É impressionante como o segredo da vida está nos números. De acordo com a saga O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, na qual foi criado também Marvin, o andróide depressivo (ou se você preferir, o robozinho aí de cima), a resposta para a vida, o universo e tudo mais é 42.
Já de acordo com os leitores do blog, a resposta para o Champ, o Rob e tudo mais é 76.
Sim, este foi o número de comentários recebidos no post Carlos, Seu Criado, quantidade que o coloca entre os cinco mais comentados na história do blog. Até aí, nada de mais: textos dos mais diversos assuntos entram e saem desta lista desde que ela foi criada. Aliás, é estranho olhar hoje para o post mais comentado (Carta Aberta ao Sr. André Forastieri), com seus 213 comentários, e lembrar que, durante muitos anos, a lista foi liderada pelo texto Babel, que permaneceu no topo do ranking com 13 comentários. Sim, isso mesmo. 13 (hoje ele tem 14).
Mas estou me alongando: no post Carlos, Seu Criado, eu propus um desafio aos leitores: caso o texto entrasse na relação dos mais vendidos (ou seja, ultrapassasse os 66 comentários), eu postaria uma foto minha aqui no blog.
E o post teve 76 comentários (até agora). Ou seja, deu leitores. Se o número 69 é conhecido por ser uma posição sexual, o número 76 pode descrever, então, uma variante deste estilo (pois também envolve sexo oral).
Em outras palavras: “chupa, Rob.”
Assim, estou em estudos para a produção das fotos. Afinal, não posso simplesmente ir até o espelho do elevador do meu prédio e tirar uma foto. Sou baixinho, sou careca, sou gordinho, mas não sou emo, nem da família Restart.
Já entrei em contato com alguns dos maiores fotógrafos do país, convidando-os para tirar uma foto minha. Assim que eu encontrar algum disposto e disponível – e com orçamento condizente com a realidade de um jornalista que não ganha nada com o blog – entro em estúdio.
Assim, aguardem notícias sobre isso para os próximos dias.
Update: Aceito sugestões de fotógrafos nos comentários. Pensei em J. R. Duran ou em Sebastião Salgado (estou mais inclinado a este último, pois assim eu definitivamente ficaria mais magro nas imagens). Mas todas as sugestões serão analisadas e estudadas com carinho.
28 de maio de 2010
25 de maio de 2010
Uma Vida em Copas: EUA - 1994

Em 1994, eu já havia sido campeão do mundo duas vezes. As duas, porém, com meu time, que derrotou o Barcelona (1992) e o Milan (1993), em dois jogos históricos.
O jogo contra o Milan, aliás, entrou na história da minha vida. Para quem não sabe, a partida acabou 3 x 2 para o São Paulo, sendo que o terceiro gol foi marcado por Müller, aos 41 do segundo tempo, e de forma totalmente sem querer (ele foi pular o goleiro e a bola bateu em seu calcanhar, indo para dentro do gol). Era madrugada e, enquanto meus amigos começaram a berrar e a pular na sala da minha casa, eu desmaiei.
Aliás, não sei se o termo correto é “desmaiar”, mas sei que perdi o final do jogo: estava sentado no chão da sala e, quando a bola entrou, eu simplesmente caí de costas no tapete, praticamente sem sentidos. Voltei a mim com meus amigos e meu pai me abanando e me sacudindo. Quando entendi o que estava acontecendo, eu já era bicampeão do mundo.
Então, eu já conhecia a felicidade de ser campeão do mundo. E, àquela altura da minha vida, ver meu time ser campeão do mundo (derrotando duas das maiores equipes da época) foi uma experiência inesquecível. Afinal, todo torcedor de futebol tem uma proximidade muito maior com seu time do que com a seleção. Eu estava no Morumbi, por exemplo, em todos os jogos da taça Libertadores da América, de 1993 (que resultou na partida contra o Milan, no final do ano). Por outro lado, até hoje eu nunca fui ao estádio ver um jogo do Brasil.
Assim, naquela época, eu me lembro de ter dito a alguns amigos que “quero que a Copa se foda, eu já sou campeão do mundo pelo São Paulo”. À época, talvez eu realmente acreditasse nisso. Hoje, olhando em retrospecto, eu sei que estava fingindo (para mim mesmo) desprezo pela Copa do Mundo somente porque eu não suportaria a dor de mais uma derrota. E repeti este discurso por alguns meses até o final de 1993, quando – com a incoerência típica de alguém com 18 anos de idade – mudei totalmente o discurso.
Sim, a Copa de 1994 começou, na minha vida, em outubro de 1993, no momento em que me virei para dois amigos e disse:
– O Brasil vai ser campeão do mundo no próximo ano. A seleção não é tudo isso, mas nenhum outro país tem time para ganhar a Copa.
E falei isso com pontos finais e ar tranqüilo, de autoridade. Meus amigos não apenas respeitaram a minha opinião como provavelmente acreditaram em mim. Afinal, eu entendia um pouco do assunto, já que eu era filho de quem era. Mas eu não posso culpá-los. Eu também acreditava naquilo.
Hoje, olhando em retrospecto, eu sei que não tinha motivo nenhum para acreditar na vitória. Não, minto. Eu tinha um, puramente imbecil, que era baseado em números. Vou tentar explicar aqui. O Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez em 1958, na sexta copa do mundo (1930, 1934, 1938, 1950, 1954 e 1958). Como em 1970 o Brasil ganhou definitivamente a taça Jules Rimet, uma nova taça foi colocada em disputa no torneio seguinte. Desta forma, a copa de 1994 seria a sexta copa do mundo com esta nova taça (1974, 1978, 1982, 1986, 1990, 1994). E, para mim, isso bastava.
Eu sei que a teoria é completamente energúmena, mas não posso evitar. Até hoje, em vésperas de jogos decisivos do meu time ou da seleção brasileira, eu tomado pela ansiedade, ando pela rua procuro por sinais ou pistas (nas pessoas, nos carros, nos prédios, em tudo) de quem irá ganhar o jogo.
Aliás, eu vou ser sincero aqui. Eu não sei exatamente se realmente acreditava na vitória do Brasil, ou se esta teoria esdrúxula foi a maneira que eu encontrei de dizer aos meus amigos que “eu preciso que o Brasil ganhe esta copa, porque eu não vou conseguir lidar com mais uma derrota”.
Como digo desde os primeiros textos dessa série, eu queria ter heróis como os do meu pai. E as histórias que meu pai contava sobre os clubes do passado não me tocavam tanto quanto suas histórias sobre aqueles heróis que haviam conquistado o mundo nos gramados da Suécia, do Chile e do México, décadas antes. Mais que ser campeão com o São Paulo, eu queria ser campeão do mundo com minha seleção.
Agora, eu realmente não consigo compreender se foi meu lado otimista ou se foi meu lado racional que, tomando uma cerveja com meu pai num bar ao lado do Shopping Ibirapuera (não consigo me lembrar se isso foi um dia antes do início da Copa, ou um dia antes do jogo de estréia do Brasil), fez com que eu me virasse para ele e falasse:
– Eu acho que o Brasil vai ganhar essa copa.
Ele tomou um gole de cerveja, permaneceu em silêncio alguns segundos e respondeu, com sinceridade:
– Eu também.
Será que se o Brasil tivesse perdido esta copa, eu me lembraria disso hoje? Não faço idéia. O que eu sei que me lembraria com clareza são as muitas e muitas imagens da Copa em si, mais do que as outras.
Porque se você assistiu à Copa de 1994 tendo assistido a qualquer outra antes, o salto de qualidade na transmissão foi impressionante. Tudo aquilo que vemos hoje, que transforma o torneio num espetáculo visual (câmeras aéreas, closes em jogadores) começou ali, na Copa dos Estados Unidos. Visualmente falando, ela era tão impressionante que a Copa de 90 parecia ter sido realizada coisa de quinze ou vinte anos antes.
Mas claro que nem mesmo as imagens lindíssimas fariam o Brasil jogar bola de verdade na primeira fase. O problema do time de Carlos Alberto Parreira não era a retranca tática da equipe em si, mas sim o fato de que a equipe não parecia se encontrar em campo. Ganhamos da Rússia por 2 x 0, na estréia, mas com sufoco.
Em pé: Taffarel, Jorginho, Aldair, Mauro Silva, Márcio Santos e Branco.Agachados: Mazinho, Romário, Dunga, Bebeto, Zinho.
Após as mudanças na escalação, este foram os onze que trouxeram a Copa.
Do meio de campo para trás, o time funcionava perfeitamente. Mas, à frente a história era outra. Raí, o camisa 10, rendia muito abaixo do esperado (o que fez com que ele desse lugar a Mazinho, logo no início da Copa). Zinho rendia exatamente o que era esperado, segurando a bola o tempo todo, sem produzir muito. Bebeto e Romário faziam o que podiam na frente (sendo que Romário sempre deixou claro, em suas atitudes, que jogava a copa para ele, e não para o time).
Minha sorte é que os outros times pareciam viver, também, um péssimo momento, sobretudo a Itália, que, a esta altura, eu odiava com todas as minhas forças – o que explica o fato de eu e meu pai termos nos abraçado gritando, quando eles tomaram um gol da Irlanda na derrota que sofreram na primeira fase. Já a Argentina, que eu também odiava com todas as minhas forças, parecia estar no caminho certo: a geração era memorável, e Maradona, já velho, parecia disposto a tudo para transformar aquela Copa em algo semelhante para a sua carreira como a Copa de 70 havia sido para Pelé.
Deste lado da tela, a torcida era maior que o futebol jogado pelo Brasil. Ao contrário da imprensa brasileira, eu comprei a idéia do time de Parreira – mesmo abominando a figura dele como técnico desde aquela época – e mergulhei de cabeça na Copa de 94.
E amigos, parentes e superstições vieram junto comigo.
Aliás, esta foi a Copa das superstições. Ao final do primeiro tempo de todos os jogos, eu e um amigo tínhamos que dar uma volta no quarteirão de casa (fizemos isso contra a Rússia e deu certo, assim passamos a fazer isso em todos os jogos). Outra coisa que nasceu no jogo contra a Rússia foi o cronômetro do meu pai. Ele decidiu que iria assistir ao jogo com um daqueles cronômetros que ficam pendurados no pescoço. Com 2 x 0 para o Brasil, ele se proibiu (e eu endossei a proibição) de assistir a outro jogo sem aquilo no pescoço.
Parece que deu certo, mesmo com o time caminhando aos trancos e barrancos. O placar da vitória contra Camarões (3 x 0) não faz justiça ao futebol jogado; já o da partida contra a Suécia, que encerrou a primeira fase (1 x 1), sim.
Mesmo assim, estávamos na segunda fase.
As oitavas de final começaram com um bom presságio: A Argentina, após perder Maradona num polêmico caso de doping, entrou em campo totalmente abalada para enfrentar a Romênia, que tinha aquele que, em minha opinião, era o melhor jogador da Copa: Hagi, um camisa 10 cerebral e técnico. Com 3 x 2 para os europeus, a Argentina voltava para casa, e minha Copa se tornava mais leve.
Mas, se a Argentina tinha problemas, eu também tinha, e não porque o Brasil iria enfrentar os Estados Unidos, donos da casa, justamente no dia 4 de julho, maior feriado deles, mas por causa do meu pai.
Devido a um problema na perna, ele estava internado aquela semana – nada grave, apenas o suficiente para ele precisar ficar em observação. E, com ele fora de casa, o fantasma das eliminações de 86 e 90 (causados, a meu ver, pela mudança do lugar em que minha família assistia ao jogo) começou a me rondar. Assim, na manhã do dia do jogo, eu já havia decidido: iria assistir à partida em casa. Meu pai assistiu ali, no hospital com a minha mãe, falando comigo antes, durante e depois – e, claro, com o cronômetro, que eu fiz questão de levar para lá antes do jogo.
Deu certo. Com 1 x 0, o Brasil venceu o ferrolho norte americano e chegou às quartas de final para enfrentar a Holanda, naquele que seria considerado um dos maiores jogos da história das Copas. Eu, claro, não sabia disso, e estava confiante, pois, mesmo sem jogar um futebol vistoso, o time era sólido na defesa.
Lembro-me como se fosse hoje. Chegamos ao final do primeiro tempo ganhando por 2 x 0 da temível Holanda. Voltei da tradicional “volta no quarteirão” com meu amigo e sentamos para ver o segundo tempo, prevendo uma goleada que faria o time decolar no torneio. Estávamos totalmente errados. O Brasil voltou a campo completamente perdido na partida, e tomou um gol antes dos 20 minutos. Eu comecei a me apavorar e recordo até hoje a voz do meu pai quando ele disse, ao meu lado:
– Puta que pariu, deu bobeira no time.
Eu me assustei justamente porque ele não estava assustado, mas conformado. O “puta que pariu” dele foi assustadoramente frio, como se ele tivesse percebido que tudo iria por água abaixo naquele dia. E sua previsão aparentemente se concretizou minutos depois, quando a Holanda empatou.
