Rob Gordon X Prova da Fievel
Esta história nasceu na faculdade, há mais de dez anos. Mas eu decidi publicá-la somente na semana passada, quando a esposa de um amigo me disse, durante um jantar, que toda vez que eu ou um dos meus amigos conta isso, ela morre de rir. Ou seja, é uma daquelas histórias sem prazo de validade.
Antes de tudo, cabe dizer que eu não era muito assíduo nas aulas, durante a faculdade. Vejam bem, não é que não ia à faculdade; eu ia, apenas não entrava na sala. Eu e meus amigos éramos conhecidos por ficarmos sentados na escada do saguão, tomando Coca e falando mal da vida até a hora do almoço. Parece ridículo, mas não era – acreditem, era praticamente um Champ Vinyl em tempo real.
O interessante é que, mesmo assim, nós íamos bem nas matérias. O segredo da faculdade é saber o que está acontecendo dentro da sala de aula – e para isso, você não precisa estar lá dentro. Assim, íamos bem nas provas e fazíamos trabalhos que os professores cobriam de elogios.
Mas algumas matérias conseguiam ser chatas demais, até mesmo para este tipo de estratégia. Uma delas era ministrada por uma professora que, por motivos óbvios, manterei o nome em segredo aqui, chamando-a de Fievel – afinal, este era o apelido dela, já que ela era igualzinha ao ratinho.
Enfim, com aquela filosofia de “semana que vem eu subo”, fui assistir à primeira aula da Fievel já na metade do semestre. E, com meu tradicional pé-frio, descobri que a aula era uma enorme revisão, pois, na semana seguinte haveria prova. Prova! Eu havia acabado de conhecer a professora, e já teria que enfrentar uma prova. No início da revisão, ela começou a conversar com a sala e disse que o exame abrangeria das páginas 1 a 70 da apostila.
Eu, ainda verde, e no auge da minha ingenuidade, fiz algo, então, que eu jamais teria feito hoje. Levantei o braço e perguntei:
– Qual apostila?
Ela olhou para mim tentando me reconhecer. Obviamente, não conseguiu. Me senti como um jogador de xadrez que percebe que entregou a rainha de graça ao adversário.
– Nós temos apenas uma apostila.
– Ah.
– Você não sabia disso?
– Sabia, claro. Eu só estava checando, tentei inutilmente arrumar.
Ela olhou para mim como se fosse uma espécie de deus da guerra, admirando, do alto do morro, o exército inimigo de seu povo. E o exército inimigo era eu. Seus olhos soltaram faíscas e ela deu um sorriso de prazer:
– Não vejo a hora de corrigir a sua prova.
Eu dei um sorriso amarelo. Talvez um poeta pudesse descrever melhor o que senti: a sensação de fracasso iminente, a proximidade da derrota, o perigo de vida face a face com um inimigo. Como eu não era exatamente um poeta, ainda mais na faculdade, consegui apenas virar para meus amigos e soltar um “agora fudeu” baixinho.
E meus amigos sabiam que o “agora, fudeu”, se estendia a eles também. Afinal, não éramos indivíduos, éramos um grupo. Seja o que for que acontecesse comigo, aconteceria com eles também.
Ao final da aula, saímos dispostos a correr atrás do prejuízo. A única alternativa era comprar a apostila e devorar aquelas 70 páginas. Mas, com aquela filosofia de “amanhã eu compro”, uma semana se passou, não compramos nada e, assim cheguei para fazer a prova com apenas uma arma: uma caneta Bic emprestada da secretaria (não, eu não levava nem caneta para lá).
Começa a prova. Silêncio ensurdecedor. Coloco meu nome e passo os olhos pelas questões. A única que eu sabia a resposta, eu já tinha feito: meu nome. Mas isso não iria me garantir nem meio ponto.
Olhei para meus amigos, meus amigos olharam para mim. Não havia saída.
Talvez tenha sido aí que eu comecei a aplicar a filosofia do “bom, o zero eu já tenho, qualquer coisa acima disso é lucro”. Haviam-se passado quase dez minutos desde o início da prova. Levantei e fui até a professora, fazendo uma cara de enjoado que deixaria Robert de Niro com inveja.
– Estou passando mal, disse a ela.
– O que você tem?
– Eu preciso ir ao banheiro.
– Mas hoje é prova.
– Explique isso ao Delgado e Grosso, aqui dentro. Eu PRECISO ir ao banheiro.
– Ninguém sai na prova.
Os outros alunos começaram a olhar para mim.
– Olhe, eu só tenho uma caneta. Se eu tivesse uma fralda aqui, tudo bem, mas eu não tenho. Eu vou passar vergonha em segundos, falei, contorcendo o rosto devido as minhas contrações intestinais. Quem olhasse de longe, poderia jurar que eu estava entrando em trabalho de parto.
– Tudo bem, mas antes você deixe sua prova aqui comigo.
– A minha prova está em branco. Eu não estou conseguindo escrever. Eu preciso sair agora.
– Se você não voltar em dez minutos, eu vou encarar como desistência.
– Se eu não voltar em dez minutos, é porque eu desisti da vida, e não da sua prova.
Saí da sala, encurvado, com as mãos na barriga. Olhei rapidamente para meus amigos e vi que eles estavam assustados. Mas uma simples piscada poderia colocar tudo a perder. Abaixei a cabeça e saí da sala.
