28 de maio de 2008

control + c / control + v

Qual o motivo de se ter um blog? O que leva uma pessoa a se sentar na frente do computador para escrever – e, inevitavelmente, publicar – um texto que ele sabe que corre o risco de não ser lido por ninguém? O que incentiva uma pessoa a dedicar parte do seu tempo a manter um blog que, mesmo tendo sido construído com esforço e dedicação, corre o risco de cair na vala-comum da blogosfera, se perdendo em meio aos outros milhões de blogs que existem por aí?

Afinal, é sabido que a grande maioria dos blogs que existe por aí não consegue romper a barreira que separa o proletariado da elite na blogosfera. Claro que uns poucos fazem isso, já que existem alguns blogs com números astronômicos de acesso (não discuto aqui a qualidade deles) e, por definição, sabe-se que a maioria deles nasceu dentro da “classe baixa”.

Sempre foi assim. E isso acontece até hoje. Surgem inúmeros blogs por dia, e a grande maioria deles nasce anônima. É apenas mais um blog, entre os milhares que existem. A exceção, claro, seriam os blogs de personalidades, que já nascem com fãs, mas graças ao nome do autor, e não ao seu conteúdo. Mas são poucos que, graças a sua qualidade, ou simplesmente sorte, conseguem chegar ao estrelato.

Sendo assim, o que faz com um blogueiro “perder seu tempo” escrevendo e se empenhando cada vez mais?

Bem, eu respondo.

Ego.

Blogueiros são movidos pelo ego. E isso não é privilégio nosso, já que toda pessoa que cria algo espera que sua obra seja reconhecida. Como eu já disse antes, me mostre um blogueiro que afirma não se importar com o número de acessos do seu blog ou com o volume de comentários de um determinado post, que eu lhe mostro um blogueiro mentiroso.

Eu? Bem, eu tenho um ponto fraco. São os comentários que recebo de pessoas dizendo que não irão mais ler meu blog enquanto estiverem no trabalho, porque não conseguem parar de rir. Um comentário desses, para mim, vale mais que todos os selos e prêmios que este blog recebeu. Nada, para mim, é mais gratificante que um comentário desses.

Qualquer blogueiro sabe que é recompensador demais receber um elogio pelo blog, especialmente de alguém que não conhecemos. Todo blogueiro gosta disso. Eu gosto e não conheço um que não goste.

O grande problema é que alguns blogueiros não querem ser reconhecidos pela sua criatividade, e estão mais interessados em apenas se tornarem celebridades virtuais – seja ela na internet como um todo, na escola ou no prédio em que moram. Ele não quer ser reconhecido pelos seus textos, pela sua criatividade, pelo seu senso de humor, nem pela sua profundidade.

Ele quer apenas ser reconhecido, não importa como.

Até aí, nada contra. O grande problema é que, via de regra, quanto maior o desejo de se tornar uma celebridade um blogueiro tem, menor é o seu talento. Junte essa falta de talento de alguns blogueiros ávidos em terem blogs famosos com a habitual falta de ética do brasileiro e o resultado é um dos maiores males da blogosfera: o plágio.

E é a prática mais comum do mundo virtual. O sujeito está navegando pela internet, encontra um blog com um texto legal, decide que aquilo ficaria bom no blog dele, seleciona todos os parágrafos, copia e cola no próprio blog e começa a receber elogios pelo texto.

São os mesmos textos; a diferença é que você passou horas para escrever o seu, e ele demorou apenas o tempo de três ou quatro cliques no mouse. E ninguém vai reclamar. Afinal, “qual a probabilidade do sujeito achar o texto aqui no meu blog?”

Claro que há uma grande diferença entre plágio e sacanagem de amigos. O Gomex plagiou descaradamente meu texto Aumente as Visitas do Seu Blog em 15 Passos, mas na sacanagem, com bom humor, e me avisou disso. Ele não plagiou, ele brincou em cima da idéia. O Tyler foi mais longe ainda e brincou em cima de todo o layout do Champ. Plágio? Não, pelo contrário. Para mim, esses dois exemplos são homenagens. O mesmo vale para as pessoas que colocam um texto meu inteiro em seu blog, mas tem a decência de creditar meu nome.



Você sabe que um blogueiro é bom quando
até o "plágio" dele esbanja criatividade


Mas, infelizmente, existem mais plágios que homenagens na internet. O sujeito entra no meu blog, copia o texto 366 e apresenta no blog dele com um textinho antes, dizendo algo como “vejam a minha nova sátira”. Sua não, minha. Outra blogueira foi incompetente até na hora de plagiar, não apagando nem a data do meu post, deixando no meio do texto dela.

Eu já havia sido plagiado antes; topei, por acaso, com o texto Aumente as Visitas do Seu Blog em 15 Passos num blog meses atrás e mandei um comentário para o sujeito, pedindo, com a maior educação, para “creditar meu nome nessa merda”. Ele foi mais radical e apagou o texto. Melhor assim.

Mas, outro dia, topei com uma frase que me fez pensar: “o plágio é a forma mais sincera de elogio”. Faz sentido. Afinal, a pessoa só copia um texto para seu blog se ela gostou. Ela pode até não ter entendido o texto inteiro, mas gostou de alguns pedaços.

Sendo assim, eu poderia até aproveitar este post para agradecer, publicamente, pelas homenagens deste tipo que tenho recebido em alguns blogs por aí. Mas não seria suficiente. Afinal, estamos falando de alguém que dedicou um post inteiro para elogiar meu texto. Um simples “obrigado pelo elogio” não seria justo.

