30 de setembro de 2011

O Retorno

É engraçado como o segundo encontro é sempre mais estranho que o primeiro.

Foi assim com a psiquiatra. Acabei de sair do consultório dela. Na primeira consulta, no início de setembro, tudo estava diferente. Na verdade, passei boa parte de julho e agosto resistindo à primeira consulta. Era um pouco de preconceito. Não queria me tornar uma pessoa que precisa tomar remédios para ser feliz. Eu sei, a visão era errada, mas era a que eu tinha.

Com o tempo, me convenci do contrário, mesmo antes da consulta. Cheguei a um ponto, especialmente durante o mês de agosto, que minhas crises tinham uma frequência e duração assustadoras. Conversando com a Ana, conversando com amigos e, principalmente, conversando comigo mesmo, me conscientizei de que os remédios me fariam bem. Que o papel deles seria ajudar, e não me afundar em longo prazo.

A primeira consulta durou quase duas horas. Neste tempo, eu tive que contar sobre minha vida, minha rotina, minhas crises, o que detona cada uma delas, há quanto tempo eu tenho estes sintomas, se eu penso isso ou aquilo, se sinto vontade disso ou daquilo. Fui o mais sincero comigo, mas devo ter omitido muita coisa – não por falta de coragem, mas sim de tempo, pois não é exatamente fácil você colocar sua vida inteira na mesa em pouco mais de 100 minutos.

Mesmo assim, saí de lá muito mexido e revirado. Mas saí otimista. Não porque eu sentia que iria ficar bem, mas pelo simples fato de estar agindo, de estar fazendo algo. De lá para cá, tenho me cuidado. Tomo meu remédio todos os dias, evito situações e locais que possam me fazer mal – o que nem sempre é possível – e tento viver como sempre vivi, fazendo minhas tarefas até o cansaço chegar – algo que hoje acontece com muito mais rapidez que antigamente.

Melhorei? Melhorei. Mas sei que ainda estou longe de estar 100%. Como já disse aqui, semana passada tive uma nova crise que, se não me jogou na apatia completa, me fez passar três ou quatro dias agarrado na beira de um fosso, lutando para não cair.

E esta semana foi marcada pela volta das crises de ansiedade. Foram três, sendo que a última aconteceu ontem, enquanto ia para o Shopping Eldorado. Foi mais fraca, mas ainda forte o suficiente para fazer com que eu não almoçasse direito, precisasse voltar de táxi para casa e passasse o resto do dia fora do ar.

Mas ontem eu conquistei uma grande vitória: mesmo com a crise, ontem eu fiquei sozinho em casa, à noite, pela primeira vez em semanas. Conversando com a Ana, chegamos à conclusão de que era hora de experimentar isso. Fiz quase como um viciado que pretende abandonar o vício: me cerquei de revistas e livros, filmes e jogos, comida e cigarros para ter esconderijos para onde correr. Nada poderia me atrapalhar – e, se algo me atrapalhasse, eu tinha a segurança de que ligar para a Ana faria com que ela chegasse aqui em no máximo uma hora.

Tudo o que eu precisava fazer era não me afundar, que era exatamente o que acontecia quando eu ficava sozinho. Bastava eu ficar sozinho para os demônios cercarem minha cabeça, me traindo e me puxando para baixo, até eu me entregar totalmente. E consegui. Pode parecer pouco, mas foi uma grande vitória – confesso que eu estava com medo de ficar sozinho assim.

E hoje eu contei isso na psiquiatra. A segunda consulta foi um pouco estranha... Eu não precisei me apresentar e numerar meus demônios um por um. Ela já me conhece, então, eu entrei no consultório dela e todos os demônios entraram comigo. Todos eles.

Mas conversamos muito. Sobre como estou e o que os remédios tem feito. Sobre a minha maldita incapacidade de dormir – mesmo morrendo de sono, eu deito e fico rolando na cama, pensando em tudo ao mesmo tempo agora, sem conseguir relaxar – e sobre os pesadelos que giram sempre em torno dos mesmos assuntos e são cada vez mais recorrentes.

Conversamos muito. Contei pra ela que atualmente, uma noite bem dormida e sem sonhos (porque elas acontecem) é uma das coisas mais valiosas na minha vida. Justo comigo, que era famoso por dormir praticamente em qualquer lugar que me encostasse. Faz parte, acho. Mas também contei sobre efeitos colaterais do remédio: minha falta de apetite durante boa parte do dia, o que eu penso e sinto – tanto quando estou bem, conseguindo ver tudo com clareza, ou quando não estou.

E contei sobre meu blog.

Na verdade, eu já havia contado para ela na primeira consulta – ela ficou com os endereços dos dois blogs. Hoje eu contei sobre como escrever sobre a depressão e sobre a síndrome do pânico me acalma e me dá paz. Porque, além de ser autêntico comigo mesmo, enquanto escrevo sobre isso estou digerindo as doenças, pensando sobre elas de forma organizada. E, claro, é desabafar, tirar do peito.

Mas nada disso funciona sem publicar o texto. Para mim, texto escrito e não publicado é texto não escrito. Publicar é o último estágio do processo – e, no caso da depressão, é quando eu tenho a coragem de fazer as pazes com o mundo e comigo mesmo, ao menos por algumas horas.

E contei a ela sobre vocês, sobre o apoio que vocês me dão e como isso tem sido importante, me mostrando que sou uma pessoa que sofre de doenças e não um desajustado, como eu mesmo me julgava algumas semanas atrás. Contei sobre alguns comentários, sobre o fato de muita gente ter se identificado com o que sinto... Sobre os e-mails que recebi de leitores que preferiram um contato mais próximo. Tudo isso é muito importante.

A consulta foi boa. Nos primeiros minutos, desatei a falar sobre tudo, talvez evitando dizer “ainda não estou bem” por receio de falar isso em voz alta, ou por receio de dizer “estou melhor” e ser contrariado abertamente. Mas conversamos bastante... Hoje foi mais uma sessão de terapia que uma consulta médica – o que ficou claro nas três ou quatro vezes que ela gargalhou alto na sala com algo que eu disse.

