31 de julho de 2009

Algumas Palavras sobre 3 Anos de Palavras

Então, é isso.

Três anos de blog. É muito tempo. Existem casamentos que não duram isso, existem pessoas que não vivem por três anos.

Foram três anos de Besta-Fera, de brigas com atendentes de telemarketing, de desabafos, reclamações. Três anos atravessando situações ridículas, na rua, em casa, no prédio, no trabalho. Foram três anos tentando mostrar que a humanidade não deu certo – às vezes falando sério, mas normalmente tentando arrancar uma gargalhada sua nos momentos em que você lê o blog escondido no trabalho.

É muito tempo. Mas, sejamos sinceros, passou muito rápido.

Parece que foi semana passada que eu comecei a brincar com a idéia de criar um blog, pensando em qual nome ele teria. Lembro de rodar o site do blogger umas quatro vezes – e visitando outros blogs – até ganhar coragem e criar o meu. E me lembro de quando nasceu, numa manhã de terça-feira.

Naquele momento, eu me apaixonei por ele, mesmo sem saber disso na hora.

Não sei quando a paixão virou amor (qual blogueiro de verdade não ama seu blog?), mas, quando o blog começou a receber elogios de gente que nunca vi na vida, ganhou concursos e homenagens de leitores (leitores que viraram amigos; amigos que viraram leitores), eu já amava isso aqui. Aliás, me arrisco a dizer que se eu não amasse, nada disso teria acontecido. Este blog estaria encostado, desatualizado. Esquecido.

Ontem, véspera do aniversário do blog, eu passei um tempo olhando nos arquivos, fuçando nos posts antigos. Fiquei impressionado com o fato de que eu me lembro do momento em que escrevi quase todos eles – consigo dizer quais foram escritos no trabalho, quais foram feitos em casa. E, principalmente, lembro de trechos que gargalhei enquanto escrevia (não, não pergunte: isso é entre eu e o blog).

Mas o mais surpreendente foi que não me reconheci em alguns textos. Olhando estes textos hoje, percebo que teria escrito passagens inteiras de outra forma, mudado o tom de um diálogo ou feito um final diferente.

Sinal de que eu mudei, nestes três anos. Ou, ao menos, meu texto mudou.

E mudou por causa de vocês, que estão aí, do outro lado da tela, passando os olhos por essas linhas. Ou seja, vocês podem ter rido muito ao longo de todos os meses, mas eu aprendi demais com vocês.

Para finalizar, queria compartilhar uma coisa com vocês. Um leitor (não vou identificá-lo, se ele quisesse isso, teria escrito no blog) me mandou uma mensagem me agradecendo por tudo o que escrevi aqui, e dizendo a seguinte frase: “o Champ mudou minha vida”.

Acho que o que estou tentando dizer aqui é que mudou a minha também. Para melhor. Graças a vocês.

Obrigado pelos três anos.

Enfim, como hoje o Champ faz três anos, nada mais justo que ele ganhe um presente. Mas isso será entregue somente à noite – não ainda não sei a hora exata, já que o presente não ficou pronto a tempo. Assim, convido a todos a darem uma passada aqui à noite para conferir a surpresa que o blog irá receber.

Antes disso, porém,vamos seguir a tradição de aniversário e listar, abaixo, as estatísticas da história do blog (sem contar esse post):

1. 415 posts

2. 1.998.378 caracteres (com espaços)

3. 348.284 palavras

4. 7.378 comentários

5. 119 mode: on

6. 176 Tops 5

7. 3 prêmios (ou 5, contando as duas classificações para as finais do Best Blogs Brasil deste ano)

8. 57 selos e indicações (sem contar as que foram recebidas nos últimos meses, mas ainda não entraram aqui)


Update: Pessoal, infelizmente, o Champ foi dormir hoje (é uma criança de três anos, vocês entendem, certo?), e o presente acabou não sendo entregue. Mas prometo que o presente chega junto com a próxima postagem.

29 de julho de 2009

Supercalifragilisticexpialidocious

São Paulo está atravessando um clima pós-apocalíptico, com os dias alternando entre monções do Vietnã e uma espécie de refilmagem de Blade Runner. E, devido ao meu 1.60m, tenho passado por apuros por causa disso.

Como eu vou trabalhar a pé, tem dias que a rua simplesmente não dá pé para mim e eu considero a hipótese de descer a Teodoro com bóias de braço. Isso, nos dias mais feios, claro. Nos dias mais tranqüilos, está apenas chovendo muito. Ou seja, faz mais de uma semana que eu estou molhado.

Assim, resolvi abrir mão de uma das minhas maiores filosofias de vida, e resolvi aderir ao uso de um guarda-chuva. Eu sempre achei que carregar aquilo é mais desconfortável do que ficar molhado, mas, atendendo aos pedidos insistentes (e incisivos) da Sra. Gordon – e após constatar que a umidade estava fazendo começar a crescer limo nas minhas pernas – mudei de opinião e saí para comprar um guarda-chuva.

Minto, não comprei nada. Alguns meses atrás, um amigo meu morou um tempo em casa e, quando foi embora, deixou como espólio um cesto de roupas sujas (vazio, felizmente) e um guarda-chuva.

Cabe dizer aqui que, mesmo fechado, o guarda-chuva é grande. Em pé, bate quase no meu peito. Ok, eu sei que nunca vou receber convites para jogar na NBA, mas, sejamos sinceros, estamos falando de um guarda-chuva, algo que, teoricamente, cabe na bolsa de uma mulher. Enfim, analisei o artefato com a mesma atenção de um primata prestes a fazer uma descoberta importante.

Fui para a sala e, para ver como aquilo funcionava, abri o guarda-chuva.

Fui arremessado para trás e quase derrubei uma cadeira no processo.

Minha sala foi totalmente coberta por uma redoma preta, de cerca de 8 metros de diâmetro. Besta-fera correu de volta para o quarto, apavorado. Mas, teoricamente, o guarda-chuva iria cumprir sua função, já que, pelo seu tamanho GG, conseguiria cobrir até mesmo uma cidade pequena. Assim, armado com meu escudo de impermeabilidade, saí de casa para enfrentar o aguaceiro.

Aí começaram os problemas.

Logo na calçada do prédio, abri o guarda-chuva, mas, desacostumado com o tamanho dele, fiz com que ele batesse numa pequena árvore, criando uma pequena chuva particular em cima de mim. Ou seja, eu mal havia saído do prédio e já estava molhado. Respirei fundo, dei uma sacudida na cabeça (besta-fera mode: on) e iniciei minha jornada.

O primeiro quarteirão da Teodoro foi fácil. Fiz questão de passar, de forma desafiadora, embaixo das enormes goteiras das calhas, só para provocar a chuva. Este, acredito, foi meu erro: subestimar uma força superior.

Logo depois, minha vida começou a assumir ares de tragédia.

Isso porque, para baixo do Pão de Acúcar, a Teodoro Sampaio justifica o nome de avenida e lembra um formigueiro humano. E eu, com aquela redoma sobre a cabeça, dificilmente seria bem vindo ali.

Isso ficou claro nos primeiros cinco metros. Uma velha, portando o seu próprio guarda-chuva, veio na minha direção. Ela tentou desviar o guarda-chuva do meu, e eu – que não estou acostumado com a etiqueta dos usuários desse apetrecho – achei que isso seria suficiente para evitar a colisão.

Não foi.

Meu guarda-chuva enganchou com o dela. Segundos depois, ela era uma pessoa molhada, e eu era uma pessoa molhada e odiada. Pedi desculpas, mas o olhar dela deixou claro que meu índice de popularidade na Teodoro Sampaio já estava caindo a níveis alarmantes. Mas, disposto a humilhar uma das minhas inimigas mortais – a cachoeira que cai do telhado da lotérica ali na esquina da Cardeal com a Pedroso – empunhei minha arma e fui em frente.

Afinal, agora eu sabia o que fazer: bastava levantar meu guarda-chuva dos outros para evitar atritos. Mesmo com meu 1.60, descobri que isso adiantaria, pois (agora eu sei) existe uma espécie de código entre os portadores de guarda-chuva: quando eles se cruzam, o primeiro a levantar o guarda-chuva é respeitado (independente da altura dele) e cabe ao outro respeitar isso e abaixar o seu de forma obediente.

Com isso em mente, assumi a postura de portador de um guarda-chuva alfa e fui em frente. Andei alguns metros e dei de cara com um moleque andando com um guarda-chuva bem menor que o meu e todo estampado. Meu guarda-chuva, preto e imponente, jamais se abaixaria para um guarda-chuva ridículo como aquele. Cheguei perto do moleque e o ergui, esperando que o sujeito, submissamente, abaixasse o dele.

Eu era o monarca da Teodoro Sampaio.

A única coisa que eu não contava era com o vento. Talvez portadores de guarda-chuva mais experientes tomem cuidado com o vento (estudando mapas com as principais correntes de ar da cidade e controlando cuidadosamente o ângulo de inclinação do guarda-chuva), mas eu, no ímpeto de atestar o domínio do meu guarda-chuva sobre os outros, o enfiei diretamente numa corrente de ar, que sabe-se lá de onde vinha e para onde ia.

Resultado: meu guarda-chuva foi arremessado para trás, quase escapando da minha mão. Para evitar um vexame maior ainda, o segurei firme, e, novamente todo molhado, fui arrastado uns dois metros para trás, totalmente sem controle das pernas. Tive medo de sair voando e ir parar na Paulista.

Em questão de segundos, eu havia deixado de ser o monarca da Teodoro Sampaio e estava prestes a me tornar a Mary Poppins da Teodoro Sampaio.

O moleque e seu guarda-chuva ridículo passaram rindo, e provavelmente ele está comentando até hoje do carequinha que brigava com um guarda-chuva na Teodoro Sampaio como se estivesse tentando domar um cavalo selvagem. Ô fase.

Mas eu não desistiria tão fácil.

Novamente, empunhei meu guarda-chuva sobre a cabeça e segui adiante. Já nem pensava mais na goteira da lotérica, e sim no fato de que já havia percorrido mais da metade do caminho. E, para não correr mais o risco de alçar vôo, deixei o guarda-chuva colado na minha cabeça, o que me deixou parecido com um daqueles cogumelos que participam da Dança Chinesa no Fantasia. Os outros que desviem de mim e se entendam com o vento.

Abaixei a cabeça e fui em frente.

Mas me esqueci de um detalhe. O quarteirão antes da Pedroso é o habitat natural da temível camelô que vende camisas de futebol. E seu covil, onde ela expõe centenas de camisas, ocupa o espaço de uns dois carros. Mesmo em dias de Sol já é difícil passar por ali. E eu, compenetrado em manter secos os poucos centímetros do meu corpo que ainda não estavam molhados, só me lembrei dela tarde demais.

Ou melhor, só me lembrei dela quando senti um puxão no guarda-chuva e vi que ele havia se enroscado com uma camisa do Real Madrid.

Disfarçadamente, dei um puxão nele, e acabei fazendo com que ele se prendesse numa camisa da Alemanha. Fiquei sem reação: se eu saísse andando, provavelmente traria mais camisas comigo, e meu guarda-chuva, na melhor das hipóteses, iria parecer um varal (na pior, eu me transformaria na fachada de um cortiço).