Creio, então, que é mais honrado da minha parte, como agradecimento, linkar estes blogs. Afinal, tratam-se de pessoas que escrevem bem (admito que li apenas um texto de cada blog, mas gostei bastante do que li) e que não medem esforços para que seus blogs sejam grandes sucessos.

Sendo assim, vou ajudá-los. A partir de agora, todos esses blogs estão linkados na recém-inaugurada seção Textos Plagiados, aqui na barra direita. Caso algum dos textos linkados seja retirado do ar, o link continuará ali.

Você sabe usar o control + c / control + v? Eu também.

E eu faço muito mais estrago copiando somente o endereço do seu blog do que você copiando o texto inteiro. Enquanto você pensa sobre isso, deixo aqui o Top 5 Conselhos para Plagiar Meus Textos:

1. Escolha textos genéricos, que não sejam muito pessoais. Evite copiar textos onde cito a Besta-fera ou minha síndica, por exemplo. Ficaria ridículo demais.

2. Se planeja copiar as sagas, espere uns dois ou três dias entre cada continuação – é o tempo necessário para todos os seus leitores curtirem cada etapa da história (e, sim, se você fizer isso, eu vou linkar todos os capítulos).

3. Caso copie um texto onde linko outro blog, não se esqueça de manter o link. Você é um babaca, mas os donos dos blogs que gosto não têm nada a ver com isso.

4. Não copie, em hipótese alguma, um texto do Champ Chronicles. Como os textos ali são mais pessoais, eu vou levar para o lado pessoal. E isso não é algo que você irá se orgulhar.

5. Quando me plagiar, me avise indicando o link da sua postagem. Como eu vou achar o post mais cedo ou mais tarde, isso fará com que a gente economize bastante tempo.

25 de maio de 2008

Ser ou não Ser... Mas que Seja Longe de Mim

Eu sempre me perguntei onde os freqüentadores da Mostra de São Paulo se escondem durante o resto do ano. Na época da Mostra, eles podem ser encontrados ao montes na Avenida Paulista, discutindo a nova fase do cinema egípcio (isso porque acabaram de assistir ao primeiro filme egípcio de suas vidas, mas não entenderam o final direito) ou reclamando que os filmes iranianos “estão se tornando comerciais demais e perderam sua identidade criativa”.

Mas, no resto do ano, o número de intelectualóides diminui consideravelmente. Claro, alguns continuam sendo vistos nas imediações da Paulista – especialmente no Espaço Unibanco – desfilando com suas roupas que nada mais são que contradições climáticas (afinal, eles usam boina e cachecol com bermuda e papetes). Mas estes são apenas criaturas desgarradas do rebanho e não correspondem a 10% da população total de intelectualóides da cidade.

E aí cabe a pergunta: onde ficam os outros? Será que passam o ano escondidos num enorme galpão, assistindo filmes do Godard até o começo da Mostra, quando eles recebem dos seus líderes o catálogo do festival, junto com as ordens de conquistar a Avenida Paulista? Ou se organizam em pequenas células terroristas, elaborando planos mirabolantes para conquistar um Cinemark e promover um festival de cinema húngaro?

Aos poucos, tenho descoberto que eles ficam, na verdade, procurando outras formas de cultura. Cinema, para eles, só existe durante a Mostra. Nos outros meses do ano, eles dedicam-se a freqüentar peças de teatro amador, exposições de arte e leituras de poesia, sempre com aquele ar blasé de quem está absorvendo cultura e disparando seus comentários repleto de polissílabas e expressões rebuscadas, mas que normalmente tem a profundidade de um pires.

Dias desses fui ao teatro com a Sra. Gordon e uma amiga dela. Sempre gostei de teatro, mas admito que vou muito menos do que gostaria, por basicamente dois motivos: primeiro, minha conta bancária mal consegue lidar com as paixões que eu tenho (jantares, cinema, DVDs, CDs, quadrinhos etc), e uma nova paixão iria deixar meu saldo em frangalhos; segundo, meus horários de puta jornalista não permitem nem que eu tenha a certeza de vou almoçar no dia seguinte, quanto mais saber que estarei livre no dia e horário da peça.

Enfim, esta semana consegui achar uma brecha e fomos assistir a uma peça produzida por uma amiga da Sra. Gordon Mas, apesar de ter gostado do espetáculo, saí de lá com uma certeza na cabeça: o teatro brasileiro sofre de um grande problema. E este problema é o público, que está cada vez mais dominado por intelectualóides.

Claro, eu já deveria ter desconfiado de que estaria me enfiando num reduto de intelectualóides se tivesse simplesmente juntado os fatos. Na minha cabeça, eu estava apenas indo ao teatro com a namorada, mas, na verdade, eu deveria ter me preparado para ir a uma peça de teatro amador em Pinheiros – o que, no mundo dos intelectualóides, deve ser um equivalente a uma semifinal de Copa do Mundo.

Comecei a desconfiar no que havia me metido já no saguão do teatro, minutos antes da peça. Olhando ao redor, estranhei o fato de que eu – usando apenas calça jeans e uma camisa – era o homem mais bem vestido do lugar. Justo eu, que não consigo ser o homem mais bem vestido do lugar nem mesmo se colocar um smoking e ficar sozinho em casa. Estudando as pessoas do lugar, avistei uns dois pares de papetes, alguns cachecóis e – claro – uma boina. E, obviamente, uma pessoa sentada em um canto, lendo um livro arrebentado.

