29 de fevereiro de 2008

366

Sinceramente, eu nunca entendi direito esse negócio de ano bissexto. Desde pequeno a gente aprende que o ano tem 365 dias, mas, a cada quatro anos, a gente vê que as coisas não são exatamente assim – o que faz você questionar o que mais te ensinaram errado na escola.

Foi mais ou menos como a maldita raiz quadrada. Eu passei boa parte da adolescência achando que não existia raiz quadrada de números negativos. De repente, aos 43 minutos do segundo tempo (ou seja, na última aula do terceiro colegial), o professor de matemática diz que a raiz quadrada de um número negativo é um Número Irreal. Irreal. Ou seja, o próprio nome diz que não existe, mas, na verdade, existe, tanto que tem nome. E, quando você começa a pensar sobre o assunto – lembrando que falta uma semana para o vestibular – você percebe que está sozinho na sala de aula, porque o professor falou isso e saiu correndo para o carro dele. Até hoje eu culpo os tais Números Irreais por não ter entrado na USP.

Agora, o lance do ano bissexto é mais ridículo ainda, porque a gente aprende desde criança que o ano tem 365 dias. O problema é que num determinado momento descobriram que o dia não tem 24 horas, mas apenas 23 horas e 56 minutos (ou algo assim). Ou seja, a cagada havia sido feita lá atrás e alguém precisava corrigir. Devem ter pensado em acertar isso da maneira correta, tirando quatro minutos de cada dia, mas provavelmente a Globo não autorizou, porque uma medida dessas iria destruir a grade de programação.

Mas uma solução era necessária. Afinal, não corrigir isso faria que, em determinado momento, as pessoas passassem anos almoçando às 03:00 da manhã (o que eu já faço normalmente, devido aos meus horários malucos de puta jornalista) e que a “novela das 8” passasse a ser conhecida por “novela das 4 da manhã”. Ou seja, mais pressão da Globo, desta vez cobrando uma solução.

Mas, realmente, era importante que se fizesse algo. Afinal, imagine a vergonha que passaríamos quando o planeta fosse analisado por alienígenas que procuram por vida inteligente no universo.

– Eu não estou entendendo. Os habitantes daquela cidade estão dormindo, mas são quatro da tarde.

– Eu também estranhei isso e fui pesquisar no banco de dados. Parece que eles erraram na contagem de horas do dia séculos atrás.

– Tem certeza? Isso é um erro primário demais.

– É o que diz no computador.

– Eu falei para você. Esses bípedes de carbono não podem ser a espécie dominante do planeta. Ninguém no comando de um planeta faria uma cagada dessas. Deve haver vida realmente inteligente lá embaixo e nós ainda não localizamos.

– Tem razão. Eu sou a favor de darmos uma chance aos tatus. Gosto do estilo deles.

– Concordo. Peça para o estagiário abduzir um tatu e vamos estudá-lo aqui na nave.

Para evitar constrangimentos como esses (e para sorte dos tatus) a humanidade brilhantemente chegou a uma saída: tiraram um dia da cartola e pronto. Mas, convenhamos, não é uma idéia muito brilhante, já que chama mais a atenção que o problema. Eles acharam que como fevereiro é um mês mais curto e tem carnaval, ninguém iria reparar que o calendário estava com um dia a mais? E quem faz aniversário neste dia? Imagine como se sentem uma garota que nasceu em 29 de fevereiro e que precisa esperar 60 anos para debutar, ou o garoto que mesmo tendo celebrado apenas oito aniversários, já é casado e tem dois filhos.

Fora a cafonice do ano bissexto e o seu conceito de “dia a mais”, que soa como uma espécie de promoção barata ou campanha de milhagem. “A cada quatro anos vivo, você ganha como bônus um dia inteiro totalmente grátis”. Fora que o lance de acontecer a cada quatro anos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, não é exatamente original.

Enfim, isso, para mim, é uma amostra perfeita da humanidade, uma espécie biológica que não consegue se desenvolver porque está ocupada demais remendando os próprios erros. Daqui a pouco, vão descobrir que os meses têm 15 dias e, pior, cada semana tem, na verdade, três segundas-feiras. E, para acertar isso, com certeza vão resolver tirar 20 horas do domingo, deixando somente as quatro horas (ou melhor, três horas e 56 minutos) restantes bem no meio do programa do Faustão.

Ô fase. Mas, aproveito o dia a mais para colocar, aqui, o Top 5 coisas mais imbecis que me lembro da escola:

1. O macho da drosófila não pratica crossing-over (eu já usei isso no blog antes, mas permaneço com a opinião de que essa é a frase mais estúpida que eu vi). Toda vez que eu penso nisso, imagino o macho da drosófila saindo de um restaurante, envergonhado e cercado por seguranças, enquanto um monte de paparazzi na calçada tenta conseguir uma foto dele.

2. Genética – sei que é util, mas não consigo me conformar com o fato de que qualquer livro de biologia apresenta como exemplo de gene recessivo o albinismo (azinho / azinho, lembra?). Cadê a criatividade, gente? Não existe outra anomalia? Por que não usar uma pessoa com três olhos como exemplo? Ia fazer muito mais sucesso.

3. Conjuntos – Não importa a série em que você esteja, o primeiro capítulo do livro de matemática é sempre conjuntos. Sempre. No terceiro colegial, lá está você, com barba na cara, aprendendo pela enésima vez a porra do conjunto intersecção e tendo que desenhar aquilo como se fosse um débil-mental.

4. Bandeja – Por que todo o professor de educação física é obcecado em ensinar as crianças a fazerem cesta de bandeja?

5. Citologia – Eu tenho certeza de que metade daquelas malditas organelas como retículo endoplasmático liso e complexo de Golgi (que, para mim, sempre teve nome de distúrbio psicológico) não existe.

25 de fevereiro de 2008

E o Oscar Foi Para...

Pela primeira vez em anos, assisti ao Oscar sozinho. Na verdade, estava acompanhado pela Besta-Fera, mas como ele dormiu a maior parte da cerimônia, acho que isso conta como sozinho. Jonas (caso você seja novo aqui, trata-se do fantasma que mora comigo), como de costume, foi para a sala apenas na meia hora final, para ver as premiações mais importantes.

Nem vale a pena comentar as premiações, já que achei a maioria delas extremamente “justa”. Destaque para as aspas do “justa”, já que essa justiça veio do fato de que todo mundo ganhou algo. A impressão que deu é que a Academia montou um esquema de programa infantil, onde todos os participantes ganham prêmios. Faltou só perguntarem aos premiados se eles “preferiam brinquedo ou revista”.

Mas, de forma geral, a premiação me agradou. Onde Os Fracos não Têm Vez é um filme daqueles que não se vê (ou faz) há muito tempo – mas claro que a sua ausência de clímax e a falta de cenas de ação incomodam o público de shoppings (neste caso, o problema é a platéia, e não o filme). Já Daniel Day-Lewis merecia ganhar disparado o prêmio de Melhor Ator. Só o trailer de Sangue Negro tem um trabalho de interpretação melhor que toda a obra do Tom Cruise junta. Em breve, resenha dos dois filmes no Champ Review, que eu não escrevi por pura falta de tempo (afinal passei as duas últimas semanas ou trabalhando ou brigando com o Visa). Juno, Conduta de Risco e Desejo e Reparação também ganharam seus prêmios, o que tornou a noite mais “justa” ainda.

Quanto à cerimônia... Bem, o grande problema deste Oscar é que como se tratava da 80ª edição do prêmio, os roteiristas rechearam a cerimônia com cenas das festas anteriores. E aí fica um Barcelona X Ponte Preta atrás do outro. Você vê o Robert DeNiro e o Al Pacino do passado sendo premiados, e lembra-se que o presente é um enorme “ô fase” quando o John Travolta escorrega no palco. Mas os clipes serviram para relembrar também que nem todas as Ponte Pretas são deste ano, afinal, foram exibidas imagens de arquivo da Julia Roberts e da Gwyneth Paltrow ganhando Oscar. Se eu fosse o presidente da Academia, ia esconder esse tipo de coisa, e torcer para as pessoas esquecerem que isso aconteceu um dia.