E foi aí que eu enlouqueci.
Levantei de onde estava – acho que estava no chão da sala – desesperado de ódio, procurando por alguma coisa para quebrar. Eu não estava bravo com o gol de empate, eu estava furioso por estarmos ganhando de forma fácil e termos estragado tudo sozinhos. Mas, mais que qualquer outra coisa, eu estava com medo de nunca ver o Brasil passar das quartas-de-final de uma copa, e comecei a achar que o problema era comigo, que era eu quem fazia algo errado. Assim, eu me levantei gritando todos os palavrões que eu conhecia desesperado para socar ou chutar alguma coisa. Eu precisava descontar em algo.
Foi quando eu vi a tampa do quadro de luz da casa da minha mãe: um painel de madeira branca próximo à porta da cozinha. Assim que eu levantei a mão, minha mãe, assustada (mas prevendo o pior), gritou algo como “não soca nada!” e eu obedeci, não soquei nada. Ao invés disso, abaixei a mão e dei uma cabeçada com tudo no negócio que afundou na parede. Infantil? Muito. Doeu? Muito. Mas eu precisava machucar alguma coisa. Ou, melhor dizendo, eu precisava machucar a mim, para sentir outro tipo de dor, que não aquela.
Mas existem dias em que tudo dá certo. Após cavar uma falta (ou melhor, cometer uma falta no holandês), o lateral Branco – que havia entrado no lugar de Leonardo, suspenso após ter sido expulso no jogo anterior por arrebentar o rosto de Tab Ramos com uma cotovelada – literalmente achou um gol, de fora da área, numa daquelas cobranças mágicas que jamais resultariam em gol novamente. Passei uns cinco minutos totalmente descontrolado, sem saber se gritava, se chorava, se saía correndo pela rua, e, não sei como, acabei encontrando alguma forma de sobreviver até o final do jogo, apavorado com a idéia da Holanda empatar novamente.
Uma fração de segundos depois, o placar estaria Brasil 3 x2 Holanda.E eu estaria descontrolado, do outro lado da América.
Hoje, pensando racionalmente, é óbvio que o Brasil se tornou campeão naquele jogo. Mas eu não conseguia ver isso – mesmo porque eu tinha medo de pensar assim e perder a copa novamente. Na verdade, ao final da partida, eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse “eu estou na semifinal da Copa”. Eu nunca havia chegado tão longe numa Copa do Mundo. Eu não fazia idéia de como era disputar uma semifinal de Copa.
E, curiosamente, a semifinal foi um jogo difícil (pegamos a Suécia novamente, vencendo com um gol de cabeça de Romário), mas não tão emocionante quanto a partida contra Holanda. Mas claro que como o gol brasileiro saiu somente aos 35 do segundo tempo, passei boa parte do jogo tremendo de medo com a idéia da Suécia encaixar um gol e acabar com tudo, em apenas um lance, como a Argentina havia feito quatro anos antes.
Assim, o apito final da partida me deu uma sensação de alívio que, infelizmente, durou cerca de apenas cinco minutos. Os jogadores ainda estavam em campo quando eu comecei a ficar com medo do que viria pela frente.
O Brasil ia jogar uma final de Copa, algo com o qual eu havia sonhado desde menino. Mas, como se não bastasse, a Itália de Roberto Baggio havia despachado a Bulgária de Stoichkov na outra semifinal, e seria o nosso adversário na decisão.
Ou seja, não era uma “final de Copa”. Era uma “final de Copa contra eles”.
Assim, na mesma noite, eu fiz uma promessa a alguns amigos: “se o Brasil for campeão, eu vou dançar a tarantela em cima da passarela da Avenida 23 de Maio”.
Todos riram e festejaram a minha confiança. E eu também ri. Mas apenas por fora, pois, por dentro, eu havia me tornado naquele menino de seis anos que perdeu a Copa de 82, e estava morrendo de medo. Eu não queria chegar numa final apenas para descobrir como era perdê-la. E eu ainda carregava comigo o monstro daquela copa, e carreguei ele comigo até o juiz apitar o início de Brasil X Itália, naquele 17 de julho.
Curiosamente, eu me recordo pouco do jogo em si. Talvez meu cérebro tenha bloqueado boa parte da partida como mecanismo de defesa. Para piorar tudo, meu amigo – aquele, das “voltas no quarteirão” não estava em casa, pois teve que assistir ao jogo em outro lugar.
Eu, já nervoso, comecei a piorar com o fato da bola não entrar (Romário perdeu gols feitos) de jeito nenhum, e temendo – como sempre – que os italianos achassem um gol ali, a qualquer minuto, o que faria com que a Copa, que nunca esteve tão perto de mim, se distanciasse novamente para os malditos “daqui a quatro anos”.
E eu sabia que não teria maturidade para lidar com aquilo. Não numa situação daquelas. Eu vou ser sincero: eu estava emocionalmente esgotado de tanto perder.
Mas eu comecei a ficar assustado de verdade quando o jogo foi para prorrogação. Nunca uma final de Copa havia terminado 0 x 0, e ido para a prorrogação. Nunca. As pernas dos jogadores começaram a falhar, e qualquer erro – que a esta altura seria fatal – ficava mais fácil de acontecer.
Conforme a prorrogação avançava, sem gols, meu pai demonstrou também não ter maturidade para lidar com aquilo. Eu e minha mãe estávamos no chão da sala, ao pé da televisão, assistindo ao jogo de mãos dadas (e não sei em que momento fomos parar ali, já que começamos a partida no sofá). Mas, faltando cinco minutos para acabar o segundo tempo da prorrogação, meu pai se levantou, pegou a chave e foi em direção à porta.
– Eu não consigo mais assistir a esse jogo. Eu preciso ficar longe da TV.
Sinceramente, eu não sei se ele estava nervoso com a partida em si, ou pelo fato de ver sua família sofrendo tanto por algo e não poder fazer nada, a não ser sofrer junto.
Ou talvez ele estivesse com medo de estar na mesma sala que eu caso a Itália fizesse um gol. E não porque eu quebraria a casa inteira (acho que eu não teria forças para isso), mas sim porque ele não saberia o que fazer, ou ao menos como lidar com a tristeza que seu filho sentiria.
Hoje, eu sei que era um pouco dos três.
Assim, eu vi aquela disputa de pênaltis que aconteceu na tarde daquele 17 de julho e entrou para a história, apenas com minha mãe, de mãos dadas e ajoelhados no chão da sala. Eu e ela rezando, eu e ela chorando. Baresi chuta para fora. 0x0. A cada pênalti, eu fazia uma promessa; a cada pênalti, eu pedia a Deus para que tudo desse certo. Pagliuca defende o chute de Márcio Santos. 0x0. Eu venderia minha alma naquele momento, sem pensar duas vezes. Albertini marca. 0x1.
Romário marca. 1x1. E, a cada pênalti, eu pedia para aquele sofrimento acabar logo, porque eu não sabia mais quanto tempo agüentaria. Evani marca. 1x2. Minhas emoções iam de oito a oitenta em segundos, e voltavam para oito em segundos. Branco marca. 2x2. Eu sentia uma esperança cega e desmedida em cada cobrança da Itália. Taffarel defende o chute de Massaro. 2x2. E eu sentia um pavor devastador a cada cobrança do Brasil. Dunga marca e soca o ar repetidamente. Eu soco junto. 3x2. Até hoje meu estômago se embrulha sempre que vejo lances desta disputa.
Roberto Baggio chuta por cima do gol. Brasil 3 x 2 Itália.
Brasil 3 x 2 Itália. E esse placar nunca mais seria modificado.
Acabou.
E eu explodi. E eu explodi doze anos da minha vida. Eu explodi a derrota para a Itália, a derrota para a França, a derrota para Argentina.
Abracei minha mãe ali mesmo, chorando, e caímos de costas no chão da sala. Eu não lembro o que estava gritando, mas algo eu estava gritando quando saí correndo para a rua, deixando o Galvão Bueno e o Pelé comemorando na minha sala. Eu precisava sair de lá, a minha casa era pequena para mim. O mundo era pequeno para mim.
Porque, naquele momento, o mundo era meu.
Depois de décadas de lágrimas e frustrações, o mundo era meu.
E foi pulando na rua, sem saber direito como comemorar aquilo, como lidar com aquilo que eu sentia, em meio a fogos, carros buzinando, pessoas gritando nos prédios que, ao olhar para um dos lados, vi meu pai virando a esquina, já andando em minha direção de braços abertos. Instintivamente, corri em direção a ele, o mais rápido que eu pude sem pensar em nada. E me lembro claramente de ouvi-lo falar, conforme eu me aproximava:
– Calma! Cuidado para não cair!
Eu tinha dezoito anos, eu não era criança, eu não ia cair, porra. Assim, respondi apenas algo como “Cuidado nada! A Copa é nossa!”, antes de levantá-lo e abraçá-lo gritando coisas sem sentido algum.
Hoje, passados dezesseis anos deste dia, eu sei que ele estava certo. Eu poderia cair. Porque, naquele momento, eu não tinha dezoito anos, eu era novamente uma criança. E meu pai foi o único que enxergou isso. Meu pai entendeu que ali eu tinha seis anos de idade. Eu tinha os mesmos seis anos de doze anos antes, quando perdemos a Copa de 1982, e eu tinha os mesmos seis anos que meu pai tinha quando perdemos a Copa de 1950. Mas, desta vez, estas duas crianças estavam sorrindo, em mim.
E eu era a criança mais feliz do mundo.
E, finalmente, eu tinha os meus heróis. Teria lances, batalhas e gols, para encantar o meu filho da mesma forma que meu pai havia feito comigo na minha infância, podendo dizer a ele que “eu vi isso acontecer”.
Se eu dancei a tarantela na passarela da Avenida 23 de Maio? Dancei. Alguém tirou foto disso, e este retrato está perdido em algum lugar do planeta. Eu não preciso da foto, eu tenho as memórias de tudo isso.
Horas depois, exausto de felicidade, deitei para dormir e pensei em mim, no ano de 1982, chorando. E, de repente, percebi que algum menino italiano, de seis anos de idade, estaria indo dormir chorando naquela noite de 17 de julho de 1994, como eu havia chorado doze anos antes. E, antes de pegar no sono, murmurei algo como “um dia ela vai ser sua também, pode ter certeza”, querendo que esse italianinho, que deveria estar achando a vida injusta demais, cruel, me ouvisse e acreditasse em mim.
Naquele momento, aprendi que todas as derrotas que havia sofrido em todas as copas do mundo que vivi, haviam me ensinado a vencer.
E, assim, antes de finalmente dormir, eu sorri.
Porque aquela noite, eu era campeão do mundo.
E nada, nunca, iria tirar isso de mim.
(Próximo texto: França – 1998)
20 de maio de 2010
Carlos, Seu Criado
Qual o propósito de assinar os textos em um blog com pseudônimo, quando você começa a ser reconhecido na rua? Aparentemente, a máscara Rob Gordon caiu faz certo tempo, e apenas eu não tinha percebido isso.
Hoje, porém, fui obrigado a confrontar a realidade.
Sim, alguns leitores conheciam meu nome verdadeiro. Ou, ao menos, achavam que conheciam. E, assim, vivi tranquilamente até hoje, mantendo minha privacidade. E permaneci assim durante quatro anos, mas era evidente que um dia isso iria se quebrar.
Talvez tenha sido pela enorme movimentação aqui, nos últimos meses, com a duas Cartas Abertas; ou talvez alguém tenha feito um trabalho de investigação acurado, juntando peças como Besta-Fera, Pinheiros, jornalista e chegou a uma resposta óbvia.
Não sei, e sinceramente, não quero saber detalhes – afinal, fico assustado com o que mais possam ter descoberto. O que me importa é que me descobriram.
Como eu disse, fui reconhecido na rua.
Foi hoje de manhã, a caminho do trabalho. Estava atravessando a rua, a poucos metros do prédio onde trabalho, quando um senhor de idade, com bigode, jaqueta e boné se aproximou de mim, sorrindo. Antes que meu cérebro processasse o que estava acontecendo (meu cérebro é como um adolescente de sábado, não sai da cama antes da hora do almoço), ele disparou:
– Putz! Que bom que eu te encontrei!
– Oi?
– Só assim mesmo para achar você!
– Oi?
– Fui até lá duas vezes essa semana, mas você não estava.
– Lá?
– É, mas disseram que você tinha saído. E eu estava precisando muito falar com você!
– Comigo?
– Mas aí falei com seu irmão, e resolvi tudo com ele.
Olhei para o peito de velho e notei que ele estava respirando. Como ninguém passa por uma situação dessas (“falei com seu irmão e resolvi tudo com ele”) e permanece vivo, comecei a ter certeza de que algo estava errado. Mesmo assim, resolvi levar a conversa adiante.
– Resolveu tudo o que com ele?
– Meu carro. Quebrou de novo!
– Como assim?
– Então rapaz... Acho que é o carburador mesmo.
