31 de julho de 2011

Nasceu! [3]

Não sei ao certo como a ideia nasceu.

Pelo que me lembro, estava andando sozinho na rua. Mas claro que posso estar apenas imaginando isso, já que a maioria das ideias que eu tenho a respeito de assuntos para escrever (e como escrevê-los) nasce quando estou indo até uma livraria, na fila do cinema ou voltando do supermercado.

Independente disso, entretanto, eu sei o que fez a ideia brotar em mim. Se existe algo que sempre me intrigou como escritor é a minha capacidade de escrever alguns textos numa velocidade espantosa, com a mente funcionando mais rápido do que os dedos sobre o teclado. Estou certo de que isso não acontece somente comigo, mas com todos que escrevem. Basta apenas encontrar o tema certo, no momento certo, e a crônica se faz praticamente sozinha.

Já pensei muito sobre isso e a única conclusão a que cheguei é que os textos – ao menos, alguns deles – estão vivos dentro de nós, simplesmente esperando para sair.

Como eu disse, não sei se eu estava na rua ou em casa, mas certamente foi quando eu cheguei a esta conclusão que veio a ideia de escrever uma crônica por hora durante um dia inteiro. 24 Horas, 24 Crônicas. Mais do que desafiar a mim mesmo, estava provocando os textos a finalmente assumirem que eles existem antes de serem escritos.

Algumas pessoas vieram me falar que passar 24 horas escrevendo era loucura, mas não dei atenção – passei anos fazendo isso trabalhando com jornalismo. Não é algo fácil, mas não é impossível. O meu problema não seria a falta de sono, mas sim a falta de temas. A solução foi convocar os leitores do Twitter para me ajudarem.

Sendo assim, a cada hora eles sugeriam temas e eu escolhia um dos assuntos propostos – justamente aquele que me cutucasse no ombro, cochichando que estava pronto para ser escrito – e eu teria sessenta minutos para transformar a ideia em um texto. Era como se eu estivesse pescando crônicas (e, em poucos casos, adaptei um pouco a ideia original, mas sempre pedindo “licença” ao autor do tema).

Tudo começou por volta das 22 horas de uma sexta-feira. Talvez o primeiro texto tenha sido um dos mais difíceis, escrito com o nervosismo do prazo e com o medo de não ficar bom. As pessoas gostaram e fomos para o segundo tema. Quando eu percebi, já estava no meio da madrugada com seis ou sete escritos. Todos sobre assuntos diferentes e, na medida do possível, em estilos diferentes.

Alguns momentos foram muito difíceis. Graças ao cansaço por passar uma noite em claro escrevendo, desmoronei em lágrimas na frente do computador ao escrever um texto cujo tema me tocou particularmente. Contudo, alguns textos depois, minha vida foi salva por um texto mais leve que me fez gargalhar enquanto escrevia. Se existe algo que aprendi com tudo isso é que uma gargalhada sincera equivale a uma noite de sono. Ou chega bem perto.

Mas a grande descoberta de tudo isso foi a sensação de escrever junto com os leitores. Em determinado momento, o projeto todo se desvirtuou. Não envolvia mais prazos apertados e temas escolhidos à queima-roupa, mas sim escrever praticamente na frente dos leitores, que viam os textos sendo produzidos em tempo real.

Mais que as mensagens de incentivo para que eu vencesse o cansaço, mais que os diversos parabéns que recebi pela coragem de colocar isso em prática, a proximidade com os leitores foi o que me tocou. Um escritor e dezenas de leitores passando horas brincando com temas, criando personagens, diálogos e mundos inteiros, lado a lado. Escrevi 24 textos em 24 horas, mas, caso eu fosse tentar escrever algo sobre esta sensação, demoraria dias.

Justamente por isso que o momento mais difícil do projeto inteiro foi o final. Eu mal conseguia andar, por ter passado a maior parte das 24 horas com as pernas cruzadas, e não conseguia enxergar direito nada que não fossem letras e teclas na minha frente, mas não conseguia desgrudar do computador. As 24 horas já haviam se tornado 25 e eu precisava continuar escrevendo, precisava voltar para o computador, precisava escrever mais uma única crônica – com isso, fica fácil entender o último texto, no qual eu converso com meu blog sobre a necessidade de escrever mais um texto- e o fiz, colocando uma carta de agradecimento aos leitores antes de desligar o computador.

Em outras palavras, as crônicas venceram. Eu exigi que elas mostrassem a mim que são vivas, mas elas foram além e praticamente me transformaram em um enorme texto. Eu não conseguia mais sair da frente do computador porque eu não conseguiria mais ficar sem escrever. Mas fui praticamente obrigado a me deitar na cama e apaguei. Dormi catorze horas seguidas e acordei ainda preso nisso. Precisei esperar dois ou três dias para voltar ao normal.

E, quando voltei a mim, percebi que eu havia escrito um livro em um único dia. A ideia era tentadora demais para ser abandonada. Pelo contrário, ela poderia crescer, já que eu tinha um manancial de temas não utilizados, e prontos para se tornarem textos.

Vasculhando todos os temas que me foram propostos, mas não escritos, selecionei alguns e me coloquei a escrever. Desta vez, sozinho, em silêncio e sem prazos – mas alguns novamente foram escritos em menos de dez minutos, o que considerei como mais uma provocação das crônicas.

Com o passar do tempo, tudo isso se transformou neste livro que, agora, você tem em mãos. Em respeito à cronologia de como tudo aconteceu, ele está dividido em duas partes: a primeira, com os textos produzidos dentro da maratona, exatamente na ordem em que foram publicados. Claro que eles foram revisados – algo impossível de ser feito com esmero na correria da noite em claro – e tiveram alguns trechos reescritos, mas sua essência é a mesma. Nenhuma história foi alterada, mesmo que eu ficasse tentado a modificar alguma coisa.

Já a segunda parte são os temas que chamaram a minha atenção, mas que foram deixados de lado por qualquer outro motivo e que agora ganharam uma nova chance. Estes textos não possuem ordem alguma, a não ser dois deles (Paisagens Noturnas e Espelho) uma vez que o segundo foi pensado como continuação direta do primeiro. E vale lembrar que um dos temas (O Marketing e o Maestro) é sugestão minha. Afinal, depois de colecionar ideias dos outros, fiquei com um pouco de inveja dos leitores e decidi que eu queria brincar de propor temas também.

E, ao final de tudo, coloco uma lista relacionando cada crônica a seu tema original, para que os leitores, especialmente aqueles que não assistiram ao projeto em tempo real, entendam qual foi o tema escolhido e como ele se transformou em um texto. Meu conselho é que deixem sempre para verificar o tema ao final, pois, muitas vezes, a antecipação do assunto pode acabar com a surpresa do texto em si.

Pois poucas coisas são mais gostosas que ser surpreendido ao ler uma crônica. Afinal, ao produzir cada um destes textos, descobri que nada é mais gostoso que estar do outro lado e ser surpreendido enquanto se escreve. E eu me surpreendi muito com algumas delas, vendo personagens tomarem decisões e situações se desenrolarem de forma totalmente diferente do que imaginei ao escolher os temas.

Espero que vocês também se surpreendam.

Rob


********************

Este é o texto de abertura do meu novo livro, 24 Horas, 48 Crônicas, que começou a ser vendido hoje (em versão impressa e ebook) no Clube dos Autores. Para conhecer, clique aqui!

Poderia falar muito mais sobre isso, mas creio que o texto em si resume muito bem o que sinto a respeito disso, e qualquer outra linha seria repetitiva. Apenas gostaria de deixar aqui no blog um muito obrigado a todos vocês - sempre reiterando que conto demais com a colaboração de todos na divulgação do livro - e apresentar-lhes a capa do livro:


Sim, Cinco.

Hoje, este blog agradece a todos os leitores por cinco anos maravilhosos.