Mas se um passo foi dado, falta todo o resto da caminhada. O laudo continua o mesmo, e o número de remédio aumentou. Além do Lexapro e do Rivotril, preciso tomar também Donaren, que, teoricamente, irá me ajudar a dormir com mais facilidade – no que diz respeito aos sonhos, continuo por conta própria.

Mas hoje eu sei que os sonhos são apenas os demônios brincando. E sei que os remédios podem fazer com que eles se acalmem, mas exterminá-los depende apenas de mim. Vai ser uma luta constante, diária, para enterrá-los no fundo da memória. E depende apenas de mim. Como a Ana diz, o remédio é apenas uma arma, a guerra mesmo é travada dentro de mim.

Em um mês eu volto para uma nova consulta. Até lá, tenho as sessões regulares de terapia. Mas se existe algo que eu aprendi neste mês de setembro é que eu não preciso me preocupar, agora, em saber como estarei daqui a um mês. Porque eu não faço ideia, na verdade, nem de como eu vou estar amanhã.

Mas eu torço muito para estar bem amanhã. E amanhã vou torcer ainda mais para estar melhor depois de amanhã. Porque, de amanhã em amanhã, outubro ficará para trás, e, se eu estiver ao menos de pé, será mais uma batalha vencida.

E assim, mesmo com mais um remédio, vamos em frente, com passos pequenos, e sempre vivendo um dia após o outro.

Obrigado por todo o apoio aí desse lado.

Obrigado de verdade.

Rob


PS – Como eu disse antes, escrever sobre outros assuntos tem me feito bem. Caso você não tenha visto, tem um texto aqui no Chronicles sobre a polêmica campanha da Hope, e este aqui, no Malvadezas, sobre uma invasão de mortos vivos narrada pelo Datena. Independente da qualidade deles, me diverti fazendo ambos, e isso os torna especial demais para mim – daí a vontade bem grande de compartilhá-los com vocês. Inclusive, se este texto acima pareceu um pouco confuso, deve-se ao cansaço de emendar um texto grande (o do Chronicles) em outro, algo que eu ainda tenha dificuldade de lidar.

29 de setembro de 2011

Amor de Sangue


“Até onde eu posso me lembrar, sempre quis ser um gângster.” A frase, que abre o excelente filme Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, poderia ser colocada dentro da minha biografia. Afinal, como todo amante de cinema, eu sempre quis ser mafioso.

Bem, antes que você pense que eu usava chapéu, terno e sobretudo ao oito anos de idade, vamos esclarecer que, nessa idade, meu sonho era ser jogador de futebol. Minha vontade de pertencer à Máfia deve ter surgido por volta dos meus quinze anos, quando eu assisti a O Poderoso Chefão pela primeira vez. De lá para cá, o crime organizado se tornou uma das minhas paixões, e devorei todos os filmes e livros que pude encontrar sobre o assunto.

Felizmente – ou infelizmente, não sei ao certo –, acabei me tornando escritor. Mas se existe algo que eu carreguei comigo de todos os filmes e livros sobre a Máfia é o amor e o respeito pela família.

(leia mais aqui)

28 de setembro de 2011

Rock in Life

Eu gostaria muito me lembrar de verdade do primeiro Rock in Rio.

Mas não me lembro. Talvez eu saiba mais sobre o festival de 1985 do que a respeito de muitos shows que eu fui pessoalmente, mas tudo o que sei foi porque aprendi depois, lendo e estudando.

Sei, por exemplo, que o Iron Maiden desviou totalmente a rota da turnê World Slavery Tour – que renderia o magnífico álbum Live After Death – para tocar na capital carioca, vindo dos Estados Unidos para o Brasil e voltando para os Estados Unidos, dando início a um verdadeiro caso de amor com o público brasileiro.

Mas falo de Iron Maiden por ser a banda de heavy metal que mais gosto. Havia outras, muitas outras, que vi pessoalmente anos depois. E acredito que devo isso ao Rock in Rio. Será que eu, no Brasil, teria a oportunidade de assistir a Ozzy Osbourne, AC/DC e Whitesnake ao vivo, caso estes grupos não tivessem tocado, anos antes no primeiro festival? Duvido.

Mesmo a respeito de bandas que nunca fui a um concerto, sei do caráter mítico do festival. Como por exemplo o Queen, cujos integrantes sempre apontaram sua performance como uma das maiores da história da banda; o Scorpions, que usou imagens de sua visita ao Rio no videoclipe de Still Loving You (“Time... We Need Time...”) feito para promover o álbum World Wide Live.

Mas eu me recordo muito da segunda edição do festival. Meu casamento com o heavy metal ainda era um namoro recente, mas, como todo relacionamento novo, a paixão era imensa. Assim, eu me recordo de devorar tudo o que consegui sobre as bandas deste estilo – e me lembro da dor no coração que senti ao não poder assistir aos shows pessoalmente.

Mas vi tudo pela TV. Tudo.

Vi um Sepultura que ainda gravava o álbum Arise subir ao palco; vi um Judas Priest promovendo “somente” o álbum Painkiller, que marcaria a despedida de Rob Halford da banda por anos e anos; vi um Megadeth tocando com garra as canções do seu então disco mais recente, Rust in Peace, hoje um clássico.

Mas, me recordo especialmente de ficar hipnotizado com o show do Faith no More, banda que sempre adorei e que pisava no país pela primeira vez, promovendo o disco The Real Thing, que considero um dos últimos grandes álbuns da história. Aliás, em algumas semanas eu assistirei a um show do Faith No More (junto com Megadeth, veja que coincidência) pela primeira vez. Será que eles teriam tocado tantas vezes no Brasil sem o Rock in Rio II? Duvido.