– Não, não. Não foi um “como assim, quebrou de novo?”, foi um “como assim, tudo isso?”
– Você não está se lembrando de mim?
– Na verdade, eu me lembro de nunca ter visto o senhor antes.
– Ih, rapaz...
O problema de um “Ih, rapaz...” numa conversa deste tipo, é que ele não abre margem à resposta. Ninguém sabe como responder um “Ih, rapaz...”. Um “Ih, rapaz...” é quase um xeque-mate na conversa – o outro jogador fica imobilizado e se torna praticamente refém daquele “Ih, rapaz...”.
Além disso, um “Ih, rapaz...” raramente anuncia coisas boas. Ninguém colocaria um “Ih, rapaz...” antes de expressões como “ganhei sozinho na loteria”, ou “a Jennifer Connelly quer sair comigo hoje” (tente misturar qualquer uma destas expressões com um “Ih, rapaz...” em voz alta, se você estiver sozinho aí; simplesmente não funciona).
Assim, fiquei estático, olhando o velho e esperando para ver aonde aquele “Ih, rapaz...” iria levar a conversa. E o velho, usando e abusando do poder daquele “Ih, rapaz...”, permaneceu em silêncio por alguns momentos. Provavelmente, testando meus nervos, o maldito.
Até que, finalmente, ele abriu o jogo.
– Você não é Carlos?
– Hã... Não.
– Sabe? O Carlos, da oficina ali da rua de trás?
– Não, não sei. Quer dizer, sei que não sou ele. Mas não sei quem ele é.
– Nossa, mas você é a cara dele. É igualzinho!
– Sou?
– Tanto que a hora que eu vi você caminhando na minha direção, na mesma hora me deu um estalo, já pensei “olha o Carlão” vindo ali.
Curioso. Eu não tenho tamanho para ser o Carlão. E, se o Carlão realmente se parece comigo, ele também não tem. Na verdade, eu mal conseguiria ser um Carlos; é evidente que eu seria um Carlinhos, e olhe lá. Ou seja, ou o poder de observação do velho era nulo, ou o Carlos tem amigos bem sarcásticos. Aliás, Carlos da Oficina, se você estiver lendo isso, um conselho: não deixe esse pessoal te chamar de Carlão, porque é bem provável que eles estejam de sacanagem com você.
Mas voltei minha atenção para o velho e coloquei as cartas na mesa.
– Então... Eu não sou o Carlão.
– Mas é igualzinho! Você tem certeza?
– Olhe, até o último momento em que pensei sobre isso, eu não era o Carlão. Tenho certeza.
– Que pena, porque eu precisava demais falar com você.
– Comigo, não. Com o Carlão.
– É, com o Carlão. Porque eu acho que é realmente o carburador.
– Sinto muito.
– Ah, aquele carro está velho, você sabe...
– Não, não sei. Sinto muito.
– Bom, vou passar lá, vou ver se encontro o Carlão.
– Hã... Ok. Boa sorte.
– Vem cá, você não é o Carlão mesmo, e está de sacanagem comigo, certo?
– Não, senhor.
– Bom... Tudo bem. Desculpe qualquer coisa, viu?
– Sem problemas.
Virou as costas e foi embora.
Abri minha carteira, puxei meu RG e li o meu nome com atenção. Tem um nome escrito ali, mas não é Carlos. Para não deixar dúvidas, olhei a foto no verso do documento e constatei que eu sou eu mesmo.
Agora, aposto que vou ser confundido com o Carlão da Oficina todos os dias.
E tenho certeza de que, como eu sou eu, ele deve estar devendo dinheiro para membros da máfia russa, além de ter engravidado a filha de um capitão da PM antes de desaparecer da vida da menina (sem dar maiores explicações).
E eu aqui, andando pelas ruas tranquilamente, com essa cara de Carlão que Deus me deu. E, com esse tamanho de Carlinhos, eu estou fudido, com certeza.
É apenas questão de tempo.
Update: Ok. A função de um blogueiro é atender ao seu leitor, seja em forma, seja em conteúdo. Então, vamos ver o que vocês querem. Se este post entrar na relação dos mais comentados do Champ (ou seja, ultrapassar os 66 comentários), eu posto uma foto minha aqui. E não é desenho, é foto mesmo (vou até produzir uma foto nova, para ninguém desconfiar que estou planejando colocar uma foto minha de quando eu era criança). Caso contrário, não tocamos mais no assunto. Fechado? Está na mão de vocês, então. Rob.
Update 2: Comentários vazios (tipo "comentei", "comentado"), não entram na contagem. Mais de um comentáro da mesma pessoa também não (exceções serão comentários relevantes).
Hoje, porém, fui obrigado a confrontar a realidade.
Sim, alguns leitores conheciam meu nome verdadeiro. Ou, ao menos, achavam que conheciam. E, assim, vivi tranquilamente até hoje, mantendo minha privacidade. E permaneci assim durante quatro anos, mas era evidente que um dia isso iria se quebrar.
Talvez tenha sido pela enorme movimentação aqui, nos últimos meses, com a duas Cartas Abertas; ou talvez alguém tenha feito um trabalho de investigação acurado, juntando peças como Besta-Fera, Pinheiros, jornalista e chegou a uma resposta óbvia.
Não sei, e sinceramente, não quero saber detalhes – afinal, fico assustado com o que mais possam ter descoberto. O que me importa é que me descobriram.
Como eu disse, fui reconhecido na rua.
Foi hoje de manhã, a caminho do trabalho. Estava atravessando a rua, a poucos metros do prédio onde trabalho, quando um senhor de idade, com bigode, jaqueta e boné se aproximou de mim, sorrindo. Antes que meu cérebro processasse o que estava acontecendo (meu cérebro é como um adolescente de sábado, não sai da cama antes da hora do almoço), ele disparou:
– Putz! Que bom que eu te encontrei!
– Oi?
– Só assim mesmo para achar você!
– Oi?
– Fui até lá duas vezes essa semana, mas você não estava.
– Lá?
– É, mas disseram que você tinha saído. E eu estava precisando muito falar com você!
– Comigo?
– Mas aí falei com seu irmão, e resolvi tudo com ele.
Olhei para o peito de velho e notei que ele estava respirando. Como ninguém passa por uma situação dessas (“falei com seu irmão e resolvi tudo com ele”) e permanece vivo, comecei a ter certeza de que algo estava errado. Mesmo assim, resolvi levar a conversa adiante.
– Resolveu tudo o que com ele?
– Meu carro. Quebrou de novo!
– Como assim?
– Então rapaz... Acho que é o carburador mesmo.
– Não, não. Não foi um “como assim, quebrou de novo?”, foi um “como assim, tudo isso?”
– Você não está se lembrando de mim?
– Na verdade, eu me lembro de nunca ter visto o senhor antes.
– Ih, rapaz...
O problema de um “Ih, rapaz...” numa conversa deste tipo, é que ele não abre margem à resposta. Ninguém sabe como responder um “Ih, rapaz...”. Um “Ih, rapaz...” é quase um xeque-mate na conversa – o outro jogador fica imobilizado e se torna praticamente refém daquele “Ih, rapaz...”.
Além disso, um “Ih, rapaz...” raramente anuncia coisas boas. Ninguém colocaria um “Ih, rapaz...” antes de expressões como “ganhei sozinho na loteria”, ou “a Jennifer Connelly quer sair comigo hoje” (tente misturar qualquer uma destas expressões com um “Ih, rapaz...” em voz alta, se você estiver sozinho aí; simplesmente não funciona).
Assim, fiquei estático, olhando o velho e esperando para ver aonde aquele “Ih, rapaz...” iria levar a conversa. E o velho, usando e abusando do poder daquele “Ih, rapaz...”, permaneceu em silêncio por alguns momentos. Provavelmente, testando meus nervos, o maldito.
Até que, finalmente, ele abriu o jogo.
– Você não é Carlos?
– Hã... Não.
– Sabe? O Carlos, da oficina ali da rua de trás?
– Não, não sei. Quer dizer, sei que não sou ele. Mas não sei quem ele é.
– Nossa, mas você é a cara dele. É igualzinho!
– Sou?
– Tanto que a hora que eu vi você caminhando na minha direção, na mesma hora me deu um estalo, já pensei “olha o Carlão” vindo ali.
Curioso. Eu não tenho tamanho para ser o Carlão. E, se o Carlão realmente se parece comigo, ele também não tem. Na verdade, eu mal conseguiria ser um Carlos; é evidente que eu seria um Carlinhos, e olhe lá. Ou seja, ou o poder de observação do velho era nulo, ou o Carlos tem amigos bem sarcásticos. Aliás, Carlos da Oficina, se você estiver lendo isso, um conselho: não deixe esse pessoal te chamar de Carlão, porque é bem provável que eles estejam de sacanagem com você.
Mas voltei minha atenção para o velho e coloquei as cartas na mesa.
– Então... Eu não sou o Carlão.
– Mas é igualzinho! Você tem certeza?
– Olhe, até o último momento em que pensei sobre isso, eu não era o Carlão. Tenho certeza.
– Que pena, porque eu precisava demais falar com você.
– Comigo, não. Com o Carlão.
– É, com o Carlão. Porque eu acho que é realmente o carburador.
– Sinto muito.
– Ah, aquele carro está velho, você sabe...
– Não, não sei. Sinto muito.
– Bom, vou passar lá, vou ver se encontro o Carlão.
– Hã... Ok. Boa sorte.
– Vem cá, você não é o Carlão mesmo, e está de sacanagem comigo, certo?
– Não, senhor.
– Bom... Tudo bem. Desculpe qualquer coisa, viu?
– Sem problemas.
Virou as costas e foi embora.
Abri minha carteira, puxei meu RG e li o meu nome com atenção. Tem um nome escrito ali, mas não é Carlos. Para não deixar dúvidas, olhei a foto no verso do documento e constatei que eu sou eu mesmo.
Agora, aposto que vou ser confundido com o Carlão da Oficina todos os dias.
E tenho certeza de que, como eu sou eu, ele deve estar devendo dinheiro para membros da máfia russa, além de ter engravidado a filha de um capitão da PM antes de desaparecer da vida da menina (sem dar maiores explicações).
E eu aqui, andando pelas ruas tranquilamente, com essa cara de Carlão que Deus me deu. E, com esse tamanho de Carlinhos, eu estou fudido, com certeza.
É apenas questão de tempo.
Update: Ok. A função de um blogueiro é atender ao seu leitor, seja em forma, seja em conteúdo. Então, vamos ver o que vocês querem. Se este post entrar na relação dos mais comentados do Champ (ou seja, ultrapassar os 66 comentários), eu posto uma foto minha aqui. E não é desenho, é foto mesmo (vou até produzir uma foto nova, para ninguém desconfiar que estou planejando colocar uma foto minha de quando eu era criança). Caso contrário, não tocamos mais no assunto. Fechado? Está na mão de vocês, então. Rob.
Update 2: Comentários vazios (tipo "comentei", "comentado"), não entram na contagem. Mais de um comentáro da mesma pessoa também não (exceções serão comentários relevantes).
18 de maio de 2010
Carta Aberta ao Sr. André Forastieri
Caro André Forastieri:
Na posição de jornalista como o senhor, gostaria de abrir esta carta pedindo desculpas, em nome de todos os fãs de heavy metal, pelos comentários ofensivos que você recebeu em seu blog, por conta do texto Ronnie James Dio – O Deus Ridículo do Rock.
Infelizmente, alguns fãs – não apenas do metal, mas de todos os tipos – levam qualquer crítica aos seus ídolos para o lado pessoal e, na falta de argumentos melhores para retrucar, elaboram respostas que não acrescentam em nada à discussão, normalmente abordando temas como gosto musical e orientação sexual do autor.
Quanto ao seu texto em si... Bem, ele é puramente opinativo. E você tem o total direito de expor sua opinião, tanto quanto eu tenho o direito de discordar dela. Na verdade, eu discordo da maioria dos textos sobre música que você assinou desde a extinta revista Bizz, mas não havia pensado em responder algum deles. Até hoje.
E não decidi elaborar uma resposta hoje porque sou fã de Ronnie James Dio (sim, sou), mas porque achei que o oportunismo do seu texto beirou o ofensivo. Aliás, oportunismo é a palavra chave aqui.
Em determinado trecho, você cita que este “mundo de fantasia pseudocelta estilo Senhor dos Anéis/RPG/Harry Potter é coisa de pré-adolescente”. Sim, talvez você esteja correto. São canções sobre um mundo fantástico, com criaturas e artefatos irreais.
Mas o que me deixa curioso é que o senhor, atualmente, está à frente de uma editora cuja principal publicação é uma revista sobre videogames que tenta, a todo custo (e com um esforço louvável), mostrar aos não-iniciados no tema que “games não são coisa de criança”.
Analisando isso de forma simplificada, você coloca as músicas com esta temática como coisas de criança, ao mesmo tempo em que luta para mostrar ao mundo que Super Mario (com todos os seus cogumelinhos que conferem super-poderes, tartaruguinhas e roupinhas de abelha) como “coisa de adulto”? Desculpe, mas isso soa totalmente incoerente para mim.