28 de julho de 2011

Era uma Vez na Fnac

Foi agora, minutos atrás, na seção de Blu-rays da Fnac.

Eu estava voltando da terapia e passei por ali em busca do Kick-Ass, que, desde que li os quadrinhos alguns dias atrás, é minha nova paixão. Assim, fui dar uma pesquisada no preço do disco para, quem sabe, se fosse barato, fazer uma pequena loucura e ter o que assistir hoje à noite.

Achei o Kick-Ass e fui conferir o preço. R$ 80,00. Na verdade, era R$ 79,00, mas prefiro pensar que era R$ 80,00. Não sei o motivo, mas tenho a impressão que uma coisa ser vendida por R$ 79,00 está mais cara que outra que custa R$ 80,00. Talvez seja pelo tamanho do algarismo.

Vamos tentar.

- Quanto custa isso?

- Oitenta reais.

E agora:

- E este aqui?

- Setenta e nove reais.

- SE-TEN-TA E NO-VE? Tudo isso? Como assim?

Viram?

Enfim, o Kick Ass custava 80 reais. Imediatamente, meus neurônios do departamento de consumo começaram a fazer planos. Abriram uma planilha de Excel – normalmente não tem nada na planilha, eles abrem apenas porque dá um ar de importância para a coisa – e começaram a dialogar.

- Se nós levarmos outro filme, podemos parcelar no cartão.

- Verdade?

- Sim, em duas vezes. E dois filmes!

- Que demais! Vamos pegar então a Coleção Kubrick?

- Você está louco! São sete filmes!

- Mas é uma caixa só. Talvez ele não perceba isso.

- Ele é tapado, mas há limites.

- Esse Kick Ass é bom?

- Não sei. Acho que é de super-herói, eu só ouvi falar. Os neurônios do departamento
de nerdices estavam comentando no almoço, outro dia. Ei, o que é aquilo?

- Acho que é uma promoção. Olhe! Dois Blu-rays por R$ 59,90!

- Vamos lá ver? Acione as pernas aí.

Assim, me aproximei da bancada de DVDs em promoção e selecionei dois filmes que eu estava namorando faz tempo. Clube da Luta e Touro Indomável. Fiz as contas, tudo daria R$ 140,00. Começo de mês, fatura do cartão acabou de abrir... Ok, eu mereço me mimar às vezes. Por outro lado, talvez encontrasse outra coisa se fuçasse na loja. Aí eu deixaria o Kick Ass para outro dia, e pegaria algo mais barato.

Dei dois passos e, vi algo brilhando à frente.

Subitamente, os neurônios de todos os departamentos do meu cérebro, gritaram em uníssono:

- Aquilo é o que estamos pensando? Pernas, rápido!

Sem saber ao certo, o motivo, pulei na direção do objeto que brilhava. No processo, eu quase derrubei uma velha que estava procurando por um show do Padre Marcelo. Pensei em pedir desculpas, mas os neurônios gritaram ainda mais alto.

- Esquece a velha! Pegue o filme!

Peguei. Em minhas mãos, o brilho do objeto diminuiu e me permitiu ler o título do filme. Não consegui esboçar outra reação que não cair de joelhos, no meio da Fnac, apertando a embalagem no peito e sussurrando algo como:

- ObrigadomeuDeusobrigadomeuDeusobrigadomeuDeusobrigadomeuDeus.

Um segurança passou por perto e me levantei rapidamente, com medo de que ele achasse que eu fosse um terrorista com uma bomba. Mas, claro que se ele viesse perguntar, eu iria tirar satisfações empurrando ele contra a parede e gritando que “como assim você está chamando isso aqui de bomba?”. Mesmo assim, levantei e me afastei. Fui ver o preço do objeto que tinha em mãos. Passei no segundo leitor óptico (porque não importa a loja onde você está, o leitor óptico mais próximo de você nunca funciona) e a máquina me informou o preço:

- NÃO IMPORTA. LEVE.

Achei melhor obedecer. Fui direto ao caixa. Só no meio do caminho percebi que estava ainda com o Clube da Luta e o Touro Indomável em mãos. Nem me importei. Cheguei ao caixa e fui atendido.

- Pois não?

Arrumei meu chapéu e meu casaco. O vento começou a levantar poeira ao meu redor.

- Você conhece um homem que anda por aí tocando gaita?

- Senhor?

- É fácil de achá-lo. Ele toca quando deveria falar, e fala quando deveria tocar.

A mulher do caixa me encarou, provavelmente decidindo entre pedir um aumento ao final do dia, perguntar se eu tinha algum problema mental ou ambos. Ah, pobre criatura. Se soubesse o que eu tinha em mãos.

Entreguei os produtos e o cartão Fnac. Ela digitou o código e confirmou meu nome.

- Sr. Rob Gordon?

Olhei para ela de modo frio. O vento continuava. Calmamente, cuspi uma bola de tabaco babada e disse:

- Bem... Agora que você disse meu nome...

- Como senhor?

- Podemos pagar e ir embora? Queremos ver o filme!

Esta última frase, evidentemente, foi dita pelos meus neurônios. Acordei do transe, paguei e subi correndo a Teodoro. Agora estou em casa, de banho tomado, barba feita e com a minha melhor roupa. E uma almofada, porque este filme é para ser visto de joelhos.

Até amanhã.


Se eu soubesse que este filme estava sendo vendido
em Blu-ray, eu teria dormido na porta da Fnac.

26 de julho de 2011

Muito em Breve

Escolhe escreve salva. Escolhe escreve salva. Escolhe escreve salva. Revisa revisa revisa. Escolhe escreve salva. Escolhe escreve salva. Escolhe dorme um pouco escreve salva. Revisa revisa revisa. Escolhe escreve salva. Escolhe escreve sai para comprar cigarros volta no meio do caminho e salva e sai para comprar cigarros. Escolhe escreve salva. Escolhe escreve salva. Escolhe não depois eu como algo escreve salva.

25 de julho de 2011

Amigo de Verdade


Em minha opinião, uma das maiores invenções da humanidade é o telefone celular. E não pela facilidade de você fazer e receber chamadas de qualquer lugar, mas por causa de sua agenda de contatos. Eu nunca tive muita disciplina para anotar telefones no mesmo lugar. Minha agenda telefônica era formada por capas de revistas, sacos de pão e jornais, o que fazia com que eu perdesse metade dos meus contatos religiosamente a cada mês.

Hoje, eu não perco mais nada. A não ser, claro, que roubem meu celular. Aí perco tudo.

Mas não perco o telefone dos amigos. Esses eu sei de cor.

(leia mais aqui)

Apenas o Post de 25 de Julho

Outro dia eu estava no trabalho e desci para fumar um cigarro na calçada. Desta vez, não encontrei a Abelha Sith. Pelo contrário, o cigarro foi bastante tranquilo. E meio solitário, até alguém vir falar comigo.

Era o faxineiro do prédio, que já me conhece de vista porque, às vezes, eu roubo um copo de café dos funcionários. E, por me conhecer somente de vista, ele quis saber mais sobre mim e veio puxar papo.

- Está tranquilo hoje?

- Sim, bastante.

- Posso perguntar uma coisa?

- Claro.

- O que você faz?

- Como assim?

- Aqui. O que você faz? Qual seu trabalho?

Não sabia como responder, então fui o mais óbvio possível.

- Eu escrevo.

- Escreve o quê?

- Páginas na internet.

- Mas que páginas?

- São três meninos diferentes. Cada um tem uma página na internet. Eu escrevo isso.

E mais não digo. Não perguntem.

- E o que eles falam lá?

- Basicamente, é a rotina de cada um deles. Como se fosse uma novela.

- Mas como você faz isso?

- Eu decido o que vai acontecer com eles... O que cada um vai fazer... E aí escrevo.

- Entendi.

- É isso.

- E é difícil?