Todas as pistas estavam ali, na minha frente: a boina, as papetes, o livro arrebentado (intelectualóides estão sempre lendo livros caindo aos pedaços) os ares de superioridade e as olhadelas pedantes por cima dos óculos de aros grossos e vermelhos – porque nem todo mundo que usa óculos vermelhos é intelectualóide, mas todo intelectualóide usa óculos vermelhos.

Percebi o que estava acontecendo. Eu estava no meio de uma ninhada de intelectualóides.

Obviamente isso fez com que a peça (que narra três histórias diferentes e é bastante interessante, mesmo com o texto arrastado demais em um ou outro momento) saísse perdendo, já que os melhores personagens estavam na platéia e não no palco. Convenhamos, não dava nem para competir. Afinal, qual nem Shakespeare, Tennessee Williams ou Nélson Rodrigues, juntos, poderiam criar algo tão estranho quanto aquele ser que se sentou na minha frente e começou a tirar a roupa no meio da peça?

Não, não estou exagerando.

No meio da peça, a criatura, de aproximadamente sete metros de altura e pesando uns 9 kilos (eu consegui identificar como bípede; calculo que era humano, mas não sei o sexo, já que a cabeleira mostrava apenas que ele (a) era parecido (a) com o Sideshow Bob, dos Simpsons) levantou a camiseta até o meio das costas e apoiou o rosto nos joelhos, numa clara demonstração de “estou consumindo cultura, e nem o calor pode me atrapalhar neste momento”. E eu ali atrás, olhando aquelas costas “bronzeadas” e “musculosas” (vela de sete dias mode: on).

Então, ao assistir uma peça de teatro amador, você escolhe: ou senta-se na frente e corre o risco de ter que participar do show – afinal, muitas peças querem bancar as modernosas e fazem os atores interagirem com a platéia (quer a platéia queira isso ou não) – ou você se senta lá trás é obrigado a presenciar uma palmeira-albina-metida-a-cult exibindo o corpinho que Deus lhe deu porque como ela está num ambiente cultural, faz questão de mostrar a todo mundo que está se sentindo em casa. Faltou só começar a coçar as frieiras na minha frente. Ô fase.

Curioso é que olhei ao redor e os outros intelectualóides continuavam vestidos. Claro, todos faziam aquela cara de conteúdo, com o rosto apoiado em uma das mãos e o olhar perdido, mas, ainda assim, vestidos. Típico. Num lugar com 90 intelectualóides, o mais estranho deles, que tem mania de tirar a roupa no teatro, vai se sentar logo na minha frente. É sempre assim.

Passei a última meia hora da peça me controlando para não acender um cigarro – já que as pessoas podem tirar a camisa, eu posso fumar – e começar a bater as cinzas nas costas do it (porque, como eu disse, não sei ainda se ele he ou she, então vamos de it) e me concentrei na peça. E, confesso que fiquei chateado quando acabou, porque eu realmente estava gostando. Mas nem tive tempo para pensar nisso, pois, enquanto me levantava, uma mulher atrás de mim comentou com a amiga:

– Nossa, eu adorei a montagem. Como eles usaram bem a linguagem cinematográfica na narrativa, você reparou?

Deus do céu. Porque não dizer apenas que “gostei da peça”? Tem que ficar inventando teorias de linguagem para gostar do que viu? Não basta apenas dizer que “foi bem legal”? Tem que ser sempre uma narrativa aristotélica que causa uma ruptura na semiótica teatral clássica dos anos 50? Imagino uma pessoa dessas assistindo Star Wars e comentando o filme com o George Lucas depois, dizendo que:

– ... mas o que me chamou a atenção mesmo foi o foco narrativo episódico, com diálogos entrecortados e metafóricos, abordando com sutileza cortante o modo de pensar das religiões asiáticas.

E o George Lucas respondendo: “Hã... Ok”.

Sério, que povinho sacal.

Gostei da peça? Gostei. Mas isso não me impediu de voltar para casa e ler um Homem-Aranha antes de dormir, sem ficar procurando referências pictográficas aos quadros de Goya em cada quadrinho.

Falando sério, se você é metido a cult e quer mostrar que é inteligente, intelectual e escolado no mundo das artes, uma dica: fique em silêncio. Isso dá um ar intelectual indiscutível. E, mais importante, você não corre o risco de dizer bobagem, algo que, inevitavelmente, você vai dizer, no máximo, na terceira frase.

Mas, caso você queria realmente sair por aí cagando regra sobre o filme, a peça ou o livro, segue o Top 5 expressões que todo intelectualóide usa, invariavelmente, ao comentar uma obra artística:

1. “Resgate”

2. “Ruptura”

3. “Rompe os parâmetros”

4. “Brinca com os estilos”

5. “Provoca o público”

21 de maio de 2008

No Capricho - Parte Final

(leia a parte II aqui)


Felizmente, o sujeito de terno não se aproveitou da situação e foi honesto. Ainda há esperança para o mundo.

– Eu não pedi a omelete, disse ele.

– Não?, perguntou Bigode, sem tentar disfarçar o espanto.

– Não.