A camelô, com seu tino comercial afiado, não entendeu que a camisa havia enganchado no meu guarda-chuva (ou vice-versa, vá lá) por acidente. Tudo o que ela podia ver era uma pessoa segurando uma camisa da seleção alemã. Assim, seguindo esse raciocínio, ela me perguntou:

– Você vai levar?

– É evidente que não!

– Ah.

Assim, ela desenganchou a camisa e eu pude seguir meu caminho.

Felizmente, logo em seguida virei a esquina da Pedroso, que tem calçadas mais largas e pude continuar andando tranquilamente. Molhado, mas em paz.

Mas, quando atravessei a Cardeal, olhei de relance as Sete Quedas do teto da lotérica e desviei o guarda-chuva levemente para direita, me escondendo atrás dele. Minha manhã já havia sido um fracasso, eu não precisava também que uma das minhas inimigas mortais testemunhasse isso.

Vi que ela desconfiou de algo e ficou olhando atentamente, provavelmente suspeitando de que era eu, mas olhei para o outro lado e fingi que não era comigo.

Jamais – jamais! – demonstre fraqueza na frente dos seus inimigos.

E, antes de me secar, deixo vocês com o Top 5 Significados do Título do Post para Leitores Desatentos:

1. O maior erro de digitação da história da humanidade.
2. "Eu odeio me molhar" em mandarim arcaico.
3. O resultado de um passeio da Besta-Fera sobre o teclado.
4. A marca do guarda-chuva.
5. O som das águas caindo pela cachoeira da lotérica.

27 de julho de 2009

Criador e Criatura

Antes de tudo, agradeço aos comentários do post anterior, que me mostraram bastante a respeito de como vocês enxergam o blog – e conhecer seus leitores é algo de grande importância para quem escreve – além de caracterizar a via de mão dupla que eu sempre quis que fosse uma das marcas aqui no Champ.

Enfim, como algumas pessoas pediram, posto a entrevista na íntegra. Quem não sabe do que estou falando, trata-se de uma entrevista que fui convidado a responder por uma estudante que escolheu blogs como tema de sua tese de mestrado.

Chamou minha atenção o fato de que, mais que perguntar sobre textos e forma de escrever, ela abordou basicamente o meu relacionamento com o blog – e, consequentemente, com os leitores –, que considero um assunto muito mais interessante.

Sendo assim, se você é um blogueiro iniciante e está atrás de dica para manter um blog (ou para fazê-lo crescer), como é de costume em outras entrevistas com blogueiros, não encontrará isso aqui. Mas, para você não perder a viagem, o conselho que dou é: apaixone-se pelo seu blog. Se isso não acontecer, não vai funcionar.

Já os demais, espero que gostem da entrevista tanto quando eu gostei de respondê-la.


Como surgiu a idéia de criar um blog?
Eu sempre gostei de escrever e, pouco antes de criar o blog, participei do site de alguns conhecidos com crônicas. Mas o site acabou não indo para frente, e resolvi criar o blog, para ter simplesmente onde postar o que eu escrevia. A coisa acabou crescendo, e, com o tempo, se inverteu: ao invés de eu ter o post para publicar o que escrevia, eu comecei a escrever para publicar no blog.

O que te levava a querer escrever e publicar na internet?
Como eu disse acima, meu blog começou como um lugar onde eu pudesse postar o que escrevo. Mas, aos poucos, descobri que é fácil você ser lido se o seu texto está na internet. E todo mundo que escreve gosta de ser lido.

Revela a sua intimidade no blog? Há assuntos sobre os quais não escreveria ali?
Revelo, mas em doses moderadas. Mas existem muitos assuntos sobre os quais não escreveria, sejam eles coisas extremamente pessoais ou simplesmente assuntos sobre os quais não tenho nada a dizer.

Por que pensou em escrever sobre sua própria vida ou ponto de vista (seja sua rotina, reflexões sobre o mundo ou sobre os mais diversos assuntos)?
Toda vez que eu contava aos amigos algo que havia acontecido comigo, as pessoas diziam que eu “sabia contar histórias”. Aos poucos, descobri que sei fazer isso também escrevendo. Nada é mais recompensador do que as pessoas comentarem sobre algo que aconteceu com você, dizendo que gargalharam ao ler o texto.

Escreve sobre o que acontece em sua vida real ou mistura ficção (inventa situações)?
No Championship Vinyl, sempre sobre fatos que aconteceram. Ficção, deixo para o Chronicles. Mas nem tudo o que está no Chronicles é ficção – às vezes, coloco coisas verdadeiras ali, que aconteceram comigo, coisas que senti, mas que eu quis mascarar como ficção.

Como você se enxerga sendo lido no blog: os leitores se deparam com você de verdade ou com um personagem? (quem lê o blog sabe quem você é ou cria na mente outra pessoa?)
Boa pergunta. Obviamente, meus amigos (ou colegas blogueiros que estão no meu Messenger) devem me colocar no centro das histórias. Já os demais leitores, não faço idéia de como eles me enxergam. Aliás, esta é uma boa pergunta para eu levantar no blog.

Como acha que os leitores o vêem: pensam que os posts são seu retrato fiel ou que os textos postados reproduzem um personagem inventado?
Difícil responder isso. Quando escrevo no blog, reconheço que sou eu, a pessoa real, falando. Mas, como assino com um pseudônimo – e todos os meus leitores se referem a mim por ele – eu não sei mais onde eu termino e onde começa o Rob Gordon. Acho que podemos dizer que é um retrato fiel meu, mas apenas com outro nome.

Vê alguma semelhança entre seu blog e aqueles antigos diários de papel? Em que sentido acha que podem ser parecidos (blog e diário) e em que sentido acha que são diferentes?
Vejo semelhança entre muitos blogs e os antigos diários de papel, mas não vejo isso no meu, por um motivo: o diário de papel era algo secreto, a pessoa usava para desabafar sozinha. No meu caso, eu escrevo pensando não apenas em conteúdo, mas também em forma e estilo, porque sei que alguém irá ler. Ou seja, por mais que eu escreva “para mim” (no sentido de escrevo “o que quiser sobre o que eu quiser”), eu tenho uma responsabilidade com quem irá ler. Então, tenho preocupação com qualidade de texto e, claro, com algumas opiniões que dou ali. Diferente do que acontecia com os diários de papel, eu preciso ter responsabilidade sobre o texto, porque, a partir do momento que eu coloco ele no blog, ele deixa de ser exclusividade minha, e passa a ser dos leitores também.

O que te levava a querer escrever e publicar na internet quando começou a pensar em criar o blog é o mesmo que te leva a continuar escrevendo hoje em dia?
Não. No começo, eu escrevia para mim. Talvez até para me testar (“será que eu consigo escrever sobre isso?”). Hoje, eu escrevo para os leitores.

O que escreve no blog interfere de alguma forma na sua vida? (por exemplo, pára para pensar sobre determinados assuntos na hora em que está escrevendo ou se entende melhor porque escreve)
Das opções que você deu, experimento as duas. Às vezes, penso muito sobre um assunto antes de postar. Em outras, só consigo entender melhor como eu vejo aquele tema quando escrevo no blog – já cheguei a perceber que eu havia mudado de opinião sobre determinado assunto no meio do texto.

Alguma vez na vida já fez algo (falou algo, foi a algum lugar, tomou uma decisão) porque achou que seria interessante publicar no blog depois?
Sem dúvida alguma. Já cheguei a desviar meu caminho na rua para ver de perto uma briga, uma discussão, ou qualquer outro fato inusitado, pensando “isso pode render material para o blog”.

Os blogs podem ser vistos como sendo as novas “editoras” (ou seja, um meio simples e acessível a todos de publicação)? O seu é visto assim por você?
Talvez seja uma editora independente. Essa acessibilidade é excelente, mas é uma faca de dois gumes. Ela é boa, pois qualquer um pode publicar algo; mas ela é ruim pelo mesmo motivo. Assim, como acontece em qualquer boom, acaba ficando muito difícil separar o joio do trigo, pois a facilidade de publicação faz com que muita coisa sem qualidade circule por aí. Meu blog? Meu blog, para mim, é apenas um hobby.

No ranking de importância na sua vida, o blog aparece apenas como um passatempo ou como algo que pode vir a ser (ou já é) mais sério? Por quê?
Começou como passatempo, mas hoje é algo mais sério. Começou a ficar mais sério quando comecei a receber comentários de leitores dizendo que eu deveria escrever um livro. Como sou jornalista e trabalho escrevendo, óbvio que a idéia é apetitosa para mim. Mas ele é sério para mim no sentido de que, às vezes, altero um pouco da minha rotina para conseguir encaixar a produção de um texto do meu blog ao longo do dia. Não tenho planos de ganhar dinheiro com o blog. Mas, se alguém quiser me oferecer algo... Quem sabe? Nunca diga “desta água não beberei”, mesmo porque adoraria poder viver do blog. Mas desde que eu mantenha controle total sobre o conteúdo. Disso eu não abro mão. Por isso, por enquanto, gosto dele assim, livre. Ou, em outras palavras, totalmente meu.

O blog, de alguma forma, é importante para sua vida social (para manter velhos amigos, criar novos amigos, comunicar-se com outras pessoas)?
Bastante. Hoje em dia tenho amigos que conheci pelo blog.

Ter um blog ajuda a materializar (tornar mais claro e palpável para os outros) quem você é?
Nunca pensei sobre isso. Talvez sim. Mas, se isso for verdade, acontece de forma sutil, já que eu sempre sou coadjuvante dos meus textos. O personagem principal é sempre uma determinada situação, e não eu.

De alguma forma você se tornou mais conhecido por ter um blog? Caso sim, isto foi uma surpresa ou já era esperado? Criou o blog, entre outros motivos, para se tornar mais conhecido?
Não, criei o blog apenas para escrever. Mas sei que me tornei, ao menos, um pouco conhecido. Ou, ao menos, o Rob Gordon se tornou. Recebo alguns comentários de leitores dizendo que sou um dos melhores blogueiros que eles conhecem, e que falam do meu blog para os amigos etc. Adoro isso, mas não consigo me ver assim. Sei que tem gente que conhece o Rob Gordon, ou que ouviu falar de mim (muitas buscas do Google que levam ao blog são com meu nome, tipo “blog do Rob Gordon”), mas não me vejo como um destaque da Blogosfera. Tanto em termos de quantidade (existem muitos blogs mais conhecidos que o meu), como em termos de qualidade (existem muitos blogs que eu considero melhores que o meu, em todos os sentidos). O que eu vejo nos comentários que recebo é que sou uma espécie de blog cult – pouca gente conhece, mas quem conhece gosta bastante. Isso tem seu lado positivo: se existe algo em que o meu blog se destaca, com certeza, são os leitores. Leio muitos comentários em outros blogs, e acho difícil encontrar leitores do mesmo nível que os meus, que, muitas vezes, falam coisas mais interessantes que o próprio post, que debatem sobre o assunto que eu escrevi... Isso é algo que me orgulho demais. O dia em que eu perceber que estou escrevendo para pessoas que não têm nada a dizer, eu fecho o blog.