Nunca tinha pensado sobre isso. Passei alguns segundos em silêncio, pensando em como responder.

- Mais ou menos. É difícil porque cada um tem uma rotina diferente, e um modo de falar. Então, eu não preciso apenas escrever o que acontece com eles, eu preciso pensar como se fosse cada um deles. Mas depois que você pega o jeito, é fácil.

- Fácil?

- Sim. Quando você aprende o que cada um quer, faz ou fala, a coisa entra no rumo e é só escrever.

Certo, eu exagerei um pouco. Não é tão fácil assim. Mas, realmente, quando acontece isso, não é tão difícil.

- E aqui você só escreve isso?

- Tem mais outros textinhos, mas é basicamente isso.

Ele olhou para o céu, provavelmente pensando se iria chover ou não. Em São Paulo, as pessoas fazem isso o tempo inteiro. Passou alguns instantes e virou-se para mim novamente.

- Faz tempo que você faz isso?

- Essas páginas?

- Não. Escrever.

Minha vez de parar um pouco. Não sabia exatamente há quanto tempo faço isso, mas não conseguia me lembrar de uma época em que eu não escrevia. Mesmo agora, eu consigo me imaginar sem escrever, mas não me lembrar. E provavelmente imaginei a mim mesmo sem escrever não como uma pessoa real, mas como um personagem. Ou seja, eu já estava escrevendo novamente. Voltei minha atenção a ele e respondi.

- Faz anos.

- Você gosta?

- De escrever?

- Sim.

Eu poderia ter respondido muita coisa.

Poderia ter falado que eu não sei fazer outra coisa e que nada me realiza tanto quanto isso. Poderia ter respondido que sou apaixonado por todos os meus textos – mesmo enxergando defeitos em cada um deles – sejam aqueles que demoraram dias para serem escritos, sejam aqueles que pareciam estar prontos e esperando para sair de mim, sendo escritos literalmente em minutos. Poderia ter falado que sim, que muitas vezes eu gosto, mas que em outras, é quase uma necessidade. Poderia ter falado que ver as letrinhas formando palavras e as palavras formando frases, na tela à minha frente, ainda me encanta como se eu fosse um menino.

Mas, como escrever é a arte de cortar palavras, às vezes conversar também é. Assim, respondi apenas que:

- Adoro.

Se você se sente da mesma forma, feliz Dia do Escritor para você.

19 de julho de 2011

Ida & Volta

Ida

- Posso pagar em cheque?

- Sim, claro.

- Ok. Que dia é hoje? Dezenove? Vinte?

- Dezenove.

- Obrigado.

- De julho.

- O mês eu sabia. Era só o dia. Obrigado.

- De 2011.

- Esse eu sabia também.

- Dezenove de julho de 2011.

- Depois de Cristo?

- Oi?

- Nada. Olhe, está aqui. Obrigado.


Volta

- Este ônibus passa no Largo de Pinheiros?

- Oi?

- Passa no Largo de Pinheiros?

- Oi?

- Passa no Largo de Pinheiros? O Largo da Batata, sabe?

- Oi?

- Você pode tirar esta merda de fone de ouvido da merda da sua orelha?

- Oi?

- Este ônibus passa no Largo de Pinheiros?

- Passa.

- Ok.

Aconteceu um Dia Quando eu Tinha Cerca de 30 Anos


Estava almoçando com a minha mãe e conversando sobre a vida. Em algum momento antes da sobremesa, ela soltou a bomba:

— Alguns anos atrás, eu achava que você não daria certo.

Ela disse a frase com a naturalidade de uma pessoa que pergunta se tem mais suco. E tudo o que eu consegui fazer foi engasgar com a comida. Coloque-se no meu lugar: eu havia acabado de descobrir que até mesmo minha mãe pensaria duas vezes antes de apostar em mim. Se a vida fosse uma Copa do Mundo, isso me colocava no mesmo patamar de um Egito ou uma Irlanda, ou de qualquer outra seleção que nem sequer a própria torcida acredita que passará da primeira frase.

(Leia mais aqui)

18 de julho de 2011

Em Breve.


24 Horas + 24 Temas = 24 Crônicas

24 Crônicas + 24 Temas = ?

16 de julho de 2011

Carta Aberta aos Meus Leitores

Eu não sei faço ideia de como começar a comentar o que aconteceu nas últimas 24 horas.

Para mim, foram mais do que 24 textos, mas sim um dos momentos mais importantes que eu tive na minha vida, desde que coloquei na cabeça que queria ser escritor.


E não foi por causa dos textos. Adorei alguns dos posts que fiz neste projeto; outros, não gostei tanto. Alguns eu quis mudar no meio do caminho, mas não havia mais tempo, precisavam ser postados. Paciência. São apenas textos. Por mais que sejam divertidos ou emocionantes; por mais que estejam bem ou mal escritos, eles são apenas textos.

Porque o aconteceu hoje foi muito maior que 24 textos, postados hora a hora.

O que aconteceu hoje foi, para mim, algo que ainda não consegui dimensionar.

E quem fez tudo isso foram vocês. A ideia começou como um desafio de mim para mim; em poucos minutos, se tornou uma brincadeira nossa; e, a partir do momento que vocês mergulharam junto comigo, a coisa se transformou em algo de dimensões absurdas. Não é questão de ter sido o primeiro a fazer isso na net (não sei se fui). É questão de ter feito junto com vocês, o tempo inteiro, a cada minuto destas 24 horas.

E não estou falando simplesmente das sugestões de temas (adoraria ter usado todas, juro). Estes 24 textos não são meus; são nossos. Hoje vocês se apoderaram deste blog e mostraram que possuem um carinho por isso tão grande quanto o meu, ou até maior. E vocês não fazem ideia do que isso significa, mesmo com anos e anos de blogs nas costas, mesmo com um livro publicado.

Mas estou me referindo também aos diversos “força, Rob” e “aguente firme, Rob” que recebi quando comecei a pedir arrego. Quando a vista começou a falhar, quando as pernas não obedeciam mais ao corpo quando eu ia pegar Coca ou café, quando foi difícil ficar acordado, quando os dedos não obedeciam mais a um cérebro que não conseguia sequer pensar direito. E a cada mensagem que vocês mandaram dando força e falando para eu aguentar “que faltava pouco” (mesmo quando não faltava) fazia com que eu tirasse energia sabe-se lá de onde.

E continuei. E cheguei até o final

Mas não são apenas as sugestões e as mensagens de incentivo. A cada minuto, vocês mergulharam neste 24 Horas, 24 Crônicas com uma intensidade espantosa, transformando este projeto em algo de um tamanho que eu jamais teria imaginado. Eu tive a ideia. Eu escrevi. Eu varei a noite. Mas foram vocês, cada um de vocês, que transformou isso num verdadeiro fenômeno.

E eu nunca vou esquecer isso.

Mas se eu pudesse escolher somente uma sensação, uma situação, um momento do dia de hoje, eu escolheria certamente alguns comentários que recebi no meio da madrugada e no começo da manhã – momentos em que, devido ao cansaço eu estava com as defesas totalmente baixas.

Foram comentários a respeito do que eu sempre tentei fazer neste blog que me deixaram com os olhos marejados e com vontade de dar um abraço enorme em cada um de vocês. Especialmente comentários nos quais pessoas afirmavam abertamente ter carinho pelo blog, carinho pela forma com que trato os leitores.

Se você ama aquilo que faz, isso é mais importante que escrever o melhor texto do mundo. Isso é mais importante que fama ou dinheiro. Se você ama sua obra, um comentário desses faz com que você queira continuar escrevendo e postando eternamente. E foda-se dormir, comer, banho, foda-se tudo.

Por isso que, enquanto digito isso, estou fisicamente arrebentado. Mas emocionalmente eu ainda estou aqui. Eu ainda me recuso a largar o notebook. Eu ainda não quero que acabe.

