater essas pessoas que acham que os blogs são deles, quando é justamente o contrário. Esta é – e sempre foi – minha cruzada. Inclusive, já instruí ao Rob para lhe usar diversas vezes como exemplo de blog bem feito – e tenha a certeza de nunca me refiro a você como o “blog do Max”, e sim como “o Pequeno Inventário” (desculpe a intimidade).

Passado este incidente entre nossos funcionários, reforço de que me sinto honrado em ser colega de profissão de um blog como você. O Rob lê muitos blogs – por isso a demora dele em postar textos novos. Eu, pessoalmente, leio poucos (mesmo porque preciso ficar aqui arrumando as cagadas dele). Mas saiba que você é um dos meus preferidos e um exemplo para mim, desde que nasci.

Sinceramente, sinto orgulho de estar na mesma categoria de publicação que você, e isso aumenta a cada vez que leio seus textos.

Quanto à rebeldia de seu funcionário que ameaça entrar em greve, creio que posso lhe ajudar. Veja, autores são criaturas ridículas, vivem de ego. Meia dúzia de comentários e eles se derretem todos. Portanto, vou apelar aos meus leitores. Sim, você que está lendo isso, saiba que um dos melhores blogs da internet precisa de vocês. Entrem neste post aqui e escrevam “Volta, Max!” nos comentários. Isso colocará a casa em ordem ali.

Caro colega Pequeno Inventário, creio que isso deverá resolver o atual problema com o seu funcionário. E, do Rob, como eu já disse, cuido eu. Não se preocupe.

Cordialmente,

Championship Vinyl.

P.S. - Aproveitando, gostaria de convidar os leitores a participarem da comunidade Championship Vinyl no Orkut (notem a ausência dos verbetes “Rob” e “Gordon” no nome da comunidade). Serão todos bem vindos.

15 de julho de 2008

Rob Gordon x TVA - Round 3

(ou: Minimalismo)

São Paulo, 14 de julho de 2008

14:28

– Sr. Rob Gordon?

– Sim?

– Aqui é Douglas, da TVA.

– Sim.

– Peço desculpas por não ter ligado para o senhor no sábado.

– Não.

– A razão de eu não ter ligado foi um imprevisto que tive.

– Sim.

– Eu realmente peço desculpas para o senhor.

– Não.

– Entendo. Entendo como o senhor se sente.

– Não.

– Mas estou ligando para agendarmos a visita do técnico à sua residência.

– Sim.

– Amanhã é um dia bom para o senhor?

– Sim.

–14 horas. Pode ser?

– Não.

– Hum... Entendo. Que tal 15 horas?

– Não.

– O senhor prefere um horário mais cedo?

– Sim.

– Na parte da manhã?

– Não.

– Posso agendar, então, para as 13 horas?

– Sim.

– O senhor pode ficar tranqüilo, pois estou acompanhando o seu caso.

– Sim.

– E amanhã, às 13 horas, eu entro em contato com o senhor.

– Sim.

– Para confirmar a chegada do técnico à sua residência, OK?

– Sim.

– Vamos resolver isso da melhor maneira para o senhor.

– Sim.

– O senhor já é nosso cliente há dois anos e queremos que o senhor continue conosco.

– Sim.

– E o senhor pode ficar tranqüilo que tudo irá se resolver.

[suspiro interminável]

– Sr. Gordon?

[resto do suspiro interminável] Sim.

– O senhor está na linha?

– Sim.

– Posso confirmar a visita então?

– Sim.

– O senhor estará na sua casa amanhã a esse horário?

– Não.

– Haverá alguém para receber o técnico, certo?

– Sim.

– Algo mais que eu posso ajudá-lo, senhor Gordon?

– Não.

– A TVA lhe deseja uma boa tarde.

– Sim.

– Até logo.

– Sim.

14 de julho de 2008

Infernal Affairs

Eu nunca soube quando o tal do inferno astral começava. A teoria diz que o inferno astral é antes do seu aniversário, ou seja, não específica quando ele se inicia. É uma regra totalmente mal-feita, da mesma forma que aquela que fala que os Gremlins não podem comer depois da meia-noite. OK, eles não podem comer depois da meia-noite, mas podem voltar a comer a que horas? Porque duas horas da manhã é depois da meia-noite, mas é antes da meia-noite do dia seguinte.

Em menos de dois meses (10 de setembro), este blogueiro completará mais uma volta ao Sol. Sabendo disso, meu inferno astral anda de vento em popa. Na verdade, ele não começou agora. Inclusive, eu acredito que o meu inferno astral se aproveita do fato de que a lei mal escrita e diz apenas que ele “é antes do aniversário” e começa sempre em 11 de setembro do ano anterior. Mas, de uns dias para cá, ele tem mostrado que, em 2008, ele pretende bater todas as metas e quebrar todos os recordes pré-estabelecidos.

Logo de cara, ele deixou o seu cartão de visitas com o seu nome, telefone para contato e o logotipo da TVA. Sim, nada foi resolvido ainda e hoje eu resolvi declarar guerra. Mais tarde eu volto com um boletim direto do front de batalha. Segundo, ainda na minha política de reduzir gastos, troquei o Virtua pelo Speedy. O problema é que, também na minha política de reduzir gastos, eu desliguei minha linha telefônica que não funcionava. Fiz isso aproximadamente 2 horas antes de contratar o Speedy, apenas para descobrir, logo em seguida, que precisaria da linha.

Resumindo, tive que desligar minha linha apenas para ter que religá-la. E, claro, ela continua não funcionando – ou seja, em breve as paredes da minha casa terão que ser arrebentadas, porque já me falaram que é necessário trocar toda a fiação. Com isso, eu continuo usando o Virtua e fico um modem do Speedy no colo até resolver isso. E como provavelmente arrebentar paredes não é algo barato, então eu vou ter que gastar uma fortuna para poder economizar dinheiro. Ô fase.

Não satisfeito com isso, meu inferno astral resolveu organizar um motim de aparelhos eletrônicos. Primeiro, meu computador se recusava a me obedecer: o diagnóstico é que a fonte interna está com problemas, o cooler não gira mais e ele reconhece somente um dos dois pentes de memória. Para melhorar tudo, meu DVD cismou de que só fecha a gaveta com o disco quando eu coloco algo que ele também quer assistir. Se eu quero assistir a um filme ou uma série que ele não gosta, ele simplesmente não fecha a gaveta e se recusa a me obedecer.