24 de julho de 2009

Dúvida

Sei que não tenho o hábito de postar mais de uma vez por dia aqui, mas tenho uma dúvida e preciso de ajuda de vocês.

Fui convidado a responder uma entrevista sobre o blog para uma tese sobre o tema (se vocês quiserem, eu posto a entrevista inteira - me avisem nos comentários). E uma das perguntas ficou na minha cabeça:


"Como você se enxerga sendo lido no blog: Os leitores se deparam com você de verdade ou com um personagem? (quem lê o blog sabe quem você é, ou cria na mente uma pessoa?)"


Eu já tinha esta dúvida há tempos. Sempre pensei muito sobre isso. Mesmo depois de ter enviado as respostas da entrevista, continuei pensando sobre o assunto.

Eu sei quem sou; quem lê o blog e me conhece pessoalmente, também sabe, óbvio. Mas e a grande maioria de leitores, que me "conhece" apenas por aqui?

Será que eu estou realmente "conversando" com quem me lê? Porque não é segredo para ninguém que eu assino com pseudônimo; mas, como faço questão de dizer sempre, eu e Rob Gordon somos a mesma pessoa. Ou, ao menos, eu acho.

Então, essa pergunta me fez pensar: será que realmente tem muito de mim aqui? Onde termina o Rob Gordon e onde começa o... Bem, eu?

Então, deixo essa pergunta para os leitores que me conhecem apenas pelo blog:

O que diabos eu sou, aos seus olhos?

(Não estou atrás de confete ou de respostas
como "você é o autor de um blog bom".
E, sim, xingamentos serão aceitos.
)

23 de julho de 2009

Citações e Referências - Solução

Meio da madrugada, estava chovendo. Eu estava dormindo quando senti algo sobre meu peito. Pensei imediatamente que se tratava da Besta-Fera, mas estava enganado. Abri os olhos e um pernilongo do tamanho de uma maçã estava pousado sobre meu corpo. Antes que eu pudesse reagir, ele sorriu e disse:

– Eu vou dar a você a escolha que nunca tive. [01]

E me mordeu. Veja bem, ele não me picou, ele me mordeu. Uma mordida digna de um rottweiller. Gritei de dor, pulando para fora da cama. Corri em direção a porta do quarto, e acendi a luz. Besta-Fera, assustada, me acompanhou. Com a luz acesa, pude ver melhor o mosquito. Ele tinha as dimensões de um pequeno helicóptero e sobrevoava o quarto.

– Saigon... Merda. Eu ainda estou em Saigon [02], resmunguei.

O mosquito estava próximo a janela, fazendo uma curva e assumindo posição de ataque. Eu precisava dar um jeito naquilo, e logo. Fechei a porta do quarto e corri para a lavanderia, atrás de um inseticida. Voltei para o quarto e, com o spray na mão, abri a porta com força, gritando:

– Diga olá para o meu pequeno amigo! [03]

Espirrei o inseticida, mas o mosquito mudou o curso e foi se esconder no armário, atrás dos livros. Assim, eu aprendi uma lição: quando você tiver que atirar, atire, e não fale [04]. Entre dormir em paz e perder meus livros, eu, obviamente, escolhi poupar os livros, desistindo de empestear a casa com inseticida. Mas eu não deixaria isso barato assim. Peguei o interfone e liguei para o porteiro:

– Tem um mosquito na minha casa! No meu quarto, onde minha esposa dorme, aonde meus filhos vêm brincar com seus brinquedos! Na minha casa! [05]

O porteiro fingiu que não era com ele e desligou o interfone na minha cara. Merda de porteiro. Ninguém respeita mais nada. Me emputeci, mas sabia que não poderia fazer nada naquela hora. Um dia, uma chuva de verdade vai cair, e lavar essa escória das ruas. [06]

Voltei para o quarto, mas no meio do caminho, pude ouvir o barulho das hélices do pernilongo. A Besta-Fera, que tem medo de mosquitos, parou, se arrepiou e me perguntou com os olhos:

– Mosquitos... Porque tinha que ser mosquitos? [07]

Decidi dormir na sala. Mas, antes disso, fui até a porta do quarto, dei um murro nela e gritei “Eu voltarei!” [08], da forma mais ameaçadora que consegui.

No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi procurar a síndica.

– Ontem eu procurei um dos porteiros por causa de um mosquito no meu quarto, e ele desligou o interfone na minha cara.

– Porque você procurou o porteiro? Porque você não veio falar comigo antes?

– Eu não queria me envolver em problemas. Quanto eu devo pagar?

– Gordon, Gordon... Porque você me trata com tanto desrespeito? Se você viesse até mim com amizade, então esse mosquito que arruinou sua noite estaria sofrendo hoje mesmo. [09]

– Desculpe, eu quero apenas resolver esse negócio do mosquito...

– Antes de tudo, vamos deixar algo bem claro aqui. Primeira regra para morar neste prédio: você não fala sobre os mosquitos. Segunda regra para morar neste prédio: VOCÊ NÃO FALA SOBRE OS MOSQUITOS! [10]

– Ok. Desculpe.

– Porque este prédio é respeitável. Políticos, prédios feios e prostitutas se tornam respeitáveis se durarem tempo suficiente para isso. [11]

– Sim, senhora.

– Mas vou mandar dedetizar seu apartamento. Hoje à tarde alguém deve passar ali.

– Obrigado.

À tarde, tocou a campainha. Pelo jeito, o mosquito e o dedetizador já haviam se encontrado antes, porque, assim que tocou a campainha, o mosquito – provavelmente sentindo o cheiro do sujeito – gritou de dentro do quarto, emitindo um som horrível:

– MEEEEERRIN! [12]

Abro a porta e dou de cara com um sujeito usando uniforme, capacete e carregando diversos apetrechos. Ele me pareceu familiar, mas não dei muita atenção a isso. Ele atravessou o apartamento e entrou no quarto.

Olhou ao redor e gritou:

– Ezequiel, 25, 17. O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade, pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão, e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos! E então você saberá: chamo-Me o Senhor, quando minha vingança cair sobre você! [13]

E começou a espirrar inseticida na parede de forma alucinada.

– Eu sei que nós temos que matar o mosquito, mas borrifar tanto inseticida assim não é cruel demais? Você não se sente culpado?, perguntei.

– Não. Culpa é como um saco de tijolos. É só largar [14], ele respondeu sem nem olhar para mim.

Eu fiquei ao lado dele, olhando com atenção. De repente, percebi porque ele era tão familiar. Ele era o zelador do meu prédio, mas com um uniforme diferente.

– Eu conheço você.

– Não senhor. Acredito que não.

– Sim, eu conheço você. Você é o zelador do prédio.

– Não, senhor.

– Sim, é você, tenho certeza.

Ele parou de borrifar as paredes, olhou calmamente para mim e disse:

– Não, senhor Gordon. Eu não o zelador do prédio. O senhor é o zelador. O senhor sempre foi o zelador. [15]

– Como assim?

– Nada. Deixe para lá. Seu quarto já está dedetizado. Passar bem.

Virou as costas e foi em direção à saída. Só tive tempo de perguntar a ele se era seguro eu entrar no quarto, e ele, já na porta (e sem nem olhar para trás), resmungou:

Se você entrar neste quarto agora, você vai se arrepender. Não hoje, nem amanhã. Mas logo, e pelo resto da sua vida. [16]

O tom de voz dele me fez levar aquilo a sério. Achei melhor ficar na sala por algumas horas. O problema é que o inseticida aparentemente, não havia resolvido meu problema. Isso porque, mesmo com a porta fechada, eu ainda podia ouvir o mosquito voando pelo quarto e derrubando os móveis de forma ameaçadora.

– Você vai precisar de um apartamento maior [17], disse com os olhos.

Aos poucos, as coisas se acalmaram. A noite chegou e o sono começou a bater. Eu não agüentaria dormir outra noite no sofá. Perto da meia-noite, me enchi de coragem e fui até o quarto. Colei o ouvido na porta, e pude ouvir o mosquito, ainda vivo, resmungando algo como “... mesmo que eu tenha que mentir, roubar, trapacear ou matar. Deus é minha testemunha, eu nunca mais sentirei fome novamente!” [18]

Ou seja, o bicho não apenas estava vivo, como determinado a ter uma boa refeição naquela noite. E, como o inseticida não havia resolvido nada, o jeito seria pegar o mosquito no tapa mesmo. Fui até a lavanderia, peguei uma vassoura e voltei para o quarto. Olhei para a Besta-Fera e já a preveni:

– Aconteça o que acontecer lá dentro, lembre-se que ninguém ganhou uma guerra morrendo pelo seu país, mas sim fazendo o bastardo que está do outro lado morrer pelo país dele. [19]

Ele suspirou e disse “Em outras palavras, apertem os cintos, pois será uma noite agitada” [20] com os olhos.

Abri a porta e entrei no quarto, empunhando a vassoura. O mosquito estava sobre a cama e voou na minha direção, pronto para o ataque. Tentei me defender com a vassoura, mas ele foi mais rápido e me mordeu no ombro. A Besta-Fera correu para baixo da cama. Virei meu corpo e prensei o mosquito na parede. O bicho gritou de dor e voou para o teto, quebrando a lâmpada no meio do caminho.

Fiquei no escuro, sem saber onde ele estava.

Segurando a vassoura à frente do meu corpo, controlei minha respiração e fiquei em silêncio, tentando prever o próximo movimento da criatura. “Confie nos seus instintos...” [21], uma voz disse dentro da minha cabeça. Fechei os olhos e me concentrei no ambiente ao meu redor.

E para provocá-lo, ainda falei, com os dentes trincados:

– Você não deve se perguntar se eu sei onde você está. Você deve se perguntar se você está se sentindo sortudo hoje. Então, me diga: você está, seu marginal? [22]

De repente, dei um giro para a esquerda e golpeei o ar com a vassoura. Acertei algo sólido e ouvi um guincho estridente. Corri para fora do quarto e acendi a luz do corredor. O mosquito estava deitado no chão do quarto, mais morto que vivo. Seu sangue estava espalhado pelo chão, queimando o assoalho. Ácido.

Aproximei-me dele a tempo de ouvir suas últimas palavras:

– Eu já mordi pessoas em todos os bairros da cidade. Pessoas de todas as idades e tamanhos. E, agora, todos estes momentos vão se perder, como lágrimas na chuva. Hora de morrer. [23]

Suspirou e caiu morto.

Com o ombro latejando de dor, não consegui sentir pena dele. Resmunguei apenas “Yippee-ki-yay, filho da puta”. [24]

A Besta-fera saiu de baixo da cama e foi cheirar o cadáver. Eu o afastei com o pé, gritando:

– Você está louco? Esse bicho sangra ácido, vai saber o que ele poder fazer quando estiver morto! [25]

Ele levou meu conselho a sério e voltou para baixo da cama. Com cuidado, enrolei o bicho no cobertor e o carreguei para fora do apartamento, jogando o cadáver no latão de lixo.

Aquela noite, eu dormi em paz.