Mas a impressão geral que deu é que o pessoal da Academia, de uns anos para cá, vem investindo cada vez menos na cafonice da cerimônia. A única coisa que eles ainda não conseguiram limar são os clipes com as músicas concorrentes, mas que servem justamente para você ir pegar Coca, cigarro e pipoca. E, no meu caso, para ficar prestando atenção nos takes da platéia descobrindo quem parece com quem, meu esporte favorito. Foi num desses clipes que descobri, entre outras pérolas, que o próximo trabalho da Tilda Swinton deve ser o papel principal na adaptação live-action do Pica-Pau, e que o Ethan Coen é irmão mais velho do Nando Reis.

E os clichês... Bom, isso eles não conseguem evitar. É o caso da transmissão via satélite. Todo ano temos uma transmissão de alguém do outro canto do planeta via satélite (como se isso fosse o maior rompante tecnológico do momento). A diferença é que de uns anos para cá eles começaram a variar as pessoas (este ano foram soldados em Bagdá), já que, até alguns anos atrás, era sempre o Arthur C. Clarke, falando de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, do Sri Lanka (país no qual ele é o único morador). E já outros: todo ano o Oscar de melhor Animação é apresentado por um personagem de animação. Todo ano, a orquestra faz um medleyzinho com trechos de três ou quatro temas famosos (e todo ano um deles é o tema de Tubarão). Até mesmo as brincadeiras com Jack Nicholson (todo ano de óculos escuros, todo ano na primeira fila, todo ano à esquerda do palco) são as mesmas.

Mas a sensação que fica é que a cerimônia está cada vez mais chata, sem grandes surpresas. Até mesmo o Oscar honorário deste ano foi entregue a alguém importante, mas desconhecido do público em geral. Saudade do tempo em que você podia esperar por qualquer coisa na cerimônia – eu não vi o homem pelado correndo por trás do David Niven (sou velho, mas nem tanto), mas me lembro do Jack Palance fazendo flexões no palco.

Hoje, o tédio da cerimônia é vencido somente por pessoas com rompantes geniais como Day-Lewis, que, ao receber o prêmio, foi “nomeado cavaleiro” por Helen Mirren, numa clara alusão ao trabalho dela em A Rainha – e que merecia o Oscar de Melhor Subida ao Palco para Receber um Oscar.

Mas o pior mesmo foi quando acabou a cerimônia. Depois de ver clipes de Jack Lemmon, Meryl Streep, Bette Davis, Ingmar Bergman, John Huston, Humphrey Bogart, John Wayne, Katharine Hepburn, Shirley MacLaine e Marlon Brando, a festa acaba e a TNT começa a exibir Tudo para Ficar com Ele, estrelado pelo Cameron Diaz. E aí você se lembra que, hoje em dia, Meryl Streep é exceção e a Cameron Diaz é a regra. E, pior, ela já trabalhou com Daniel Day-Lewis. Ô fase.

E, como o Oscar vive de clichês, segue, então a minha lista clichê, com meu Top 5 injustiças do Oscar (o fato do Ben Affleck ter uma estatueta de Melhor Roteiro em casa nem concorre) :

1. Shakespeare Apaixonado ter ganhado o Oscar de Melhor Filme independente de quais eram os outros concorrentes.

2. Julia Roberts ter ganhado o Oscar de Melhor Atriz, independente de quem eram as outras concorrentes.

3. Gwyneth Paltrow ter ganhado o Oscar de melhor Atriz, independente de quem eram as outras concorrentes.

4. Art Carney ter ganhado o Oscar de Melhor Ator no ano em que Al Pacino concorria “apenas” por O Poderoso Chefão – Parte II

5. Gente como a Gente ganhar o Oscar de melhor Filme no ano em que um dos outros concorrentes era “somente” Touro Indomável

22 de fevereiro de 2008

Mens@gem para Você

Conforme eu avisei no meu último post, meus últimos dois dias serviram para bombardear o maldito Visa com a maldita carta contestando as malditas compras irregulares feitas com meu maldito cartão de crédito clonado. O problema é que ninguém do Visa consegue simplesmente me enviar uma confirmação do recebimento da mensagem.

Claro, eles podem estar ocupados com milhares de outras coisas. Mas, a partir do momento que eu sou cliente, eu pago e quero que eles estejam ocupados com o meu problema. E estar ocupado com o meu problema significa ler o meu mail, que inclui a frase "peço que confirmem o recebimento".

Como não confirmaram, eu resolvi que iria insistir. E também como prometido, segue a transcrição abaixo de todos os mails que enviei para lá nas últimas 48 horas (sempre lembrando que, em todos eles, a carta estava anexada).

E um aviso aos leitores que acham que minhas brigas contra telemarketing publicadas no blog são inventadas (ou exageradas): vocês terão um prato cheio aqui neste post. Se você se encaixa nesse grupo, meu sincero e cordial "foda-se". Se, mesmo assim, você insistir que estou mentindo, deixe seu e-mail, CPF, número e senha do seu cartão (apenas para confirmar os dados, para sua segurança, claro) e eu lhe encaminho os e-mails enviados para o Visa.

Posto isso, vamos aos e-mails:

20 de fevereiro - 17:10

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

Peço que confirmem o recebimento

Obrigado


21 de fevereiro - 12:10

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

PEÇO QUE CONFIRMEM O RECEBIMENTO

Obrigado


21 de fevereiro - 13:25

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

PEÇO QUE CONFIRMEM O RECEBIMENTO

Obrigado


21 de fevereiro - 15:57

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

PEÇO QUE CONFIRMEM O RECEBIMENTO

Obrigado


21 de fevereiro - 16:57

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

E, adivinhem só: PEÇO QUE CONFIRMEM O RECEBIMENTO

Obrigado


21 de fevereiro - 18:26

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

Alguma alma caridosa pode confirmar o recebimento do e-mail?

Obrigado


21 de fevereiro - 19:12

Caros

Conforme pedido por telefone, segue a carta contestando as compras irregulares do meu cartão de crédito.

Este é o sétimo e-mail que mando, e gostaria muito de que alguém me enviasse uma resposta confirmando o recebimento. Não é difícil, gente: um "recebido, senhor" já basta. Vamos lá, vocês conseguem.

Obrigado


22 de fevereiro - 11:37

Caros

Bom dia a todos.

Vamos começar a maratona do dia em busca de uma confirmação de recebimento da minha carta sobre as compras irregulares. A cara está em anexo (se bem que ela estava anexada nos outros sete mails que eu mandei anteriormente, sem sucesso).

Então, por mais que isso tenha sido engraçado um momento, está começando a perder a graça. Os leitores do meu blog provavelmente vão gostar disso, mas eu realmente tenho mais o que fazer hoje, entao, por favor, não é pedir muito: me mandem uma confirmação de recebimento, pelo amor de Deus!

Mas, provavelmente, não vai funcionar. entao, provavelmente, daqui a uma hora eu mando novamente. e novamente, em vão.

Abraços


22 de fevereiro - 13:02

Caros

...suspiro...

Alguém pode dar um sinal de vida ai? (caso interesse, a carta continua em anexo. Sei que não vai mudar nada, mas achei que seria bom comentar, just in case)


22 de fevereiro - 14:34

Caros

Imagino que vcs devem estar pensando sobre o fato de que faz uma hora e meia que não mando a carta novamente.

Desculpem, é porque eu saí para almoçar com a patroa e demorei um pouco mais. Para compensar, vou enviar duas vezes seguidas, ok? Quem sabe em uma delas vocês conseguem me confirmar o recebimento.

Essa...


22 de fevereiro - 14:34

...e essa.

Abraços


22 de fevereiro - 16:25

Caros

Vocês devem estar ocupados, trabalhando demais ai. Deve ser por isso que vocês ainda não viram meu mail. Além disso, eu sei que é sexta-feira, vocês devem estar de saco cheio, e vocês estão empurrando tudo para segunda-feira. Só que eu também estou de saco cheio. Aliás, eu já até coloquei meus sofás à venda em casa, porque não vou mais precisar deles (o meu saco já está tão cheio que eu posso usá-lo como pufe e sentar em cima dele). Eu sei, é sexta-feira, eu não deveria estar estressado assim. É que para vocês, hoje, é Zeca-feira, só que para mim ainda é Visa-feira porque ninguém me responde.

