29 de setembro de 2009

Rob Gordon X Prova da Fievel

Esta história nasceu na faculdade, há mais de dez anos. Mas eu decidi publicá-la somente na semana passada, quando a esposa de um amigo me disse, durante um jantar, que toda vez que eu ou um dos meus amigos conta isso, ela morre de rir. Ou seja, é uma daquelas histórias sem prazo de validade.

Antes de tudo, cabe dizer que eu não era muito assíduo nas aulas, durante a faculdade. Vejam bem, não é que não ia à faculdade; eu ia, apenas não entrava na sala. Eu e meus amigos éramos conhecidos por ficarmos sentados na escada do saguão, tomando Coca e falando mal da vida até a hora do almoço. Parece ridículo, mas não era – acreditem, era praticamente um Champ Vinyl em tempo real.

O interessante é que, mesmo assim, nós íamos bem nas matérias. O segredo da faculdade é saber o que está acontecendo dentro da sala de aula – e para isso, você não precisa estar lá dentro. Assim, íamos bem nas provas e fazíamos trabalhos que os professores cobriam de elogios.

Mas algumas matérias conseguiam ser chatas demais, até mesmo para este tipo de estratégia. Uma delas era ministrada por uma professora que, por motivos óbvios, manterei o nome em segredo aqui, chamando-a de Fievel – afinal, este era o apelido dela, já que ela era igualzinha ao ratinho.

Enfim, com aquela filosofia de “semana que vem eu subo”, fui assistir à primeira aula da Fievel já na metade do semestre. E, com meu tradicional pé-frio, descobri que a aula era uma enorme revisão, pois, na semana seguinte haveria prova. Prova! Eu havia acabado de conhecer a professora, e já teria que enfrentar uma prova. No início da revisão, ela começou a conversar com a sala e disse que o exame abrangeria das páginas 1 a 70 da apostila.

Eu, ainda verde, e no auge da minha ingenuidade, fiz algo, então, que eu jamais teria feito hoje. Levantei o braço e perguntei:

– Qual apostila?

Ela olhou para mim tentando me reconhecer. Obviamente, não conseguiu. Me senti como um jogador de xadrez que percebe que entregou a rainha de graça ao adversário.

– Nós temos apenas uma apostila.

– Ah.

– Você não sabia disso?

– Sabia, claro. Eu só estava checando, tentei inutilmente arrumar.

Ela olhou para mim como se fosse uma espécie de deus da guerra, admirando, do alto do morro, o exército inimigo de seu povo. E o exército inimigo era eu. Seus olhos soltaram faíscas e ela deu um sorriso de prazer:

– Não vejo a hora de corrigir a sua prova.

Eu dei um sorriso amarelo. Talvez um poeta pudesse descrever melhor o que senti: a sensação de fracasso iminente, a proximidade da derrota, o perigo de vida face a face com um inimigo. Como eu não era exatamente um poeta, ainda mais na faculdade, consegui apenas virar para meus amigos e soltar um “agora fudeu” baixinho.

E meus amigos sabiam que o “agora, fudeu”, se estendia a eles também. Afinal, não éramos indivíduos, éramos um grupo. Seja o que for que acontecesse comigo, aconteceria com eles também.

Ao final da aula, saímos dispostos a correr atrás do prejuízo. A única alternativa era comprar a apostila e devorar aquelas 70 páginas. Mas, com aquela filosofia de “amanhã eu compro”, uma semana se passou, não compramos nada e, assim cheguei para fazer a prova com apenas uma arma: uma caneta Bic emprestada da secretaria (não, eu não levava nem caneta para lá).

Começa a prova. Silêncio ensurdecedor. Coloco meu nome e passo os olhos pelas questões. A única que eu sabia a resposta, eu já tinha feito: meu nome. Mas isso não iria me garantir nem meio ponto.

Olhei para meus amigos, meus amigos olharam para mim. Não havia saída.

Talvez tenha sido aí que eu comecei a aplicar a filosofia do “bom, o zero eu já tenho, qualquer coisa acima disso é lucro”. Haviam-se passado quase dez minutos desde o início da prova. Levantei e fui até a professora, fazendo uma cara de enjoado que deixaria Robert de Niro com inveja.

– Estou passando mal, disse a ela.

– O que você tem?

– Eu preciso ir ao banheiro.

– Mas hoje é prova.

– Explique isso ao Delgado e Grosso, aqui dentro. Eu PRECISO ir ao banheiro.

– Ninguém sai na prova.

Os outros alunos começaram a olhar para mim.

– Olhe, eu só tenho uma caneta. Se eu tivesse uma fralda aqui, tudo bem, mas eu não tenho. Eu vou passar vergonha em segundos, falei, contorcendo o rosto devido as minhas contrações intestinais. Quem olhasse de longe, poderia jurar que eu estava entrando em trabalho de parto.

– Tudo bem, mas antes você deixe sua prova aqui comigo.

– A minha prova está em branco. Eu não estou conseguindo escrever. Eu preciso sair agora.

– Se você não voltar em dez minutos, eu vou encarar como desistência.

– Se eu não voltar em dez minutos, é porque eu desisti da vida, e não da sua prova.

Saí da sala, encurvado, com as mãos na barriga. Olhei rapidamente para meus amigos e vi que eles estavam assustados. Mas uma simples piscada poderia colocar tudo a perder. Abaixei a cabeça e saí da sala.

Fechei a porta e comecei a correr. Não em direção ao banheiro, mas para o lado contrário, em direção à escada. Meu destino era a sala de xerox. Eu estava no segundo andar e precisava chegar ao subsolo. Desci todos os lances de escada de oito em oito degraus e cheguei à pequena sala da xerox, onde todos os professores deixavam suas apostilas.

Sabe, é importante você ter amigos em posições altas, mas é mais importante ainda ter amigos nas classes baixas: quem resolve a maioria dos seus problemas são os faxineiros, os responsáveis pela manutenção e, no meu caso, o cara da xerox. Como eu havia ficado amigo dele, não pegava fila, não pagava pelas cópias e tinha livre acesso pela entrada dos funcionários.

E foi justamente pela entrada de funcionários que eu entrei, gritando:

– Me dá a apostila da Fievel!

Ele parou de atender os outros alunos e pegou uma pasta.

– Você vai querer uma cópia? Pega aqui na hora do almoço, eu deixo pronta.

– Não, eu quero ler a apostila agora! Eu estou no meio da prova!

Peguei o calhamaço de papel e me sentei num canto. Antes de sair da sala de aula, eu havia decorado quatro das cinco perguntas da prova. Comecei a folhear a apostila, procurando pelas respostas. O tempo corria, e a única coisa que eu sabia era que as respostas estavam entre as páginas 1 e 70.

Eu era um arqueólogo que havia encontrado um pergaminho com todas as respostas sobre uma antiga civilização. Meus olhos brilhavam, correndo por aquela fonte inesgotável de conhecimento impressa em folhas A4, e presa por um espiral vagabundo. Se aquele momento tivesse uma trilha sonora, ela seria grandiosa, composta pelo John Williams.

Mas eu não precisava saber tudo sobre a tal da civilização, apenas as respostas para as perguntas da prova. Para a minha sorte, a apostila continha um índice.

Fiz o melhor que pude com os poucos minutos que tinha. “O que importa não é o tempo que você tem, mas o que você faz com ele”, diria Gandalf. Decorei as respostas o máximo que consegui, joguei a apostila dentro da xerox, me despedi do funcionário com o tradicional “depois te pago uma Coca” e me preparei para subir.

Eu tinha dois minutos.

Subi as escadas correndo, empurrando outros alunos, professores, todo mundo. Parecia um louco, já que eu ainda falava sozinho (repetindo as respostas em voz alta para não esquecer). Cheguei à porta da sala, respirei fundo e abri.

Nunca vi as pessoas olharem com tanta piedade para mim. Mas entendi o porque imediatamente: a classe inteira achava que eu havia saído por problemas intestinais, e a velocidade com a qual eu subi a escada fez com que eu abrisse a porta da sala branco, suado, ofegante. Ou seja, alunos e professores devem ter achado que eu havia visto a morte de perto no banheiro.