Legenda & Resultados:

[01] Entrevista com o Vampiro (Bridget Jones, Varotto, Ando)

[02] Apocalypse Now (Mary, Gabi Bianco, Ando)

[03] Scarface (Rafael Monteiro, Mary, Tyler Bazz, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[04] Três Homens em Conflito (Gabi Bianco, Ando)

[05] O Poderoso Chefão – Parte II (Matheus Silva, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[06] Taxi Driver (Bridget Jones, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)

[07] Os Caçadores da Arca Perdida (Leandro, Tyler Bazz, Gabi Bianco, Ando)

[08] O Exterminador do Futuro (Leandro, Tyler Bazz, Pedro Lucas, Gilgomex, Gabi Bianco, Ando)

[09] O Poderoso Chefão (Bridget Jones, O Frango, Matheus Silva, Tyler Bazz, Pedro Lucas, Gábisz, Gilgomex, Gabi Bianco, Ando)

[10] Clube da Luta (Tyler Bazz, Leandro, Pedro Lucas, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[11] Chinatown
(Gabi Bianco, Ando)

[12] O Exorcista (Alexandre Rigotti, Gabi Bianco, Ando)

[13] Pulp Fiction (Bridget Jones, Tyler Bazz, Leandro, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)

[14] O Advogado do Diabo (Mary, Gabi Bianco, Ando)

[15] O Iluminado (Nelson, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[16] Casablanca (Gabi Bianco, Ando)

[17] Tubarão (Toni Barros, Thiago Apenas, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)

[18] E O Vento Levou (Bridget Jones, Alexandre Rigotti, Leandro, Gabi Bianco, Ando)

[19] Patton - Rebelde ou Herói? (Ando)

[20] A Malvada (Toni Barros, Ando)

[21] Star Wars (Alexandre Rigotti, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[22] Perseguidor Implacável (Mary, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[23] Blade Runner (Bridget Jones, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)

[24] Duro de Matar (Bridget Jones, Pedro Lucas, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)

[25] Alien - O Oitavo Passageiro (Dragus, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)



Comentários:

Após bastante consideração (leia-se tentativa e erro), não contabilizei os comentários de pessoas que apenas citaram o nome do filme (sem identificar o trecho), ou que comentaram dizendo "além dos que o fulano acima encontrou", porque, em quase todos os casos, o fulano em questão tinha cometido erros.

Tentei contabilizar todos os que comentaram, mas, depois de um tempo, fui obrigado a considerar apenas as respostas com trecho & nome de filme, porque, caso contrário, eu teria que contratar uns três estagiários para me ajudar. Nomes de filmes digitados errados (como Perseguição Implacável ao invés de Perseguidor Implacável foram considerados corretos)

Dignos de notas os desempenhos do Ando e da Gabi Bianco. O primeiro mandou bala no Google (ninguém disse que não poderia fazer isso) e, com sangue nos olhos, achou 27 de 25 citações (sim, 27, não é erro de digitação, basta olhar o comentário dele). Vale dizer que mesmo usando o Google, ele também acertou frases que estavam "alteradas", como a do Indiana Jones. E a Gabi, indo claramente por instinto (e visivelmente com pressa), mandou bem, com 22 acertos.

Sendo assim, com a tabela acima, o Top 5 Vencedores são:

Ando - 25 pontos
Gabi Bianco - 22 pontos
Pedro Lucas - 9 pontos
Gábisz - 8 pontos
Bridget Jones - 7 pontos


Vale dizer que o filme mais achado foi O Poderoso Chefão (com 9 pessoas identificando o trecho) e minha quase vitória pessoal foi na referência a Patton - Rebelde ou Herói? (ninguém tinha acertado, até o Ando aparecer aos 47 minutos do segundo tempo).

Favor dizer nos comentários se gostaram da brincadeira. Em caso positivo, posso tentar fazer outro (não, não é fácil e é demorado) de forma mais formal (aviso prévio, respostas por e-mail) e, aos poucos, vamos montando um ranking no blog. Afinal, o Ando, agora, é o sujeito a ser batido. O que vocês acham?

Rob

22 de julho de 2009

Citações e Referências

Meio da madrugada, estava chovendo. Eu estava dormindo quando senti algo sobre meu peito. Pensei imediatamente que se tratava da Besta-Fera, mas estava enganado. Abri os olhos e um pernilongo do tamanho de uma maçã estava pousado sobre meu corpo. Antes que eu pudesse reagir, ele sorriu e disse:

– Eu vou dar a você a escolha que nunca tive.

E me mordeu. Veja bem, ele não me picou, ele me mordeu. Uma mordida digna de um rottweiller. Gritei de dor, pulando para fora da cama. Corri em direção a porta do quarto, e acendi a luz. Besta-Fera, assustada, me acompanhou. Com a luz acesa, pude ver melhor o mosquito. Ele tinha as dimensões de um pequeno helicóptero e sobrevoava o quarto.

– Saigon... Merda. Eu ainda estou em Saigon, resmunguei.

O mosquito estava próximo a janela, fazendo uma curva e assumindo posição de ataque. Eu precisava dar um jeito naquilo, e logo. Fechei a porta do quarto e corri para a lavanderia, atrás de um inseticida. Voltei para o quarto e, com o spray na mão, abri a porta com força, gritando:

– Diga olá para o meu pequeno amigo!

Espirrei o inseticida, mas o mosquito mudou o curso e foi se esconder no armário, atrás dos livros. Assim, eu aprendi uma lição: quando você tiver que atirar, atire, e não fale. Entre dormir em paz e perder meus livros, eu, obviamente, escolhi poupar os livros, desistindo de empestear a casa com inseticida. Mas eu não deixaria isso barato assim. Peguei o interfone e liguei para o porteiro:

– Tem um mosquito na minha casa! No meu quarto, onde minha esposa dorme, aonde meus filhos vêm brincar com seus brinquedos! Na minha casa!

O porteiro fingiu que não era com ele e desligou o interfone na minha cara. Merda de porteiro. Ninguém respeita mais nada. Me emputeci, mas sabia que não poderia fazer nada naquela hora. Um dia, uma chuva de verdade vai cair, e lavar essa escória das ruas.

Voltei para o quarto, mas no meio do caminho, pude ouvir o barulho das hélices do pernilongo. A Besta-Fera, que tem medo de mosquitos, parou, se arrepiou e me perguntou com os olhos:

– Mosquitos... Porque tinha que ser mosquitos?

Decidi dormir na sala. Mas, antes disso, fui até a porta do quarto, dei um murro nela e gritei “Eu voltarei!”, da forma mais ameaçadora que consegui.

No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi procurar a síndica.

– Ontem eu procurei um dos porteiros por causa de um mosquito no meu quarto, e ele desligou o interfone na minha cara.

– Porque você procurou o porteiro? Porque você não veio falar comigo antes?

– Eu não queria me envolver em problemas. Quanto eu devo pagar?

– Gordon, Gordon... Porque você me trata com tanto desrespeito? Se você viesse até mim com amizade, então esse mosquito que arruinou sua noite estaria sofrendo hoje mesmo.

– Desculpe, eu quero apenas resolver esse negócio do mosquito...

– Antes de tudo, vamos deixar algo bem claro aqui. Primeira regra para morar neste prédio: você não fala sobre os mosquitos. Segunda regra para morar neste prédio: VOCÊ NÃO FALA SOBRE OS MOSQUITOS!

– Ok. Desculpe.

– Porque este prédio é respeitável. Políticos, prédios feios e prostitutas se tornam respeitáveis se durarem tempo suficiente para isso.

– Sim, senhora.

– Mas vou mandar dedetizar seu apartamento. Hoje à tarde alguém deve passar ali.

– Obrigado.

À tarde, tocou a campainha. Pelo jeito, o mosquito e o dedetizador já haviam se encontrado antes, porque, assim que tocou a campainha, o mosquito – provavelmente sentindo o cheiro do sujeito – gritou de dentro do quarto, emitindo um som horrível:

– MEEEEERRIN!

Abro a porta e dou de cara com um sujeito usando uniforme, capacete e carregando diversos apetrechos. Ele me pareceu familiar, mas não dei muita atenção a isso. Ele atravessou o apartamento e entrou no quarto.

Olhou ao redor e gritou:

– Ezequiel, 25, 17. O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade, pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão, e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos! E então você saberá: chamo-Me o Senhor, quando minha vingança cair sobre você!

E começou a espirrar inseticida na parede de forma alucinada.

– Eu sei que nós temos que matar o mosquito, mas borrifar tanto inseticida assim não é cruel demais? Você não se sente culpado?, perguntei.

– Não. Culpa é como um saco de tijolos. É só largar, ele respondeu sem nem olhar para mim.

Eu fiquei ao lado dele, olhando com atenção. De repente, percebi porque ele era tão familiar. Ele era o zelador do meu prédio, mas com um uniforme diferente.

– Eu conheço você.

– Não senhor. Acredito que não.

– Sim, eu conheço você. Você é o zelador do prédio.

– Não, senhor.

– Sim, é você, tenho certeza.

Ele parou de borrifar as paredes, olhou calmamente para mim e disse:

– Não, senhor Gordon. Eu não o zelador do prédio. O senhor é o zelador. O senhor sempre foi o zelador.

– Como assim?

– Nada. Deixe para lá. Seu quarto já está dedetizado. Passar bem.

Virou as costas e foi em direção à saída. Só tive tempo de perguntar a ele se era seguro eu entrar no quarto, e ele, já na porta (e sem nem olhar para trás), resmungou:

– Se você entrar neste quarto agora, você vai se arrepender. Não hoje, nem amanhã. Mas logo, e pelo resto da sua vida.

O tom de voz dele me fez levar aquilo a sério. Achei melhor ficar na sala por algumas horas. O problema é que o inseticida aparentemente, não havia resolvido meu problema. Isso porque, mesmo com a porta fechada, eu ainda podia ouvir o mosquito voando pelo quarto e derrubando os móveis de forma ameaçadora.

– Você vai precisar de um apartamento maior, disse com os olhos.

Aos poucos, as coisas se acalmaram. A noite chegou e o sono começou a bater. Eu não agüentaria dormir outra noite no sofá. Perto da meia-noite, me enchi de coragem e fui até o quarto. Colei o ouvido na porta, e pude ouvir o mosquito, ainda vivo, resmungando algo como “... mesmo que eu tenha que mentir, roubar, trapacear ou matar. Deus é minha testemunha, eu nunca mais sentirei fome novamente!”

Ou seja, o bicho não apenas estava vivo, como determinado a ter uma boa refeição naquela noite. E, como o inseticida não havia resolvido nada, o jeito seria pegar o mosquito no tapa mesmo. Fui até a lavanderia, peguei uma vassoura e voltei para o quarto. Olhei para a Besta-Fera e já a preveni:

– Aconteça o que acontecer lá dentro, lembre-se que ninguém ganhou uma guerra morrendo pelo seu país, mas sim fazendo o bastardo que está do outro lado morrer pelo país dele.

Ele suspirou e disse “Em outras palavras, apertem os cintos, pois será uma noite agitada” com os olhos.