Seria impossível agradecer dando nome por nome aqui, não vou nem tentar. Mesmo porque, neste momento, eu mal consigo saber o meu nome. Mas quero agradecer a todos. Quero agradecer a todos que tentaram ficar comigo o tempo inteiro, mesmo sem conseguir; a todos que saíam e voltavam; a todos que simplesmente vieram me incentivar e torcer para que eu chegasse ao final disso, mesmo que tenha sido com uma mensagem, com um comentário no blog, com um RT. Não importa.

Agora, eu vou dormir. Porque eu preciso dormir para voltar a escrever. Preciso voltar a escrever para vocês, preciso voltar a escrever com vocês. Ou alguém realmente acha que eu não vou fazer isso novamente? Ou, melhor dizendo, alguém realmente acha que nós não vamos fazer isso novamente? Vamos. E antes do que vocês imaginam. Mas, antes que isso aconteça, gostaria de me despedir compartilhando duas certezas com vocês.

Eu nunca vou esquecer o que aconteceu aqui hoje.

E, mais importante: eu nunca vou esquecer o que vocês fizeram hoje.

Com amor,

Rob.

15 de julho de 2011

#24Horas24Cronicas

Vamos lá.

Após considerar todos os comentários e sugestões que recebi nos últimos dias, o projeto “24 Horas – 24 Crônicas” acontecerá hoje, a partir das 22h00min (se houver alguma mudança no horário, avisarei por Twitter). Assim, avisem os amigos, pois, quanto mais gente estiver online durante as 24 horas, melhor.

Ao contrário do que foi sugerido, não leiloarei as horas com antecedência, por um motivo: eu tenho muito mais que 24 leitores, e fazer isso impediria que os demais participassem sugerindo temas, que será a grande graça da coisa: eu escrevo, mas todos participam.

As coisas funcionarão da seguinte maneira:

1 – Perto de cada hora “redonda” (por exemplo, 22h00min) vocês me sugerem temas pelo Twitter (eu não olharei e-mails ou comentários do blog durante as 24 horas), sempre usando a tag #24Horas24Cronicas. Digamos que eu receba três sugestões. Escolherei uma e avisarei por Twitter qual vou usar. Update: se você é novo aqui, meu twitter é @robgordon_sp.

2 – Assim, tenho até a outra hora (neste caso, 23h00min) para postar o texto e divulgá-lo no Twitter. E o postarei no Champ, ou no Chronicles, não sei ainda – creio que depende do texto, mas imagino a maioria deles no Chronicles, por ser ficção. Perto da próxima hora “redonda”, o processo se repete.

3 – Sejam criativos, mas coerentes, nos temas. Temas como “cemitério”, “chuva”, “jogo de futebol”, “ciúmes”, "saudade", "taxista", são bem vindos. Já temas como “elefante verde correndo de guaxinins vampiros em Júpiter” não são. Evidentemente, sugestões como “escreve aí sobre um menino que perdeu a avó de câncer e fica olhando o retrato dela” serão ignoradas (a não ser que sejam MUITO boas), pois não é uma sugestão, mas sim uma crônica já escrita (mesmo que de forma preguiçosa).

4 – Se nas horas mais ingratas (por exemplo, 05h00min) ninguém estiver online sugerindo temas, me darei o direito de recuperar sugestões dos horários anteriores.

5 – As crônicas poderão estar interligadas ou ligadas ao horário em que foram escritas, mas isso não será uma obrigatoriedade. Posso ou não fazer isso, dependendo do tema, do horário e da minha inspiração. E do meu sono.

6 – Já disse para espalharem para os amigos durante o dia?

Dúvidas? Perguntem nos comentários e eu respondo.

As 22h00min eu começo. Quem vem comigo?

14 de julho de 2011

Rob Gordon X Everybody Hurts

Não sei se vocês sabem, mas eu comprei um iPod. 160gb. Antes que comecem com as piadinhas sobre compensação pela minha altura (apesar de “160gb” e “1.60m” renderem, juntos, um ótimo trocadilho), deixo claro que o motivo da compra foi justamente espaço. Não aguentava mais ter que selecionar músicas para colocar no meu antigo mp3, deixando de fora muita coisa que eu gostava.

Na verdade, toda vez que eu carregava o mp3, eu e meu PC passávamos por um processo semelhante à divisão de bens em um divórcio. O player tinha 4gb, o que não ajudava muito. Era mais ou menos assim:

Rob Gordon: Eu quero colocar a minha coletânea dos Beatles inteira.

PC: Nem pensar!

Rob Gordon: Mas a coletânea é minha. Eu fiz sozinho, demorou dias!

PC: Não importa. Você já está levando este best of do Bowie. Você não pode levar tudo.

Rob Gordon: Então você fica com o Bowie. Pode ficar com esta do Doors também.

PC: Mas a dos Beatles tem 100 músicas! Você ainda leva vantagem!

Rob Gordon: O que mais você quer?

PC: Não sei. John Lee Hooker. Que tal?

Rob Gordon: Nem a pau. Estou ouvindo o tempo inteiro.

PC: Você que sabe.

Rob Gordon: O John Lee Hooker fica.

PC: I read the news today, oh boy…

Rob Gordon: Não comece!

PC: ... about a lucky man who made the grade…

Rob Gordon: Ok! Ok! Leve o John Lee Hooker. Me dá os Beatles.

PC: Com John Lee Hooker, vem Robert Johnson também, certo?

Rob Gordon: Bom... Tudo bem.

PC: Então estamos combinados. Você fica com Beatles. Eu fico com David Bowie, John Lee Hooker e Robert Johnson.

Rob Gordon: Ok.

PC: E Esse Beethoven aqui?

Rob Gordon: O Beethoven é meu! O Beethoven é meu!

PC: Nem a pau!

Rob Gordon: Não encosta no Beethoven!

PC: Só sinfonias são nove! Vão ficar comigo!

Rob Gordon: Não, o Beethoven eu não admito.

PC: Então devolve os Beatles.

Rob Gordon: Não, olha... Deixa eu levar só uma sinfonia. A Nona.

PC: Não. Eu deixo você levar aquela do caminhão de gás.

Rob Gordon: O nome é Pour Elise.

PC: Isso. Pour Elise. Pode levar essa.

Rob Gordon: Mas eu quero a Nona.

PC: Esquece. Se você tiver alguma reclamação, fale com meu advogado.

E assim eu saía de casa, com discografias incompletas, coletâneas de coletâneas. Em alguns casos (como Shine on You Crazy Diamonds, do Pink Floyd), eu era obrigado a colocar apenas um trecho da música. Passava o dia inteiro ouvindo o refrão e imaginando o resto da música.

Agora, tudo isso acabou.

Com meu iPod de 160gb, consigo levar tudo o que quero no bolso. Discografias, coletâneas, discos ao vivo... E passo os dias brincando com meu iTunes, ordenando tudo por gênero e ano, caçando capas. Se o pessoal da Apple visse a forma que eu uso o software, provavelmente o departamento de marketing iria sugerir mudar o nome do programa de iTunes para iTOC.

E, claro, me divirto criando listas. Normalmente são listas comuns com nomes como Heavy Metal, Blues, e Beatles. Mas sei que, mais cedo ou mais tarde, minha demência vai exigir a criação de listas mais elaboradas, com nomes como “Manhã Chuvosa de Terça-Feira” e “Canções de Relaxamento Pós-Feijoada”. É apenas uma questão de tempo.

Mesmo porque minha demência já deu o ar da graça na primeira lista que criei.

O nome?

“Obsessões”.

(Se você for minha psicóloga, pare de ler agora, por favor. Aliás, você já deveria ter parado de ler no momento em que o PC falou comigo.)