Fechei a porta e comecei a correr. Não em direção ao banheiro, mas para o lado contrário, em direção à escada. Meu destino era a sala de xerox. Eu estava no segundo andar e precisava chegar ao subsolo. Desci todos os lances de escada de oito em oito degraus e cheguei à pequena sala da xerox, onde todos os professores deixavam suas apostilas.
Sabe, é importante você ter amigos em posições altas, mas é mais importante ainda ter amigos nas classes baixas: quem resolve a maioria dos seus problemas são os faxineiros, os responsáveis pela manutenção e, no meu caso, o cara da xerox. Como eu havia ficado amigo dele, não pegava fila, não pagava pelas cópias e tinha livre acesso pela entrada dos funcionários.
E foi justamente pela entrada de funcionários que eu entrei, gritando:
– Me dá a apostila da Fievel!
Ele parou de atender os outros alunos e pegou uma pasta.
– Você vai querer uma cópia? Pega aqui na hora do almoço, eu deixo pronta.
– Não, eu quero ler a apostila agora! Eu estou no meio da prova!
Peguei o calhamaço de papel e me sentei num canto. Antes de sair da sala de aula, eu havia decorado quatro das cinco perguntas da prova. Comecei a folhear a apostila, procurando pelas respostas. O tempo corria, e a única coisa que eu sabia era que as respostas estavam entre as páginas 1 e 70.
Eu era um arqueólogo que havia encontrado um pergaminho com todas as respostas sobre uma antiga civilização. Meus olhos brilhavam, correndo por aquela fonte inesgotável de conhecimento impressa em folhas A4, e presa por um espiral vagabundo. Se aquele momento tivesse uma trilha sonora, ela seria grandiosa, composta pelo John Williams.
Mas eu não precisava saber tudo sobre a tal da civilização, apenas as respostas para as perguntas da prova. Para a minha sorte, a apostila continha um índice.
Fiz o melhor que pude com os poucos minutos que tinha. “O que importa não é o tempo que você tem, mas o que você faz com ele”, diria Gandalf. Decorei as respostas o máximo que consegui, joguei a apostila dentro da xerox, me despedi do funcionário com o tradicional “depois te pago uma Coca” e me preparei para subir.
Eu tinha dois minutos.
Subi as escadas correndo, empurrando outros alunos, professores, todo mundo. Parecia um louco, já que eu ainda falava sozinho (repetindo as respostas em voz alta para não esquecer). Cheguei à porta da sala, respirei fundo e abri.
Nunca vi as pessoas olharem com tanta piedade para mim. Mas entendi o porque imediatamente: a classe inteira achava que eu havia saído por problemas intestinais, e a velocidade com a qual eu subi a escada fez com que eu abrisse a porta da sala branco, suado, ofegante. Ou seja, alunos e professores devem ter achado que eu havia visto a morte de perto no banheiro.
– Você está melhor?, a professora perguntou.
– Eu vou sobreviver. Acho.
– Pode continuar sua prova.
– Obrigado.
Fui até minha cadeira e me sentei. Faltavam uns vinte minutos para terminar a prova. Após alguns segundos recuperando o fôlego, peguei a caneta e comecei a escrever feito louco, respondendo questão atrás de questão, antes que eu esquecesse o que havia lido na apostila.
No meio da segunda ou terceira questão, ouço meus amigos, ao lado, sussurrando entre si:
– Não sei também. Ele foi cagar e voltou sabendo tudo!
– Ele está fazendo a prova inteira!
– Rob, passa essa merda para cá!
– Resmunguei um “espera, não posso esquecer nada, já passo”. Fiz o melhor que pude e passei as respostas para eles. Cinco minutos antes do prazo, entregamos as provas e fomos embora.
Na semana seguinte, os resultados. A Fievel começou a entregar as provas e a sala inteira havia ido bem. A maioria dos alunos havia tirado 7, 8, por aí. Eis que chegou minha prova: 9. Meus amigos? 9, todos eles.
A decepção nos olhos dela era visível. Aparentemente, ela contava com o meu zero, seria a uma das grandes conquistas da sua vida profissional, a história que ela contaria aos netos quando estivesse aposentada.
Eu peguei a prova e olhei a nota. Meus amigos dizem que eu amassei e joguei na mesa dela, mas realmente não lembro disso. Mas lembro que eu virei para ela e disse:
– Nove! Que tesão! Você tem consciência de que eu nunca mais vou assistir uma aula sua, certo?
Uma das poucas coisas que eu me arrependo é que eu ainda não usava o “chupa!” nessa época. Mas, antes que ela pudesse responder, um dos meus amigos me puxou para fora da sala, dizendo “não exagera, Rob, não brinca com o perigo assim”.
Descemos e fomos comemorar com Cocas. E eu, claro, comprei duas: uma para mim e outra para o cara do xerox.
Afinal, eu não sabia quando teria outra prova, mas já sabia que boa parte do meu diploma estava nas mãos dele.
Nota: Quando eu tiver filhos, eles provavelmente lerão este blog. Até eles se formarem, eu vou insistir que este post é mentira, que nada disso aconteceu, foi tudo inventado. Conto com a compreensão e a ajuda de vocês para isso.