– Você está melhor?, a professora perguntou.

– Eu vou sobreviver. Acho.

– Pode continuar sua prova.

– Obrigado.

Fui até minha cadeira e me sentei. Faltavam uns vinte minutos para terminar a prova. Após alguns segundos recuperando o fôlego, peguei a caneta e comecei a escrever feito louco, respondendo questão atrás de questão, antes que eu esquecesse o que havia lido na apostila.

No meio da segunda ou terceira questão, ouço meus amigos, ao lado, sussurrando entre si:

– Não sei também. Ele foi cagar e voltou sabendo tudo!

– Ele está fazendo a prova inteira!

– Rob, passa essa merda para cá!

– Resmunguei um “espera, não posso esquecer nada, já passo”. Fiz o melhor que pude e passei as respostas para eles. Cinco minutos antes do prazo, entregamos as provas e fomos embora.

Na semana seguinte, os resultados. A Fievel começou a entregar as provas e a sala inteira havia ido bem. A maioria dos alunos havia tirado 7, 8, por aí. Eis que chegou minha prova: 9. Meus amigos? 9, todos eles.

A decepção nos olhos dela era visível. Aparentemente, ela contava com o meu zero, seria a uma das grandes conquistas da sua vida profissional, a história que ela contaria aos netos quando estivesse aposentada.

Eu peguei a prova e olhei a nota. Meus amigos dizem que eu amassei e joguei na mesa dela, mas realmente não lembro disso. Mas lembro que eu virei para ela e disse:

– Nove! Que tesão! Você tem consciência de que eu nunca mais vou assistir uma aula sua, certo?

Uma das poucas coisas que eu me arrependo é que eu ainda não usava o “chupa!” nessa época. Mas, antes que ela pudesse responder, um dos meus amigos me puxou para fora da sala, dizendo “não exagera, Rob, não brinca com o perigo assim”.

Descemos e fomos comemorar com Cocas. E eu, claro, comprei duas: uma para mim e outra para o cara do xerox.

Afinal, eu não sabia quando teria outra prova, mas já sabia que boa parte do meu diploma estava nas mãos dele.


Nota:
Quando eu tiver filhos, eles provavelmente lerão este blog. Até eles se formarem, eu vou insistir que este post é mentira, que nada disso aconteceu, foi tudo inventado. Conto com a compreensão e a ajuda de vocês para isso.

27 de setembro de 2009

Com Amor, Rob

Na minha opinião – pessoal e profissional –, um filme é bom quando ele me faz sair do cinema pensando. Se, dez minutos depois dos créditos subirem eu já não tenho mais aquela sensação de “acabei de sair do cinema”, e não estou pensando sobre os personagens, o final, ou mesmo sobre alguma cena específica, é porque o filme não é bom. Ele é, quando muito, legal.

Assim, Amantes, com Joaquin Phoenix, é um filme excelente. Assisti agora à tarde e não consigo parar de pensar nele desde então – salvo um rápido café após esbarrar acidentalmente com um amigo que hoje mora em Santa Catarina e está em São Paulo por esses dias.

Antes de tudo, Amantes não é um filme fácil, nem se propõe a tal. Não é uma comédia romântica, que você assiste esperando pelo inevitável final feliz. Não vou contar o final aqui, mas basta vocês saberem que Amantes não tem um final particularmente feliz.

Afinal, a vida não tem final feliz – às vezes as coisas dão certo, às vezes não. Às vezes, dão certo como planejamos, às vezes não.

Mas, mais que seu final, o que torna Amantes um filme inesquecível são seus personagens. Fazia anos que eu não via, na tela, personagens tão reais, tão humanos. Joaquin Phoenix é um Leonard, sujeito que, sem conseguir superar o fim de um noivado, voltou para a casa dos pais, onde vive de forma totalmente estagnada, à beira de uma depressão. Bipolar, ele oscila na corda bamba entre tentar retomar sua vida ou se suicidar de uma vez – mas não tem força (ou competência) para nenhum dos dois. Assim, ele passa seus dias de forma inerte, tentando trabalhar, tirando fotos (sua grande paixão), esperando que alguém apareça para lhe salvar. Leonard é um aleijado emocional

Curiosamente, não é uma pessoa que aparece para lhe salvar, mas duas. Sandra, filha de amigos dos seus pais, é a primeira: recatada, correta, parece ser o partido ideal – mesma opinião dos seus pais e dos pais dela, que fazem de tudo para fazer os dois ficarem juntos. Michelle é o oposto. Moradora do prédio de Leonard, vive às turras com sua família e usa drogas para tentar suportar a idéia de manter um caso com um homem mais velho e casado, que jamais abandonará a família por ela.

A partir daí, o triângulo amoroso existente entre eles (ou quadrado, se contarmos o namorado casado de Michelle) se desenvolve de forma cada vez mais intensa. Como este texto não é uma crítica do filme, vamos pular toda a parte do desenvolvimento do roteiro e dos personagens (o filme é bom, acreditem) e ir direto ao que interessa, ao assunto que o filme me fez pensar a respeito: amor.

As pessoas retratadas na tela são como eu e você. São pessoas reais. Temos o sujeito que nunca conseguiu aprender a viver com uma perda; temos a garota que mora com os pais e espera pacientemente alguém aparecer na sua vida; a jovem que entrega toda a sua vida a um amor impossível, enganando-se todos os dias; e o sujeito que mantém uma família e uma amante, talvez para não correr o risco de perder sua juventude.

Independente de suas diferenças, todos eles, ao seu modo, querem desesperadamente ser amados. Todos eles abandonam ou abandonariam tudo o que acreditam por amor – ou, sendo mais preciso, por aquilo que eles acham que é amor. Suas vidas não têm absolutamente nada de grandiosas, são quatro anônimos em uma grande cidade. Tudo o que eles querem é alguém para dividir o pouco que eles têm e para dividir o pouco que eles são.

Da mesma forma que eu e você.

Não vou dizer aqui que se você não tem namorado, namorada, marido, esposa, você é infeliz. Claro que não. Mas quem de nós, pelo menos uma vez na vida, não soube que daria tudo apenas para ter alguém ali ao seu lado, sabendo que esta pessoa jogará com você, no seu time?

E, não, pai e mãe não contam. Pai e mãe não jogam juntos com você – eles são a torcida. Eles sempre estarão torcendo por você, mesmo nos dias em que você jogar mal, mas apenas torcem. Eles entram em campo apenas quando você é pequeno. O que todo mundo quer é alguém que jogue junto com você, e mais importante que isso, tenha escolhido jogar junto com você.

Todos nós queremos isso, em ao menos um momento de nossas vidas. Todos nós queremos que alguém apareça para nos salvar de nós mesmos.

E não estou falando de paixão. Paixão é algo sem controle. Paixão é algo que tira você do chão – mesmo porque 99% das paixões são ilusões –, mas que pode se tornar uma queda feia. Amor é diferente. Não consigo definir amor aqui, mas sei que é diferente.

Outro dia, me falaram uma definição que eu achei brilhante: “amar é dar espaço para a pessoa crescer”. Mostra realmente a diferença entre amor e paixão: quando você está apaixonado, tudo gira em torno de posse; quando você ama, tudo gira em torno da outra pessoa, e da felicidade dela. Você abre mão de tudo por isso, sem pestanejar.

Mas essa é apenas uma definição de amor. Existem tantas outras, soltas por aí, tentar enumerá-las seria perda de tempo. Mesmo porque todas estão certas. Uma delas de que sempre gostei é que o amor não é um sentimento, mas a soma de todos os outros sentimentos.

Curioso como passamos a vida inteira correndo atrás de algo que nem sabemos direito como funciona, ou sequer como explicá-lo. Mas, que passamos a vida correndo atrás dele, é fato. Passamos a vida lutando para ele, por ele.

Porque nada supera a sensação de ir até a varanda, olhar a cidade e saber que alguém lá fora, no meio daquela multidão, ama você por você ser exatamente do jeito que você é.

Eu? Eu sou um aleijado emocional, como Leonard. Não porque tenho uma perda que não consigo superar. Como toda pessoa que amou um dia, eu já perdi – algumas doeram mais, outras doeram menos – mas sou um aleijado emocional por causa dos meus pais.

