29 de outubro de 2010

Desenhando Palavras

Quando eu era criança, eu desenhava.

Eram desenhos bem tortos, mas feitos com o maior carinho que eu conseguia. Não era difícil eu ficar, sexta-feira à noite, no meu quarto, com um bloco de desenho e um conjunto de canetinhas, criando mundos inteiros.

Lembro de três desenhos. Um deles ocupava nada menos que três folhas do bloco, e todo baseado em Star Wars – que, na época, ainda se chamava Guerra nas Estrelas e tinha somente três filmes. Numa página estavam os principais heróis da série; em outra, os vilões; e, na última, as naves. Todas elas copiadas de olho – porcamente, visto que eu tinha menos de cinco anos – do meu álbum de figurinhas de O Retorno de Jedi.

Lembro até hoje deste álbum. Completá-lo foi um dos meus maiores orgulhos na infância. Eu copiei os desenhos de algumas páginas internas que mostravam ilustrações dos personagens e veículos dos três filmes (as demais figurinhas, das outras páginas, eram fotografias dos filmes).

Os outros dois desenhos não eram tão específicos, mas me marcaram por eu tê-los desenhado diversas vezes, à exaustão. Um deles era uma espécie de mapa, que mostrava uma ilha de tesouro, mas sem tesouro. Como dizia Indiana Jones (que deve ter sido desenhado algum dia por mim, com pequenos pontinhos feitos com canetinha preta para representar sua barba por fazer), “o X não marca o lugar”.

Na verdade, pensando agora, era uma ilha, mas nada a ver com piratas, e sim algo mais no estilo Terra-Média, com montanhas assustadoras, florestas sombrias e rios misteriosos. E todos os pontos marcantes daquele mundo tinham nome. É bem provável que isso seja decorrente da minha fascinação por observar os antigos atlas de casa – que, por sua vez, ainda mostravam um enorme país (que pegava dois continentes!) chamado União Soviética, ou URSS – que eu, como qualquer pessoa que leu o meu texto sobre a Copa de 82 sabe, falava “Úrsis”.

E o último, era o meu preferido: um castelo mal assombrado. Nada mais moleque que isso. Então, “com cinco ou seis retas era fácil fazer um castelo”, e eu enchia a área ao redor do castelo com todos os monstros possíveis, além de um fosso feito com canetinha azul, povoado de barbatanas de tubarões e, às vezes, crocodilos verdes e assustadores. E no resto da folha, cemitérios e árvores mortas dividiam espaço com vampiros trajando roupas e capas escuras; mortos-vivos que se arrastavam ao redor do castelo; lobisomens uivando para a Lua; múmias com bandagens caindo; e, claro, esqueletos presos em gaiolas e nas paredes externas do castelo.

Tudo feito da forma mais tosca do mundo. Tudo feito com a maior paixão.

Hoje, pensando sobre eles, eu descobri que não era apaixonado por desenhar, mas sim por criar mundos. Eu precisava de fantasia e aventura o tempo inteiro. E eu desenhava porque era a única ferramenta que eu tinha.

Conforme os anos se passaram, isso mudou. Desisti de desenhar. Ainda rabiscava uma coisa ou outra, mas ficava cada vez mais encantado com outra ideia: escrever. Várias vezes, ainda criança, eu comparava a facilidade que existe em criar mundos escrevendo com, por exemplo, fazendo um filme. “Para fazer um filme, você precisa de atores, efeitos especiais, centenas de pessoas. Para escrever, você precisa apenas de você, e de uma máquina de escrever”. Sim, eu sou mais velho que os processadores de texto. Era quase mágica, para mim, a idéia de poder criar uma pessoa, uma cidade, um mundo ou um universo inteiro, sozinho.

E me imaginava datilografando num quartinho pequeno e repleto de tralhas, criando mundos e mais mundos, personagens e mais personagens. Criando heróis. Curioso que nunca pensei em “vou escrever para fazer sucesso”, “vou escrever para ficar rico”. Não, eu sempre pensei em “vou escrever para mim”.

Eu sempre tive a necessidade de viver dentro de lugares fantásticos. Escrever foi a forma que eu criei para saciar este desejo.

Quando criança, eu desenhava.

Escrever é o que mantém vivo o menino que passava horas desenhando no chão do quarto, antes de descer com o bloco e mostrar os desenhos para os meus pais. Hoje, esta criança passa horas escrevendo no chão do quarto, e desce a escada de casa para mostrar para vocês.

Não mudou muito.


“Escrever é a coisa mais divertida que você pode fazer sozinho”

(Terry Pratchett)


27 de outubro de 2010

Teaser

O relógio marcava poucos minutos após as quatro da manhã.

Apesar do enorme movimento que registrava durante o dia, típico de uma grande metrópole, a cidade de São Paulo se comportava como outro qualquer local do planeta no meio da madrugada. A Lua brilhava silenciosamente sobre os prédios, vigiando as ruas praticamente desertas, e molhadas por uma garoa fina que caía sem fazer ruído sobre o asfalto.

Quase ninguém se atrevia a andar a pé pelas calçadas, e poucos carros rompiam o silêncio da rua. Em milhões de residências, pessoas dormiam tranquilamente. Casais sonhavam de mãos dadas, crianças ressonavam tranqüilas, abraçadas aos seus brinquedos favoritos.

Todos dormiam. Todos menos eu.

Enquanto o resto da cidade descansava, eu estava há quase dez minutos preso no elevador do prédio onde trabalho.



Em breve, no Clube de Autores.

(Aproveitando, tem entrevista comigo sobre o Anônimos e Urbanos aqui.)

20 de outubro de 2010

Sonhos de Kurosawa Gordon VIII

Eu estava numa sala de aula da minha faculdade. E havia chegado atrasado, entrei na classe quando a aula já havia começado. Era cedo, eu sentia sono. A sala estava um pouco escura, pois o professor – seja ele quem for – estava exibindo um filme, com uma TV à frente dos alunos.

Sentei-me no fundo da sala, ao lado de um amigo que estudou na faculdade comigo.

Olhei para a TV. O corpo de uma mulher vagava pelo fundo do oceano.
Subitamente, eu não estava mais na sala de aula, mas sim dentro da televisão, nadando pelo oceano ao lado do corpo e vendo tudo de perto.

Era meio cadáver, na verdade. O corpo estava cortado na altura do abdômen, com os órgãos escapando para fora. Um dos intestinos saía do corpo como uma corda, e era puxado por tubarões que tentavam devorar o cadáver, fazendo com que ele dançasse de um lado para o outro no oceano. A cada vez que os tubarões puxavam o corpo, ele flutuava rapidamente por metros, chegando até mesmo a sumir da minha vista, para depois reaparecer. Um dos tubarões estava morto, deitado sobre uma rocha no fundo do mar.

E tudo aquilo parecia familiar demais.

– Como você resolveu isso?

Quando meu amigo fez esta pergunta, eu voltei para a sala de aula. Estava novamente fora da TV e compreendi o senso de familiaridade das imagens. Eu era estudante, mas havia ajudado na investigação deste crime, aparentemente de alguma forma que havia sido decisiva para a solução do crime. Quase como uma consultoria. E foi aí que eu percebi que eu era famoso por causa disso.

Duas pessoas entraram na sala de aula. Eram policiais, com roupas de investigador e, da porta, acenaram para que eu fosse até eles. Outro crime havia sido cometido. Precisavam da minha ajuda.

Levantei-me e virei para o meu amigo:

– Anote tudo o que falarem na aula para mim, depois eu pego com você. Eu preciso ir, não sei que horas volto.

Tentando não fazer alarde, passei pelas cadeiras, tomando cuidado para não pisar nas malas e bolsas ao chão, e fui em direção à porta, onde os inspetores me aguardavam.

