18 de outubro de 2010

Cachorrada

O post anterior foi retirado do ar, por diversos motivos. Qualquer hora o transformarei em outra coisa. E, mesmo que tenham lido no Reader depois que ele saiu do blog, peço que relevem.

E, em troca, vou contar outra história aqui.

Estava voltando para casa no final de semana, com meu mp3 no ouvido. Beatles.

Não, falar assim é simples demais. Não era simplesmente “Beatles”, era a MINHA coletânea de Beatles, que demorou semanas para ser feita. Qualquer dia eu falo aqui sobre meu TOC musical – para este texto, basta vocês saberem que ela tem mais de 90 músicas.

Interlúdio: se você acha que uma coletânea de Beatles com mais de 90 músicas é algo exagerado, é hora de deixarmos claro que um elemento desta operação matemática (que são “você” e “90 músicas dos Beatles”) tem algum problema. Pense um pouco a respeito disso, e tente identificar qual deles está errado. Dica: não são as canções.

Enfim, estava me aproximando da Faria Lima quando, no intervalo entre uma música e outra, ouvi passos atrás de mim. Virei-me e lá estava ele. Um vira-lata preto, magrelo. Orelhas caídas. Andando rápido atrás de mim, mancando levemente com uma das patas dianteiras.

Na mesma hora, John Lennon começou a cantar os primeiros versos de In My Life.

Olhei para ele e ele me devolveu um olhar triste. Não diminuí o ritmo. Ele também não, mas passou a andar do meu lado. Andamos boa parte da calçada do metrô, lado a lado. Em alguns momentos, ela avançava alguns metros para inspecionar algo. Cheirava rapidamente e olhava para trás, com o objetivo de ver onde eu estava.

Não havíamos trocado uma palavra sequer, e éramos amigos de infância. Andávamos lado a lado.

E chegamos a Faria Lima. Sinal aberto, carros passando a toda velocidade. Parei para atravessar, ele parou ao meu lado e se sentou. Fiquei preocupado, e justamente por isso, as primeiras palavras que trocamos foram de cuidado.

– Não vai agora. Espere eu atravessar e você vem junto.

Ele assentiu com a cabeça e ficou ali, esperando. Minutos depois, o sinal ficou verde e atravessamos até a ilha central. Eu e ele, lado a lado, na mesma velocidade. Mas, ao chegarmos à ilha, eu parei para esperar novamente. Ele não. Ele continuou e meu peito apertou.

– Espera!

Ele parou e virou a cabeça, me procurando. Seu olhar triste não impediu a bronca.

– Você só vai quando eu for. Ok?

Ele concordou e se sentou.

O sinal fechou e nós atravessamos, mais uma vez lado a lado. E começamos a cruzar o Largo da Batata, com os passos em contradição: tínhamos a familiaridade de velhos companheiros e a empolgação de novos amigos.

E andamos por quase três quadras da Teodoro Sampaio assim. Eu andando, e ele ao meu lado, sem trocarmos uma palavra. Não precisávamos. Em alguns momentos, algo o distraía e ele ficava para trás, mas logo me alcançava na corrida; em outros, corria para frente, curioso com algo, mas esperava eu alcançá-lo antes de continuar.

E, ao final das calçadas, mostrava que havia aprendido a lição. Sentava-se na guia e esperava pacientemente eu começar a atravessar a rua, o que lhe indicava a permissão para fazer o mesmo.

Mas, pouco depois da Pedroso de Morais, havia mais gente na calçada. Cruzamos o caminho de duas mulheres; um rapaz, pouca coisa mais nova que eu, de boné, começou a andar a trás de mim; e um homem de idade atravessou a rua em nossa direção.

Eu continuei andando. Ele também, mancando levemente com a pata. Ficou para trás, distraído com um papel de sanduíche esquecido no chão.

Cheguei à esquina e ele não estava mais ao meu lado.

Procurei atrás de mim. Nada.

O rapaz de boné havia dobrado a esquina, seguindo outra direção, e ele trotava atrás do sujeito. Havia me abandonado. Nossos caminhos não eram mais os mesmos. Agora, ele não era mais meu amigo. Era amigo do cara de boné, mesmo depois que eu pacientemente o ensinei a atravessar a rua com cuidado.

– As mulheres têm razão. Homem é tudo cachorro mesmo, resmunguei baixinho.

E, ainda a tempo de ouvir Paul McCartney começar a cantar Michelle, continuei meu caminho.

Sozinho.


21 comentários:

Carla disse...

Se ele te seguisse até em casa, você iria adotá-lo?

Carla disse...

PS: De 212 músicas, escolher 90 deve ter sido difícil!

Rob Gordon disse...

Carla:

Sinceramente? Evitei pensar sobre isso. Estou evitando até agora.

Rob

Varotto disse...