Entre meus amigos, eu sou um dos poucos cujos pais não se separaram, então, cresci com a idéia de que é “para sempre”. Mesmo tendo visto meu irmão se casar, se separar e casar de novo, eu não consegui perder essa visão.

Ou seja, toda vez que eu amo, é para sempre. Eu não molho os pés para ver a temperatura da água, eu mergulho, porque faço questão de me molhar inteiro.

Mas claro que hoje eu já aprendi que “o amor é mais que o amor”. Hoje eu sei que atrás da porta do quarto dos meus pais, existia todo o making of daquela superprodução que eu entendia como estabilidade familiar. Brigas, contas para pagar, e os outros problemas que todos nós temos – tudo isso acontecia lá dentro, longe dos olhos dos espectadores (eu e meu irmão), mas acontecia.

Mas se “o amor não é apenas o amor”, também sei que “o amor é parte essencial do amor”. Afinal, mesmo com todos os problemas, eles continuam ali, tomando café juntos, lutando para pagar as contas, reclamando de cansaço, assistindo televisão juntos. Não se desgrudam.

Ou seja, nenhuma das brigas acontecia apesar do amor, mas sim por amor. Todas elas. A prova disso é que eles continuam ali.

E isso mostra que o amor, ao contrário do que vemos nos filmes, não está em beijos sob tempestades, acompanhados de canções ganhadoras do Oscar.

Ele está no meio de uma gargalhada vinda de uma piada sem maiores pretensões, na crise de ciúmes que faz você se sentir um imbecil dez minutos depois, no sorriso que você ganha quando encontra com a pessoa, na briga que você abre mão da razão que tem em nome da paz. Ele está no cinema de mãos dadas, no almoço corrido porque os horários estão apertados, no olho no olho durante o sexo. Ele está na vontade de querer saber se a pessoa está bem e na vontade de sempre querer ver a pessoa bem.

Ele está em absolutamente cada passo que você dá com a pessoa, seja este passo uma conquista com ela, seja uma concessão que você abre em nome dela.

Então, agradeço todos os dias por me considerar um aleijado emocional. Porque eu sei que jamais vou perder o foco de que, aconteça o que acontecer, nada é mais importante que ter alguém para quem voltar, quando o dia acabar.

E, acreditem: no final das contas, é isso que faz a diferença. Sempre.

(Dedicado aos meus pais)

24 de setembro de 2009

Top 5 Maneiras (Divertidas) de Fazer seu Estagiário Pegar Café para Você

1. Da Numerologia

Rob Gordon: Escolhe um número de 1 a 10.

Estagiário: 4

Rob Gordon: 5. Ganhei. Você pega o café.


2. Da Aposta

Rob Gordon: Vamos fazer uma aposta?

Estagiário: Qual?

Rob Gordon: Não, você responde "sim". Vamos tentar de novo. Vamos fazer uma aposta?

Estagiário: Sim.

Rob Gordon: Eu aposto um café com você que você não vai pegar um café para mim.



3. Do Olfato

Rob Gordon: Você está sentindo cheiro de café na minha mesa?

Estagiário: Não.

Rob Gordon: Nem eu. Resolve isso para mim, por favor?



4. Da Adivinhação (funciona preferencialmente no Msn)

Rob Gordon: Me ajuda com uma coisa, aqui?

Estagiário: Claro.

Rob Gordon: Estou fazendo um texto, mas me deu um branco aqui. Como chama aquele tipo de café que o cara tira na hora, sem precisar coar?

Estagiário: Não sei. Café expresso?

Rob Gordon: Poxa, que supresa boa! Aceito sim, obrigado. Duas colheres de açúcar, por favor.


5. Da Notícia Boa e da Notícia Ruim

Rob Gordon: Eu tenho uma notícia boa e uma ruim. Qual você quer primeiro?

Estagiário: A ruim.

Rob Gordon: A ruim é que eu quero um café.

Estagiário: E a boa?

Rob Gordon: A boa é que meu estagiário vai pegar um café para mim.

Estagiário: Mas essa não é boa.

Rob Gordon: Ela é boa para mim. E, como você é estagiário, se ela é boa para mim, ela é boa para você.


Bônus Track: Da Notícia Boa e da Notícia Ruim – Variante II

Rob Gordon: Eu tenho uma notícia boa e uma ruim. Qual você quer primeiro?

Estagiário: A ruim.

Rob Gordon: A ruim é que eu quero um café.

Estagiário: E a boa?

Rob Gordon: A boa é que, depois que você pegar meu café, as notícias ruins acabaram.

23 de setembro de 2009

Ô Fase - Edição de Coleciona(DOR!)

Há algum tempo, eu reclamei aqui no blog das pessoas que ignoram minha presença na rua e transformam a Teodoro Sampaio numa espécie de área de carrinhos bate-bate, na qual quem me jogar em cima de um camelô ganha pontos extras. Toda vez que alguém ignora minha existência e esbarra em mim, eu fico puto e acho que andar na rua é algo que não poderia piorar.

Eu estava errado. Afinal, sempre pode ser pior.

Hoje foi um exemplo. A priori, hoje é uma quarta-feira normal como as outras. Mas, na verdade, 23 de setembro é o Dia Nacional de Agredir Rob Gordon na Rua. E problema é que eu não sabia disso até começarem as comemorações da data na rua.

Estava descendo para o trabalho, e começou a chover. Eu apertei o passo, porque – é claro – eu havia esquecido aquele maldito guarda-chuva de Itu na redação. E se andar pela Teodoro Sampaio já é difícil, com chuva isso se torna praticamente em uma cena deletada de Apocalypse Now – a diferença é que, ao invés de Wagner, toca Calypso.

Mas eu até que estava indo bem, desviando dos camelôs e pulando os buracos da calçada. Mas, como diria Drummond, havia uma pedra no meio do caminho. Quer dizer, isso no caso do Drummond; no meu caso, era uma velha, que saiu de uma loja e começou a subir a Teodoro na minha direção, carregando três sacolas.

Não dei muita atenção para ela até estarmos a uns três metros de distância. Porque foi aí que ela tirou o guarda-chuva de uma das sacolas. Ou melhor, ela tentou tirar.

Vou tentar explicar aqui o que aconteceu: eu estava a três passos dela. Ela pegou o guarda-chuva, mas ele estava preso em alguma coisa na sacola – ou na própria sacola, não consegui ver. Eu estava a dois passos dela; Ela puxou o guarda-chuva com força, mas ele continuava enganchado. A chuva apertou. Eu estava a um passo dela. Ela puxou com força e o guarda chuva se soltou da sacola, indo na minha direção com tudo.

Já jogaram fliperama? Foi mais ou menos isso: o guarda chuva bateu no meu joelho direito, foi para o esquerdo e ricocheteou para cima. Subiu pelo meio das minhas pernas e me acertou. Sim, ali onde você está pensando.

Senti um embrulho no estômago e perdi o ar. Imediatamente pensei em ligar para o meu irmão e dizer que “sabe aquele sonho que nosso pai tem em ter uma neta? Você vai ter que cuidar disso, porque, eu vou ser o último da linhagem. Não posso mais ter herdeiros, porque acabei de sofrer uma vasectomia na Teodoro”.

Só lembro de colocar as mãos entre as pernas, como um jogador de futebol numa barreira, e me curvar, emitindo um som que ficava no meio do caminho entre respirar fundo e gemer. A velha, provavelmente assustada com a coloração roxa do meu rosto, perguntou:

– Machucou?

– Não, tá tudo bem, respondi, suando, com uma voz que parecia um misto da entonação do Edson Cordeiro com a da Tetê Espíndola, adicionando uma ou outra pitada da voz do Mickey Mouse.

– Desculpe, o guarda chuva escapou.

– Não, tá tudo bem.

– Desculpe.

– Não, tá tudo bem.

A velha abriu o guarda chuva - felizmente, depois de tirá-lo do meio das minhas pernas, caso contrário eu não estaria aqui – e foi embora. Eu continuei descendo a Teodoro, com a mão entre as pernas, achando que iria vomitar a qualquer momento – e, dado a pancada que eu levei, morrendo de medo de vomitar algo que eu não poderia (para bom entendedor, meia palavra basta).