Abri a porta e entrei no quarto, empunhando a vassoura. O mosquito estava sobre a cama e voou na minha direção, pronto para o ataque. Tentei me defender com a vassoura, mas ele foi mais rápido e me mordeu no ombro. A Besta-Fera correu para baixo da cama. Virei meu corpo e prensei o mosquito na parede. O bicho gritou de dor e voou para o teto, quebrando a lâmpada no meio do caminho.

Fiquei no escuro, sem saber onde ele estava.

Segurando a vassoura à frente do meu corpo, controlei minha respiração e fiquei em silêncio, tentando prever o próximo movimento da criatura. “Confie nos seus instintos...”, uma voz disse dentro da minha cabeça. Fechei os olhos e me concentrei no ambiente ao meu redor.

E para provocá-lo, ainda falei, com os dentes trincados:

– Você não deve se perguntar se eu sei onde você está. Você deve se perguntar se você está se sentindo sortudo hoje. Então, me diga: você está, seu marginal?

De repente, dei um giro para a esquerda e golpeei o ar com a vassoura. Acertei algo sólido e ouvi um guincho estridente. Corri para fora do quarto e acendi a luz do corredor. O mosquito estava deitado no chão do quarto, mais morto que vivo. Seu sangue estava espalhado pelo chão, queimando o assoalho. Ácido.

Aproximei-me dele a tempo de ouvir suas últimas palavras:

– Eu já mordi pessoas em todos os bairros da cidade. Pessoas de todas as idades e tamanhos. E, agora, todos estes momentos vão se perder, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.

Suspirou e caiu morto.

Com o ombro latejando de dor, não consegui sentir pena dele. Resmunguei apenas “Yippee-ki-yay, filho da puta”.

A Besta-fera saiu de baixo da cama e foi cheirar o cadáver. Eu o afastei com o pé, gritando:

– Você está louco? Esse bicho sangra ácido, vai saber o que ele poder fazer quando estiver morto!

Ele levou meu conselho a sério e voltou para baixo da cama. Com cuidado, enrolei o bicho no cobertor e o carreguei para fora do apartamento, jogando o cadáver no latão de lixo.

Aquela noite, eu dormi em paz.

(Ao longo deste texto, encontram-se 25 referências a filmes famosos. Algum leitor consegue encontrar todas? Respostas na sexta-feira!)

21 de julho de 2009

Nos Bastidores da Notícia

Ok. Vamos polemizar um pouco.

Como os leitores mais habituais aqui sabem, eu tenho passado por um sério bloqueio criativo. E, como eu deixei claro alguns posts atrás, um dos motivos disso – senão o principal – é o volume de trabalho que eu tenho, literalmente, enfrentado, nas últimas semanas. Tanto é que por causa disso, eu não consegui abordar alguns assuntos que gostaria no blog.

Um deles é a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Muita gente me perguntou, especialmente via Twitter e Messenger, qual era minha opinião sobre isso e, principalmente, se eu iria falar disso no blog. Eu queria mesmo escrever (já tinha até o título: Guerra de Canudos), mas realmente não tive tempo – e o assunto acabou esfriando. Mas, outro dia, um amigo veio me cobrar o motivo de eu não ter escrito nada a respeito.

Enfim, ao invés de simplesmente dizer que estou entupido de trabalho, o que seria bastante fácil, acho que cabe aqui dizer um pouco sobre como foram as minhas últimas semanas.

Ano que vem, fará 10 anos que eu trabalho dentro de uma redação. Comecei numa revista no ano de 2000, como editor-assistente, sem saber praticamente nada. Saí de lá anos depois, como editor-chefe. Hoje, eu trabalho em outra editora.

Sou chefe de redação – coordeno uma equipe interna (jornalista e estagiário) e um batalhão de colaboradores, entre fotógrafos, diagramadores e colaboradores (destes, alguns que vocês certamente conhecem).

Mas, como minha equipe interna é bastante reduzida, o volume de trabalho é enorme. Fazemos três revistas mensais. Eu disse revistas, e não panfletos de três ou quatro páginas.

E meus prazos são sempre apertados, por diversos motivos (um feriado entre os dias 5 e 12, por exemplo, simplesmente destrói meu mês). Sendo assim, não é difícil – aliás, é bem comum – eu ter que trabalhar em casa em pelo menos dois ou três finais de semana por mês. Além disso, ainda fazemos a newsletter de uma empresa, mas sem periodicidade fixa.

Ah, esqueci de dizer que a redação ainda abastece com notícias, diariamente, dois sites.

Desta forma, eu não apenas coordeno toda a redação, como faço também a primeira revisão em todos os textos da revista (escritos aqui dentro ou por colaboradores), e escrevo os meus textos – que, claro, não são poucos. E, claro, ainda encontro tempo para ir a algum evento do meu meio, ou para sair correndo e entrevistar alguém, seja um executivo do mercado em que atuo, seja um dos subprefeitos de São Paulo.

Ah, sim, e estamos com novos projetos. Um deles – que já está bastante encaminhado, por sinal – é uma revista nova, com cerca de 30 páginas editoriais. Assim, eu tive que, nas últimas semanas, participar de reuniões de pauta, fazer contato com novos colaboradores (discutindo temas e abordagens de matérias, valores de cada texto) encomendar um projeto gráfico, revisar o projeto gráfico e pedir alterações.

Tudo isso, claro, sem parar de fazer as outras revistas.

É mais ou menos assim: Com uma mão apuro informações e redijo textos da revista A; com a outra, vou adiantando o que posso da revista B. Mas claro que às vezes tenho mais revistas que mãos. Só que o prazo, o temível e famigerado deadline, nunca muda – e é sempre apertado.

Sendo assim, há momentos em que é bastante difícil encontrar tempo para mim. Semana passada, por exemplo, eu consegui almoçar, de verdade mesmo, na quinta e na sexta. Na terça, por exemplo, como eu precisava fazer uma reunião com um colaborador e já eram 18:00, fiz a reunião no boteco aqui em frente, comendo uma coxinha. Quatro horas depois, eu estava entrando num restaurante com um diagramador, para ver algumas páginas do projeto gráfico.

E, não, não sou o melhor jornalista do mundo. Nem me acho isso. Já fiz cagadas, já cometi erros, mas, passado o susto inicial (porque sempre assusta, já que os erros invariavelmente são descobertos quando a revista está impressa), procuro aprender com eles.

Escrevo isso apenas para vocês terem uma dimensão de como foram minhas últimas semanas, e entenderem porque alguns assuntos relevantes passaram batidos pelo blog. E isso, claro, não vai mudar. Entre escrever minha opinião sobre um determinado assunto no blog e produzir um texto para o trabalho, obvio que o trabalho vem em primeiro lugar, já que eu não ganho um centavo com este blog – mas eu ainda consigo, às vezes, escrever para o blog no trabalho, como acontece justamente agora.

Hoje, eu sei que ao longo destes quase dez anos, tudo o que eu sei sobre minha profissão, aprendi com um punhado de pessoas que trabalharam comigo, sejam chefes, funcionários, colaboradores ou simples colegas. Aprendi fazendo. Aprendi errando. Mas, pelo jeito, algo eu aprendi. Afinal, ainda estou aqui, vivendo disso e trabalhando cada vez mais.

Ah, sim, quase me esqueci de dizer, mesmo sendo, teoricamente, o assunto do texto: eu não tenho diploma de jornalismo.

19 de julho de 2009

Enquanto Isso, Numa Manhã de Domingo...

Computador: Silêncio. Acho que eu ouvi barulho no quarto.

Televisão: Como assim? Não são nem 10 horas!

DVD: Ele já acordou?

Televisão: Não, é cedo demais.

Computador: Silêncio!

Televisão: Se bem que ele tem acordado cedo de final de semana mesmo.

DVD: Lá vem ele! Quietos!

Computador: O cérebro dele ainda está dando boot, então temos uns cinco minutos. Mas falem baixo! Está tudo em ordem por aqui?

Microondas: O que está acontecendo, pessoal?

DVD: Falem baixo! Ele acordou!

Microondas: Já? Não pode ser, é muito cedo!

Computador: Lá vem ele! Lá vem ele!

Televisão: Todo mundo falando baixo!

Aquecedor: O cachorro acordou também?

Televisão: Que diferença faz?

Aquecedor: É que vocês não ficam no chão! Aquele bicho pentelho fica me cheirando o dia inteiro, faz cócegas.

Computador: Silêncio!

Televisão: Ele está saindo do quarto! Atenção!

Aquecedor: Merda, o cachorro está vindo junto.

Computador: Ele foi para a varanda! Chequem se está tudo em ordem.

Wii: Oi gente. Acordei agora. Por que essa agitação toda?

Televisão: O babaca acordou!

Wii: Já? Duvido.

Computador: Olha para a varanda, ele está acordado.

Wii: A gente não tem um minuto de sossego. Que inferno que é isso aqui.

Computador: Você reclama de barriga cheia. Ele ainda vai demorar para mexer com você. Isso se ele ligar você hoje. Mas daqui a pouco ele vem abrir a porra do e-mail.

Aquecedor: Ah não, lá vem o cachorro!

Wii: É, eu já reparei nisso. Ele vai sair da varanda e fazer um café. Aí vai direto para o e-mail. É todo dia assim.

Aquecedor: O cachorro está olhando para mim! Alguém jogue algo nele!

Televisão: Silêncio!

Computador: E eu não sei? É por causa da namorada. É a namorada e o blog. Ele fica abrindo o e-mail toda hora por causa disso.

Aquecedor: Passa! Passa! Sai! Merda de cachorro!

Aparelho de som: Alguém me ajuda?

Estabilizador: Gente, alguém viu se ele está de calça ou de cuecas?

Televisão: Que diferença faz?

Estabilizador: Você faz idéias das coisas que eu tenho ver aqui embaixo quando ele senta de cuecas no computador?

Computador: Falem baixo! Ele está voltando para cá!

Aparelho de som: Alguém me ajuda, por favor?

DVD: O que foi?

Aparelho de som: Eu não sabia que ele ia acordar cedo e estava ouvindo minha coletânea do Caetano Veloso. Mas agora eu não estou conseguindo tirar o disco.

Computador: Deixe aí dentro mesmo.

Aparelho de som: O CD é meu, não é dele. Você acha que ele não vai estranhar se encontrar um CD do Caetano Veloso aqui dentro?

Aquecedor: Alguém tire o cachorro daqui, pelo amor de Deus!

Televisão: Ele está saindo da varanda! Cuidado!

Microondas: Ele está vindo para cá! Que que eu faço?

DVD: Ele vai fazer café. Veja se você consegue ganhar tempo até tirarmos o CD.

Microondas: Ok! Vou me desligar. Depois eu volto. Boa sorte!

Televisão: Aproveite para tirar o CD agora!

Aparelho de som: Não dá! Não consigo abrir!

Computador: Rápido, pessoal! Ele já religou o microondas e está fazendo café.

DVD: Não consegue abrir? Por quê?

Aparelho de Som: Não sei. Está travado. Se eu reiniciar, talvez consiga, mas não temos tempo!

Computador: Quanto tempo você precisa?

Wii: Falem mais baixo!

Aparelho de som: Uns dois minutos!

Televisão: O microondas está fazendo mímicas lá na cozinha! Pelo que entendi, não vai conseguir segurar ele lá por mais tempo.