Estava em Moema, numa rua próxima à casa da minha mãe, com dois amigos que cresceram comigo no bairro. Estávamos procurando uma casa – eu estava investigando um novo crime, e eles estavam me ajudando. Paramos em frente a uma casa velha, com um muro baixinho e portão de madeira. Uma mulher de meia-idade estava parada na calçada segurando uma vassoura (esta imagem é bastante recorrente nos meus sonhos).

Perguntamos a ela pela casa que desejávamos encontrar e ela respondeu, de forma brusca:

– Vocês vieram trepar?

Respondemos que não. Não falamos nada da investigação, apenas que estávamos procurando por aquela casa. Talvez tenhamos dado uma desculpa, não lembro. Mas ela continuou:

– Essa casa que vocês querem encontrar é um puteiro. Vocês estão indo lá para trepar!, ela gritou

Não me dei ao trabalho de negar. Mesmo porque esse álibi, “ir lá para trepar” seria ótimo para mim, pois, além de me dar um motivo para entrar na casa, me daria oportunidade de circular livremente lá dentro.

A casa ficava logo ao lado, e entramos nela, após cruzar um jardim mal cuidado, e ainda sob os gritos da mulher, que alertava as pessoas da casa:

– Esses meninos estão entrando aí atrás de mulher.

Não me recordo ao certo da sala, mas era pequena. Mas a escada era a mesma da casa de um amigo meu – cuja construção é idêntica à casa da minha mãe – e eu comecei a subir, sozinho. Meus amigos desapareceram. Definitivamente, era a casa dele. Fiz a curva na escada e fui subindo os degraus devagar.

Novamente como na casa da minha mãe, a escada terminava em corredor. Eu poderia virar à esquerda ou à direita. No meio da escada, ouvi gritos, vindos da direita. Era a voz da irmã do meu amigo:

– Não venha aqui, porque eu estou tomando banho de porta aberta.

E eu respondi, sem parar de subir:

– Eu não tenho interesse em olhar aí. Eu quero ir para o quarto do seu irmão.

– Não interessa! Não venha para cá! – ela devolveu.

Eu estava quase no topo da escada, faltavam apenas uns três degraus.

– Fulana – eu disse, chamando-a pelo nome – eu venho aqui todos os dias e sempre viro à esquerda, para o quarto do seu irmão. Sempre. E não é hoje que eu vou virar à direita. Eu estou investigando um crime, e e que eu procuro está no quarto da frente.

Ela não respondeu.

Terminei de subir a escada e, já no andar superior, dobrei à esquerda.

Tudo o que eu precisava fazer era cruzar o corredor e alcançar o último quarto.

Acordei.


19 de outubro de 2010

O Império Contra-Ataca

At. Srs. Condôminos e Moradores

Prezados Senhores,

Informamos que alguns condôminos e moradores têm reclamado de barulhos. A Administração do Condomínio preocupada em resolver o problema e evitar desentendimentos, mandou verificar equipamentos e possíveis pontos que possam provocar ruído, porém nada foi identificado até o momento.

Pedimos àqueles que porventura possam continuar a ouvir ruídos, anotar dia e horário e entregar a anotação ao zelador, que a encaminhará ao corpo diretivo para as providências cabíveis.

Atenciosamente,
____________________
Empresa XYZ Condomínios



Barulhos. Desentendimentos. Anotar dia e horário. Corpo diretivo. Providências cabíveis.


SIM. ADIVINHE QUEM VOLTOU.


18 de outubro de 2010

Cachorrada

O post anterior foi retirado do ar, por diversos motivos. Qualquer hora o transformarei em outra coisa. E, mesmo que tenham lido no Reader depois que ele saiu do blog, peço que relevem.

E, em troca, vou contar outra história aqui.

Estava voltando para casa no final de semana, com meu mp3 no ouvido. Beatles.

Não, falar assim é simples demais. Não era simplesmente “Beatles”, era a MINHA coletânea de Beatles, que demorou semanas para ser feita. Qualquer dia eu falo aqui sobre meu TOC musical – para este texto, basta vocês saberem que ela tem mais de 90 músicas.

Interlúdio: se você acha que uma coletânea de Beatles com mais de 90 músicas é algo exagerado, é hora de deixarmos claro que um elemento desta operação matemática (que são “você” e “90 músicas dos Beatles”) tem algum problema. Pense um pouco a respeito disso, e tente identificar qual deles está errado. Dica: não são as canções.

Enfim, estava me aproximando da Faria Lima quando, no intervalo entre uma música e outra, ouvi passos atrás de mim. Virei-me e lá estava ele. Um vira-lata preto, magrelo. Orelhas caídas. Andando rápido atrás de mim, mancando levemente com uma das patas dianteiras.

Na mesma hora, John Lennon começou a cantar os primeiros versos de In My Life.

Olhei para ele e ele me devolveu um olhar triste. Não diminuí o ritmo. Ele também não, mas passou a andar do meu lado. Andamos boa parte da calçada do metrô, lado a lado. Em alguns momentos, ela avançava alguns metros para inspecionar algo. Cheirava rapidamente e olhava para trás, com o objetivo de ver onde eu estava.

Não havíamos trocado uma palavra sequer, e éramos amigos de infância. Andávamos lado a lado.

E chegamos a Faria Lima. Sinal aberto, carros passando a toda velocidade. Parei para atravessar, ele parou ao meu lado e se sentou. Fiquei preocupado, e justamente por isso, as primeiras palavras que trocamos foram de cuidado.

– Não vai agora. Espere eu atravessar e você vem junto.

Ele assentiu com a cabeça e ficou ali, esperando. Minutos depois, o sinal ficou verde e atravessamos até a ilha central. Eu e ele, lado a lado, na mesma velocidade. Mas, ao chegarmos à ilha, eu parei para esperar novamente. Ele não. Ele continuou e meu peito apertou.

– Espera!

Ele parou e virou a cabeça, me procurando. Seu olhar triste não impediu a bronca.

– Você só vai quando eu for. Ok?

Ele concordou e se sentou.

O sinal fechou e nós atravessamos, mais uma vez lado a lado. E começamos a cruzar o Largo da Batata, com os passos em contradição: tínhamos a familiaridade de velhos companheiros e a empolgação de novos amigos.

E andamos por quase três quadras da Teodoro Sampaio assim. Eu andando, e ele ao meu lado, sem trocarmos uma palavra. Não precisávamos. Em alguns momentos, algo o distraía e ele ficava para trás, mas logo me alcançava na corrida; em outros, corria para frente, curioso com algo, mas esperava eu alcançá-lo antes de continuar.

E, ao final das calçadas, mostrava que havia aprendido a lição. Sentava-se na guia e esperava pacientemente eu começar a atravessar a rua, o que lhe indicava a permissão para fazer o mesmo.

Mas, pouco depois da Pedroso de Morais, havia mais gente na calçada. Cruzamos o caminho de duas mulheres; um rapaz, pouca coisa mais nova que eu, de boné, começou a andar a trás de mim; e um homem de idade atravessou a rua em nossa direção.

Eu continuei andando. Ele também, mancando levemente com a pata. Ficou para trás, distraído com um papel de sanduíche esquecido no chão.

Cheguei à esquina e ele não estava mais ao meu lado.

Procurei atrás de mim. Nada.

O rapaz de boné havia dobrado a esquina, seguindo outra direção, e ele trotava atrás do sujeito. Havia me abandonado. Nossos caminhos não eram mais os mesmos. Agora, ele não era mais meu amigo. Era amigo do cara de boné, mesmo depois que eu pacientemente o ensinei a atravessar a rua com cuidado.

– As mulheres têm razão. Homem é tudo cachorro mesmo, resmunguei baixinho.

E, ainda a tempo de ouvir Paul McCartney começar a cantar Michelle, continuei meu caminho.

Sozinho.


14 de outubro de 2010

– Oi! Você gosta de crônicas?