“Continuei descendo a Teodoro”, claro, é modo de falar. Andei mais ou menos uns cinco metros e não agüentei. Me encostei num muro e deixei a chuva cair no meu rosto, me segurando para não me entregar à tentação de abrir a calça e deixar a chuva aliviar a dor. Lembrei do Robert De Niro jogando gelo dentro da cueca em Touro Indomável e tive vontade de chorar de inveja.

Aliás, talvez eu tenha chorado, pois não sabia mais o que era chuva, o que era lágrima e o que era suor. Eu não sabia direito nem quem eu era. Só sabia que eu sentia dor. Muita dor. Aos poucos, comecei a me recuperar. Deixei meus espermatozóides lidando com a tragédia (reconstrução de prédios inteiros, contagem dos mortos, três dias de luto) e, ainda capengando, continuei andando.

Saí da Teodoro e comecei a me rastejar pela Simão Álvares, ainda sob a chuva. Andei uns quinze metros e cruzei meu caminho com dois motoboys, que conversavam sob um toldo. Um deles tinha uma mochila nas costas, e o outro estava tentando tirar algo da mochila.

Obviamente, ele conseguiu tirar o objeto – era uma jaqueta – quando eu passava ao lado deles. Obviamente, a jaqueta estava presa na mochila, e, quando soltou, saiu com tudo. Obviamente, a jaqueta saiu da mochila com destino certo: meu rosto.

Só sei que, de repente, eu tinha tomado uma jaquetada – com direito a zíper e botões na cara. Os motoboys, sem graça, olharam para mim. Um deles se aproximou:

– Nossa, mano! Desculpa!

– Não, tá tudo bem.

– Mal aí, de verdade! Machucou?

– Não, tá tudo bem.

Pensei em dizer que a culpa não era dele, era minha, mas eu não saberia explicar o motivo. Provavelmente, envolve tudo o que eu aprontei na vida até hoje (desde o jardim da infância) e karma. Mas, acreditem em mim: depois de perder parte do sistema reprodutor num guarda chuva e levar uma jaquetada na cara, você não quer pensar sobre isso; você quer apenas se arrastar até uma cama, num hospital qualquer, deitar e dormir.

Me arrastei mais uma quadra e meia até a redação, cheguei aqui e peguei meu calendário, fazendo um X com caneta vermelha no dia 23 de setembro. Não sei se é destino, se é azar, ou se meu inferno astral não sabe perder – ele acabou, teoricamente, no dia 10 de setembro – e resolveu chamar uns amigos para me pegar.

Na dúvida, em 23 de setembro de 2010 eu não saio de casa. Porque, caso eu me machuque – e eu vou me machucar – pelo menos tenho remédio em casa.

E tenho gelo também.

20 de setembro de 2009

Se Ela Dança, Eu Danço não Durmo

A semana que passou não foi nada fácil para mim. De segunda à sexta, foram praticamente 12, 14 horas de trabalho por dia. Ou seja, na quarta-feira eu já estava com um par de olheiras digno de um urso panda. Na sexta, eu já havia me transformado em uma miniatura do Alice Cooper (deixando de lado os cabelos).

A coisa estava tão feia que, na quinta-feira, minha perna dormiu por causa da posição que eu estava sentado, e eu não senti formigamento – senti apenas inveja dela.

Assim, passei a semana esperando ansiosamente pela noite de sexta. Meu plano era dormir até ter câimbras nas pálpebras e acordar no sábado feito um bebê. Porém, talvez porque eu ainda estivesse totalmente pilhado por causa do trabalho, não consegui dormir direito – e a noite ainda teve direito a pesadelos. Ô fase.

Dessa forma, acordei pior ainda no sábado. Se as pessoas realmente precisam do “sono da beleza”, eu caminhava a passos largos para me tornar um dos sujeitos mais horrendos do planeta. Assim, me preparei para colocar uns palitos de fósforo nos olhos, para mantê-los abertos (laranja mecânica mode: on) e atravessar o sábado em marcha lenta.

Ontem à noite, porém, tudo parecia perfeito. Passei a maior parte do dia num churrasco e a maior parte do churrasco com uma lata de cerveja na mão. Some isso ao fato de que como 88% do meu organismo já eram compostos por sono, a entrada de carne e cerveja na equação faria com que eu dormisse feito um bebê.

Por volta de meia-noite meus olhos já lacrimejavam de sono. Deitei na cama, empurrando a Besta-Fera para o lado e fechei os olhos, me preparando para dormir por semanas. Respirei fundo e sorri. Minha felicidade por saber que eu iria dormir era tão grande que eu estava até mesmo ouvindo músicas dentro da minha cabeça.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum


Virei para um lado, virei para o outro. A música simplesmente não parava. Na verdade, não era uma música, era apenas o som de uma maldita bateria eletrônica. Mais nada. Ou seja, a hipótese de que meus neurônios estavam cantando uma cantiga de ninar para mim não era válida – a não ser que se tratasse de uma versão remixada de “nana nenê, que a Cuca vem pegar”.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum


Comecei a considerar, então, a possibilidade dos meus neurônios estarem promovendo uma rave dentro da minha cabeça. Teriam alugado uma fazenda em algum canto do cérebro e estavam enfeitados com pulseiras e colares brilhantes, dançando e tomando ecstasy. Foi neste momento que me lembrei de ter lido, em algum lugar, que algumas raves duram três ou quatro dias e levantei em pânico, assustado com a idéia de ter que ouvir aquilo até o meio da semana seguinte.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum


Joguei uma água no rosto, mas a música não parou. Pelo contrário, ficou mais alta. Mas, pelo menos, eu tive certeza de que o barulho não vinha do meu cérebro, mas sim da cozinha. Mais precisamente, da janela. Mais precisamente ainda, do prédio ao lado.

tum ts tum ts tum ts
tum tum tum
ts tum ts tum ts
tum tum tum

Então é isso. Os moradores do prédio ao lado estavam dando outra festa. Deve ser delicioso morar naquele prédio, porque eles dão festas de arromba sábado sim, sábado também. Aqui no meu prédio, a única celebração que minha síndica permite são as reuniões de condomínio – que, devido à presença dela, são tão animadas quanto uma missa negra.

Mas, pelo menos, o som não estava alto como nas outras vezes. Aparentemente, a festa estava acontecendo num lugar fechado – talvez dentro do salão – e o volume estava suportável. Decidi voltar para a cama e tentar dormir novamente.

Eu estava justamente na porta do quarto quando alguém, na festa, falou, usando um microfone. Sim, você não leu errado, um microfone.

– Pessoal, a pista está aberta! Vamos dançar a noite inteira!

Eu consegui apenas colocar as mãos no rosto e gemer um “não, Deus, por favor”.

Aí a festa começou de verdade. A música começou a entrar no meu apartamento por todas as portas e janelas. Se eu instalasse um globo de luz no teto do meu quarto, poderia transformá-lo numa boate particular e ficar dançando sozinho com a Besta-Fera.

Deitei na cama e coloquei o travesseiro sobre a cabeça. A maldita música não parava – e, o que era pior, não era uma música de verdade, mas sim Swing the Mood, do Jive Bunny, aquele remix idiota das músicas dos anos 50, que abre todas as festas de casamento de 1988 para cá.

Glenn Miller rolava no caixão, e eu rolava na cama.

E a coisa só piorava. Emendaram com It’s Raining Man, da Gloria Gaynor, seguido de YMCA, do Village People – com direito a todos os convidados gritarem “ÁÁÁi... Em Ci Ei!” junto com o refrão.

E eu ali no quarto, socando a cama e tentando me lembrar se o Pão de Açúcar vendia granadas.

Acho que consegui dar uma cochilada – ou o DJ trocou o disco sem esperar a música acabar –, porque o Village People se transformou naquele lixo de “se ela dança, eu danço”. Eu já não sabia mais se o prédio do lado era palco de uma festa ou de um show do Chatotorix.