E isso é apenas o dia-a-dia do meu inferno astral, que, tenho certeza, está preparando algo grande por aí. Semana passada, por exemplo, ele deu mostras disso, ao testar um plano. Eu estava no trabalho e meu celular tocou. Era um número de celular que eu não conhecia. Meu sentido de Aranha começou a apitar feito louco, mas atendi.

– Alô?

– ROB?

– Sim.

– TUDO BEM?

– Quem está falando?

– BRICK TOP. SUA SÍNDICA.

Deus do céu.

– Como vai a senhora, tudo bem?

– NÃO. SE ESTOU LIGANDO PARA VOCÊ, É PORQUE NADA ESTÁ BEM.

– ....

– ROB?

– Desculpe, estou aqui. Apenas não sei o que dizer. Estou apavorado e tenho medo de falar algo errado.

– ESTOU COM UM PROBLEMA NO PRÉDIO.

– Olha, eu peço desculpas antecipadamente por isso e me coloco a disposição no que eu puder ajudar.

– ÓTIMO.

– Só para referência futura... “Ótimo” para qual?

– TALVEZ PARA OS DOIS.

Ai.

– O APARTAMENTO 41 ESTÁ COM UM VAZAMENTO. O APARTAMENTO 51 ESTÁ COM UM VAZAMENTO.

Bem, como eu moro no 81, ainda faltam três andares.

–...

– ROB?

– Ainda estou aqui. Só estou mudo e com medo de onde isso vai acabar. Mas ainda estou aqui. Prometo.

– NÃO CONSEGUIMOS ENTRAR EM CONTATO COM O APARTAMENTO 61. E O MORADOR DO APARTAMENTO 71 ESTÁ VIAJANDO.

– E eu sou o morador do apartamento 81.

– EXATO. E O SEU APARTAMENTO TEM UM HISTÓRICO DE VAZAMENTO.

– Tem?

– SIM. COM A ANTIGA MORADORA. O APARTAMENTO DELA TEVE UM VAZAMENTO. FOI LOGO ANTES DE ELA... SE MUDAR.

Medo. Por que será a frase dela teve essa pausa no final? O que será que aconteceu com a moradora? Melhor perguntar isso para o Jonas mais tarde.

– Bem, o que eu posso fazer?

– VIR AQUI.

– Claro. Que horas você precisa de mim?

– AGORA.

– Não precisa se preocupar. É uma honra ajudá-la. Eu chego aí em 10 minutos.

Subi a Teodoro esperando pelo pior. Eu tinha certeza de que abriria a porta do apartamento e quase me afogaria. O Jonas estaria deitado numa bóia lendo o jornal de esportes, e a Besta-fera estaria com bóias de braço e pés-de-pato brincando na água. Besta-fera! Foi ele, tenho certeza! Apertei o passo, certo de que entraria em casa e encontraria uma parede quebrada, o cano todo mordido e uma marreta escondida sob a minha cama. Desgraçado!

Cheguei ao prédio e dei R$ 50,00 para o porteiro.

– Não avise a síndica que eu cheguei ainda. Deixe eu subir primeiro e ver o estrago.

– Mas a gente não sabe se é no seu apartamento.

– Acredite em mim. É no meu apartamento. Meu apartamento tem um histórico de vazamento e eu tenho um histórico de me foder. É no meu apartamento, tenho certeza. E aposto que meu cachorro tem algo a ver com isso. Ou ele, ou o cara da TVA.

– Ah sim. O cara da TVA veio aqui um dia, mas ele não pôde entrar.

– Eu não quero falar sobre isso.

Entrei no elevador e subi até o oitavo andar, já pensando em gastar tudo o que sobrou do meu salário em rodos e baldes. Sai do elevador. O hall estava seco. Abri a porta do apartamento e...

Nada.

Apenas a Besta-fera me olhando com aquela cara de “o que você está fazendo aqui a essa hora?”. Devolvi um “a gente já conversa” com o olhar e fui até o banheiro. Seco. Fui até a cozinha. Seco. A campainha tocou. Abri a porta, era o zelador.

Ele entrou e olhou todas as paredes.

– É. Parece que não é aqui. Deve ser no 71.

– Chup... Quer dizer.. Puxa, que coisa.

– Bem, é só isso. Obrigado, Rob.

– De nada. Não se esqueça de avisar a síndica que eu fiz minha parte, por favor.

Vocês devem estar pensando: “nossa, que sorte, não é no seu apartamento”. Sim, essa é a uma maneira de ver as coisas. É uma maneira errada, mas é uma maneira. Na verdade, isso foi apenas um recado do Inferno Astral, para deixar claro uma coisa: “Rob, estou de olho em você”.

Com isso, segue o Top 5 coisas que têm chance de acontecer nas próximas semanas:
1. Meu prédio vai explodir. Os únicos sobreviventes serão eu a síndica – que terá certeza de que a explosão foi no meu apartamento.
2. Minha namorada vai fugir com o cara da TVA.
3. Vou descobrir que tenho com uma doença incurável e raríssima, que me impedirá de comer carne e provavelmente vai me colocar na capa da Veja como aberração do ano.
4. Serei atingido na rua por um meteoro que resolveu aterrissar na Teodoro Sampaio.
5. A Coca-Cola irá falir e sobrará apenas a Pepsi, que reinará no planeta. A primeira ação da empresa será comprar todas as empresas de TV a cabo e fechá-las, deixando apenas a TVA em atividade.

11 de julho de 2008

Rob Gordon x TVA - Round 2

São Paulo, 11 de julho de 2008
15:06


– Sr. Rob Gordon?

– Sim.

– Aqui é Douglas, da TVA. Tudo bem?

– Não. E você?

– Desculpe, eu não liguei num momento bom?