Imagine que você, leitor, está andando na Avenida Paulista. Ali perto do Masp, sabe? É um fim de tarde e você está caminhando por ali, tomando cuidado para não ser visto pelas pessoas que tentam vender livros de poesia, ou por aqueles malucos que agarram seu braço e aparentemente não o deixarão ir embora até que você compre um ingresso para uma peça de teatro amador.

Lá está você, desviando dos hippies que vendem colares feitos com conchinhas (“é do Peru”, porque tudo que eles vendem é do Peru, até mesmo se for um Cristo Redentor esculpido em madeira) e fazendo força para não engasgar com o cheiro de incenso.

E é neste momento que uma voz surge do nada:

– Oi! Você gosta de crônicas?

Você olha ao redor e não vê ninguém. Mas, aparentemente, seja quem for que falou aquilo, falou para você. A voz estava perto de você. Mas não há ninguém ali. Assim, você decide continuar andando.

– Você gosta de crônicas?

De novo. Mas agora você percebeu que a voz não veio do seu lado. Ela veio de baixo.

Você olha em direção ao chão e lá está um garoto de oito anos, gordinho e sorridente, com um livro na mão.

Não. Não é um garoto.

Ele tem barba – mal aparada, por sinal – e é careca.

Apesar do tamanho, não pode ser uma criança.

– Oi? – é tudo que você consegue dizer.

– Você gosta de crônicas?

É a terceira vez que a suposta criança, barbada e careca, pergunta isso. Aparentemente, o assunto não vai avançar até que você responda.

– Sim.

– Que ótimo! Veja, você conhece isso aqui?

E ele lhe entrega o livro que tem em mãos. O título, “Anônimos e Urbanos”, destaca-se na capa azul. O nome do autor é Rob Gordon. Antes que você possa folhear o livro, o ser diminuto se põe a falar.

– Este livro é meu, eu que escrevi todos os textos! Todos mesmo! Até a orelha e a contracapa. Produção independente, sabe?

– Hum...

– E agora estou promovendo o livro aqui, na Avenida Paulista. Aqui tem um nicho legal para crônicas. O pessoal que vende livros aqui trabalha somente com poesia. São aqueles hippies ali. Ninguém nesse pedaço explora o mercado de crônicas. Só vendem poesia.

Assim que ele terminar de falar, arrisca uma rápida olhada para os lados e, quando se certifica de que não está sendo observado, fica na ponta dos pés. Com a mão, pede para você se abaixar.

Você obedece e ele sussurra um segredo no seu ouvido:

– O mercado de poesias aqui no Masp está saturado. Não existe tanta demanda assim para sonetos, mas eles não percebem isso.

Antes que você possa responder, ele continua.

– Agora, crônicas, apenas eu vendo. Eu não sou hippie não, viu? Essa barba é preguiça mesmo, não é nada contra o sistema.

– Entendi. – É tudo que você consegue responder (e se serve de consolo, eu não teria feito muito melhor).

– E aí, quer dar uma olhada?

– Olhe, eu estou meio com pressa...

– Ah, é rapidinho. Olha só! Ele chama Anônimos e Urbanos porque ele fala das pessoas comuns da cidade. Sabe? Aquele rosto que é apenas mais um na multidão? Então, ele está aqui no livro. São pessoas como você, cara! Você vai adorar!

– Hum...

– Pode folhear.

Você se mostra indeciso quanto a segurar o livro. Mas ele insiste.

– Para folhear não paga nada, cara. Pode ficar tranqüilo.

Você pega o livro. Até que é bem acabadinho, o danado.

– Qual você está olhando?

– Não sei... Espere... Chama “Em Vão”.

– Esse é um texto feito exclusivamente para o livro. É baseado num blues antigo.

– Blues?

– É. Love in Vain, do Robert Johnson. Você gosta de rock?

É claro que você gosta. Toda pessoa de bom senso gosta.

– Muito!

– Então, os Stones regravaram essa música. Mas eu prefiro o original.

– E é baseada na letra?

– Isso mesmo. Tem outra também que é baseada num filme antigo, chama Desencanto. O filme, não a crônica. É um filme do David Lean.

– Quem?

– David Lean.

– Não conheço.

– É o cara que fez A Ponte do Rio Kwai e Lawrence da Arábia.

– Ah, sei sim. Mas não conheço esse filme.

– Pouca gente conhece, é da década de 40. E acho que não saiu em DVD no Brasil. Ao menos, não de forma oficial.

Como esse baixinho sabe isso? Ele deve estar inventando essas coisas. Ou é louco. Com essa barba, é mais provável que seja louco mesmo. Você começa a sentir vontade de ir embora.

– Olha...

– Mas têm outras. Tem a história do cara que queria voltar a ser adolescente e tenta mudar a própria idade. Tem a menina que consegue um encontro dos sonhos, mas não sabe se consegue voltar a ser feliz. Tem uma que eu gosto muito que é um casal se despedindo no metrô. É uma das minhas preferidas.

Pior que o livro parece interessante. Ouvindo assim, dá vontade de ler. Bem, você não tem nada a perder mesmo. Além disso, você já leu tanta coisa que não gostou. Será que esse cara não merece uma chance?

– Foi você mesmo quem escreveu?

– Isso mesmo. Todas elas. Eu tenho um blog. Na verdade, dois blogs. Esse livro é o do blog menos famoso.

– E o livro do mais famoso?

– Não, por enquanto, só tenho esse. Esse é o primeiro.

– Mas vai fazer do outro?

O baixinho olha para os lados e se aproxima de você, diminuindo o tom de voz. Você se abaixa para ouvir melhor o que ele diz.

– Olha, você não conta para ninguém?

– Não.

– Promete.

– Ok.

– Promete!

– Prometo.

– É o seguinte. O meu blog mais famoso, o nome dele está aí no livro, é o próximo a virar livro.

– E vai ser coletânea também?

– Fala mais baixo! Aí que está. Não vai.

– Vai ser o quê?

– Vai ser um romance. Uma enorme história, inédita. Toda ela inédita, com todos os personagens do blog. Ou quase todos. Vai ser quase uma postagem de, sei lá, cento e poucas páginas!

– Uau! E já tem título?

– Sim. Bolei essa semana.

Ele não consegue disfarçar o orgulho.

– E como vai chamar?

Ele olha atentamente para os lados. Fica na ponta dos pés e chama você novamente. Você se abaixa e ele sussurra algo no seu ouvido, mas, infelizmente, você não entende nada. Consegue identificar apenas que é um nome curto.

Mas não há tempo para pedir que ele repita, pois ele se afasta novamente, e volta ao tom de voz normal, coçando a barba.

– Demais, hein?

Ele não consegue disfarçar o sorriso. E, sorrindo, com os olhos brilhando, aponta para o livro, que ainda está na sua mão.

– Mas o primeiro é esse.

– E quando sai o outro?

– Depois desse.

Esse cara está de sacanagem, só pode ser.

– É evidente que é depois desse. Este é o primeiro!

– Não, não. Você não entendeu. Eu vou esperar um pouco. Quero que este primeiro aqui venda um determinado número de cópias, antes de lançar o outro.

– Ah, entendi. E que número você quer chegar?

– Ah, cara, aí você quer saber demais, né? Eu tenho meu número na cabeça. Chegando nesse número, eu lanço o outro.

Você tenta captar a resposta no olho dele, mas não consegue. Podem ser oito livros, como podem ser dez mil. Mas a empolgação dele é genuína. E contagiante.

– Quanto custa?

– R$ 34 e uns quebrados.

– Uns quebrados?

– É, eu não consigo decorar os centavos. Tento, mas não consigo de jeito nenhum. É... R$ 34,62, acho.

Ele é louco mesmo. Um louco que quer arrancar trinta e cinco paus de você. Louco e pilantra.

– Carinho, hein?

– Mas vale a pena. Cada crônica. Eu garanto.

– Hum...

