Meio da madrugada, estava chovendo. Eu estava dormindo quando senti algo sobre meu peito. Pensei imediatamente que se tratava da Besta-Fera, mas estava enganado. Abri os olhos e um pernilongo do tamanho de uma maçã estava pousado sobre meu corpo. Antes que eu pudesse reagir, ele sorriu e disse:
– Eu vou dar a você a escolha que nunca tive. [01]
E me mordeu. Veja bem, ele não me picou, ele me mordeu. Uma mordida digna de um rottweiller. Gritei de dor, pulando para fora da cama. Corri em direção a porta do quarto, e acendi a luz. Besta-Fera, assustada, me acompanhou. Com a luz acesa, pude ver melhor o mosquito. Ele tinha as dimensões de um pequeno helicóptero e sobrevoava o quarto.
– Saigon... Merda. Eu ainda estou em Saigon [02], resmunguei.
O mosquito estava próximo a janela, fazendo uma curva e assumindo posição de ataque. Eu precisava dar um jeito naquilo, e logo. Fechei a porta do quarto e corri para a lavanderia, atrás de um inseticida. Voltei para o quarto e, com o spray na mão, abri a porta com força, gritando:
– Diga olá para o meu pequeno amigo! [03]
Espirrei o inseticida, mas o mosquito mudou o curso e foi se esconder no armário, atrás dos livros. Assim, eu aprendi uma lição: quando você tiver que atirar, atire, e não fale [04]. Entre dormir em paz e perder meus livros, eu, obviamente, escolhi poupar os livros, desistindo de empestear a casa com inseticida. Mas eu não deixaria isso barato assim. Peguei o interfone e liguei para o porteiro:
– Tem um mosquito na minha casa! No meu quarto, onde minha esposa dorme, aonde meus filhos vêm brincar com seus brinquedos! Na minha casa! [05]
O porteiro fingiu que não era com ele e desligou o interfone na minha cara. Merda de porteiro. Ninguém respeita mais nada. Me emputeci, mas sabia que não poderia fazer nada naquela hora. Um dia, uma chuva de verdade vai cair, e lavar essa escória das ruas. [06]
Voltei para o quarto, mas no meio do caminho, pude ouvir o barulho das hélices do pernilongo. A Besta-Fera, que tem medo de mosquitos, parou, se arrepiou e me perguntou com os olhos:
– Mosquitos... Porque tinha que ser mosquitos? [07]
Decidi dormir na sala. Mas, antes disso, fui até a porta do quarto, dei um murro nela e gritei “Eu voltarei!” [08], da forma mais ameaçadora que consegui.
No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi procurar a síndica.
– Ontem eu procurei um dos porteiros por causa de um mosquito no meu quarto, e ele desligou o interfone na minha cara.
– Porque você procurou o porteiro? Porque você não veio falar comigo antes?
– Eu não queria me envolver em problemas. Quanto eu devo pagar?
– Gordon, Gordon... Porque você me trata com tanto desrespeito? Se você viesse até mim com amizade, então esse mosquito que arruinou sua noite estaria sofrendo hoje mesmo. [09]
– Desculpe, eu quero apenas resolver esse negócio do mosquito...
– Antes de tudo, vamos deixar algo bem claro aqui. Primeira regra para morar neste prédio: você não fala sobre os mosquitos. Segunda regra para morar neste prédio: VOCÊ NÃO FALA SOBRE OS MOSQUITOS! [10]
– Ok. Desculpe.
– Porque este prédio é respeitável. Políticos, prédios feios e prostitutas se tornam respeitáveis se durarem tempo suficiente para isso. [11]
– Sim, senhora.
– Mas vou mandar dedetizar seu apartamento. Hoje à tarde alguém deve passar ali.
– Obrigado.
À tarde, tocou a campainha. Pelo jeito, o mosquito e o dedetizador já haviam se encontrado antes, porque, assim que tocou a campainha, o mosquito – provavelmente sentindo o cheiro do sujeito – gritou de dentro do quarto, emitindo um som horrível:
– MEEEEERRIN! [12]
Abro a porta e dou de cara com um sujeito usando uniforme, capacete e carregando diversos apetrechos. Ele me pareceu familiar, mas não dei muita atenção a isso. Ele atravessou o apartamento e entrou no quarto.
Olhou ao redor e gritou:
– Ezequiel, 25, 17. O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade, pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão, e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos! E então você saberá: chamo-Me o Senhor, quando minha vingança cair sobre você! [13]
E começou a espirrar inseticida na parede de forma alucinada.