Ou seja, o destino da minha omelete voltou para as mãos do Bigode. Com o prato nas mãos, ele estudou o semblante do cara de terno para detectar algum traço de mentira em seu rosto. Toda a sua sagacidade estava trabalhando em função daquele acontecimento. Ele era o portador de uma omelete sem dono. Algo precisava ser feito. E cabia a ele, Bigode, determinar a solução para o caso.

Porém, a expressão de “este programa executou uma operação ilegal e será fechado” em seus olhos não me inspirou confiança alguma. E nem ao sujeito de terno, que se viu na obrigação de repetir:

– A omelete não é minha.

Mas o cérebro de Bigode já estava trabalhando a todo vapor. Todos os seus neurônios processavam a informação de que “alguém ali era dono daquela omelete” e ele não iria descansar enquanto o assunto não fosse resolvido. Levantou a cabeça e, com os olhos apertados começou a vasculhar a padaria, como um lince que, sobre uma montanha, observa a ravina aos seus pés.

Seus olhos se moveram da esquerda para a direita, fazendo uma análise do ambiente, mesa a mesa. Observou, lentamente, as duas mulheres que conversavam numa mesa; o casal de idade que terminava de almoçar; o baixinho careca que apontava para a omelete com uma das mãos e para o próprio corpo com a outra; o casal com uma criança tomando sorvete; adolescente que tomava um suco ao lado do namorado.

Aos olhos do Bigode, nada indicava de quem era a omelete.

Olhou para o prato novamente, talvez com a esperança de que o próprio prato apontasse para seu dono, mas os ovos continuaram inertes (e esfriando) em sua mão, esperando que ele se decidisse. O sujeito de terno, já colocado oficialmente para fora da lista de suspeitos, lia o cardápio ao lado dele, alheio a tudo. Seus olhos vasculharam a padaria novamente, desta vez da direita para a esquerda: a adolescente e o namorado, o casal com a criança, o baixinho abanando um braço e apontando desesperado para a omelete, os velhinhos; e as duas mulheres.

Enigma. Mistério.

Não agüentei e levantei.

Fui até o Bigode e perguntei:

– Essa é a minha omelete?

Ele me olhou como se tivesse certeza de que me conhecia de algum lugar. Mas, a pergunta “essa é a minha omelete?” fez com que ele assumisse instintivamente uma posição de defesa, girando lentamente o corpo para se posicionar entre eu os ovos. Sua expressão mudou suavemente, e seus olhos indicavam que ele não queria mais saber de onde me conhecia, mas, sim, que eu deveria provar que a omelete era minha. Ele era o encarregado da omelete e não deixaria que ela caísse em mãos erradas, mesmo que isso lhe custasse a vida. Respirei fundo e tentei explicar.

– Bastante bacon? Sem queijo? Sem ervilha? Lembra?

Seus olhos se iluminaram, como se tivesse acabado de ouvir a senha ultra-secreta que provava que eu não era um espião inimigo. Pelo contrário, eu havia acabado de me identificar como um aliado importante. E ele sabia que sua missão era fazer aquela omelete chegar às minhas mãos. Sorri e voltei para a mesa, com ele no meu encalço Quando me sentei, ele colocou o prato na minha frente, dizendo:

– Uma omelete no capricho.

Agradeci, virei a página do jornal e – com meu estomago roncando como um trator velho – coloquei a primeira garfada na boca, satisfeito. E, realmente, a omelete estava no capricho, como o Bigode anunciou.

Com ervilhas. No capricho, mas com ervilhas. Ô fase.

19 de maio de 2008

No Capricho - Parte II

(leia a parte I aqui)


– Eu não entendo sua letra.

– Aí está escrito omelete, bastante bacon, cebola, presunto.

– Ok, eu confio em você. Eu não preciso ler. É isso que eu quero.

Ele foi até o balcão, ignorando todas as pessoas que o chamavam das outras mesas, e gritou para o chapeiro – o que me fez concluir que o chapeiro também não pode ver o bloquinho:

– Omelete com bastante bacon, cebola, presunto e queijo.

– SEM QUEIJO!, eu gritei do outro lado da padaria.

– Omelete sem queijo com bastante bacon, cebola, presunto e sem queijo.

Eu sei que deveria ter ficado satisfeito com o fato de ele ter ressaltado o “sem queijo” mais de uma vez, mas comecei a temer pelo futuro da minha omelete, já que ninguém havia falado nada sobre a ervilha. Continuei a ler meu caderno de esportes do jornal, apreensivo. O Bigode voltou à mesa e perguntou:

– E para beber?

Achei melhor não arriscar nada e ficar no básico.

– Uma Coca Zero.

Ele deu as costas e eu o acompanhei com os olhos. Ele foi até a geladeira, pegou uma lata vermelha e trouxe de volta.

– Uma Coca no capricho.

– Era zero.

– Ah, você quer uma Coca Zero?, ele perguntou com um tom de “por que não disse antes?”

– Sim.

Ele voltou à geladeira, pegou a lata correta e me trouxe. Virou as costas e começou a atender duas mulheres na mesa ao lado. Eu fiquei ali, parado, olhando a latinha. Ele de costas para mim, tentando decifrar se o misto quente que uma delas queria tinha presunto. Após um debate de cerca de três minutos sobre as diferenças empíricas entre um misto-quente e um queijo-quente, ele anotou os pedidos delas, relaxou os ombros claramente feliz com a missão cumprida, e olhou para mim. Eu aproveitei a oportunidade e pedi:

– Você me arruma um copo?