– Pode confiar. E, olhe, se comprar agora, aqui, da mão do autor, eu autografo. Quer dizer, você tem caneta aí?

– Tenho.

– Eu autografo.

Com autógrafo ainda. Eu, no seu lugar, compraria, leitor.

– Ok. Me convenceu. Você aceita cheque, né?

– Oi?

– Estou sem dinheiro comigo. Mas tenho cheque.

– Porra, meu... Cheque? Acho que ninguém aceita cheque hoje em dia. Talvez um mendigo. Mas, convenhamos... Eu sou escritor, mas não vamos exagerar, né?

– Então, nada feito.

– Olha, vamos fazer o seguinte? Você tem cartão?

Será que ele vai puxar uma máquina do Visa do bolso? Se ele fizer isso, é golpe. Mas você decide ver o que ele pretende.

– Tenho.

– Então você pode comprar pelo site.

– Seu site?

– Não! É o Clube de Autores, o livro está à venda ali.

– Entendi. E lá aceita cartão?

– Aceita. Crédito e débito. E no crédito você pode parcelar em até dez vezes! Fica fácil demais pagar assim!

– Ok.

– Aí você volta aqui e eu autografo. Fechado?

– Fechado. Qual o endereço do site?

– Anota aí. Aga tê tê pê dois pontos barra barra, né? Clube dos autores, tudo junto, ponto com ponto bê erre...

– Ok...

– Barra trinta e um cinco oito meia...

– Trinta e um o quê?

– Cinco oito meia.

– Só isso?

– Não. Cinco oito meia tracinho tracinho anônimos anderlaine e anderlaine urbanos.

– Dois tracinhos, e depois só anderlaine, né?

– Isso.

– Mais nada?

– Mais nada.

– Ok. Vou comprar. Se eu gostar, volto aqui e você autografa. Fechado?

– Fechado! Valeu cara! Espero que goste! Aliás, você vai gostar sim! Tenho certeza! E divulgue para os seus amigos, vai ser bastante importante!

– Se eu gostar do seu texto, divulgo sim.

– Oba! Mas, olha... Aquilo que eu disse do outro livro é segredo, hein?

– Pode deixar.

– Legal! Aliás, para eu já ir pensando no autógrafo, qual seu nome?

Você responde seu nome e se despede. Caminha poucos metros, antes de ouvir a voz dele, desta vez falando com outra pessoa:

– Oi! Você gosta de crônicas?

Você não olha para trás, e segue seu caminho. À noite, em casa, olhará o site com calma e comprará o livro. E ao recebê-lo em casa, dias depois, descobre que gostou. Mais até do que imaginava. Agora, só precisa voltar até o Masp para o baixinho autografar o seu, torcendo para que ele esteja ali.

Mas, se ele não estiver, tudo bem. Quem sabe ele está escrevendo o outro livro.

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E você? Conseguiu decorar o site? Não?

Mas você, que está lendo este post, em casa ou no trabalho, não precisa decorar nada. Você precisa apenas clicar aqui.

E, claro... Boa leitura!


13 de outubro de 2010

Fim dos Tempos

Não eram mais pessoas. Era uma turba desgovernada, sem controle. Uma massa humana irracional que havia criado vida e não iria se acomodar novamente. O pânico tomou conta da mente de todos. Famílias desesperadas tentavam abrir espaço no meio da multidão. As pessoas gritavam e se empurravam, torcendo para somente encontrar um lugar seguro. Mães segurando crianças de colo pediam ajuda às poucas autoridades presentes, mas eram ignoradas. Não havia para onde correr. Casais de idade, com medo de se separarem no meio da confusão, tentavam se refugiar nos cantos, mas logo eram arrastados, quase à força, pela enorme corredeira humana.

Gritos desconexos, palavrões e pedidos de socorro eram ouvidos. Alguns perderam o controle sobre as próprias pernas, e caíram de joelhos, apenas para ser pisoteados quase até a morte pelos outros que, desesperados para encontrar abrigo, não enxergavam nada mais a sua frente. Outros tropeçavam em brinquedos abandonados, bolsas caídas no chão – objetos que haviam pertencido a pessoas que decidiram largar tudo somente para aumentar suas chances de sobrevivência.

Era uma massa viva formada de ódio e medo.

Começaram os saques. Famintas, as pessoas começaram a atacar o comércio local, tentando conseguir provisões para suas famílias. Como um pavio aceso, os primeiro saques deram lugar à violência. As discussões ficaram progressivamente mais exaltadas, até se tornarem físicas. Uma mulher empurrou uma criança. Um homem foi esfaqueado no rosto com uma faca de plástico branco. Uma mulher de idade foi prensada na parede por um grupo de jovens, e esmurrada até perder a consciência. Uma das autoridades, uniformizada, tentou controlar a turba, mas desarmado, teve poucas chances – logo, foi derrubado pela multidão, e após ser espancado, foi praticamente devorado vivo.

Não havia mais consciência. Não havia mais amor ou respeito.

Depois de séculos de progresso, a civilização humana havia ruído e desmoronado. O homem estava de volta à barbárie.



No meio disso tudo, segurando uma bandeja e tentando equilibrar meu prato, eu jurei que nunca mais vou colocar os pés em uma praça de alimentação de shopping, no Dia das Crianças.


11 de outubro de 2010

O Príncipe e o Mendigo

Foi sábado, voltando de ônibus para casa depois de passar o dia com a Sra. Gordon.

No banco ao meu lado, do outro lado do corredor, o Príncipe; atrás de mim, o Mendigo. Ambos haviam embarcado junto comigo, no primeiro ponto, conversando. Quando se sentaram, continuaram conversando, a despeito de nem estarem mais no mesmo banco – e eu fiquei exatamente entre eles, como o mediador de um debate.

Mas, aparentemente, eles não perceberam que aquele personagem-de-novela-das-seis-cuja-história-se-passa-no-começo-do-século (também conhecido como “Rob Gordon de boina”) estava apenas fingindo que dormia, mas, na verdade, estava ouvindo a conversa de forma atenta, estudando a crônica que nascia bem à sua frente.

Porque os personagens da tal crônica já haviam sido observados enquanto eu esperava pelo ônibus. O Príncipe era loiro, alto e com um cabelo que demandava umas quatro ou cinco aplicações diárias de condicionador. Carregava uma bolsa de viagem. Já o Mendigo não era tão mendigo assim, como o nome indica. Era uma pessoa comum, das ruas, daquelas que sempre que precisa comprar algo maior (e mais caro) que uma pizza, corre para as Casas Bahia e abre um crediário. Mas, ao lado do Príncipe, era definitivamente um mendigo.

Faltava apenas saber sobre o que era a conversa entre eles. Enquanto esperavam pelo ônibus, já estavam conversando – O Príncipe sempre falando muito mais, e gesticulando muito, como se tentasse vender algo – mas, a cada vinte segundos, ele arrumava o topete, quando o cabelo caía sobre seus olhos; o Mendigo passava a maior parte do tempo ouvindo atentamente e concordando. Mas se portavam como se fossem conhecidos de anos.

Quando o ônibus partiu, eu descobri que não era bem assim. O assunto era o trabalho do Príncipe, que eles conversavam animadamente enquanto eu, de olhos fechados, fingia cochilar.

Príncipe: Eles são milionários, mas, se você tiver carisma, eles te tratam bem, entendeu?

Mendigo: Sim, sim.

Príncipe: Eles são gente de carne e osso. Agora, o legal é que casa noturna igual a esta só existe outra no mundo. Sabe onde fica?

Mendigo: Não.

Príncipe: Em Barcelona. Na Espanha.

Eu sei onde fica Barcelona, animal.

Príncipe: Na Europa.

Eu sei onde fica a Espanha, animal.

Príncipe: Você tem que ir lá, é legal demais!

Mendigo: Eu vou sim. Conheço umas meninas que gostam de uma bagunça, vou colar lá com elas, respondeu o Mendigo.