Enfim, creio que cada um é adulto onde deseja.
Claro que você pode argumentar que a indústria dos games rende bilhões todos os anos, com títulos que não devem em nada – em termos de criatividade, relevância, orçamento e tecnologia – aos grandes filmes de Hollywood (algo que sua revista propaga de forma cada vez mais insistente), o que a torna um assunto de adultos.
E eu, mesmo sendo fã de games, vou rebater dizendo que a indústria do heavy metal, mesmo longe de seu período de maior apelo popular, ainda movimenta fortunas a cada ano, com lançamentos (em diversos formatos) e shows.
Além disso, ambos são, para mim, entretenimento. Se eu consigo aprender alguma coisa (e aprender alguma coisa inclui, também, “estimular minha criatividade”) jogando games ou ouvindo as músicas de Ronnie James Dio, creio que isso é mérito meu. Se você não consegue, talvez o problema esteja em você, e não necessariamente nas músicas, que “são coisas de pré-adolescente”.
Como eu disse, creio que cada um é adulto onde deseja. Ou melhor, onde consegue.
Na verdade, preciso me retratar: essa sua atitude não me soa incoerente, mas sim desrespeitosa. Posso estar errado, mas, lendo e relendo seu texto, não consigo deixar de sentir, como afirmei acima, um enorme oportunismo nele. Pois você não tem nada de pontual a dizer em seu texto, apenas que não gosta de Dio e de seu trabalho.
Enfim, é sua opinião. Ou melhor, é sua preferência musical. Agora, elaborar um texto sobre isso justamente um dia após a morte do artista em questão é de um mau gosto incrível. Como se não bastasse, você expõe sua opinião da forma mais ofensiva possível, usando o termo “ridículo” à exaustão – o que denota implicância pessoal ou falta de um vocabulário mais rico.
Este mau gosto só é ultrapassado pelo péssimo timing dele, o que explica o oportunismo a que eu me referi. Mas claro que timing é tudo para quem busca atenção. Dio acabou de morrer, quer hora melhor para polemizar e ganhar acessos e mais acessos no blog?
Assim, somando seus argumentos e a data da publicação, seu texto perde todo o caráter informativo ou opinativo, soando como um ataque gratuito aos fãs. E isso no pior momento possível, já que fãs – novamente, não apenas do metal, mas de todos os tipos – costumam sofrer com a morte de seus ídolos. Além de desrespeitar os fãs, você está desrespeitando uma pessoa que acabou de falecer de câncer.
O mau gosto disso é memorável.
E esse oportunismo lhe rendeu, hoje, o posto de “assunto da internet”. Até este momento, seu artigo possui 227 comentários, e seu nome está circulando pelo Twitter. Parabéns. É o seu dia de glória, mesmo que para isso você teve que contradizer, com esta atitude, tudo aquilo pelo qual luta, na sua vida profissional, a respeito dos games.
Assim, a próxima vez que alguém colocar que a indústria de games – aquela mesma indústria que põe boa parte da comida na sua mesa – é “coisa de criança”, lembre-se, antes de começar a argumentar contra isso, que ela pode, sim, ser coisa de criança para alguns; mas, para outros, ela jamais será.
Para algumas pessoas, ela pode ser uma grande paixão; os games podem ser algo que esteve em suas vidas inteiras, e que, simplificando, os tornam mais felizes. Ou seja, eles significam para essas pessoas exatamente a mesma coisa que as músicas de Ronnie James Dio significam para seus muitos fãs.
Então, se você exige, em seus longos editoriais, respeito sobre suas formas de entretenimento preferidas, favor começar a respeitar os hobbies e paixões dos outros. As pessoas que compram a revista que você edita são fãs de games; se você quer que eles sejam respeitados, dê o exemplo respeitando os fãs de coisas que você não gosta.
Porque, ao contrário do que você parece ter enormes dificuldades em compreender, “respeitar” e “gostar” não são sinônimos. Nem precisam ser.
Como eu disse, creio que cada um é adulto onde deseja. Ou melhor, onde consegue. Ou melhor ainda, onde lhe convém.
Para finalizar, dou o braço a torcer e assumo que sim, você merece a fama que conquistou hoje. Não devido ao seu texto sobre Ronnie James Dio e sim por ter criado a palavra “tronitruante”, que ainda não existia na língua portuguesa até ser usada em seu texto. Pessoalmente, fiquei na dúvida se você estava tentando escrever “tonitruante”, mas, na minha humilde posição de alguém que gosta de “coisa de pré-adolescente”, achei melhor não dar palpite algum.
Grandes abraços.
PS – Se o seu texto foi uma homenagem a Ronnie James Dio, a ambigüidade dele o tornou totalmente infeliz. Mas, caso esta tenha sido sua intenção, favor desconsiderar esta carta.
Na posição de jornalista como o senhor, gostaria de abrir esta carta pedindo desculpas, em nome de todos os fãs de heavy metal, pelos comentários ofensivos que você recebeu em seu blog, por conta do texto Ronnie James Dio – O Deus Ridículo do Rock.
Infelizmente, alguns fãs – não apenas do metal, mas de todos os tipos – levam qualquer crítica aos seus ídolos para o lado pessoal e, na falta de argumentos melhores para retrucar, elaboram respostas que não acrescentam em nada à discussão, normalmente abordando temas como gosto musical e orientação sexual do autor.
Quanto ao seu texto em si... Bem, ele é puramente opinativo. E você tem o total direito de expor sua opinião, tanto quanto eu tenho o direito de discordar dela. Na verdade, eu discordo da maioria dos textos sobre música que você assinou desde a extinta revista Bizz, mas não havia pensado em responder algum deles. Até hoje.
E não decidi elaborar uma resposta hoje porque sou fã de Ronnie James Dio (sim, sou), mas porque achei que o oportunismo do seu texto beirou o ofensivo. Aliás, oportunismo é a palavra chave aqui.
Em determinado trecho, você cita que este “mundo de fantasia pseudocelta estilo Senhor dos Anéis/RPG/Harry Potter é coisa de pré-adolescente”. Sim, talvez você esteja correto. São canções sobre um mundo fantástico, com criaturas e artefatos irreais.
Mas o que me deixa curioso é que o senhor, atualmente, está à frente de uma editora cuja principal publicação é uma revista sobre videogames que tenta, a todo custo (e com um esforço louvável), mostrar aos não-iniciados no tema que “games não são coisa de criança”.
Analisando isso de forma simplificada, você coloca as músicas com esta temática como coisas de criança, ao mesmo tempo em que luta para mostrar ao mundo que Super Mario (com todos os seus cogumelinhos que conferem super-poderes, tartaruguinhas e roupinhas de abelha) como “coisa de adulto”? Desculpe, mas isso soa totalmente incoerente para mim.
Enfim, creio que cada um é adulto onde deseja.
Claro que você pode argumentar que a indústria dos games rende bilhões todos os anos, com títulos que não devem em nada – em termos de criatividade, relevância, orçamento e tecnologia – aos grandes filmes de Hollywood (algo que sua revista propaga de forma cada vez mais insistente), o que a torna um assunto de adultos.
E eu, mesmo sendo fã de games, vou rebater dizendo que a indústria do heavy metal, mesmo longe de seu período de maior apelo popular, ainda movimenta fortunas a cada ano, com lançamentos (em diversos formatos) e shows.
Além disso, ambos são, para mim, entretenimento. Se eu consigo aprender alguma coisa (e aprender alguma coisa inclui, também, “estimular minha criatividade”) jogando games ou ouvindo as músicas de Ronnie James Dio, creio que isso é mérito meu. Se você não consegue, talvez o problema esteja em você, e não necessariamente nas músicas, que “são coisas de pré-adolescente”.
Como eu disse, creio que cada um é adulto onde deseja. Ou melhor, onde consegue.
Na verdade, preciso me retratar: essa sua atitude não me soa incoerente, mas sim desrespeitosa. Posso estar errado, mas, lendo e relendo seu texto, não consigo deixar de sentir, como afirmei acima, um enorme oportunismo nele. Pois você não tem nada de pontual a dizer em seu texto, apenas que não gosta de Dio e de seu trabalho.
Enfim, é sua opinião. Ou melhor, é sua preferência musical. Agora, elaborar um texto sobre isso justamente um dia após a morte do artista em questão é de um mau gosto incrível. Como se não bastasse, você expõe sua opinião da forma mais ofensiva possível, usando o termo “ridículo” à exaustão – o que denota implicância pessoal ou falta de um vocabulário mais rico.
Este mau gosto só é ultrapassado pelo péssimo timing dele, o que explica o oportunismo a que eu me referi. Mas claro que timing é tudo para quem busca atenção. Dio acabou de morrer, quer hora melhor para polemizar e ganhar acessos e mais acessos no blog?
Assim, somando seus argumentos e a data da publicação, seu texto perde todo o caráter informativo ou opinativo, soando como um ataque gratuito aos fãs. E isso no pior momento possível, já que fãs – novamente, não apenas do metal, mas de todos os tipos – costumam sofrer com a morte de seus ídolos. Além de desrespeitar os fãs, você está desrespeitando uma pessoa que acabou de falecer de câncer.
O mau gosto disso é memorável.
E esse oportunismo lhe rendeu, hoje, o posto de “assunto da internet”. Até este momento, seu artigo possui 227 comentários, e seu nome está circulando pelo Twitter. Parabéns. É o seu dia de glória, mesmo que para isso você teve que contradizer, com esta atitude, tudo aquilo pelo qual luta, na sua vida profissional, a respeito dos games.
Assim, a próxima vez que alguém colocar que a indústria de games – aquela mesma indústria que põe boa parte da comida na sua mesa – é “coisa de criança”, lembre-se, antes de começar a argumentar contra isso, que ela pode, sim, ser coisa de criança para alguns; mas, para outros, ela jamais será.
Para algumas pessoas, ela pode ser uma grande paixão; os games podem ser algo que esteve em suas vidas inteiras, e que, simplificando, os tornam mais felizes. Ou seja, eles significam para essas pessoas exatamente a mesma coisa que as músicas de Ronnie James Dio significam para seus muitos fãs.
Então, se você exige, em seus longos editoriais, respeito sobre suas formas de entretenimento preferidas, favor começar a respeitar os hobbies e paixões dos outros. As pessoas que compram a revista que você edita são fãs de games; se você quer que eles sejam respeitados, dê o exemplo respeitando os fãs de coisas que você não gosta.
Porque, ao contrário do que você parece ter enormes dificuldades em compreender, “respeitar” e “gostar” não são sinônimos. Nem precisam ser.
Como eu disse, creio que cada um é adulto onde deseja. Ou melhor, onde consegue. Ou melhor ainda, onde lhe convém.
Para finalizar, dou o braço a torcer e assumo que sim, você merece a fama que conquistou hoje. Não devido ao seu texto sobre Ronnie James Dio e sim por ter criado a palavra “tronitruante”, que ainda não existia na língua portuguesa até ser usada em seu texto. Pessoalmente, fiquei na dúvida se você estava tentando escrever “tonitruante”, mas, na minha humilde posição de alguém que gosta de “coisa de pré-adolescente”, achei melhor não dar palpite algum.
Grandes abraços.
PS – Se o seu texto foi uma homenagem a Ronnie James Dio, a ambigüidade dele o tornou totalmente infeliz. Mas, caso esta tenha sido sua intenção, favor desconsiderar esta carta.
16 de maio de 2010
Adeus, Ronnie James Dio
Caro Ronnie James Dio:
Um dos meus pecados dentro da minha paixão por heavy metal, que nasceu quando eu tinha por volta de 15 anos, foi ter conhecido algumas bandas e artistas tarde demais. Eu sempre tive esse problema – tenho uma fidelidade quase canina às coisas que gosto, o que cria uma enorme barreira para eu conhecer coisas novas. Assim, não posso negar que só conheci o trabalho de alguns artistas que hoje estão entre meus prediletos depois dos vinte anos; alguns, quase com trinta.
E você foi um deles.
Entretanto, não vejo isso como um erro ou falha da minha parte, mas sim como sorte. Porque hoje eu sei que, com 14 ou 15 anos, eu não tinha maturidade para apreciar seu trabalho da forma que ele merecia. Enquanto eu era cru demais, suas canções eram refinadas demais.
Sim, o termo é esse: refinado. Não há outra maneira de descrevê-lo. Suas canções, apesar de pesadas e agressivas, mostram uma elegância que poucos artistas do gênero conseguem transmitir. Eu, com 15 anos, teria dito apenas “porra, que voz” e mais nada. Ou seja, teria ficado no óbvio. Mas, com 30 e poucos anos, ouço suas músicas (e, se vale como desculpa, há um punhado delas que eu ouço com bastante freqüência) e não consigo deixar de me encantar com a riqueza de tudo que você criou.
Cada vez que ouço um de seus discos, descubro algo novo. Cada vez que ouço, gosto mais. E cada vez que ouço, me orgulho ainda mais de ter a honra de ser seu fã.