Mas não preciso sequer pensar para me recordar do show do Guns N’ Roses. Mais que um show, foi um evento, não apenas pela popularidade da banda – que estava em seu auge, antes de Axl Rose virar uma prima dona e desmantelar o conjunto – mas também porque foi nessa ocasião que o grupo apresentou, pela primeira vez, as músicas dos dois discos duplos (sim, duplos, pois estou falando de LPs) Use Your Illusion I e Use Your Illusion II.

Até hoje me recordo que a banda entrou ao palco ao som de Pretty Tied Up – era a primeira vez que o mundo ouvia a canção, e eu estava assistindo ao vivo pela TV. Me recordo do solo de guitarra de Slash, no qual ele executa passagens do tema de O Poderoso Chefão, e dos principais hits, como Sweet Child O’Mine, Patience e Paradise City, que fizeram Axl Rose perder totalmente a voz.

E me lembro claramente de, dias depois, ir ao centro comprar discos na lendária Woodstock e dar de cara com a jaqueta que Axl usou no show (de couro, branca, com o logo da banda nas costas) pendurada e sendo vendida por uma verdadeira fortuna. Lembro-me de esticar o braço e tocar na jaqueta. Justamente por isso que não consegui disfarçar o sorriso, ano passado, ao ler uma biografia importada da banda e descobrir que Axl deu um escândalo nos bastidores ao descobrir que a jaqueta havia sido roubada. E eu toquei na jaqueta.

Anos e anos se passaram, e eu comecei a assistir a shows pessoalmente.

Contudo, na segunda metade dos anos 90, minha paixão pela música deu lugar a novos amores, sobretudo o cinema – que também me acompanhava desde criança mas começou a tomar ares de profissão e os livros.

E, como se soubesse disso, o Rock in Rio deixou de acontecer.

Foi preciso um novo milênio para que eu voltasse para o rock e, por coincidência – ou não? – o Rock in Rio voltou.

Do Rock in Rio III eu também me lembro muito bem. E confesso que senti uma pitada de orgulho ao ver que a minha banda de heavy metal agora era o grande nome do evento. Mais importante que isso, o Iron Maiden vivia um momento especial, com o retorno de Bruce Dickinson ao posto de vocalista, numa apresentação que rendeu um CD e um DVD magníficos.

Outros nomes me saltam à memória. O Sepultura mostrou que existia vida numa era pós-Max Cavalera, e fazendo o caminho inverso, Rob Halford mostrando que sua voz potente não dependia dos músicos do Judas Priest – e o momento em que a plateia inteira canta Breaking the Law mais alto que ele, fazendo o inglês chorar no palco (algo que ele se orgulha até hoje) comprova isso.

Me lembro também da nova apresentação do Guns N’ Roses, numa fase negra da banda, que já parecia uma banda cover de luxo. Mesmo assim, assisti, pelo carinho que sempre tive a respeito do Guns, banda que me abriu os caminhos do rock, no final dos anos 80. E também me recordo de uma apresentação lendária do R.E.M., que colocou o grupo de vez no panteão do rock contemporâneo.

Isso faz dez anos. E eu me recordo de tudo.

Em todo o meu relacionamento com a música, o Rock in Rio sempre esteve presente, caminhando paralelamente ao meu gosto musical. Hoje, bandas que gosto, em especial Motörhead, Metallica – e, claro, Guns N’ Roses – estão se apresentando no Rock in Rio IV.

E, como um velho amigo, resolveu comemorar seu retorno ao Brasil nesta sua quarta edição me enviando um presente. Afinal, durante décadas eu pude assistir, mesmo que pela TV, a alguns dos maiores shows da história graças ao Rock in Rio.

E, a partir de agora, eu vou poder ouvir estas mesmas bandas graças ao Rock in Rio e a Philips, como se as bandas estivessem tocando na minha sala, somente para mim.

(aumente a foto para ler a carta)


Nada mais justo que eu escrevesse este texto como agradecimento.

Obrigado, pelo presente e pelas memórias.

Obrigado, velho amigo.

27 de setembro de 2011

Oi, Você se Lembra da Minha Voz?

Para quem não se lembra, eu dei uma entrevista sobre assuntos como crônicas e a publicação do meu livro (à época, eu tinha lançado apenas o Anônimos e Urbanos) para a equipe do programa Pra Ler, da Rádio UFMG Educativa.

Mas, como eu afirmei na época, a pauta, na verdade, foi formado por duas entrevistas separadas, sendo que a segunda era totalmente sobre a HQ Terapia e a experiência de se escrever quadrinhos.

Agora, ela foi disponibilizada na íntegra e eu a reproduzo aqui no blog. Um agradecimento à equipe do programa pelo espaço cedido e, claro, à dupla Mario Cau e Marina Kurcis, parceiros nesta empreitada da qual eu tenho muito, muito orgulho de fazer parte.

Eu sei, eu falo rápido demais. Ou, como eu mesmo colocaria, “absurdamente rápido”. Mas, mesmo assim, espero que gostem!

Rob Gordon Terapia by thaiscmarinho


E nunca é demais lembrar que amanhã é quarta-feira e tem página nova do Terapia.

26 de setembro de 2011

Marcenaria de Letras


— Faça sempre o que você gosta.

— Ame o que você faz, acima de tudo.

Meu pai costumava falar essas frases para mim quando era criança. isso aconteceu mais de uma vez e, quando queria se alongar sobre o assunto, ele usava diversas profissões como exemplo. De acordo com ele, eu poderia ser marceneiro, ator, sapateiro, executivo ou advogado, desde que fosse honesto e gostasse do meu trabalho.

(leia mais aqui)

25 de setembro de 2011

O Ritual

– Que cheiro de charuto é esse? Você está sentindo?

– ...

– O que aconteceu? Sua boca está cheia de sangue!

– ...

– O que é essa coisa preta no chão? É uma galinha?

– ...

– Isso é uma galinha morta! O que você está fazendo no meu quarto?

– ...

– Você matou essa galin... Isso é um defumador? Onde você conseguiu um defumador?