– Eu sei que nós temos que matar o mosquito, mas borrifar tanto inseticida assim não é cruel demais? Você não se sente culpado?, perguntei.
– Não. Culpa é como um saco de tijolos. É só largar [14], ele respondeu sem nem olhar para mim.
Eu fiquei ao lado dele, olhando com atenção. De repente, percebi porque ele era tão familiar. Ele era o zelador do meu prédio, mas com um uniforme diferente.
– Eu conheço você.
– Não senhor. Acredito que não.
– Sim, eu conheço você. Você é o zelador do prédio.
– Não, senhor.
– Sim, é você, tenho certeza.
Ele parou de borrifar as paredes, olhou calmamente para mim e disse:
– Não, senhor Gordon. Eu não o zelador do prédio. O senhor é o zelador. O senhor sempre foi o zelador. [15]
– Como assim?
– Nada. Deixe para lá. Seu quarto já está dedetizado. Passar bem.
Virou as costas e foi em direção à saída. Só tive tempo de perguntar a ele se era seguro eu entrar no quarto, e ele, já na porta (e sem nem olhar para trás), resmungou:
– Se você entrar neste quarto agora, você vai se arrepender. Não hoje, nem amanhã. Mas logo, e pelo resto da sua vida. [16]
O tom de voz dele me fez levar aquilo a sério. Achei melhor ficar na sala por algumas horas. O problema é que o inseticida aparentemente, não havia resolvido meu problema. Isso porque, mesmo com a porta fechada, eu ainda podia ouvir o mosquito voando pelo quarto e derrubando os móveis de forma ameaçadora.
– Você vai precisar de um apartamento maior [17], disse com os olhos.
Aos poucos, as coisas se acalmaram. A noite chegou e o sono começou a bater. Eu não agüentaria dormir outra noite no sofá. Perto da meia-noite, me enchi de coragem e fui até o quarto. Colei o ouvido na porta, e pude ouvir o mosquito, ainda vivo, resmungando algo como “... mesmo que eu tenha que mentir, roubar, trapacear ou matar. Deus é minha testemunha, eu nunca mais sentirei fome novamente!” [18]
Ou seja, o bicho não apenas estava vivo, como determinado a ter uma boa refeição naquela noite. E, como o inseticida não havia resolvido nada, o jeito seria pegar o mosquito no tapa mesmo. Fui até a lavanderia, peguei uma vassoura e voltei para o quarto. Olhei para a Besta-Fera e já a preveni:
– Aconteça o que acontecer lá dentro, lembre-se que ninguém ganhou uma guerra morrendo pelo seu país, mas sim fazendo o bastardo que está do outro lado morrer pelo país dele. [19]
Ele suspirou e disse “Em outras palavras, apertem os cintos, pois será uma noite agitada” [20] com os olhos.
Abri a porta e entrei no quarto, empunhando a vassoura. O mosquito estava sobre a cama e voou na minha direção, pronto para o ataque. Tentei me defender com a vassoura, mas ele foi mais rápido e me mordeu no ombro. A Besta-Fera correu para baixo da cama. Virei meu corpo e prensei o mosquito na parede. O bicho gritou de dor e voou para o teto, quebrando a lâmpada no meio do caminho.
Fiquei no escuro, sem saber onde ele estava.
Segurando a vassoura à frente do meu corpo, controlei minha respiração e fiquei em silêncio, tentando prever o próximo movimento da criatura. “Confie nos seus instintos...” [21], uma voz disse dentro da minha cabeça. Fechei os olhos e me concentrei no ambiente ao meu redor.
E para provocá-lo, ainda falei, com os dentes trincados:
– Você não deve se perguntar se eu sei onde você está. Você deve se perguntar se você está se sentindo sortudo hoje. Então, me diga: você está, seu marginal? [22]
De repente, dei um giro para a esquerda e golpeei o ar com a vassoura. Acertei algo sólido e ouvi um guincho estridente. Corri para fora do quarto e acendi a luz do corredor. O mosquito estava deitado no chão do quarto, mais morto que vivo. Seu sangue estava espalhado pelo chão, queimando o assoalho. Ácido.
Aproximei-me dele a tempo de ouvir suas últimas palavras:
– Eu já mordi pessoas em todos os bairros da cidade. Pessoas de todas as idades e tamanhos. E, agora, todos estes momentos vão se perder, como lágrimas na chuva. Hora de morrer. [23]
Suspirou e caiu morto.