Se você está lendo isso e não sabe como fazer para me responder (afinal, vocês ainda dependem de fax) eu te ajudo, não é difícil: tá vendo lá em cima um botão escrito "responder"? Clica nele com o mouse... Mouse é aquele negócinho em cima da mesa ao lado do computador. Tá vendo que quando você mexe, mexe uma setinha na tela? Então, coloca a setinha em cima do responder e aperta o botão esquerdo do mouse (o mouse normalmente tem dois e uma rodinha, mas mantenha o foco. você precisa apenas do esquerdo agora). Vai abrir uma janela enorme na tela. Agora, está quase lá: eu preciso que você digite a palavra "recebido". Só isso. Pode ser com as aspas, sem as aspas. Tanto faz. Não precisa me dar boa tarde, nem mandar abraço, nada disso. Só recebido.

Agora, você pega a mesma setinha do mouse e clica, lá em cima de novo, mas nessa nova janela, em enviar. A janela vai sumir! Calma! É assim mesmo! Sem pânico. Se você fez tudo certinho (você fez, né?) esse e-mail já está no meu computador, eu vou saber o que está acontecendo com a minha vida aí dentro e todos ficamos felizes. Aí você pode ir para o seu chopp, e contar para todos os seus amigos a sua enorme aventura de hoje, mandando um mail sozinho pela primeira vez. É isso, garotão!

A carta está em anexo. (eu sei, eu sou teimoso)

Abraços

Bom happy-hour!

**************************************

Depois de enviar esse último e-mail, entrei no site do banco e fui checar minha fatura. Todas as compras irregulares haviam desaparecido de lá. Vitória! Ou não, já que elas não foram retiradas, elas apenas deram lugar a duas novas compras do Amazon.com que eu nem sabia que haviam sido feitas. Ou seja, vamos começar tudo de novo.

Aí, um dia, a pessoa compra um rifle, sobe no alto de um prédio e começa a atirar nas pessoas na rua, a esmo, clamando por justiça e e os jornais começam a chamar o cara de louco. Qualquer hora eu volto. Vou procurar um canto mais reservado e ter um ataque histérico.

Ô fase de merda.

21 de fevereiro de 2008

Cartas na Mesa

Eu sei que o telemarketing tem ocupado um bom espaço aqui no blog, mas não dá mais. Essa história do Visa está começando a perder a graça, apesar do sucesso que vem fazendo com os leitores (outro dia, um amigo veio me falar que meu blog é a única esperança da humanidade para que os atendentes de telemarketing não dominem o planeta).

Enfim, se você pegou a história pela metade, aqui estão as partes I e II. Se você já leu as duas, eis o que você precisa saber antes de ler o post abaixo: após eu contestar as compras (pela segunda vez), o sujeito do Visa me disse que eu recebia uma ligação da empresa com a finalidade de checarem algumas informações adicionais – sendo que eu deixei claro que não tinha mais informação nenhuma (“eu não fiz as compras e ponto”).

Obviamente, o cara nem ouviu o que eu disse e falou que as informações que eu forneceria seriam necessárias para a análise. Fiquei na dúvida: se ele sabe que as informações são importantes, ele sabe quais informações são. Então, por que não pede agora? Enfim, deixei isso de lado e esperei.

Ontem, pouco depois da hora do almoço, toca meu celular. Atendi.

– Sr. Gordon?

– Sim.

– Aqui é Fulana, do Visa. Estou ligando devido ao fato do senhor ter contestado algumas compras feitas com o seu cartão.

– Sim, me falaram que alguém ligaria para pegar informações adicionais, ou checar alguma coisa, não me lembro.

– Pois bem, estou ligando porque preciso que o senhor nos envie um fax, contestando as compras, e com sua assinatura.

– Só isso?

– Sim.

– Isso não é checar nada. E também não é nenhuma informação adicional. Nada do que está na carta vai ser novidade.

– Entendo, senhor, mas precisamos da sua assinatura.

– O ponto não é esse. O que estou querendo saber é porque não me pediram a carta no momento em que eu liguei para contestar as compras. A única coisa que me falaram é que eu receberia uma ligação em alguns dias. Essa é a ligação?

– Sim, senhor.

– Você está querendo me dizer que vocês passaram três dias trancados numa sala discutindo se eu deveria mandar a carta ou não? E acabaram votando pelo “sim”?

– Estamos analisando seu caso.

– Fulana, mandar esta carta é um procedimento padrão?

– Sim, senhor.

– Então por que a pessoa que atendeu minha ligação na semana passada não me instruiu a fazer isso? Nós não precisaríamos ter essa conversa, porque a minha carta já estaria na sua mesa. E, se é um procedimento padrão, o atendente meio que deve saber disso, certo? Ou eu dei azar e fui atendido logo por alguém que estava no primeiro dia neste emprego?

– Não posso responder por isso, senhor. É outro departamento.

– Não interessa. Para mim, todo mundo aí é Visa. Se você não sabe o que acontece na mesa do lado da sua, o problema é seu, não meu.

– Senhor, é outro departamento.

– Ah, quer saber? Ok. Enfim, nós estamos em 2008. Eu não vou passar um fax. Vocês têm que ter um endereço de e-mail. Mesmo se o Visa tiver apenas conexão discada e um e-mail no Hotmail, eu quero esse endereço, porque eu vou passar por e-mail. Se vocês são contra-producentes, o problema é de vocês. Eu não vou passar fax nenhum.

– Senhor, nós precisamos que seja por fax.

– Fulana, vocês demoraram três dias para decidir me pedirem uma carta que vocês sabiam que teria que ser pedida. Vocês são lerdos. Isso nem vai ser discutido aqui. E, como vocês são vocês, até entendo que o Visa não deve estar em sintonia com as mudanças tecnológicas, afinal elas acontecem rápido demais. Agora, o fato de vocês serem lerdos não coloca vocês no ano de 1993. O mundo está em 2008, consequentemente eu estou em 2008 e vocês vão acompanhar isso, querendo ou não. Eu não vou passar fax nenhum. Aliás, o que acontece depois que eu passar o fax? Você quer que eu mande uma mensagem para o seu Pager avisando que enviei a carta? Ou prefere que eu mande um telex?

– Senhor, nós precisamos da sua assinatura.

– Então eu escaneio a carta e mando por e-mail. A chave é a minha assinatura, certo? Ela vai estar ali.

– Ok, senhor. O nosso endereço de e-mail é x@y.com.br.

– Ah, então vocês TÊM um endereço de e-mail.

– Sim, senhor.

– Eu mando daqui a duas horas. Provavelmente vocês não abrem o e-mail todo dia, mas, com sorte eu ainda pego a conferência da semana. Isso, claro, se ele não for parar no lixo eletrônico.Você pode me dizer uma coisa?

– Pois não, senhor.

– Eu posso escrever palavrão na carta?

– Senhor, precisamos apenas da contestação e da relação das compras.

– Então, mas é a terceira vez que eu passo isso para vocês. Ah, deixa. Olhe, me responde uma coisa: depois que eu enviar a carta, em quanto tempo as compras saem da minha fatura?

– Não posso dizer isso, senhor. Não tenho essa informação.

– Fulana, com todo o respeito, carinho e açúcar em cima: a puta que o pariu que você não pode.

– Senhor, eu não sou desse departamento.

– Você me ligou para, teoricamente, me ajudar, com aspas bem grandes no ajudar. Então, me ajude. Quanto tempo demora?

– Não tenho essa informação, senhor.

– Então você levante e pergunte para alguém do lado. É engraçado como você liga para mim para falar sobre o meu cartão e qualquer coisa que eu pergunto sobre o meu cartão você não pode responder, porque não é o seu departamento. Estou começando a achar que você é uma faxineira do Visa que está usando o telefone escondido. Eu vou perguntar de novo. Quanto tempo vai demorar para as compras serem estornadas após a porra da carta ser enviada?