Nesta lista eu não reúno as músicas que mais gosto. Eu vou além. O nome da lista é autoexplicativo: nela, estão apenas as músicas pelas quais eu sou absolutamente obcecado. Não é gosto pessoal. São músicas que me perturbam. São canções que me colocam em uma espécie de transe. Basta uma delas tocar para eu ficar hipnotizado, feito um cachorro olhando os frangos girando no forno na calçada da padaria.

Fico estático, olhando o aparelho de som com os olhos arregalados, sem conseguir respirar direito, incapaz de entender o que acontece ao meu redor. Quando eu coloco a lista inteira para tocar, então, metade das minhas funções vitais desaparece antes da quarta música. Sobra apenas a audição. E os olhos arregalados, que certamente me confere um ar totalmente imbecilizado.

Sem exagero, se o prédio se incendiar, eu não vou reparar. Aliás, é capaz dos bombeiros derrubarem a porta do meu apartamento com um machado para me salvar, e eu ainda reclamar que:

- Não! Agora é a parte do sitting in an english garden waiting for the Sun! Todo mundo quieto!

E tem de tudo um pouco nesta lista. A maior parte é Beatles, mas existe Bowie, The Doors, Beach Boys, Rolling Stones. Tudo escolhido a dedo e sem dificuldade alguma, porque se existe algo que eu entendo, no mundo, são as minhas obsessões. Elas não são poucas – o que me faz pensar se eu não sou obcecado em ter obsessões – mas estas músicas sempre ocuparam um lugar de destaque.

E todas elas têm o mesmo efeito em mim.

Todas. Menos a maldita Everybody Hurts, do REM.

Ela é a exceção que confirma a regra. Enquanto as outras músicas me congelam, esta me corta. Esta música faz doer, inclusive (e especialmente) fisicamente. Sim, existem outras músicas que doem (a primeira vez que ouvi as versões de Ray Charles para Yesterday e Eleanor Rigby passei quatro dias no sofá, chorando e bebendo), mas esta é a que mais dói.

Everybody Hurts foi o mais perto que a humanidade chegou de fazer uma versão cantada de Sonata ao Luar, do Beethoven. Na verdade, acredito que o nome da música é um aviso, dizendo que qualquer pessoa irá se machucar ao ouvi-la. Ela deveria ser usada em guerras, como arma.

E quis o destino que o babaca aqui fosse obcecado por ela.

Então, quando eu espeto o iPod no aparelho de som e coloco a lista Obsessões para rolar, a casa se enche de Beatles e Bowie. Meu cérebro congela e se deixa levar pelas obsessões (a voz do Lennon, os backing vocals dos Beach Boys), mas um lado dele permanece atento, olhando ao redor feito um gato que, numa noite qualquer, descobriu que foi parar acidentalmente dentro do Canil Municipal.

É o meu instinto de sobrevivência. Pois ele sabe que se aquela lista está tocando, o inimigo está à espreita. Vigiando. Espreitando. Esperando eu virar as costas para começar a tocar. Eu posso ser atacado a qualquer minuto, logo depois do The Man Who Sold the World ou de God Only Knowns.

De repente, eu não sou mais um Rob Gordon em transe, mas sim um animal africano que, de forma patética, decidiu beber água sabendo que existe um leão por perto. E basta eu abaixar a guarda (leia-se: aproveitar o silêncio do intervalo entre uma música e outra para conseguir me mover novamente e voltar ao sofá) para ela pular do aparelho de som na minha direção.

Sem aviso. Sem piedade.

Nos primeiros acordes, eu começo a me sentir com o estômago embrulhado. É o medo. E a maldita Everybody Hurts é capaz de farejar o medo. O cheiro do meu medo a perturba, fazendo com que o Michael Stipe comece a cantar “When the day is long, and the night... The night is yours alone...

Como qualquer zebra perseguida por um leão, eu tento escapar. Corro na direção do aparelho de som, tentando desligá-lo antes que seja tarde demais. As primeiras frases já machucaram, mas, se conseguir escapar agora, ainda poderei me refugiar em uma caverna e ficar lambendo minhas feridas.

Mas esta música não tem apenas o poder de machucar. No universo das músicas tristes, Everybody Hurts é uma espécie de mutante com superpoderes. Ela também altera as leis da Física. Enquanto ela toca, o mundo se acelera e eu me torno um homem em câmera lenta.

Até eu conseguir me aproximar do aparelho de som, já se passou mais de um minuto de música. É mais ou menos como no Matrix, mas eu sou um cara qualquer e a porra do iPod é o Neo. Eu mal consigo me mover direito, enquanto o player tem a velocidade de um raio e parece estar sempre longe de mim ou desferindo 36 golpes por segundo na minha cara.

Tento esticar o braço na direção do iPod, mas em vão. Porque, no “everybooooody hurts”... a dor se torna insuportável. A esta altura, todos os meus neurônios se tornaram crianças e estão reunidos num cinema assistindo repetidamente a cena em que o E.T. morre. Minha pele queima, meus órgãos estão prestes a explodir. Meus olhos estão saltando das órbitas, querendo chorar de desgosto pela vida.

E, no “sometimes.... sometimes everything is wroooong”, eu caio. Havia conseguido resistir até o momento, preso nas cordas, encurralado, mas o “everything is wroooong” é um gancho bem colocado que fura minhas defesas e me acerta em cheio. Na boca.

Caio de boca no chão, beijando a lona.

Os narradores esportivos não conseguem disfarçar sua excitação, gritando “Caiu! Golpe espetacular de Everybody Hurts! Rob Gordon Caiu!”. O público, sedento de sangue, se levanta agitado para ver de perto. Apostadores, sabendo que a música era franca favorita no combate, sorriem pensando nos dólares que ganharão com o resultado.

E fico deitado ali até o final da música, me contorcendo de dor. Quando a música se torna apenas instrumental, consigo reunir forças e esticar o braço, mas nunca alcanço o fio que liga o som à tomada.

E ele começa a cantar novamente. É como um gato torturando sua presa. Tudo o que posso fazer é me contorcer no chão e pedir por uma morte rápida.

If you're on your own in this life
The days and nights are long


- EU FAÇO O QUE VOCÊ QUISER! POR FAVOR!

If you're on your own in this life
The days and nights are long


- EU ASSINO O QUE VOCÊ QUISER! FATHER, PLEAAAAASE!

Mas não há nenhum Darth Vader arrependido para me salvar – e se houvesse, ele estaria sentado num canto, chorando baixinho se perguntando se era preciso mesmo ter explodido Alderaan. Não. Estou sozinho, entregue ao ódio do Imperador Palpatine das músicas tristes.

Logo, tudo se torna escuro e minha mente, cansada da dor e da solidão da música, entrega-se à inconsciência. Eu sempre apago antes que a música termine.

Acordo horas depois, machucado, com as roupas manchadas de sangue e o rosto inchado de socos e lágrimas. Até hoje eu não faço ideia de como a música termina. Nunca passei dos quatro minutos. Tentando ignorar a dor, arrasto-me até o sofá e deito. Tudo dói.

E fico horas deitado ali, prostrado, tentando me recuperar. Tentando ignorar a dor.

E ouvindo Yellow Submarine o resto do dia.



Assista por sua conta e risco. Cuidado: a música morde.
(Favor não alimentar a canção)

13 de julho de 2011

How Blue Can You Get?

No Dia Mundial do Rock, é decisão deste blog não falar sobre rock. Ou, ao menos, não exatamente sobre rock. Afinal, hoje em dia pipocarão textos e mais textos sobre o gênero na internet. Alguns serão emocionais, outros serão teóricos. Alguns apresentarão listas das melhores canções, outros dirão que o rock morreu.


No Dia Mundial do Rock, é decisão deste blog voltar mais ainda no tempo e falar sobre blues.

