14 de maio de 2010

Você Desculpe Eu Falar Assim

Acabou de acontecer.

Voltando de um jantar com um diagramador, estava descendo a Rua dos Pinheiros, congelando. Congelando e gemendo – eu não suporto frio porque meus pés começam a doer, então, quando está muito frio, a cada passo que dou, solto um gemido. Quem não me conhece e me vê andando na rua, num dia frio, deve imaginar que meus pés são zona erógenas e que eu estou gemendo de prazer. Caso um dia você me veja na rua fazendo isso, saiba que é dor mesmo.

Enfim, estava descendo a Rua dos Pinheiros e pensando na vida quando ela, vindo em minha direção, se aproximou.

Loira, baixinha, magra de dar dó. E o rosto dela... Manja aquele tipo de mulher que você olha e não sabe se ela tem 30 ou 70 anos? Era ela. Se bem que, eu tivesse que apostar dinheiro, colocaria todas as minhas fichas no 70 anos.

Ela se aproximou e não deu nem boa noite.

– Moço, você está de carro?

Se não fosse o “moço”, eu poderia jurar que era um assalto. E, cá entre nós, era só o que faltava: eu conseguir ser assaltado por uma mulher que conquistou a proeza de ser menor que eu. Mas fiquei tranquilo: nenhum ladrão chama as pessoas de “moço”. Se o cara apontar uma arma para mim e gritar “moço, passe a carteira”, eu vou rir e mandá-lo ir brincar com as outras crianças.

Olhei para ela e respondi que não, que eu estava a pé.

Mas, aparentemente, ela vinha de uma terra distante, onde se fala algum outro idioma complicado. Pelo que entendi, a expressão “não, eu estou a pé”, traduzida para a língua dela, significa “não, mas estou muito interessado na sua história, pode me contar com detalhes, por favor?”.

E ela, claro, obedeceu.

– Porque o meu carro está no posto, ali em cima. E eu estou andando feito uma louca, a noite inteira, porque o meu cartão do banco não está passando. E não está passando porque o meu marido, aquele filho da puta, você desculpe eu falar assim, bloqueou o cartão. Estou andando para lá e para cá até encontrar um jeito de pegar meu carro.

– Sei.

– E o carro parou porque o alarme foi acionado, e tenho certeza que foi o meu marido, aquele filho da puta, você desculpe falar assim, quem mandou acionar. É uma falta de respeito muito grande da parte dele! Mas eu já fui até a delegacia, já fiz boletim de ocorrência e aquele desgraçado não vai mais conseguir chegar perto de mim. Nem de mim, nem do meu carro, nem do meu cartão! Se ele fizer isso, é cadeia!

– Hã... Ok.

Eu estava torcendo para que, “Hã... Ok”, fosse o equivalente, no idioma dela, a “eu não vou ser testemunha de ninguém, viu?". Mas, aparentemente, “Hã... Ok”, na língua-mãe dela, significa “Nossa, que interessante! Por favor, continue, continue”.

– Então agora eu estou procurando por alguém para me ajudar a tirar o carro dali. Porque eu não vou mais voltar para perto daquele filho da puta, você desculpe eu falar assim. Quero pegar meu filho e desaparecer da vida desse desgraçado. Ele nunca mais vai me ver!

Não respondi nada, mas apenas porque, se eu abrisse a boca, a frase “acho que ele iria adorar se você sumisse” que, estava balançando nas minhas cordas vocais (e enfiando os pés na minha garganta para ganhar impulso e conseguir pular para fora da minha boca) iria escapar.

E aí, eu que seria o filho da puta, você me desculpe falar assim.

– Será que você pode me ajudar? Quaisquer dois reais que você tiver aí iriam me ajudar muito. Depois eu dou um jeito de pagar para você, quando meu cartão do banco foir desbloqueado.

Abri a carteira rezando para encontrar pelo menos uma moeda de um real. Porque se eu conseguisse só uns trinta centavos, capaz de a mulher resolver me processar também. Felizmente, dei de cara com uma moedona e ainda peguei mais uma de 25 centavos, por segurança. Entreguei as duas.

– Olhe, é o que eu tenho.

– Já vai me ajudar muito. Eu estou andando a noite inteira atrás de ajuda, e você está me ajudando muito com isso. Eu vou pagar, viu? E você desculpe qualquer coisa.