– Desde segunda-feira eu não estou num momento bom. Acredito que a TVA saiba o motivo. Aliás, só para constar, minha conta já devia estar cancelada. Mas, apesar da atendente ter me informado que o atendimento de vocês era de 24 horas, eu liguei ontem para cancelar minha conta e caí numa gravação que me informava que o atendimento era até as 22:00. Ou seja, a atendente da TVA não sabe o horário de funcionamento da TVA. Chega a ser irônico, sabe? Vocês são tão incompetentes, mas tão incompetentes, que acabam se transformando em competentes. Tanto que conseguiram me segurar aqui por mais um dia.

– Estou ligando justamente para resolver esse problema.

– Desculpe, mas eu não posso ajudar a TVA a resolver sua incompetência. A única coisa que eu posso fazer é ligar para cancelar a minha conta, coisa que farei a noite. Não fiz ainda porque preciso me preparar primeiro. Eu vou para casa no final do dia, ouvir Slayer e ficar assistindo vídeos sobre o Holocausto. Aí eu vou ligar.

– Não, eu liguei para resolver o problema entre o senhor e a TVA.

– Ótimo. Seja breve, pois estou ocupado, escolhendo minha nova TV a cabo.

– Eu recebi uma notificação sobre um problema entre o senhor e a TVA.

– E o que você achou dela?

– Aqui diz que o senhor teve um problema na instalação.

– Eu sei o que ela diz. Perguntei o que você achou dela?

– Como assim?

– Eu não quero uma crítica elaborada. Não quero saber se ela está bem escrita. Eu quero a sua opinião. Pode ser a opinião da TVA, ou a sua, não me importo. Mas eu quero uma opinião.

– Bom, a minha opinião é que o senhor não está satisfeito.

– Isso não é uma opinião, é uma conclusão. Eu quero uma opinião. Qual a sua opinião sobre tudo isso?

– Eu acho que realmente nosso atendimento com o senhor foi falho.

– Pode repetir isso?

– Eu acho que a TVA realmente falhou com o senhor.

– Ótimo. Ouvir isso foi uma das maiores vitórias da minha vida. Você pode falar mais uma vez, só para eu saborear o momento?

– Senhor Gordon, eu liguei para tentar resolver o problema.

– Eu entendo. Mas não custa nada você falar de novo, até mesmo como prova da sua boa fé aqui. Vamos lá, você consegue.

– Eu acho que A TVA atendeu o senhor muito mal.

– Ótimo. Posto isso, vamos à pergunta mais importante desta ligação. O que você quer?

– Eu quero resolver o seu problema.

– Você pode desenvolver o assunto de forma sucinta, lógica? E já aviso que eu vou desligar na terceira frase com gerúndio.

– Como o senhor não conseguiu a instalação, eu estou oferecendo ao senhor uma nova instalação. O senhor escolhe o dia a e a hora.

– Eu escolho?

– Sim, senhor.

– Eu, Rob Gordon, escolho o dia e a hora que o técnico irá passar? E não vocês?

– Isso mesmo.

– Ok. Qual a armadilha?

– Senhor?

– Qual a armadilha?

– Nenhuma, senhor. Quero apenas resolver o problema.

– E em qual momento eu vou precisar confirmar a bosta da CPF?

– Não precisa, senhor. Estou com seu cadastro aberto na minha frente e vou acompanhar pessoalmente o seu caso.

– E isso quer dizer o que, exatamente?

– Que o técnico estará na sua casa exatamente no dia e no horário que o senhor escolher. O senhor tem a minha palavra. Qual horário o senhor prefere?

– A sua palavra?

– Isso mesmo, senhor Gordon.

– Então, se o técnico não aparecer lá no horário, a culpa será sua. E não da TVA. E aí o meu problema será com você. Você está ciente disso?

– Pode ficar tranqüilo, senhor. Qual horário o senhor prefere?

– Não acredito nisso ainda. Eu sei que é uma armadilha, mas não estou vendo onde.

– Senhor, basta apenas dizer o dia e o horário.

– Não, vamos fazer outra coisa. Antes eu quero uma prova de que você está falando a verdade. Me ligue amanhã, entre meio-dia e 14:00.

– O senhor não quer escolher um horário agora?

– Não, eu não sou fácil assim. Primeiro, quero ver se você está realmente acompanhando meu caso pessoalmente. Digamos que eu não me sinto pronto para escolher um horário. Só vou estar pronto amanhã.

– Muito bem, senhor Gordon. Entrarei em contato com o senhor nesse horário amanhã e combinamos tudo.

– Duvido.

– Tenha uma boa tarde.

– Duvido também.

10 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte Final

Talvez se eu tivesse entrado diretamente na seção de CDs, sem ir olhar o Wii Fit, minha vida teria sido mais fácil naqueles corredores. Mas o Wii Fit estragou tudo. Todo o meu emocional estava abalado. Semanas de trabalho foram jogadas fora em poucos minutos. Meu corpo tremia, eu suava frio. Eu precisava comprar alguma coisa – qualquer coisa – e estava no lugar ideal para isso.

Minhas pernas, novamente, me traíram e resolveram assumir o controle da situação. Ou seja, a hora que percebi, já estava no meio da área com CDs de pop / rock. Peguei a minha chave e a encostei no pescoço, bem na jugular. Se as pernas tentassem me levar para a prateleira de hardo rock / heavy metal, eu acabaria com tudo ali.

Elas viram que eu não estava blefando e me deram um pouco de controle. Respirei fundo e arrisquei alguns passos entre as prateleiras. Eu andava na ponta dos pés, para não acordar os CDs. Não queria que eles me vissem ali naquela situação humilhante. E também não queria que eles soubessem que eu estava ali sem meu cartão – afinal, não é porque eu decidi parar de comprar tudo que isso me dá o direito de magoá-los dessa forma.

Dei uma volta por ali e meus dedos começaram a coçar. Eu precisava segurar alguma coisa. Eu precisava manusear um CD, sentir a textura da caixinha, ver o nome das músicas no verso. O problema é que, no estado que eu me encontrava, isso seria praticamente pedir para eu entrar em transe novamente e acordar na fila do caixa, com 19 CDs na mão.

