Imagine que você, leitor, está andando na Avenida Paulista. Ali perto do Masp, sabe? É um fim de tarde e você está caminhando por ali, tomando cuidado para não ser visto pelas pessoas que tentam vender livros de poesia, ou por aqueles malucos que agarram seu braço e aparentemente não o deixarão ir embora até que você compre um ingresso para uma peça de teatro amador.
Lá está você, desviando dos hippies que vendem colares feitos com conchinhas (“é do Peru”, porque tudo que eles vendem é do Peru, até mesmo se for um Cristo Redentor esculpido em madeira) e fazendo força para não engasgar com o cheiro de incenso.
E é neste momento que uma voz surge do nada:
– Oi! Você gosta de crônicas?
Você olha ao redor e não vê ninguém. Mas, aparentemente, seja quem for que falou aquilo, falou para você. A voz estava perto de você. Mas não há ninguém ali. Assim, você decide continuar andando.
– Você gosta de crônicas?
De novo. Mas agora você percebeu que a voz não veio do seu lado. Ela veio de baixo.
Você olha em direção ao chão e lá está um garoto de oito anos, gordinho e sorridente, com um livro na mão.
Não. Não é um garoto.
Ele tem barba – mal aparada, por sinal – e é careca.
Apesar do tamanho, não pode ser uma criança.
– Oi? – é tudo que você consegue dizer.
– Você gosta de crônicas?
É a terceira vez que a suposta criança, barbada e careca, pergunta isso. Aparentemente, o assunto não vai avançar até que você responda.
– Sim.
– Que ótimo! Veja, você conhece isso aqui?
E ele lhe entrega o livro que tem em mãos. O título, “Anônimos e Urbanos”, destaca-se na capa azul. O nome do autor é Rob Gordon. Antes que você possa folhear o livro, o ser diminuto se põe a falar.
– Este livro é meu, eu que escrevi todos os textos! Todos mesmo! Até a orelha e a contracapa. Produção independente, sabe?
– Hum...
– E agora estou promovendo o livro aqui, na Avenida Paulista. Aqui tem um nicho legal para crônicas. O pessoal que vende livros aqui trabalha somente com poesia. São aqueles hippies ali. Ninguém nesse pedaço explora o mercado de crônicas. Só vendem poesia.
Assim que ele terminar de falar, arrisca uma rápida olhada para os lados e, quando se certifica de que não está sendo observado, fica na ponta dos pés. Com a mão, pede para você se abaixar.
Você obedece e ele sussurra um segredo no seu ouvido:
– O mercado de poesias aqui no Masp está saturado. Não existe tanta demanda assim para sonetos, mas eles não percebem isso.
Antes que você possa responder, ele continua.
– Agora, crônicas, apenas eu vendo. Eu não sou hippie não, viu? Essa barba é preguiça mesmo, não é nada contra o sistema.
– Entendi. – É tudo que você consegue responder (e se serve de consolo, eu não teria feito muito melhor).
– E aí, quer dar uma olhada?
– Olhe, eu estou meio com pressa...
– Ah, é rapidinho. Olha só! Ele chama Anônimos e Urbanos porque ele fala das pessoas comuns da cidade. Sabe? Aquele rosto que é apenas mais um na multidão? Então, ele está aqui no livro. São pessoas como você, cara! Você vai adorar!
– Hum...
– Pode folhear.
Você se mostra indeciso quanto a segurar o livro. Mas ele insiste.
– Para folhear não paga nada, cara. Pode ficar tranqüilo.
Você pega o livro. Até que é bem acabadinho, o danado.
– Qual você está olhando?
– Não sei... Espere... Chama “Em Vão”.
– Esse é um texto feito exclusivamente para o livro. É baseado num blues antigo.
– Blues?
– É. Love in Vain, do Robert Johnson. Você gosta de rock?
É claro que você gosta. Toda pessoa de bom senso gosta.
– Muito!
– Então, os Stones regravaram essa música. Mas eu prefiro o original.
– E é baseada na letra?
– Isso mesmo. Tem outra também que é baseada num filme antigo, chama Desencanto. O filme, não a crônica. É um filme do David Lean.
– Quem?
– David Lean.
– Não conheço.
– É o cara que fez A Ponte do Rio Kwai e Lawrence da Arábia.
– Ah, sei sim. Mas não conheço esse filme.
– Pouca gente conhece, é da década de 40. E acho que não saiu em DVD no Brasil. Ao menos, não de forma oficial.
Como esse baixinho sabe isso? Ele deve estar inventando essas coisas. Ou é louco. Com essa barba, é mais provável que seja louco mesmo. Você começa a sentir vontade de ir embora.
– Olha...
– Mas têm outras. Tem a história do cara que queria voltar a ser adolescente e tenta mudar a própria idade. Tem a menina que consegue um encontro dos sonhos, mas não sabe se consegue voltar a ser feliz. Tem uma que eu gosto muito que é um casal se despedindo no metrô. É uma das minhas preferidas.
Pior que o livro parece interessante. Ouvindo assim, dá vontade de ler. Bem, você não tem nada a perder mesmo. Além disso, você já leu tanta coisa que não gostou. Será que esse cara não merece uma chance?
– Foi você mesmo quem escreveu?
– Isso mesmo. Todas elas. Eu tenho um blog. Na verdade, dois blogs. Esse livro é o do blog menos famoso.
– E o livro do mais famoso?
– Não, por enquanto, só tenho esse. Esse é o primeiro.
– Mas vai fazer do outro?