A vontade de escrever sobre blues e como suas músicas praticamente salvaram minha vida – ao menos em alguns momentos – é antiga. Mas acabei sempre deixando a ideia de lado, por dois motivos. No início, eu achava que não entendia o suficiente para escrever sobre o tema. Depois, com o surgimento da HQ Terapia, eu não quis trazer o blues para o blog antes que suas músicas se tornassem parte vital da trama.

Contudo, a presença constante destas músicas nas páginas recentes de Terapia fez surgir o interesse de muitos leitores e amigos pelo gênero, que vieram me pedir indicações de músicas e artistas. Assim, a vontade de escrever voltou. Mas não escrever sobre o blues, e sim sobre a forma que eu enxergo o blues. Pois hoje eu sei que você só entende perfeitamente o blues quando descobre que ele não foi feito para ser entendido. Exatamente como a vida.

Sim, é possível teorizar. É possível falar parágrafos e mais parágrafos sobre a estrutura do blues, abordando os 12 compassos musicais e os versos que seguem a ordem “pergunta-repetição da pergunta-resposta”. Mas teorizar o blues é quase estragar o blues. Mais que música, blues é um estado de espírito.

Da mesma forma, é fácil pintar o blues como é um dos pais do rock, ao lado do country. O número de bandas e artistas que surgiram por causa do blues – ou que tem influência de blues em suas composições – é enorme, indo de Beatles a Bob Dylan, de The Doors a Jimi Hendrix. Como exemplos concretos, basta dizer que o Led Zeppelin foi processado por regravar músicas de Willie Dixon (You Shook Me e I Can’t Quit You Baby) sem os devidos créditos, e que o nome Rolling Stones foi escolhido para homenagear uma música de Muddy Waters. E falar de Eric Clapton aqui seria covardia.

Sim, o blues é o grande pai do rock. Mas, diferente do rock, é impossível precisar sua origem. Gosto da frase que diz que “o blues existe desde o começo dos tempos, desde que a primeira mulher mentirosa conheceu o primeiro homem cafajeste”, mas ela restringe o gênero, apontando que o blues gira somente em torno de corações partidos.

Sim, boa parte das suas composições aborda este tema, mas existem outros assuntos dominantes. O blues canta a verdade que está nas ruas, de uma forma muito mais lírica e muito mais cortante que o rock. Suas músicas são sobre corações partidos, sobre homens que traem e mulheres que tratam mal o homem que a ama; mas também abordam os problemas com a bebida, a falta de dinheiro, a solidão, a fé, paixões doentias, o frio e suas doenças, a ânsia de partir para outro lugar e começar tudo de novo.

Enquanto o rock usa drogas e dorme com groupies, o blues enche a cara de cachaça barata e dorme com as mulheres erradas. Enquanto o rock morre de overdose em hotéis luxuosos, o blues tem pneumonia e perde o salário do dia. Enquanto o rock é acusado de atrapalhar a educação dos jovens, o blues é o marginal que exala o cheiro das ruas. Enquanto o rock quer drogas e sexo durante a noite inteira, o blues deseja apenas uma nota de 20 dólares para pagar um jantar, um par de sapatos confortáveis e um uísque. Enquanto o rock acorda no meio da tarde, o blues acorda cedo porque precisa trabalhar. Enquanto o rock lamenta a saudade do grande amor perdido, o blues sabe que apenas levar este amor para a cama aplacará a dor – que, no caso do blues, chega a ser física. Sim, a dor do blues é quase física. E a felicidade do blues é passageira. Mas existe.

O blues não é uma starway to heaven, tampouco uma highway to hell. O blues é a realidade, seja ele cantado nas cidades grandes ou nas plantações de algodão. Como disse o cantor Brownie McGhee, “o blues não é um sonho, o blues é a verdade.” E a realidade, diferente do sonho de John Lennon, não acaba.

Agora, chega de falar. No Dia Mundial do Rock, deixo vocês com não com um Top 5, mas sim com um Top 3 Artistas de Blues, que, para mim, compõem a Santíssima Trindade do gênero. Não é a toa que são justamente estes que estão retratados nos posters respeitosamente pendurados no quarto do personagem central de Terapia, como visto no último quadro da página 07.

1 - Robert Johnson
É a maior lenda do blues. Ninguém sabe ao certo quando nasceu ou onde está enterrado. Diz a lenda que vendeu a alma ao Demônio, o que seria reforçado (ou explicitado?) por músicas como Hellhound on my Trail e Me and the Devil Blues. Gravou somente 29 músicas, em condições precárias (num hotel, de forma absolutamente amadora) e mesmo assim é considerado um dos guitarristas mais influentes de todos os tempos. Eric Clapton gravou um CD somente com suas canções e Keith Richards afirma que, ao ouvi-lo pela primeira vez, demorou a se convencer de que se tratava de apenas uma pessoa (e não duas) tocando.








2 - Muddy Waters
Provavelmente o maior nome do blues nas décadas de 40 e 50 (sendo redescoberto pelos roqueiros ingleses na década de 60), fez história sobretudo ao ligar sua guitarra na tomada, décadas antes de Bob Dylan fazer o mesmo. Assim, o blues se tornou urbano e, consequentemente, mais safado. Sua obra alterna temas como a dor de ser mal tratado pela mulher que ama (Good Looking Woman) e a vontade de aplacar a saudade com sexo (I Just Want to Make Love to You). Contudo, às vezes deixa a fossa de lado e sai de casa disposto a levar a cidade inteira para a cama graças a sua música, como fica claro em Hoochie Coochie Man, talvez o maior hino da história do blues.






3 - John Lee Hooker
Se existe um bandido na história do blues, este sujeito é John Lee Hooker. Cara de marginal, voz grave e ameaçadora (ele praticamente fala, sem cantar) e, nos últimos anos de vida, figurino de gigolô, não é difícil imaginar que andava para cima e para baixo com uma navalha no bolso. Apesar de falar sobre amor de forma solitária e amarga, também aborda com frequência temas como a pobreza e a busca pela felicidade na forma de uma mulher, de uma garrafa (ou de três garrafas, como fica claro em One Bourbon, One Scotch, One Beer), ou evidentemente, no blues, como fica claro em The Healer.




Existem outros. Muitos outros, talvez até mais famosos, como BB King – que também adoro (o título do post é inspirado em uma canção sua). Mas estes três são os meus. Enquanto os outros músicos de blues cantam para mim, estes três vão além e conversam comigo. É difícil explicar.

Porque, na verdade, o blues é difícil de explicar.

E esta é justamente a sua magia.

12 de julho de 2011

Projeto "24 Horas - 24 Crônicas"

Pensei isso hoje de manhã. Vamos por partes.

O projeto.

1 – Eu ficaria 24 horas online direto, em um final de semana. 24 horas, 24 crônicas (evidentemente, pequenas ou médias). Uma crônica por hora.

2 - Os temas serão sempre sugeridos pelos leitores. A cada crônica postada, vocês sugerem o tema da próxima (eu escolheria entre as sugestões) e eu tenho uma hora para redigir e postar.

As dúvidas.


1 – É interessante?

2 – Haveria um mínimo de leitores online – mesmo fazendo o projeto num final de semana – durante as 24 horas por horas para sugerir o tema?

3 – Melhor dia e hora? Noite de sexta para sábado?

4 – Melhor forma de fazer as sugestões: comentários no blog? Twitter? E-mail?

Não sei se algum blogueiro já fez algo parecido antes, mas muito me honraria fazer com vocês.

Dicas? Sugestões? Deixem um feedback nos comentários para estudarmos a melhor maneira de levar isso adiante.

Rob.

10 de julho de 2011

Processo Criativo

ONTEM.



HOJE.



EM BREVE, AQUI.

Contudo, como este blog nunca foi baseado somente em imagens, tem texto novo no Chronicles: Partido.