– Senhor, eu não tenho essa informação.

– Fulana, me dá uma ordem de grandeza. Eu quero saber se são dois minutos, um ano, quatro luas, um equinócio, seis primaveras... Quanto? Aproximadamente?

– 48 horas, senhor.

– EU SABIA! VOCÊ TINHA A PORRA DA INFORMAÇÃO!

– Senhor, isso é aproximado.

– Eu não pedi a hora exata de acordo com o horário de Brasília. Se bem que seria capaz de vocês me passarem pelo horário de Londres e me mandar calcular o fuso, porque você não pode, porque é outro departamento que mexe com esse negócio de meridiano. Enfim, eu vou mandar a carta em aproximadamente duas horas e vou solicitar uma confirmação de recebimento. Você está de acordo com isso?

– Sim, senhor.

– Ok, passar bem.

– A Visa agradece sua ligação e tenha uma boa tarde.

– Que ligação? Foi você quem ligou!!!

(clic)

Mandei a carta, escaneada, bonitinha, com a minha assinatura. E sem palavrões. E, no corpo do mail, fui claro: “favor responder confirmando o recebimento”.

Obviamente, não recebi resposta nenhuma.

Então, hoje, eu vou usar o esquema Tele-Sena do SBT: (voz do Lombardi mode: on) “De hora em hora, Rob Gordon vai reencaminhar o e-mail para o Visa com a frase ‘favor responder confirmando o recebimento’ escrita em vermelho, negrito e caixa alta”.

Isso até responderem. Aos poucos, vou começar a adicionar mensagens após essa frase, puxando papo. Coisas do tipo “alguém aí vai ao show do Iron?”, “Vocês já repararam que o Javier Bardem está igualzinho a Lílian Witte Fibe no filme dos irmãos Coen?”, ou algo menos elaborado, como “E o Fidel, hein?”.

Uma hora vão responder. E aí prometo que publico a resposta aqui.

19 de fevereiro de 2008

Na Lona

Então, é isso. Finalmente aconteceu.

Após meses de invencibilidade, acostumado com os louros e medalhas, finalmente estou caído, ouvindo a contagem do juiz, enquanto, ao fundo, ouço a torcida comemorando. O campeão está na lona, grita o povo, celebrando o fato de que ele é um homem como outro qualquer. Ele é humano. A última porrada ainda dói, o sangue escorre pelo meu rosto e tento, em vão, colocar a vista em foco antes de tentar me levantar novamente. E a contagem continua.

Dizem que quando você morre, sua vida inteira passa pelos seus olhos. Na frente dos meus, porém, passa apenas a inevitabilidade da derrota. Todos foram derrotados. O Império Romano ruiu perante meia dúzia de bárbaros; Napoleão caiu aos pés de Wellington, em Waterloo; Hitler, após dominar metade da Europa, foi chutado para dentro do seu bunker, na Batalha das Ardenas. Todos foram derrotados. Todos serão derrotados. Tirando o Brasil da Copa de 70 e o Jack Bauer, ninguém escapará disso. Nem eu. E hoje foi a minha vez.

Estava deitado, em paz, quase dormindo. O sono dos justos, dizem os poetas. Estado alfa, dizem os psicólogos. E, aos poucos, como acontece no estado alfa, diversos pensamentos começaram a passar pela cabeça, de forma desordenada. E sempre de forma suave, sem fazer barulho dentro da cabeça...Vão deslizando como um córrego, aumentando cada vez mais o sono.

O filme do final de semana... O sorriso da namorada... O aluguel... Preciso tentar bater meu recorde no baseball do Wii... Preciso postar no blog... Que sensacional aquele episódio de Shark.... A besta-fera está andando no quarto, estou ouvindo os passos... O aluguel... O show do Iron poderia ser amanhã... Powerslave... Rime of the Ancient Mariner... O aluguel... Amanhã o dia vai ser foda no trabalho... Será que o show do Ozzy demora?... Preciso rever a trilogia do Chefão... O aluguel... esse fim-de-semana, quero comprar minha pistola para Wii... Hoje eu vi um cara na rua igualzinho a um moleque que estudou comigo no primário... Como era o nome dele? Fábio? Flávio?

– PUTA QUE PARIU! O ALUGUEL!!!

Levantei bêbado de sono, quase tropeçando na Besta-fera e fui correndo para a sala. No meio do caminho, olhei para o relógio e procurei o dia, mas o sono deixou minha vista embaralhada, mal consegui ver meu braço. Fiz a curva na porta do quarto com a mesma velocidade média da Sandra Bullock em Velocidade Máxima e me atirei em cima da escrivaninha, quase derrubando o computador – mas virando um cinzeiro no chão.

Nem dei atenção às guimbas* se espalhando pelo chão e comecei a revirar os papéis atrás do maldito envelope branco. Assim que coloquei meus dedos nele, puxei-o da pilha nervoso, e rasguei ao tentar abri-lo. O boleto caiu na escrivaninha. Respirei fundo, temendo pelo pior e olhei a data de vencimento.

18/02/08
Após o vencimento, pagável somente na empresa

Olhei para o meu relógio, com calma. 19 de fevereiro.

Urrei algo parecido com um “Nãããããããão” que provavelmente acordou meu prédio inteiro, e fará com que minha síndica Brick Top coloque um retrato falado desse que vos escreve na porta do elevador, amanhã pela manhã, com a inscrição “Vivo ou Morto – Entregar na Portaria”. E, o pior, vai estar numa folha sulfite com a inscrição: “Escala 1:1. Tamanho real”.

Não me importo. Pode me matar, tudo acabou mesmo. Nada mais faz sentido. Após dois anos morando sozinho, um aluguel atrasado será o suficiente para minha mãe me ligar e dizer que sou irresponsável, que eu devo ter torrado meu dinheiro em CDs e DVDs. E eu vou rebater dizendo que apenas esqueci e ela vai dizer que “isso é pior ainda”. E vai dizer que ela nunca esqueceu, é uma irresponsabilidade muito grande, e que eu não sou mais moleque, e está na hora de crescer.

E, claro, vai perguntar docemente se eu vou almoçar lá no domingo, o que, obviamente, eu não serei louco de fazer pelos próximos dois meses, pois, assim que eu colocar os pés lá dentro, serei acusado, julgado e condenado como estelionatário (aliás, como último desejo, vou pedir para ela me ensinar a fazer arroz).

Então, amanhã, terei que ir até a imobiliária – independente de eu ter 319 coisas para resolver no trabalho ainda pela manhã – e implorar perdão pelo atraso. E, pior, morrer com 80 paus de multa (o que dá, exatamente, 2 churrascarias ou 0,3 jogo de Wii ou 3 DVDs ou 24,6 caixinhas de Marlboro). E o pior é que vou ter que pagar num balcão aberto, repleto de gente ao meu redor, e tenho certeza de que a gorda da atendente (não consigo imaginar ela magra, neste momento. Consigo vê-la apenas como gorda, maltratada pelo marido e pelos sete filhos e fã da Banda Mel) vai perguntar em alto e bom som:

– Ah, seu aluguel está atrasado????

– É... está...

– SEU ALUGUEL ESTÁ ATRASADO!!! (risada maléfica, torcendo as mãos gordinhas)

– Você pode falar mais baixo, por favor?

– PESSOAS COM ALUGUEL ATRASADO TÊM QUE PEGAR AQUELA FILA ALI! A FILA DOS... DOS... DOS... INADIMPLENTES!!! (risada maléfica, começando a me espetar com o tridente na direção da outra fila)

E, assim, eu irei para outra fila, provavelmente ficando atrás de um mendigo que atrasou o condomínio da caixa de geladeira que ele dorme, e que ainda vai me pedir um cigarro na saída. E eu vou pagar o aluguel (para surpresa da mulher, não vou usar moedas e perguntar se aceita ticket) e, claro, vão me dar um recibo em papel de pão. E ainda vão jogar na minha cara que, para quem atrasa aluguel, está mais que bom.