– ...

– E essa garrafa de pinga? O que é tudo isso?

– ...

– E essas velas? O que você quer com essas velas?

– ...

– Têm velas vermelhas, velas pretas... Tem flores também! Onde você arrumou isso?

– ...

– Olha pra mim quando eu falo com você!

– ...

– Pare de acender essas velas! Presta atenção em mim!

– ...

– Olha pra mim!

– ...

– O que aconteceu com seus olhos? Seus olhos estão brancos!

– ...

– Responde! O que é tudo isso no meu quarto?

– ...

– E essa coisa amarela? É farofa?

– ...

– Limpa esse sangue da boca! Isso é farofa?

– ...

– Limpa esse sangue e some com tudo isso!

– ...

– Estou falando sério! Limpa tudo isso agora!

– ...

– Meu quarto está parecendo um terreiro! Limpa isso... Merda. Espere um pouco. Alô? Sim, sou eu. Isso, o dono do Besta-Fera. Como assim o banho dele foi cancelado? Eu marquei hoje de manhã, já estava indo levar ele aí. Como assim acabou a água? Não, aqui tem água. Nem na caixa e nem na rua? Mas não é possível, aqui tem água! Bom, tudo bem. Não, não quero marcar outra hora para ele tomar banho. Depois eu ligo. Ok. Ok. Obrigado. Tchau. Pronto. Era isso que você queria?

– ...

– Babaca. Não sei se você sabe, eu durmo aqui.

– ...

– Você tem dez minutos para sumir com tudo isso e limpar esse sangue da boca.

– ...

– Por que eu não posso ter um cachorro normal como as outras pessoas?

– ...

– E tira essas guias do pescoço e coloca sua coleira de volta!

24 de setembro de 2011

Passos Pequenos

As coisas haviam melhorado e depois pioraram.

Os últimos três ou quatro dias foram bem difíceis aqui.

Por isso que não respondi nem os comentários do post anterior. Todos eles – ou, ao menos, a grande maioria – tinham um otimista que, se no começo da semana fazia sentido, eu não conseguia mais enxergar nos últimos dias.

Assim, eu simplesmente não consegui responder a nenhuma mensagem. Queria dar uma satisfação sobre isso, pois eu disse que responderia a todas – o mesmo vale para os e-mails que recebi. Como de costume, li tudo, mas não me enxergava mais em nenhum comentário sobre eu ter melhorado, ou sobre meu tom estar mais leve. Muitos leitores mostravam felicidade por eu ter melhorado quando, no dia seguinte, eu piorei tudo de novo.

Acho que recaídas fazem parte do processo. Ao menos, me falaram isso.
Não deve ter ajudado muito o fato de eu ter mudado o horário do remédio. Explico: eu tomo o Lexapro pela manhã, mas tenho a liberdade de mudar para a noite caso sinta muito sono durante o dia. Como eu morria de sono todas as tardes – e acabava dormindo, o que me impedia de dormir à noite, mesmo com o Rivotril -, experimentei tomá-lo depois do jantar.

Não sei até onde isso influenciou, mas as crises voltaram, pela primeira vez desde que comecei a tomar os remédios. De repente, tudo se torna maior que você; tudo se torna culpa sua; tudo está contra você. E tudo o que você consegue fazer, como resposta, é ficar apático, torcendo para que passe. Mas não passa.

Porque os demônios estão sempre à espreita. A Ana chama de traumas – talvez ela esteja certa –, eu chamo de demônios. São os meus demônios, e, se eu não sei exatamente como eles são, faço uma grande ideia. Se eu baixar minha guarda, eles entram novamente na minha cabeça e começam a dançar, fazendo uma enorme bagunça lá dentro.

Isso acontece quando estou acordado, mas é pior quando durmo. Com a volta dos demônios, voltam os pesadelos, que fazem você acordar de manhã como se tivesse apanhado a noite inteira. E, quanto mais isso acontece, mais difícil é lutar contra. Você sabe que precisa lutar, mas falta força e ânimo. Falta propósito.

E, no momento em que surge uma fagulha, uma pequena faísca, a apatia explode em raiva ou em choro. Ou em ambos. Normalmente, em ambos.

Estes foram meus últimos três dias, com breves intervalos nos quais eu me levantava apenas para cair de novo. Agora eu consegui me levantar de verdade. Não como herói, com olhar valente e peito estufado, chamando todo mundo para o pau.

Apenas consegui me colocar de pé e estou olhando todos os demônios ao meu redor. Se no começo da semana eles pareciam ter se escondido, agora, enquanto escrevo isso sei que eles ainda estão aqui e ficarão por mais uns dias. E a prova disso é que o termômetro do meu PC marca 19 graus e eu escrevo isso no sofá, tremendo de frio e com o aquecedor ligado.

Mas, ao menos, estou de pé novamente. Hoje, isso conta muito.

E é justamente por isso que estou escrevendo aqui. Não fiz nada do que me propus – responder comentários e e-mails que não fossem profissionais; voltar a escrever – porque eu havia caído novamente. Mas, para mim, publicar aqui o que aconteceu e que estou de pé significa que esta última crise acabou. Ainda dói, ainda não consigo caminhar direito como achei que conseguiria no começo da semana, mas estou de pé.

Colocar isto no blog é um modo de externalizar, o que me ajuda a “oficializar” a coisa. E aí não me importa se estou escrevendo porque estou de pé, ou se fiquei de pé para escrever que estou de pé. O que importa é que estou de pé, depois de três ou quatro dias caído.

Não vou prometer nada, mas entre hoje e amanhã eu devo começar a responder os comentários e e-mails que recebi. Mas uma promessa que fiz para mim mesmo é que vou escrever um post no Champ, sobre outro assunto. Algo que me divirta escrevendo.

Será um post curto – eu tentei escrever coisas maiores esses dias, mas não passava do segundo parágrafo – e a Ana já sabe do que se trata (pois “externalizar” para ela é uma forma de me forçar a escrever).