– O seu pedido é a omelete, certo?

Me arrumei na cadeira, já esperando por mais uma aula spockiana de lógica.

– É... Sim.

– Já está saindo.

– Ok, mas vamos falar um pouco sobre a Coca? Eu quero um copo.

– Ah, você não tem?

– Não, não tenho.

Ele foi até o balcão e gritou algo sobre um copo. O interessante é que, ao se aproximar do balcão, ele ficou a poucos centímetros de um escorredor de louça com mais ou menos dez copos limpos, mas não pegou nenhum. Fiquei curioso a respeito, e a única resposta que consegui imaginar é que como o chapeiro não pode ver o bloquinho dos garçons, ele reafirma sua autoridade sobre a parte que lhe cabe naquele latifúndio proibindo terminantemente que algum objeto saia de trás do balcão sem sua autorização.

Não vi isso acontecer, mas tenho certeza que um dos atendentes do balcão, ao ouvir o pedido de um copo do bigode, olhou para o chapeiro que, com um aceno de cabeça (que lembraria Humphey Bogart autorizando os músicos do seu bar a tocarem a Marselhesa na presença dos oficiais nazistas de Casablanca), permitiu que o Bigode tivesse acesso a um copo. Bigode – que, cá entre nós, estava longe de ser um Victor Laszlo, o que fez minha teoria sobre Casablanca cair por terra – voltou para a mesa com o copo, altivo e orgulhoso, como um cavaleiro da idade média incumbido de carregar o Santo Graal.

– Um copo no capricho.

Que capricho? O copo estava feito, quem caprichou foi a Santa Marina ou qualquer outra fábrica que tenha produzido isso, não você. Ah, quer saber? Ok, deixa.

– Valeu.

Fiquei bebendo minha Coca e lendo o jornal. Alguns minutos depois, ouvi a esperada frase:

– Uma omelete no capricho.

Mas não era comigo. Era a minha omelete, mas não era comigo. Era com um sujeito de terno numa outra mesa. Ou seja, minha omelete, que teria sido feita sob medida para mim, sem ervilha ou queijo e carregada de bacon – ou, melhor dizendo, teoricamente sem ervilha ou queijo e carregada de bacon, já que eu ainda não sabia se o Bigode havia compreendido tudo o que conversamos – seria entregue para um outro sujeito.

E eu só podia assistir aquilo e, impotente, esperar pelo melhor, como um pai que assiste ao casamento da própria filha com o cafajeste do bairro.


(continua...)

16 de maio de 2008

No Capricho - Parte I

Uma das coisas que eu mais aprecio nos lugares que freqüento é o fato de os garçons me conhecerem. Alguns garçons da Bovinu’s ali da Rebouças, por exemplo, sabem até a ordem que eu gosto de comer as carnes. Já no Oregon, os atendentes sabem que, toda vez que eu colocar o pé ali dentro, as chances de eu comer um X-salada bacon com tomate verde são bem grandes – aliás, as chances de eu ser chamado de estranho por alguém que estiver comigo graças ao “tomate verde” são maiores, mas isso não vem ao caso.

Esse reconhecimento dos garçons transmite não apenas segurança, mas um sentimento de que você é especial. Ou, pelo menos, mais especial que o casal sentado na mesa ao lado e que teve que pedir normalmente, sem ouvir um reconfortante “o de sempre, Sr. Gordon?”. Sempre gostei disso. E isso é difícil de ser conquistado, já que implica em você a) freqüentar o lugar com regularidade; b) ser simpático com os garçons e os maitres, sabendo, de preferência, o time de pelo menos três deles; e c) colocar providencialmente uma nota de 50 paus no bolso de um gerente no final do ano. E, cá entre nós, eu sou bom nisso – especialmente nos dois primeiros, já que não é sempre que um jornalista tem 50 paus assim.

Porém, por mais que eu tente, eu não consigo ser tratado assim de forma alguma na padaria que eu freqüento (sim, aquela das carolinas). Na verdade, até consigo, por um dos funcionários, que me reconhece, sabe o que eu bebo e costumo comer. O problema é o outro garçom, o Bigode. E não é má vontade dele. O fato é que para a) reconhecer uma pessoa; b) saber quando ela está sendo simpática; e c) entender que está sendo subornado é necessário um item indispensável: um cérebro. E o Bigode certamente carece disso.

Ou seja: toda vez que eu entro na padaria é ele quem está atendendo, sei que vou passar mais tempo tentando explicar meu pedido do que comendo. E meus pedidos não são esdrúxulos (ok, o tomate verde no Oregon é estranho, mas é fácil de ser compreendido). Agora, se eu pedir uma água para o Bigode, ele vai fazer nove perguntas a respeito da água (todas elas desnecessárias) e trazer um sorvete. Eu lembro a primeira vez que eu pedi uma omelete a ele. Lá, eles têm uma maravilha chamada omelete tudo, que têm queijo, ervilha, bacon, presunto e cebola. Quando eu descobri isso, decidi que aquilo havia sido feito para mim, e só precisava de uns ajustes. O problema é que os ajustes seriam feitos pelo Bigode.

– Bigode, eu quero um omelete tudo, mas sem ervilha nem queijo. E com bastante bacon.

Ele começou a anotar no bloquinho dele, falando em voz alta.

– Sem-er-vi-lha... Sem-quei-jo.... Sem-ba-con...