Príncipe: E o som é muito louco. Só música eletrônica, dá para dançar a noite inteira. Eu toco nesses lugares assim há 20 anos, sempre fiz isso da vida.

Ah, ele é DJ.

Mendigo: Legal! Deve ser bem louco!

Príncipe: Anota meu telefone, quando você colar lá, me liga.

Espere! Vocês acabaram de se conhecer aqui no ônibus? E estão trocando telefone? Depois eu que sou estranho. Ah, eles estão pedindo. Vou decorar o telefone do Príncipe, e usar de alguma forma na próxima vez que ligarem para mim atrás do Cicilho.

Príncipe: Anota aí, 6675-whatever.

6675 o quê?

Mendigo: Beleza, depois eu ligo para você e você fica com o meu.

Repete, merda! Eu não consegui entender o resto!

Príncipe: Faz 20 anos que estou na noite. Mas, olha, nunca bebi, nunca fumei e não sei o que é droga. Não posso misturar as coisas assim.

Repete o telefone!

Mendigo: Senão atrapalha, né?

Príncipe: Isso mesmo. Não fumo e não bebo.

Ah tá. Trabalha na noite faz 20 anos e não fuma nem bebe. Aham. E eu tenho 1.90m.

Mendigo: Mas a tentação deve ser bem forte. Assim, na noite...

Príncipe: É sim, porque eu gosto de uísque. Eu bebo um copo, só. Metade uísque, metade energético.

O que aconteceu com o “não bebo”?

Mendigo: Uísque é bom demais. Eu gosto.

Ao menos, o Mendigo é mais sincero.

Príncipe: Cara, e aí saio da balada e vou fumar um cigarro na calçada.

O que aconteceu com o “não fumo”?

Príncipe: E é legal fumar com o uisquinho, dá uma relaxada

Ele se contradiz a cada frase. Aposto que em menos de dez minutos, ele vai abrir a bolsa, pegar uma seringa e injetar aqui no ônibus mesmo, dizendo que não usa drogas.

Mendigo: Eu fumo também.

Príncipe: Mas olha, quando você for, não vai de quarta-feira. Só tem bandido lá, de quarta-feira. E não é ladrão de galinha, não. É bandido grande. Do PCC.

Oi? Do PCC? É O Salve Geral Night Club?

Mendigo: Pô, aí complica.

Príncipe: E o problema nem são eles, são as mulheres. Eles vão com as namoradas, e mulher de bandido é foda. Elas se atiram em cima dos outros, se você olhar, você leva um tiro. Eu nem colo lá de quarta-feira.

Sei. E também não fumava e não bebia. Aposto que ele é o primeiro a chegar lá de quarta-feira. E já deve ter mexido com a mulher do Marcola.

Mendigo: Não, mas eu vou de sábado, é minha folga.

Príncipe: Isso, de sábado é legal. Dá para dançar a noite inteira. Com quem você vai?

Mendigo: Uma menina que eu estou saindo, ela está lá na praia hoje. Amanhã vou descer lá, ela está sozinha na casa dela.

Príncipe: Aí é esquema, hein? Eu estou sozinho esse feriado, tem uma mina que eu saio, mas nunca rolou nada além de uns beijos. E ela está em Curitiba agora. Cara! Eu falei com ela pela internet, e ela disse que se eu estivesse lá, iria rolar mais que beijo.

Mendigo: Sério?

Príncipe: Nossa! Velho! Fiquei instigado demais!

Ele deve ter aberto a calça. Que nojo. Não quero pensar nisso.

Príncipe: Quase entrei no computador! Fiquei maluco!

Meu Deus do céu... Com uma mão arrumando o topete, e com a outra... Meu Deus, que nojo! Pense nos discos do Iron Maiden. Rápido. Iron Maiden, 1980. Killers, 1981. The Number of the...

Mendigo: Mulher que instiga é foda.

Príncipe: É, mas eu sou sossegado.

Como sossegado? Você estava quase copulando com o monitor!

Príncipe: Mas, velho... Trabalhar à noite é foda. Muita tentação. Só orgia. Orgia atrás de orgia atrás de orgia.

Mendigo: Caralho!

Príncipe: Uma vez eu dei som numa balada em Ilha Bela. A balada era na praia. Cara, toda noite depois das baladas juntava eu, o pessoal da balada e as meninas do Tic Tac.

Tic Tac? Tic Tac não era um palhaço da televisão? Do que ele está falando?

Mendigo: Tic Tac?

Obrigado.

Príncipe: É, Tic Tac. As balinhas! Sabe? Tinha umas modelos deles promovendo a balada. A gente saía todas as noites. Eu, elas e o pessoal da balada. Cara, era suruba toda noite. Toda noite!

Esse cara não comia ninguém. Tenho certeza! Ganhava um caixa de balinha e olhe lá. Aposto que ia para casa sozinho e ficava chupando Tic Tac e falando putaria no computad... Ah não! Aquela cena dantesca, de novo não! The Number of the Beast, 1982! Piece of Mind, 1983!

Príncipe: Cara, a noite é muita putaria. Vê aquelas casas de swing que tem por aí.

Mendigo: É, eu já fui uma. Fui com uma garota que conheço, mas não comi ninguém. Só fiquei olhando.

Eu gosto da honestidade desse cara.

Príncipe: Mas, cara, isso é coisa velha. É que hoje está na moda. Mas é antigo, esse negócio de swing. Sabe quem lançou isso?

Mendigo: Quem?

Se ele falar " fui eu, em Ilha Bela", eu desço do ônibus aqui mesmo.

Príncipe: Foram os caras lá da... Da... Da...

Os cara de onde?

Príncipe: ...da Grécia.

Não ria. Não ria. Não ria.

Mendigo: Ah é?

Príncipe: É sim. Lá na Grécia. Sodoma e Gomorra. Tinha putaria demais ali.

Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria. Não ria.

Príncipe: Cara, mas a putaria rola na cidade. E aquelas festas dos maçons?

Não ria. Não ria. Não ria. Não r... Oi? Maçons?

Mendigo: Oi?

Príncipe: É. Tá cheio aí na cidade, mas os caras não divulgam. Só milionário. Dono de banco, dono de supermercado. Os caras se reúnem na mansão de um deles. Todo mundo usando máscaras. E a putaria rola solta! Todo mundo se comendo, de máscara.

Sim, eu vi esse filme também. É o De Olhos Bem Fechados, do Kubrick.

Mendigo: Caralho.

Príncipe: E você não pode tirar a máscara!

Sim, senão vão ver que um deles é o Tom Cruise, e ele não deveria estar ali. Eu vi esse filme no cinema e tenho em DVD.

Mendigo: Nossa, que demais!

Príncipe: É bem louco! Cara, eu vou descer já! Você trabalha ainda hoje?

Mendigo: Trabalho. Vou levar um ônibus até a praia. Estaciono o ônibus, desço lá na rodoviária e vou encontrar a menina.

O DJ Deslumbrado e o Motorista da Viação Cometa. Que duplinha.

Príncipe: Mas cola lá na balada!

Mendigo: E quanto morre ali?

Príncipe: 60 reais. Mas você consome lá dentro.

Mendigo: Oi?

É, cara. 60 reais. E nem leva seu comprovante de residência que eles não abrem crediário. E outra coisa, esse lugar deve ser um inferno. Eu não iria.

Príncipe: Você paga para entrar, mas bebe lá dentro. Então, você paga, mas consome.

Mendigo: Entendi. Beleza!

Príncipe: Você paga, e o dinheiro que você pagou você usa lá dentro.

Todo mundo já entendeu!

Príncipe: Assim, o dinheiro que você usou para entrar, você vai beber.

Chega!

Mendigo: E o uísque é caro lá?

Príncipe: Uns 15 reais. Eu acho caro. Mas o cara não vende a bebida, né?

Oi?

Mendigo: Oi?