Mas o meu pedido é que ele seja lido normalmente, como se fosse apenas mais um post no Champ. Quero, de verdade, que tudo isso que vocês sabem que estou passando seja deixado de lado enquanto leem outros posts. Então, não se sinta obrigado a gostar do post – mesmo porque ele não será grande coisa – ou a comentá-lo somente porque estou doente. Lembre-se que a minha grande vitória será escrevê-lo, independente da qualidade e do número de comentários.

Como eu disse, estou de pé. Quero apenas fazer algo enquanto estou assim, pois é algo que eu devo para mim.

Como já disseram aqui, “passos pequenos”.

A todos que ficaram preocupados, desculpem pelo sumiço destes dias.

20 de setembro de 2011

Uma Semana Depois

É difícil voltar.

Passei os últimos quatro ou cinco dias morrendo de vontade de postar no blog, mas, em todas as vezes que tentei escrever, algo parecia me impedir. Ficava olhando a tela em branco, digitando começos de textos que não me agradavam – e, se não me agrada, eu não consigo dar continuidade.

Assim, eu percebi que ainda é difícil escrever quando o assunto sou eu – e, em 99% dos textos deste blog, o assunto sou eu. Não sei se é porque ainda estou mexido demais com tudo o que vem acontecendo, não sei se é efeito dos remédios. Quando a psiquiatra me receitou os remédios, a primeira coisa que perguntei foi se algum dos efeitos colaterais iria mexer com a minha criatividade – afinal, eu vivo disso – e ela disse que não.

Na verdade, enquanto escrevo isso – e é a primeira vez que eu chego a quatro parágrafos tão rapidamente ao escrever um texto para o Champ nestes dias, sinal que estou no caminho certo – estou entendendo que eu não deveria mais escrever no blog enquanto não agradecesse a todo o carinho recebido em cada um dos comentários.

Como algumas pessoas devem ter reparado, eu, agora, faço questão de responder todos os comentários do blog. Todos, sem exceção. Longe de ser para “aumentar” o número de comentários (nunca precisei disso), esta ideia serve para eu me aproximar ainda mais das pessoas.

E aqui, não falo somente de leitores, mas sim de “pessoas” mesmo. Pois uma das consequências da depressão é querer se isolar totalmente em alguns momentos. Assim, acho que responder aos comentários do blog é uma forma de eu lutar contra isso, praticamente “me forçando” a conversar com vocês. Isso irá continuar aqui – no Chronicles não, pois lá, como se trata de ficção, quero sempre que os textos funcionem sozinhos e por conta própria.

Mas o que estou tentando dizer é que o blog funciona como terapia também – algo que eu nunca escondi e que tem sido essencial neste momento tão complicado.

Ficção eu ainda escrevo com facilidade. Ao menos, eu acho. Postei algumas coisas no Chronicles outro dia, mesmo que sejam ligadas diretamente ao que estou passando (este mostra um dia bom; este mostra uma das crises de ansiedade). E sexta-feira teve texto novo no Malvadezas, que escrevi com (relativa) facilidade justamente por conseguir me colocar (ao menos enquanto escrevia) como um simples personagem do diálogo – é outra forma que encontrei de escrever sobre mim atualmente.

Assim, antes de voltar – ou, ao menos, tentar voltar – ao tom normal deste blog, gostaria de agradecer mais uma vez todos os comentários recebidos. Todos, sem exceção, foram importantes e alguns me emocionaram demais. Alguns leitores também me mandaram e-mails ao invés de comentar, e eu faço questão de responder a todos eles – devo fazer isso entre hoje e amanhã. Desculpem pela demora.

E quero agradecer, sobretudo, o respeito em cada um dos comentários, especialmente de pessoas que nunca passaram por isso. Muita gente se identificou com o que escrevi, mas fiquei sensibilizado demais por gente que apenas faz ideia do que essa doença implica se esforçando para entender o que tentei passar aqui, e mostrando apoio e carinho da mesma forma. Pode parecer clichê ou auto-ajuda, mas, nessas horas, isso conta muito.

Claro que certamente teve gente que leu o que escrevi e achou que se trata de frescura, ou que estou tentando chamar a atenção – e eu acho isso compreensível, já que é uma reação normal à minha doença. Não culpo ninguém por isso - e espero, do fundo do meu coração, que estas pessoas jamais passem pelo que passei / estou passando.

Caso você seja uma delas e esteja lendo este texto, meus sinceros agradecimentos por ter permanecido em silêncio, o que mostra, ao menos, respeito pelo que estou passando, mesmo que seja algo que esteja além da sua compreensão. Obrigado de verdade pela educação.

E, agora, vamos tentar tocar a vida em frente, no que diz respeito a textos. Hoje tenho alguns frilas para terminar, e um post para um blog que me convidou a fazer um texto especial. E tenho que colocar minha vida em dia com o Mario e a Marina, a equipe do Terapia, que pacientemente soube lidar com meus sumiços – que, espero, se tornarão cada vez mais raros.

Mas estou começando a ter ideias para novas crônicas e posts no velho estilo Champ. E, se no começo me forçarei a escrever num tom mais leve, espero de verdade que logo este tom mais leve apareça naturalmente em cada texto e, principalmente, em cada dia. Como disseram mais de uma vez nos comentários, hora de passos pequenos, sempre para frente.

É difícil voltar. Mas eu vou voltar.

Obrigado de verdade pelo apoio.

Obrigado de verdade.


Update: Em tempo, ainda com a política de me aproximar cada vez mais dos leitores estou com perfil oficial no Facebook. Basta clicar aqui e me adicionar.

13 de setembro de 2011

Uma Verdade Inconveniente

Pronto. Agora que o meu aniversário passou, podemos conversar sério um pouco.

E não se preocupe que o começo deste texto não é um trampolim para alguma piada que eu vou tirar da cartola alguns parágrafos abaixo. Não. Na verdade, este texto é mais um desabafo. Então, vamos direto ao ponto, porque não existe um modo fácil de dizer isso.