Olhei no relógio: 01:35. Tentei fechar os olhos novamente e contar carneirinhos, mas não encontrei nenhum. Fiquei minutos olhando aquele gramado com a cerquinha de madeira, e nenhum carneiro apareceu. Provavelmente estavam todos escondidos, com medo do barulho.

Levantei e fui beber água. No meio do caminho, minha casa começou a tremer com os berros de “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”. Aí já era golpe baixo. Fechei as janelas da cozinha correndo para impedir que aquele funk imbecil entrasse no meu apartamento, mas não adiantou. Peguei um cabo de vassoura e fiquei andando pela casa, tentando acertar cada nota musical que entrava pela janela.

Lágrimas de desespero começaram a escorrer pelo meu rosto.

Olhei para a varanda. A única hipótese viável era o suicídio. Me jogaria do apartamento e acabaria logo com tudo. Como eu não conseguiria escrever uma carta de despedida por causa do barulho, deixaria apenas um bilhete pedindo apenas para que o meu túmulo tivesse a inscrição “finalmente ele está dormindo em paz”.

Mudei de idéia quando me lembrei da Tereza. Se ela já foi quase expulsa do prédio por tentar se suicidar, imagine o que aconteceria comigo? Minha síndica seria capaz de encontrar uma maneira de fazer com que eu ressuscitasse apenas para me matar de novo.

Olhei ao redor procurando por alguma idéia. Eis que eu vi, brilhando sobre a mesa, meu mp3. Me lembrei de todas as músicas dos Beatles guardadas lá dentro e a idéia pareceu boa. Voltei para a cama, coloquei os fones de ouvido e liguei.

Meu cérebro respirou aliviado quando Taxman começou a entrar pelos meus ouvidos. Num suspiro aliviado, me deitei de lado e tentei até sorrir (geni e o zepelim mode: on). Não deu tempo. Dormi antes do primeiro refrão.

Acordei as seis da manhã e John Lennon estava no meu ouvido, gritando algo a respeito de ser uma morsa. Desliguei o mp3. Nada de funk, ou Village People. A festa havia acabado. Coloquei os fones de ouvido de lado, virei para o outro lado e dormi profundamente.

Graças aos Beatles, finalmente, I’m Only Sleeping.

17 de setembro de 2009

Rob Gordon X Itaú - Rounds 1, 2 e 3

11:49 am

– Sr. Rob?

– Sim.

– Aqui é Jucimara, do Seguro Residencial Itaú. Nosso prestador de serviços está indo até sua casa.

– Sim.

– Para consertar a privada.

– Podemos chamar de válvula? É menos humilhante.

– E ele precisa de um ponto de referência.

– Da válvula? Fica no banheiro, perto da sala.

– Não, da sua casa.

– Fica perto da Teodoro Sampaio, logo depois da Mourato Coelho e da Fradique Coutinho. É mais fácil ele ir pela Rua dos Pinheiros.

– Mourato Coutinho. Obrigada.

– Não! Mourato Coelho!

– Oi?

– O nome da Rua é Mourato Coelho.

– E a Coutinho?

– Como assim?

– Não tem uma Coutinho no meio?

– Sim. Mourato Coelho e Fradique Coutinho. São duas ruas. E ficam próximas a Teodoro.

– Ah, sim. Vou passar essa informação para ele. Obrigada.

– Ok.


12:03 pm

– Sr. Rob?

– Pois não?

– Aqui é Lucicrécia, do Seguro Residencial Itaú. Nosso prestador de serviços está indo até sua casa.

– Eu sei.

– Mas ele está encontrando dificuldades para localizar a Rua Ferrero.

– Bom, faz sentido ele ter dificuldades. Afinal, não existe esta rua em Pinheiros.

– Mas o senhor deu esta rua como referência.

– Não. Eu falei da Mourato Coelho e Fradique Coutinho.

– O senhor disse para ele subir a Rua Ferrero.

– Pinheiros! Rua dos Pinheiros! Igual ao bairro!

– Ah, não é a Rua Ferrero?

– Não, Lucicrécia. Ferrero é um bombom. A rua é Pinheiros. Rua dos Pinheiros.

– Ah, sim. Vou passar a informação a ele. Obrigada.

– Ok.


12:47 pm

– Sr. Rob?

(Suspiro)

– Sr. Rob Gordon?

– Sim.

– Pois não?

– O senhor pode falar?

– Posso, eu estava fazendo apenas aquele gesto da arroba com a letra "i" que o pessoal da propaganda do Itaú faz. Mas eu estava fazendo com o dedo do meio, por isso demorei mais.

– Como assim?

– Nada. Deixe.

– Meu nome é Gladysleide, sou do Seguro Residencial Itaú. O nosso prestador de serviços já está na sua rua.

– E...?

– Mas ele está com dificuldades para localizar seu prédio.

(Suspiro)

– Olhe, é o primeiro prédio ao lado da ponte da Teodoro Sampaio.

– Ah, sim.

– Ok.

– Este 398... Isso seria o quê?

(Suspiro)

– Sr. Rob?

– Sim?

– O senhor forneceu um número, 398. O que é isso?

– É o número do meu prédio.

– Ah, é o número?

– Sim. Todos os prédios da minha rua têm números. Coincidentemente, este é o número do meu.

– Ah, sim.

– E pode falar para ele que na minha rua tem apenas um prédio com o número 398. Tenho quase certeza de que não tem outro.

– Ah, sim, vou passar essa informação para ele.

– Obrigado.

– Obrigada, Sr. Rob.


Ah, a propósito, tem um texto especial para os fãs de Beatles aqui, no Champ Chronicles.

15 de setembro de 2009

Válvula de Escape - Parte Final

(leia a parte I aqui)

Mas a minha decisão de não usar mais o banheiro implicaria num rompimento doloroso.

Abri a geladeira e olhei a peça de fraldinha que esperava ansiosamente para ser assada algumas horas depois. Peguei um banquinho, me sentei na frente da geladeira aberta e comecei a conversar com ela. Tentei explicar que nosso relacionamento não teria futuro, que havíamos nos conhecido num momento errado da minha vida. Usei até o clichê “o problema não é você, sou eu” (o que não deixava de ser verdade, já que eu era o dono do banheiro, não ela).

Assim como toda separação, foi dolorido para nós dois. Mas ela entendeu.

Voltei para a sala e me sentei no sofá, me preparando para me alimentar somente de oxigênio durante as próximas horas. Lembrei-me do Batman dizendo que “a fome alimenta o espírito”, mas logo em seguida imaginei o número de banheiros que ele deve ter na Batcaverna e achei hipocrisia demais da parte dele.

Meu organismo, por outro lado, sabendo da minha impossibilidade de usar o banheiro, resolveu contra-atacar, mostrando que quem manda aqui não é o cérebro, mas sim os intestinos. Comecei a ouvir barulhos semelhantes a trovões dentro de mim, anunciando que logo o tempo ficaria feio lá dentro. Malditos Delgado e Grosso.

Olhei para o relógio. Das doze horas, haviam se passado... Quarenta minutos.

Respirei fundo e decidi que o melhor a fazer era me distrair.

Peguei O Poderoso Chefão, deitei no sofá e continuei a ler. Fui atravessando as páginas, mas aquele bando de mafiosos discutindo assassinatos enquanto comiam fetuccines e vitelas começou a me fazer mal. Muito mal. Delgado e Grosso não estavam apenas tentando fazer chover dentro de mim, como estavam tentando arrombar a porta do meu estômago com uma marreta.

Mas aí cheguei no trecho em que o Michael vai jantar com Sollozzo. Eu conheço a história de cor, então sabia o que me esperava algumas páginas adiante. Em poucos minutos, Michael se levanta, vai até o banheiro e encontra uma arma colocada atrás de onde? Da descarga.

Comecei a me contorcer de cólicas no sofá.

Joguei o livro longe e comecei a reconsiderar tudo. A Fnac não era mais opção. Não daria tempo.

Mas o meu banheiro também não era uma opção.

Aposto que na Pré-História, um neanderthal que não conseguisse sair da caverna para usar o matinho seria expulso da tribo, por emporcalhar o lugar em que vivia. Era expulso e humilhado, com direito a ter que abandonar a tribo (enquanto os outros primatas o xingavam de “porco, sujo e nojento!” e jogavam cascas de frutas nele) para viver como um paria, sozinho, no meio da floresta. Ele se tornaria um aleijado social, um excluído.