Agora, aposto que ser chamado de refinado nunca foi surpresa para você. Sim, porque se você nasceu em Nova York, sabiamente escolheu fugir do glam que dominava os Estados Unidos e resolveu cruzar o Atlântico, sabendo que o heavy metal de verdade era feito ali, naquela ilha. E foi lá que você escreveu seu nome ao lado de outras lendas da música, como Richie Blackmore e Tony Iommi. Foi a partir de lá que sua voz – espantosamente potente para uma figura tão diminuta – ressoou para ser ouvida pelo mundo inteiro.
E quando sua voz entrou na minha casa e, consequentemente, na minha vida eu, como fã de música, como fã de rock, percebi que havia descoberto um tesouro.
Mas a minha admiração por você cresceu, de verdade, quando eu comecei a assistir algumas entrevistas suas, em documentários. Antes disso, você era um excelente cantor, mas suas declarações me mostravam que, antes de tudo, você era uma pessoa, jamais assumindo o papel de astro. E isso se mostra em toda sua carreira. Você sempre respeito os colegas de trabalho – mesmo aqueles com quem você teve rusgas – e, principalmente, os fãs. E, em cada frase sua, em cada atitude sua, via-se que não se tratava apenas de profissionalismo, mas sim de amor pelo que fazia.
Tratava-se amor pela música.
E por isso que você foi (e sempre será) tão respeitado no meio. Se o mundo cometeu uma injustiça, foi o de manter seu nome preso entre o círculo de fãs de heavy metal. Diferente de um Metallica ou um Iron Maiden, seu nome não é conhecido pelo público em geral. Assim, pouca gente sabe, por exemplo, que você organizou o Hear N’Aid (uma versão heavy metal da ação We Are the World), que também visava combater a fome na África.
Por outro lado, seu nome, dentro do mundo do heavy metal, é, desculpe o trocadilho, sagrado. E sempre será. Pois, em todos estes anos, eu nunca vi um alguém (seja fã ou músico) falando mal de você. E isso não se deve a somente o seu trabalho, mas principalmente a à forma com que você desempenhava esse trabalho.
Você, literalmente, deu sua vida em nome de um estilo musical, defendendo-o não apenas com unhas e dentes, mas especialmente, com inteligência, educação e classe. E bom humor, pois não posso evitar rir sempre que me lembro da sua entrevista explicando que aprendeu a fazer os famosos “chifrinhos” com os dedos (algo que eu faço instintivamente em qualquer show de metal) com sua avó italiana, que fazia o mesmo sinal para se defender de mau olhado.
Alguns juram que foi você quem criou esse símbolo do heavy metal; outros dizem que não. Você mesmo já deve ter visto a ilustração do John Lennon fazendo isso na capa do Yellow Submarine. Faz diferença? Nenhuma. Seu nome não está na história do heavy metal por causa de um gesto, mas de vários, que você apresentava a cada disco, a cada música, a cada show.
Eu e você nos encontramos apenas uma vez e brevemente, em 15 de julho de 2006. Lembro-me como se fosse hoje. Você entrou no palco, sem grandes micagens, sem efeitos especiais e começou a executar clássicos atrás de clássicos.
Mas o que mais me chamou a atenção era a sinceridade com quem você agradecia a platéia entre uma música e outra, como um gentleman. Você nunca escondeu o amor pelo palco, nem pelas suas músicas. E você nunca escondeu o amor que sentia por nós, que estávamos ali aplaudindo, cantando e esquecendo os nossos problemas durante duas horas.
Afinal, mais que um cantor, você era um fã de heavy metal, exatamente como nós. Talvez o maior fã de heavy metal de todos os tempos. E todas as pessoas que acreditam que este estilo musical é acéfalo e agressivamente sem propósito deveriam ter a sorte de ter contato com você, ou com seu trabalho, durante apenas alguns minutos.
Por diversos motivos este show mudou minha vida. Nem todos eles estão ligados diretamente a você (o mais importante deles pertence somente a mim e a Sra. Gordon), mas, naquela noite, meu respeito e minha admiração por você se multiplicaram. Naquela noite, você deixou de ser alguém que eu via como um excelente cantor para se tornar um dos meus ídolos, pela integridade, honestidade e respeito que você mostrava a cada segundo.
E, se você nunca se colocou como um astro, mas sim como uma pessoa comum, nada mais dolorosamente justo que você tenha morrido como uma pessoa comum. Você não morreu de uma maneira exótica ou bizarra, mas sim de câncer, como pode acontecer a qualquer um de nós. Você se recusou a ser estrela até mesmo na última hora, perdendo esta última e amarga batalha que o afastou dos palcos com uma honra e uma coragem admiráveis.
E é justamente por se recusar a ser estrela em vida que sua estrela irá brilhar para sempre.
Eu não sei onde você está agora. Não sei se no céu (pelo bem que você fez ao público) ou no inferno (porque o pessoal do Paraíso não deve ir muito com a cara de alguém que fazia o sinal de Satã com os dedos a cada minuto). Mas, sinceramente, não faz diferença. Porque você era tão grande, mas tão grande, que acredito que você não caberia em apenas um deles.
Não, eu aposto que você está nos dois. Céu e Inferno. Mas tenho certeza de que você não está sozinho, pois, assim que você começar a cantar, sua voz será responsável por abrir um enorme Arco-Íris no Escuro.
E nós? Mesmo sentindo muito sua falta, continuaremos nos lembrando sempre de você e do seu trabalho. Afinal, como você mesmo disse: Vida Longa ao Rock’n’Roll.
Adeus. E muito, muito obrigado mesmo. Por tudo.
Sinceramente, Rob.
14 de maio de 2010
Você Desculpe Eu Falar Assim
Acabou de acontecer.
Voltando de um jantar com um diagramador, estava descendo a Rua dos Pinheiros, congelando. Congelando e gemendo – eu não suporto frio porque meus pés começam a doer, então, quando está muito frio, a cada passo que dou, solto um gemido. Quem não me conhece e me vê andando na rua, num dia frio, deve imaginar que meus pés são zona erógenas e que eu estou gemendo de prazer. Caso um dia você me veja na rua fazendo isso, saiba que é dor mesmo.
Enfim, estava descendo a Rua dos Pinheiros e pensando na vida quando ela, vindo em minha direção, se aproximou.
Loira, baixinha, magra de dar dó. E o rosto dela... Manja aquele tipo de mulher que você olha e não sabe se ela tem 30 ou 70 anos? Era ela. Se bem que, eu tivesse que apostar dinheiro, colocaria todas as minhas fichas no 70 anos.
Ela se aproximou e não deu nem boa noite.
– Moço, você está de carro?
Se não fosse o “moço”, eu poderia jurar que era um assalto. E, cá entre nós, era só o que faltava: eu conseguir ser assaltado por uma mulher que conquistou a proeza de ser menor que eu. Mas fiquei tranquilo: nenhum ladrão chama as pessoas de “moço”. Se o cara apontar uma arma para mim e gritar “moço, passe a carteira”, eu vou rir e mandá-lo ir brincar com as outras crianças.
Olhei para ela e respondi que não, que eu estava a pé.
Mas, aparentemente, ela vinha de uma terra distante, onde se fala algum outro idioma complicado. Pelo que entendi, a expressão “não, eu estou a pé”, traduzida para a língua dela, significa “não, mas estou muito interessado na sua história, pode me contar com detalhes, por favor?”.
E ela, claro, obedeceu.
– Porque o meu carro está no posto, ali em cima. E eu estou andando feito uma louca, a noite inteira, porque o meu cartão do banco não está passando. E não está passando porque o meu marido, aquele filho da puta, você desculpe eu falar assim, bloqueou o cartão. Estou andando para lá e para cá até encontrar um jeito de pegar meu carro.
– Sei.
– E o carro parou porque o alarme foi acionado, e tenho certeza que foi o meu marido, aquele filho da puta, você desculpe falar assim, quem mandou acionar. É uma falta de respeito muito grande da parte dele! Mas eu já fui até a delegacia, já fiz boletim de ocorrência e aquele desgraçado não vai mais conseguir chegar perto de mim. Nem de mim, nem do meu carro, nem do meu cartão! Se ele fizer isso, é cadeia!
– Hã... Ok.
Eu estava torcendo para que, “Hã... Ok”, fosse o equivalente, no idioma dela, a “eu não vou ser testemunha de ninguém, viu?". Mas, aparentemente, “Hã... Ok”, na língua-mãe dela, significa “Nossa, que interessante! Por favor, continue, continue”.
– Então agora eu estou procurando por alguém para me ajudar a tirar o carro dali. Porque eu não vou mais voltar para perto daquele filho da puta, você desculpe eu falar assim. Quero pegar meu filho e desaparecer da vida desse desgraçado. Ele nunca mais vai me ver!
Não respondi nada, mas apenas porque, se eu abrisse a boca, a frase “acho que ele iria adorar se você sumisse” que, estava balançando nas minhas cordas vocais (e enfiando os pés na minha garganta para ganhar impulso e conseguir pular para fora da minha boca) iria escapar.
E aí, eu que seria o filho da puta, você me desculpe falar assim.
– Será que você pode me ajudar? Quaisquer dois reais que você tiver aí iriam me ajudar muito. Depois eu dou um jeito de pagar para você, quando meu cartão do banco foir desbloqueado.
Abri a carteira rezando para encontrar pelo menos uma moeda de um real. Porque se eu conseguisse só uns trinta centavos, capaz de a mulher resolver me processar também. Felizmente, dei de cara com uma moedona e ainda peguei mais uma de 25 centavos, por segurança. Entreguei as duas.
– Olhe, é o que eu tenho.
– Já vai me ajudar muito. Eu estou andando a noite inteira atrás de ajuda, e você está me ajudando muito com isso. Eu vou pagar, viu? E você desculpe qualquer coisa.
– Não tem problema, não precisa pagar nada. Boa sorte.
Ela, já se afastando, levantou o tom de voz para agradecer.
– Obrigada! Porque eu vou precisar mesmo! Mas quem vai precisar mais ainda é o meu marido, quando eu encontrar com ele, aquele filho da puta!
Meu impulso foi virar para ela e responder que “olha, você esqueceu o ‘desculpe falar assim’”, mas achei melhor deixar quieto. Sorri e saí andando.
Aparentemente, depois de quase ter saído no tapa com alguém dois dias atrás, a cidade de São Paulo fez as pazes comigo, e resolveu que colocar loucos divertidos no meu caminho é melhor para mim, e para vocês.
Só temo, claro, pela integridade física do marido da loira de idade indefinida.
Aliás, se nos próximos dias vocês assistirem no Youtube um vídeo que mostre uma mulher balançando um portão e gritando “Pedro! Seu filho da puta, você desculpe falar assim, dá o meu carro!”, saibam que não é viral de nenhuma concessionária não, é de verdade mesmo.
Voltando de um jantar com um diagramador, estava descendo a Rua dos Pinheiros, congelando. Congelando e gemendo – eu não suporto frio porque meus pés começam a doer, então, quando está muito frio, a cada passo que dou, solto um gemido. Quem não me conhece e me vê andando na rua, num dia frio, deve imaginar que meus pés são zona erógenas e que eu estou gemendo de prazer. Caso um dia você me veja na rua fazendo isso, saiba que é dor mesmo.
Enfim, estava descendo a Rua dos Pinheiros e pensando na vida quando ela, vindo em minha direção, se aproximou.
Loira, baixinha, magra de dar dó. E o rosto dela... Manja aquele tipo de mulher que você olha e não sabe se ela tem 30 ou 70 anos? Era ela. Se bem que, eu tivesse que apostar dinheiro, colocaria todas as minhas fichas no 70 anos.
Ela se aproximou e não deu nem boa noite.
– Moço, você está de carro?
Se não fosse o “moço”, eu poderia jurar que era um assalto. E, cá entre nós, era só o que faltava: eu conseguir ser assaltado por uma mulher que conquistou a proeza de ser menor que eu. Mas fiquei tranquilo: nenhum ladrão chama as pessoas de “moço”. Se o cara apontar uma arma para mim e gritar “moço, passe a carteira”, eu vou rir e mandá-lo ir brincar com as outras crianças.
Olhei para ela e respondi que não, que eu estava a pé.
Mas, aparentemente, ela vinha de uma terra distante, onde se fala algum outro idioma complicado. Pelo que entendi, a expressão “não, eu estou a pé”, traduzida para a língua dela, significa “não, mas estou muito interessado na sua história, pode me contar com detalhes, por favor?”.
E ela, claro, obedeceu.
– Porque o meu carro está no posto, ali em cima. E eu estou andando feito uma louca, a noite inteira, porque o meu cartão do banco não está passando. E não está passando porque o meu marido, aquele filho da puta, você desculpe eu falar assim, bloqueou o cartão. Estou andando para lá e para cá até encontrar um jeito de pegar meu carro.
– Sei.