O fato é que estou doente.

O diagnóstico saiu alguns dias atrás: Depressão e Síndrome do Pânico. Ou, melhor dizendo, Quase-Síndrome do Pânico. Este “Quase” significa, nas palavras da médica, que “se a Síndrome do Pânico fosse um penhasco, você estaria a um passo dele, olhando para baixo”.

Eu sei que hoje em dia parece até clichê ter estas doenças. São os chamados “males da vida moderna” e estão sempre na capa da Veja, especialmente quando eles não têm um assunto melhor. Algumas pessoas consideram frescura, enquanto outras insistem em espalhar aos quatro ventos que sofrem disso, somente para justificar suas atitudes com mais facilidade.

No meu caso não se trata de frescura – os atestados médicos e as receitas de remédio estão aqui na mesa para provar isso – tampouco como uma desculpa ou um álibi, já que eu preferia justificar qualquer coisa que fiz (ou até mesmo que não fiz) a ter que enfrentar algumas crises pelas quais passei.

Sim, esta é a palavra exata: “crises”.

Não sei se isso ocorre com todos que sofrem dessas doenças. Talvez para algumas pessoas as coisas aconteçam de forma mais regular e uniforme, mas, no meu caso, o grande problema são as crises, que são espécies de picos.

Mas daqui a pouco eu falo disso. Primeiro eu quero falar que, mesmo com o diagnóstico oficial ter saído somente alguns dias atrás, os sintomas estão comigo há bastante tempo. No mínimo, um ano.

Fazia tempo que eu alternava momentos bons com outros ruins, sendo que eu não entendia ao certo o motivo dos momentos ruins existirem. Não era incomum eu ficar sozinho no trabalho até de madrugada, sem vontade de ir para casa; não era incomum eu me sentir incapaz de reagir ou ao menos lidar com alguns problemas cotidianos que, numa situação normal, pareceriam banais; ou entrar em casa de madrugada e chorar por me sentir sozinho e vazio.

Os leitores mais antigos dos meus blogs devem ter sentido a diferença. Meu tom mudou. Os textos leves começaram a se alternar com posts mais reflexivos, melancólicos e até mesmo alguns extremamente sombrios – principalmente no Chronicles, mas no Champ também. E não estou falando dos últimos dois meses, estou falando de um ano – talvez mais – para cá.

Vasculhe o ano de 2010 do Chronicles e você entenderá isso. Pois, como eu disse certa vez, não sou o que escrevo, mas eu escrevo o que sou. E alguns destes textos mostram o que eu estava me tornando. Ou, melhor dizendo, o que estava acontecendo comigo. Porque, e isso é bom frisar, eu não mudei. Eu apenas estou doente.

Enfim, os sintomas iam e voltavam. Davam um soco e desapareciam. Era um soco forte o suficiente para fazer com que eu me sentisse absurdamente vazio, mas não era forte o suficiente para me derrubar. Logo, tudo isso permanecia escondido, esperando o momento de dar o próximo golpe.

E um dos problemas da depressão – hoje eu sei – é que você não entende ao certo qual é o problema. Não é como uma gripe, que basta dois espirros para você saber que está doente. Você apenas se sente mal – às vezes muito mal – mas sem identificar o que está acontecendo.

Contudo, em alguns momentos, cheguei a desconfiar, sim, que estava com depressão – ou com princípio de depressão, não sei – e conversei com algumas pessoas sobre isto. Mas um dos grandes problemas da depressão, como eu disse, é que muita gente acredita que não se trata de uma doença, mas sim de “frescura”.

Assim, nas poucas vezes em que criei coragem para conversar sobre o desânimo e a solidão que sentia, fui rechaçado como se estivesse inventando os sintomas para não conseguir resolver problemas ou tomar decisões, ou até mesmo “querendo” ter depressão para chamar a atenção. Ouvir isso me fazia engolir o que estava sentindo. Tentava me convencer de que eu estava apenas cansado ou de que não estava em um dia bom, e lutava para seguir em frente da melhor maneira possível.

E, com isso, as doenças permaneciam escondidas, esperando o momento certo para atacar de verdade. Poderia ter acontecido durante o ano passado, poderia acontecer no ano que vem. Talvez pudesse até nunca ter acontecido. Mas aconteceu agora somente porque este foi o momento que elas escolheram para isso.

Será que se as doenças tivessem sido diagnosticadas quando os sintomas começaram eu estaria bem hoje? Talvez.

Mas isso faz diferença agora?

Não. Não faz diferença nenhuma.

Porque hoje eu não preciso de nenhum “e se?”, hoje eu preciso lidar com fatos. E o único fato que me importa agora é que estou doente e que preciso ficar bem. Nada mais importa. Mesmo porque, quando eu tenho as piores crises – eu avisei lá em cima que iria falar delas – nada mais existe.

Vamos lá: como eu tenho duas doenças, tenho enfrentado dois tipos de crises. Vou tentar descrever aqui da melhor forma possível, e desculpe se este trecho soar didático demais.

Primeiro, vamos falar da Depressão. Existem dias em que estou bem e dias em que não estou. Isso acontece com todo mundo, mas, no meu caso, os dias em que não estou bem são bem mais frequentes e se transformam em uma enorme bola de neve em questão de minutos. Eu não sei explicar ao certo como tudo começa – fiquei pensando alguns minutos aqui, mas não encontrei as palavras exatas, pois é tudo muito nublado – mas, quando eu percebo, estou no meio de um poço de melancolia, tristeza e solidão que me puxa cada vez mais para baixo.

Normalmente acontece quando fico sozinho – tanto que estou proibido de ficar sozinho. Foram muitas crises assim. A pior delas durou dois dias, que eu passei sentado no sofá me alimentando de Coca-Cola, café e cigarros, porque eu não sinto fome quando isso acontece – para não dizer que não ingeri nada sólido, comi, durante estes dois dias, um pacote de biscoitos. Mas aconteceram outras crises dessas, que duraram menos tempo. Não foram poucas.

