29 de outubro de 2010

Desenhando Palavras

Quando eu era criança, eu desenhava.

Eram desenhos bem tortos, mas feitos com o maior carinho que eu conseguia. Não era difícil eu ficar, sexta-feira à noite, no meu quarto, com um bloco de desenho e um conjunto de canetinhas, criando mundos inteiros.

Lembro de três desenhos. Um deles ocupava nada menos que três folhas do bloco, e todo baseado em Star Wars – que, na época, ainda se chamava Guerra nas Estrelas e tinha somente três filmes. Numa página estavam os principais heróis da série; em outra, os vilões; e, na última, as naves. Todas elas copiadas de olho – porcamente, visto que eu tinha menos de cinco anos – do meu álbum de figurinhas de O Retorno de Jedi.

Lembro até hoje deste álbum. Completá-lo foi um dos meus maiores orgulhos na infância. Eu copiei os desenhos de algumas páginas internas que mostravam ilustrações dos personagens e veículos dos três filmes (as demais figurinhas, das outras páginas, eram fotografias dos filmes).

Os outros dois desenhos não eram tão específicos, mas me marcaram por eu tê-los desenhado diversas vezes, à exaustão. Um deles era uma espécie de mapa, que mostrava uma ilha de tesouro, mas sem tesouro. Como dizia Indiana Jones (que deve ter sido desenhado algum dia por mim, com pequenos pontinhos feitos com canetinha preta para representar sua barba por fazer), “o X não marca o lugar”.

Na verdade, pensando agora, era uma ilha, mas nada a ver com piratas, e sim algo mais no estilo Terra-Média, com montanhas assustadoras, florestas sombrias e rios misteriosos. E todos os pontos marcantes daquele mundo tinham nome. É bem provável que isso seja decorrente da minha fascinação por observar os antigos atlas de casa – que, por sua vez, ainda mostravam um enorme país (que pegava dois continentes!) chamado União Soviética, ou URSS – que eu, como qualquer pessoa que leu o meu texto sobre a Copa de 82 sabe, falava “Úrsis”.

E o último, era o meu preferido: um castelo mal assombrado. Nada mais moleque que isso. Então, “com cinco ou seis retas era fácil fazer um castelo”, e eu enchia a área ao redor do castelo com todos os monstros possíveis, além de um fosso feito com canetinha azul, povoado de barbatanas de tubarões e, às vezes, crocodilos verdes e assustadores. E no resto da folha, cemitérios e árvores mortas dividiam espaço com vampiros trajando roupas e capas escuras; mortos-vivos que se arrastavam ao redor do castelo; lobisomens uivando para a Lua; múmias com bandagens caindo; e, claro, esqueletos presos em gaiolas e nas paredes externas do castelo.

Tudo feito da forma mais tosca do mundo. Tudo feito com a maior paixão.

Hoje, pensando sobre eles, eu descobri que não era apaixonado por desenhar, mas sim por criar mundos. Eu precisava de fantasia e aventura o tempo inteiro. E eu desenhava porque era a única ferramenta que eu tinha.

Conforme os anos se passaram, isso mudou. Desisti de desenhar. Ainda rabiscava uma coisa ou outra, mas ficava cada vez mais encantado com outra ideia: escrever. Várias vezes, ainda criança, eu comparava a facilidade que existe em criar mundos escrevendo com, por exemplo, fazendo um filme. “Para fazer um filme, você precisa de atores, efeitos especiais, centenas de pessoas. Para escrever, você precisa apenas de você, e de uma máquina de escrever”. Sim, eu sou mais velho que os processadores de texto. Era quase mágica, para mim, a idéia de poder criar uma pessoa, uma cidade, um mundo ou um universo inteiro, sozinho.

E me imaginava datilografando num quartinho pequeno e repleto de tralhas, criando mundos e mais mundos, personagens e mais personagens. Criando heróis. Curioso que nunca pensei em “vou escrever para fazer sucesso”, “vou escrever para ficar rico”. Não, eu sempre pensei em “vou escrever para mim”.

Eu sempre tive a necessidade de viver dentro de lugares fantásticos. Escrever foi a forma que eu criei para saciar este desejo.

Quando criança, eu desenhava.

Escrever é o que mantém vivo o menino que passava horas desenhando no chão do quarto, antes de descer com o bloco e mostrar os desenhos para os meus pais. Hoje, esta criança passa horas escrevendo no chão do quarto, e desce a escada de casa para mostrar para vocês.

Não mudou muito.


“Escrever é a coisa mais divertida que você pode fazer sozinho”

(Terry Pratchett)


16 comentários:

Carla disse...

Eu acho que você resumiu tudo o que escrever significa pra mim tb! =) Um dia vou publicar os meus livros (haaa, eu tenho um monte) e ficar famosa igual a vc! rsrsrs

Sabe aquela "Quero ser igual a você quando eu crescer?". Então... Bem isso... Só que eu cresci demais! =X

^^/

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Pequeno erro:

VivO primeira linha do último parágrafo.


Comentário:

legal o texto =) Quem sabe você não consegue os 2, escrever para você, e ficar famoso sendo lido por um monte de gente... Que venha o livro do Champ!!!

Adônis disse...