A não ser que fosse algo deliberadamente ruim. Mas ruim mesmo, não ruim como um St.Anger do Metallica, que é péssimo mas eu quero assim mesmo por causa da coleção. Talvez essa seja a saída. Talvez eu deva começar a gostar só de coisas ruins. O problema é, que na minha ânsia de comprar qualquer coisa, se eu achasse algo ruim e barato, o tiro poderia sair pela culatra e eu tomar gosto pela coisa. Ou seja, eu deixaria de ser um colecionador e me tornaria num catador de lixo e passaria o resto da minha vida acumulando CDs de R$ 9,90 e implorando pela compreensão dos amigos.

– Rob, você tem todos os CDs do Judas Priest, mas tem todos do Latino também?

– É...

– Mas por que isso?

– Ah, eu estava no Carrefour e esses do Latino estavam baratos.

– Você tem um CD do Chiclete com Banana!

– É, é uma coletânea. Paguei R$ 11,00, lá na Teodoro.

– Mas, Rob, por quê?

– Eu não tenho mais dinheiro, ok? Já foi difícil demais ter que aprender a gostar dessas merdas, não preciso das pessoas me julgando também!

Abri os olhos e voltei à realidade. Eu estava chorando. Eu precisava ir embora dali. Mas, ao mesmo tempo, eu precisava segurar um CD. Talvez se eu achasse algo que fosse ruim e caro ao mesmo tempo, o plano funcionaria, ao menos nesse momento. Olhei ao redor e não vi ninguém perto de mim. Parei na letra B e comecei a olhar os CDs da Britney Spears. Peguei uns quatro CDs dela e fiquei admirando as capinhas, imaginando ter um box do Megadeth na mão.

A coceira nas mãos diminuiu um pouco. Não passou, mas se tornou suportável. Os Vigilantes dos Gastos ficariam orgulhosos de mim. Talvez, se eu segurar algo pior ainda – e caro – a coceira passe de vez. Decidi ir até a prateleira de rock nacional, certo de que acharia algo do CPM 22 ali. Bastava segurar o CD, imaginar que estava com um Best of duplo do Alice Cooper nas mãos e pronto. Isso me acalmaria.

Todo orgulhoso do meu plano, virei as costas apenas para dar de cara com uma prateleira repleta de CDs do Iron Maiden expostos. Ali, na minha frente. Todos eles me encarando, em silêncio e com olhar de decepção. Eles haviam me visto com os CDs da Britney Spears na mão! E, no meio deles, vi de longe uma capa que eu não reconheci de imediato. Era um CD do Iron Maiden que eu não tinha! Deus, por quê? Não bastava o Wii Fit? Mas, antes que eu pudesse olhar o CD com calma, um Powerslave, bem no centro da prateleira, deu uma tragada longa no cigarro e disse:

– Rob, você é nosso fã e nós amamos você. Mas nunca mais fique contra a famiglia novamente.

Joguei os CDs da Britney Spears para o alto e saí correndo e gritando “me desculpem!” e fui me refugiar no local mais seguro que encontrei: a prateleira de reggae, onde a chance de eu encontrar algo interessante é menor que zero. Me abaixei ali e comecei a chorar, decidido a ficar escondido naquele canto até todos aqueles CDs do Iron Maiden serem vendidos e eu poder ir embora. Mas o cheiro de maconha que vinha dos CDs do Bob Marley começou a me deixar enjoado. E a possibilidade de um CD novo do Iron estar a cinco metros de mim não ajudava muito.

Fazendo de tudo para que os CDs do Iron não me vissem ali, coloquei um pedacinho do rosto para fora da prateleira de reggae e arrisquei uma espiada com um olho só na direção do CD novo.

Era uma capa azul. Só consegui ver isso, porque, na mesma hora, um dos atendentes da Fnac parou na frente da prateleira e começou a arrumar os CDs. Eu sabia que não teria outra chance e precisava agir rápido. Aproveitando que ele estava entre eu e o CD novo, saí correndo para as escadas. No caminho, aproveitei e chutei uma pilha de The Shield – 4ª Temporada, para evitar que os packs me agarrassem. Subi as escadas, passei pelos caixas – fazendo gestos obscenos para todos eles, filhos da puta que se comportam como traficantes e arrancam meu dinheiro –, pulei uma pilha de Wii Fit e corri para a rua. Pensei em atravessar a praça e ir me esconder na banca de jornal do outro lado, mas aí seria brincar demais com a sorte.

Vim me esconder aqui no trabalho. Estou aqui até agora. E só saio daqui as 22:00, depois que a Fnac fechar. Eu já procurei o CD do Iron Maiden na internet, e vi que se trata apenas de uma coletânea com músicas que eu já tenho. Ou seja, é um CD inofensivo.

Ou não. Porque se eu sair daqui agora, eu vou querer ver o CD. E se eu segurar o CD na mão, vai dar merda. Eu sei que vai.

Desculpe, Powerslave. Eu ainda não estou pronto.

E, como tenho que enrolar aqui até a Fnac fechar, deixo o Top 5 coisas que não vou parar de comprar / gastar nem a pau:

1. Churrascaria – Não me importo de ir numa churrascaria daquelas de R$1,99, que servem carne de cavalo e de menor-abandonado. Mas não tenho como perder dois vícios de uma vez.

2. Biblioteca Histórica Marvel – Em alguns momentos, eu gosto mais desses livros (caríssimos) que contam as primeiras aventuras dos heróis Marvel do que de mim mesmo.

3. Miniaturas de Chumbo de Star Wars – Mas aí não é gasto, é investimento. Eu nem gosto delas, mas estou comprando isso porque um dia vou ter um filho e ele vai gostar de ter isso em casa. Ele não vai poder encostar, claro, mas será dele também.

4. O disco novo do Judas Priest – Eles anunciaram o disco antes de eu decidir parar de gastar. Como a lei não é retroativa, eu posso comprar.

5. O disco novo do Alice Cooper – Ver motivo acima.

8 de julho de 2008

Interlúdio - Rob Gordon X TVA

São Paulo, 7 de julho de 2008.

16:11

– TVA, boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

– Eu estou fazendo migração para um novo pacote, e a visita do técnico estava marcada para as 15:00 de hoje. São mais de 16:00, e ele ainda não chegou.

– O senhor pode confirmar seu CPF?

– Posso, mas não vejo a razão.

– É para eu entrar no seu cadastro.