Este rodamoinho de pensamentos e emoções dura até eu encontrar alguém com quem possa conversar. No momento em que isto acontece, eu começo a tentar debater tudo o que estou sentindo, ignorando o fato de que muito do que falo não tem lógica alguma, e serve apenas para me destruir – normalmente são questionamentos sem respostas, e que surgem disfarçados de argumentos que tentam provar que eu sou a pior pessoa do mundo.

E se a pessoa começa a rebater o que digo, dizendo que eu não sou a pior pessoa do planeta, que eu apenas “não estou bem”, minha inteligência entra em campo e começa a fazer gol contra atrás de gol contra, encontrando falhas em todos os argumentos que contraria minhas ideias (ou seja, que “me defendem” de mim mesmo). Assumo o papel de réu, de promotor e de juiz.

Mas o debate dura somente até as emoções tomarem conta de mim e o meu lado racional me abandonar. Nesta hora, eu sou tomado por uma tristeza incontrolável ou por uma crise de raiva que me faz ter vontade de quebrar tudo. Ambos sem um motivo claro. Mas, independente de ser tristeza ou raiva, o desfecho é sempre o mesmo: uma crise de choro de cerca de meia hora, na qual eu continuo sem sequer fazer ideia do motivo de eu estar chorando, mas, mesmo assim (ou justamente por causa disso) não consigo parar.

Este é um tipo de crise. Existe outro, que está ligado diretamente à Quase-Síndrome do Pânico. Uma pessoa com Síndrome do Pânico não consegue sair de casa, pois acredita que irá morrer.

O meu “quase” me permite sair de casa, mas eu não consigo mais lidar com lugares lotados. A primeira vez que aconteceu foi num McDonald’s. Comecei a me sentir acuado pelas pessoas na fila do caixa e senti medo. Não é receio nem desconforto. É medo. Estou falando de mãos suadas, frio na barriga, pernas bambas, tontura. E não é medo de algo específico, é apenas medo.

Aconteceu outras vezes, e é justamente por isso que, atualmente, eu preciso evitar alguns lugares, como a Teodoro Sampaio. Eu simplesmente não consigo mais andar por ela, e toda vez que preciso andar pelo bairro, escolho uma rua mais deserta. O mesmo acontece com o Largo da Batata. É muita gente, muitas barracas, muitas coisas, sons... Eu começo a me sentir acuado. Uma vez, indo ao Shopping Eldorado a pé, precisei parar duas vezes no meio do caminho para me recuperar e tentar seguir em frente.

Assim, agora, eu preciso sempre frequentar lugares mais vazios, como parques, museus, galerias de arte. A única exceção em termos de avenidas é a Paulista que, com suas calçadas largas, me dá certa segurança já que eu consigo “navegar” entre as pessoas, sem me sentir acuado.

Da forma que coloquei no texto, talvez estas crises pareçam como algo fácil de ser lidado. Não é, confiem em mim. Elas são horríveis.

E sei que certamente alguém lerá todo este texto achando que estou tentando “assumir o papel de coitadinho”, ou “chamando a atenção”, pois hoje eu sei que esta é uma reação comum quando alguém afirma estar com depressão. Cada pessoa, claro, tem o direito de entender este post como quiser, mas a única coisa que eu faço questão de dizer é que não preciso que sintam pena de mim. Atualização: Na verdade, e isso me ocorreu depois que postei o texto, é que conseguir falar abertamente sobre tudo isso já é uma grande vitória para mim. E eu faço questão dela.

Na verdade, eu não preciso de pena, mas justamente do contrário. Nada de pena. O que eu preciso, na verdade, é tomar meio comprimido de Lexapro todas as manhãs e duas gotas de Rivotril quando as crises de ansiedade ameaçam aparecer (quando meu peito começa a doer conforme eu respiro, sei que é hora de tomar o remédio). Mas nada de pena. Porque eu estou doente, e não sou um coitadinho, e muito menos quero esse papel.

Mas vale dizer que hoje eu não tenho somente dias ruins; hoje, tenho dias tranquilos, em que consigo atravessar o dia inteiro sem nenhuma crise, algo que, algumas semanas atrás, parecia uma meta impossível de ser alcançada.

Mas, mesmo com os dias ruins ainda existindo, é importante dizer que eu consegui proteger minha vida profissional. Me sinto como se tivesse força para blindar somente um aspecto da minha vida, e escolhi justamente a parte profissional. Continuo trabalhando com a mesma dedicação e o mesmo empenho de sempre, tentando entregar o melhor texto possível e cumprindo todos os meus prazos religiosamente. Porque, se minha inteligência algumas vezes tem jogado contra mim, me traindo, meu senso de responsabilidade continua agindo a meu favor.

Por outro lado, muitos outros aspectos da minha vida foram completamente afetados por estas doenças. Minha alimentação é totalmente irregular: existem dias em que eu apenas não tenho fome e a simples ideia de comer me embrulha o estômago; tenho dormido pessimamente, de forma agitada e com pesadelos – mas isso é algo que vem melhorando.

E, claro, minha vida virtual está totalmente errática. Tenho dificuldade em responder e-mails pessoais, pois às vezes não quero contato com ninguém, com medo (irracional, eu sei) de me sentir exposto. O Twitter, por sua vez, é uma faca de dois gumes: entrar lá e “conversar sobre nada” me ajuda a ter bons momentos; mas, às vezes, ele me incomoda, então sei que é hora de fechar o programa e fazer outra coisa. Por isso que às vezes eu tuito feito louco e, às vezes, passo dois ou três dias totalmente desaparecido.

E o blog – ou, melhor dizendo, os blogs – como eu afirmei acima, refletem exatamente o que sou e como estou. Textos sombrios se alternam com textos leves. Hoje eu sei que isso é bom, já que existiram épocas com texto pesado atrás de texto pesado. E justamente por isso que eu pensei em deletar os blogs alguns meses atrás, pois eu não via mais um modo de voltar a ser o que eu era antes.