"But of all these friends and lovers
There is no one compares to you"

Mesmo que venha de um vira-lata manco, que te troca pelo primeiro garotão de boné...

P.S.1: Quando eu era criança nunca tive um cachorro, então, em situações como essa sua, eu ficava fingindo que o cachorro era meu.

P.S.2: Algum problema com o post do gago? Achei que ficou legal. Ou você descobriu, da pior maneira, que o gaguinho tem conexões no submendo do crime?

Lunnafe disse...

Que bunitinho, viu. Me dá uma dó ver esses cãezinhos na rua, principalmente esses, que vão seguindo a gente, como se fossem os nossos mesmo.

Fala a verdade: seu coração ia doer, e vc ia colocar ele pra dividir o beliche com o Besta Fera!

E me diz uma coisa: como, peloamordeDeus, como vc conseguiu compilar Beatles em só 90 musicas?!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Qual o problema com o Post do gago??

Ficou super de boa, e você foi mó simpático com o cara, apesar das mil coisas pra fazer...

eu ficaria com o cachorro.

Ana disse...

Ele não ter ido atrás de você até em casa foi a melhor coisa que te aconteceu. Eu já tive que fechar o portão na cara de um cachorro que me seguiu por horas quando fui para a Argentina e quase morri por fazer isso. Fiquei super mal na hora e pensando nele durante dias.
Tenho até uma foto minha com ele: http://www.flickr.com/photos/anasavini/5024692086/

Alessandra Costa disse...

Pô, queria ter lido o post do gago :(
Mas enfim, Homem é tudo cachorro mesmo, haha.

Layla Barlavento disse...

Acho que você foi bem modesto escolhendo apenas 90. Eu não teria conseguido essa façanha. E concordo plenamente: homem é tudo cachorro mesmo! rsrsrs.

P.S. Também queria ter lido o texto do gago...

Hally disse...

Eu queria ter lido o post do gago, mas, enfim...

Cara, tu quer matar a gente mesmo né? No trampo, com os olhos marejados, quase chorando com este texto lindo. E isso que eu nem gosto tanto de cachorro... ''/

Dragus disse...

Não consegui ler o post apesar de tê-lo visto (o título).

Eu não sei o que faria, mas levar pra casa não teria como.

Acho que faria o mesmo que você fez. Infelizmente.

Não tem como abraçar o mundo com as pernas, ou o mundo te devora.

Nelson disse...

Sacanagem, nem li o post do gago.

Já aconteceu comigo a mesma coisa, só que um gato, filhotinho ainda, estava me seguindo de madrugada.
Morri de ter que largar o bichinho na rua... e acho que um dia eu vou ser um daqueles velhos doidos que tem 15 cachorros e 25 gatos.

Sempre me lembro duma frase do Homer Simpson, que é genial, já que reflete bem a psicologia de 90% dos homens por aí: "Vou fazer o animal perfeito: a higiene de um cachorro com a fidelidade de um gato".

abraço Rob!

Kell Alves disse...

Nem lí o post (o q foi deletado).
Mas aposto q isso é só + uma estratégia de marketing do Champ pra gente ficar tentado a assinar os feeds pra não perder nenhum dos posts

Marina disse...

Escolher 90 músicas dos Beatles é um feito e tanto. Sempre falta alguma realmente boa.

Tenho muita pena de cachorros de rua. Prefiro não fazer contato visual, pra não ser tentada a levá-los pra casa.

Marina disse...

Mas, anyway, a gente não pode ter pena; homem é tudo cachorro.

Lilian disse...

Mais uma pro clube dos que queriam ler o post. Darn it.

Gilgomex™ disse...

putz... foi retirado um post do ar??? e eu não li??? putz... sacanagem... me manda no msn...

Kel Sodré disse...

Puta falta de sacanagem tirar o post do ar antes de a gente ler. Eu queria ler, poxa... #mimimi

Odeio, ODEIO vira-lata que segue a gente na rua. Quando eu era pequena e meus pais não me deixavam ter cachorro em casa, eu sempre chorava quando tinha que deixar eles fora de casa pra não ver nunca mais.

Anderson Cruz disse...

Mais um que queria ter lido o post deletado,mas...
Meus últimos 4 cães eram de rua (3 vira latas e um dachshund) e fui obrigado por olhos tristes a levá-los pra casa.
Lindo texto.
Abraço.

disse...

Numa dessas de se apegar ao cachorro de rua ganhei minha companheira de 12 anos...
mas ela é femea...

Letícia disse...

"– As mulheres têm razão. Homem é tudo cachorro mesmo, [...]"

Mas os homens não são cachorros, de jeito nenhum. Eu queria ver um homem tão feliz ao me ver como o Tungstenio faz. Para ser cachorro, o homem ainda precisa melhorar muito.

[hahahahaha.... a revoltada]