– Eu não estou alterando o endereço da minha conta ou dizendo que não vou pagar. Eu estou atrás do técnico. Basta eu dizer meu nome, você ligar para ele, descobrir onde ele está e falar para ele ir para minha casa.

– Eu preciso verificar qual o serviço.

– Eu já disse qual o serviço. É migração.

– Senhor, eu preciso do seu CPF.

– Quer saber? OK. É AAA.BBB.CCC-DD.

– Só um minuto.

– Whatever.

– O senhor está fazendo a migração?

– Você precisava do meu CPF para descobrir algo que eu já disse duas vezes?

– É procedimento.

– Sim, estou fazendo migração.

– As visitas referentes à migração só podem ser realizadas depois do dia 21.

– Não faz sentido. Eu liguei no dia 4 e agendaram a visita do técnico para dia 7. O número 7 é igual ou menor a 21. Logo, a visita terá que acontecer antes disso. Mais precisamente, no dia 7. E, olha só que legal: hoje é dia 7. Posto isso, acho que sobra apenas uma pergunta: Cadê o técnico?

– Senhor, eu não posso fazer nada. A pessoa lhe informou errado.

– E você não pode fazer nada?

– Não, senhor.

– Vamos dar nome aos bois aqui? Vamos chamar a pessoa que me passou a informação errada de A. E vamos chamar você de B. Certo?

– Senhor...

– Olha que curioso. Você e ela são pessoas diferentes, mas, para mim, é a mesma coisa. A é igual a B. E A e B são iguais a TVA. Ou seja, o que você está me dizendo é que a TVA me informou errado e a TVA não pode fazer nada a respeito?

– Sim, senhor.

– Eu vou dar mais uma chance. Uma pessoa está na minha casa esperando a visita do técnico neste momento. O que a TVA pode fazer a respeito?

– Senhor, as visitas podem ser somente após o dia 21.

– Eu vou colocar de outra forma. Uma pessoa está na minha casa feito um imbecil esperando a merda da visita do retardado do técnico neste momento. O que a merda da TVA pode fazer a respeito?

– O senhor quer remarcar a visita?

– Não, eu quero o endereço de vocês porque eu vou dinamitar esse prédio. Qual o horário que tem mais gente aí?

– Senhor...

– Olhe, quer saber? Foda-se. Cansei. Qual o horário de atendimento disso aí?

– Da TVA?

– Não, do açougue aí ao lado. Como eu não posso assistir TV, vou comprar uma peça de alcatra, colocar no forno e ficar olhando ela assar. Claro que é da TVA!

– O atendimento é 24 horas.

– OK. Eu vou até a rua morder o pneu de um carro durante uma meia hora para ver se me acalmou e ligo a noite.

– O senhor não quer remarcar a visita?

– Olhe, não é porque a bomba vai cair na mão de outro atendente, à noite, mas eu vou lhe dar um conselho. Não brinque com a sorte.

– Senhor...

– Adeus.

– Posso ajudar em algo mais?

– O que faz você pensar que ajudou em algo?

– Senhor, eu não posso fazer nada.

– É. Eu posso. Eu ligo depois.

– A TVA agradece sua ligação e tenha uma boa tarde.

– Morra!


São Paulo, 7 de julho de 2008.

20:35

– TVA, boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

– No sábado eu agendei uma visita de um técnico para fazer a migração do pacote. A visita foi agendada para as 15:00 de hoje. Já passava das quatro horas e ninguém havia chegado, então, eu liguei para vocês. Aí, fui informado que a pessoa que me atendeu no sábado havia me passado uma informação errada, e as visitas para isso podem ser realizadas somente após o dia 20.

– Exato, senhor.

– Não, não é exato. É errado. A única coisa exata aqui, até agora, é que a TVA é uma merda. Se vocês me passaram uma informação errada, vocês arrumem isso.

– O senhor pode me passar seu telefone cadastrado?

– Não. Eu já digitei o meu código de assinante antes de falar com você. Você já sabe quem sou eu.

– Senhor, sem seu telefone, eu não posso abrir seu cadastrado.

– Olhe, eu tenho duas perguntas. Um: se você precisa do meu telefone para falar comigo, porque eu tenho que digitar o meu código quando ligo? Dois: Qual informação do contida no meu cadastro pode lhe ajudar a resolver este problema? Cada uma das perguntas vale 5 pontos, e você pode responder na ordem que quiser.

– Senhor, eu preciso olhar seu cadastro para checar o que está acontecendo.

– Na verdade, eu acho que você precisa checar com a gerência para ver o que está acontecendo. Mas OK. Meu telefone é AAAA-BBBB.

– Só um minuto.

– OK. O técnico está já está mais de 4 horas atrasado. Um minuto não vai mudar nada.

– Senhor, aqui diz que o técnico passou na sua casa. Mas ele não conseguiu entrar porque foi barrado pelo porteiro.

– Sei. E porque o porteiro barraria o técnico? Será que ele é um agente da NET e ganha comissão a cada vez que faz isso?

– Aqui diz, no relatório do técnico, que é um prédio cinza, com portão cinza, de aproximadamente 2 metros...

– Eu sei qual é o meu endereço! Fale o endereço que ele foi e não fique descrevendo o prédio como se eu fosse um retardado!

– Rua X, número Y.

– Sim, é onde moro. Mas o técnico não foi.

– Aqui diz que ele foi e não pôde entrar. O senhor quer remarcar a visita?

– Não. Eu vou ter um infarto e depois ligo, OK?

– A TVA agradece a sua lig...

– Vá para a puta que o pariu!


São Paulo, 7 de julho de 2008.

21:40

– TVA, boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

– Provavelmente em nada. Mas vamos tentar assim mesmo. Antes que você pergunte, meu telefone é AAAA-BBBB. Meu CPF é AAA.BBB.CCC-XX. Entre no meu cadastro e veja o que está acontecendo.

– O senhor está com algum problema no cadastro?

– Não, eu apenas não vou contar a história de novo. Entre aí e leia. Eu espero.

– Aqui diz que o senhor está fazendo uma migração de pacote, e que o técnico não pôde entrar no seu prédio.

– Ele alega o motivo que não pôde entrar?

– O motivo é: porteiro Marcos. O senhor pode me confirmar se existe um porteiro Marcos no seu prédio?