Amanhã vai ser um logo dia.

Até lá, já vou pensando em qual das Top 5 desculpas que vou usar amanhã na imobiliária eu vou acabar escolhendo:

1. "Oi, meu relógio é novo, eu não sei usar direito. Ao invés de atrasar a hora com o fim do horário de verão, eu atrasei o dia."

2. "Bom dia. Me converti para a religião maia, por isso não uso mais o mesmo calendário que essa empresa. Para mim, hoje ainda é dia 17."

3. "Olá. Não posso falar muito, pois estou sendo perseguido. Eu vim do futuro. Em alguns minutos, um rapaz parecido comigo e com a mesma roupa que estou entrará aqui com o aluguel atrasado. Não cobre multa dele, isso desencadeará uma série de eventos que resultará no fim da civilização!"

4. "Leve-me ao seu líder! Somente ele pode impedir que meu povo invada esse planeta inútil!"

5. "Um mago nunca se atrasa, atendente da imobiliária. Ele chega sempre precisamente na hora em que planejou!"


* Eu só falo "bituca", mas sempre quis usar a palavra guimba em algum lugar.

15 de fevereiro de 2008

Feitiço do Tempo

Como meus leitores sabem, meu cartão foi clonado, e alguém na Inglaterra está andando com um jaqueta de couro caríssima que eu comprei. Quando eu descobri isso, bloqueei meu cartão e pedi para estornarem as compras. Tudo foi tranqüilo, menos os dias em que fiquei sem cartão, porque eu compro absolutamente tudo no Visa Eletron ou no Visa. Logo, eu não podia sacar dinheiro, e a maioria dos lugares que eu vou não aceita cheque. Foi um inferno.

Até que o cartão chegou e liguei para desbloquear. E, seguindo as instruções que eu tive, no momento em que eu desbloqueasse o cartão, eu deveria checar se as compras irregulares (que ainda não estavam na fatura) haviam sido estornadas. Bem, elas não apenas não foram canceladas como entraram na fatura. Ou seja, tudo errado.

Liguei para lá, desbloqueei o cartão e apertei os 419 botões necessários para você conseguir escapar da gravação imbecil e falar com algum ser humano. Finalmente, consegui que alguém me atendesse. E, claro, foi pior do que eu pensei. Porque, assim como o personagem de Bill Murray em Feitiço do Tempo, eu descobri que estou preso dentro do mesmo dia, vivendo os mesmos acontecimentos – ao menos, para o pessoal do Visa.

– Visa, Fulano, boa noite. Em que posso ajudá-lo?

– Meu cartão foi clonado e agora, estou com um cartão novo. Quando eu bloqueei o cartão antigo, fui instruído a checar se as compras indevidas haviam sido estornadas. E não foram, porque elas continuam na minha fatura. Aliás, quando eu bloqueei o cartão, elas ainda não estavam na fatura, estavam pendentes. Agora, elas estão na fatura, ou seja, elas não apenas não foram estornadas como foram aprovadas.

– O senhor pode me dizer quais compras foram?

– São todas as compras em dólar. Cinco operações, no total.

– Estou vendo. E não foi o senhor quem realizou essas operações?

– Óbvio que não. Esse é “apenas” o assunto da conversa.

– Então vamos ter que bloquear o cartão, para sua segurança.

– Não, eu já bloqueei o cartão.

– Senhor, esse é um procedimento padrão para sua segurança. Seu cartão foi clonado. Estou bloqueando seu cartão.

– NÃO APERTE BOTÃO NENHUM! NÃO SE MEXA!

– Senhor?

– Eu já bloqueei o cartão! Eu passei dias sem cartão, mendigando trocado paras as pessoas para poder comprar cigarro. Cheguei quase ao cúmulo de pegar bitucas de cigarro da rua e em pontos de ônibus, porque eu só tinha cheque, e a merda do cartão não chegava nunca! Se você cancelar meu cartão, eu vou mandar assassinar você! Eu posso pagar isso em cheque!

– Ah, o cartão do senhor já foi bloqueado?

– Olhe, não vamos mais falar sobre bloquear o cartão, ok? Só vamos continuar a conversa se você prometer não tocar mais nesse assunto. Vamos falar da minha fatura? Por que essas compras em dólar estão na fatura?

– Não foi o senhor que as realizou?

– Deus do céu. Não, não fui eu.

– Então o senhor tem que contestar essas compras.

– Fulano, eu já contestei as compras. É por isso que estou ligando. Eu já passei por isso. Eu contestei e vocês não cancelaram. Pelo contrário, vocês confirmaram as compras.

– Só um minuto, senhor.

(....)

– Senhor Gordon, obrigado por ter aguardado.

– Ok.

– Estou checando aqui e vi que o Visa tentou entrar em contato com o senhor diversas vezes, todas elas em vão.

– Isso é mentira.

– Ligaram algumas vezes para o seu celular, sem sucesso.

– Eu não desligo o celular. Logo, permaneço com hipótese da mentira. Mas não leve para o lado pessoal, eu não acho que você está mentido. Acho que mentiram para você.

– Ligaram para sua residência, também, e o senhor não atendeu.

– É óbvio, eu moro sozinho. Se o telefone toca num momento em que eu não estou em casa, as chances de eu não atender são bem grandes.

– Mas foi mais de uma vez.

– Olhe, assim como você, eu trabalho. Eu não posso ficar em casa. Então, vocês escolhem: ou eu fico em casa esperando vocês ligarem, ou eu trabalho para conseguir dinheiro e pagar a fatura. Não consigo fazer os dois. Enfim, me ligaram para quê?

– Para checar as compras.

– Não precisavam checar nada. Eu já havia dito que elas não foram feitas por mim. Não tem o que checar. Se me perguntarem de novo, eu vou dizer isso de novo.

– Eles queriam checar se o senhor tem algum vínculo empregatício no Amazon.com.

– Quê?

– Sim, senhor.

– Qual o propósito dessa informação?

– É por causa das compras feitas no site, senhor.

– O que tem a ver o fato de eu trabalhar lá ou não? As compras não foram feitas por mim e é isso que vocês precisam saber.

– Então o senhor quer contestá-las?

– Não! Eu já contestei! Eu já fiz isso!

– Mas elas estão na fatura.

– (Suspiro)

– Senhor?

– (Suspiro desanimado) Sim?

– Estas compras as quais o senhor se refere estão na fatura.

– Fulano, essa frase é minha! Eu quem disse isso! Aliás, eu liguei justamente para reclamar disso.

– Senhor, o senhor deve contestar as compras indevidas, para sua segurança.

– Para minha segurança, não. Eu devo contestar para a segurança de vocês, porque eu não vou pagar isso. Aliás, eu já contestei. Elas continuam que continuam aí.

– Então o senhor quer contestar as compras?

– (suspiro) Sim. Quero.

– Só um minuto, vou transferir a ligação para o setor apropriado.

– Ok.

– O Visa agradece sua ligação e...

– TRANSFERE LOGO ESSA MERDA!!!

Claro que no meio da conversa com alguém do setor apropriado, a porra da ligação caiu. Fiquei uns 10 minutos no chão do trabalho, mordendo o carpete de ódio. Quando me acalmei um pouco, liguei (de novo) e, parece que (de novo) desta vez eu consegui (de novo) contestar as compras que eu não fiz (de novo). Vamos esperar até semana que vem (de novo), para ver se eu consigo romper o feitiço e fazer minha conversa com o Visa avançar alguns milímetros.

14 de fevereiro de 2008

Sim, chorei.

"Indiana Jones. I always knew some day you'd come walking back through my door."
(Marion Ravenwood - Os Caçadores da Arca Perdida)

Estava com um post quase pronto - aliás, o post está pronto, estava dando apenas o polimento final no texto - narrando a seqüência da minha guerra galáctica com o Visa, por causa do meu cartão clonado. Eis que pipoca meu msn, e é o Moulin tendo ataques histéricos por causa do trailer de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

Mandei absolutamente tudo à merda e abri o link. Coloquei o som no máximo e comecei a assistir.

Chorei.