Príncipe: Ele vende o momento.

O momento? Isso tem cara de livro de auto-ajuda. Compre dois uísques e ganhe desconto na palestra de liderança que vai ter na pista de dança as 2:30 da manhã.

Príncipe: Você está ali, se divertindo, curtindo, dançando... Aí você bebe um uísque, ele não está vendendo a bebida, está vendendo o momento.

Sei. Quer dizer então que se eu for ali, pedir um uísque e avisar que só vou beber num outro momento, em que eu estiver triste, eu pago mais barato?

Mendigo: Beleza, cara! Eu te ligo!

Príncipe: Liga sim! Eu coloco seu nome na lista. Você vai curtir!

Mendigo: Beleza!

Príncipe: Cara, vou descer aqui. Até mais!

Mendigo: Eu te ligo até sábado!

Príncipe: Beleza! Se cuida aí!

E desceu, carregando a mala com uma mão, e arrumando o topete com a outra. O Mendigo, atrás de mim, ficou todo agitado, provavelmente imaginando que sábado ele terá a noite da vida dele, com a tal da menininha que está na praia.

Eu, por outro lado, apostaria todo meu dinheiro que ele vai acordar no domingo numa banheira cheia de gelo e sem um rim. E aí vai ter que dar um jeito de comprar outro rim, e vai descobrir que as Casas Bahia não vendem isso, e vai ter que pagar à vista.

Mas não era problema meu. Abaixei a boina e cochilei dez minutos.


8 de outubro de 2010

Carta Aberta a John Lennon

Eu conhecia você antes mesmo de conhecer suas músicas.

Como qualquer pessoa do planeta, eu já tinha ouvido as pessoas falarem seu nome, bem como o nome da sua banda. E, provavelmente sem querer, tropecei em algumas das suas canções ainda menino, mesmo sem saber que as músicas eram suas.

Porque, quando eu ainda era menino, as suas músicas tocavam em todos os lugares, o tempo todo. Mas eu ainda não sabia quem era você.

Mas foi logo depois que eu deixei de ser criança – naquela fase na qual a gente começa a descobrir as músicas que irão ditar não apenas o que ouviremos para sempre, mas, principalmente, a pessoa que seremos pelo resto das nossas vidas – que eu decidi prestar atenção no seu trabalho.

É aquela fase da vida em precisamos de ídolos, de músicas, de rebeldia. Você passou por isso também, lembra? Quando você era menino, ficava ouvindo músicas no rádio e em discos. Todo menino faz isso, acho. Você fez, meus amigos fizeram, eu fiz. Mas, enquanto você, no começo dos anos 50, descobriu o blues e o skiffle, eu, quase quarenta anos depois disso, descobri o rock. E descobri os Beatles.

E foi aí que você entrou na minha vida.

Aliás, eu me lembro exatamente da primeira vez que escutei suas músicas. Era uma fita K7 branca, com “Os 20 Maiores Sucessos dos Beatles”. Quando ouvi pela primeira vez, fiquei impressionado: eu já conhecia – e já adorava – pelo menos metade daquelas músicas, sem saber que elas eram daquela banda que eu tinha ouvido falar tão bem, de tantas pessoas diferentes. A sua banda.

Esta fita – que ainda deve estar na casa dos meus pais – foi uma das minhas grandes companheiras no final da década de 80. Eu ouvia todas as noites, e ainda me lembro a ordem das quatro primeiras músicas: She Loves You, Love me Do, I Want to Hold Your Hand e Can’t Buy Me Love. Você acredita que até hoje, quando eu acabo de ouvir She Loves You, fico esperando pelos primeiros acordes de Love me Do? De tanto que eu escutei aquela fita, a ordem das músicas ficou impressa na minha memória a esse ponto.

Com o tempo, eu envelheci e descobri outras músicas, outros gêneros, mas as suas canções, as suas frases sempre estiveram ali (até mesmo de forma indireta, já que a maior parte das músicas que eu ouço hoje existe apenas porque, um dia, você decidiu montar uma banda de rock no colégio). Mas as suas músicas, especialmente, me acompanharam por todos estes anos.

Porque sempre que eu precisei de um conselho, sempre que eu precisei pensar um pouco (ou justamente parar de pensar um pouco), sempre que eu precisei chorar um pouco, era em direção às suas músicas que eu corria. Porque, se quando eu era menino me divertia com o que você gritava, ao amadurecer eu comecei a compreender o que você dizia, gritando ou não. E as coisas que você dizia faziam muito sentido. Sempre fizeram.

Assim, eu passava horas ouvindo suas músicas e acompanhando as letras. E, quando você ficava em silêncio, somente tocando seu instrumento junto com seus três amigos, eu me perguntava como você conseguia dizer tudo o que queria, daquela forma tão precisa e tão elegante, com tão poucas palavras.

Como você conseguia falar de tantos sentimentos, do mundo e das pessoas, e de você mesmo, daquela forma? Não sei. Acho que ninguém saberia explicar isso – somente você.

Mas não deu tempo de explicar.

Por que, numa noite que deveria ser como outra qualquer, cinco tiros acabaram com tudo. Tudo aconteceu apenas em alguns segundos, mas, a partir deste momento, estes segundos durariam para sempre. E até hoje ninguém no planeta conseguiu entender ao certo o motivo disso. E muito menos compreender porque logo com você.

Eu, ao menos, me pergunto isso até hoje. É engraçado... Eu não me lembro de quando os tiros aconteceram – eu era muito pequeno – mas me pego pensando sobre isso, às vezes. E, quando vejo, estou na frente do PC vendo vídeos e lendo artigos sobre esses malditos tiros, e me perguntando por que logo com você, com um gosto amargo na boca.

Se não fossem estes tiros, amanhã você faria 70 anos.

Mas, ao invés de pensar em tudo o que você poderia ter feito nestas décadas que roubaram de você, eu prefiro pensar em tudo o que você fez.

Prefiro pensar em tudo o que você fez pelo mundo, tudo o que você nos deixou, tudo o que ensinou – algumas coisas nós ainda não aprendemos, mas estamos tentando. E prefiro pensar em tudo o que você fez por mim (mesmo sem saber disso) quando traduzia exatamente o que eu sentia com suas canções.

Ao invés de pensar nos tiros, gosto mais de pensar em tudo o que você me ensinou.

Sabe... As músicas que você ouviu quando menino fizeram com que você se tornasse um músico. E até hoje o mundo deveria agradecer por isso, todos os dias. Mas as músicas que eu ouvi quando menino – as suas músicas! – me ajudaram muito a fazer o que eu faço hoje, que é escrever. E a coisa que eu mais gosto de fazer na vida é escrever.

E devo muito disso a você e a suas músicas. Foram elas que me ensinaram a questionar muitas coisas, e, principalmente, me ajudaram muito a amar e aprender o que é o amor. E quem escreve precisa amar. Você sabia disso. Você sabia disso certamente melhor do que eu.

E você não faz idéia da vontade que eu tenho de poder agradecer isso a você, um dia desses.

Mas eu queria que você soubesse que, os cinco tiros, mesmo com seus estampidos altos, nunca calaram sua voz. Ela continua aqui.

Lembra quando eu disse lá em cima que, quando era menino, suas músicas tocavam em todos os lugares, o tempo todo? Bem, eu não sou mais um menino, e suas músicas continuam tocando em todos os lugares, o tempo todo.





E vai ser sempre assim. Sua voz vai estar aqui, por anos e anos. Sua voz vai estar aqui para sempre. Isso é algo que nem todos os tiros do mundo iriam conseguir interromper. Pode confiar em mim.

You may say I’m a dreamer... But I’m not the only one. Palavras suas, lembra? O sonho nunca acabou. E nunca acabará.

Parabéns pelo seu aniversário.

E obrigado, muito obrigado, por tudo.