– Você realmente acha que eu sei o nome dos porteiros?

– Aqui diz que é um prédio cinza, com portões...

– Ai, ai. Com portões cinza. Mas não é cinza. O portão é marrom. Se quiser, já pode alterar isso no meu cadastro, também. Você vai precisar do meu CPF novamente para mudar a cor do meu portão?

– Senhor, aqui está detalhado que a culpa foi do porteiro. Os técnicos passaram no seu prédio as 19:02 e...

– Que horas?

– 19:02.

– E você tem como conferir o meu pedido no sábado?

– Só um minuto, senhor. Sim, está aqui.

– E você pode me dizer para qual horário eu marquei a visita?

– As 15:00.

– Isso. Você quer falar algo a respeito?

– É. O técnico atrasou.

– Sim. O que mais você tem a dizer sobre isso?

– Em nome da TVA, eu peço desculpas ao senhor.

– Eu meu nome, eu não aceito as desculpas. Eu fui específico quando fiz o pedido no sábado, dizendo que nenhum trabalho externo pode ser feito no meu prédio depois das 17:00. Por isso eu perguntei para a imbecil que me atendeu se o serviço demorava. Ela disse que não. Por isso eu marquei para as 15:00.

– Senhor, o problema é que o nosso serviço de técnicos é terceirizado...

– Mas isso é um problema interno de vocês. Não é porque eles são terceirizados que eu vou responder “Ah, então está explicado. Esse pessoal terceirizado é foda mesmo. Mas, paciência, é a vida”. Quero saber o que a TVA vai fazer a respeito.

– Senhor, eu não posso fazer nada.

– Não, mas a TVA pode. Nunca atrasei o pagamento de uma conta, estou tentando continuar cliente de vocês, mas vocês estão fazendo de tudo para impedir isso. O problema não é o técnico atrasar. O problema é que cada hora que eu liguei aí, alguém falava algo diferente. Tenho certeza de que se eu desligar e ligar de novo, o atendente vai me explicar que eu não estou habilitado para ter esse plano, porque meu apartamento está alinhado com Saturno este mês.

– O senhor quer remarcar a visita? Eu tenho técnicos disponíveis para depois do dia 20.

– Vamos pensar... Se, em uma visita agendada com dois dias de antecedência, o técnico atrasa quatro horas, numa visita marcada com mais de 10 dias... Hum... Será que ele passaria esse ano ainda?

– Senhor, ele passaria no mesmo dia.

– Você pode me garantir isso?

– O senhor quer remarcar a visita?

– Não. Eu não confio mais em vocês.

– O que, em nome da TVA, eu posso fazer para o senhor recuperar a confiança na empresa?

– Eu não vou responder isso. Eu não liguei para pedir nada. Você se levante, vá até a mesa da sua supervisora e faça essa pergunta a ela.

– O senhor quer um desconto?

– Eu tenho dinheiro para pagar a conta. Mas, se ela vencesse hoje, eu não iria pagar porque não tenho o produto que escolhi. Se você quiser, eu passo aí amanhã com o valor da minha conta em dinheiro, paro na calçada e rasgo as notas. Até ligo antes para avisar o horário que vou fazer isso, para você ficar vendo pela janela.

– Senhor, eu posso tentar um desconto com a minha supervisora.

– Se você for comprar uma calça e a loja não tiver o tamanho que você precisa. O que você faz? Você pede um desconto, paga metade do valor da calça e vai embora, sem a calça?

– Só um minuto senhor.

– Whatever.

– Senhor, falei com minha supervisora, ela disse que realmente não podemos agendar nada antes do dia 20, pois todos os horários antes das 17:00 estão ocupados até lá.

– Esse “todos os horários” que você disse são o quê? Três visitas? Quatro?

– Senhor...

– Olha, cansei. Vocês tem um departamento de fidelidade aí?

– Sim, mas eles terminam o atendimento as 21:00. Mas o senhor pode ligar amanhã, a partir das...

– Eu não vou ligar para ninguém. Você tem como passar uma notificação para o departamento de fidelidade?

– Sim, senhor.

– E você tem meu celular?

– O número é CCCC-DDDD?

– Isso. Passe uma notificação para o departamento de fidelidade. Eles têm até quinta-feira as 21:00 para me ligarem e apresentarem uma proposta para eu permanecer cliente de vocês. Se isso não acontecer, eu cancelo minha conta quinta-feira à noite.

– Sim, senhor.

– Me responde uma coisa... Se eu cancelar a assinatura, você terão que agendar uma visita para o técnico buscar o equipamento?

– Sim, senhor.

– Uma visita com hora marcada?

– Sim, senhor.

– Oba! Quer dizer... OK.

– Posso ajudá-lo em algo mais?

– Não sei. O que você acha?

– Acho que não.

– Ótimo. Adeus.

– A TVA agradece a sua ligação...

– Acredite, a TVA não tem motivos para agradecer essa ligação. Adeus.


Aguardem desdobramentos futuros.

6 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte II

Me enchi de coragem, acendi um cigarro, e atravessei a rua com passos decididos. Estava na hora de mostrar ao mundo que eu controlo meu destino, e a Fnac não interfere com isso de forma alguma. As pessoas querem que eu seja maduro e responsável com meu dinheiro? Vou mostrar a elas o que é responsabilidade. Vou entrar na Fnac, andar pela loja inteira e sair de lá sem comprar nada. E eu faço isso a hora que quiser. Sou muito mais forte que isso.

Por outro lado, como eu sou eu, achei melhor deixar a carteira no trabalho.

Apaguei o cigarro, entrei e parei dois metros depois da porta. A Fnac parecia ter sobrevivido muito bem ao nosso rompimento. Pessoas de todos os tipos andavam para pela loja, conversando com os vendedores e escolhendo o que comprar. O perfume de produtos novos, prontos para serem adquiridos, invadiu minhas narinas e me deixou embriagado. TVs de plasma, computadores, CDs, DVDs, livros, aparelhos de som começaram a bailar na minha mente – usando uma enorme etiqueta de preço escrita “parcelamos em 10 vezes” como pista de dança. Aquilo era demais para mim. Meu coração estava disparado. Uma lágrima rolava pela minha face. Consegui apenas levantar os braços e gritar:

– Eu adoro o cheiro de comércio pela manhã!