8 de julho de 2011

Entrevista: Besta-Fera

Como prometido, este blog apresenta agora uma entrevista exclusiva com ninguém menos que Besta-Fera. Com perguntas enviadas pelos leitores (tanto nos comentários como por e-mail), o post joga um pouco mais de luz sobre a personalidade da criatura que divide seu tempo entre conquistar cada vez mais admiradores e esconder minhas meias.

Antes de começarmos, vale lembrar que nenhum assunto foi ignorado. As perguntas repetitivas foram condensadas em uma só e as questões mais curtas foram transformadas numa seção Ping-Pong ao final da entrevista. Além disso, a entrevista também traz uma surpresa aos fãs: uma forma de contato direta com a criatura demoníaca.

Senhoras e senhores, sem mais delongas... Besta-Fera.



Qual é seu verdadeiro nome?
Você se lembra, no filme Advogado do Diabo, da cena na qual Keanu Reeves pergunta qual o verdadeiro nome do Al Pacino. A frase se aplica aqui. “Eu tenho tantos nomes...”

O seu dono em uma palavra.
Dono?

Quem manda neste blog? Você ou o Rob?
O Rob manda no blog. Eu mando no Rob. Temos uma hierarquia muito bem definida aqui.

Porque você ainda não fez um favor ao Rob e destruiu seu sapatênis? Ele tem chulé?
Se o Rob gostasse do sapatênis, eu teria destruído. Mas ele detesta aquilo, então prefiro poupar – e até mesmo proteger – o sapatênis. O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Esse seu nome é de verdade ou é “artístico”?
Nem eu nem o Rob usamos nossos nomes reais aqui. A diferença é que eu tenho um pseudônimo, enquanto o Rob tem alcunha. Ele não toca muito neste assunto, mas acredito que seja devido a problemas com a lei.

Como se sente ao saber que uma pessoa com um nível intelectual tão inferior ao teu lançou um livro antes de ti?
Na verdade, esta sensação não é exatamente nova. Quase todos os livros lançados foram escritos por pessoas com nível intelectual inferior ao meu. As únicas exceções são Dostoievski e Tolstói.

Por que você deixa que este humano chamado Rob Gordon assuma todos os créditos, quando sabemos que você é a mente criativa desse site?
Prefiro não me expor, e sim ficar nos bastidores, manipulando os cordéis.

Qual o seu sentimento quando o Rob usa você para promover o blog, como nas fotos “pós-festa 500” ou no vlog-resposta ao Felipe Neto?
Não sei ao certo como responder a isso. É normal que o Rob queira associar sua imagem a minha, dada a minha evidente superioridade, todavia não posso me aprofundar muito neste tema, já que não acesso o blog. Mas, a propósito, gostaria de apontar que as referidas fotos são uma montagem. Qualquer análise mais cuidadosa mostra que se trata do meu rosto no corpo do Hugh Jackman. Ainda estou investigando se o autor disso foi o Rob ou o agente do Hugh Jackman.

Um tempo atrás, li que o Garfield era quem realmente desenhava e criava suas próprias histórias, e pagava a um “cartunista” obscuro para que recebesse todo crédito, no caso Jim Davis, afinal, ninguém iria acreditar que um simples gato fosse responsável pelos belos quadrinhos. Substituindo os quadrinhos pelos textos, gostaria de saber como o Besta-Fera se sente sendo o “Garfield brasileiro”.
Por um lado, me sinto honrado com a comparação. Por outro lado, tenho vergonha de saber que as pessoas possam acreditar que o lixo que o Rob escreve possa ser da minha autoria. Os personagens não possuem profundidade, o humor é rasteiro. Caso eu escrevesse minhas próprias histórias, dezenas de escritores dariam um olho para ter a honra de assinar o texto.

Quem você levaria pra uma ilha deserta?
O Rob. Ou você acha que eu me sujeitaria a subir em coqueiros, pessoalmente, atrás de alimento, feito um lacaio?

Você acredita que a baixa estatura do Rob tem alguma relação com as lambidas que você lhe dá na careca, como se ele estivesse mais gasto por isso?
Não. Mesmo porque eu me recuso a lamber aquela careca. Sempre que o Rob falou algo parecido com isso aqui era mentira. Ele leu uma vez que escritores bons devem humanizar seus personagens, então ele tenta fazer o mesmo. É bem ridículo da parte dele.

Qual o seu passatempo favorito quando o Rob está fora?
Depende do momento em que estou vivendo. Atualmente, tenho me dedicado a trocar a fechadura da porta da sala, sempre que ele sai, por uma nova que apenas eu terei a chave. Devo conseguir até semana que vem.

Por que você não pode ser como os outros cachorros, que brincam e pulam e abanam o rabo quando os donos recebem visitas, ao invés de insistir nessa atitude maligna, de busca inconstante por sangue e carne humana.
Cães podem farejar o medo e eu senti o odor deste pavor antes. Tyler, certo? Achei curiosa a sua pergunta conter o termo “carne humana”. Sempre me questionei se você se considerava humano ou se possuía uma percepção mais real da sua condição inferior. Bem, o enigma agora está desfeito.

Como você consegue manter o branco esplendoroso de sua pelagem vistosa? Existe algum produto específico?
Sim, os meus genes. A natureza foi bondosa comigo.

Por que os cães correm atrás de seus próprios rabos?
Por falta de ambição. Eu, por outro lado, estou mais interessado em poder e cultura.

Como é que você foi amarrar sua mula aí?
Já aconteceu antes na história do mundo, com outras personalidades à frente de seu tempo. Napoleão, por exemplo, teve seu exílio na Ilha de Elba. Eu, infelizmente, acabei neste mocó.

Se o mundo acabasse amanhã, como você passaria seu último dia?
Provavelmente encontraria uma forma de realizar uma das minhas vontades: deixar o Rob preso na varanda durante uma tempestade. De preferência, apenas de cueca e sem cigarros.

Todos sabem que o Senhor é muito culto e letrado. Qual é o seu autor clássico favorito, Homero, Dante ou Dostoievski?
Dostoievski. Os russos, sempre.

Qual seu filme favorito? E qual a melhor marca de ração pra acompanhar aquele cineminha de sábado à noite?
Gosto bastante de O Encouraçado Potemkin, de Einsenstein, especialmente por causa da montagem. E, enquanto assisto a filmes, costumo mascar um tênis do Rob.

Você tem Twitter?
Não. Se bem que... Um minuto. Pronto. Agora eu tenho, está aqui. Não tuitarei com muita frequência, mas gostaria de conhecer pessoas que apreciem literatura russa.

Ping-Pong

Um homem: Eu.

Uma mulher: Anna Karenina.

Um animal: O Rob.

Uma comida: Pato a Pequim. Mas só tem Frolic neste inferno.

Uma bebida: bourbon.

Uma marca de cigarro: Fumo apenas charutos.

Uma citação: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Pois quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Nietzsche. O Rob gosta bastante desta frase também. Mas, no caso dele, eu sou o Abismo.



Algo que tenha vontade de fazer com o Rob:
Colocar uma focinheira nele. Uma focinheira de concreto.

Um sentimento: Enfado.

Um filme, seriado ou livro que resuma você: A pobreza da cultura pop dificilmente resumiria uma personalidade complexa como a minha. Talvez uma ópera chegue um pouco mais perto.

Uma frase: "Rob, cale a boca, eu estou tentando ler”.

Uma filosofia de vida: Ficar entre o Rob e o aquecedor, de forma que o calor não chegue até ele, é apenas uma questão de geometria.

Um sonho: São muitos. Todos diferentes. E em nenhum deles há o menor sinal da existência do Rob. Minto, ele aparece em um. É um bem específico, sobre ele ser mudo.



6 de julho de 2011

Nothing Else Matters

Ontem teve Lipton. Hoje teve Malvadezas e Terapia.

Mas, vamos ser sinceros aqui: quem se importa? Afinal, o próximo post deste blog será eu.