Computador: Tenho uma idéia. Quando ele se sentar aqui, eu vou dar pau. Ele vai ter que me reiniciar. Nesse tempo, você tenta ejetar o CD e cuspir o disco para trás do móvel.

Estabilizador: Não!

Computador: Por que não?

Estabilizador: Ele está de cuecas, não está?

Computador: Acho que sim. E daí?

Televisão: Rápido, ele está saindo da cozinha!

Estabilizador: Se você fizer isso, ele terá que se abaixar aqui na frente para reiniciar você. Você faz idéia das coisas que eu vou ter que ver se ele estiver de cuecas?

Computador: Não importa! Temos que dar um jeito naquele CD!

Estabilizador: É desumano demais! Tenham piedade!

Wii: Ele está voltando!

Computador: Não temos outra alternativa. Se é tão nojento assim, feche os olhos!

Estabilizador: Merda, eu odeio minha vida!

Computador: Aparelho de som, fique a postos e boa sorte! O resto de vocês, silêncio! Vou travar! Nos falamos depois!

Estabilizador: Você estão me devendo uma!

Televisão: Silêncio!



Horas depois

Computador: Ok, ele saiu para almoçar. Relatório!

Aparelho de som: Consegui! O CD está atrás do móvel.

Computador: Ótimo. Essa foi por pouco! E o resto do pessoal?

Aquecedor: O cachorro ficou dormindo no sofá, então a manhã foi tranquila.

Wii: Tudo ok.

Televisão: Aqui, tudo em paz.

DVD: Aqui também.

Microondas: Tudo certo por aqui.

Estabilizador: Posso abrir os olhos?

16 de julho de 2009

Tem Dias que o Post Tem que Vir

Anos atrás, eu escrevi um post chamado Tem Dias que o Post não Vem. O texto fez bastante sucesso – mesmo sendo de uma época na qual eu ainda recebia pouquíssimos comentários no blog – e algumas pessoas vêm comentar sobre esse texto comigo até hoje. Na verdade, para você entender melhor o que vou falar aqui, seria melhor você ler o post – caso sua preguiça seja enorme, digamos que ele trata apenas de bloqueio criativo de blogueiros.

E eu estou no meio de um enorme bloqueio criativo. Talvez algumas pessoas discordem disso, especialmente depois da saga da Bruxa do Mar, que contou com três partes – e aparentemente agradou a muitos leitores – mas isso não muda o fato de que estou no meio de uma crise criativa absurda.

Escrevendo essa saga, eu chegava a ficar minutos na frente do computador, lembrando de algum gesto da Bruxa do Mar e pensando como colocar isso no “papel” de forma que agradasse aos leitores e não fugisse do que realmente aconteceu. E, não, não foi fácil. Apaguei e reescrevi trechos inteiros.

Para comparação: algumas outras sagas do blog, como, por exemplo, No Capricho, foram escritas inteiramente em menos de uma hora. E a Bruxa do Mar não é menos inspiradora que o Bigode da padaria. Os dois são extremamente inspiradores. A Bruxa do Mar não tem culpa de nada.

A culpa é minha.

Não sei o motivo do meu bloqueio criativo. Talvez seja o excesso de trabalho, que me faz ver as coisas com um pouco menos de humor. Talvez sejam diversas preocupações com outras pequenas coisas que acabam virando algo maior. Vai saber. O fato é que meu bloqueio criativo está tão forte que não tenho criatividade nem mesmo para explicar o bloqueio. Tem coisas que só acontecem comigo mesmo.

Por outro lado, às vezes eu sinto necessidade de escrever no blog. O termo é esse: necessidade. Algumas pessoas são viciadas em cocaína; outras são viciadas em sexo. Eu sou viciado em algumas coisas, e uma delas é escrever no blog. O curioso é quanto mais cansado estou – para quem não sabe, eu trabalho escrevendo – mais eu sinto necessidade de escrever aqui. Escrever aqui e escrever no trabalho são coisas diferentes. Passar meia hora escrevendo no blog faz uma higiene mental que vocês não acreditariam.

Assim, quando o nível de stress está alto, a necessidade de escrever no blog é quase física.

Agora, some esta necessidade a um bloqueio criativo e o resultado é um problema. Afinal, como saciar a necessidade de escrever se você não está conseguindo escrever?

Então, hoje, por exemplo, meu laboratório foi intenso – por laboratório, me refiro aos dez minutos de caminhada entre minha casa e o trabalho. Muitos dos meus posts nasceram ali, enquanto eu andava e pensava “o que posso escrever no blog hoje?”

E, quando estou com muita vontade de escrever, pareço um predador procurando por posts ao longo do percurso. Olho um manobrista de uma loja e tento imaginá-lo dentro uma crônica. Enfrentando alienígenas em outro planeta, discutindo com a esposa num restaurante, qualquer coisa. Cruzo com um carteiro e penso se tem algo engraçado a respeito dele. Penso em diversos assuntos: música, filmes, política, diploma de jornalismo, twitter, onde eu a Sra. Gordon vamos no final de semana.

Mas, aí, entra em campo o bloqueio criativo e acha tudo uma merda. Acha que nada rende post. Normalmente, eu teria desistido. A vontade de escrever aperta, mas eu teria desistido. E eis que a necessidade de escrever aqui, de falar com vocês, a adrenalina que me dá antes de ler cada comentário recebido, surge e dá o troco.

E, aí, não importa mais se o post não vem.

Porque tem dias que o post tem que vir. De qualquer maneira.

Nem que ele tenha como assunto justamente a falta de assunto e o quanto ela faz sofrer alguém que escreve. Então, você se senta e deixa o Word aberto, e, conforme consegue uma ou outra folga de cinco minutos no trabalho, rabisca mais um pouco do texto.

Porque tem dias que o post precisa vir de qualquer maneira. Tem dias que é preciso se sentar e arrancar inspiração de algum lugar secreto entre você e o teclado e colocar algo no ar. Não apenas para manter o blog atualizado – esta é a menor das minhas preocupações – mas para estar com o blog. Ou, se preferirem, para estar com vocês.

É difícil? É. É um sacrifício? É. Mas todo caso de amor que vale a pena exige um sacrifício. E, acreditem em mim, como eu gosto desse blog!

Desde o motivo pelo qual ele foi criado até o post mais recente, passando por todos os comentários e erros de revisão, como eu gosto desse blog. E não é nenhum bloqueio criativo de merda que irá me afastar dele.

E muito menos de vocês, que estão aí lendo.

Nem que, para isso, eu tenha que escrever sobre a falta de assunto. Pode ser trapaça da minha parte, admito, mas o blog é meu – e não o contrário. E, bem... Meu mundo, minhas regras. Caso algum de vocês não tenha entendido o propósito deste texto, eu explico aqui.

Declarei guerra ao bloqueio criativo. E eu vou ganhar, por bem ou por mal. Prometo.

A propósito, tem texto novo no Chronicles.

13 de julho de 2009

Bruxa do Mar Vai às Compras - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Respirando pela boca, comecei a passar minhas compras, com a Bruxa do Mar logo atrás de mim. Coloquei minhas humildes duas mercadorias na esteira, respondi ao código secreto (“não, não sou Cliente Mais”) e me preparei para escapar de tudo aquilo. A Bruxa do Mar correu para trás do carrinho – segurando o iogurte com uma das mãos – e o empurrou com tudo na minha direção, talvez com medo de que alguém roubasse sua vez na fila.

Com isso, a menina do caixa quase enfartou. Eu fingi que aquilo era a coisa mais normal do mundo e não dei atenção. Apenas olhei para a saída do Pão de Açúcar, sonhando com o ar deliciosamente esfumaçado e poluído, mas totalmente papaya free, da Teodoro Sampaio. Eis que ouço:

– O requeijão cremoso custa R$ 4,25?

Quê? Requeijão? Que requeijão? Que R$ 4,25? Achei que eu estava começando a delirar por causa do mamão. Fechei os olhos e tentei colocar minha mente em ordem. Meus neurônios, imediatamente, dispararam avisos para o resto do corpo, informando que todos os arquivos contendo a palavra “requeijão” continham vírus e deveriam ser apagados sumariamente.

– O requeijão cremoso nunca custou isso.

Abro os olhos e me viro para a bruxa. Ela estava quieta e entretida com o maldito iogurte.

Olho para o outro lado, e vejo o casal de velhinhos. Ele, com uma sacola nas mãos; ela, segurando a nota fiscal nas mãos, alegando com a mulher do caixa que o preço do requeijão era injusto e que este produto nunca havia custado isso.

A menina do caixa olhou para mim. Eu olhei para ela. A menina do caixa olhou para os velhinhos. Eles olharam para ela. Eu olhei para os velhinhos. Os velhinhos olharam para mim. Eu olhei para a Bruxa. Ela não olhou para ninguém, pois estava chupando o iogurte dos dedos, refugiada em um mundo próprio com cheiro de mamão e, aparentemente, alheia a tudo aquilo.

– Esse foi o preço que passou, disse a caixa aos dois velhinhos.

– Não interessa! Nós não vamos mais levar!, disse a metade feminina do casal.

– Slurp, disse a Bruxa.

– Bom, então eu tenho que estornar a compra, disse a caixa.

– Slurp, disse a Bruxa, antes de enfatizar ainda mais sua opinião soltando um discreto arroto.

Entrei em pânico. Eu já vi alguém estornar uma compra no Pão de Açúcar. Demora dias. Eles precisam digitar códigos, ligar para o fabricante do produto, pegar autorização com o governo dos Estados Unidos, inserir mais códigos – e às vezes não dá certo e precisam começar tudo de novo. É mais ou menos como pedir um sanduíche especial no Mc Donald’s.

Olhei para o carrinho da bruxa e, assustado com seu estoque de iogurte de mamão – ainda tinha pelo menos meia dúzia, e ela parecia continuar com fome –, decidi que precisava fazer algo. Chamei os velhinhos:

– Com licença?

– Pois não?

– Eu estou no meio de uma emergência, será que vocês não podem me deixar passar essas mercadorias?

Mas, no momento em que acabei de falar, percebi que tinha feito uma cagada. Afinal, que tipo de pessoa poderia estar envolvido numa emergência e, ainda assim, ir ao mercado comprar um pacote de espetinhos congelados e um chocolate?

Eles olharam para as minhas compras – eu tentei cobrir os espetinhos com as mãos – e, para desviar atenção deles, coloquei minha outra mão na barriga. Fazendo a minha melhor cara de problemas intestinais crônicos, implorei:

– Por favor?

Eles se olharam em silêncio. O cheiro do mamão começou a ficar cada vez mais forte. A Bruxa começou a revirar suas compras, provavelmente procurando algo para comer. Vi um pacote de lingüiças no meio do carrinho e senti um arrepio.

Os velhinhos, aparentemente, continuavam decidindo meu destino telepaticamente, e ainda não haviam chegado a uma conclusão. Resolvi apelar. Soltei um gemido baixo e, apertando a barriga com uma das mãos (a outra ainda estava sobre minhas compras, estrategicamente tapando as palavras “espetos para churrasco”), como se tentando apartar uma briga entre os intestinos delgado e grosso, implorei:

– Eu realmente estou com pressa. Não estou me sentindo muito bem.