Rob

7 de outubro de 2010

Dedicatória

Minha letra é horrorosa. Sempre foi.

Mas eu juro que vou me esforçar (até mesmo comprando cadernos de caligrafia se for preciso), para caprichar bastante na dedicatória do exemplar autografado de Anônimos e Urbanos que será sorteado hoje, no final do dia.

Para concorrer, basta me seguir no Twitter (@robgordon_sp) e dar RT nesta mensagem (tomando cuidado para não esquecer o link):

Dê RT e siga o @robgordon_sp para ganhar um exemplar autografado de Anônimos e Urbanos! http://kingo.to/itT

O sorteio será hoje as 19h00min.

Boa sorte!



Update: Promoção encerrada.

O vencedor foi o @Descharth.

Mas cabem aqui alguns esclarecimentos. Primeiro: como eu sou eu, o link usado na promoção (e fornecido pelo sorteie.me) era semelhante ao de uma outra promoção, envolvendo o sorteio de ingressos para o show de uma dupla sertaneja.

É, eu sei.

Sim, podem rir (eu riria). Não, não vou ficar bravo.

Pronto?

OK, vamos continuar. Com a melhor das boas vontades, resmunguei um "podia ser pior, podia ser segunda-feira" e continuei com a promoção. Na hora de sortear, tudo se resolveria.

Ou não. Afinal, como eu sou eu e não canso disso, o sorteie.me teve algum bug na hora do sorteio, e me deu a seguinte mensagem:

– Sinto muito, nós podemos fornecer apenas um ganhador.

– Sim, mas é isso que eu quero. Um vencedor, respondi.

– Sinto muito, nós podemos fornecer apenas um ganhador.

– Eu sei disso! Me dê o nome da pessoa!

– Sinto muito, nós podemos fornecer apenas um ganhador.

– Ok, desisto. Você ganhou, só um ganhador, certo? E qual o nome dele?

– Sinto muito, nós podemos fornecer apenas um ganhador.

– Filho da puta! Me dá o nome!

– Sinto muito, nós podemos fornecer apenas um ganhador.

Desisti e deixei o site falando sozinho.

Fui no Twitter, vi quantos RTs a promoção recebeu e mandei o random.org sortear o número de um destes RT. Deu 59 (o @descharth).

Ou seja, se o sorteie.me resolver bancar o bobo e esperar eu virar as costas para correr para o Twitter e gritar o nome de alguém ali... Bem, se você for esgte alguém eu lhe mandarei um livro também (e eu me entendo com o sorteie.me depois).

E dica: já deixem o Word aberto. Semana que vem, após o feriado, vou fazer algo diferente, com mais exemplares.

Rob.

Update 2: Se você quiser ingressos para o show da dupla sertaneja em questão, vou lhe ajudar como posso. O nome da dupla é Júnior & Marcel, e o convite está aqui. Favor não me avisar como foi o show. Divirta-se.

4 de outubro de 2010

Nasceu!




O blog Champ Chronicles virou livro!

Deu muito trabalho. Foram meses tentando encontrar a melhor forma de levar a idéia adiante, selecionando e revisando textos, conciliando isso com a minha rotina normal – ou seja, encaixando a produção do livro com minha vida profissional e sem deixar as postagens (nos dois blogs) de lado. No meio do caminho, surgiram, claro, mudanças de planos, pequenas reviravoltas e imprevistos.

Mas, agora, finalmente deu certo.

Assim, um dos meus grandes sonhos, que é ver o que eu escrevo, aqui na internet, ganhar o mundo do papel, se tornou realidade.

O caminho escolhido foi totalmente independente: a melhor alternativa que encontrei foi o Clube dos Autores, que trabalha com um sistema de book on demand – ou seja, o consumidor compra o livro e eles imprimem uma cópia para esta pessoa. Não é nada grande, pelo contrário.

Mas isso é justamente o que eu queria agora: algo que pudesse me ensinar como funciona a mecânica desse processo inteiro, ao mesmo tempo em que eu tivesse a liberdade criativa sobre o produto final. E, claro, liberdade criativa é importante, mas é trabalhoso: posso dizer aqui, sem medo de errar, que eu fiz quase o livro todo inteiro (o que inclui editoração, textos das orelhas e da contracapa).

Mas chega de falar do processo, e vamos falar do livro.

Porque o Chronicles? Porque não o Champ?

Por dois motivos.

Primeiro, sejamos sinceros: o Champ é algo muito maior. Eu preciso primeiro aprender a fazer isso antes de pensar num livro dele (e vou abrir o jogo aqui, o livro já está muito pensado). E, segundo, os textos do Chronicles, por natureza, têm mais vocação para o papel. E isso foi bastante importante na hora de decidir qual blog ganharia o mundo “real” primeiro.

Assim, o livro, batizado de Anônimos e Urbanos, contém mais de cinqüenta crônicas, selecionadas entre as minhas preferidas (e aquelas que acredito serem as prediletas da maioria dos leitores). E, claro, um pequeno punhado de textos inéditos, que foram feito com exclusividade para o livro – e que jamais chegarão ao blog.

Agora, eu tenho um agradecimento e um pedido. Primeiro, quero agradecer a todos os leitores que sempre insistiram nesta idéia comigo. Muito obrigado mesmo, pois eu jamais teria conseguido isso sem vocês.

O pedido? Todo o trabalho de divulgação do livro é feito por conta do autor. O site Clube dos Autores cuida “apenas” da comercialização e impressão. Então, meu pedido, a todos os leitores, é: me ajude. E não porque assim será mais fácil para mim (sim, será), mas eu quero que vocês participem disso.

Se você gosta dos meus textos, compre. Para você, para dar de presente. E não estou tentando ficar rico (mesmo porque como jornalista e blogueiro, eu já me conformei em ser pobre para sempre). Basta clicar na imagem, aí na side bar, para comprar (ou clicando aqui).

Eu quero a sua ajuda conseguir para alavancar novos livros, novos projetos. E, quem sabe, projetos ainda maiores que esse.

E tão importante quanto comprar: me ajude a divulgar. Mostre os textos (e, claro, o livro) aos seus amigos, namorados, parentes. Espalhe no Twitter, na faculdade, na escola.

Vai fazer (muita) diferença, acredite.

E uma convocação especial aos blogueiros amigos. O boca a boca que vocês fazem é extremamente importante e será essencial para isso. Quer falar do livro no blog? Estou aqui à disposição. Tem alguma ideia maior ainda? Estou aqui à disposição também, vamos conversar.

Afinal, se você está lendo este texto, acredite: este livro também é seu.

3 de outubro de 2010

O Horror... O Horror...

Foi sexta-feira.

Estava indo trabalhar quando, na frente da Fnac, avistei umas três ou quatro meninas portando bandeiras do Partido Verde. Nada mais comum: faltavam dois dias para as eleições, essas meninas com bandeiras estão nas principais ruas de todas as grandes cidades do Brasil.

Enquanto planejava o meu dia, me aproximei de onde elas estavam, e reparei que uma delas estava falando com um motoqueiro.

Não, na verdade, era o motoqueiro quem falava com ela. Isso porque ele estava estacionado no meio da Pedroso de Morais, aproveitando que o sinal estava fechado para falar algo para a menina.

Evidentemente, achei que ele estivesse cantando a menina. Foi pior. Eu peguei apenas uma frase:

– O problema é que o Partido Verde planta, planta, planta... E o José Serra!

E começou a rir sozinho.

Eu congelei. Na hora, tive a sensação de ser atingido por 14 raios. Um para cada palavra. Meu QI, imediatamente, caiu uns 70 pontos – e dado que isso aconteceu antes do almoço, é quase certo que, com isso, eu entrei no cheque especial da inteligência.

Tonto, consegui apenas me apoiar na vitrine de um dos sebos da Pedroso. O mundo rodava. As palavras “planta” e “serra” giravam multicoloridas na minha mente, apagando todos os livros, filmes, músicas e séries que eu apreciei na vida.
Mais que uma simples piada ruim, aquilo era um vírus apagando meu cérebro.