– Não, com bacon. Com muito bacon.

– E muito queijo?

– Não. Sem queijo.

– Então você não quer queijo?

– Isso. E quero muito bacon.

– E a ervilha?

– Também não quero ervilha.

– Então você quer uma omelete tudo, mas sem ervilha e queijo?

– E com muito bacon.

– Então não é uma omelete tudo.

Admito que a lógica dele, nessa colocação, foi brilhante.

– Bigode, esquece o nome. Deixa o "tudo" de lado. Eu quero uma omelete com muito bacon, cebola e presunto. Mais nada.

– Você não quer a ervilha?

– Não.

– E o queijo?

– Não.

– Mas o ovo você quer?

– Bom, é uma omelete. Não é questão de eu querer o ovo ou não. O ovo não é negociável numa omelete, certo?

Ele rabiscou tudo e começou a escrever novamente.

– O-me-le-te... Bas-tan-te-ba-con... Ce-bo-la... Er-vi-lha...

– Não, não é ervilha. É presunto!

– Pre-sun-to.

– Tire a ervilha. Risque a ervilha do pedido.

Ele rabiscou algo e me mostrou o bloco.

– É isso que você quer?

Eu nunca havia visto um garçom mostrar o bloco de pedidos a alguém. Sempre achei que aquilo fosse algo particular, que somente os garçons teriam direito a ler. Existe uma linha que separa os garçons dos clientes, e não é a gravata borboleta, é o bloquinho. Quando você entra num restaurante, o bloquinho é o modo usado pelos garçons para mostrarem que “você está apenas comendo aqui; eu faço o restaurante funcionar. Sem eu e meu bloco, você não é nada”. E nós, mortais, não temos direito a ver o bloquinho, seria uma heresia tão grande como você se infiltrar em uma seita proibida e secreta para assistir a um culto.

O Bigode, porém, dinamitou o muro que separava os clientes e os garçons há séculos, e, promovendo a união entre as duas classes, me mostrou o bloquinho dele. Mas, antes que algum garçom leia isso e decida que agora eu devo morrer para não espalhar os segredos que aquele artefato guardava, devo dizer aqui que não entendi porra nenhuma do que estava escrito.


(continua...)

11 de maio de 2008

Crônica de uma Morte Estúpida*

Hoje, voltando do trabalho vi um cara morto na rua. Atropelado, acho. Na esquina da Cardeal Arcoverde com uma rua qualquer do bairro. Passei por ali e lá estava ele, deitado, anônimo, cercado por policiais, médicos e curiosos. É engraçado como a morbidez nos domina nesses momentos. Meu corpo inteiro queria continuar andando para casa, mas meu cérebro mandou todo mundo parar e olhar tudo aquilo um pouco.

Não é a primeira vez que eu vejo gente morta. Uma vez virei uma esquina da Teodoro, ao lado das Clínicas, e quase tropecei num cadáver de outra pessoa atropelada. E, uma vez, quando eu tinha algo em torno de 25 anos, um sujeito que morava na rua dos meus pais morreu em casa e eu que tive que acompanhar a perícia – parece que eles não podem entrar sem uma testemunha. E estar ao lado de um cadáver já apodrecendo que se parece vagamente com alguém que você conhecia não é algo muito fácil.

Enfim, domingo frio e solitário, e o Sr. X morre a duas quadras de casa. Sozinho, deitado ali no meio da rua com uma naturalidade que chegava a incomodar. Em paz? Não sei. Duvido que alguém que morra no meio da rua num final de tarde no Dia das Mães consiga fazer isso em paz. Mas, indo embora dali, acabei não pensando nele – afinal, se em São Paulo a gente mal pensa em quem conhece, porque pensaríamos num anônimo? – e sim, pensando nela.

Na morte.

Especialmente numa morte estúpida como essa. Quando um soldado morre numa guerra ou alguém que está doente morre, tudo bem, faz parte, era esperado. Mas uma pessoa sair de casa para comprar pão, um maço de cigarros e duas latas de cerveja, pensando em retornar para casa antes dos gols da rodada e não voltar nunca mais não tem sentido algum. A pessoa tem uma conta de luz que vence na terça-feira, pensa no presente da esposa que faz aniversário mês que vem, acha que o próximo jogo do seu time será difícil, lembra de um filme que viu na TV e como era mesmo o nome daquele ator? e de repente um carro desce em alta-velocidade e acaba com tudo isso.

Nada mais existe. O 10 que você tirou de matemática na quinta série, o gol de calcanhar que você fez no campeonato da escola, o seu primeiro beijo , a música que te faz chorar, o dia em que você casou, a primeira vez que você viu seu filho. Acabou. Tudo morreu junto com você. O que você foi será lembrado. O que você é morre junto com você. E aí você deixa de ser esposo, filho, marido, pai e vira um número qualquer numa estatística do Detran. Claro, você será lembrado por inúmeras pessoas, mas, por outras, você será sempre lembrado como “o cara que foi atropelado ali na frente daquela padaria”.

E o problema das mortes estúpidas é que elas podem acontecer com qualquer um. É por isso que são estúpidas. Podem acontecer com qualquer um e a qualquer momento. Pode pegar você no meio da semana de provas, num sábado de madrugada, três dias antes do casamento do seu irmão. Sem aviso, sem preparação, sem nada. E os mais conformados dizem que “quando chega sua hora, não há nada que você possa fazer”, sem perguntar se a pessoa que atropelou o falecido tem algo a ver com isso, se sabia que era do cara ou se recebeu alguma instrução da morte do tipo “desce pela faixa da direita e acerta aquele sujeito para mim”.