E eu corria o mesmo risco, já que, obviamente, minha síndica deve ser adepta da mesma filosofia. Se eu usasse o banheiro aqui em casa, logo seria identificado por ela. Seria amarrado e levado para um julgamento no salão de festas do prédio, chamado de porco, sujo e nojento e expulso do prédio. Quase pude ouvir ela falando “não vou jogar você aos porcos porque você é sujo demais para eles”.

Eu seria expulso do prédio – e, minha síndica ainda me obrigaria a pagar o conserto da descarga, mostrando que a única evolução que ela desenvolveu dos primatas foi a financeira.

Comecei a suar. Uma sirene de alerta vermelho começou a tocar no meu corpo, e todos os órgãos do meu aparelho digestivo correram para os postos de combate.

Delgado e Grosso haviam conseguido abrir um buraco na parede do meu estômago e estavam enfiando dinamite lá dentro. Murmurei algo como “se eu comer umas duas maçãs agora à noite, vocês me deixam em paz?” Eles riram.

Bom, mas eu ainda fazia parte da civilização. Eu ainda não havia sido expulso de lugar algum. Assim, resolvi aproveitar as vantagens do mundo moderno para encontrar uma saída. Corri para a frente do computador e acessei o Google. Mas antes que eu pudesse digitar “+ descarga não funciona + intestinos funcionam + socorro!!!!” meu Messenger apitou. Era o Tyler.

Expliquei a situação para ele da melhor forma que podia – suando frio, tremendo – e ele deu um conselho: “jogue baldes de água lá dentro, costuma funcionar”. Tive tempo apenas de digitar “Tyler Bazz, the Sanitary Master!” e corri para o banheiro, abrindo as calças.

Obviamente, não vou entrar em detalhes aqui. Basta vocês imaginarem o bairro de Pinheiros visto de cima e a Ode a Alegria, da 9ª de Beethoven, ecoando por toda a zona Oeste de São Paulo.

Mais recuperado, abotoei a calça e fui para a lavanderia. Enchi um balde de água e atravessei a sala com ele, em direção ao banheiro, e sob os olhares de desprezo da Besta-Fera. Entrei no banheiro, respirei fundo e virei o conteúdo do balde dentro do vaso.

Eu estava de volta à civilização!

Tudo bem, eu ainda não estava de volta ao século 21, pois, cá entre nós, depender de baldes para esse tipo de situação é digno dos pioneiros de filmes do John Wayne, mas o século 17 já era um lugar muito mais confortável que a Pré-História.

Fora que a técnica do balde me daria tempo para agüentar até o técnico checar no dia seguinte, e me colocar novamente no ano 2000. Aliás, como os comentários do post anterior deixaram claro, eu era a única pessoa no planeta que não conhecia a técnica do balde. Shame on you, Rob Gordon, shame on you.

Aliviado, abri a geladeira e expliquei para a fraldinha que havia me precipitado, eu estava apenas com medo de me envolver demais, mas gostaria de tentar. Convidei-a para jantar comigo naquela mesma noite, e ela aceitou.

Fechei a geladeira e, como um adolescente que consegue seu primeiro encontro, dei um pulo de felicidade. Fui tomar banho, passar perfume e me arrumar. Mas, prevendo uma noite inesquecível, já deixei dois baldes de água prontos na lavanderia.

Afinal, não sei se o seguro realmente morreu de velho. Mas, com certeza, ele viveu num lugar limpo e respirável.

13 de setembro de 2009

Válvula de Escape - Parte I

Felicidade.

Uma simples palavra, que, ao longo dos séculos, já foi definida das mais variadas formas, mas nunca de modo satisfatório. Com o passar dos anos, os homens tentaram entender o conceito de felicidade, mas sempre em vão.

Isso porque a felicidade muda de pessoa para pessoa. Para alguns, por exemplo, felicidade é viver sem amarras, sem idéia de qual cama irá acordar no dia seguinte. Para outros, felicidade é a segurança proporcionada por um lar, um emprego, uma família.

Às vezes, a idéia de felicidade muda até mesmo sem precisarmos mudar de pessoa. O sujeito, num dia, é feliz com a esposa e com os filhos; no dia seguinte, descobre que nada o deixa mais feliz que ficar assistindo a filmes sozinho de madrugada. Acontece. As pessoas mudam de um dia para o outro: a felicidade apenas acompanha isso.

Eu? Bem, meu conceito de felicidade mudou radicalmente nos últimos dias. Esqueçam família, amor, romance, dinheiro. Nada disso.

Hoje, felicidade, para mim, é ter a válvula da descarga aqui do meu banheiro funcionando.

Sim, porque aquela máxima “não damos valor a algo até ficarmos sem” pode ser levada à máxima potência quando se trata da válvula da descarga. Ela está lá, todo dia, fazendo a parte dela em manter limpa sua casa (ou, ao menos, o pedaço que lhe cabe neste latifúndio), e sem reclamar. E, cá entre nós, se alguém no mundo tem motivos para reclamar do emprego, é ela.

Até que um dia ela deixa de funcionar. Foi o que aconteceu aqui em casa.

Dia desses, entrei no banheiro para obedecer ao imperioso chamado da natureza. Obedeci às minhas obrigações fisiológicas e, em seguida, apertei o botão para aproveitar as vantagens da civilização e mandar aquilo para um esgoto qualquer.

Nada.

Olhei para o botão e ele olhou para mim, com cara de paisagem. Apertei de novo: nada. Apertei mais uma vez, com força. Nada.

Comecei a pensar no que poderia ter acontecido e como eu poderia contornar a situação. Obviamente, como meus conhecimentos de engenharia hidráulica se resumem apenas a saber que água é algo no estado líquido, desisti 2 segundos depois. Saí do banheiro e fui interrogar a Besta-Fera:

– Você entrou no banheiro hoje?

Ele me olhou com sua tradicional expressão de “o que foi agora?” e vi que, desta vez, ele não tinha nada a ver com aquilo. Mas foi aí que percebi, também, que identificar os culpados não me ajudaria muito. O meu grande problema não era saber o que tinha acontecido, mas sim encontrar um modo de fazer a descarga funcionar. E rápido.

Porque, neste momento, um letreiro se acendeu no meu cérebro, com luzes vermelhas, exibindo a frase “VOCÊ NÃO PODE USAR O BANHEIRO” escrita em letras garrafais.

Entrei em pânico. Como eu iria continuar a ler a minha versão em inglês de O Poderoso Chefão sem poder usar o banheiro? E a matéria sobre a morte do Michael Jackson, que saiu na Rolling Stone, e eu ainda estava guardando para ler depois? Pensei em tentar negociar com o destino (algo como “deixe eu usar o banheiro e eu prometo que não uso metade da sala e a cozinha no lugar” mas não daria certo).

Não, sem pânico. Balancei a cabeça e tentei colocar meus pensamentos em ordem. Sentei no sofá e comecei a considerar minhas alternativas. Com sorte, eu conseguiria alguém para arrumar a descarga, mas somente no dia seguinte.

Até lá, eu precisaria me virar de alguma forma.

Pensei em ir usar o banheiro da Fnac (e a idéia pareceu mais interessante ainda quando lembrei da quantidade de livros e revistas que eles têm ali), mas tudo o que eu não precisava agora era ser mal visto também ali. Eu detestaria perder o status de “um de nossos melhores clientes” que tenho na loja para me tornar apenas o “baixinho cagão”.

Além disso, a distância da minha casa até a Fnac – cerca de oito quadras – era algo a se considerar. Sim, acredito que os homens da caverna faziam suas necessidades fora da caverna em que moravam, atrás de um matinho qualquer. Por outro lado, duvido que eles precisassem descer cinco quadras da Teodoro Sampaio para encontrar o tal matinho.

Abandonei a idéia e decidi ir para o plano B. Não usaria mais o banheiro.

Ficaria doze horas sem comer e sem beber nada.

Era a única saída.