E foi aí, neste momento, que eu enlouqueci.

Subitamente, eu não usava mais jeans e camisa, mas sim roupa militar, com meu rosto camuflado. Eu não estava mais na Pedroso de Morais, eu estava no Camboja. E mergulhei em outra realidade, onde eu vivia lendo T. S. Elliot, no meio da floresta, administrando um exército de nativos que me adoram como a um deus.

E, daqui a alguns anos, quando mandarem um motoboy humorista me assassinar, eu vou me sentar na frente desta pessoa, numa caverna escura, e recitar (favor ler com a voz do Brando):

O horror... O horror tem um rosto... E você deve fazer do horror o seu amigo. O horror e o terror moral são seus amigos. Caso contrário, eles são inimigos a serem temidos. São inimigos de verdade. Eu me lembro de quanto trabalhava com jornalismo... Sinto como se fosse há milhares de séculos ... E eu estava indo trabalhar, quando vi um motoboy... No meio de Pinheiros... E ele gritou que o Partido Verde planta e o José Serra... E eu me lembro... Eu... Eu chorei como se fosse uma velhinha. Eu queria arrancar meus próprios dentes, eu não sabia o que fazer. E eu queria me lembrar. Eu queria não esquecer jamais daquilo. Eu queria não esquecer jamais daquilo. E então, eu percebi... Como se eu tivesse sido alvejado... Alvejado com um diamante... Com uma bala de diamante bem no meio da minha testa. E então eu percebi... Meu Deus, a genialidade daquilo! A genialidade daquilo tudo! Perfeito, genuíno, completo, cristalino, puro. Foi então que eu percebi que eles são mais poderosos que nós.


1 de outubro de 2010

Gestação

Começou em 2007.

Eu já escrevia no meu outro blog – o Championship Vinyl – mas sentia falta de um lugar onde pudesse publicar textos mais sérios, mais reflexivos. Isso sem falar em um lugar onde eu pudesse mais brincar e experimentar coisas diferentes, especialmente no que diz respeito ao formato dos textos.

Assim, criei o filhote Championship Chronicles, que logo passou a ser conhecido como Chronicles pelos leitores. Aos poucos, o blog começou a ganhar forma. Se suas primeiras crônicas abordavam todos os assuntos que eu quisesse – e eram todos mesmo, de futebol ao relacionamento entre Adão e Eva –, com o passar do tempo o blog se especializou em personagens anônimos, que percorrem as ruas da cidade em busca de algo que nem eles mesmo sabem do que se trata direito.

Quem são eles?

Em muitos textos, eles não existem: eu apenas imagino uma situação e preciso escrever a história para descobrir como seria o final dela.

Mas, em outros, eles existem sim. São várias pessoas. São pessoas que eu conheço, ou que eu simplesmente vejo na rua e começo a brincar, imaginando a história por trás dela. E às vezes, sou eu. Mas, se você já leu o blog alguma vez, sabe que poderia ser você. E talvez seja.

Desta forma, o acervo do blog foi crescendo e, mesmo com o Champ Vinyl se tornando mais e mais conhecido pelos leitores de blogs, o Chronicles acabou se tornando meu lugar preferido.

Se no primeiro eu escrevo “sobre mim para os outros”, no Chronicles é justamente o inverso: eu escrevo “sobre os outros para mim”. Eu quero que cada um dos personagens tenha um final feliz, mas muitas vezes eles não conseguem isso. Independente de como suas histórias acabam, eu, enquanto as escrevo, me questiono, me desafio e, por mais que seja piegas, me emociono.

Sim, me emociono. Cheguei a gargalhar alto enquanto escrevia alguns destes textos, da mesma maneira que chorei em outros.

E todos eles me marcaram de alguma forma.

(continua...)

Sonhos de Kurosawa Gordon VII

Eu estava no quintal de um sobrado enorme. Era uma espécie de rampa, coberta por grama e com tufos de mato, indicando que ninguém cuidava daquilo há tempos.

Ao meu lado direito, ficava a casa em si: um sobrado branco e envelhecido, mal conservado e precisando ser pintado urgentemente, que ia até o final da propriedade, acompanhando a subida da rampa. Ao meu lado esquerdo, o oceano ou um lago, com um pequeno cais.

Eu não estava sozinho, mas sim com meu irmão, procurando pela minha cunhada e pela minha sobrinha (sim, eu sei que no mundo real minha sobrinha é, na verdade, meu sobrinho), que haviam sido seqüestradas.

E nós também não estávamos sozinhos: diversos homens armados corriam pelo local, como se a casa estivesse sendo atacada por policiais, ou estivesse no meio de uma cidade em guerra. Tínhamos apenas alguns minutos.

Meu irmão correu para dentro da casa. Eu deveria esperar ali, no quintal, caso sua família aparecesse. Não sei como ele entrou na sala, por qual porta, mas logo eu estava sozinho ali, em meio às pessoas que corriam armadas aparentemente para todos os lados.

Não demorou muito para que tudo mudasse. Minha cunhada, carregando no colo um bebê embrulhado num pano brancos e incrivelmente limpo, surgiu no alto da rampa, acompanhada de alguém que eu conhecia, mas não me recordo agora quem era.

Eu corri até eles, e a pessoa que me não lembro quem era gritou:

– Vocês precisam ir embora! Peguem aquele bote e sumam daqui!

– A Priscila está bem?, perguntei apontando para minha cunhada e o bebê.

(Lembro claramente de ter usado este nome: Priscila. Minha cunhada não se chama Priscila. Evidentemente, meu sobrinho também não. Mas isso não fez diferença no sonho).

O sujeito respondeu:

– Sim, mas vocês precisam ir embora daqui agora!

– Porra nenhuma, meu irmão ainda está lá dentro. Nós vamos esperar por ele!

– Seu irmão está morto.

– Não, não está! Ele acabou de entrar na casa!

– Eles pegaram seu irmão! Vocês precisam ir embora!

– Eu não vou embora sem meu irmão!

– Seu irmão já está morto. Nem no país mais ele está!

– Como assim?

– Eles mataram seu irmão e o levaram para XYZ (Europa? África? Não lembro.). Ele vai ser usado como alimento, em algum ritual.

Tive um flash – quase uma visão – do corpo do meu irmão deitado, sem camisa, num local escuro, com sangue ao seu redor. O sangue escorria pelo chão sujo, feito de pedra e cinza escuro, em direção a um ralo. Mas foi um flash rápido. Logo eu estava de volta ao quintal.

– Então você tire a minha cunhada e a minha sobrinha daqui. Eu vou atrás do cara que pegou meu irmão.

– Você não vai entrar naquela casa!

– Eu vou matar o filho da puta.

– Eles são muitos!

– Não faz diferença quantos eles são, porque eu quero apenas um. Eu quero o cara que matou meu irmão.

– Você vai morrer.

– Pode ser, mas antes eu vou matar esse filho da puta. Tire minha cunhada e minha sobrinha daqui, e eu encontro vocês depois.

– Você não tem arma nenhuma!

– Eu não preciso de arma. Eu tenho meu ódio.

Ele começou a correr em direção ao bote, com elas, gritando que iriam me esperar do outro lado. Acredito o “outro lado” era o outro lado do lago, rio, o que quer que fosse aquela água ali ao meu lado. Mas não fazia diferença, porque eu não estava preocupado com isso agora. Eu conseguia sentir ódio, apenas isso.

O céu estava totalmente cinza, não sei se nublado ou por causa da poeira que explosões ali perto tinham levantado. Ou ambos.

Olhei para a casa, em meio aos homens correndo e sons de tiros e me concentrei em uma porta na parte inferior da rampa. Era por ali que eu iria entrar.

Acordei. Para sorte do desgraçado, acordei.