O olho encheu de lágrima e o nó na garganta apertou até começar a música tema, quando não deu para segurar mais. Eu disse que isso iria acontecer, não disse? O que me assusta é que esse é só o teaser - e esse teaser, até agora, é o melhor filme do ano.

Quero ver o que vai acontecer comigo a hora em que o trailer de verdade chegar. Por segurança, estou rezando para que seja depois do show do Iron.



Esse blog só volta a funcionar quando esse filme estrear, ou quando eu deixar de ter oito anos de idade e voltar aos 32, o que acontecer primeiro. Enquanto isso, deixo vocês com o Top 5 melhores frases de Indiana Jones de todos os tempos:

1. "Cobras. Por que tinha que ser cobras?" (Os Caçadores da Arca Perdida)
2. "Nazistas. Eu odeio esses caras." (Indiana Jones e a Última Cruzada)
3. "Mola Ram! Prepare-se para encontrar Kali... no Inferno!" (Indiana Jones e o Templo da Perdição)
4. "Não me chame de Júnior!" (Indiana Jones e a Última Cruzada)
5. "Não são os anos, querida. É a quilometragem." (Os Caçadores da Arca Perdida)

13 de fevereiro de 2008

Mario? Que Mario?

Finalmente criei coragem e entrei na nova geração de videogames. Comprei um Wii. Agora, sou uma criança de 32 anos totalmente realizada – para desespero dos meus vizinhos, já que eu liguei o console no home theater 5.1, o que faz com que o prédio inteiro saiba quando estou jogando tênis.

Na verdade, eu já estava namorando um videogame novo há meses. Sempre fui louco por isso, desde que ganhei meu primeiro Atari, no longínquo início da década de 80 a. C. De lá para cá, passei por Master System, Mega Drive, PlayStation 2. Ou seja, além de entrar na nova geração, estou colocando os pés também na Nintendo, já que o único contato que eu tive com o tal do Mario na vida foi jogando Donkey Kong, no Atari, quando ele ainda se chamava Jumperman.

Então, de uns meses para cá, eu ia até às lojas e ficava, com aquela cara de gordo na Ofner, olhando o PlayStation3, o XBox360, o Wii e pensava: “um de vocês será meu um dia”. Mas, aí, eu fazia a cagada de olhar para os preços e o meu conceito de “um dia” se tornava bastante elástico, podendo ser até mesmo “um dia em 2014”. Uma duas vezes eu tive vontade de agarrar o controle das crianças que ficam jogando na Fnac e sair correndo para a rua. Mas como o segurança que fica na porta da loja tem a altura do pico do Jaraguá, decidi que o melhor mesmo seria comprar o console.

E, entre os três modelos, acabei optando pelo Wii, por diversos motivos. Primeiro, obviamente, o preço: é o mais barato dos três. Segundo, por ser da Nintendo. Afinal, a empresa está ainda lançando consoles e jogos há décadas. Já cansei de ver empresas de videogames nascerem, crescerem e morrerem e a Nintendo está sempre aí, disputando palmo a palmo o mercado há anos. A Nintendo é a empresa mais roots de todas que estão aí.

E, claro, optei pelo Wii pela inovação da jogabilidade. Claro, sempre terão os jogadores hardcore que vão vir encher meu saco. São aqueles gordinhos que já estão na faculdade e nunca beijaram na boca, mas, por outro lado, terminaram todos os Half-Life no modo hard, e passaram horas cumprindo uma missão dificílima no GTA apenas para trocar a cor do tênis do personagem. Eles vão falar que eu fiz bobagem, dizendo que “os gráficos do XBox360 e do PS3 são mó da hora, cara, tudo com shade e engine turbo quântica poligonal atravessada inversa”. Ah, me poupe. Gordinho besta.

Não tenho mais saco (ou idade, tanto faz) para aqueles jogos que parecem filmes, mas que não tem graça nenhuma, e que depois da segunda ou terceira fase você começa a perceber que está fazendo a mesma coisa desde o começo do jogo. Pelo pouco que eu pude ver, a Microsoft e a Sony decidiram apostar uma corrida para ver quem tem o console com os melhores gráficos, e a Nintendo optou por outro caminho, preferindo inovar todo o conceito de videogame, o que é muito mais interessante. Além disso, se eu quiser ver gráficos grandiosos e assustadores, prefiro comprar um livro de matemática aplicada, que sai bem mais barato.

Claro que tanto o XBox360 e o PlayStation3 devem ter jogos sensacionais, mas, sinceramente, eu deixei de pensar nisso a partir do momento em que eu liguei aquele maldito Wii Sports e comecei a jogar tênis. No começo, eu rebatia com o controle de forma tímida, até meio encabulado, com a Besta-fera me olhando de longe. Uns 10 minutos depois, eu já corria pela sala para rebater a bola, urrando a cada ponto que marcava. Mesma coisa no baseball. Já o boxe estabeleceu uma nova rotina na minha vida: a cada três lutas, preciso entrar no chuveiro, porque eu começo a pingar suor.


No pain, no gain. Literalmente.

E, obviamente, meu braço não direito não funciona mais. Tanto que estou digitando esse post desde domingo, com apenas uma das mãos (exagero mode:on), porque meu braço direito está totalmente inutilizado. Nos primeiros dias, ele latejava de dor sem parar – o que não me impedia de continuar jogando (gemendo, mas jogando). Todo o receio que eu tinha de não conseguir me entender com esse controle novo desapareceu após minutos jogando. Sem sacanagem, o negócio é inovador demais, chega a ser apaixonante.

Mas nem só de Wii Sports vive o meu Wii. Me aventurei também por Super Mario Galaxy que prova que o que faz com que um jogo seja lindo, visualmente falando, não são gráficos poderosos, mas apenas bom gosto. Claro que, como eu sou totalmente virgem no mundo do Mário, perco metade das piadas internas e referências a outros jogos, como o lance do crocodilo ser o vilão do jogo e do encanador ter uma transa mal resolvida com uma princesa loirinha. A única coisa que eu sabia sobre Mario é que ele ganha superpoderes por causa de cogumelos, mais ou menos como os caras do Pink Floyd nos anos 70. Mais nada. Mas isso não impediu que o jogo me deixasse impressionado, pelo fato de quase todas as fases serem esféricas – sim, ele anda em planetas, o que faz com que às vezes ele esteja de ponta-cabeça, às vezes de lado, e por aí vai. Difícil? Sim, eu também achava. Acredite, é a coisa mais intuitiva do mundo.

Pronto. Adeus, vida social.

Mas, claro, guardei o melhor para o final: Medal of Honor. Em PC ou no PlayStation2, eu zerei todos os jogos da série, e devo ter matado, até hoje, mais alemães que o Barry Pepper em O Resgate do Soldado Ryan. Mas no Wii a coisa chega a outro nível (e, como o console continua ligado no home theater, os vizinhos irão concordar comigo). Para atirar granadas, é necessário fazer, com o braço, o movimento de arremessar algo. E, em determinado momento, eu tive que pegar uma bazuca para explodir uma parede. Para isso, eu tive que posicionar o controle no meu ombro, como uma bazuca de verdade. Errei o primeiro tiro, porque estava quase chorando de tão emocionado que fiquei. Eu sei, eu tenho meus momentos nerds também.

A escopeta dispensa apresentações.

Ainda vou me arriscar com Zelda e, provavelmente, Metroid Prime. E aceito indicações de jogos aqui nos comentários. Mas, claro, vou comprar aquele zapper, uma pistola que você acopla o controle, feita especialmente para jogos de tiro, como Medal of Honor. Aí, meu amigo, basta você me colocar num telhado com um rifle sniper e 100 balas que eu acabo com essa guerra em menos de meia hora. E, enquanto isso não acontece, deixo vocês com o Top 5 jogos que mais marcaram em cada console até hoje (incluindo o PC, para contar 5 – ainda não quero colocar o Wii na lista):

1. Atari – Raiders of the Lost Ark: apesar de viciado mesmo em H. E. R. O., a adaptação do primeiro filme de Indiana Jones, foi, talvez, a primeira obra-prima que eu vi para videogames.