O baixinho olha para os lados e se aproxima de você, diminuindo o tom de voz. Você se abaixa para ouvir melhor o que ele diz.
– Olha, você não conta para ninguém?
– Não.
– Promete.
– Ok.
– Promete!
– Prometo.
– É o seguinte. O meu blog mais famoso, o nome dele está aí no livro, é o próximo a virar livro.
– E vai ser coletânea também?
– Fala mais baixo! Aí que está. Não vai.
– Vai ser o quê?
– Vai ser um romance. Uma enorme história, inédita. Toda ela inédita, com todos os personagens do blog. Ou quase todos. Vai ser quase uma postagem de, sei lá, cento e poucas páginas!
– Uau! E já tem título?
– Sim. Bolei essa semana.
Ele não consegue disfarçar o orgulho.
– E como vai chamar?
Ele olha atentamente para os lados. Fica na ponta dos pés e chama você novamente. Você se abaixa e ele sussurra algo no seu ouvido, mas, infelizmente, você não entende nada. Consegue identificar apenas que é um nome curto.
Mas não há tempo para pedir que ele repita, pois ele se afasta novamente, e volta ao tom de voz normal, coçando a barba.
– Demais, hein?
Ele não consegue disfarçar o sorriso. E, sorrindo, com os olhos brilhando, aponta para o livro, que ainda está na sua mão.
– Mas o primeiro é esse.
– E quando sai o outro?
– Depois desse.
Esse cara está de sacanagem, só pode ser.
– É evidente que é depois desse. Este é o primeiro!
– Não, não. Você não entendeu. Eu vou esperar um pouco. Quero que este primeiro aqui venda um determinado número de cópias, antes de lançar o outro.
– Ah, entendi. E que número você quer chegar?
– Ah, cara, aí você quer saber demais, né? Eu tenho meu número na cabeça. Chegando nesse número, eu lanço o outro.
Você tenta captar a resposta no olho dele, mas não consegue. Podem ser oito livros, como podem ser dez mil. Mas a empolgação dele é genuína. E contagiante.
– Quanto custa?
– R$ 34 e uns quebrados.
– Uns quebrados?
– É, eu não consigo decorar os centavos. Tento, mas não consigo de jeito nenhum. É... R$ 34,62, acho.
Ele é louco mesmo. Um louco que quer arrancar trinta e cinco paus de você. Louco e pilantra.
– Carinho, hein?
– Mas vale a pena. Cada crônica. Eu garanto.
– Hum...
– Pode confiar. E, olhe, se comprar agora, aqui, da mão do autor, eu autografo. Quer dizer, você tem caneta aí?
– Tenho.
– Eu autografo.
Com autógrafo ainda. Eu, no seu lugar, compraria, leitor.
– Ok. Me convenceu. Você aceita cheque, né?
– Oi?
– Estou sem dinheiro comigo. Mas tenho cheque.
– Porra, meu... Cheque? Acho que ninguém aceita cheque hoje em dia. Talvez um mendigo. Mas, convenhamos... Eu sou escritor, mas não vamos exagerar, né?
– Então, nada feito.
– Olha, vamos fazer o seguinte? Você tem cartão?
Será que ele vai puxar uma máquina do Visa do bolso? Se ele fizer isso, é golpe. Mas você decide ver o que ele pretende.
– Tenho.
– Então você pode comprar pelo site.
– Seu site?
– Não! É o Clube de Autores, o livro está à venda ali.
– Entendi. E lá aceita cartão?
– Aceita. Crédito e débito. E no crédito você pode parcelar em até dez vezes! Fica fácil demais pagar assim!
– Ok.
– Aí você volta aqui e eu autografo. Fechado?
– Fechado. Qual o endereço do site?
– Anota aí. Aga tê tê pê dois pontos barra barra, né? Clube dos autores, tudo junto, ponto com ponto bê erre...
– Ok...
– Barra trinta e um cinco oito meia...
– Trinta e um o quê?
– Cinco oito meia.
– Só isso?
– Não. Cinco oito meia tracinho tracinho anônimos anderlaine e anderlaine urbanos.
– Dois tracinhos, e depois só anderlaine, né?
– Isso.
– Mais nada?
– Mais nada.
– Ok. Vou comprar. Se eu gostar, volto aqui e você autografa. Fechado?
– Fechado! Valeu cara! Espero que goste! Aliás, você vai gostar sim! Tenho certeza! E divulgue para os seus amigos, vai ser bastante importante!
– Se eu gostar do seu texto, divulgo sim.
– Oba! Mas, olha... Aquilo que eu disse do outro livro é segredo, hein?
– Pode deixar.
– Legal! Aliás, para eu já ir pensando no autógrafo, qual seu nome?
Você responde seu nome e se despede. Caminha poucos metros, antes de ouvir a voz dele, desta vez falando com outra pessoa:
– Oi! Você gosta de crônicas?
Você não olha para trás, e segue seu caminho. À noite, em casa, olhará o site com calma e comprará o livro. E ao recebê-lo em casa, dias depois, descobre que gostou. Mais até do que imaginava. Agora, só precisa voltar até o Masp para o baixinho autografar o seu, torcendo para que ele esteja ali.
Mas, se ele não estiver, tudo bem. Quem sabe ele está escrevendo o outro livro.
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E você? Conseguiu decorar o site? Não?
Mas você, que está lendo este post, em casa ou no trabalho, não precisa decorar nada. Você precisa apenas clicar
aqui.
E, claro... Boa leitura!