O problema é que eu entrei na Fnac certo de pensando apenas em resistir a um determinado tipo de gasto. Existem dois tipos de produtos à venda: aqueles que você quer e aqueles que você só descobre que quer quando existe. Eu me preparei para não ser afetado pelo segundo tipo, mas ignorei o primeiro. E esse foi meu erro. Porque eu mal havia dado cinco passos dentro da loja, e vi um brilho estranho vindo da seção de videogames. Senti um aperto no estômago – eu sabia que o que quer que fosse aquele brilho, ele brilhava para mim – e fui até lá.

Parei atrás de um monitor de 29 polegadas e, ficando na ponta dos pés (1.60m mode: on), dei uma espiada por cima dele, na direção daquela luz mágica.

E vi uma pilha de caixas do Wii Fit.

Eu não senti mais as pernas. Eu estou lendo sobre o Wii Fit desde o começo do ano e a certeza de que eu compraria o negócio no momento em que eu o encontrasse em alguma loja aumentava a cada dia. Mas, por outro lado, eu não contava com o fato de ele ser lançado no meio do meu ramadã financeiro. Entrei em pânico. Todos os meus neurônios começaram a fazer coreografias, cada um com um par de pompons nas mãos, fazendo coro de “Consumo! Consumo!”. Só havia uma coisa a fazer. Peguei o telefone e liguei para a Sra. Gordon:

– Sabe o que eu acabei de ver na Fnac?

– Você não vai comprar!

– Não, eu estou até sem cartão. Queria apenas dizer que eles já receberam o...

– Esquece!

– Mas eu liguei só para dizer que eles já têm o...

– Rob, chega! Esquece! Você não vai comprar nada!

– Mas será que...

– Não!

– Mesmo?

– Sim.

– Esse “Sim” que você disse foi para o “Mesmo?”, certo? Esse “Sim” não foi para o... Hum... Para o... Ah, para aquela outra coisa. Você sabe.

– Rob?

– Oi.

– Tchau.

E desligou. Olhei meu celular. Será que a Fnac aceitaria um aparelho Sony Ericsson como entrada no Wii Fit? Por que aí seria escambo, eu não estaria comprando nada. É isso! Achei uma brecha na lei!

Comecei a andar até o vendedor mais próximo, preparando meu discurso. Se ele aceitasse, eu levaria o Wii Fit e para casa, pegaria o carregador do celular e traria para eles. Mesmo porque, com um Wii Fit em casa, eu não precisaria de celular mesmo, porque eu não iria atender ninguém. Estava limpando o celular na calça, para torná-lo mais atraente aos olhos do vendedor, quando senti uma vibração na mão. Era uma mensagem de texto da Sra. Gordon.

“Comprou, morreu.”

Suspirei e guardei o celular no bolso. Por mais que eu quisesse sair da loja, meu cérebro queria olhar o Wii Fit mais de perto. Tentei ir embora, juro. Mas, antes que eu percebesse o que minhas pernas estavam fazendo, eu estava na frente da pilha de caixas de Wii Fit, admirando aquilo de perto. Sim, ao lado da pilha tinha uma etiqueta com três algarismos – e o primeiro deles era 5 – mas nem dei atenção. Eu não conseguia tirar os olhos do Wii Fit.

Fiquei ali feito um dos macacos do começo de 2001, na cena em que o monólito aparece pela primeira vez. Eu tocava de leve na caixa e rapidamente tirava a mão, com medo de me machucar. Dei uma olhada para os lados e, como ninguém estava olhando, dei uma cheirada de leve na caixa. O perfume daquele papelão louco para ser aberto com uma tesoura na minha sala começou a me deixar maluco.

Tentei fazer um acordo com meu cérebro, dizendo que se ele me colocasse em uma espécie de transe e só fizesse eu voltar a mim na calçada, com o Wii Fit dentro uma sacola, eu não ficaria bravo com ele. Mas ele estava ocupado lendo as especificações técnicas do aparelho e não ouviu. Comecei a fazer contas. Se eu deixar de almoçar por ano, eu recupero esse dinheiro fácil. E, se alguém perguntar a razão disso, eu digo que a balança do Wii Fit disse que estou gordo. Merda, porque não acontece uma guerra civil no país? Assim, eu viveria daqueles mantimentos que a Cruz Vermelha entrega para os refugiados e poderia comprar meu Wii Fit. Merda de país.

Meus pensamentos foram interrompidos por um movimento ao meu lado. Era um dos vendedores da Fnac que se aproximou da pilha. Fiquei com medo de alguém estar comprando aquilo. Porque eu me conheço, se eu visse que alguém estava levando um Wii Fit para o filho, eu sairia da loja na mesma hora e esperaria a pessoa na calçada, com uma meia na cabeça, pronto para pegar aquilo e sair correndo pela Pedroso de Moraes. Mas não era nada disso, ele apenas colocou outra etiqueta em cima da pilha. Olhei de relance e li apenas:


EXCLUSIVAMENTE HOJE

COMPRE O WII FIT E GANHE...


Dei um berro histérico. Aquilo era demais. Eu nem li o resto, porque aquele era meu limite. Um brinde é tudo o que eu preciso para entregar a alma. Mesmo se o brinde do Wii Fit fosse um apontador de lápis, eu não iria resistir. Empurrei o vendedor e saí correndo, sem nem mesmo olhar a direção que eu seguia.

Eu precisava ficar apenas longe daquele maldito Wii Fit. Quase atropelei uma velhinha e desci correndo as escadas rolantes. Quando eu percebi onde estava, era tarde demais. Eu havia descido diretamente para um dos Círculos do Inferno.

Na ânsia de escapar do Wii Fit, acabei parando no coração da seção de CDs e DVDs. E eu sabia que dificilmente sairia vivo dali.

(continua...)

3 de julho de 2008

Por um Punhado de Dólares - Parte I

– Olá, meu nome é Rob Gordon.

– Oi, Rob Gordon!

– Eu queria dizer que estou há 36 horas sem comprar um CD.