O grande problema não seria passar fome. Sou jornalista, estou mais que acostumado com isso. O problema seria mesmo lidar com o fato de que eu havia almoçado na casa da minha mãe horas antes. O menu? Panquecas recheadas com carne moída.

Isso, sim, seria um problema.

(continua)

11 de setembro de 2009

Quantidade e Qualidade

Antes de tudo, um agradecimento a todas as pessoas que entraram aqui no dia do post Ensaio sobre a Cegueira. O texto caiu no Twitter, sendo divulgado e comentado por centenas de pessoas, chegando a um número de acessos absurdo, ao menos na história desse blog, como a imagem abaixo deixa claro.



Mas, agora que já cumprimos a obrigação, vamos à diversão.

Eu sempre disse que tenho leitores diferenciados. Ontem, meu aniversário (divulgado no post 30 e 4) isso foi mais do que provado. Ao invés de receber apenas parabéns, eu recebi várias homenagens por aí – não de blogueiros, mas de amigos. Sim, amigos. Porque, mesmo nos comentários do post, percebi que ontem eu fui tratado abertamente como amigo por vocês.

E isso é algo que significou demais para mim. Mesmo.

Então, além de agradecer todos os parabéns recebidos aqui no blog e no Twitter, quero agradecer especialmente a Gabi, ao Draguz e ao Frango, que fizeram homenagens em seus blogs que me emocionaram demais. Em português claro, vocês são foda.

E não posso encerrar aqui sem deixar de falar do Twitter. A notícia do aniversário foi se espalhando, fui recebendo os parabéns e, em determinado momento, surgiu a tag #robgordonday.

E é aí que entra a história dos leitores diferenciados. Ao invés de simplesmente existir a tag #robgordonday, ela começou a ter regras: as pessoas deveriam postar sobre como eles deveriam ter se dado mal em algum momento do dia, em homenagem a mim. Afinal, se você acompanha este blog, sabe que eu e o azar somos praticamente irmãos (siameses).

Aí, tivemos pérolas como:

“Sim... hoje é #robgordonday!!!! Parabéns @robgordon_sp!!!! Obrigado por tornar o twitter e a web muito mais interessante!” (@maxreinert)

“Vou ali comprar uma Coca. (Zero, mas como é #robgordonday, virá geli-limão)” (@tylerbazz)

“Acho q ñ tenho nada insólito p/ contar de hj. Mas, como vou no Pão de Açúcar agora, tvz o #robgordonday não me deixe escapar ilesa!” (@anasavini)

“fui na cozinha tomar café e fui expulso de lá aos latidos. marmanjo desse tamanho sendo controlado por um cachorrinho. #robgordonday” (@brunopalma)

“#robgordonday Besta fera comeu meu chinelo. De novo” (@gabibianco)

“Ouvi dizer q vai ter homenagem no Pão de Açúcar. Johnny, Adriano, Hóstia, bruxa do mar e síndica deram RSVP.” (@tonibarros)

“vou comprar Carolinas e te enviarei via sedex 10 ;) #robgordonday” (@caroxavl)

Falando sério? Eu mal me acostumei a ter 34 anos, e já estou com vontade de fazer 35 logo. O Max agradece eu tornar a internet um lugar mais interessante. Eu, por outro lado, gostaria de poder agradecer à altura o fato de que ontem, vocês fizeram com que a minha internet deixasse de ser uma ferramenta tecnológica qualquer, transformando-a num lugar muito especial, e que eu nunca vou esquecer.

Sendo assim, em homenagem a vocês, prometo que vou me ferrar bonito de algum modo no próximo texto. É o mínimo que eu poderia fazer.

10 de setembro de 2009

30 e 4


Kirk: É uma coisa muito, muito melhor do que qualquer outra que eu tenha feito. Um lugar de descanso muito melhor que qualquer outro que eu tenha conhecido.

Carol: É um poema?

Kirk: É algo que Spock estava tentando me dizer. No dia do meu aniversário.

McCoy: Você está bem, Jim? Como está se sentindo?

Kirk: Jovem. Estou me sentindo jovem, Doutor.

(Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan)



Independente de como você estiver, nunca se esqueça de seus amigos. Afinal, eles estarão no seu futuro, pois ajudaram a construir seu passado.

Independente de onde você viver, nunca se esqueça do lugar que você veio. Porque é para lá que você precisará fugir algumas vezes.

Independente do que você fizer, nunca se esqueça de que você ainda pode ser um herói, todos os dias. Mesmo que nem sempre você se sinta como um.

Independente do que você viver, nunca se esqueça de quem você ama. Porque esquecer isso seria o mesmo que esquecer de si próprio.

E, independente da idade que você tiver, se recuse sempre a crescer totalmente.

Afinal, haverá tempo de sobra para isso.

7 de setembro de 2009

Coi'a' da Vida - XI

Eu já disse aqui diversas vezes que eu sou o piloto de testes de toda criatura estranha que Deus cria. Esse pensamento nasceu como uma piada, mas estou começando a ficar cada vez mais convencido que isso é a pura verdade. Meu papel no universo é entreter os mais diversos loucos que surgem por aí – e que vagam pelo planeta até cumprirem sua missão divina: me encontrar.

Entretanto, ultimamente a criatividade do pessoal lá de cima vem atingindo níveis inacreditáveis. Agora, ao invés de encontrar pessoas somente loucas, eu encontro loucos que seriam considerados estranhos até mesmo pelos seus colegas. Ou seja, se lidar com loucos na rua é um dos aprendizados da vida, eu cheguei a um nível que me permite até mesmo a dar palestras sobre o assunto.

Não, não é exagero. Ontem foi um louco fanhoso.

Estava esperando a Sra. Gordon no terminal Jabaquara. Cabe dizer – se você é leitor do blog mas não mora em São Paulo – que o terminal Jabaquara nada mais é que um Largo da Batata coberto. Lá, você encontra de tudo, desde pessoas que atuam como promoters de vans que vão para o litoral até mendigos de todas as idades, cores e religiões.

Enfim, estava ali esperando por ela. Poucos metros à minha frente, uma mendiga, que aparentava ter idade suficiente para ter ajudado Pero Vaz de Caminha com a carta, pedia suas esmolas. E era uma mendiga profissional, com banquinho e tudo.

Eis que surge ao meu lado um homem de cerca de 50 anos, carregando uma pastinha. Ele pára ao meu lado e fica olhando em direção a mendiga. Olha para mim. Olha para a mendiga. Olha para mim.

Eu, observando com o canto do olho, percebi o que ia acontecer. Ele estava louco para fazer contato comigo. Provavelmente ele recebeu, no Sindicato dos Loucos de São Paulo, uma foto minha desatualizada, e estava na dúvida se eu era eu mesmo. Quase virei para ele e disse que “sou eu mesmo, pode começar o show”.

Aparentemente, ele criou coragem, veio até a mim e começou a falar. Imagine TODAS as piadas sobre fanhosos que você ouviu até hoje. Imagine o outro personagem da piada, que fica tentando entender o que o fanhoso fala. Então, esse sou eu.

– Ho’e em dia, a’ pe’oa’ ’ó querem ´aber de di’eiro. E mai’ nada.

– Hã?

– É, é a’im o dia ’odo. Di’eiro, di’eiro, di’eiro.

– Hã?

– Por e’emplo: a madri’a da mi’a mu’er. Di’eiro, di’eiro. O dia ’odo. O’a ’ó, e’tá um baita dia ’onito. Ma’ ela não vai pa’ear, não quer conver’ar com ninguém. ’ó pensa em di’eiro.

– Hã?

– A madri’a da mi’a mu’er.

– Hã?

Ele ignorou que a completa ausência de fonemas essenciais ao nosso idioma estava nos levando a lugar algum, e apontou a mendiga com o dedo.

– O’a lá aquela mu’er.

– Hã?

– Di’eiro, di’eiro, di’eiro.

– Hã?

– Tem que ficar ’edindo di’eiro? Vai pa’ear! E’tá um ’uta dia ’bonito, vo’ê não a’a?

– Hã?

– Ma’, não! Tem que ficar ’orrendo atrá’ do di’neiro, o dia ’odo. I’o não é vida. I’o não é vida para mim.

– Hã?