Mas eu encaro cada texto leve que faço como algo especial, pois eles acontecem nos dias bons. E cada dia bom, atualmente, é uma vitória enorme.

Porque, eu vou dizer duas coisas: primeiro, é difícil voltar a ser o que eu era antes. É bem difícil.

Mas, segundo e mais importante: eu vou voltar.

Eu vou derrotar esta merda.

E eu sei disso porque tenho algumas pessoas ao meu lado que são fundamentais para isso. Começando pela minha família – um dos motivos deste post demorar a ser escrito é que eu queria conversar com eles antes. Meus pais e meu irmão não ficam mais de dois dias sem me ligar, e isso transmite uma “sensação de amor” essencial para mim.

Segundo, alguns amigos. A maior parte deles nem em São Paulo está – estamos falando de pessoas em outros estados, países e até mesmo em continentes diferentes – que se preocupam, que exigem receber notícias sobre como estou, que me apoiam, me escutam e me guiam no caminho correto, que é algo que muitas vezes não consigo ver com clareza, ainda. Não vou dar nomes com medo de esquecer alguém, mas eles sabem quem são.

Terceiro, a namorada, que surgiu na minha vida na hora certa. Trata-se de uma pessoa que simplesmente abriu mão da própria vida neste momento, por ver que eu não consigo andar hoje em dia com as próprias pernas. A Ana Claudia está o tempo inteiro ao meu lado, cuidando, se esforçando, marcando médicos, me obrigando a comer. E sem esperar absolutamente nada em troca. Minto: a única coisa que ela espera é que eu melhore.

E, eu vou ser sincero: espero que isso que estou passando nunca aconteça com ninguém. Mas, caso aconteça (porque sim, shit happens) e você um dia passe meia hora sentado no chão da cozinha, chorando, aos berros, sem sequer entender o motivo de estar chorando – o que faz você chorar mais ainda –, torça para ter uma pessoa que fique cada minuto desta crise abraçada com você, tentando te acalmar e dizendo no seu ouvido que “vai passar, eu prometo”.

Porque isso é algo que não tem preço – eu precisei descer até o inferno para descobrir, espero que você descubra de uma forma mais fácil.

É graças a estas pessoas – e a minha psicóloga, claro – que estou de pé hoje. E é em nome destas pessoas que eu vou vencer estar merda. Eu prometo. Prometo para vocês e prometo para elas.

E, principalmente, prometo para mim.

Desculpe pelo tamanho do post. Desculpe se ele pareceu didático demais, ou distante demais em algum momento. Isso é efeito do remédio e, acredite, é algo bom hoje em dia.

E, mais importante, obrigado por ler até aqui.

Rob.

12 de setembro de 2011

O Preço da Felicidade


Dizem que o dinheiro não traz felicidade. Eu já ouvi essa frase centenas de vezes. O mesmo deve ter acontecido com você. Quando crianças, ouvimos isso dos nossos pais, avós, professores ou de qualquer outra pessoa que seja responsável por nossa educação.

Ao crescermos, esse pensamento continua aparecendo em diversas situações, tanto em conversas de bar – ocasiões em que a frase é dita sempre num tom filosófico – como em arquivos de PowerPoint, especialmente aqueles repletos de imagens de anjinhos e paisagens bonitas.

(leia mais aqui)

10 de setembro de 2011

Rob 36 x 100 Beatles

"Crescer acontece em um batimento cardíaco. Um dia você usa fraldas, no outro dia você se foi. Mas as memórias da infância permanecem com você durante este longo intervalo. Eu me lembro de um lugar, de uma cidade, de uma casa igual a muitas outras casas, de um quintal igual a muitos outros quintais, de uma rua igual a muitas outras ruas. E, mesmo após todos estes anos, eu ainda olho para trás, com admiração."

(Kevin Arnold, Anos Incríveis)


Em alguns momentos, é preciso voltar a ser criança para ficar mais velho.

Ou melhor dizendo: para crescer.

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E, para encerrar o post, deixo um presente para os leitores: a minha lista com o meu Top 100 Beatles. Basta clicar aqui. Divirtam-se - evitando os xingamentos porque 1) a lista é extremamente pessoal e 2) não é bonito xingar alguém no dia do seu aniversário.

E saibam que outras listas virão pela frente.

5 de setembro de 2011

Amor de Quatro Patas


Eu me lembro da primeira noite que passei no meu apartamento após decidir morar sozinho. Era uma quarta-feira à noite, e fiquei cerca de duas horas arrumando meus livros na sala, ouvindo heavy metal no volume máximo. Acho que era Judas Priest, não me recordo bem – mas meus vizinhos certamente ainda se lembram disso.

Passei três meses nesse clima. Tudo era motivo para eu mostrar a mim mesmo que morava sozinho. Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Andava de cuecas pela casa, resolvia fritar ovos com bacon no meio da madrugada e, às vezes, desafiava a resistência dos fusíveis ao deixar a televisão, o aparelho de som e o computador ligados. Vale lembrar que, muitas vezes, eu não estava usando nenhum deles, e sim lendo em algum canto.

(leia mais aqui)

1 de setembro de 2011

Pequena Discussão Semântica

- Oi.

- Posso ajudar?

- Sim. Eu queria duas cabaninhas.

- Como?

- Cabaninha. Aquele doce ali.

- Qual?

- Aquele ali. Ao lado das bombas de chocolate.

- O bolo triângulo?

- Isso. A cabaninha.

- Dois bolos triângulo?

- Sim. Duas cabaninhas. E uma água.

Sinto muito, vendedora da Brunella. A cabaninha é o meu doce e eu vencerei pelo cansaço. Minha meta de vida agora é institucionalizar o nome cabaninha.

(Se você não sabe do que estou falando, leia o post anterior. Caso queira um texto maior, tente o BatCasal no Chronicles)