2. Master System – Phantasy Star: O RPG mais tesudo da história, precisei de quatro meses para acabar. Foi a única coisa que eu e meu irmão conseguimos fazer juntos, sem um enfiar a mão na cara do outro a cada 10 minutos.

3. Mega Drive – Sonic: Sim, eu joguei (muitos) jogos melhores para Mega. Mas não me esqueço do momento em que liguei o jogo pela primeira vez e minha mãe, do meu lado, perguntou: “realmente existem tantas cores assim no mundo?”

4. PlayStation2 – Medal of Honor: Todos os críticos falam que a série é repetitiva, e que nada muda de jogo para jogo. Eu, na verdade, acho que ela não muda porque simplesmente não tem como melhorar mais.

5. PC – Civilization: Fico com a série toda, mas o melhor ainda é o II. É o jogo de estratégia mais completo que existe. É, basicamente, o Age of Empires de gente grande.

8 de fevereiro de 2008

O Ataque dos Clones

– Com quem falo?

– Rob Gordon.

– O senhor pode confirmar seu CPF?

– Três números. Ponto. Três Números. Ponto. Três números. Traço. Dois números.

– Em que posso ajudá-lo?

– Meu cartão de crédito não está passando. Estou na loja, tentei passar duas vezes e deu “não autorizado”. E eu tenho limite disponível.

– Aqui diz que o limite do senhor está estourado em R$ 60,00.

– E eu digo que tenho limite.

– O senhor pode confirmar para mim o valor da sua fatura que vence amanhã?

– Não. Eu estou numa loja, não em casa. Eu não ando com a fatura no bolso.

– O senhor pode, então, confirmar, o valor da fatura que vencerá em março?

– Não, eu não ando com NENHUMA fatura no bolso. Sei que uma vence amanhã e outra em março. Mas eu sei disso porque uma venceu em janeiro. Deve ter uma em abril também, acredito. E em maio. Mas eu não tenho os valores aqui. De nenhuma delas. Elas estão em casa e eu estou na loja. Elas não vieram comigo.

– Mas o limite do senhor está estourado em R$ 60,00.

– Não está.

– É o que o sistema diz, senhor.

– O limite não está estourado.

– O senhor confirma US$ 2.900,00 em compras feitos no exterior?

– O limite não está... Quê?

– Sim, o senhor efetuou compras no valor de US$ 2.900,00 nos últimos dias.

– Só um minuto.

(Rob Gordon sai do telefone e começa a gargalhar histericamente na loja)

– Desculpe. Perdi totalmente o controle aqui. Podemos continuar?

– Aqui diz que o senhor realizou compras no valor de U$S 2.900,00 recentemente.

– Olhe, o mais perto que eu cheguei de gastar dólares foi ter comprado um CD importado do Megadeth. E paguei em real.

– Senhor, meu sistema diz...

– Eu sei, eu sei. Seu sistema diz que eu gastei US$ 2.900,00. Eu sei. Olhe, eu ligo de casa.

Cheguei em casa, conferi meu limite. Tudo Ok. Liguei novamente. Com poucos minutos de conversa (e após confirmar o CPF) confirmei o óbvio: meu cartão de crédito foi clonado. Sabe-se lá onde, ou como, mas foi clonado. E o legal é que uma quadrilha internacional, já que ele foi parar na Inglaterra. Claro, porque como é comigo, ele não iria parar num daqueles países de oitavo mundo que nem água potável tem, e um apartamento de quatro quartos custa o mesmo valor que pagamos numa revista Veja. Não. Ele tinha que parar na Inglaterra.

Ou seja, enquanto eu assistia a The Shield no carnaval, alguém estava em Londres, comprando uma jaqueta e utensílios domésticos com o meu cartão. Imagine o pessoal do Visa olhando a fatura:

– Fnac. Fnac. Churrascaria. Fnac. Fnac. Churrascaria. Churrascaria. Fnac. Olha só! Uma batedeira e uma máquina de lavar roupas! Será que ele casou?

– Duvido. Esse cara é irresponsável demais. A coisa mais adulta que ele compra é quadrinhos.

– Nada. Uns meses atrás ele comprou roupa de mulher. Deve ter casado.

– Foi em outubro?

– Acho que sim. Por quê?

– É aniversário da mãe dele. Todo outubro ele faz uma compra assim. No resto do ano, é só isso aí que você está vendo. Fnac e carne. Mais nada.

– Mas e essa batedeira aqui?

– Deixe-me ver... US$ 300!! Eu falo, ele é idiota! Ele comprou a batedeira na Inglaterra. No mínimo, ele leu em algum lugar que o negócio toca heavy metal enquanto funciona. È graças a sujeitos como ele que temos um bônus no final do ano. Devíamos aumentar o limite desse imbecil.

– Olha, o telefone está tocando. Atende aí, é sua vez.

– Visa, boa noite, com que estou falando?

(o atendente tapa o telefone com a mão e começa a sussurrar, segurando a risada)

– É ele! É ele! Ele está aqui no telefone xingando que não comprou batedeira nenhuma. Está falando que o cartão dele foi clonado!

– Fala que a gente não pode fazer nada! Fala isso e desliga! Ele que se foda!


Clonado seu cartão foi? Huuum... Seu CPF confirmar você pode?

Então, é isso. Se você quiser ir para a Inglaterra, pode ir, eu pago. É só encontrar meu cartão, que, a esta altura, está jogado em alguma caçada de Londres (aliás, é capaz de acharem meu cartão e mandarem uma multa para cá, alegando que eu joguei lixo na rua). Agora, por favor, já que eu que estou pagando tudo, você pode ao menos trazer para mim o CD Iron Maiden – Best of the B Sides, que só existe inglês e eu não encontro em lugar algum? Pode comprar sua jaqueta e até mesmo uma batedeira, mas não esquece meu CD, ok? Ah, e tenta parcelar em duas vezes, porque a fatura esse mês vai ser pesada.

Enquanto isso, deixo vocês com o Top 5 compras mais imbecis que fizeram com meu cartão clonado (estabelecimento e valor):

1. Creditca: US$ 4,00 – O cara clona meu cartão para fazer doações. E pior é que é capaz dele ir para o céu, e não eu.

2. Topman: US$ 418,00 – Mais de US$ 400 em roupas? Vem cá, quem está usando meu cartão? A Paris Hilton?

3. Itunes: US$ 1,00 – Ok, eu sei que ele fez isso apenas para testar o cartão. Mas do jeito que eu sou cagado, ele comprou uma música do Édson e Hudson e isso ficou registrado no meu nome.

4. John Smith: US$ 1848,00 – Quase US$ 2.000,00 numa loja de departamentos. Deus do céu. E o babaca aqui, feliz da vida porque era feriado.

4. Thames Water: US$ 235,00 – Essa é a tal loja de utensílios domésticos. Já que o sujeito queria comprar um jogo de copos e um pegador de macarrão, não podia ao menos ter a decência de ir numa loja de 1,99?


(veja a continuação dessa odisséia aqui)

1 de fevereiro de 2008

How do You Feel?

Acabou de ser divulgado o setlist do primeiro show da nova turnê do Iron Maiden, que passará pelo Brasil em março. O rock está dividido no Brasil, hoje. Enquanto os fãs de Bob Dylan choram pelo fato de alguns dos ingressos serem vendidos a um preço equivalente ao da construção do Via Funchal inteiro, os fãs de Iron Maiden comemoram aquele que é, certamente, o melhor setlist da banda em todas as turnês que passaram aqui pelo Terceiro Mundo.

Eu bati o olho no setlist e começou a me dar frio na barriga, pensando o que poderia acontecer (comigo ou não) em cada uma das músicas no show. Fã é uma merda mesmo. Quando eu vi, já estava escrevendo isso cantando o refrão de Aces High. É um post desconjuntado, sem muito nexo ou lógica. É um post totalmente emocional, de ansiedade, e não posso prometer que vou me sentir exatamente como escrevi durante o show. Mas, olhando novamente o setlist, talvez seja melhor escrever como vou me sentir agora, em fevereiro. Porque, depois do show, é capaz de eu não conseguir traduzir em palavras a sensação de assistir a ESTA banda tocando ESTAS músicas.