E isso basta.



Aliás, você já mandou suas perguntas para mim? Porque eu estou marcando os nomes de quem ainda nao mandou. E, acredite, você não gostaria de estar nesta lista.

5 de julho de 2011

Bem Estar Real



Manhã. O Sol está brilhando lá fora. Toda sua família está reunida para tomar o café da manhã. Seu marido, bem barbeado e usando um terno elegante, conversa com os filhos – todos lindos – que não disfarçam a ansiedade por irem à escola onde aprenderão coisas novas. O ônibus escolar buzina. As crianças saem correndo pelo quintal, acompanhadas de perto pelo cachorro. Sorrindo, seu marido lhe dá um longo beijo de despedida, antes de ir embora. Sozinha em casa, você precisa apenas decidir se irá comer uma torrada quentinha ou gastar boa parte da manhã num banho com sais aromáticos.

Isso é bem estar.

Quer dizer... Isso é bem estar para quem mora dentro de um comercial de margarina.


Leia mais aqui.


(Nota: A partir de hoje, estou participando como convidado na fanpage da Lipton, no Facebook, escrevendo uma série de textos sobre Bem Estar, ao lado de outros blogueiros de primeira linha. Clique no link acima e prestigie!)

4 de julho de 2011

In Treatment III

(ou: Porque minha Psicóloga PODE
ser a mais sacana do planeta)



- É. Então é isso. Porra.

- Sim.

- Sabe... Estou com um pouco de medo da sua cara.

- Por quê?

- Porque você está com cara de “até que enfim você entendeu isso, seu babaca”.

- Não... Não é isso. Não tem o “até que enfim”.

- Como assim?

- Algumas coisas nós entendemos apenas na hora certa. Não tem o “até que enfim”.

- Você está abrindo mão do “até que enfim”, então?

- Sim.

- Então... Mas você manteve o “seu babaca”. Você reparou?

- Rob...

- Foi de propósito?

- Rob, não comece.

- Ok. Desculpe.

- Tudo bem.

- Aposto que foi de propósito.

- Rob!



Nota: As perguntas ao Besta-Fera continuam chegando, tanto por comentários quanto no e-mail champ.vinyl.blog@gmail.com. Já mandou a sua? A entrevista será publicada ainda esta semana. E se você não faz ideia do que estou falado, basta ler este post aqui. Mas envie logo a sua. Afinal, ele quer ser entrevistado e você acha que seria uma boa ideia contrariar uma máquina assassina e cruel chamada Besta-Fera?

1 de julho de 2011

Anônimos e Urbanos (e Cachorros)

- Alô.

- Oi. Rob?

- Não.

- É... O Rob está?

- Sim.

- Posso falar com ele?

- Seu nome?

- Jessica.

- É a respeito de quê?

- Eu combinei de ligar para ele agora à tarde para uma entrevista.

- Entrevista? Ele está marcando entrevistas no meu nome agora?

- Como assim?

- Aqui quem está falando é o Besta-Fera. Presumo que a entrevista seja comigo.

- Não, não... É com ele mesmo.

- Sei. E é a respeito de quê?

- Serão duas, na verdade. Uma sobre o Anônimos e Urbanos, e a...

- Ah. Sobre... Hum... Aquilo.

- Isso. Eu posso falar com ele?

- Então, eu me enganei. Ele não está.

- Não?

- Não. Ele viajou, deve voltar somente em outubro. Mas, olhe, é melhor assim. A entrevista com ele seria ridícula. Iria acabar com a sua pauta.

- Será?

- Você já conversou com ele?

- Não.

- Ele é um imbecil. Não fala nada de interessante. Aposto que vai ficar cagando regra sobre estilo de texto. Sério, chega a ser deprimente. Eu ouço isso o tempo inteiro. Fora que ele fala demais. O poder de síntese ali é nulo.

- Mas é que o livro...

- Eu, por outro lado, tenho opiniões muito mais ricas sobre qualquer assunto. Podemos conversar sobre política, artes, cultura pop. Posso até mesmo falar sobre o blog, visto que eu sou o grande responsável pelo sucesso disso aqui. E diferente dele, tenho opiniões totalmente embasadas, com conteúdo. E, evidentemente, me expresso de forma muito mais elegante que ele. Confie em mim, eu sou o entrevistado dos sonhos.

- É que ele é o autor...

- Fora que a voz dele é horrorosa. Sabia que durante minhas primeiras semanas aqui, eu cheguei a considerar o fato de ele ser um alienígena por causa disso? Eu, porém, consigo adaptar minhas respostas ao seu gravador, sem você precisar mexer na equalização. Posso responder em bemol, em sustenido... Como você preferir.

- Sim, mas...

- Então, estamos combinados. Preciso de um tempo para me preparar. Por que você não me liga em cerca de uma hora, e podemos conversar sobre os assuntos que desejar?

- É que o Rob...

- Esqueça o Rob. Mesmo. Hum... Só um minuto.

- Ok.

- Já volto.


- Eu estou no tefone, Rob. O que você quer?

- Quem é?


- Ninguém. É engano.

- Não é a Jessica?

- Quem?

- A pessoa que vai me entrevistar! Eu contei isso hoje pela manhã.

- Não, não. É engano. Acharam que era o telefone de uma lavanderia, então estou apenas dando orientações corretas à pessoa.

- Passe esse telefone para mim!

- Não, não acabei de falar ainda com a pessoa.

- Agora!

- A ligação não é para você. Não seja mais deselegante que o normal!

- Dá aqui esse telefone!

- Não. Meta-se com seus assuntos. Olhe, sua miniatura da Enterprise naquele armário está caindo!

- Oi? Onde? Volte aqui com esse telefone! Cachorro débil-mental!

- Largue este telefone, Rob. Eu sou um cão, posso morder você.

- Dá esta merda aqui!

- Eu serei entrevistado, você está atrapalhando.

- Dá aqui esse telefone!

- Não.

- Pronto. Porra! Está todo babado!

- Problema seu.

- Imbecil.

- Babaca.


- Alô?

- Rob?

- Jéssica?

- Isso.

- Tudo bem? Desculpe por... Por isso.

- Se não for um bom momento...

- Não, não. Está tudo sob controle. Podemos começar, se você quiser.

- Mesmo?

- Sim. A primeira é sobre o livro, certo?

- Isso.

- Então, vamos lá. Pode começar.


Entrevista Rob Gordon by Projeto Pra Ler
Espero que gostem!

Esta entrevista aconteceu algumas semanas atrás. Senti muito orgulho de ser procurado para falar sobre livro e outros projetos – em outra entrevista que será publicada aqui em breve – mas isso me criou um problema enorme. Agora, o Besta-Fera faz questão de ser entrevistado, alegando que ele é o responsável por absolutamente tudo de bom da minha vida, desde o blog fazer sucesso ao fato de as pessoas me darem bom dia aqui no prédio.

A coisa se tornou insustentável esta semana quando entrei em casa e ele estava sentado numa poltrona, sendo entevistado pelo Jonas – que, evidentemente, não perdeu a chance de me alfinetar em metade das perguntas.

Assim, cheguei a um acordo com o Besta-Fera. Ele será entrevistado aqui no blog, mas eu não tomarei parte nisso, vou apenas transcrever e postar as respostas e postar.

Na verdade, quem irá entrevistá-lo são vocês. Quer saber algo do Besta Fera? Qualquer coisa? Deixe sua pergunta aqui nos comentários deste post, ou – caso você seja tímido – mande a questão para o mail champ.vinyl.blog@gmail.com com o assunto “Entrevista Besta-Fera”. Todas elas serão respondidas, garanto.

E espalhe para os amigos, pois, quanto maior a entrevista, mais tempo ele ficará sem me encher o saco com isso.

Semana que vem, eu posto as respostas aqui.

Agora a bola está com vocês. Divirtam-se.