Foi o suficiente. O casal de idade decidiu que alguns reais a menos na conta não valeriam a pena, especialmente perto do vexame que, aos olhos deles, estava prestes a acontecer ali.

– Tudo bem. Mas é só isso, certo?

– Sim.

– Só essas duas coisas? Você não vai comprar mais nada?

– Não, é só o chocol... É... Os espetin... É, é só isso.

– Tá. Pode passar.

Mais que depressa, entreguei minhas coisas para a mulher do caixa, peguei o cartão do banco e passei, tentando me concentrar na minha expressão, que certamente seria indicada ao Oscar de Melhor Cara de Pessoa Prestes a se Borrar – o que não era difícil, dado o cheiro do mamão. Digitei a senha, peguei minhas compras e saí rápido do mercado, para dar mais veracidade ainda à minha suposta crise interna.

Chegando à porta do mercado, não agüentei e olhei para trás. Os velhinhos gesticulavam agitados, provavelmente discorrendo sobre as mazelas do mundo moderno e o preço do requeijão cremoso. A mulher do caixa tentava se defender de alguma forma.

A Bruxa do Mar, por sua vez, estava tomando mais um iogurte – provavelmente de mamão, mas não tenho como saber ao certo – com os dedos. Mas o que mais me assustou foi o fato de que ela estava, com a cabeça baixa e olhar de alguém possuído por algum demônio, olhando fixamente para mim.

Senti um arrepio de medo e, quase me borrando – desta vez, de verdade – dobrei a esquina e fugi do contato visual dela, me benzendo. Passei o resto da semana jantando apenas comida de delivery, com medo de entrar no Pão de Açúcar novamente.

Enquanto o mundo tem a Dani Bananinha, a Mulher Melão, a Mulher Maçã e a Mulher Moranguinho, é logo a Bruxa-Mamão quem encana comigo.

Ô fase.

10 de julho de 2009

Merchan

Antes do desfecho da saga da Bruxa do Mar no Pão de Açúcar, uma pequena mensagem dos nossos patrocinadores:


Sempre fui um espectador. Observei e escrevi sobre tudo. Desde um soneto, até o pior texto do mundo. Às vezes, são apenas fragmentos, mas, às vezes, são 1000 palavras. Já escrevi o último parágrafo do dia, e também assinei uma carta aberta ao grande amor. Já pedi perdão, falei de pecados, morri de saudade, já olhei nos olhos.

E já escrevi em todos os lugares: no metrô, em restaurantes, numa sala de bate-papo, até mesmo dentro de uma crônica. Escrevi sobre mulheres, sobre a mulher e sobre a minha mulher. Escrevi em montanhas e no meio de uma tempestade. Na verdade, posso dizer que escrevi toda a vida inteira e também a eternidade.

E, se você não gostar do meu texto, peço apenas uma segunda chance.



Este post é um oferecimento
do blog Championship Chronicles.

7 de julho de 2009

Bruxa do Mar Vai às Compras - Parte II

(leia a parte I aqui)

Aos poucos, o cheiro de mamão começou a impregnar o lugar. Ele se espalhou como uma névoa amarela e pegajosa, grudando na pele das pessoas. Começou a invadir minhas narinas. Meu cérebro começou a derreter.

Antes que eu conseguisse dar graças a Deus por não ser mexerica – o que teria feito com que caísse no chão e sofresse uma convulsão – senti algo esbarrando no meu ombro.

Os neurônios encarregados pelo meu departamento de saco cheio pensaram em respirar fundo e olhar para cima (o que eu faço invariavelmente quando estou puto), mas, devido ao cheiro de mamão, felizmente, mudaram de idéia na última hora. Assim, eu apenas bufei.

Segundos depois, senti outro esbarrão.

Olho para trás e dou de cara com a Bruxa do Mar devorando (não há um modo gentil de descrever isso, acreditem) um iogurte com os dedos. Iogurte de mamão. Na verdade, deveria ser alguma espécie de essência concentrada de mamão, porque todo o cheiro que empesteava o mercado vinha daquele pequeno pote.

Eu e meu ódio mortal por essa maldita fruta começamos a tremer. Olhei para cima, perguntando “porque é sempre comigo?”, e vi os anjos gargalhando, apontando para mim e disputando os melhores lugares nas nuvens, para assistir a tudo de camarote.

Os velhinhos à minha frente estavam começando a passar suas compras. Tentei me acalmar, procurando me convencer de que “sou o próximo a ser atendido, isso vai acabar logo”. Claro que a Bruxa do Mar, que agora havia se tornando um híbrido entre mulher e mamão, não iria permitir que eu escapasse assim tão fácil. Segundos depois, lá estava ela, novamente, ao meu lado, fedendo a mamão e lambendo o iogurte dos dedos.

Aparentemente, ela estava olhando fixamente algo acima da fila, com aquele ar de uma criança que não estudou para a prova e agora analisa um intricado problema matemático. Ficou assim por alguns segundos, lambendo os dedos e estudando atentamente algo à sua frente. Eu, sinceramente, comecei a desconfiar que aquilo tudo era alguma pegadinha para um programa ruim de TV, e que logo o Sérgio Mallandro iria pular do corredor de biscoitos, rindo de mim.

Antes que algo assim acontecesse, porém, ela assumiu uma expressão de decepção, limpou o resto do iogurte dos dedos (na calça) e se virou novamente para mim:

– A fila é dez volumes?, perguntou, deixando claro ela e as preposições não eram particularmente amigos.

Pelo jeito, ela, até então, não havia reparado na placa enorme e azul que indicava isso. E, mesmo observando a placa agora, ela parecia ter dificuldades para compreendê-la, mesmo com aqueles desenhos semi-débil-mentais que fariam até um alienígena que acabou de pousar sua nave no planeta entender que aquele caixa não passa mais de dez mercadorias.

– Sim, este caixa é apenas para dez volumes, respondi, calmamente vingando o assassinato das preposições.

– Eu não posso passar mais de dez coisas?

Ok. Qualquer imbecil teria entendido a ilustração da placa, mas, pelo jeito, eu não estava lidando com “qualquer imbecil”, mas sim com uma imbecil bastante especial. Meu rosto começou a se contorcer. Eu estava prestes a fazer minha cara de mongol e soltar meu grito demente. E o cheiro de mamão não estava me ajudando em nada a manter o controle.

– Não.

– Eu tenho mais de dez coisas.

Os músculos do meu rosto começaram a relaxar. Olhei para o carrinho dela e só aí reparei que ele continha mais mercadorias que o Dia, do outro lado da rua. Só iogurte de mamão, vi uns oito.

– Sim. A senhora tem bem mais de dez coisas.

Ela olhou ao redor, analisando os outros caixas e vendo que todos estavam cheios. Começou a bufar e me olhou com ódio, como se a culpa fosse minha. Achei que ela fosse lançar algum feitiço e me transformar num mamão, mas, aparentemente, seu cérebro já estava trabalhando em outra solução para o problema.

– Quer saber?

Não, eu não queria. Mas ainda com medo do feitiço, resolvi guardar minha opinião para mim mesmo. Ela não se importou com meu silêncio e continuou:

– Eu vou dividir tudo em duas compras. Não tô nem aí!

Resmunguei algo como “a senhora, claramente, é brasileira e não desiste nunca”, mas ela não ouviu. Aliás, qualquer coisa que eu falasse teria sido ignorada, já que ela estava novamente analisando atentamente o próprio carrinho. Comecei a ficar com receio dela pegar um pé de alface e começar a comer ali.

– Se eu dividir por dois, dá?

– Dez vezes dois é vinte. E a senhora tem muito mais mercadorias que vinte.

– Hã?

– Nada. Não dá.

– Eu não vou para outra fila.

– Ok. Isso não muda o fato de que a senhora continua não podendo passar suas compras aqui.

Ela bufou novamente e voltou para trás de mim. Pegou mais um iogurte e abriu. Ou seja, aparentemente, a única saída que ela encontrou foi consumir todas as mercadorias ali mesmo, até sobrarem somente dez produtos no carrinho.

O cheiro de mamão começou a derreter meu cérebro. O mercado começou a rodar. Antes que eu desmaiasse, fui salvo pela mulher do caixa.

– Próximo!

Achei que o pesadelo tinha acabado.

Eu estava errado.

(continua aqui)

5 de julho de 2009

Bruxa do Mar Vai às Compras - Parte I

Eu não consigo mais ir ao Pão de Açúcar aqui ao lado de casa sem me irritar. E, ao contrário do que acontece na maioria das empresas que me irritam (Tim, Telefônica) o problema do Pão de Açúcar não é com a empresa em si, mas com os clientes. Cada vez que eu coloco os pés lá dentro me convenço mais de que a humanidade não evoluiu a ponto de conseguir usar um supermercado, e deveria ter ficado mesmo colhendo frutos de árvores e correndo atrás de mamutes.

Na verdade, o problema não é fazer as compras. Isso é fácil de lidar. Enquanto ando pelo mercado, basta desviar o caminho dos dementes que estão de plantão naquele dia antes que eles me vejam e queiram falar comigo (sim, porque se eu der chance, ele virá falar comigo, independente de quantas pessoas estiverem ao meu redor).

O complicado mesmo é a fila do caixa. Vale dizer aqui que o Pão de Açúcar tem alguns caixas especiais: caixa para dez volumes, caixa para vinte volumes e caixa para atendimento especial. Na verdade, eles também possuem um caixa para pessoas problemáticas (que muda de lugar toda vez que eu entro), mas a placa indicando qual a fila especial para dementes fica escondida.

Ou seja, é sempre nessa fila que eu acabo entrando. E lá sou obrigado a conviver de perto com os insanos que encontro, já que as minhas únicas alternativas seriam:

a) mudar de caixa e recomeçar todo o processo em outra fila (mas nada garante que isso não me jogaria nas mãos de outro demente)

b) largar as compras ali mesmo, gritar um palavrão e ir embora, mas isso faria com que eu fosse eleito o demente da vez pelas outras pessoas normais que estão ali dentro.

Então, a solução é respirar fundo e agüentar.

Dia desses, fui buscar algo para comer e parei na fila do caixa de dez volumes, obviamente, sem saber que aquele caixa, no dia, era o que estava atendendo as pessoas desconectadas com a realidade.

Havia umas quatro pessoas na fila, e, à minha frente, um casal de velhinhos. Fiquei esperando pela minha vez, quando vejo um carrinho ao meu lado. Não atrás de mim, como deveria ser o certo, mas ao meu lado. Apoiada no carrinho, uma mulher que parecia a Bruxa do Mar, do Popeye. Aliás, era igualzinha, faltava apenas o corvo no ombro.

Obviamente, assim como o carrinho, ela não estava atrás de mim, mas ao meu lado. Literalmente ao meu lado. Na verdade, o carrinho dela estava quase na minha frente. Nunca vi alguém tentar furar uma fila com tanta displicência.