P.S. – Caso o setlist no Brasil seja totalmente diferente, fica sendo apenas um exercício literário.

P.S. 2 – Fãs do Dylan, compartilho de sua dor. O título do post é em homenagem a vocês.

Bem, sem mais delongas... Com vocês, o set list:

Intro - Churchill's Speech
We shall go on to the end. We shall fight in France. We shall fight on the seas and oceans. We shall fight with growing confidence and growing strength in the air. We shall defend our island whatever the cost may be. We shall fight on beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets. We shall fight in the hills. We shall never surrender!

Eu começarei a chorar em “We shall defend our island whatever the cost may be”.

Aces High
Na metade do segundo refrão, minha voz vai começar a falhar. Eu ainda vou estar procurando o Steve Harris no palco, e minha garganta já vai estar na porta do estádio, procurando por uma farmácia que venda uma pastilha Valda do tamanho de uma pizza.

2 Minutes to Midnight
De todos os clássicos da banda, esse foi o único que enjoei (o que ocorreu depois de ouvir a música 372 vezes). Ou seja, vou berrar cantar apenas o refrão e aproveitar o resto da música para tentar fumar um cigarro – para desespero da minha garganta. Provavelmente eu vou chorar mais um pouco, nem tanto pela música, mas mais para não correr o risco de chorar em Wasted Years e perder um pedaço da música.

Revelations
É uma música mais cadenciada que somente quem é fã conhece mesmo. Eu provavelmente vou olhar em alguns momentos para o céu e, ao invés de cantar o refrão, vou gritar “obrigado, Senhor!”. Claro que Deus não vai nem me dar atenção, primeiro porque ele não gosta de gente que ora fumando, segundo porque Ele também deve estar olhando o palco.

The Trooper
Será a terceira vez que vou ver essa música ao vivo. E, obviamente, vou urrar “You take my life but I’ll take yours too” como se fosse a primeira vez. Ou como se fosse a última, tanto faz. Na metade da música, minha garganta já estará analisando propostas para ser vocalista de uma banda cover do AC/DC.

Wasted Years
É a primeira música do Iron que eu ouvi na vida. Não importa quantas pessoas estiverem no estádio, naquela noite, eles estarão tocando isso para mim. É coisa de velhos amigos, não tente entender. Se eu tiver uma crise de choro, ignore e continue assistindo ao show. Eu estou bem, acredite.

The Number of the Beast
Um show do Iron sem essa música seria como… bem, seria como um show do Iron sem essa música. Se é a primeira vez que você assiste a um show da banda, uma dica: caso você não saiba falar a introdução da música, disfarce isso fingindo uma crise de tosse, senão você será malvisto no show – fã que é fã fala a introdução; quem está lá por modinha sabe cantar apenas o “six six six”.

Run to the Hills
A introdução de bateria dessa música é melhor que tudo o que o André Mattos compôs na vida – ou escutou nos últimos dois anos. Eu certamente vou desistir de cantar a letra na primeira estrofe, quando eu perceber que minha voz consegue emitir o som de apenas um fonema a cada cinco.

Rime of the Ancient Mariner
Essa música está para o heavy metal como Lawrence da Arábia está para o cinema. Se você sair do estádio para ir comer num rodízio no momento que eles começarem a tocar, quando você voltar eles ainda estarão no solo. Provavelmente, ao final da música eu vou sair do estádio, ir até a bilheteria e comprar outra entrada, alegando que o ingresso que eu tinha já foi gasto.

Powerslave
Eu não sei o que vai acontecer neste momento. Existem duas coisas que eu planejei a vida inteira: assistir a um filme do Homem-Aranha e ver o Iron Maiden tocando Powerslave ao vivo. A primeira delas aconteceu em 2001, e eu chorei o filme inteiro. Aqui, talvez aconteça o mesmo, mas vale lembrar que eu não sabia de cor “a letra” do filme do Homem-Aranha para cantar junto no cinema. O que provavelmente vá acontecer é que eu entre em choque no show e acorde somente no refrão da próxima música.

Heaven Can Wait
Essa música tem um coro que provavelmente fará o estádio trincar em alguns pedaços. Se você é uma das pessoas que ganhou a promoção da Kiss FM para cantar isso no palco, por favor, faça isso com o devido respeito, pois com religião não se brinca. Não tente bancar o engraçado e ir com uma camiseta do Nirvana, pois a probabilidade de você ser executado (leia-se empalado) antes de Fear of the Dark é bem grande.

Can I Play with Madness
É outra música que será a terceira vez que vou ver ao vivo. Então vou aproveitar e ficar um pouco mais quieto, repondo as energias. Isso, claro, até a metade do refrão. Aí eu sei que não vou agüentar e vou tentar gritar a letra. Meus pulmões estão conspirando para irem embora antes do bis – parece que um deles já combinou de rachar um táxi com a garganta.

Fear of the Dark
Junto com The Number of the Beast é a outra música do setlist conhecida até mesmo por quem não conhece Iron Maiden. E ela nem deveria estar no show, pois a turnê não engloba este álbum, mas está. Puxa, que pena, não?

Iron Maiden
É a música institucional da banda. Talvez seja aqui que o Eddie entre no palco. Ou não. A essa altura, não faz mais diferença. Se a minha mãe entrar no palco e cantar o refrão com o Bruce Dickinson, é capaz de eu começar a xingá-la, porque ela entrou na frente do Steve Harris.

Moonchild
É a primeira música do bis e a que abre o álbum Seventh Son of a Seventh Son. O show vai ser no Parque Antarctica, mas cada Moonchild cantado pelo Bruce Dickinson no refrão deve ser ouvido do Pacaembu.

The Clairvoyant
Não tente falar comigo durante a introdução da música, feita somente no baixo. Se você entrar na minha frente nesse momento, eu vou derrubar você com um chute e morder sua cabeça. Depois disso, eu provavelmente me tornarei um pouco mais acessível – o que não quer dizer que eu consiga conversar, pois estarei totalmente sem voz e não pretendo tirar os olhos do palco para me comunicar por mímica com as pessoas.

Hallowed be thy Name
Um dos melhores momentos de qualquer show do Iron é o “scream for me, Brazil!” que o Bruce Dickinson urra na metade dessa música. Curiosamente, o “scream for me, Brazil!” é uma das partes mais fraquinhas da música - isso para você ter uma idéia do que é Hallowed Be Thy Name ao vivo. O único defeito dessa música é que, na metade dela, vai começar a dar aquela sensação de vazio porque o show está acabando. E isso é culpa minha, não deles. Ou seja: chupa, eu.

Acabando essa música, eu provavelmente vou permanecer em pé, parado, durante uns 20 minutos. Só então vou perceber que fumei um maço inteiro de cigarros e que perdi minha garganta em algum lugar do estádio. E o problema é que eu vou ter que procurar, porque vou precisar dela ainda neste primeiro semestre (ozzy mode: on). Enquanto eu penso sobre isso, e somente para dizer que nada é perfeito, segue o Top 5 músicas do Iron Maiden que deveriam estar no setlist:

1. Seventh Son of a Seventh Son – o problema é que um show que tem Seventh Son of a Seventh Son e Rime of the Ancient Mariner teria uma duração maior que todo o Woodstock.

2. Caught Somewhere in Time – Teria que ser a primeira música do bis, para poder ter sua tradicional abertura ao vivo (o tema dos créditos finais de Blade Runner) sem correr o risco de tirar o discurso do Churchill da lista.

3. Alexander the Great – Eu ainda vou seqüestrar algum parente do Steve Harris e mandar uma carta dizendo que só devolvo quando tocarem isso ao vivo. Em São Paulo.

4. Killers – Ok, a única música da fase Paul D’ianno é Iron Maiden, mas essa não conta, é obrigatória. Killers cairia (muito) bem.

5. Where Eagles Dare – Podiam aproveitar que a música também aborda a II Guerra Mundial e tocá-la discretamente, depois de Aces High. Duvido que alguém iria reclamar.