E a grande sacanagem cósmica é que quando chega a sua hora, você não fica sabendo. Quer dizer, fica, mas não pode fazer nada a respeito, mesmo porque o aviso não é tão prévio. E tudo aquilo que você planejou fazer evapora, enquanto você cai sangrando no meio de uma rua. Tudo o que você sonhava em fazer, tudo o que havia planejado some no momento em que você deixa de ser uma pessoa para se tornar um assunto para as pessoas que estava ali perto.

Por isso que a frase “viva cada dia da sua vida como se fosse o último” faz enorme sentido. Um dia será o último mesmo. E o pior é que pode ser a qualquer dia. E aí, todos os “eu te amo” que você pensou antes de dormir e esqueceu no travesseiro pela manhã, todos os abraços que você não deu, todos os sorrisos que você escondeu e todos os beijos que você deixou de roubar morrem junto com você. Ou junto com a pessoa que você deveria ter abraçado, beijado, sorriso e falado que amava morrem junto com ela. Sim, porque você está pensando em você, mas pode ser ela. É loteria.

Então, é o pedido deste blog que você saia daqui um pouco agora e vá até a sala, e beije alguém e diga o quanto aquela pessoa é importante para você. Piegas? É, é piegas demais. Mas, se você parar para pensar, toda vez que você fala “eu te amo” você está sendo piegas, então fazer isso agora não será problema para você. E se os olhos do seu pai, da sua mãe, da namorada, do marido, ou de qualquer pessoa que você tenha escolhido para isso brilharem por uma fração de segundos que seja, este post foi bem-sucedido. E, sim, você pode esperar essa música acabar, ou tentar mais uma vez passar aquela fase difícil do jogo antes de ir. Mas é um risco que você corre. Afinal, como eu já disse, é loteria.

Eu?

Bem, são 23 horas. Meus pais e minha namorada dormem cedo. Logo, vou ter que me contentar em simplesmente brincar com meu cachorro. Além disso, numa emergência, os três podem sempre voltar aqui, no post de 11 de maio, e lembrar o quanto amo eles.

Afinal, acho que o "eu te amo" para essas três pessoas é tudo o que eu queria dizer e estava engasgado desde o começo do texto.


"Neste momento, Deus está matando mães
e cachorros, porque Ele precisa. Neste momento,
seus pais estão sentindo sua falta."


Desculpem pelo tom do post. Mas, às vezes, a crise dos quarenta anos (que eu tenho com 32) bate um pouco mais forte. Prometo que volto ao normal em breve.

* Este post é dedicado ao "Cara Atropelado Ali na Rua".

6 de maio de 2008

A Pequena Loja dos Horrores - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Resignado, dei de ombros e cedi aos argumentos da minha mãe. Ela olhou a calça e o terno como uma leoa estudando sua presa. A Plant, reconhecendo ali uma força superior, deu um passo para trás e colocou-se fora do campo de visão da minha mãe. Ninguém poderia imaginar quais pensamentos estariam passando pela mente daquela aparentemente inocente senhora com menos de 1.50m.

Somente eu. Eu sabia exatamente o que ela estava pensando. E sabia aonde isso iria me levar. E também sabia, por experiência própria, toda a dor que esse processo envolveria. Ficamos nesse jogo de xadrez por alguns minutos. Na verdade, o jogo era disputado entre ela e o terno. Eu era apenas o tabuleiro. E o terno nem desconfiava que iria tomar um xeque-mate em menos de cinco lances.

– A calça não está boa.

Preciso fazer algo agora, antes que ela se empolgue.

– Está boa sim, mãe. Você está com essa impressão por causa da luz. Vamos pagar e ir embora.

– Não, olhe os bolsos.

– O que têm os bolsos?

– Estão abrindo.

– E daí? Não tem nada neles mesmo.

– Se os bolsos estão abrindo, é porque a calça está justa.

– Nunca ouvi falar nisso. Você está inventando essa teoria agora.

Obviamente, a Plant não agüentaria ficar de fora disso. Essa era a oportunidade que ela precisava para entrar na discussão e selar de vez sua aliança com a minha mãe. Transparecendo tanto afeto e calor humano quanto um zagueiro do Bangu, deu o veredicto final:

– Os bolsos estão abrindo. A calça está justa.

Pronto. Lá estava eu, novamente, em desvantagem numérica. Olhei ao redor procurando por ajuda, mas encontrei apenas o velho de rabo-de-cavalo, que, claro, concordaria com qualquer coisa que a Plant falasse. Suspirei e, mais uma vez, admiti a derrota.

– Ok. O que podemos fazer a respeito disso?

Se ela respondesse “emagrecer”, eu partiria para a agressão. Porém, inesperadamente, vi uma luz nascendo no final do túnel.

– Podemos pedir para alargar a calça, quando encomendarmos os ajustes.

– Ajustes?

– Sim.

– Isso quer dizer que eu posso levar esse terno, sem experimentar outro?

– Sim, esse é do seu tamanho. Com apenas alguns ajustes, ele fica bom.

– Ótimo. Ajustes. Ajustes são perfeitos. Eu adoro a idéia de fazer ajustes. Onde eu pago?