– Não tem problema, não precisa pagar nada. Boa sorte.

Ela, já se afastando, levantou o tom de voz para agradecer.

– Obrigada! Porque eu vou precisar mesmo! Mas quem vai precisar mais ainda é o meu marido, quando eu encontrar com ele, aquele filho da puta!

Meu impulso foi virar para ela e responder que “olha, você esqueceu o ‘desculpe falar assim’”, mas achei melhor deixar quieto. Sorri e saí andando.

Aparentemente, depois de quase ter saído no tapa com alguém dois dias atrás, a cidade de São Paulo fez as pazes comigo, e resolveu que colocar loucos divertidos no meu caminho é melhor para mim, e para vocês.

Só temo, claro, pela integridade física do marido da loira de idade indefinida.

Aliás, se nos próximos dias vocês assistirem no Youtube um vídeo que mostre uma mulher balançando um portão e gritando “Pedro! Seu filho da puta, você desculpe falar assim, dá o meu carro!”, saibam que não é viral de nenhuma concessionária não, é de verdade mesmo.

10 comentários:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Eu comentando antes do Tyler?? Santa velocidade batimá!

Com certeza nós preferimos esses doidos aos outros rob... Com certeza. E não seja um filho da Puta, vai que ela resolve aumentar a história colocando mais um filho da puta (desculpe falar assim), você, no meio?

Ana disse...

Poxa, fiquei com pena da pobre mulher insana e com aparência senil. Estava um puta frio infernal ontem a noite! Mas que filho da puta esse marido dela! Hã... Bem... Desculpe falar assim. :P
E Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos (mas que nome comprido hein? você pertence à família real brasileira?) porque você está concorrendo com o Tyler? Vai que você assusta o menino e ele para de comentar? E você chamou o Rob de filho da puta ou foi impressão minha? Assim, na lata? Porra Pedro!!
*Pedro, just kidding ok? =)

Natan disse...

Rob, pra mim você deu um graaaande vacilo. Esqueceu de passar o numero da sua conta pra ela transferir o pagamento pelo empréstimo quando desbloqueassem o cartão!

TeCris disse...

O que me agrada muito é o fato de saber que de médico e louco todo mundo tem um pouco...só que alguns perambulam à noite...rs...e outros registram em blogs suas loucuras diárias...rs..

Bruno Ribeiro disse...

Rob, me diz a verdade..Qual a roupa que vc usa pra atrair tanto essas "pessoas"?Quero saber pra nunca comprar! :D

Lua Durand disse...

"Rob, me diz a verdade..Qual a roupa que vc usa pra atrair tanto essas "pessoas"?"
hahahahahha
Rob, é incrivel, essas figuras loucas que te abordam no meio da rua.
São Paulo deve ser uma cidade muito carente, e seus cidadãos, em grande parte, solitarios.
Uma coisa e tanto a se pensar.
E não duvido nada, ver esse video no youtube, daqui a alguns dias, hehehhehe

p.s.: eu tive um professor de ciencia politica, que dizia que isso era um assalto sofisticado. uma boa historia, e alguns trocados em troca. ele nunca dava.

mas eu, enquanto eu, fico pensando, e se for mesmo verdade?
não sei...

Kel Sodre disse...

Top notícia boa da semana: troquei de trabalho pra uma coisa bem melhor.

Top 3 notícias ruins da semana: 1) eles nunca imendam feriado; 2) a jornada é de 44 horas semanais; 3) Todos os endereços .blogspot.com são bloqueados, o que me impede de ler o Champ no trabalho... Bom, a parte boa disso é que não vou mais precisar abafar as gargalhadas fingindo que são tosses, mas também não vou mais ter aquele respiro de coisa boa e divertida no meio do expediente.

Falando em Top, tô sentindo uma faaalllta de lista de Top 5...

Arthuriusm Maximus disse...

Cara, o negócio é convocar uma legião de dois mil pastores e seiscentos pais de santo para te dar um descarrego. (rs)

Bruno disse...

Olha, Rob, que se você morasse em Curitiba, seu blog não daria metade dos posts.

Aqui você anda na rua e ninguém (ninguém, nem mesmo se você se ajoelhar e implorar por ajuda ou informações), ninguém puxa papo com você.

Abraço

Hally disse...

Discordo de ti, Bruno. Moro em Curitiba e já fui abordada por cada doido... acho que é mal do signo mesmo.