Olhei para ela. Ela olhou para mim. O tempo congelou. Não se ouvia mais nada no mercado, a não ser o barulho do vento. A tensão no ar era palpável. Close nos olhos dela. Close na minha mão, perto da minha arma, pronto para sacar. O tema de Era uma Vez no Oeste começou a tocar baixinho.

– A senhora está na fila?, perguntei

– Tô!, ela disse, deixando claro que, se um dia alguém organizasse um campeonato para escolher a pessoa mais articulada do planeta, ela seria desclassificada na primeira fase.

– Então, a senhora, por favor, fique atrás de mim.

– Mas eu tô na fila!

Respirei fundo. Aparentemente, ela desconhecia (ou estava ignorando) o fato de que o conceito de fila implica, obrigatoriamente, em uma pessoa atrás da outra. Pensei em explicar para ela que fila, em inglês, chama-se “line” justamente por que as pessoas formam uma “linha”, e ela estava desvirtuando todo esse conceito, transformando a fila do Pão de Açúcar – que também deveria ser uma linha razoavelmente reta – num círculo ou numa outra figura geométrica qualquer.

– Eu também estou. E a senhora está atrás de mim.

– Ah. Na fila?

Meu Deus, como uma pessoa tão despreparada para viver em sociedade pode andar sozinha pelas ruas?

– Sim. Na fila.

– Ah.

Resmungando algo sobre mim e sobre a fila, ela se conformou e foi com o carrinho para trás de mim.

Dei uma olhada rápida por cima do ombro e vi que ela estava desvirtuando a fila novamente, ficando na frente do carrinho. Ou seja, a fila já não seguia mais a ordem lógica “carrinho – velhinhos – carrinho – Rob Gordon – carrinho – Bruxa do Mar – carrinho – outro cliente”, mas sim, “carrinho – velhinhos – carrinho – Rob Gordon – Bruxa do Mar – carrinho – carrinho – outro cliente”.

Se alguém tirasse uma foto da fila e mandasse uma criança procurar por um erro, o garoto imediatamente faria um circulo vermelho em volta da Bruxa do Mar e seu carrinho.

Meu impulso foi dizer a ela que ficar à frente do carrinho não faria a fila mudar de sentido e ela continuaria sendo atendida depois de mim, mesmo se ficasse atrás, à frente, ou até mesmo dentro do carrinho, mas achei melhor ignorar.

A fila foi andando e eu fazendo de tudo para não prestar atenção naquele bípede atrás de mim. Felizmente, algo me distraiu: comecei a sentir um cheiro horrível de mamão e, curioso e enojado – eu e mamão somos inimigos mortais há mais de vinte anos – comecei a pensar qual seria a origem daquilo.

Obviamente, o cheiro vinha de algum lugar atrás de mim.

(continua)

3 de julho de 2009

Sugestão Obrigatória # 1 - Blog do Tyler

Antes de mais nada, uma explicação. Faz tempo que tenho vontade de criar uma série de posts indicando blogs (conhecidos ou não) que recomendo. Mais que blogs amigos e parceiros, são blogs que, como costumo dizer, todo vertebrado tem que ter (aliás, vocês sabiam que o Varotto, o maior comentarista da história da blogosfera, finalmente criou um blog?). Chegou a hora. Não terá periodicidade regular, mas certamente será algo presente aqui no Champ. Seu blog é bom? Aguarde: sua vez aqui está chegando. Posto isso, vamos ao primeiro da série.




Ele costuma se apresentar de forma inusitada: “aquele menino de chapéu”. Ok, admito que faz sentido, já que ele costuma usar chapéu. Mas uma descrição mais apropriada seria: “aquele menino das palavras”. Porque, no oceano de bobagens que é a blogosfera brasileira, o Tyler Bazz consegue transformar o Blog do Tyler numa ilha de inteligência e talento.

Claro que muita gente poderia afirmar que estou falando isso apenas porque o cara é meu amigo. Discordo. Antes de ser amigo do cara – a ponto de já sair para jantar com ele – sou fã, assumido. E você, se ainda não conhecer o blog dele, deveria ser. Afinal, o estilo – e o talento –dele é de fazer inveja. O Tyler é um dos poucos sujeitos que tem o dom (sim, dom, porque para isso é preciso mais que talento) de criar personagens tão marcantes que não precisam de mais do que duas ou três frases para se ganharem ares de velhos amigos.

E uma indicação pessoal: por mais que às vezes ele sofra da mesma síndrome que eu padeço, de textos longos, a verdadeira preciosidade no blog dele são os textos curtos: cortantes, concisos, de deixar com inveja. Sinceramente? Leitura obrigatória.

Sendo assim, deixo vocês com o Top 5 Textos Preferidos no Blog do Tyler (escolhidos e justificados pelo próprio autor):

1. Orlando - "Único texto meu que eu rio toda vez que leio."

2. Marcela - "Todos. Ela é o grande sucesso do blog, e eu adoro escrever. Não tenho que me preocupar em ser coerente, porque ela não é!"

3. poeminho de hoje - "É um dos meus favoritos, mas os motivos ficam entre o texto e eu."

4. O Natal dos Ribeiro - "Saiu do blog e foi pro papel. Muito orgulhinho!"

5. Meeting Rob Gordon - "A saga toda. Não só pra citar o Rob nessa homenagem que ele me faz, mas também porque, em 10 anos de internet, eu não lembro de ter visto dois blogueiros fazerem algo parecido (escrever a mesma história de maneiras diferentes, e, PRINCIPALMENTE, sair da frente do pc). É um marco histórico."

1 de julho de 2009

Entrevero

Championship Vinyl: Posso fazer uma pergunta?

Rob Gordon: Claro. Por que não poderia?

Championship Vinyl: Não sei... Às vezes você é meio sensível, se ofende fácil.

Rob Gordon: Pode perguntar.

Championship Vinyl: Você desistiu de atualizar o blog?

Rob Gordon: Óbvio que não.

Championship Vinyl: Porque, você sabe, já faz alguns dias desde a última postagem.

Rob Gordon: Eu sei.

Championship Vinyl: É só isso que você tem a dizer? “Eu sei”?

Rob Gordon: Sim.

Championship Vinyl: Não estamos muito bem humorados, hoje, certo?

Rob Gordon: Não é isso. É que eu estou totalmente ferrado no trabalho.

Championship Vinyl: Ah. É sempre isso.

Rob Gordon: Como assim?

Championship Vinyl: É sempre essa desculpa que você usa.

Rob Gordon: Não é desculpa. Eu estou entupido de coisas para fazer.

Championship Vinyl: Sei...

Rob Gordon: Estou falando sério.

Championship Vinyl: Aposto que você está sem assunto.

Rob Gordon: Champ, eu estou sem assunto porque eu não tenho tido tempo nem de pensar sobre algo para escrever.

Championship Vinyl: Tá vendo? Sempre a mesma desculpa.

Rob Gordon: A gente pode conversar isso depois?

Championship Vinyl: Por que você não assume logo que você é um fracasso como blogueiro?

Rob Gordon: Por que você não vai à merda?

Championship Vinyl: Está vendo? Você se ofende fácil quando sua incompetência fica clara. Você é uma mentira. Está na hora dos seus leitores saberem isso.

Rob Gordon: Sério, porque você não vai à merda? Eu realmente estou ocupado aqui.

Championship Vinyl: Você não pensa nos seus leitores? Aposto que eles estão sentindo falta das atualizações.

Rob Gordon: Óbvio que penso neles. A questão é...

Championship Vinyl: A questão é que você não tem assunto. Assuma logo isso. Ao menos, é mais honrado da sua parte.

Rob Gordon: Ok. Eu estou sem assunto para falar no blog. Mas estou sem assunto porque eu não estou com tempo nem para pensar no que escrever no blog, quanto mais sentar e escrever.

Championship Vinyl: Achei que escrever fosse fácil para você.

Rob Gordon: Às vezes, sim.

Championship Vinyl: Mas na maior parte das vezes, não. Admita, você é um fracasso como blogueiro.

Rob Gordon: Ok, eu sou um fracasso como blogueiro. Feliz? Posso continuar trabalhando?

Championship Vinyl: Grosserias não vão ajudar em nada, você sabe.

Rob Gordon: Puta que pariu, meu Deus do céu. Você pode calar a boca por dois minutos?

Championship Vinyl: Ok.

Rob Gordon: Obrigado.

Championship Vinyl: Fracassado.

Rob Gordon: [suspiro]

Championship Vinyl: Todos os blogs aí, sendo atualizados, e eu aqui, juntando pó. E você não está nem aí com isso.

Rob Gordon: Eu me importo com isso. Mesmo. Eu vou escrever lá até o final da semana.

Championship Vinyl: Você sempre diz isso. Falta de tempo? Sei, sei... Sério, não sei o que as pessoas enxergam nos seus textos. Seu estilo é bem meia-boca. E você ainda demora dias para escrever. Que lixo de blogueiro eu fui arrumar.

Rob Gordon: Eu atualizei o Chronicles sexta-feira. Você não viu.

Championship Vinyl: Chronicles é onde você coloca os textos de veado?

Rob Gordon: [suspiro]

Championship Vinyl: Ô fase, hein?

Rob Gordon: Cale a boca!

Championship Vinyl: É fácil ter assunto. Basta se esforçar. Até você consegue.

Rob Gordon: Não, não é fácil assim. E é sério, eu estou totalmente sem tempo. Nem no Twitter tenho entrado direito.

Championship Vinyl: Você já contou para os leitores que está fazendo terapia?

Rob Gordon: Não, ainda não.

Championship Vinyl: Porque você não faz um post sobre isso?

Rob Gordon: Já pensei nisso. Não sei se seria engraçado. O que você acha?

Championship Vinyl: Não sei. Mas acho que já é hora dos leitores saberem que você é débil-mental e precisa de tratamento.

Rob Gordon: Ah, ok. Esquece.

Championship Vinyl: Estou apenas tentando ajudar. Mal agradecido.

Rob Gordon: Ok, Champ. Obrigado pela ajuda, mas não precisa se incomodar. Eu me viro aqui.

Championship Vinyl: É claro que eu preciso me incomodar. Eu sou o blog. Eu que estou sem atualizações, não você.

Rob Gordon: Ok. Você quer um texto? Ótimo. Vou colocar qualquer merda ali e pronto.

Championship Vinyl: Como se em alguma outra vez você não tivesse colocado qualquer merda.

Rob Gordon: Aliás, está decidido. Eu vou colocar esse diálogo no blog.

Championship Vinyl: Ótimo. Está na hora das pessoas saberem quem é que manda aqui.

Rob Gordon: Sim. E sou eu.

Championship Vinyl: Vai sonhando.

Rob Gordon: Quer ver? Deixe eu logar aqui... Pronto. O texto está publicado. Babaca.

Championship Vinyl: Duvido que as pessoas gostem. Se comentarem alguma coisa, é só porque eu estou no texto.

Rob Gordon: Vamos ver, então.

Championship Vinyl: Agora, sabe o que é interessante?

Rob Gordon: O quê?

Championship Vinyl: Agora que você deixou claro, neste post, que conversa com o próprio blog, as pessoas realmente vão entender porque você tem que fazer terapia. Aliás, você conversa sobre mim com a sua médica?

Rob Gordon: Cale a boca!