– E o carro parou porque o alarme foi acionado, e tenho certeza que foi o meu marido, aquele filho da puta, você desculpe falar assim, quem mandou acionar. É uma falta de respeito muito grande da parte dele! Mas eu já fui até a delegacia, já fiz boletim de ocorrência e aquele desgraçado não vai mais conseguir chegar perto de mim. Nem de mim, nem do meu carro, nem do meu cartão! Se ele fizer isso, é cadeia!
– Hã... Ok.
Eu estava torcendo para que, “Hã... Ok”, fosse o equivalente, no idioma dela, a “eu não vou ser testemunha de ninguém, viu?". Mas, aparentemente, “Hã... Ok”, na língua-mãe dela, significa “Nossa, que interessante! Por favor, continue, continue”.
– Então agora eu estou procurando por alguém para me ajudar a tirar o carro dali. Porque eu não vou mais voltar para perto daquele filho da puta, você desculpe eu falar assim. Quero pegar meu filho e desaparecer da vida desse desgraçado. Ele nunca mais vai me ver!
Não respondi nada, mas apenas porque, se eu abrisse a boca, a frase “acho que ele iria adorar se você sumisse” que, estava balançando nas minhas cordas vocais (e enfiando os pés na minha garganta para ganhar impulso e conseguir pular para fora da minha boca) iria escapar.
E aí, eu que seria o filho da puta, você me desculpe falar assim.
– Será que você pode me ajudar? Quaisquer dois reais que você tiver aí iriam me ajudar muito. Depois eu dou um jeito de pagar para você, quando meu cartão do banco foir desbloqueado.
Abri a carteira rezando para encontrar pelo menos uma moeda de um real. Porque se eu conseguisse só uns trinta centavos, capaz de a mulher resolver me processar também. Felizmente, dei de cara com uma moedona e ainda peguei mais uma de 25 centavos, por segurança. Entreguei as duas.
– Olhe, é o que eu tenho.
– Já vai me ajudar muito. Eu estou andando a noite inteira atrás de ajuda, e você está me ajudando muito com isso. Eu vou pagar, viu? E você desculpe qualquer coisa.
– Não tem problema, não precisa pagar nada. Boa sorte.
Ela, já se afastando, levantou o tom de voz para agradecer.
– Obrigada! Porque eu vou precisar mesmo! Mas quem vai precisar mais ainda é o meu marido, quando eu encontrar com ele, aquele filho da puta!
Meu impulso foi virar para ela e responder que “olha, você esqueceu o ‘desculpe falar assim’”, mas achei melhor deixar quieto. Sorri e saí andando.
Aparentemente, depois de quase ter saído no tapa com alguém dois dias atrás, a cidade de São Paulo fez as pazes comigo, e resolveu que colocar loucos divertidos no meu caminho é melhor para mim, e para vocês.
Só temo, claro, pela integridade física do marido da loira de idade indefinida.
Aliás, se nos próximos dias vocês assistirem no Youtube um vídeo que mostre uma mulher balançando um portão e gritando “Pedro! Seu filho da puta, você desculpe falar assim, dá o meu carro!”, saibam que não é viral de nenhuma concessionária não, é de verdade mesmo.
12 de maio de 2010
O Abraço Partido
Aconteceu agora de manhã, enquanto eu descia a – adivinhem? – Teodoro para vir trabalhar.
Havia acabado de passar pelo Pão de Açúcar e estava ocupado tentando me lembrar da letra de uma música do Nat King Cole, que ouvi ontem à noite, quando algo à minha frente chamou minha atenção. Uma mulher estava discutindo com um cara, tentando desviar o caminho dele, e ele mudando de lugar para impedir a passagem dela.
Achei, na hora, que eles se conhecessem e estavam brincando, e continuei andando em direção a eles. Logo a mulher conseguiu passar (“conseguiu” é o termo exato, já que ela teve que ir para a rua para escapar dele) e eu me aproximei do sujeito, que permanecia em meu caminho.
Foi aí que a coisa ficou feia.
Assim que eu cheguei perto, ele esticou o braço e me segurou com força pelo ombro, impedindo minha passagem e falando, com voz de quem já (ou ainda) estava totalmente embriagado:
– Quero falar com você.
Eu estou acostumado a enfrentar todos os tipos de loucos na rua, mas eu não estou acostumado a ser agarrado na rua por alguém que eu não conheço. Mesmo porque acho que existe um limite, e o fato de você estar bêbado não muda isso. A regra é: não encoste em mim se não quiser perder os dedos, e não encoste em alguém da minha família (sendo que família inclui namorada e amigos) se não quiser perder a vida.
Na verdade, eu me senti invadido. Eu suporto qualquer tipo de conversa – por mais demente que ela seja – das pessoas que estão na rua, mas contato físico não. Eu tolero tapinhas no ombro como agradecimento por dar um cigarro a alguém. Não gosto, mas tolero. Agora, ser segurado por alguém é algo que eu não apenas não suporto, como gosto de não suportar.
Mais que corajosa, minha reação foi instintiva. Nem mesmo larguei o cigarro que segurava na mão esquerda. Com a mão direita, rapidamente segurei seu pulso, tirando a mão dele do meu ombro e torcendo o seu braço, fazendo com que ele tivesse que virar o corpo levemente para o lado, para suportar a dor. As pessoas na rua começaram a olhar.
Sem soltá-lo, eu disse – talvez com um tom de voz mais alto que o normal:
– Nunca mais encoste em mim.
Ele não olhou para mim quando respondeu:
– Eu quero só conversar com você.
Segurei ainda por mais uns dois segundos antes de perceber que ele havia controlado a sua necessidade de contato físico e soltei seu braço. Com voz de “não tenho amigos e gosto de ser só”, respondi:
– O que você quer?
Ele se endireitou e olhou para o meu peito, fixamente. Isso me chamou a atenção. Ele não olhava para meus olhos, mas para o meu peito. Ele não estava totalmente embriagado. Ele deveria estar totalmente embriagado lá pelas quatro da manhã, mas não havia parado de beber desde então.
– Você acha que o Dunga convocou o pessoal certo para a seleção?
Fiquei sem reação. A pergunta foi mais estúpida que qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado.
Mas é impressionante a velocidade com que a mente humana funciona, – ao menos no lado sóbrio da história. Comecei, imediatamente, a pensar no post que aquilo poderia render. Não é sempre que você tem uma oportunidade dessas.
Na pior das hipóteses, renderia um diálogo inusitado. Na melhor, eu rolaria de pau com o cara no meio da Teodoro e ganharia uma saga: a primeira parte brigando na calçada, e a segunda parte já na delegacia, tentando explicar aos policiais que eu estava apenas tentando lembrar a letra de uma canção de Nat King Cole e indo para o trabalho.
Foi aí que eu imaginei que isso poderia render ainda uma terceira parte, na cadeia. E, dentro de uma prisão, com meu 1.60, eu seria tocado, não somente no ombro, mas de todas as formas possíveis, gostando ou não daquilo. E se lá dentro eu torcesse o braço de alguém em protesto, o resto da cadeia torceria meu pescoço. Quer dizer, com sorte, só o pescoço.
Ou seja, era melhor deixar de lado. Dezenas de coisas para fazer na redação, contas para pagar, uma vida para levar e a letra da música para tentar lembrar. Eu não precisava de mais um problema, especialmente um deste tamanho, não importando o post que isso poderia render.
Assim, olhei para o bêbado e soltei:
– Estou indo embora. Me esqueça.
E o deixei ali, certo de que um texto excelente estava ficando para trás. Onde será que aquela conversa iria parar? O que eu ficaria sabendo da vida desse sujeito? Com quem ele havia bebido? Ou havia bebido sozinho a noite toda? E a família dele? E seu trabalho? Porque ele não era um mendigo, estava bem vestido demais para isso.
Mas, ao mesmo tempo, me afastei pensando em como São Paulo é uma cidade cruel, a ponto de colocar na rua, no meio da manhã de uma quarta-feira, uma pessoa totalmente bêbada que procura apenas alguém para conversar, seja sobre a seleção do Dunga, seja sobre mulheres, sobre dinheiro, ou, o que é mais provável, sobre a vida em geral. São Paulo é uma selva. E, como toda selva, tem quem devore. Mas a maioria é devorada e deixada aos pedaços, sendo obrigada a fugir para algum lugar – neste caso, para dentro de uma garrafa.
Existem milhares dessas pessoas aí fora, basta caminhar alguns minutos nas ruas para encontrar algumas. São as pessoas que não deram certo, aquelas cuja vida bateu na trave constantemente. São os mal amados, os esquecidos, os engolidos pela cidade. Às vezes escancaram essa condição vestindo trapos e dormindo nas ruas, mas, em outras, são pessoas aparentemente normais, com roupas normais. A única diferença entre eles e as outras pessoas é sutil demais: é o vazio e a desesperança que todos eles têm no olhar.
Foi a primeira vez em muitos anos que eu conscientemente pulei fora de uma história que poderia render um texto ótimo. Fiz isso por diversos motivos: eu realmente estava com pressa, e começar o dia com uma descarga de adrenalina decorrente de você ter torcido o braço de uma pessoa não é uma experiência comum (ao menos para mim, que ganho a vida como jornalista e não como lutador de vale-tudo).
Mas não consigo parar de pensar no sujeito, tentando imaginar onde ele está agora. Realmente, ele teria rendido um excelente post, provavelmente bem mais divertido do que esse. Por outro lado, aprendi que as pessoas que encontro na rua – ou, ao menos, algumas delas – não precisam virar posts para se tornarem inesquecíveis, porque eu já tenho certeza de que vai demorar muito para eu me esquecer desse sujeito.
E eu ainda não consegui me lembrar da letra da música. E nem estou com muito vontade de procurar. Ela é do Nat King Cole, logo, é sobre amor, e parece que isso perdeu um pouco o propósito agora.
Amanhã eu olho no Google. Porque, diferente do que acontece numa cidade como São Paulo, lá a gente encontra tudo o que precisa.
Havia acabado de passar pelo Pão de Açúcar e estava ocupado tentando me lembrar da letra de uma música do Nat King Cole, que ouvi ontem à noite, quando algo à minha frente chamou minha atenção. Uma mulher estava discutindo com um cara, tentando desviar o caminho dele, e ele mudando de lugar para impedir a passagem dela.
Achei, na hora, que eles se conhecessem e estavam brincando, e continuei andando em direção a eles. Logo a mulher conseguiu passar (“conseguiu” é o termo exato, já que ela teve que ir para a rua para escapar dele) e eu me aproximei do sujeito, que permanecia em meu caminho.
Foi aí que a coisa ficou feia.
Assim que eu cheguei perto, ele esticou o braço e me segurou com força pelo ombro, impedindo minha passagem e falando, com voz de quem já (ou ainda) estava totalmente embriagado:
– Quero falar com você.
Eu estou acostumado a enfrentar todos os tipos de loucos na rua, mas eu não estou acostumado a ser agarrado na rua por alguém que eu não conheço. Mesmo porque acho que existe um limite, e o fato de você estar bêbado não muda isso. A regra é: não encoste em mim se não quiser perder os dedos, e não encoste em alguém da minha família (sendo que família inclui namorada e amigos) se não quiser perder a vida.
Na verdade, eu me senti invadido. Eu suporto qualquer tipo de conversa – por mais demente que ela seja – das pessoas que estão na rua, mas contato físico não. Eu tolero tapinhas no ombro como agradecimento por dar um cigarro a alguém. Não gosto, mas tolero. Agora, ser segurado por alguém é algo que eu não apenas não suporto, como gosto de não suportar.
Mais que corajosa, minha reação foi instintiva. Nem mesmo larguei o cigarro que segurava na mão esquerda. Com a mão direita, rapidamente segurei seu pulso, tirando a mão dele do meu ombro e torcendo o seu braço, fazendo com que ele tivesse que virar o corpo levemente para o lado, para suportar a dor. As pessoas na rua começaram a olhar.
Sem soltá-lo, eu disse – talvez com um tom de voz mais alto que o normal:
– Nunca mais encoste em mim.
Ele não olhou para mim quando respondeu:
– Eu quero só conversar com você.
Segurei ainda por mais uns dois segundos antes de perceber que ele havia controlado a sua necessidade de contato físico e soltei seu braço. Com voz de “não tenho amigos e gosto de ser só”, respondi:
– O que você quer?
Ele se endireitou e olhou para o meu peito, fixamente. Isso me chamou a atenção. Ele não olhava para meus olhos, mas para o meu peito. Ele não estava totalmente embriagado. Ele deveria estar totalmente embriagado lá pelas quatro da manhã, mas não havia parado de beber desde então.
– Você acha que o Dunga convocou o pessoal certo para a seleção?
Fiquei sem reação. A pergunta foi mais estúpida que qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado.
Mas é impressionante a velocidade com que a mente humana funciona, – ao menos no lado sóbrio da história. Comecei, imediatamente, a pensar no post que aquilo poderia render. Não é sempre que você tem uma oportunidade dessas.