Mas o fato da situação ter se tornado um pouco melhor não significava, automaticamente, que seria fácil escapar dali. Ao menos, com vida. Eu sabia que a Plant estava planejando algum golpe de misericórdia. Algo como me apunhalar nas costelas enquanto eu fosse para o caixa, ou colocar uma cascavel na sacola junto com o terno.

E, claro, eu estava certo. O golpe veio. Mas pelas mãos da minha mãe, que disse:

– Venha aqui. Quero ver uma coisa.

Cabe dizer aqui que esta é a frase mais temível de ser ouvida por uma mãe dentro de uma loja de roupas. Ao menos, pela minha mãe. O problema é que a minha mãe – assim como todas as outras mães – não permite que seu filho use uma roupa que não tenha passado pelo crivo dela. E o crivo dela implica em testes físicos de resistência. E os testes físicos de resistência implicam em dor.

Se toda a dor e sofrimento existente no mundo fosse um filme, essa frase seria o trailer. Tanto que ela só guarda isso para roupas especiais, nunca utilizando isso para coisas triviais como camisetas. Ou seja, a partir do momento que eu saí do provador com um terno, ela começou a me cercar e preparar o bote.

– Mãe, não faz isso.

Ela me ignorou e se abaixou na minha frente. Pegou a calça e começou a puxar todos os pedaços dela para todas as direções possíveis. Obviamente, sempre puxando minha pele junto.

– Mãe, está doendo.

Levanta, pega o terno, começa a puxar os braços para fora. De repente, começa a me agredir, alegando que está apenas alisando o terno.

– Mãe, eu sou um ser humano, não um brinquedo.

Ela não me ouvia. Estava em transe. Depois de quase um minuto e 67 marcas roxas no meu corpo, ela se levantou, mais aliviada e solta um:

– É, ficou bom.

– Podemos ir embora?

– Temos que marcar os ajustes.

Olhei para o lado e a Plant estava sorrindo, segurando cabos de vassoura. Olhei com mais cuidado e vi que não eram cabos de vassoura. Eram alfinetes, provavelmente utilizados nos rituais de magia negra que ela praticava no estoque. Resultado: fui obrigado a ficar uns cinco minutos em pé, com os braços abertos, enquanto a vendedora praticava, em mim, tudo o que ela havia aprendido em algum supletivo de acupuntura. E, claro, eu não podia me mexer. Qualquer movimento que eu fazia, era motivo de bronca. Com medo até de respirar, fiquei imóvel ali, na posição de espantalho. Parecia uma daquelas miniaturas do Cristo Redentor que vendem para turistas.


"Só mais alguns ajustes, Rob, e o terno ficará perfeito"


Eu já estava parecendo uma almofada de alfinetes quando ela levantou, esfregando as mãos.

– Pronto.

– Ótimo, eu vou tirar e nós vamos embora.

Corri para o provador e tirei a roupa. Quase cheguei ao clímax quando coloquei meu jeans surrado de novo. Coloquei meu tênis, saí e dei de cara com minha mãe.

– Você ainda precisa de camisas.

– Mãe...

Antes que eu pudesse reagir, a Plant saiu correndo e voltou quatro segundos depois, segurando dez camisas na mão.

– Elas são de algodão.

– Ah. Que ótimo. Algodão. Era tudo o que eu queria. Eu tenho que experimentar, certo?

– Sim, disse a Plant.

– Sim, disse a minha mãe.

E lá fui eu. Coloquei a camisa, saí e procurei um espelho.

Quando me olhei, quase vomitei. Parecia um misto de pirata de filmes dos anos 30 com cantor de bolero.

– Mãe, eu não vou usar isso com o terno.

– Ela é bonita.

– Mãe, eu pareço um pirata.

– É só arrumar aqui.

E começa o ritual do puxa-empurra-aperta-estica.


"Mas eu não quero ser um pirata!"


– Está linda.

– Que ótimo. Eu uso outro dia, de preferência quando eu puder ficar em casa. Eu vou levar outra camisa. Uma normal. Com botões, mangas e só. Mais nada.

– Mas esta camisa...

– Ok, eu levo essa! Mas vou levar outra.

A Plant surgiu do nada com outra camisa normal na mão. Impressionante como toda vez que ela aparecia do meu lado, do nada, eu sentia cheiro de enxofre.

– É do mesmo tamanho que essa. Então, você não precisa experimentar.

– Ótimo. Finalmente uma boa notícia. Mãe, vamos embora. Onde eu pago?

– Você não está precisando de casacos?

– Não, mãe, eu estou precisando pagar e ir embora.

– Mas o inverno...

– O inverno que compre seus próprios casacos! Tchau!

Fui até o caixa e ainda fui convencido a abrir um cartão da loja. Enquanto assinava todos os mil documentos – que, provavelmente, garantiam que a minha alma pertencia, agora, a Plant – entrou um japonês na loja e pediu um casaco para a Plant. Cheiro de enxofre de novo. Minha mãe chegou a comentar comigo o quanto o casaco que ele estava experimentando era bonito.

Eu nem dei atenção. Paguei tudo, terminei de assinar a entrega da minha alma e fui embora dali. Sentei numa escada ao lado da loja e acendi um cigarro. Apoiei a cabeça nos joelhos e comecei a orar, agradecendo a Deus por estar vivo. Menos de cinco minutos depois, acabei de fumar, levantei e olhei para a loja.

Fechada.

E nem sinal do japonês.