(clap clap clap)

De uns meses para cá, comecei a perceber que os meses estavam se tornando mais longos. Era mais ou menos como aquele negócio de sensação térmica: eu sabia que o mês tem 30 dias, mas a impressão que eu tinha é que o ano era dividido em doze períodos iguais de 45 dias cada.

Entrei em todos os portais para ver se algo estava acontecendo com o Sol, mas não encontrei nada. Chequei todos os calendários e agendas que encontrei e, constatei que, ao contrário do que eu pensava, os meses continuavam com os mesmos 30 ou 31 dias – com exceção do sempre menosprezado fevereiro. Ou seja, tudo continuava igual. O planeta não havia saído de órbita, e o mundo não adotou o calendário asteca e eu não fiquei sabendo.

O problema era comigo.

Ou melhor, com minha conta bancária. De uns meses para cá, as contas começaram a não fechar no final do mês. Fui investigar o que estava acontecendo – torcendo para ser cagada do banco – peguei uns extratos e observei cuidadosamente. Vale dizer aqui que a minha desorganização financeira chega a níveis ridículos – eu já cheguei a emprestar dinheiro para um amigo e escrevi, no canhoto do cheque, “favores sexuais”, só para sacanear o cara.

Enfim, analisei os extratos e foi aí que o problema ganhou contornos robgordonianos. Uma pessoa normal teria percebido que estava gastando muito com jantares, CDs ou DVDs. Até mesmo com roupas. Eu olhei os extratos e percebi apenas que estou gastando muito, mas não sei com o que, como ou onde. Há um ralo na minha conta, mas eu não sei onde ele fica.

Ou melhor, sei.

Eu sou o ralo. Eu sempre fui o ralo.

Sim, porque eu sou Consumista (assim mesmo, com C maiúsculo) desde antes de aprender a ler. E sou um consumista com classe. Quando eu menor, minha mãe falava que eu gastava muito dinheiro com bobagens e eu respondia que “nem queria ter comprado isso aqui, mas alguém precisa fazer o dinheiro girar no país pelo bem da economia”.

Bom, hoje eu sou – teoricamente – um adulto e continuo gastando dinheiro com “bobagens”. Quer dizer, bobagens para vocês. Tudo o que eu compro – quadrinhos, DVDs, CDs, miniaturas – são extremamente importantes para minha formação como pessoa e me fazem um ser humano muito mais tolerante com as pessoas ao meu redor.

Por exemplo, imagine que o Iron Maiden lançou um novo CD. Bem, eu simplesmente não consigo ser feliz sabendo que logo ali do outro lado da rua, tão perto de mim, existe um CD do Iron Maiden que eu não tenho. Eu começo a definhar emocionalmente, me sinto como um diabético na Fantástica Fábrica de Chocolate. E aí eu me torno grosso, arredio, mais sarcástico que o normal... Resumindo, eu me torno um porre.

O problema é que agora a crise bateu à porta. Fui conversar sobre isso com a Sra. Gordon. Expliquei o problema e ela, pacientemente, me deu uma série de conselhos financeiros e dicas de como gastar menos e me organizar mais.

– Onde você acha que gasta mais?

– Com o aluguel.

– O aluguel não conta.

– Conta sim, olha o estrago que ele faz ali perto do dia 20.

– O que é isso aqui?

– Fnac.

– E esse?

– É... Hum... Fnac. Acho.

– Acha?

– Não, não. Fnac. Tenho certeza.

– E esse outro?

– Fnac.

– Mas é no mesmo dia do outro!

– É que era uma história do Homem-Aranha que continuava em outra revista. Eu não sabia disso quando comprei.

– Mas precisava comprar no mesmo dia?

– Eu não podia ficar sem o final da história! Sem o final, a história não faz sentido. Ou seja, eu teria jogado fora o dinheiro que gastei com a primeira revista!

– E esse outro aqui, no dia seguinte?

– Então... Nessa segunda revista, que tinha o final da história do Homem-Aranha, tinha uma história nova do Quarteto Fantástico. Mas ela continuava em outra revista e... E... Ok. Eu paro.

Algumas horas de conversa (e três hematomas) depois, eu havia me decidido: hora de maneirar. Estufei o peito: vou cortar tudo o que é supérfluo! No More Mr Spending Guy!

Mas, por mais que minha intenção fosse boa, como cortar gastos trabalhando a 50 metros da Fnac? É um problema quase igual ao do Michael Douglas, que é viciado em sexo e se casou com a Catherine Zeta-Jones, achando que isso iria ajudar. Eu olhava para a Fnac, do outro lado da rua, e me sentia como alguém que se mudou para a favela da Rocinha somente para largar o vício em cocaína.

Os primeiros dias foram difíceis. Às vezes, eu olhava pela janela e dava de cara com ela ali, cinzenta, tristonha, sentindo minha falta. Mas as noites eram piores. Eu entrava em casa e abraçava minha coleção de CDs, chorando e pedindo desculpas porque não trouxe nenhum amiguinho novo hoje. E as alucinações? Por causa da abstinência, eu acordava, de madrugada, vendo livros, CDs, DVDs e jogos de Wii flutuando pelo quarto e rindo da minha cara. Sonhava que estava na galeria do rock comprando pilhas de CDs e acordava gritando coisas como “Parcela em 5 vezes! Parcela em 5 vezes!!

Eu precisava comprar algo. Qualquer coisa.

Numa madrugada, cheguei ao fundo do poço. Tremendo e suando frio, tive que me controlar para não pegar meu cartão de crédito e descer até o térreo do prédio para perguntar ao porteiro se ele não queria me vender o interfone. Só não fui por medo da minha síndica.

Mas, aos poucos, as coisas começaram a se acalmar. Claro que passei por outros momentos difíceis, quando o dono de uma banda de jornais me expulsou do local porque eu estava lambendo um Homem de Ferro especial, ou quando o segurança de um shopping center pediu para eu parar de ficar apoiado na vitrine, de uma loja de DVDs e olhando para as pessoas lá dentro como um mendigo na janela de um restaurante.

Mas sobrevivi.

Um mês se passou. Hoje, um pouco mais calmo, achei que era hora de testar o vício. Me enchi de coragem e tomei a decisão que poderia mudar minha vida.

Fui até a Fnac.

(continua...)