Na pior das hipóteses, renderia um diálogo inusitado. Na melhor, eu rolaria de pau com o cara no meio da Teodoro e ganharia uma saga: a primeira parte brigando na calçada, e a segunda parte já na delegacia, tentando explicar aos policiais que eu estava apenas tentando lembrar a letra de uma canção de Nat King Cole e indo para o trabalho.
Foi aí que eu imaginei que isso poderia render ainda uma terceira parte, na cadeia. E, dentro de uma prisão, com meu 1.60, eu seria tocado, não somente no ombro, mas de todas as formas possíveis, gostando ou não daquilo. E se lá dentro eu torcesse o braço de alguém em protesto, o resto da cadeia torceria meu pescoço. Quer dizer, com sorte, só o pescoço.
Ou seja, era melhor deixar de lado. Dezenas de coisas para fazer na redação, contas para pagar, uma vida para levar e a letra da música para tentar lembrar. Eu não precisava de mais um problema, especialmente um deste tamanho, não importando o post que isso poderia render.
Assim, olhei para o bêbado e soltei:
– Estou indo embora. Me esqueça.
E o deixei ali, certo de que um texto excelente estava ficando para trás. Onde será que aquela conversa iria parar? O que eu ficaria sabendo da vida desse sujeito? Com quem ele havia bebido? Ou havia bebido sozinho a noite toda? E a família dele? E seu trabalho? Porque ele não era um mendigo, estava bem vestido demais para isso.
Mas, ao mesmo tempo, me afastei pensando em como São Paulo é uma cidade cruel, a ponto de colocar na rua, no meio da manhã de uma quarta-feira, uma pessoa totalmente bêbada que procura apenas alguém para conversar, seja sobre a seleção do Dunga, seja sobre mulheres, sobre dinheiro, ou, o que é mais provável, sobre a vida em geral. São Paulo é uma selva. E, como toda selva, tem quem devore. Mas a maioria é devorada e deixada aos pedaços, sendo obrigada a fugir para algum lugar – neste caso, para dentro de uma garrafa.
Existem milhares dessas pessoas aí fora, basta caminhar alguns minutos nas ruas para encontrar algumas. São as pessoas que não deram certo, aquelas cuja vida bateu na trave constantemente. São os mal amados, os esquecidos, os engolidos pela cidade. Às vezes escancaram essa condição vestindo trapos e dormindo nas ruas, mas, em outras, são pessoas aparentemente normais, com roupas normais. A única diferença entre eles e as outras pessoas é sutil demais: é o vazio e a desesperança que todos eles têm no olhar.
Foi a primeira vez em muitos anos que eu conscientemente pulei fora de uma história que poderia render um texto ótimo. Fiz isso por diversos motivos: eu realmente estava com pressa, e começar o dia com uma descarga de adrenalina decorrente de você ter torcido o braço de uma pessoa não é uma experiência comum (ao menos para mim, que ganho a vida como jornalista e não como lutador de vale-tudo).
Mas não consigo parar de pensar no sujeito, tentando imaginar onde ele está agora. Realmente, ele teria rendido um excelente post, provavelmente bem mais divertido do que esse. Por outro lado, aprendi que as pessoas que encontro na rua – ou, ao menos, algumas delas – não precisam virar posts para se tornarem inesquecíveis, porque eu já tenho certeza de que vai demorar muito para eu me esquecer desse sujeito.
E eu ainda não consegui me lembrar da letra da música. E nem estou com muito vontade de procurar. Ela é do Nat King Cole, logo, é sobre amor, e parece que isso perdeu um pouco o propósito agora.
Amanhã eu olho no Google. Porque, diferente do que acontece numa cidade como São Paulo, lá a gente encontra tudo o que precisa.
9 de maio de 2010
A Queda
Todo império cai um dia.
Está na história. Cada império tem sua história, sua época, seus heróis, mas o ciclo de vida que apresentam é o mesmo: origem, crescimento, auge, decadência e queda. Foi assim com os impérios romano, mongol, bizantino, britânico e tantos outros. A cada império que cai, outro surge em seu lugar, espalhando suas leis, seus costumes e deuses, e sua cultura pelo globo.
O que muda apenas é a época e a duração de cada império. Alguns duram décadas, outros sobrevivem por séculos. Mas todos caem. Engana-se, porém, quem acredita que um império cai da noite para o dia.
Algumas pessoas acharam que os ataques de 11 de setembro de 2001 significavam a queda do império norte-americano. Não poderiam estar mais equivocados. O ataque ao World Trace Center, como se sabe hoje, significou apenas um machucado na couraça norte-americana – e, por mais que o ferimento tenha sido profundo, passou longe de ser mortal. O império norte-americano ainda vive.
Pois o início do século 21 foi a época reservada à queda de outro império: o da minha síndica Brick Top, que governava com o prédio onde moro com mão de ferro. Não sei ao certo como aconteceu. As poucas informações que consegui reunir via circulares no elevador, afirmam que a próxima reunião de condomínio será marcada pela eleição de um novo síndico, já que o atual, eleito no início do mês, renunciou ao cargo.
Ou seja, já estamos indo para um segundo síndico nesta era pós-Brick Top. E não sei o destino dela: não sei se foi assassinada a tiros na garagem do prédio, se finalmente foi alcançada pelo braço da lei, ou se renunciou a tudo para passar os seus últimos dias em paz, eliminando pernilongos com aquela raquete de tênis elétrica que ela, da forma mais mórbida possível, carregava sob o braço para onde quer que fosse.
Assim, o mundo celebra em paz o final da tirania. Fiquei sabendo que dia destes tivemos um churrasco aqui no prédio. Eu não fui, pois ainda acho mais seguro permanecer longe disso: nada me tira da cabeça que a Brick Top está no apartamento imperial planejando seu retorno e anotando cuidadosamente o nome de todos os moradores que compareceram à festividade para uma eventual vingança.
Mas recebi um vídeo da celebração, que foi iniciada com um dos porteiros acendendo a churrasqueira, que, como fica claro no trecho inicial, continha um boneco da minha síndica. Apesar do vídeo não mostrar as pessoas comendo, acredito que o prato principal do cardápio tenham sido os porcos selvagens que moravam na sauna e se alimentavam de síndicos inadimplentes.
Mas o que me emocionou de verdade foi a união entre diferentes povos. Além dos moradores do meu prédio, é possível avistar diversas criaturas estranhas na celebração, mostrando que não apenas, nós, condôminos, tínhamos motivo para comemorar. Camelôs, garçons da padaria e caixas do pão de Açúcar se juntaram à festa que marca o início de uma nova era, repleta de paz, saúde, prosperidade e amor no bairro.
Sim, no bairro como um todo. Olhando o vídeo com atenção, é possível ver as comemorações em diversos locais de Pinheiros, como a Cardeal Arcoverde (00:50); Teodoro Sampaio (01:00), com suas ruas invariavelmente lotadas; Arthur de Azevedo (01:08); e Pedroso de Moraes (01:17) – neste trecho, atentem à estátua da Brick Top sendo derrubada em 1:23.
Assim, o mundo vem dormindo em paz estes dias. A tirania se foi. O ar se tornou mais respirável, as colheitas são fartas e a felicidade reina em Pinheiros.
Resta saber quanto tempo essa paz irá durar. Pois se há algo que eu aprendi é que o mal nunca se vai completamente.
Meu medo é que ele sempre volta. E, pior, acompanhado dos irmãos mais velhos.
Está na história. Cada império tem sua história, sua época, seus heróis, mas o ciclo de vida que apresentam é o mesmo: origem, crescimento, auge, decadência e queda. Foi assim com os impérios romano, mongol, bizantino, britânico e tantos outros. A cada império que cai, outro surge em seu lugar, espalhando suas leis, seus costumes e deuses, e sua cultura pelo globo.
O que muda apenas é a época e a duração de cada império. Alguns duram décadas, outros sobrevivem por séculos. Mas todos caem. Engana-se, porém, quem acredita que um império cai da noite para o dia.
Algumas pessoas acharam que os ataques de 11 de setembro de 2001 significavam a queda do império norte-americano. Não poderiam estar mais equivocados. O ataque ao World Trace Center, como se sabe hoje, significou apenas um machucado na couraça norte-americana – e, por mais que o ferimento tenha sido profundo, passou longe de ser mortal. O império norte-americano ainda vive.
Pois o início do século 21 foi a época reservada à queda de outro império: o da minha síndica Brick Top, que governava com o prédio onde moro com mão de ferro. Não sei ao certo como aconteceu. As poucas informações que consegui reunir via circulares no elevador, afirmam que a próxima reunião de condomínio será marcada pela eleição de um novo síndico, já que o atual, eleito no início do mês, renunciou ao cargo.
Ou seja, já estamos indo para um segundo síndico nesta era pós-Brick Top. E não sei o destino dela: não sei se foi assassinada a tiros na garagem do prédio, se finalmente foi alcançada pelo braço da lei, ou se renunciou a tudo para passar os seus últimos dias em paz, eliminando pernilongos com aquela raquete de tênis elétrica que ela, da forma mais mórbida possível, carregava sob o braço para onde quer que fosse.
Assim, o mundo celebra em paz o final da tirania. Fiquei sabendo que dia destes tivemos um churrasco aqui no prédio. Eu não fui, pois ainda acho mais seguro permanecer longe disso: nada me tira da cabeça que a Brick Top está no apartamento imperial planejando seu retorno e anotando cuidadosamente o nome de todos os moradores que compareceram à festividade para uma eventual vingança.
Mas recebi um vídeo da celebração, que foi iniciada com um dos porteiros acendendo a churrasqueira, que, como fica claro no trecho inicial, continha um boneco da minha síndica. Apesar do vídeo não mostrar as pessoas comendo, acredito que o prato principal do cardápio tenham sido os porcos selvagens que moravam na sauna e se alimentavam de síndicos inadimplentes.
Mas o que me emocionou de verdade foi a união entre diferentes povos. Além dos moradores do meu prédio, é possível avistar diversas criaturas estranhas na celebração, mostrando que não apenas, nós, condôminos, tínhamos motivo para comemorar. Camelôs, garçons da padaria e caixas do pão de Açúcar se juntaram à festa que marca o início de uma nova era, repleta de paz, saúde, prosperidade e amor no bairro.
Sim, no bairro como um todo. Olhando o vídeo com atenção, é possível ver as comemorações em diversos locais de Pinheiros, como a Cardeal Arcoverde (00:50); Teodoro Sampaio (01:00), com suas ruas invariavelmente lotadas; Arthur de Azevedo (01:08); e Pedroso de Moraes (01:17) – neste trecho, atentem à estátua da Brick Top sendo derrubada em 1:23.
Assim, o mundo vem dormindo em paz estes dias. A tirania se foi. O ar se tornou mais respirável, as colheitas são fartas e a felicidade reina em Pinheiros.
Resta saber quanto tempo essa paz irá durar. Pois se há algo que eu aprendi é que o mal nunca se vai completamente.
Meu medo é que ele sempre volta. E, pior, acompanhado dos irmãos mais velhos.
7 de maio de 2010
Uma Vida em Copas: Itália - 1990

Em 1990, eu estava com 14 anos. E, como todo garoto de 14 anos, eu tinha certeza de que já era adulto. Na verdade, isso foi apenas um desdobramento do que havia acontecido durante a Copa de 1986. Com 10 anos, eu tinha certeza de que não era mais criança; e com 14 anos, eu tinha certeza de que era adulto. Hoje, eu vejo claramente o quanto eu estava errado. Nas duas ocasiões.
Mas, ao menos com 14 anos eu tinha motivos para ao menos acreditar que era adulto. Na verdade, eu estava vivendo aquela horrorosa fase de transição típica desta idade, em que as pessoas não são nem crianças nem adultos, e sim um pouco dos dois – e, às vezes, são os dois ao mesmo tempo. Então, ainda me comportava como criança a respeito de muitos assuntos – se bem que isso eu faço até hoje – mas agia (ou, na maioria das vezes, tentava agir) como adulto.
E, claro, estava começando a descobrir alguns dos pecados que tornam a vida mais colorida, como a bebida e o cigarro, já que foi nesta época que comecei a dar meus primeiros goles e tragadas. E, como a maioria dos adolescentes, estava começando a procurar abrigo na música, seguindo o mandamento de que, quanto mais podre e incômodo o som, melhor. Assim, mergulhei de cabeça no heavy metal.
Sexo? Bem, eu tinha 14 anos. E, acreditem em mim, ter 14 anos em 1990 era bastante diferente do que ter 14 anos hoje. Por isso, com 14 anos, minha vida sexual era parecida com uma daquelas seleções da Ásia ou da Oceania, que conseguiam participar de no máximo umas duas Copas, sendo sempre eliminado na primeira fase. Mas vontade, claro, não faltava.
O que eu vejo hoje, olhando em retrospectiva, é que no mesmo ano em que as seleções disputavam a Copa do Mundo nos melhores gramados da Itália, minha vida seguia o caminho contrário e caminhava livremente na direção de uma várzea total, que culminaria em duas bombas na escola e porres homéricos.