– E ’e vo’ê pa’ar aqui ama’ã, ela vai e’tar aqui de ’ovo.

– Hã?

– Di’eiro, di’eiro, di’eiro.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa (admito, seria um novo “hã”?, talvez um pouco mais enfático), ele andou em direção à mendiga, e falou alguma coisa com ela. A senhora o mandou tomar no cu – em alto e bom som – e ele foi embora reclamando.

Mas, antes de entrar no metrô, ele ainda se virou para mim – já que eu era o mais próximo que ele tinha de um amigo ali – e ainda gritou:

– Vo’ê viu, né? Di’eiro, di’eiro!

Fingi que não era comigo, suspirei e continuei esperando a Sra. Gordon.

Ô fa’e.


Update: Tem texto novo no Champ Chronicles: O Bar do Luís. Confiram!

5 de setembro de 2009

Sonhos de Kurosawa Gordon

Eu e diversas outras pessoas estávamos numa sala grande que eu não conheço. Parecia uma casa de campo. Estávamos esperando o almoço sair. De repente, um amigo meu que não vejo há muito tempo sai da cozinha comendo algo. Eu não poderia comer, porque isso estragaria meu apetite. Olho para o lado e minha prima, que não estava ali antes, está sentada ao meu lado.

Alguém começa a gritar na cozinha que o almoço está escapando. Sim, escapando. Eis que surge, correndo em direção à sala, um porco. Ou melhor, meio porco. Seu corpo tinha somente a metade da frente. A metade de trás não existia, seu corpo era cortado ao meio. E ele não só estava vivo como não parecia se importar com isso, e andava tranquilamente apenas com as patas da frente.

Depois de alguma confusão, levaram o porco de volta para a cozinha. Mas o tapete ficou sujo – acredito que quando você não tem metade do corpo e resolve correr por uma sala, é difícil manter seus órgãos onde eles estavam. E resolveram que eu é quem tinha que limpar aquilo.

– Rob, você limpa isso.

– Porque eu?

– Porque sim.

Abaixei no tapete (agora, semanas depois, acho que era o tapete da sala da casa minha mãe, mas posso estar enganado) e comecei a recolher as tripas do bicho. Mas não era uma sujeira nojenta, era quase uma sujeita de desenho animado, inofensiva.

Comecei a apanhar tudo, até que sobrou somente uma coisa no chão. Não se parecia com a sujeira que eu tinha apanhado. Era pequena e colorida. Segurei-a entre meus dedos e a ergui contra a luz, para identificar o que diabos era aquilo. E consegui.

– Isso aqui não é sujeira. Isso aqui é uma peça de quebra-cabeça.

Eu disse isso em voz alta, mas as outras pessoas me ignoraram. Continuei falando sozinho:

– Bom, eu só preciso da sujeira. Não preciso disso agora.

E coloquei a peça de quebra-cabeça no chão, exatamente onde ela estava.

Acordei.

3 de setembro de 2009

U, L e X

Muitas pessoas, especialmente aqui no blog, dizem que eu escrevo bem. Evidente que isso me enche de orgulho, mas é hora de derrubar um mito aqui.

A maioria das vezes que eu preciso escrever a palavra “mal”, tenho que consultar alguém no Msn. Eu simplesmente não consigo assimilar a regra do “mal com u” ou “mal com l”. Meu instinto sempre me diz qual o correto, mas sempre sobra um pouco de dúvida. Isso porque a aula em que eu teoricamente teria aprendido isso foi memorável.

Antes, cabe dizer que eu era um excelente péssimo aluno. Tirando uma breve fase negra na minha vida, minhas notas sempre foram excelentes, mas meu comportamento em sala de aula beirava o imbecil. Como um professor disse certa vez, eu era o pior tipo de aluno: eu não era indisciplinado, eu era o catalisador da indisciplina.

Exemplos: quando eu tinha cabelo no meio das costas (sim, eu já tive cabelo), era comum eu assistir aula com o cabelo preso igual ao da Pedrita, ou com maria-chiquinha, apenas para irritar o professor. E, nos meus últimos anos de colegial, um dos meus hobbies era começar uma guerra de giz na sala, após jogar 319 tocos de giz no ventilador – isso tudo, claro, no meio da aula. Bagunça no intervalo é para os fracos.

Com isso, eu era recordista em ser mandado para fora da aula. Na maioria das vezes, eu realmente era mandado para fora da sala – em outras, eu mesmo em expulsava da sala, para ir ao pátio fumar. Entre os leitores deste blog já conhecidos, talvez o Rbns lembre de histórias que eu não lembro, porque são muitas.

Uma delas aconteceu no fatídico dia do “mal com u” e “mal com l”. A professora começou a aula explicando algumas regras sobre isso, até que ela resolveu testar se o conhecimento havia sido assimilado por aquelas dezenas de adolescentes que só pensavam em ir para casa e dormir.

Assim, ela escreveu uma frase na lousa, e leu em voz alta, fazendo uma pergunta:

– O menino foi mal na prova. Este mal é com “l” ou com “u”?

A classe ficou em silêncio, como se a professora tivesse pedido por voluntários para uma missão suicida. Afinal, quando você está no colegial, tudo o que você não quer é participar da aula em alto e bom som – a exceção, claro, são os Muppets que sentam na primeira fila. Mas, nesse caso, aparentemente os Muppets não sabiam a resposta, e ficaram quietos.

A professora continuou:

– Então, gente? Mal com u? Ou mal com l?

Foi neste momento que o pedaço do meu cérebro sobre o qual não tenho controle começou a trabalhar incessantemente. O tempo congelou. A professora ficou quieta, apontando a frase escrita na lousa. Os Muppets se olhavam, procurando por uma resposta. O resto dos alunos fazia cara de paisagem e esperava alguém mais corajoso se manifestar.

E os 20% do meu cérebro, que funciona da forma independente e pensa bobagens, trabalhava a todo vapor. Neurônios da casta social mais baixa jogavam carvão nas caldeiras, enquanto as elites tentavam criar algo em cima da pergunta. Papéis eram rabiscados, piadas rascunhadas, almoços e reuniões cancelados.

Numa fração de segundos, chegaram a uma resposta e emitiram impulsos nervosos para o meu braço, que levantou, chamando a atenção para mim. Os demais alunos me olharam, alguns aliviados devido ao fato de alguém ter tomado a iniciativa; outros, surpresos pelo fato de justamente eu ter tomado a iniciativa.

Meus amigos mais próximos sentiram problemas. Provavelmente, me reconheciam no olhar. Mas devem ter ficado em dúvida, já que eu não esbocei nem um sorriso. A professora se animou e repetiu a pergunta.

– Então, Rob? Mal com l? Ou mal com u?

Eu fechei o punho, como um membro dos Panteras Negras, e respondi, gritando:

– MALCOM X! Power to the people!

A classe veio abaixo. Ao menos, aqueles que sabiam quem era Malcom X. Calculo quase um minuto de gargalhadas. Quando as risadas diminuíram, foi a vez dela:

– Foi boa, ela disse sorrindo.

Meus neurônios começaram a se cumprimentar. O neurônio que bolou a piada corou de vergonha, mas não disfarçou o orgulho. Mas, antes que eu pudesse agradecer, ela continuou:

– Fora, Rob.

– Fora?

– Sim, fora.

– Mas você GOSTOU da piada!

– Rob?

– Oi.

– Fora.

Resignado, levantei e fui em direção a porta, recebendo tapinhas de apoio no ombro. A classe ficou em silêncio. Coloquei a mão na maçaneta e abri a porta. Olhei para a professora, que esperava eu sair. Não agüentei. Antes de colocar o pé para fora, ainda me virei para os outros alunos, e, novamente com o punho cerrado, gritei:

– FIGHT THE POWER!

A classe desabou novamente. Olhei para ela e, antes que ela pudesse jogar o apagador em mim, resmunguei um “estou saindo, estou saindo”. Fechei a porta e deixei a classe rindo atrás de mim.

Até hoje, alguns amigos lembram-se desse dia quando me encontram, e soltam gargalhadas, dizendo que, nos tempos de escola, eu era muito mau. Ou mal, vai saber.