Com o ombro latejando de dor, não consegui sentir pena dele. Resmunguei apenas “Yippee-ki-yay, filho da puta”. [24]
A Besta-fera saiu de baixo da cama e foi cheirar o cadáver. Eu o afastei com o pé, gritando:
– Você está louco? Esse bicho sangra ácido, vai saber o que ele poder fazer quando estiver morto! [25]
Ele levou meu conselho a sério e voltou para baixo da cama. Com cuidado, enrolei o bicho no cobertor e o carreguei para fora do apartamento, jogando o cadáver no latão de lixo.
Aquela noite, eu dormi em paz.
Legenda & Resultados:
[01] Entrevista com o Vampiro (Bridget Jones, Varotto, Ando)
[02] Apocalypse Now (Mary, Gabi Bianco, Ando)
[03] Scarface (Rafael Monteiro, Mary, Tyler Bazz, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[04] Três Homens em Conflito (Gabi Bianco, Ando)
[05] O Poderoso Chefão – Parte II (Matheus Silva, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[06] Taxi Driver (Bridget Jones, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)
[07] Os Caçadores da Arca Perdida (Leandro, Tyler Bazz, Gabi Bianco, Ando)
[08] O Exterminador do Futuro (Leandro, Tyler Bazz, Pedro Lucas, Gilgomex, Gabi Bianco, Ando)
[09] O Poderoso Chefão (Bridget Jones, O Frango, Matheus Silva, Tyler Bazz, Pedro Lucas, Gábisz, Gilgomex, Gabi Bianco, Ando)
[10] Clube da Luta (Tyler Bazz, Leandro, Pedro Lucas, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[11] Chinatown (Gabi Bianco, Ando)
[12] O Exorcista (Alexandre Rigotti, Gabi Bianco, Ando)
[13] Pulp Fiction (Bridget Jones, Tyler Bazz, Leandro, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)
[14] O Advogado do Diabo (Mary, Gabi Bianco, Ando)
[15] O Iluminado (Nelson, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[16] Casablanca (Gabi Bianco, Ando)
[17] Tubarão (Toni Barros, Thiago Apenas, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)
[18] E O Vento Levou (Bridget Jones, Alexandre Rigotti, Leandro, Gabi Bianco, Ando)
[19] Patton - Rebelde ou Herói? (Ando)
[20] A Malvada (Toni Barros, Ando)
[21] Star Wars (Alexandre Rigotti, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[22] Perseguidor Implacável (Mary, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[23] Blade Runner (Bridget Jones, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)
[24] Duro de Matar (Bridget Jones, Pedro Lucas, Gábisz, Gabi Bianco, Ando)
[25] Alien - O Oitavo Passageiro (Dragus, Pedro Lucas, Gabi Bianco, Ando)
Comentários:
Após bastante consideração (leia-se tentativa e erro), não contabilizei os comentários de pessoas que apenas citaram o nome do filme (sem identificar o trecho), ou que comentaram dizendo "além dos que o fulano acima encontrou", porque, em quase todos os casos, o fulano em questão tinha cometido erros.
Tentei contabilizar todos os que comentaram, mas, depois de um tempo, fui obrigado a considerar apenas as respostas com trecho & nome de filme, porque, caso contrário, eu teria que contratar uns três estagiários para me ajudar. Nomes de filmes digitados errados (como Perseguição Implacável ao invés de Perseguidor Implacável foram considerados corretos)
Dignos de notas os desempenhos do Ando e da Gabi Bianco. O primeiro mandou bala no Google (ninguém disse que não poderia fazer isso) e, com sangue nos olhos, achou 27 de 25 citações (sim, 27, não é erro de digitação, basta olhar o comentário dele). Vale dizer que mesmo usando o Google, ele também acertou frases que estavam "alteradas", como a do Indiana Jones. E a Gabi, indo claramente por instinto (e visivelmente com pressa), mandou bem, com 22 acertos.
Sendo assim, com a tabela acima, o Top 5 Vencedores são:
Ando - 25 pontos
Gabi Bianco - 22 pontos
Pedro Lucas - 9 pontos
Gábisz - 8 pontos
Bridget Jones - 7 pontos
Vale dizer que o filme mais achado foi O Poderoso Chefão (com 9 pessoas identificando o trecho) e minha quase vitória pessoal foi na referência a Patton - Rebelde ou Herói? (ninguém tinha acertado, até o Ando aparecer aos 47 minutos do segundo tempo).
Favor dizer nos comentários se gostaram da brincadeira. Em caso positivo, posso tentar fazer outro (não, não é fácil e é demorado) de forma mais formal (aviso prévio, respostas por e-mail) e, aos poucos, vamos montando um ranking no blog. Afinal, o Ando, agora, é o sujeito a ser batido. O que vocês acham?
Rob