Mas, a respeito de Copas do Mundo, meu comportamento permanecia inalterável. Eu depositava toda a minha vida naquele torneio. E, “por toda a minha vida”, falo tanto sobre o lado criança quanto a respeito do adulto. Em 1990, eu continuava apaixonado por futebol e já tinha conquistado algumas alegrias com ele, em especial meses após a Copa de 1986, quando o São Paulo foi campeão brasileiro em cima do Guarani, naquela que permanece como a final mais emocionante da história do campeonato.
Ao mesmo tempo, eu já havia tido meu quinhão de desapontamento com o futebol. Não com o jogo em si (pois isso ocorreu em 1982), mas sim com a entidade futebol. No início do segundo tempo da partida jogo contra o Chile, no Maracanã, durante as Eliminatórias, o goleiro Roberto Rojas aproveitou que uma mulher nas arquibancandas disparou um rojão em direção à grande área e simulou um corte no rosto.
O jogo foi paralisado, a farsa de Rojas foi descoberta. O goleiro foi banido do futebol e o Chile suspenso por duas Copas do Mundo. Agora, aquilo poderia ter muito bem tirado o Brasil da Copa, já que o jogo foi num estádio brasileiro. De repente, o Brasil poderia não ir mais a Copa do Mundo por causa de uma imbecil que resolveu fazer graça no estádio. Felizmente, a FIFA, sabendo que ter uma Copa do Mundo sem o Brasil seria péssimo negócio, ignorou isso e puniu apenas a seleção chilena.
Em minha opinião, a mulher deveria ter sido expulsa do país. Mas, meses depois, ela estampava a capa da Playboy brasileira, com uma foto acompanhada da chamada “A Fogueteira do Maracanã”. Acho que foi neste momento que comecei a me desencantar um pouco pelo futebol, e perceber que as pessoas que levavam a sério as Copas do Mundo – algo que me tirava o sono, a fome e que era totalmente determinante para a minha felicidade – eram uma minoria no país.
Ou talvez eu não tenha começado a me “desencantar” exatamente, mas sim a cair na real de aquele esporte pelo qual eu era apaixonado era, antes de tudo, um negócio como outro qualquer. Afinal, a mulher que havia colocado em risco a minha Copa do Mundo (e a de milhões de outros brasileiros) não apenas não foi expulsa do país, como ganhou uma fortuna pelo que fez.
E eu gostaria muito de poder dizer aqui que transformei esta mulher em minha inimiga mortal durante uns anos, organizando protestos e boicotes à revista. Mas isso seria mentira. Mesmo porque eu comprei a Playboy dela. Convenhamos, é difícil demais ser fiel a uma ideologia (ou mesmo manter uma linha de pensamento coerente) numa época em que seu corpo produz hormônios em escala industrial.
E esta minha contradição homem x menino chegou às vias de fato na Copa do Mundo. Afinal, eu ainda sofria como menino em todos os jogos, mas havia achado um jeito um pouco mais adulto (ao menos, pelo que eu entendia como adulto, à época) de lidar com isso: os palavrões, que me acompanham até hoje. Na Copa de 90, eu já havia aprendido na prática que Mark Twain estava certo quando afirmou que “em certas circunstâncias, um palavrão provoca um alívio inatingível até pela oração”, e assistir aos jogos do Brasil era uma experiência que deixaria a Dercy Gonçalves roxa de vergonha, tamanho o festival de impropérios que eu disparava em direção a TV.
E, apesar dos meus 14 anos, isso não era uma tentativa de chocar os mais velhos, era raiva. Porque, se você se lembra da Copa de 1990 – e em especial da seleção brasileira, sabe do que estou falando. A equipe montada por Sebastião Lazaroni talvez tenha a “honra” de ocupar o posto de pior seleção brasileira a participar de uma Copa do Mundo. O Brasil havia vencido a Copa América logo antes, mas isso não conseguia disfarçar suas deficiências, que jogava no estilo europeu, com um líbero à frente da zaga, o que deixava o jogo truncado e o talento da seleção abafado.
Em poucas palavras: o Brasil jogava feio.
Em pé: Taffarel, Ricardo Rocha, Mauro Galvão, Ricardo Gomes, Jorginho e BrancoAgrachados: Müller, Alemão, Careca, Dunga e Valdo.
O pior Brasil que vi entrar em campo numa Copa.
Na verdade, a Copa de 1990 foi marcada por diversos times retranqueiros, e até hoje é lembrada como uma das piores copas disputadas até hoje. Mas claro que meu lado menino, que explode em todas as Copas até hoje, não se importava com isso ou com padrões táticos. Eu queria ver o Brasil ganhar.
Curiosamente, os primeiros palavrões que soltei durante a Copa do Mundo foram de celebração. Na tarde de uma sexta-feira fria, voltei da escola e, sozinho em casa, me enrolei num cobertor para assistir à abertura da Copa e o primeiro jogo: Argentina X Camarões. Com 14 anos e muitas Copas América nas costas, a seleção argentina já ocupava o posto de minha inimiga mortal, dividindo esta honraria com a Itália.
Assim, vibrei feito um camaronês no gol da seleção africana, e vibrei feito um desalmado quando o lendário goleiro portenho Pumpido quebrou a perna na partida. Hoje eu sinto vergonha da minha atitude – ter comemorado o fato de alguém ter quebrado um osso – mas, na época, eu vibrei mais que um gol. A Argentina havia começado a copa perdendo um jogo e um goleiro. Não poderia ser melhor.
Quer dizer, poderia, se o Brasil resolvesse jogar bola. E talvez o time até tivesse certo potencial – o ataque era comandado por Careca e Müller, dupla que tantas alegrias havia me dado no São Paulo – mas tudo começou a ir por água abaixo quando o elenco começou a brigar internamente. Assim, os primeiros jogos da seleção foram catastróficos, a não ser no placar. Jogando feio e de forma defensiva, a equipe ganhou da Suécia por 2 x 1 e da Costa Rica e Escócia por 1 x 0.
Talvez isso tenha escancarado, aos meus olhos, o nível da Seleção. Apenas oito anos antes, havíamos derrotado a Escócia, nos gramados espanhóis, por 4 X 1. Agora, havia sido 1 x 0 e suado. Nascia a Era Dunga – o que considero uma das maiores injustiças do futebol, já que o volante (e hoje técnico da seleção) estava longe de ser culpado pelo esquema tático do Brasil.
Curiosamente, não me recordo de muitos detalhes a respeito dos jogos do Brasil, a não ser que assisti a todos na minha casa, ao lado dos meus pais e de uns amigos – que já haviam apontado meu pai e minha casa como espécies de amuletos futebolísticos, algo que duraria ainda por muitos anos. Mas me lembro de que cada gol do Brasil, pela primeira vez, não era comemorado com festa, mas sim com alívio. A seleção avançava aos trancos e barrancos.
E, como acontece em todas as Copas, alguns favoritos começaram a surgir. Enquanto a seleção de Camarões encantava o mundo jogando bonito numa copa em que todos jogavam feio, a imprensa começou a apontar dois possíveis candidatos ao título: a Itália, que, além de jogar em casa, sempre é a Itália; e a Argentina, que também jogando feio, se recuperou da derrota da estréia. Ou seja, a Copa do Mundo de 1990 começava a ganhar ares de problema pessoal na minha vida.
E isso se concretizou nas oitavas de final. Graças ao cruzamento das chaves, pegaríamos a Argentina. Eu, vendo o futebol que o Brasil estava jogando, comecei a me borrar, sentindo que uma tragédia se anunciava no horizonte. E as coisas não melhoraram quando descobri que não assistiríamos ao jogo em casa, mas sim numa casa de campo que tínhamos na época, em Vinhedo. Eu tentei argumentar com meus pais que eles estavam repetindo o mesmo erro da Copa de 1986, mas foi em vão: o jogo seria no final de semana, e eles queriam ir para lá.
Assim, no sábado pela manhã, eu, meus pais e o Théo partimos para Vinhedo. O Théo – creio que nunca falei deste no blog – era a minha grande paixão da época: um basset-hound preguiçoso, adoravelmente temperamental e teimoso, que estava na minha casa desde antes da Copa do México.
Nascido no dia em que Tancredo Neves foi eleito (o que fazia com que meu pai chamasse o cachorro de Nova República) o Théo foi o cachorro que definiu minha vida, ao menos como menino. Todo garoto precisa ter um cachorro que o defina, e o meu foi o Théo. Era o meu grande amigo – e sua morte, dois ou três anos depois, mexeu tanto comigo que até hoje, quando vejo um basset-hound na rua, sinto meu dia inteiro indo pelo ralo.
E, assim, eu e meus pais na sala de Vinhedo, nos preparamos para assistir a Brasil X Argentina, ignorando os gritos de um dos vizinhos, que estava dando uma festa em sua casa e já estava totalmente embriagado.
Eu esperava pelo pior, mas fui surpreendido. O Brasil fez uma apresentação digna de sua tradição, pressionando a Argentina o tempo inteiro. O gol era claramente uma questão de tempo, já que a Argentina não conseguia fazer nada em campo.
E isso foi providencial para que a catástrofe aumentasse de tamanho. Porque, até o apito inicial, eu tinha a certeza de que seríamos desclassificados e estava começando a me preparar para o pior. “Desta vez eu não vou chorar”, prometi. Mas o fato do Brasil começar a jogar bem fez com que, lentamente, eu começasse a mudar de opinião e, pior ainda, fez com que eu passasse a acreditar levemente que podia dar certo.
Assim, ao final do primeiro tempo, eu estava torcendo desesperadamente pelo time. A derrota não passava pela minha cabeça. Isso até o começo do segundo tempo, quando Alemão não fez falta em Maradona, que, livre, lançou Caniggia na boca da área. O atacante bateu na saída de Taffarel e a bola morreu no fundo do gol brasileiro. 1 x 0 Argentina. Uma hora antes, eu estava certo da desclassificação. Naquele momento, a desclassificação me abateu como um murro no estômago.
Não lembro se assisti ao resto do jogo quieto ou xingando o mundo inteiro. Mas a raiva em mim crescia de forma desenfreada, por termos jogado bem, e por estarmos perdendo logo da Argentina. Mas me lembro do meu pai comentando que “é uma pena, hoje o time jogou bem”, e entendi que na vida, às vezes você pode fazer tudo errado, mas, quando acerta, dá errado também. Às vezes o futebol não é justo.
Às vezes a vida não é justa.
Era minha terceira Copa do Mundo. Era a minha terceira derrota.
E, desta vez, havia sido a Copa mais curta da minha vida – nas anteriores, o Brasil havia caído nas quartas de final. Quando o juiz apitou, todo o ódio que eu sentia do mundo com 14 anos (mesmo sem entender direito aquele ódio ou os motivos dele) explodiu. Desta vez, eu não iria chorar, eu precisava descarregar em alguma coisa.
Corri pela sala e dei uma voadora com os dois pés numa parede próxima aos quartos, caindo de costas no chão. Eu queria desesperadamente me machucar para sentir outra dor que não fosse aquela, porque, ainda me lembrando de 1982 e de 1986, eu tinha certeza de que não tinha problema nenhum em sentir dor, eu tinha problemas com aquela dor específica.
Depois de chutar um ou dois móveis, me acalmei um pouco. Na verdade, meu ódio se voltou em direção ao vizinho, que mais bêbado que no início do jogo, ficou gritando coisas como “volta para casa, Brasil!” e dando risada.
Aquilo era pessoal comigo.
Ele podia muito bem achar que estava falando somente da seleção brasileira, mas ele estava rindo da dor que eu sentia naquele momento. E, se nas duas Copas anteriores, eu fiquei atônito olhando o Brasil ser eliminado, desta vez eu tinha em quem descontar. Assim, esperei a gritaria acabar, o que indicaria que o bêbado tinha ido dormir, e, armado com uma pá de lixo, recolhi toneladas de cocô do Théo do gramado, perto de onde ele ficava.
Fui até a cerca e atirei três ou quatro granadas de bosta na piscina do filho da puta.
– Pronto, eu não tenho Copa e você não tem piscina, resmunguei antes de voltar para casa.
O resto da Copa foi tão sem graça quanto o começo. Goycochea, goleiro reserva da Argentina, mostrou que era melhor ainda que Pumpido e, junto com Maradona, levou o time portenho à final, contra a Alemanha.
Jogadores alemães celebram a classificação para a final.A Copa ficaria em Berlim. Dos males, o menor.
A Itália havia caído na semifinal conta os argentinos – o que me fez dar graças a Deus – e, assim, torci desesperadamente para a Alemanha naquele 8 de julho, assistindo tudo apreensivo até o gol alemão, marcado de pênalti, próximo ao final do jogo, que selou o destino do jogo e encerrou uma das piores copas da história.
Assim, ao final da Copa do Mundo de 1990, o mundo tinha três tricampeões (Brasil, Itália e Alemanha) e um triperdedor: eu.
(Próximo texto: EUA - 1994)
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