Muito bom o texto, Rob. Eu particularmente achei genial porque super me identifiquei com tudo o que você escreveu! Como você, eu tbm comecei desenhando porque tinha fascínio em criar histórias. Daí depois eu descobri a escrita que, pra mim, é muito mais fácil (e fica melhor, já que sou uma negação no desenho) e hoje amo escrever.
Um dia espero conquistar tbm o seu reconhecimento...
Abraço

Ana disse...

Comigo foi quase ao contrário. Quase porque eu desenhava com a mesma idade, mas eu descobri mais tarde que era pelo próprio desenho que eu iria me expressar.

*Eu também sou do tempo que Star Wars se chamava Guerra nas Estrelas e eram apenas 3 filmes sensacionais.
Estava outro dia pensando exatamente sobre isso.

Matheus Silva disse...

Nunca fui bom desenhista, a "cobra comendo um elefante" era um grande desafio para mim, e talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em escrever.
Mas ainda assim minha imaginação sempre foi enorme; acho que é por isso que eu vivo viajando em pensamentos, a criatividade que não gastei na infância vem para se vingar agora.

Renata Santos disse...

Rob, eu tenho certeza que vc chega lá, pq o melhor de tudo é que vc faz com paixão, com amor, com raça. Os desenhos podiam ficar horrorosos, mas os textos, ficam lindos, bem articulados, ora emocionantes, ora cômicos, ora os dois. Vc prende a atenção do leitor. No meu caso eu quase chego a pular linhas pra chegar ao final mais depressa.
Que vc continue "eternamente" sendo esse menino no chão do quarto, com uma folha em branco e cabeça cheia de ideias.

Renata de Toledo disse...

OK, vc me fez chorar. Que coisa mais pura, limpa, clara. Obrigada, cara, por confiar na gente a ponto de abrir seu coração de forma tão completa e singela. Como se vc tivesse 5 anos. Deu vontade de te dar um abraço de urso.

Anônimo disse...

sabe, eu como escritor sou uma negação, ate ja tentei mas não deu
gosto de criar as historias e mundos e ir criando e criando
so que na hora de pasar para o teclado, me falta algo
porem, meu vicio é ler, esse vicio começou no meu 1° ano do ensimo medio (meu mais vagal, mas...) e assim, so posso dizer que, fico feliz que existam pessoas que gostam, amam e tem traquejo para escrever, porque eu aqui gosto, amo ler

disse...

"Escrever é a coisa mais divertida que você pode fazer sozinho"

E é impressionante como você faz isso bem!
Muito obrigada

Otavio Oliveira disse...

vc é um best-seller em potencial. não que seja o maior privilégio da vida vender milhões, mas... ah, vc entendeu, talvez.

Nelson disse...

Eu já tentei desenhar, mas não me identifiquei muito. Hoje, na parte do desenho, o que eu acho mais interessante é a teoria: a dinâmica das proporções, as curvas, a fluidez. Logicamente, só fui estudar isso quando a profissão exigiu... mas nunca consegui fazer meu desenho virar arte, e até hoje ele é sem sal, pura teoria.

Já que eu adoro ler, um dia tentei escrever, e foi um fracasso. Nem quando eu escrevo "para mim" sai algo bom. Sou incapaz de traduzir em palavras o que eu sinto. Eu sou um leitor, e ponto final.

Só fui encontrar minha arte com a música. Apesar de não trabalhar mais na área, até hoje corro pro meu baixo quando preciso traduzir pra mim mesmo o que eu sinto. Alegrias, frustações, dúvidas... tudo vira música. Curiosamente, eu faço "música egoísta"; dificilmente mostro algo que eu fiz pra outra pessoa.

Enquanto você precisa criar mundos, eu prefiro exaltar os sentimentos do meu mundo. Só para mim, é claro.

Artista é tudo doido mesmo, rs.

Patrícia Lerbarch disse...

Tb gosto de desenhar, pintar e, sobretudo, escrever. Principalmente se isso tudo for para mim, para ajudar-me a organizar meus pensamentos, minhas ideias e minha mente super fértil.

Bjos, belo texto!!!

Alexandre (Alex Starr) disse...

Lembro muito bem desse álbum de Star Wars, mas não consegui completá-lo.
Gostava de desenhar e depois de algum tempo também comecei a escrever.
Minhas brincadeiras eram divertidas porque eu criava todo um roteiro para as aventuras dos meus heróis.
Bons tempos.

Anna disse...

Eu, que nunca soube desenhar, comecei a escrever a respeito de como os desenhos deveriam ser. E aí não parei mais.
Belo texto sobre essa coisa mágica e maluca que é colocar a caneta no papel (e suas variações desse mundo moderno) e simplesmente criar.
Beijo!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Caro Rob Gordon.

Você só será desculpado por esses espaços temporais enormes sem postar (2, 3 dias...) se estiver trabalhando que nem um louco, no livro do champ.

grato.

O Antagonista disse...

Lindo texto, cara! Eu também desenhava muito (mal) quando era criança; e também tinha o album de Guerra nas Estrelas... foi lá que aprendi o nome do bichinho escroto que ficava tirando onda com Jabba - The Hunt: chamava-se "migalhas indecentes"kkkk... Não tinha nome melhor!

Valeu!